A Reforma

Part 20

Chapter 203,693 wordsPublic domain

Estes Artigos, como se vê, não estavam em conformidade com a fé protestante. Alguns historiadores ecclesiasticos teem dito que elles foram muito judiciosamente collocados entre a doutrina dos reformadores mais pronunciadamente biblicos e as velhas superstições; mas teem sido mais bem descriptos como essencialmente «romanistas, com o papa atirado para a margem». Fuller diz que elles foram destinados para creancinhas «recentemente tiradas dos peitos de Roma.»

Emquanto estes acontecimentos iam tendo logar, Catharina de Aragão morreu, em 1536, e o rei desembaraçou-se de Anna Boleyn, mandando-a decapitar sob a accusação de infidelidade. Sua rilha, a princeza Isabel, foi, pelo parlamento, declarada illegitima, e a successão tornou-se de novo incerta.

O rei casou então com Jane Seymour, a cuja descendencia ficaram reservados os direitos á corôa.

=A peregrinação da graça.=—As execuções de Thomaz More e do Bispo Fisher haviam desgostado muitissimos subditos do rei que eram affeiçoados a Roma, e estes, animando-se com a declaração da illegitimidade de Isabel e com a incerteza quanto á successão, promoveram rebelliões em Yorkshire e Lincolnshire. Os rebeldes contavam com o auxilio da Hespanha, e tinham tambem muita confiança no effeito que havia de produzir a bulla, que acabava de ser publicada, em que o papa excommungava Henrique VIII.

Os seus projectos, porém, foram com facilidade mallogrados, e o nascimento de um filho de Jane Seymour, a quem o rei havia desposado depois da morte de Catharina de Aragão, deu ao rei a cubiçada successão legitima e fez cessar todos os sentimentos anarquicos entre o povo.

Infelizmente, a rainha falleceu ao dar á luz o filho.

Cromwell e Cranmer voltaram novamente com as suas idéas de uma união protestante. Cranmer, juntamente com uma commissão de prelados, redigiu, em 1537, o que se ficou chamando o _Livro do Bispo_, ou a _Instituição de um Christão_, e que continha uma exposição de theologia muito mais protestante do que os _Dez Artigos_.

No anno seguinte Cranmer, que havia estado em correspondencia com os theologos de Wittenberg, organizou um outro credo chamado os _Treze Artigos_, e que era largamente baseado na Confissão de Augsburgo.

O rei recusou sanccionar estes Artigos, e foi-se gradualmente afastando do plano de uma alliança protestante. Cromwell caiu no desagrado de seu amo em virtude da persistencia com que advogava esse plano, chegando a apresentar um projecto de casamento de Henrique com Anna de Cleves, com o fim de cimentar a alliança. Morreu no cadafalso, como havia succedido a More e a Fisher, e o rei foi-se tornando cada vez mais reaccionario.

=O Estatuto Sanguinario, ou os Seis artigos.=—O primeiro indicio d’esse facto foi a publicação do _Livro do Rei_, ou a _Necessaria Doutrina e Erudição para todos os Christãos_. Em 1539, Henrique resolveu voltar á politica do primeiro periodo do seu reinado, e poz-se em communicação com Carlos V. A mudança na politica exterior do rei teve repercussão nos negocios internos. Foram promulgados os _Seis Artigos_, «para abolir a diversidade de opiniões», e foi revogoda a permissão de ler a Biblia traduzida por Tindal.

Estes Artigos exigiam de todos os inglezes, sob pena de confiscação dos bens, e de morte, que cressem na transubstanciação, que negassem a necessidade dos leigos participarem do calix na communhão e que admittissem o celibato do clero, a obrigação dos votos de castidade e a necessidade das missas e da confissão auricular.

As doutrinas das egrejas reformadas da Allemanha e da Suissa tinham feito algum progresso na Inglaterra, não obstante as perseguições, e haviam sido abraçadas por um grande numero de pessoas durante aquelles annos de tolerancia em que Cranmer e Cromwell dirigiram a politica do rei, e esta lei dos Seis Artigos deu logar a uma grande perseguição. O povo chamava-lhe o Estatuto Sanguinario e o Chicote das Seis Cordas. Deu principio a um reinado de terror, que só terminou com a morte do rei. Felizmente para a nação, esta não se fez esperar muito.

=O estado da Egreja de Inglaterra em 1547.=—Henrique morreu em 1547, deixando tres filhos: Maria, filha de Catharina de Aragão, com 31 annos; Isabel, filha de Anna Boleyn, com 14; e Eduardo, filho de Jane Seymour, com 10. Maria e Isabel haviam sido declaradas illegitimas pelo parlamento. Eduardo succedeu a seu pae no throno.

Henrique deixou atraz de si um caos, para sair do qual teve a nação de sustentar uma tremenda lucta. O rei, emquanto viveu, susteve com mão ferrea os romanistas extremos e o partido protestante, e manteve até ao fim o seu ideal, que era uma egreja catholica, desligada do papa. E conseguiu-o, pondo-se no logar outr’ora occupado pelo papa. Exercia sobre a Egreja uma auctoridade muito mais absoluta do que sobre o Estado. A posição era difficil de sustentar, e foi-o muito mais para os monarcas que succederam a Henrique, pois que as idéas reformistas iam-se propagando cada vez mais. Deixou tambem sem solução muitos problemas politicos. Os cofres publicos estavam vasios. A sua politica exterior foi um subterfugio, que collocou em grandes embaraços os seus successores. A venda dos bens da Egreja produziu uma mudança, tanto social como economica, que difficultou a vida da nação.

O assumpto, porém, que exigia immediata resolução era: A Inglaterra devia abraçar a Reforma, ou voltar de novo para o romanismo? A Egreja não podia permanecer na situação em que Henrique a havia deixado.

CAPITULO II

A REFORMA NO TEMPO DE EDUARDO VI, E A REACÇÃO NO TEMPO DE MARIA

Será adoptada a Reforma? pag. 175.—A visita real, o _Livro de Homilias_ e o _Livro de Oração Commum_, pag. 176.—A alliança com o protestantismo continental, pag. 178.—Os _Quarenta e Dois Artigos_, pag. 178.—Os principios do puritanismo, pag. 179.—A morte de Eduardo VI, pag. 181.—O estado da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria, pag. 182.—A Hespanha necessitava do auxilio da Inglaterra, pag. 183.—Como Maria se firmou no throno, pag. 183.—A alliança hespanhola, pag. 184.—A reconciliação com Roma, pag. 184.—Porque não foi bem succedida a reacção papal? pag. 185.—As perseguições durante o reinado de Maria, pag. 186.—A questão dos bens de raiz da Egreja, pag. 186.—Os fructos do ensino no reinado de Eduardo, pag. 187.—A morte de Maria, pag. 187.

=Será adoptada a Reforma?=—Quando Henrique morreu, succedeu-lhe seu filho, Eduardo VI, que era então um rapazito de dez annos. Pouco antes de morrer, Henrique fez testamento, em que deixou instituido um conselho de regencia, composto de dezeseis membros da nobreza, o qual entrou logo no exercicio das suas funcções, começando a governar. O referido conselho escolheu o conde de Hertford, que fazia parte d’elle, para o logar de protector do reino, recebendo n’essa occasião, em conformidade, segundo se diz, com o que estava estabelecido no testamento, o titulo de duque de Somerset. A questão mais grave que este conselho de regencia tinha de resolver era a questão religiosa. A Inglaterra não podia continuar no estado em que se encontrava. Ou a Egreja se reformava, ou a nação tinha de renovar a sua alliança com Roma. Se se tivesse consultado a opinião publica, ver-se-hia, provavelmente, que uma grande maioria era partidaria do romanismo. Os ultimos annos do reinado de Henrique tinham sido uns annos de terror, e todas as desventuras eram attribuidas á supremacia real em materia de religião. O povo de Inglaterra, por outro lado, estava pouco ao facto das doutrinas reformadas, e a Biblia não estava vulgarisada. A Reforma não havia sido prégada na Inglaterra, como o fôra na Allemanha e na França. Não havia excitado o enthusiasmo popular.

A extincção dos conventos tinha feito com que a gente do campo desejasse voltar ao antigo systema. Os inglezes não haviam opposto obstaculo algum á extincção dos conventos e á confiscação dos bens da Egreja quando isso foi pela primeira vez decretado; mas os camponezes em breve descobriram que a unica coisa que havia resultado para elles fora uma substituição de amos com quem se davam perfeitamente por outros que custavam immenso a supportar. Os novos proprietarios vedavam os logradouros publicos, derrubavam os muros e as sebes que dividiam entre si as quintas pequenas para formarem extensas propriedades, e preferiam as pastagens ás searas de trigo, diminuindo assim o valor das terras e dando logar a uma grande falta de trabalho. A pobre gente suspirava por aquillo a que chamava os bons tempos.

A extincção dos conventos tinha, por outro lado, atirado cá para fóra com uma legião de homens que não tinham profissão alguma e incapazes de ganhar a vida, era preciso cuidar d’essa gente. O governo havia entendido que o meio menos dispendioso de arrumar os frades era collocal-os nas freguezias, na qualidade de parocos ou de coadjuctores. E assim a Egreja encheu-se de homens que trabalhavam de má vontade, e que odiavam aquella nova ordem de coisas que lhes havia transtornado a vida.

Todas estas coisas tornavam duvidoso se a Inglaterra adoptaria a Reforma ou se reconciliaria com Roma.

Por outro lado, havia homens fervorosos e cheios de resolução, que estavam promptos a dar tudo quanto possuiam, e até a propria vida, pela causa da Reforma, que elles estavam na convicção de ser a causa de Christo. No numero d’esses homens figuravam o Protector, Somerset, e outros membros do conselho da regencia, que deliberaram introduzir a Reforma na Inglaterra. A intenção de se manter a supremacia real appareceu sob a fórma de uma carta dirigida aos bispos, intimando-os a solicitar do novo soberano a renovação das suas licenças. Isto tinha sido inventado por Cromwell para que não fossem prejudicadas as regias prerogativas.

=A real inspecção.—O Livro das Homilias.—O Livro de Oração Commum.=—Ordenou-se uma real inspecção a todo o reino. O paiz foi dividido em seis circumscripções, e para cada uma d’ellas foi nomeado um funccionario, que deveria averiguar se os serviços ecclesiasticos estavam sendo executados segundo as leis vigentes. A jurisdicção episcopal esteve durante algum tempo suspensa, pois que os inspectores iam em nome do rei. Providenciou-se tambem para que fossem melhorados os serviços ecclesiasticos em certas localidades onde foram encontradas deficiencias. O arcebispo Cranmer, que lá no seu intimo havia sido sempre lutherano, e que animara o conselho da regencia em todos os planos d’este, compoz um _Livro de Homilias_, que foi entregue ao clero paroquial, com a recommendação de ser lido nas egrejas. A _Paraphrase do Novo Testamento_, de Erasmo, foi adaptado ao uso inglez, e deu-se ordem para que tambem fosse lida no culto publico.

Estas medidas não foram tomadas sem opposição. Gardiner, bispo de Winchester, que tinha adquirido grande influencia sobre Henrique VIII nos ultimos annos da vida d’este, e que fôra um dos auctores do Estatuto Sanguinario, estava á testa do partido reaccionario, e protestou contra todas as propostas dos visitadores.

Entretanto o parlamento reuniu-se, aboliu os _Seis Artigos_, declarou que os clerigos ficavam desobrigados do voto de celibato, que na Ceia do Senhor o vinho, assim como o pão, devia ser administrado aos leigos, e approvou a politica ecclesiastica do Protector Somerset.

As inspecções proseguiram. A fim de tornar o serviço nas egrejas mais simples, mais attrahente e mais uniforme, ordenou-se o uso do _Livro de Oração Commum_, compilado, por Cranmer, dos antigos rituaes. Foi este o _Primeiro Livro de Oração Commum de Eduardo VI_, e, posto que mais tarde passasse por algumas modificações e fosse um tanto augmentado, é, no seu conjuncto, o de que a Egreja de Inglaterra faz uso actualmente.

Iam apparecer em breve outros indicios de um afastamento do romanismo. As imagens e reliquias das egrejas foram destruidas. Aboliram-se os antigos dias de jejum, e o arcebispo Cranmer deu o exemplo, comendo carne, á vista de todos, na quaresma.

Tudo isto desgostou immenso uma grande parte, talvez a maioria, do povo e do clero, sem que, comtudo, resistissem abertamente. Bonner, bispo de Londres, tentou oppôr-se indirectamente á corrente, declarando que o novo Livro de Orações podia ser tomado n’um sentido romanista; mas isso apenas levou a uma mais decisiva definição dos seus termos theologicos, á remoção dos altares das egrejas e á sua substituição por mesas, e á preparação de um novo _Livro de Ordem_.

Dentro em pouco tempo todo o aspecto da Egreja se havia mudado, e em doutrina e culto a Egreja de Inglaterra tinha-se tornado protestante. As mudanças que se haviam feito tinham promovido um grande sentimento de desagrado para com Somerset; houve tentativas de revolta; e, posto que estas fossem suffocadas, a falta de bom exito do Protector, tanto na politica exterior como na interna, combinada com o desagrado produzido pelas suas medidas religiosas, deu origem á sua queda, sendo succedido pelo conde de Warwick.

=A alliança com o protestantismo continental.=—A subida de Eduardo ao throno e a politica protestante de Somerset e Warwick animaram o arcebispo Cranmer a renovar o seu antigo plano de uma alliança entre a Egreja Romana e as Egrejas protestantes do Continente. Sob o congenial patrocinio de Somerset, o plano de Cranmer parece ter incluido uma assembléa, em Inglaterra, de delegados de todas as egrejas protestantes com o fim de convocarem um concilio protestante que podesse servir de resposta ao concilio de Trento e organizar um credo protestante commum.

Isto nunca se levou a effeito; mas Cranmer conseguiu que diversos theologos estrangeiros o ajudassem a instruir o povo inglez na fé reformada. Martinho Bucer e Paulo Fagius vieram de Strasburgo para Inglaterra, e installaram-se em Cambridge, onde fizeram prelecções sobre theologia e sobre as Escripturas do Antigo Testamento. Dois distinctos italianos, Pedro Martyr de Florencia e Bernardo Ochino de Sienna, vieram leccionar para Oxford. Estes theologos estrangeiros, todos elles abalisados professores, instruiram um grande numero de rapazes nos artigos da fé reformada, e prepararam uma geração de prégadores para a futura Egreja de Inglaterra. Sustentaram tambem, segundo o uso continental, polemicas publicas sobre pontos controversos de theologia, taes como a Transubstanciação, o Celibato do Clero, o Purgatorio, etc.

Todos estes theologos eram mais calvinistas do que lutheranos, e foi mediante elles que a Egreja de Inglaterra adquiriu aquella inclinação para o modo calvinista, opposto ao lutherano, de expôr as doutrinas da fé christã que serviu de molde aos seus artigos.

=Os Quarenta e Dois Artigos.=—Um dos resultados d’estas discussões e disputas doutrinaes foi a publicação, em 1553, dos _Quarenta e Dois Artigos_, que tinham por fim exprimir em fórma confissional o credo da Egreja Reformada de Inglaterra. Foram obra de Cranmer, coadjuvado pelos bispos e por outros homens de erudição. Cranmer tinha começado a escrevel-os em 1549; e acabou-os em 1552.

A apparição d’estes Quarenta e Dois Artigos foi muito opportuna. A rivalidade dos dois partidos, o romanista e o protestante, as polemicas publicas dirigidas pelos theologos estrangeiros, e os trabalhos dos prégadores ambulantes como João Knox, haviam feito com que o povo desejasse ardentemente uma auctorizada exposição de doutrina tal como estes artigos forneciam. Definiam com grande clareza os limites das mudanças que a Egreja havia feito, quanto á sua theologia medieval.

Estes artigos de religião são em quasi todos os pontos eguaes aos Trinta e nove Artigos que constituem o credo da actual Egreja da Inglaterra. As sympathias de Cranmer tinham estado sempre voltadas para Luthero, e elle copiou tres, nem menos, dos seus artigos directamente da Confissão de Augsburgo. Esses artigos foram omittidos na revisão elizabethana, mas, pelo que toca aos pontos essenciaes, os Trinta e dois Artigos de Eduardo e os Trinta e nove Artigos de Isabel são um e o mesmo documento.

=Os principios do puritanismo.=—A livre discussão da theologia reformada e das idéas da Reforma teve como um dos seus resultados a origem e desenvolvimento, em Inglaterra, de uma theologia que acceitava cabalmente os principios essenciaes da renascença da religião promovida pela Reforma. Um d’estes principios era que Deus se havia collocado tão perto do homem mediante a revelação da Sua pessoa em Jesus Christo, que os homens, apezar de sobrecarregados com o peccado, podiam implorar directamente a Deus o perdão, e, segundo as Suas promessas, recebel-o. As theses de Luthero tinham estabelecido este grande principio da Reforma, e todos os theologos insistiram na possibilidade de se ir directamente ter com Deus sem ser necessaria qualquer mediação humana. A Egreja medieval, por outro lado, havia negado este «sacerdocio espiritual dos crentes»—pois que sacerdocio quer dizer o direito de accesso a Deus—e havia collocado entre Deus e o povo o sacerdocio da Egreja. Tinha tambem tornado visivel o sacerdocio do clero, insistindo em que cada clerigo devia, quando exercesse o culto publico, usar um traje especial, symbolico do seu officio sacerdotal, e havia levantado em cada egreja um altar, ou logar especial onde se realisava o encontro de Deus com o sacerdote.

Aquelles que haviam chegado ao conhecimento da verdade e magnificencia da doutrina da Reforma, de que todos os crentes são sacerdotes que gozam do direito de se approximarem de Deus por meio da fé, e de que qualquer porção do solo onde a alma expectante procura o Deus que a pode perdoar e remir é um altar, não podiam conformar-se com qualquer doutrina ou symbolo visivel do sacerdocio especial do clero. Não se contentavam com a exposição doutrinal das verdades da Reforma, não podiam supportar que o povo fosse desencaminhado por qualquer symbolo ou rito exterior que houvesse sido empregado, nos dias de superstição, para inculcar a falsa doutrina medieval da mediação. Objectavam, portanto, á conservação de todo e qualquer costume ecclesiastico que podesse desencaminhar o povo no tocante a esta importante doutrina. Oppunham-se, especialmente, ao uso das vestimentas ecclesiasticas e dos altares nas egrejas. Estes homens foram os precursores dos puritanos inglezes.

É preciso ter sempre na lembrança que puritanismo não significou ao principio um systema de governo ecclesiastico, e que nada tinha que ver nem com o presbyterianismo nem com o congregacionalismo. Os primeiros puritanos da Inglaterra não protestaram contra o episcopado como systema de governo. As coisas ter-lhes-hiam succedido melhor por fim se o houvessem feito. O seu protesto era contra tudo quanto no credo ou no culto podesse desacreditar a doutrina do sacerdocio universal dos crentes. Era sua opinião que as vestimentas clericaes e os altares nas egrejas obscureciam a verdade vital, e recusavam-se a fazer uso das sobrepelizes e a collocar-se deante dos altares com as costas voltadas para a congregação.

A questão tomou dentro em pouco tempo uma fórma definida. João Hooper, que havia sido monge cisterciano, e que adoptara as idéas da Reforma, tornou-se um prégador de nomeada na Egreja ingleza. Durante os ultimos annos do reinado de Henrique tivera a vida em perigo e havia fugido do reino para Genebra. O contacto que teve com os theologos suissos havia-lhe confirmado os principios, e ao regressar a Inglaterra achava-se resolvido a oppôr-se a todos os ritos que cheirassem a superstição medieval. Em 1550, o seu nome foi recommendado ao rei, quando se tratou de prover o bispado de Gloucester. Ao contrario de João Knox, não fazia objecção ao governo por meio de bispos, e acceitou a nomeação, mas não quiz fazer uso das vestes episcopaes; e recusou-se, egualmente, a proferir a seguinte phrase do juramento: «Assim Deus e todos os santos me ajudem».

Muitos theologos, incluindo Calvino, haviam-se inclinado a considerar estas coisas como de pouca importancia, mas Hooper pensava de differente modo. Martinho Bucer e Pedro Martyr partilhavam a opinião de Calvino, e tentaram demover Hooper da sua resolução por meio de argumentos. Não poderam, porém, convencel-o, e elle recebeu ordem da côrte para se conservar em sua casa e deixar de prégar. Obedeceu, mas no seu forçado afastamento escreveu uma _Confissão e Protesto_ em que expunha com toda a clareza as razões que haviam imperado na sua recusa de fazer uso das vestes prelaticias. Por este seu feito, metteram-n’o na prisão. Passado algum tempo, porém, fez-se um convenio ácerca das vestimentas, foram omittidas do juramento as palavras «e todos os santos», e Hooper foi consagrado bispo de Gloucester. Mas o que havia occorrido fazia prever novas borrascas n’um futuro proximo.

Ridley, um dos mais habeis cabeças do partido da Reforma no tempo de Eduardo, homem de vastos conhecimentos, de grande largueza de idéas, e muito tolerante—havia-se empenhado om que á princeza Maria se concedesse o servir a Deus conforme a vontade d’ella—quando o fizeram bispo de Londres em substituição de Bonner, limpou tambem todas as egrejas da sua diocese das imagens, reliquias e agua benta, e insistiu em que todos os altares fossem removidos e se pozessem em seu logar mesas para a communhão.

Estas coisas eram um mau presagio para o timido accordo entre o romanismo e a Reforma, que era em que consistia o ideal de Cranmer relativamente á Egreja de Inglaterra.

Despertaram uma mais severa opposição da parte de homens que haviam sido sempre partidarios da Egreja medieval. Quando Hooper e Ridley mostraram até onde a Reforma os poderia levar, Gardiner e Bonner redobraram de furia contra elles. O governo teve de refreiar ambos os partidos. Hooper tinha estado preso por causa das suas idéas reformistas. Gardiner e Bonner foram encerrados na Torre por causa das suas idéas medievaes.

=A morte de Eduardo VI.=—O joven rei nunca havia sido muito robusto, e antes de terminar o anno de 1552 o seu estado de saude alarmou seriamente os principaes vultos do protestantismo. Á herdeira do throno era a princeza Maria, filha de Catharina de Aragão. Tanto o parlamento como a convocação haviam proclamado a sua illegitimidade, mas essas resoluções não tinham grande peso moral. Toda a gente, estava convencida de que Catharina tinha sido a esposa legitima de Henrique, e de que Maria era sua filha, devendo, portanto, esta occupar o throno no caso de Eduardo fallecer. Além d’isso, segundo a lei de successão ao throno, promulgada por Henrique VIII, ella tinha de succeder a Eduardo, no caso d’este não deixar herdeiros.

Maria era uma ferrenha catholica romana, de descendencia hespanhola, que nunca havia esquecido os aggravos de que a mãe fora victima, e que considerava a Reforma como uma rebellião contra Deus e um insulto dirigido a ella propria. Prima de Carlos V, imperador da Allemanha, era uma grande admiradora dos seus talentos e da sua politica, e de muito boa vontade se collocaria n’uma completa dependencia d’elle.

O conhecimento d’estas coisas enchia de anciedade os espiritos dos conselheiros de Eduardo. A subida de Maria ao throno seria um desastre para a Reforma, que os attingiria tambem a elles. Viram que lhes era necessario fazer todo o possivel para que o herdeiro do throno fosse um principe ou princeza protestante.