A Reforma

Part 2

Chapter 23,920 wordsPublic domain

A sua opinião tem sido partilhada por muitos christãos desde o dia de Pentecoste, e atravez de todas as epocas de superstição homens e mulheres, cheios de confiança em Christo, se teem dirigido humildemente a Deus, rogando-lhe o perdão. Foi-lhes concedido esse perdão que solicitavam, e a sua simples experiencia christã foi cantada nos grandiosos e velhos hymnos da egreja medieval; encontrou expressão nas orações da Egreja; constituiu a alma da prégação evangelica da Egreja, e agitou as multidões nos muitos despertamentos da Edade Media. Como quer que fosse, porém, esses piedosos prégadores e auctores de hymnos não viram quão inteiramente essa sua preciosa experiencia era opposta ao maquinismo ecclesiastico do seu tempo. A Egreja accumulava de tal fórma as coisas exteriores, que a vida espiritual ficou sepultada debaixo d’ellas, e na linguagem corrente da epoca havia-se mudado a verdadeira significação dos termos «espiritual» e «santo». Dizia-se que um homem era «espiritual» quando havia sido ordenado para officiar na egreja; o dinheiro tornava-se «espiritual» quando era dado á egreja; a um dominio, com as suas estradas, bosques e campos, chamava-se «espiritual», ou «santo» se pertencia a um bispo ou a um abbade.

E depois a egreja, que, com as suas idéas, com os seus actos, com a sua linguagem, tanto tinha aviltado as coisas espirituaes, e tão cega tinha sido para ellas, interpozera-se entre Deus e o homem, proclamando que ninguem se podia chegar a Deus senão por meio d’ella, e que Deus não poderia jámais fallar ao coração do homem senão egualmente por seu intermedio. A confissão dos peccados tinha de ser feita ao padre, e o perdão era concedido mediante a absolvição. Luthero havia fallado contra tudo isto n’aquellas suas theses, mas elle proprio quasi que o não sabia. A sua devota natureza havia-se revoltado perante a profanidade de se suppôr e se dizer que se podia obter de Deus o perdão dos peccados comprando um papel, e que o peccado e a ira de Deus eram coisas que desappareciam mediante o desembolso de uma certa quantia. Ao dar saida á sua indignação, referia-se apenas ao sacrilegio que via deante de si; e, comtudo, atacou, não simplesmente a peior parte de um systema mau, mas o systema todo. A Reforma tinha começado.

=A historia de Luthero, desde o principio.=—O homem que se oppoz a Tetzel tinha, apoz um longo e encarniçado combate, chegado ao conhecimento do que o perdão dos peccados significa realmente. Recorrera a todos os meios que a Egreja poz ao dispôr dos espiritos attribulados, mas nenhum d’elles lhe proporcionara conforto: por fim, dirigiu-se elle proprio a Deus, e achou a paz que procurava. Sabia por experiencia propria que o perdão de Deus não se alcança mediante a compra de um bilhete estampado com as armas pontificias, e lavrou o seu protesto em nome de todos aquelles que, em todos os seculos da egreja, sentindo-se vergados ao peso do peccado, tinham encontrado em Deus a paz e o perdão. A historia espiritual d’elle torna isto bem evidente, como vamos ver.

Luthero nasceu em Eisleben, em 10 de Novembro de 1483. «Sou camponez, e filho de camponez», costumava elle dizer. O pae era mineiro, e a mãe uma camponeza com fama de muita austeridade. Teve uma infancia muito pouco risonha, e, apezar do modo prazenteiro que constituia um dos seus caracteristicos, notava-se-lhe de quando em quando um certo ar triste que elle proprio attribuia ao que tinha soffrido nos primeiros annos da sua vida. O pae tinha resolvido fazer d’elle um homem. Como todos os homens de trabalho, tinha em desprezo os indolentes frades, e toda a sua idéa era que o filho fosse advogado; queria que elle se formasse em direito, conhecesse todas as engrenagens da lei, d’esse terrivel tyranno do camponez allemão, que o tratava como a um servo, quasi como a um proscripto. Luthero frequentou, pois, as escolas de Mansfeld, de Magdeburgo, de Eisenach. A vida do estudante pobre era, n’aquelle tempo, bem custosa. Passou fome, levou pancadas, não houve mal que não experimentasse. Para ter um bocado de pão era-lhe, muitas vezes, forçoso cantar pelas ruas. Foi em Eisenach que o attingiu o primeiro lampejo da caridade humana, quando Frau Cotta, attraida pela triste solidão em que elle vivia e pela sua melodiosa voz, o introduziu em sua casa e lhe fez todo o bem que poude. De Eisenach foi para Erfurt, para a Universidade, onde não tardou a fazer rapidos progressos. Aprendeu muita coisa, além da jurisprudencia. Leu Cicero, Platão, Terencio e Tito Livio. Leu as grandes obras theologicas da egreja medieval; e, acima de tudo, leu e tornou a ler, até os saber de cór, os escriptos do bravo franciscano inglez Guilherme de Occam, que resistiu denodadamente aos papas no seculo quatorze, e que ensinou Wycliffe e Huss a fazerem o mesmo. Luthero chamava-lhe com todo o carinho: «Occam, o meu querido mestre». Em 1503 recebeu o grau de bacharel, e em 1505 o de doutor. Tornou-se notado pela sua viva intelligencia e pela sua pasmosa eloquencia. Estava, pois, no caminho da posição em que o pae desejava vêl-o: a de um grande jurisconsulto.

Durante todo esse tempo, comtudo, a sua consciencia não tinha estado ociosa; os seus peccados atormentavam-n’o; a ira de Deus tinha caido pesadamente sobre elle. O amor de Deus era uma coisa que para elle não existia. O pae terrestre tinha-o tratado sempre com severidade, com dureza, e no Pae celestial via apenas um senhor que exigia d’elle esta e aquella coisa. No dia 17 de Julho de 1505, tendo elle 21 annos, os seus sentimentos religiosos poderam mais do que elle; entrou para o convento dos agostinhos de Erfurt, fugindo á sociedade de parentes e amigos, e desprezando todas as honrarias humanas. O seu Platão e o seu Virgilio, de que se fez acompanhar, ficaram sendo as unicas recordações da sua vida passada.

No convento poz-se a trabalhar para achar o caminho da salvação. Leu obras theologicas, jejuou, orou, submetteu-se a toda a sorte de privações, mas nunca logrou encontrar a paz. Não tardou em adquirir uma Biblia _completa_, coisa para elle inteiramente nova, e poz-se a estudal-a com todo o afan; o terror do peccado estava, porém, sobre elle, e não lhe deixava ver o Evangelho. Foi ter com o vigario geral da ordem, Staupitz, que era um homem muito fervoroso, e este encaminhou-o para Agostinho e para os mysticos allemães, em que encontrou um grande auxilio. Aquelle mostrou-lhe o que era o peccado, e o que era a graça soberana; e estes convenceram-n’o de que a verdadeira religião era a religião do coração. No emtanto continuava a faltar-lhe a paz.

No meio d’este conflicto, foi-lhe confiado um encargo especial. Frederico o magnanimo, eleitor da Saxonia, e o mais eminente dos principes allemães, fundou uma nova universidade em Wittenberg, e pediu a Staupitz que indicasse os respectivos lentes. Luthero foi então nomeado professor de philosophia, e começou logo a fazer prelecções. Em 1512 doutorou-se em theologia biblica, versando as suas conferencias sobre os Psalmos e as Epistolas de S. Paulo aos Romanos e aos Galatas. Como estudo, leu os Mysticos, os _Sermões_ de Teulez, e aquelle pequeno mas importante livro, _A Theologia Allemã_. Chegou, porém, a crise da sua vida. Em 1511 foi enviado a Roma para tratar de negocios. Á ida era um theologo medieval; á volta era um protestante; á ida cria na justificação pelas obras, á volta cria na justificação pela fé.

Roma era, havia muitos seculos, um amontoado de corrupção moral, e Luthero descobriu isso immediatamente. Entrou n’aquella cidade como um judeu entraria em Jerusalem. Elle proprio nos conta que ao avistal-a caiu de joelhos e exclamou: «Eu te saudo, cidade santa, tres vezes santificada pelo sangue dos martyres que se tem derramado em ti». Viu que os monges e padres eram homens maus, que faziam zombaria dos serviços religiosos em que tomavam parte. Viu que havia no povo muita deslealdade e cubiça, e que até o papa pouco melhor era do que um pagão. Luthero havia-se dirigido a Roma com a idéa de achar na cidade santa, como elle lhe chamava lá na Allemanha, algum meio seguro de promover a sua salvação, e, caso estranho, foi o proprio Christo que elle achou. Foi em Roma, no meio da corrupção e da blasphemia, que de subito se compenetrou de que não havia outro meio de salvação senão procurar Christo e entregar tudo ao cuidado d’Elle; de que o perdão é gratuitamente concedido por Deus e dá principio á vida christã, em vez de ser penosamente ganho no fim della.

Ao regressar a Wittenberg, era outro homem. Era já afamado como prégador; mas depois da sua visita a Roma prégava como nenhum outro poderia prégar. Tornou-se a primeira figura da universidade, e tinha como amigos Staupitz, o seu geral, e Frederico, o seu principe. Foi então que appareceram as famosas indulgencias.

=Partidarios e adversarios de Luthero.=—Ao principio parecia que toda a Allemanha estava ao lado de Luthero. O trafico das indulgencias tinha sido tão escandaloso que as pessoas de bons sentimentos e todos os patriotas allemães se sentiam indignados. O golpe, porém, que Luthero vibrara ás indulgencias havia attingido outros pontos, e não tardaram a levantar-se antagonistas. Conrado Wimpina em Frankfort, Hogstraten em Colonia, Silvestre Prierias em Roma, e, acima de todos, João Eck, um seu antigo condiscipulo, em Ingolstadt, todos elles atacaram as theses, e descobriram heresias nas mesmas.

Resultou de ahi que Luthero foi citado a comparecer, em Roma, na presença do papa; mas o eleitor da Saxonia conseguiu uma modificação, recebendo, por fim, Luthero ordem para partir para Augsburgo, a fim de ser interrogado pelo cardeal Caetano, legado do papa na dieta allemã. O papa queria evitar uma desintelligencia com o eleitor da Saxonia, e recommendou a Caetano que se mostrasse conciliativo. Luthero foi, mas a entrevista não teve bom exito. O cardeal começou por reprehender Luthero, mas acabou por se sentir dominado por um certo mêdo d’elle. «Não posso discutir mais com este animal», disse elle; «tem um olhar maligno, e povoam-lhe o cerebro uns pensamentos estupendos». Luthero, por seu lado, dizia abertamente que o legado era tão competente para julgar de assumptos espirituaes como um burro para tocar harpa.

Ao deixar Augsburgo, levava sobre si a condemnação, mas havia appellado para o proprio papa, rogando-lhe que se informasse melhor do seu caso. O papa não queria indispôr-se com a Allemanha, porque a parte mais importante da nação parecia estar a favor de Luthero, e enviou o cardeal Miltitz a promover a paz. Este não chamou o moço frade á sua presença, mas teve com elle uma conversação amigavel em casa de Spalatin, o capellão do eleitor. Antes d’esta entrevista Luthero havia appellado para um concilio geral. O cardeal Miltitz declarou estar em desaccordo com Tetzel, reprovou as indulgencias, e concordou com muitas das asserções de Luthero; mas lembrou-lhe que não tinha sido bastante respeitoso para com o papa, e que estava enfraquecendo o poder e a auctoridade da egreja. O seu argumento era, em summa, o seguinte: «O senhor pode ter razão; mas para que ha de ser rude? Escreva ao papa, e peça-lhe desculpa». Luthero prometteu fazel-o, e entre elle e Miltitz ficou estabelecido um convenio, que, como elle depois referiu ao eleitor, continha duas clausulas:

1. Ambas as partes cessariam de prégar ou escrever sobre as materias em controversia.

2. Miltitz informaria o papa do exacto estado dos negocios, e o papa nomearia para as necessarias investigações uma commissão de theologos illustrados.

No entretanto, Luthero escreveu ao papa, confessando espontaneamente que a auctoridade da egreja era superior a tudo, e que a coisa alguma, quer na terra quer no céu, se devia dar a prioridade, com excepção de Jesus Christo, que tudo governa. Isto foi em Março de 1519.

=A disputa de Leipzig.=—Luthero tinha promettido conservar-se quieto se os seus adversarios se conservassem quietos—era este o seu ajuste com o cardeal Miltitz; os seus inimigos, porém, não se conservaram quietos, e Luthero considerou-se livre para os atacar. O indiscreto amigo da egreja era João Eck. Desafiou Carlstadt, amigo de Luthero, para uma discussão publica, e no entretanto publicou treze theses que atacavam as noventa e cinco de Luthero. Luthero replicou promptamente, e a polemica publica entre Carlstadt e Eck foi seguida de uma outra entre Eck e Luthero. N’esta disputa de Leipzig a controversia attingiu um grau mais elevado. Não foi já uma discussão theologica, mas, sim, a opposição de duas series de principios em conflicto, affectando todo o circulo da vida ecclesiastica. Aqui, pela primeira vez, a christandade allemã desprendeu-se da christandade romana, insistindo no sacerdocio de todos os crentes e no direito de cada christão julgar em todas as coisas segundo a sua consciencia, esclarecido pela palavra de Deus e pelo Seu Santo Espirito.

Luthero e Eck começaram com as indulgencias e com as penitencias, mas o debate em breve mudou para a auctoridade da Egreja romana e do papa. Eck mantinha a suprema auctoridade do bispo de Roma, como successor de S. Pedro e Vigario geral de Christo. Luthero negou a superioridade da egreja romana sobre as outras egrejas, e baseou a sua negativa no testemunho da historia de onze seculos, no dos decretos de Nicéa, no dos mais santos concilios, e no da Escriptura Sagrada. Isto originou uma grande contestação. «Sem papa não ha egreja», exclamou Eck. «A egreja grega tem existido sem papa, e vós sois o primeiro a negar-lhe o nome de Egreja» respondeu Luthero. «Athanasio, Basilio e os dois Gregorios estavam fóra da egreja? O papa tem mais necessidade da egreja do que a egreja do papa». «Sois tão mau como Wycliffe e Huss», disse Eck, «e elles foram condemnados em Constança». «Nem todas as opiniões de Huss eram erroneas» disse Luthero. «Se recusaes apoiar as decisões dos concilios, eu recuso discutir comvosco», disse Eck, e por aqui se ficou. Immediatamente depois, porém, Luthero completou e publicou a sua argumentação. Declara, pela primeira vez, o que pensa da egreja. Não nega a primazia do papa, mas o que não admitte é que o papa volte as costas á egreja. Se o papa se mantiver no seu logar de servo da egreja, de «servo dos servos de Deus», elle, Luthero, dar-lhe-ha toda a honra. Mas a egreja é a communhão dos fieis—é constituida pelos verdadeiros crentes, pelos eleitos. Á egreja nunca falta o Espirito Santo, e aos papas e concilios falta muitas vezes. Esta egreja, que tem sempre o Espirito Santo, é invisivel; e, portanto, um leigo que possua as Escripturas e se guie por ellas é mais digno de credito do que um papa ou um concilio que o não faça.

Esta disputa de Leipzig produziu importantissimos resultados. De um lado, Eck e os demais adversarios eram de opinião que Luthero devia ser violentamente posto fóra de combate, e insistiram n’uma bulla papal que o condemnasse; e do outro, Luthero viu, pela primeira vez, até onde tinha chegado com a sua opposição ás indulgencias. Viu que a sua theologia agostiniana, com o conhecimento que ella proporcionava da odiosidade moral do peccado, e da necessidade da soberana graça de Deus, feria, em todas as suas peripecias, a vida ceremonial da edade media: mostrava que era impossivel a qualquer homem o ter uma vida perfeitamente pura e santa, e, por consequencia, não podia haver santos, e o culto dado aos santos era um absurdo; tornava inuteis as reliquias e as peregrinações, assim como a vida monastica, com as suas vigilias, jejuns e flagellações. Todas estas coisas eram, em vez de auxilios, obstaculos á verdadeira vida religiosa. Seguia-se tambem que, não podendo haver mediador entre Deus e os homens, com excepção de Jesus Christo, a mediação do papa para nada servia.

A disputa de Leipzig convenceu Luthero de que se havia separado de Roma, e a Allemanha convenceu-se tambem d’isso, chegando o seu enthusiasmo a um ponto extremo. O povo das cidades manifestou a sua sympathia pelo arrojado frade. Ulrico von Hutten e os outros homens de letras viram n’elle, desde então, o seu guia. Francisco von Sickingen e os outros cavalleiros livres viram n’elle, desde então, um poderoso alliado. Os pobres e sobrecarregados camponezes alimentavam a esperança de que elle os libertasse das miserrimas circumstancias em que se encontravam. Luthero tornou-se, por assim dizer, o chefe do povo allemão. Isto teve logar em 1519.

=A bulla do papa e a queima da mesma.=—Eck e os demais adversarios de Luthero reconheciam que alguma coisa se devia pôr em pratica para reduzir ao silencio o audacioso monge, e instaram com o papa para que publicasse uma bulla condemnando as suas opiniões. Luthero, por seu lado, não estava ocioso. Sabia que se tinha desligado de Roma, e, com a sua habitual actividade e coragem, tornou esse facto conhecido, e pediu ao povo allemão que o ajudasse. A Allemanha era um paiz pobre, e, comtudo, mandava todos os annos uma consideravel quantia de dinheiro para Roma.

N’aquelles dias a egreja era um grande imperio ecclesiastico, tendo Roma como capital. Toda a Europa estava dividida em bispados, e o clero era muito rico. Possuia extensos dominios, que arrendava; tinha tambem direito aos dizimos (a decima parte) de todas as outras propriedades; além d’isso, fazia dinheiro com os baptismos, com os casamentos, com as absolvições, com a assistencia espiritual aos enfermos, com os enterros, e com as missas. As varias ordens de frades tinham-se tambem tornado muito opulentas, sendo a sua maior riqueza constituida por terras que lhes haviam sido doadas ou legadas em testamento por pessoas devotas. Em quasi todos os paizes da Europa se haviam promulgado leis com o fim de impedir ou limitar estas doações, mas essas leis tinham sido tão inefficazes que ao tempo da Reforma as ordens religiosas eram senhoras de quasi um terço do territorio europeu. E, apezar de ricas, andavam continuamente esmolando. Parte dos seus bens ia todos os annos para Roma. Quando um bispado vagava, as receitas eram recolhidas pelo papa, que demorava sempre a nomeação de outro bispo. O papa diligenciava frequentemente que os bispos ou abbades fossem italianos, pois que estes ficavam residindo em Roma, e o dinheiro era-lhes remettido para lá. Quando um novo bispo era nomeado, tinha de mandar ao papa o rendimento do primeiro anno (_os annatas_). Todo este dinheiro que era exportado para Roma fazia falta nos paizes de onde sahia; e no tempo de Luthero ainda estava extorquindo mais, por meio das indulgencias. Luthero, no seu opusculo _Á nobreza da nação allemã_ tornava tudo isto saliente, e perguntava por quanto tempo se estaria disposto a tolerar similhante coisa. Referia aos nobres que a doutrina romanista dos dois estados distinctos, um espiritual, incluindo o papa, os bispos, os padres, os frades e as freiras, e o outro temporal, constituido por todas as outras individualidades, era um muro levantado pelos romanistas para defenderem as oppressões da egreja. Dizia-lhes, outrosim, que _todos_ os christãos são espirituaes, e que todos deviam ser obedientes ao poder secular. E perguntava, finalmente, como é que os allemães consentiam que do seu depauperado paiz fossem enviados annualmente para Roma 300.000 florins.

Escreveu tambem outro tratado, _O captiveiro babylonico da egreja de Christo_, para mostrar que elle não desejava destruir mas purificar a verdadeira egreja de Christo. O titulo é bem explicito. Luthero opinava que o papa e os romanistas tinham conduzido a egreja a um captiveiro, muito comparavel ao dos judeus em Babylonia. E dá exemplos d’isso. O Senhor disse por occasião da ultima ceia, quando deu o calix aos Seus discipulos, «Bebei d’elle todos», mas os romanistas dizem «Não bebaes d’elle se não fordes padres». E parecia-lhe que todos os verdadeiros christãos tinham o dever de libertar a egreja da sua escravidão. E concluia de um modo caracteristico. «Consta-me que estão sendo preparadas bullas e outras coisas papistas, em que me é exigida uma retractação, sob pena de ser proclamado hereje. Se é verdade, desejo que este livrinho fique constituindo uma parte da minha futura retractação».

Foram enviados milhares d’estes livros para todos os pontos da Allemanha, e o povo ficou á espera da bulla. Esta veiu, por fim, em 15 de Julho de 1520. Accusava Luthero de sustentar as opiniões de Huss, e condemnava-o. Eck levou-a para Leipzig em Outubro. Foi affixada em varias cidades allemãs, e em geral os cidadãos e os estudantes arrancavam-n’a. Chegou, por fim, ás mãos de Luthero. Respondeu ás suas accusações n’um pamphleto, em que lhe chamava a execravel bulla do anti-christo, e por fim annunciou em Wittenberg que ia queimal-a. No dia 10 de Dezembro, á frente de um cortejo de professores e estudantes, Luthero saiu da universidade e dirigiu-se para o mercado. Um dos lentes accendeu a fogueira, e Luthero lançou a bulla ás chammas. Estava consummada a affronta. Foi tambem queimado um exemplar da lei canonica, pois que a Allemanha ia de ali em deante ser governada pelas leis do paiz, e não pelas leis de Roma. A noticia espalhou-se por toda a Allemanha, dando logar a um enorme regozijo. Roma tinha arremessado o seu ultimo dardo; só o imperador é que tinha poder agora para reprimir Luthero.

=O imperador e a Reforma.=—O imperador era, por esse tempo, Carlos V. Havia sido eleito em 1519, e ainda não tinha estado na Allemanha, nem era tão poderoso como o seu titulo indicava. N’aquelles dias ainda predominavam as idéas medievaes de governo, e Carlos V tinha resolvido restabelecer o velho poder imperial com todos os seus attributos.

No principio da edade media os homens colhiam as suas idéas de governo do velho imperio romano—não do imperio pagão de Augusto Cesar e dos seus successores, mas do imperio christão de Constantino e de aquelles que vieram apoz elle. Posto que aquelle velho imperio tivesse sido destruido pelas invasões das selvaticas tribus teutonicas, depois da epoca das conquistas ter passado os novos povos que habitavam a Europa adoptaram o governo e as leis da nação que haviam derrubado.

Segundo os pensadores medievaes, o governo civil e a ordem social eram coisas impossiveis quando todo o poder não estivesse concentrado n’um foco e identificado n’uma só pessoa—o monarca universal; e quando todo o governo ecclesiastico e communhão religiosa não obedecessem, da mesma fórma, ao arbitrio de uma unica pessoa—o sacerdote universal. O monarca universal era o imperador, que dominava _circa civilia_ como vigario, ou representante, de Deus; e o sacerdote universal era o papa, que dominava _circa sacra_, como vigario, ou representante, de Deus. Um dominava nos corpos, o outro dominava nas almas, dos homens; e o dominio de ambos era universal. Um tinha o poderio da espada, e o outro tinha o poderio das chaves. Este sonho medieval ainda não se havia tornado em realidade, até então; mas o sonho continuava, e a Europa, no alvorecer da Reforma, estava sob o olhar cubiçoso de duas entidades: o imperador e o papa.

No fim do seculo quinze, Fernando, o Prudente, rei de Aragão, concebeu o plano de, mediante um elaborado systema de enlaces matrimoniaes, restituir ao imperio a sua primitiva grandeza. Tinha tres filhas. A mais velha casou com o rei de Portugal, o que daria logar a que este paiz e Hespanha ficassem constituindo um só reino. A segunda casou com Filippe de Austria, chefe da casa de Hapsburgo, e por direito materno senhor da Borgonha e dos Paizes Baixos. A terceira desposou Henrique VIII de Inglaterra. Do primeiro d’estes consorcios nasceu Isabel, herdeira do throno de Hespanha. Do segundo Carlos de Austria e de Borgonha. Do terceiro Maria, rainha de Inglaterra. Carlos casou com sua prima Isabel, e ficou, portanto, reinando em Hespanha, Austria, Borgonha e Paizes Baixos. E mais tarde foi tambem imperador e rei de Italia.