A Reforma

Part 18

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Foi um dos membros da Assembléa de 1575, em que a questão do presbyterio e do episcopado tomou pela primeira vez um caracter serio; e fez parte da comissão nomeada por essa Assembléa para considerar se o nome e deveres de um bispo tinham alguma auctorização biblica, isto é, se os bispos que havia n’aquelle tempo na Egreja da Escocia estavam ali, e desempenhavam os seus cargos, em obediencia á Palavra de Deus. A decisão a que se chegou foi que o nome de bispo pertencia a todos os pastores da Egreja de quem se havia confiado congregações, mas que tambem podia ser applicado aos ministros escolhidos por seus irmãos para implantar egrejas e inspeccionar as egrejas existentes, e o sentimento geral da Egreja a este respeito pode colligir-se d’estas tres expressões, que indicam tres especies de bispos: My Lord Bishop (_Meu Senhor Bispo_), My Lord’s Bishop (_Bispo do Meu Senhor_), e Lord’s Bishop (_Bispo do Senhor_), sendo os primeiros catholicos romanos, os segundos tulchanos, e os terceiros pastores das congregações.

=O Segundo Livro de Disciplina.=—Quando a Egreja Reformada da Escocia se encontrou face a face com estes novos problemas ecclesiasticos, sentiu necessidade de um mais distincto e mais completo schema de governo da egreja do que aquelle que o Primeiro Livro de Disciplina continha. Esse systema de governo da egreja havia sido preparado á pressa, e fazia menção de differentes materias que estavam fôra da esphera de um livro de preceitos ecclesiasticos. A Assembléa de 1576 nomeou uma commissão para tratar d’esse assumpto, e redigir um livro que podesse substituir a obra de Knox e de Row. O dito livro foi escripto de vagar, com muita perseverança, e finalmente em 1578 deu-se ordem para que o _O Segundo Livro de Disciplina_ fosse impresso, afim de sujeital-o á critica e se fazerem as necessarias correcções. Tres annos se dispenderam em ponderar todos os seus pontos, todas as suas phrases, e o Livro de Politica, como se lhe chamou, foi então acceite pela Assembléa e incluido nas suas Actas.

Este livro, que apresenta, n’um estylo conciso e claro, o esboço do governo da Egreja Presbyteriana na Escocia, começa por fazer distincção entre as leis ecclesiasticas e civis, e reivindica para a Egreja «uma politica differente da politica do Estado». O conjuncto do governo da egreja, diz o livro, comprehende doutrina, disciplina e distribuição; e para este triplice governo ha um triplice officialato, que se divide em pastor, ou bispo, presbytero e diacono. O Livro de Disciplina addiciona um quarto oficio, ou de doutor, ou ensinador. N’um curto capitulo vem descripta a natureza da vocação, assim como o modo da eleição e ordenação dos pastores. Faz-se tambem uma descripção dos deveres que cabem a cada uma das dignidades, e das varias assembléas em que aquelles que estão d’ellas revestidos teem de comparecer, no exercicio dos seus cargos. É singular que no anno que precedeu o da adopção do Livro de Disciplina pela Assembléa recebesse o seu complemento a organização presbyteriana da Egreja Escoceza mediante o universal reconhecimento do presbyterio como um tribunal superior á sessão da egreja, mas inferior ao synodo; e que este livro de politica não faça menção especial de similhante tribunal, que actualmente exerce funcções tão importantes na organização presbyteriana escoceza.

Como a publicação do _Segundo Livro de Disciplina_ a Egreja Reformada da Escocia completou a sua organização ecclesiastica, e terminou a primeira parte da sua historia. A Reforma estava por esse tempo firmemente estabelecida, e o protestantismo tinha empolgado o povo da Escocia. A Egreja tinha deante de si uma longa lucta; o conflito, porém, não era com o papismo, mas com o Estado; não era no sentido de reformar a religião, mas de desenvolver e preservar a fórma democratica do governo da Egreja, que se impunha ao povo como sendo a mais conforme com a Palavra de Deus, e a mais adequada para a habilitar a desempenhar os seus deveres de Egreja de Christo.

Em 1574 a Escocia achava-se em curiosas circumstancias ecclesiasticas. Haviam-se conservado as paroquias que existiam antes da Reforma, e cujo numero era superior a mil. Para seu funccionamento havia 289 ministros e 715 leitores, e muitos d’estes ultimos eram os padres catholicos romanos que tinham vindo para a religião reformada mas que não possuiam uma educação sufficiente para justificar a sua ordenação como pastores protestantes. Estas paroquias passaram depois a constituir presbyterios, os presbyterios foram agrupados em synodos, e o conjuncto estava sob a direcção da Assembléa Geral. A organização presbyteriana era, n’um certo sentido, completa. A par d’isto, porém, existiam as velhas dioceses, anteriores á Reforma, em numero de treze, na sua maior parte occupadas por homens que eram ministros protestantes, que haviam tomado o titulo de bispos, mas que não exerciam funcções episcopaes. Apenas tres d’esses bispos, o de St.º André, o de Glasgow e o de Aberdeen, haviam tentado exercer a jurisdicção episcopal, e não o tinham feito tanto na qualidade de bispos, como de superintendentes. Os bispos tinham assento no parlamento escocez, e os seus deveres principaes eram administrar as receitas da cathedral e desempenhar as funcções judiciaes que eram da competencia dos bispos n’outro tempo, anteriormente á Reforma.

Esta organização episcopal vivia lado a lado com a activa e aggressiva constituição presbyteriana da Egreja. O estado dos negocios ainda mais anomalo se tornava com o facto de ainda viverem, e exercerem a sua fiscalização, tres dos antigos superintendentes; e os districtos dos outros superintendentes eram governados por commissarios provisorios nomeados pela Assembléa, que podia demittil-os quando entendesse.

O fim que a Egreja tinha em vista com o conflicto que durou desde 1574 até 1638 era acabar inteiramente com aquillo a que chamava a inutil e nociva organização episcopal, que não tinha ligação alguma com a obra espiritual da Egreja, e substituir os superintendentes e commissarios por presbyteros, unindo assim a Egreja n’um todo harmonico. O fim que a côrte tinha em vista era conservar o velho systema episcopal, e, mediante elle, ir gradualmente dividindo a Egreja em fragmentos, cada um d’elles governado por um bispo que só era responsavel para com o parlamento; e, no fim de tudo, restabelecer o episcopado no velho sentido da palavra, e derribar por completo a constituição presbyteriana.

O anno de 1638 foi o do triumpho da Egreja, mas a historia completa d’esta lucta ultrapassa os limites da presente obra.

III PARTE

A REFORMA ANGLICANA

CAPITULOS:

I—A EGREJA DE INGLATERRA DURANTE O REINADO DE HENRIQUE VIII.

II—A REFORMA SOB EDUARDO VI, E A REACÇÃO SOB MARIA.

III—A REFORMA SOB ISABEL.

CAPITULO I

A EGREJA DE INGLATERRA DURANTE O REINADO DE HENRIQUE VIII

O caracter excepcional do principio da Reforma ingleza, pag. 157.—Antecipações da Reforma em Inglaterra, pag. 158.—O estado ecclesiastico de Inglaterra no principio da Reforma, pag. 159.—As relações de Inglaterra com o pontificado, pag. 160.—As antigas relações de Henrique VIII com o pontificado, pag. 161.—Henrique muda de opinião, pag. 163.—Henrique VIII, Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia entre elles, pag. 164.—A submissão do clero, pag. 165.—O progresso da separação de Roma, pag. 166.—Separação de Roma e Reforma: duas coisas differentes, pag. 168.—Execução da sir Thomaz More, pag. 169.—Suppressão dos conventos e confiscação das propriedades da Egreja, pag. 170.—_Os Dez Artigos_, pag. 171.—_O Estatuto Sanguinario_, pag. 173.—A Egreja de Inglaterra em 1547, pag. 173.

=O caracter excepcional do Principio da Reforma inglesa.=—A Egreja e o povo inglez romperam com o systema ecclesiastico medieval em circumstancias tão excepcionaes que é impossivel considerar esse rompimento como fazendo parte da Reforma, ou como tendo muita coisa em commum com os movimentos contemporaneos na Allemanha e na França. Emquanto durou o reinado de Henrique VIII, a Egreja de Inglaterra, que se havia separado do papa, pouco ou nada tinha de commum com a Reforma. O que durante aquelle reinado se fez foi simplesmente demolir a Egreja da edade media. A verdadeira Reforma começou no reinado de Eduardo VI, e a sua adopção formal teve logar no de Isabel. Henrique VIII destruiu a supremacia do papa, tanto espiritual como temporal; derrubou a grade ecclesiastica que unia a Egreja de Inglaterra á grande Egreja Occidental governada pelo bispo de Roma, mas não poz coisa alguma duradoura em seu logar. O seu fim era estabelecer um papado real, tão despotico e ainda mas secular do que aquelle que elle estava destruindo, sobre as minas da jurisdicção do bispo de Roma. A Egreja que elle construiu segundo o seu modelo não durou mais do que a vida d’elle; mas a sua obra durou o bastante para dar á Reforma da Egreja de Inglaterra, quando ella mais tarde se tornou um facto, aquelle caracter particular que a distinguiu dos movimentos do mesmo genero occorridos n’outros paizes. O objecto de Henrique era modificar de tal modo as condições ecclesiasticas da Inglaterra que o rei occupasse o logar do papa, e ficasse governando, não só temporal como espiritualmente, de modo que, mediante a Egreja, tivesse sobre os seus subditos um dominio absoluto. Todas as reformas de doutrina, de culto e de costumes eram tão abominaveis para Henrique como para o bispo de Roma.

=Antecipações da Reforma em Inglaterra.=—Os historiadores ecclesiasticos fazem, geralmente, datar os principios da Reforma do tempo de João Wycliffe, o qual, no seculo quatorze, era, por assim dizer, a bocca da Inglaterra, revoltando-se contra a supremacia espiritual e temporal que o papa tinha no reino; mas é muito para duvidar que a sua influencia continuasse a ser exercida sobre o povo inglez até ao seculo dezeseis, e por tal fórma que a ella se devam attribuir os desejos de Reforma que enchiam os corações de muitas pessoas de bons sentimentos religiosos.

Como Francisco de Assis e outros reformadores e revivificadores da Edade Media, Wycliffe tinha abraçado apaixonadamente a idéa de que os beneficios da salvação só podem ser aproveitados por aquelles que imitam Christo, e que para imitar Jesus Christo torna-se indispensavel viver na pobreza como Elle. Declarou, portanto, guerra aberta ao bem estipendiado clero da opulenta Egreja de Inglaterra, e prégava que a Egreja, para ser realmente de Christo, devia ser, pobre. Dizia que o Estado não faria mais do que beneficiar a Egreja tirando-lhe a riqueza, pois que era esta um obstaculo a que ella se parecesse com o seu Mestre. Em conformidade com estas idéas, organisou um corpo de prégadores ambulantes, denominados prégadores pobres, os quaes, tendo, a muitos respeitos, parecenças com os evangelistas do movimento wesleyanno, andavam por toda a Inglaterra, proclamando a doutrina da humildade. Era um fervoroso admirador dos grandes juristas medievaes, taes como Guilherme de Ockham, o querido mestre de Luthero, Marsillio de Padua, e Pedro Dubois de Paris. Elles haviam proclamado, n’uma epoca muito anterior, que o Estado não era outra coisa senão o povo; e Wycliffe, seguindo-lhes o exemplo, insistia em que a Egreja não era outra coisa senão o povo. Ora isto atacava o systema da Egreja medieval, que se apoiava na noção de que a verdadeira Egreja era o clero, e de que o povo só fazia parte d’ella quando se punha em contacto com os clerigos, que eram depositarios dos sacramentos. Foi por esse motivo que elle traduziu a Biblia, que era o Livro da Egreja, e, portanto, do povo christão, e não sómente do clero. As idéas da Wycliffe foram avidamente adoptadas por uma grande parte da população ingleza, e os seus discipulos, os lollardos, constituiram, por algum tempo, uma fortissima aggremiação.

O lollardismo foi indubitavelmente uma preparação para a Reforma, e os homens biblicos, como lhes chamavam, teriam exercido uma grande influencia sobre o povo, no sentido de o predisporem para uma revivificação da religião espiritual se tivessem existido na epoca em que se operou o movimento reformador. Não se pode, porém, provar que elles communicassem com essa geração, e não ha indicio algum de que nos reinados de Henrique VII e Henrique VIII estivesse desenvolvido o gosto pela leitura da Biblia ou houvesse uma corrente de sympathia pelos prégadores pobres. O povo inglez, tomado na sua totalidade, parece não se ter inclinado para a Reforma antes do tempo de Isabel.

=O estado ecclesiastico da Inglaterra no principio da Reforma.=—Quando começou na Allemanha o movimento da Reforma, houve, sem duvida, muitos inglezes que se sentiram attraidos para o reformador saxonio, e que desejaram ver introduzido na Egreja um credo mais simples e mais em harmonia com a Palavra de Deus, e uma fórma de culto como a que era usada nos tempos apostolicos; mas a maioria não partilhava essas idéas. Havia, certamente, muitissimas pessoas que desejariam ver modificados os costumes dos clerigos, e especialmente o caracter moral dos frades, e que ficariam satisfeitas se as propriedades da Egreja fossem sujeitas a impostos e os grandes rendimentos dos bispados e das abbadias soffressem alguma diminuição. E eram em numero sempre crescente as que se sentiam desgostosas com a ignorancia do clero, e que, por motivos politicos ou sociaes, desejavam ver cerceada a influencia do bispo de Roma. Não lhes agradava a sua interferencia nas questões politicas, e indignava-os a saida de grossas quantias para fóra do reino.

Não é provavel que o caracter moral do clero romano fosse peior em Inglaterra do que em qualquer outro paiz, mas o que é verdade é que os padres, com a sua conducta, desacreditavam a Egreja. O clero era de uma ignorancia crassa, e havia, talvez, em Inglaterra menos conhecimento das Escripturas do que na França ou na Allemanha, pois que, desde a epoca do lollardismo, a leitura da Biblia era considerada um acto criminoso. A Biblia era um livro desconhecido para os padres, e Erasmo conta que viu, preso por uma corrente a uma coluna da cathedral de Canterbury um Evangelho de Nicodemos que era lido como fazendo parte da Escriptura canonica.

O alto clero pouco tinha que fazer na Egreja, e occupava-se em dirigir os negocios do Estado, ou em presidir ás audiencias nos tribunaes de justiça. O arcebispo de Canterbury era Lord Chanceller, o bispo de Winchester director geral da Thesouraria, o bispo de Durham secretario de Estado, e o bispo de Londres guarda-mór dos arquivos. Os bispos de Bath, Hereford, Llandaff e Worcester nem sequer residiam no reino.

Dadas estas circunstancias, não é para estranhar que aquelles que amavam sinceramente a instrucção se sentissem indignados perante a ignorancia do clero, e procurassem abrir os olhos, não só a estes como ao povo em geral; e que os patriotas inglezes, lembrando-se das antigas tradições de um paiz que durante seculos havia mantido uma attitude altiva e reservada para com as pretensões da Curia Romana, tivessem immensa vontade de annular o poder do papa em Inglaterra. Como que exteriorisando o desejo preponderante, surgiu um grupo de mancebos instruidos, capitaneados por Colet, deão de S. Paulo, e Thomaz More, cujo intuito era purificar a Egreja, o povo e o clero, e incitar a Egreja nacional de Inglaterra a resistir ás usurpações do bispo de Roma.

=As relações de Inglaterra com o pontificado.=—Os bispos de Roma, na Edade Media, reivindicavam a supremacia, tanto espiritual como temporal, e o povo inglez havia resistido, por mais de uma vez, ás suas reivindicações. Os papas, desde o tempo de Innocencio III, sustentavam que todos os reis e principes eram seus vassallos, tanto pelo que dizia respeito ás coisas sagradas como aos negocios civis. Este direito havia sido imposto no reinado de João, que pagara tributo a Roma em reconhecimento da supremacia papal. Quando, porém, foi exigido esse tributo aos sucessores de João, elles, indignados, recusaram pagal-o. E a Inglaterra, sem deixar de pertencer á Egreja Catholica medieval, havia repudiado o direito do papa a intervir nas questões nacionaes. Rei algum inglez, excepto João, se considerou vassallo do papa. Não era uma coisa nova em Inglaterra, o não reconhecer a supremacia do papa nos negocios temporaes.

Os papas tinham, desde o principio da Edade Media, exigido que os reputassem arbitros supremos em todos os negocios espirituaes, e, por consequencia, a Egreja ingleza devia estar sujeita ao seu dominio absoluto. Estas reivindicações apresentavam-se, na pratica, debaixo das seguintes fórmas: Os papas queriam que lhes fosse reconhecida a decisão final em todas as nomeações ecclesiasticas; isto é, nenhum bispo, ou abbade, ou outro qualquer dignitario da Egreja podia ser collocado n’este ou n’aquelle posto sem a approvação do papa em ultima instancia, e esta sua supremacia queriam que lhes fosse reconhecida de uma fórma prática mediante o pagamento do primeiro anno do estipendio que correspondia a cada oficio ecclesiastico. Queriam ter a decisão final em todas as questões que se levantassem no seio da Egreja ingleza. E isto significava, praticamente, que todos os clerigos, bispos, abbades, simples padres e frades só podiam ser julgados pelos tribunaes ecclesiasticos, e que o accusador ou o defensor tinha sempre o direito de appellar dos tribunaes inglezes para o tribunal pontificio. Reivindicavam tambem que as leis canonicas, isto é, as leis da Egreja promulgadas pelos concilios e pelos papas, fossem reconhecidas em Inglaterra e tivessem a mesma força que as leis ordinarias.

A supremacia espiritual do papa tinha sido repetidas vezes repellida pelo povo inglez. Os reis de Inglaterra tinham declarado e tornado a declarar que em caso algum se poderia appellar dos tribunaes inglezes para a Curia Romana. Estas declarações tinham tomado a fórma de decretos, e no reinado de Ricardo II ficaram englobadas no famoso codigo de _Proemunire_. Segundo este codigo, ou estatuto, como lhe chamavam, qualquer appellação para um tribunal de justiça estrangeiro, romano ou de outra qualquer nacionalidade, era um crime a que correspondia um castigo severo. Sustentava, de uma maneira peremptoria, que o rei era o arbitro supremo em todas as questões civis ou ecclesiasticas, e tornava punivel qualquer appellação de sentenças proferidas nos tribunaes civis para juizos ecclesiasticos, quer da Inglaterra quer da Italia.

Além dos protestos do rei e do parlamento, reunidos n’este estatuto, o povo, n’uma grande occasião pelo menos, negou solemnemente a supremacia do papa, e asseverou a independencia da Egreja ingleza. A _Magna Charta_ foi feita com o intuito de restringir o poder pontificio, assim como de reprimir o do rei; e a sua primeira clausula reivindicou a independencia da Egreja de Inglaterra—_Quod ecclesia anglicana libera sit et habeat omnia jura sua integra et libertates suas illaesas._

E Egreja e o povo inglez haviam-se acostumado a protestar contra a interferencia papal, e os reformadores que tinham simplesmente em vista promover a instrucção do clero, e reprimir a auctoridade que o papa exercia na Inglaterra, podiam dizer, com exactidão historica, que não punham em pratica uma coisa nova.

As aspirações d’esses reformadores podem ser apreciadas no romance politico escripto por um dos mais intelligentes d’entre elles,—a _Utopia_, de Thomaz More. Para esses homens a Reforma era apenas um movimento intellectual e politico. Não era uma revivificação religiosa. Podiam sympathizar com os concilios reformistas do secolo quinze, mas entre elles e Wittenberg ou Genebra havia poucos pontos de contacto.

=As primitivas relações de Henrique VIII com o pontificado. Defensor da Supremacia papal.=—Estes reformadores do estudo e da camara do conselho saudaram com regozijo a subida de Henrique VIII ao throno de Inglaterra. Suppunha-se, exactamente como aconteceu com o seu contemporaneo, Francisco I de França, que o joven rei fosse um amigo da nova litteratura, e um soberano predisposto a extirpar abusos. A desillusão não se fez esperar. Logo de principio mostrou ser um dedicado defensor da supremacia papal. A sua posição era estranha, e necessita de uma explicação.

Henrique VII, o primeiro rei da casa de Tudor, havia conquistado o throno de Inglaterra no campo de Bosworth, e conservava-o mediante uma precaria subemphyteuse. Anhelava por tornar mais firme o seu poder mediante uma alliança com um paiz estrangeiro, e, passando a Europa em revista, certificou-se de que Fernando de Hespanha era quem o poderia auxiliar melhor. Effectuou, portanto, com alguma dificuldade, o casamento de seu filho mais velho, Arthur, com Catharina de Aragão, uma das filhas de Fernando. Arthur morreu passado pouco tempo; e Henrique, desejando manter a todo o transe a alliança hespanhola, tratou com todo o afan de casar Catharina com o seu segundo filho, Henrique, que foi depois Henrique VIII. O papa concedeu uma dispensa, e o casamento realisou-se. Henrique VIII teve, pois, por mulher a viuva de seu irmão.

Nunca se poude saber ao certo se Arthur e Catharina foram realmente casados. Se o casamento não passou de um contracto legal, não havia motivo para que a dispensa do papa não fosse bem acceite mesmo por aquelles que não viam com muito bons olhos a supremacia papal; se foi, porém, um casamento em toda a accepcão da palavra, ficou então demonstrado que o papa tinha auctoridade para conceder uma dispensa que ia de encontro as leis divinas de parentesco. Segundo a opinião geral, Arthur e Catharina viveram conjugalmente, de modo que Henrique casou realmente com a viuva de seu irmão, e assim a dispensa do papa só poderia ser concedida no caso de elle possuir aquelles supremos poderes que os ultramontanos lhe atribuem. A legalidade do casamento de Henrique e a legitimidade de sua filha Maria baseiava-se, portanto, na supremacia do papa. E não é para admirar que Henrique VIII, no principio do seu reinado, se conduzisse, no tocante a essa supremacia, mais em conformidade com a opinião dos ultramontanos do que com as tradições da corôa de Inglaterra. É que a validade do seu casamento, a legitimidade de seus filhos, e o direito que a estes assistia de lhe succederem no throno, dependiam, como já dissemos, da supremacia do papa.

Quando Luthero atacou o papa, Henrique tomou ostensivamente a defeza do Bispo de Roma, e rei algum, depois de João, apoiou mais em absoluto as reivindicações do papa do que elle. Os seus interesses pessoaes, assim como os interesses de sua mulher e de seus filhos, estavam dependentes d’esse seu apoio. A Inglaterra, no principio do reinado de Henrique, estava positivamente avassallada á Sé de Roma. Henrique, posto que se sentisse inclinado, pela educação recebida, a adoptar as idéas de Colet, More e Erasmo, via-se obrigado, em vista da situação particular em que se encontrava, a manter-se n’uma attitude de irreconciliavel hostilidade, e o facto de ter reprovado os actos de Luthero conquistou-lhe o titulo de Defensor da Fé.

=Henrique muda de opinião.=—Henrique nunca deixou de reconhecer a supremacia do papa em todos os assumptos, durante os primeiros dezoito annos do seu reinado. De um momento para o outro, porém, começou a pensar de differente modo, e podem-se apresentar bastantes razões para essa subita mudança de idéas. Parece que elle teve sempre duvidas ácerca da legitimidade do seu casamento com Catharina, e que essas duvidas se avolumaram á medida que ia perdendo a esperança de ter um filho varão que lhe succedesse, chegando a convencer-se de que esse facto representava um castigo divino por haver desposado a viuva de seu irmão. Durante todo esse tempo, comtudo, a alliança hespanhola, que fôra tratada primeiramente com Fernando, e mais tarde com o neto d’este, o imperador Carlos V, havia sido de grande utilidade para Henrique e para a Inglaterra; e essa mesma aliança é que havia, na opinião do rei, de firmar o throno de sua filha, cuja legitimidade, declarada pelo papa, encontraria no imperador um inabalavel sustentaculo.