A Reforma

Part 17

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=A Confissão Escoceza, ou Confessio Scotica.=—Apresentada aos Estados, e englobada nas suas Actas quando adoptada por elles, foi a obra de seis reformadores escocezes: Knox, Spottiswood, Willock, Row, Douglas e Winram. Diz-se que Maitland de Lethington, tido na conta de um dos mais habeis estadistas do seu tempo, reviu o livro e attenuou algumas das suas declarações. Redigido á pressa por um pequeno numero de theologos, é mais complacente e humano do que a maioria dos credos, e por essa razão tem-se recommendado a muitas pessoas que não se conformam com a logica impessoal da Confissão de Westminster. As primeiras phrases do prefacio dão uma idéa geral do todo. «Ha muito tempo que anceiavamos, queridos irmãos, por notificar ao mundo a summula de aquella doutrina que professamos, e pela qual nos havemos sujeitado ás ignominias e aos perigos. Tal tem sido, porém, a ira de Satanaz contra nós e contra Jesus Christo, cuja verdade eterna se manifestou ultimamente entre nós, que até hoje não nos tem sido concedido tempo para desobstruir as nossas consciencias, o que com muito regozijo teriamos feito.» O prefacio expõe tambem mais claramemte do que qualquer outra Confissão do mesmo genero a reverencia com que os vultos da Reforma tratavam a Palavra de Deus. «Pedimos a qualquer pessoa que notar n’esta nossa Confissão algum artigo ou phrase que esteja em desacordo com a Santa Palavra de Deus, que, dando prova da sua caridade christã, nos advirta d’esse erro por escripto, e, pela nossa honra e fidelidade, promettemos dar-lhe satisfação pela bocca de Deus, isto é, mediante a Sua Santa Escriptura, ou então emendarmos aquillo que se demonstrar que precisa de correcção. Perante Deus deixamos escripto nas nossas consciencias que abominamos, do fundo do coração, todas as seitas hereticas, e todos os promulgadores de doutrinas erroneas; e que com toda a humildade abraçamos a pureza do Evangelho de Christo, que é o unico alimento das nossas almas.»

A Confissão contém as crenças communs a todas as ramificações da Reforma. Encerra, outrosim, todas as doutrinas chamadas ecumenicas, isto é, as verdades expostas nos primeiros concilies ecumenicos, e incorporadas no Credo dos Apostolos e ao Credo Niceno; e accrescenta aquellas doutrinas de graça, de perdão e de luz mediante a Palavra e o Espirito que com a reviviscencia da religião adquiriram uma proeminencia especial. Esta Confissão é mais notavel pelos seus titulos suggestivos do que por qualquer peculiaridade de doutrina. A doutrina da revelação é, por exemplo, definida por si propria, independentemente da doutrina da Escriptura, mediante este titulo: «A Revelação da Promessa». A Eleição é considerada, segundo o antigo calvinismo, um meio de graça, uma evidencia do «invencivel poder» de Deus quanto á salvação. Os pontos em que a verdadeira egreja se distingue da falsa são, diz-se na dita Confissão a genuina prégação da Palavra de Deus, a adequada administração dos sacramentos, e a justiça na applicação da disciplina ecclesiastica. A auctoridade das Escripturas, affirma tambem, procede de Deus, nada tem que ver nem com homens nem com anjos; e a egreja sabe que ellas são verdadeiras, porque «a verdadeira egreja ouve e obedece sempre á voz do seu Esposo e Pastor.»

Esta Confissão foi primeiro lida toda de uma vez no parlamento, e depois tornada a ler clausula por clausula. Randolpho, o embaixador inglez, que assistiu a essa leitura, descreveu-a a Cecilio, o grande ministro de Isabel, e entre outras coisas diz-nos que, quando se leram os artigos, alguns dos barões ficaram tão commovidos que se levantaram dos seus logares, declarando que estavam promptos a derramar o seu sangue em defeza da Confissão», e que Lord Lindsay, com uma gravidade raras vezes presenciada, disse: «Tenho vivido muitos annos; sou o mais edoso de todos quantos aqui se encontram; e agora que aprouve a Deus deixar-me chegar a este dia, em que tantas pessoas, algumas d’ellas pertencentes á nobreza, sanccionaram uma obra tão digna, direi como Simeão, _Nunc dimitis_».

=A rainha Maria e a Reforma.=—A Reforma não tinha de triumphar na Escocia tão de repente e com tanta facilidade. Sir James Sandilands, encarregado de levar a Paris a Confissão de Fé, não só não conseguiu que a joven rainha a assignasse, como o informaram do desagrado com que ella soube dos acontecimentos occorridos na Escocia; e só apoz sete annos de lucta, que terminou com a deposição da soberana, é que a Confissão foi finalmente ratificada e a Egreja Reformada alcançou na Escocia um completo reconhecimento official.

Francisco II, esposo de Maria, morreu em 1561, e a joven rainha chegou á Escocia em agosto do mesmo anno. Vinha acompanhada de um numeroso e brilhante sequito, do qual tambem faziam parte tres de seus tios, membros da casa de Guise, e o filho do famoso Condestavel de Montmorency. O duque de Guise e o cardeal de Lorena acompanharam-n’a até Calais. Os reformadores escocezes conheciam bem os homens que rodeiavam a sua rainha, e que tão ostensivamente se achavam dispostos a protegel-a. Era do dominio publico que o duque de Guise estava á frente de aquelle partido que ambicionava exterminar os protestantes francezes por meio de um massacre geral. Fôra elle, segundo se presumia, o instigador do assassinio judicial de Anne de Bourg, e que havia planeada a, carnificina de Amboise. A devassidão dos Guises só era excedida pela sua deshumana crueldade. Taes eram os homens que passaram á Escocia para acompanhar e aconselhar a joven rainha.

Não é, pois, para surprehender que, ponderando estas coisas, Knox e os seus amigos reputassem a vinda da rainha uma grande calamidade, e que vissem no nevoeiro e chuva que durante dois dias caiu sobre a costa oriental da Escocia, um como que aviso do céu, uma manifesta exposição da felicidade que ella trouxera comsigo para aquelle paiz, felicidade que se poderia traduzir por estas palavras: afflicção, dôr, obscurantismo e impiedade.

A belleza physica, o privilegiado talento, os infortunios e o tragico fim da joven rainha teem-n’a circumdado de uma aureola romantica. E, comtudo, nem mesmo os seus admiradores teem feito inteira justiça á sua indomavel coragem e aos seus grandes dotes intellectuaes. Estava quasi só ao voltar para o seu paiz natal, e viu immediatamente que coisa alguma devia esperar da França e que necessitava de crear um partido em que podesse descançar confiadamente. Era uma rapariga de dezenove annos quando saiu de França; apezar d’isso, Knox, que teve com ella algumas entrevistas pouco depois da sua chegada, parece ter reconhecido n’ella uma mulher superior, e ter-se compenetrado de que havia motivo para receiar que uma das duas, ou a rainha ou a Reforma, tivesse de ir a terra. O combate que ella sustentou sósinha com a Reforma foi observado com anciedade por toda a Europa; e, se ella não tivesse sido educada n’uma côrte tão corrompida, e se não tivesse convergido para ella o odio que aquelles seus parentes, os Guises, haviam inspirado, podia muito bem ser que ficasse victoriosa. Poderá parecer cruel fallar d’este modo, agora que o perigo já lá vae ha seculos, mas o que é verdade é que bastantes familias pacificas e religiosas, tanto na Hollanda, como na França, como no Paiz do Rheno, e com mais razão ainda na Escocia e na Inglaterra, só respiraram á vontade quando o machado poz finalmente, em Fotheringay, termo á triste e agitada vida da rainha Maria.

A lucta começou com a sua chegada. Ella e a sua côrte foram, com todo o espavento, ouvir missa logo no primeiro domingo, posto que fosse prohibido dizer e ouvir missa, sob pena de um severo castigo. Principiou, pois, por infringir as leis do estado, d’esse mesmo estado que havia implantado a Reforma. Se quizessemos contar detalhadamente o que de ahi em deante se passou encheríamos umas poucas de paginas. Apoz sete annos de lucta, Maria foi aprisionada no castello de Lochleven, e deposta, sendo collocado no throno o seu filho, ainda na infancia, James VI, e ficando como regente do reino seu irmão James Stewart, conde de Moray. O parlamento escocez votou novamente a Confissão de Fé; o regente assignou-a em nome do soberano; e, assim ratificado, foi incluido na legislação do paiz e a religião reformada ficou sendo a reforma do christianismo legalmente reconhecida na Escocia.

=O Livro de Disciplina e a primeira assembléa geral.=—Pouco depois de o parlamento de 1560 ter encerrado as suas sessões, os auctores da Confissão foram encarregados de apresentar uma breve exposição do melhor systema de governo de uma egreja reformada. Surgiu então aquelle notavel documento que depois se chamou o Primeiro Livro de Disciplina, e que constituiu a primeira formula de governo ecclesiastico na Escocia. Dividia-se em sessões da egreja, synodos e assembléas geraes; e concedia o titulo de officiaes da egreja aos ministros, professores, presbyteros, diaconos, superintendentes e ledores. Os auctores do Livro de Disciplina declararam ter ido procurar directamente ás Escripturas as linhas geraes de aquelle systema de governo ecclesiastico a adoptar o qual elles aconselhavam os seus compatriotas, e havia, indubitavelmente, muita sinceridade, a par de muita exactidão, n’essa sua affirmativa. Eram, comtudo, todos elles, homens affeiçoados á Egreja de Genebra, e tinham tido relações pessoaes com os protestantes da França. A sua fórma de governo foi, evidentemente, inspirada pelas idéas de Calvino, e segue de perto as Ordenanças Ecclesiasticas da Egreja franceza. Os officios de superintendente e leitor foram addicionados aos outros tres, ou quatro, que caracterizam a fórma de governo presbyteriana. O cargo de superintendente devia a sua origem á situação incerta do paiz e á escassez de pastores protestantes. Os superintendentes tinham a seu cargo divisões territoriaes que não correspondiam exactamente ás dioceses episcopaes, e competia-lhes apresentar á Assembléa Geral relatorios annuaes do estado ecclesiastico e religioso das respectivas provincias. Os leitores deviam a sua existencia ao reduzido numero de pastores protestantes, á grande importancia que os primitivos reformadores escocezes davam a um ministerio educado, e tambem á difficuldade de obter fundos para a sustentação dos pastores de todas as paroquias. O Livro de Disciplina contém um capitulo sobre o patrimonio da egreja, que insiste na necessidade de reservar os dinheiros possuidos pela egreja para a manutenção da religião, as despezas com a educação, e os socorros dos pobres. Foi a existencia d’este capitulo que fez com que os Estados não aceitassem o livro com tanta promptidão como o fizeram com a Confissão de Fé. Os barões de diversas categorias, que tinham assento na camara, haviam-se, em muitos casos, apropriado do patrimonio da egreja em seu beneficio particular, e não queriam assignar um documento que condemnava o seu modo de proceder. O Livro de Disciplina, approvado pela Assembléa Geral, e assignado por um grande numero de nobres e burguezes, nunca recebeu a sancção official concedida á Confissão.

A Assembléa Geral da Egreja Reformada da Escocia reuniu-se pela primeira vez em 1560, e, a despeito da luta em que a egreja se achava envolvida, houve, pelo menos, uma reunião por anno, e algumas vezes mais, podendo assim a egreja organizar-se e entrar em plena actividade.

Fez-se uma traducção do _Catecismo para a Infancia_, de Calvino, e deu-se ordem para que se fizesse uso d’ella. O Livro de Ordem Commum, ou a Lithurgia de Knox, foi substituindo a pouco e pouco a Lithurgia do rei Eduardo VI, e a Egreja Reformada da Escocia, com a sua Confissão, a sua constituição ecclesiastica, o seu methodo de culto publico e as suas provisões para a instrucção das creanças, espalhou-se pelo paiz, levantando egrejas, melhorando o estado moral do povo e contribuindo efficazmente para a educação do mesmo.

Uma das principaes dificuldades com que a egreja teve de luctar foi falta de dinheiro para pagar aos ministros. A Egreja Catholica Romana tinha sido officialmente abolida, e, comtudo, não se havia feito provisão alguma para a manutenção do clero reformado. A propriedade ecclesiastica estava em condições anormaes. Até 1560 a Egreja Catholica Romana da Escocia vinha sido muito opulenta, e havia estado de posse de uma grande parte do territorio da nação. Emquanto a egreja estivera luctando com Maria e procurando frustrar os esforços que ella empregava para introduzir de novo a religião e hierarquia romanista, os prelados distribuiram uma grande parte dos bens ecclesiasticos por quem elles muito bem entenderam, os nobres apoderaram-se de uma parte d’elles ainda maior, e o que restava e nominalmente pertencia á egreja estava nas mãos de homens que se intitulavam bispos, abbades, priores, deãos e curas, mas que nunca haviam recebido ordens, eram protestantes só no nome, e se serviam de aquelles titulos ecclesiasticos para poderem usufruir as propriedades a que o cargo dava direito. Depois de alguma discussão, a Assembléa obteve do Estado que aquelas pessoas que conservavam em seu poder bens que nominalmente pertenciam á egreja ficassem com dois terços de rendimento para as suas despezas particulares, e entregassem a restante terça parte para a manutenção do ministerio e das escolas, e para os encargos de beneficencia. A Egreja Reformada, porém, teve muita difficuldade em ver esta disposição convertida em lei, e assim, durante os primeiros annos da Reforma os ministros e as escolas foram principalmente mantidos por meio de offertas voluntarias, ou «benevolencias», como Knox pittorescamente lhes chamava.

=A Educação.=—As idéas democraticas do presbyterianismo, avolumadas pela necessidade de cooperar com o povo, fizeram com que os reformadores escocezes se ocupassem seriamente da educação popular. Todos os impulsionadores da Reforma, quer na Allemanha, quer na França, quer na Hollanda, tinham reconhecido a importancia de esclarecer o povo; mas a Hollanda e a Escocia foram talvez os dois paizes onde a tentativa foi mais bem succedida. A educação do povo não era uma novidade na Escocia e, posto que nos agitados tempos que precederam a Reforma as escolas superiores tivessem desapparecido, e as universidades tivessem caido em decadencia, o desejo de aprender não se havia extinguido por completo. Knox e o seu amigo Jorge Buchanan tinham um plano magnifico para crear escolas em todas as freguezias, estabelecer collegios superiores em todas as cidades importantes e augmentar o poder e influencia das universidades. O seu plano, devido á cubiça dos barões que se haviam apoderado dos bens da egreja, pouco mais era do que uma devota imaginação, mas havia-se apossado do espirito da Escocia, e a falta de dotações era mais do que compensada pelo desejo ardente que o povo tinha de se instruir. As tres universidades, de Santo André, de Glasgow e de Aberdeen, receberam uma nova vida, e fundou-se uma quarta universidade, a de Edinburgo. Alguns estudantes escocezes que haviam recebido educação nas escolas continentaes, e que haviam abraçado a fé reformada, foram encarregados de superintender o re-organizado systema educativo do paiz, e tudo se fez em harmonia com o viver do povo, preferindo-se, nas escolas, e externato ao internato, e estabelecendo um systema de inspecção que era exercido, em cada circumscripção escolar, por um dos homens mais espirituaes e de maiores conhecimentos. Knox estava tambem disposto a impôr ás duas classes da sociedade, a mais baixa e a mais elevada, uma frequencia obrigatoria ás aulas; quanto á classe media, elle confiava no seu natural desejo de aprender. E desejava que o Estado exercesse a sua auctoridade no sentido de compellir os mancebos de posição a matricularem-se nas escolas superiores e nas universidades, para que podessem prestar serviços uteis á nação.

=A morte de Knox.=—João Knox morreu em novembro de 1572. O assassinio do seu amigo, o conde de Moray, o Bom Regente, havia-lhe feito uma grande impressão, e a noticia do massacre de S. Bartholomeu, que havia chegado recentemente á Escocia, produziu-lhe um tremendo abalo. Elle nunca havia sido um homem robusto, e durante a sua vida havia passado por muitos trabalhos, mas o seu intrepido espirito a tudo resistira. «Ignoro» diz Smeaton, «se Deus poz jámais n’um corpo debil e franzino uma alma maior e mais santa do que a d’elle». As forças começaram a faltar-lhe muito antes de adoecer gravemente, mas luctou sempre contra o seu precario estado de saude, e nunca deixou de prégar e exhortar como costumava fazer. James Melville, que teve occasião de o ver quando estudava em Santo André, apresenta-nos um retrato d’elle pouco antes da sua morte. «Via-se que andava doente. Todos os dias eu o via passar para a egreja paroquial, andando muito cautelosamente, com o pescoço resguardado por uma pelle, de bengala na mão, e acompanhado pelo seu creado, o bom Ricardo Ballanden. Era esse dito Ricardo e um outro creado que o ajudavam a subir para o pulpito, a que elle se encostava durante algum tempo; logo, porém, que entrava no sermão, enchia-se de uma actividade e de um vigor taes que esse mesmo pulpito por pouco escapava de ficar feito em cavacos.»

Morreu antes de ter effectuado por completo a sua obra, pois que a Egreja Reformada ainda tinha muitos obstaculos a vencer, e o facto de Knox não tomar parte na batalha tornava-lhe mais difficil o sair victoriosa. Elle não possuia a erudição de Calvino, nem uma disposição para se tornar popular, como Luthero, mas nenhum homem o poderia egualar em coragem. «Elle nada temia da carne, nem tão pouco a lisongeava.» E foi isso o que fez o reformador da Escocia.

Como os seus contemporaneos francezes, tinha tanto de estadista como de dirigente ecclesiastico, e emquanto viveu foi o guia do povo escocez. Os nobres de bom grado teriam intervindo no movimento, e lhe teriam dado uma feição mais em obediencia ao seu modo de pensar, mas Knox fez do pulpito a força mais poderosa da Escocia, e com as suas ousadas prégações creou uma opinião publica com que era preciso contar. Elle era, individualmente, um homem de profunda espiritualidade, e «temia a Deus, mas coisa alguma fóra d’Elle lhe mettia medo».

=Os bispos tulchanos.=—O poder da Egreja Reformada da Escocia foi consideravelmente fortalecido e consolidado mediante o caracter representativo dos seus conselhos, e, mais especialmente, da sua Assembléa Geral, e a liberdade com que todos os assumptos de interesse para a nação eram ahi tratados e discutidos deu á Assembléa da Egreja o caracter de um parlamento nacional onde o povo da Escocia encontrava uma defeza mais efficaz do que nos Estados do reino. Os olhos perspicazes da rainha Maria haviam discernido esta força da egreja, e ella empregou varios esforços, sempre infructiferos, para impedir a reunião da Assembléa Geral. Depois da morte do conde Moray, o Bom Regente, isto é, durante as regencias de Lennox, Mar e Morton, e durante o reinado de James, a Assembléa foi sempre mal vista por aquelles que ambicionavam um poder exclusivo. Sabia-se, porém, que era perigoso dirigir-se á Assembléa um ataque directo, e aqueles que no Estado dispunham do poder tentaram diminuir-lhe a auctoridade promovendo ecclesiasticos e elevando-os a posições que lhes permittissem tomar assento nos Estados e defender ahi as prerogativas da egreja. Depois da morte do regente Moray, a nobreza tratou constantemente de derrubar o governo episcopal, e collocar a Egreja sob o dominio dos bispos.

Uma outra, e talvez mais visivel, causa por que aquelles estavam em auctoridade antipathisavam com a simples constituição presbyteriana que o Livro de Disciplina havia preceituado á Egreja era o facto de ella dar pouca occasião a que as receitas fossem espoliadas, ao passo que a nomeação de bispos reunia uma grande proporção dos dinheiros da Egreja em meia duzia de mãos, habilitava os patronos e entrar em negocios com os ecclesiasticos que elles nomeassem para esses cargos, desviando-se assim uma grande parte dos fundos de que a Egreja ainda estava de posse para as algibeiras dos fidalgos de primeira plana.

Pouco antes da morte de Knox, a Assembléa, não sem protesto, tinha, a instancias dos Lords do Conselho, concordado em acceitar ecclesiasticos com o titulo de bispos, debaixo de certas condições, sendo as principaes as seguintes: os bispos não teriam um poder superior ao dos superintendentes, haviam de estar sujeitos á Assembléa Geral, e não seriam nomeados sem que devidamente se providenciasse quanto ao sustento do ministerio regular. Este accordo, chamado a _Convenção de Leith_, foi devido principalmente ás diligencias de João Erskine, o antigo amigo de Knox, um dos primitivos superintendentes, e que por mais de uma vez exerceu na Assembléa o logar de Moderador. Alguns annos de experiencia mostraram á egreja escoceza o perigo que para a sua vida livre, para a sua vida democratica, provinha das disposições desta convenção, e pouco depois da morte de Knox appareceram symptomas de um proximo conflicto.

O mais flagrante exemplo do uso que os nobres mais proeminentes faziam d’estes bispos para defraudar a Egreja occorreu em 1581, que foi quando Boyd, o arcebispo de Santo André, morreu. Assim que o edoso prelado faleceu, o duque de Lennox resolveu apoderar-se das propriedades da sé. Era impossivel pôr similhante coisa em pratica sem um legalisado artificio, e o plano escolhido foi induzir Roberto Montgomery, ministro em Stirling, a acceitar o cargo de arcebispo, tornar-se d’esse modo herdeiro dos bens da sé, e passar depois os respectivos rendimentos para as mãos de Lennox. Este caso foi, talvez, o peior d’elles todos; mas em toda a Escocia se procedeu de uma fórma analoga, nomeando-se bispos, abbades, etc., para que podessem tomar legalmente posse dos dinheiros da Egreja, e, em vez de se lhes dar a devida applicação, passal-os para os bolsos dos patronos seculares. O povo chamava a estes bispos, assim como a quaesquer outros dignitarios que se prestavam a essas burlas, tulchanos, e a primeira lucta com os bispos escocezes não foi uma contestação entre o presbyterio e o episcopado, mas entre a Egreja, que queria a todo o custo conservar o seu patrimonio, e esses tulchanos. Quando na Assembléa se tratou do caso de Montgomery, «o moderador, David Dickson, pediu licença para expôr a significação de bispos tulchanos. Tratava-se de uma palavra em uso vulgar entre os montanhezes da Escocia. Quando uma vacca não se deixa mungir, põem junto d’ella uma pelle de vitello, empalhada, e é a essa pelle que chamam _tulchan_. Ora para esses bispos que possuíam o titulo e o beneficio, sem desempenharem o cargo, não se encontrou denominação mais significativa do que a de bispos tulchanos.»

=André Melville.=—João Knox morreu quando este conflicto entre a Côrte e a Egreja estava no principio, e era necessario fazel-o substituir por outro dirigente. Entre os escocezes illustrados que o triumpho da Reforma e a renascença das letras haviam attraido para o seu paiz natal, André Melville era o que mais se tinha distinguido. Nascido, em 1545, em Baldovy, perto de Montrose, recebeu a sua educação na Escola Primaria d’essa cidade, e no Collegio de St.ª Maria, em St.º André. De ahi foi para Paris, onde teve por professor o celebre Pedro Ramus. Depois de terminar os estudos, obteve em Genebra uma cadeira de latim, e em 1574 voltou á Escocia, com a reputação de um dos mais eminentes sabios da Europa. Pouco depois do seu regresso foi nomeado reitor da universidade de Glasgow, e por tal fórma dirigiu esse estabelecimento de instrucção que correu a matricular-se n’elle um elevadissimo numero de mancebos, não só escocezes como estrangeiros.