A Reforma

Part 16

Chapter 163,521 wordsPublic domain

Torna-se necessario explicar duas particularidades do presbyterianismo hollandez. As sessões da egreja não são, como na maioria das outras egrejas presbyterianas, assembléas congregacionaes que se occupem do governo de uma congregação. A sessão da egreja é composta de ministros e presbyteros de um certo numero de congregações, e, a certos respeitos, assimilha-se a um presbyterio. E, comtudo, como as das outras egrejas presbyterianas, o tribunal de primeira instancia.

A outra particularidade da organização da Egreja hollandeza consiste em que raras vezes podia deliberar como egreja. Isto era devido em parte ao ciume do Estado protestante, e em parte á constituição politica das Provincias Unidas. A Hollanda, ou as Provincias Unidas, era uma confederação de estados, a muitos respeitos independentes uns dos outros. A Reforma tendia a descentralizar a Egreja, e a produzir uma organização ecclesiastica separada para cada estado politico independente. Tambem se notava na Hollanda a tendencia para a formação de tantas egrejas separadas quantas eram as provincias.

As Sete Provincias não constituiam uma nação; constituiam, antes, uma confederação. Tinham-se obrigado a proteger-se umas ás outras na guerra, e, portanto, a manter um exercito commum, e a contribuir para um fundo militar commum; mas não formavam um estado. Os negocios internos de cada provincia estavam sob a superintendencia de cada estado separado.

Quando Guilherme de Orange foi eleito governador vitalicio, uma das clausulas a que elle ficava obrigado era a de que não reconheceria qualquer concilio ou consistorio ecclesiastico que não tivesse a approvação da provincia em que propozesse reunir-se. Os negocios religiosos de cada provincia tinham de ser regulados por essa provincia.

Isto dava um aspecto de divisão á Egreja hollandeza, e impedia, realmente, a acção incorporada e unida. A Egreja só podia reunir-se em assembléa geral quando todas as Sete Provincias concordassem em dar-lhe permissão. Este embaraço politico obstou muito á utilidade e influencia da Egreja Reformada Hollandeza, e deu logar a uma continua lucta, na Hollanda, entre a Egreja e o Estado.

=A força da Egreja na Hollanda.=—A prolongada peleja de quarenta e cinco annos contra a Hespanha e o papismo parecia estimular as energias da Egreja hollandeza e das suas universidades, e os seus collegios theologicos em breve rivalizaram com mais antigas sédes de instrucção. A universidade de Leyden, erguida em acção de graças quanto a uma milagrosa libertação, foi fundada em 1575; Franecker começou a existir dez annos depois (1585); as universidades de Gröningen (1612) Utrecht (1636) e Harderwyk (1648) seguiram em successão apoz alguns annos de intervallo. Todas estas universidades eram escolas theologicas, frequentadas por alumnos procedentes de quasi todos os paizes protestantes da Europa. Os theologos hollandezes do seculo dezesete tornaram-se famosos quanto á sua erudição, zelo e agudeza theologica. Quando surgiu a grande controversia armenia, que agitou mais tarde a Egreja hollandeza, os theologos da Hollanda foram os que na Europa se celebrizaram mais, tanto pelo que diz respeito á illustração como pelo que diz respeito á orthodoxia.

A Confissão de Westminster, que se tornou o credo da maior parte das egrejas presbyterianas em paizes onde se fallava a lingua ingleza, é em grande parte baseiada na antiga Confissão Hollandeza; e os theologos que coordenaram os seus artigos copiaram muita coisa d’esses reformadores hollandezes recentemente emergidos da sua terrivel e prolongada lucta com o papismo hespanhol.

CAPITULO V

A REFORMA NA ESCOCIA

Preparação para a reforma, pag. 137.—A antiga Egreja celtica o a Educação, pag. 137.—A Escocia e o lollardismo, pag. 138.—A Escocia e Huss, pag. 138.—A Egreja romana na Escocia e a situação politica, pag. 142.—João Knox, pag. 141.—A Congregação e a Primeira Convenção, pag. 142.—A _Confissão escoceza_, pag. 144.—A rainha Maria e a Reforma, pag. 145.—O _Livro de Disciplina_, e a _Primeira Assembléa Geral_, pag. 147.—A educação, pag. 148.—A morte de Knox, pag. 149.—Os bispos tulchanos, pag. 150.—André Melville, pag. 152.—O Segundo Livro de Disciplina, pag. 152.

=Preparação para a Reforma.=—A Escocia, longe do centro da vida europeia no seculo dezeseis, recebeu, apezar d’isso, a Reforma quasi tão cedo como a maioria dos outros paizes, e acceitou-a mais completamente do que elles.

A região tinha sido preparada para ella mediante a educação do povo, mediante o constante commercio entre a Escocia e as nações continentaes, especialmente a França e a Allemanha, e mediante a sympathia dos estudantes escocezes para com os primeiros movimentos religiosos na Inglaterra e na Bohemia; e por outro lado a condição da Egreja romana, a pobreza das classes aristocraticas, e a situação politica do paiz coadjuvaram em certa escala os esforços de aquelles que anhelavam por uma reformação religiosa na Escocia.

=A antiga Egreja celtica e a Educação.=—A antiga Egreja celtica na Escocia, que havia conservado a sua influencia no paiz durante perto de setecentos annos, tinha sempre considerado a educação do povo como um dever religioso. Os seus regulamentos declaram que é tão importante ensinar os rapazes e as raparigas a ler e a escrever como administrar os sacramentos ou tomar parte na _intimidade das almas_, que era o nome que davam á confissão. O mosteiro celta era sempre um centro educativo, e n’alguns casos a instrução ahi ministrada era a melhor que se podia obter fóra de Constantinopla. Carlos Magno, ao estabelecer aquellas escolas superiores, que depois se tornaram as mais antigas universidades da Europa, procurou nos mosteiros celtas os primeiros professores. Quando a Egreja celta da Escocia cedeu o logar á Egreja romana, o seu systema educativo foi, em grande escala, adoptado, e a educação na Escocia continuou a ser muito melhor do que se poderia esperar do seu estado de civilisação.

As escolas cathedraes e monasticas produziram um grande numero de professores e alumnos que desejavam ver os seus trabalhos continuados n’uma universidade como as que n’aquella epoca estavam apparecendo em toda a Europa.

Ao principio os poucos recursos do paiz obstavam á fundação de universidades na Escocia, e mediante uma provisão feita pelo rei e pelos bispos foram enviados os melhores estudantes a Oxford, Cambridge e Paris. Professores viajantes foram da Escocia, com um certo numero de estudantes, aos centros, inglezes e continentaes, de instrucção. E era frequente que os jovens escocezes permanecessem fóra da patria na qualidade de leccionistas ou estudantes nomadas.

=A Escocia e o lollardismo.=—Este contacto academico approximou muito a Escocia dos grandes movimentos intellectuaes da Europa. No período em que os estudantes escocezes iam em grande numero para Oxford, Wycliffe exercia o professorado, e o lollardismo triumphava na grande universidade ingleza. Os estudantes escocezes voltavam contaminados com as maximas constitucionaes e as aspirações religiosas dos grandes homens de Inglaterra, e o lollardismo propagou-se na Escocia. Depois das universidades de Aberdeen, Glasgow e St.º André terem sido fundadas, no seculo quinze, os velhos arquivos dizem-nos que as auctoridades ecclesiasticas effectuaram inspecções com o fim de expurgar o corpo docente dos erros de Lollard. A seu devido tempo, o lollardismo passou das universidades para o publico, e os primeiros chronistas da Reforma nunca deixam de se referir aos lollards, ou homens biblicos de Kent, e á entrevista que tiveram com James IV.

Havia estudantes escocezes em Paris quando Pedro Dubois, Marsilio de Padua e Guilherme de Ockham ensinavam publicamente que a egreja è o povo christão, e que pode existir uma egreja sem papa e sem padres.

=A Escocia e Huss.=—A Bohemia e os actos de João Huss n’esse paiz eram bem conhecidos na Escocia. Calderwood falla-nos de Paulo Craw, bohemio que foi convencido de heresia a instancias de Henrique Wardlaw, bispo de St.º André, perante sete doutores em theologia, por divulgar as doutrinas de João Huss e de Wycliffe, «negando que houvesse qualquer modificação da substancia do pão e do vinho na Ceia do Senhor, e reprovando a confissão auricular e as orações aos santos defuntos.» Foi condenado á fogueira, e no momento da execução «metteram-lhe uma bola de cobre na bocca; para que o povo não ouvisse o seu justo protesto contra a injusta sentença d’elles.» Recentes investigações arqueologicas teem tornado evidente uma mais intima connexão entre a Escocia e a Bohemia do que até então se suspeitava.

=A Egreja romana na Escocia o a situação politica.=—A Egreja romana na Escocia era muito rica, e era talvez mais corrupta do que em qualquer outra parte fóra da Italia. A herança que lhe foi legada pela Egreja celta não era toda boa; os satyricos tinham começado a chamar a attenção para o contraste entre as profissões e as vidas dos ecclesiasticos, e os seus livros produziam grande impressão no povo baixo. «Quanto aos modos mais particulares por que muita gente na Escocia adquiriu algum conhecimento da verdade de Deus na epoca das grandes trevas,» diz João Row, «havia alguns livros, taes como _Sir David Lindsay, e as suas poesias ácerca das Quatro Monarquias_, que trata tambem de muitos outros pontos, e expõe os abusos do clero de aquelle tempo; os _Psalmos de Wedderburn_ e as _Balladas de Godlie_, em que se alteram para fins piedosos muitos dos antigos canticos papistas: e uma _Queixa_ feita pelos estropiados, cegos e pobres de Inglaterra contra os prelados, padres, freiras e outras individualidades da egreja que dispendiam prodigamente todos os dizimos e outros rendimentos ecclesiasticos em prazeres illicitos, de modo que elles, os queixosos, não podiam adquirir alimentação nem allivio, como Deus tinha ordenado. Estas coisas foram impressas, e penetraram na Escocia. Havia tambem peças dramaticas, comedias e outras historias notaveis, que eram representadas em publico; a _Satyra_ de Sir David Lindsay foi representada no amphitheatro de S. Johnston (Perth), na presença do rei James V, e de uma grande parte da nobreza e da classe abastada, durando a representação um dia inteiro, e fazendo sentir ao publico as trevas em que estava envolvido, e a perversidade dos homens da egreja, e mostrando-lhe como a Egreja de Deus seria se fosse dirigida de uma maneira differente, o que tudo foi muito benefico n’aquella ocasião.

As riquezas da Egreja romana da Escocia tinham, havia muito, excitado a inveja dos barões, que esperavam a ocasião em que podessem, sem risco, apoderar-se de parte dos bens ecclesiasticos. Durante muito tempo não occorreu similhante opportunidade. O clero era um senhorio que gozava da estima geral. Os vassallos da Egreja estavam em muito melhores condições, e tinham uma vida mais descançada, do que aquelles que cultivavam as terras dos barões e de outras personagens de menor cathegoria. Os camponezes escocezes rir-se-hiam, talvez, com as satyras de David Lindsay, mas gostavam da Egreja, e perdoavam-lhe os defeitos.

Quando os prégadores escocezes que tinham estado em Wittenberg, ou que tinham estudado as obras de Luthero e dos outros reformadores, ou que sabiam pela Escriptura o que era desejar ardentemente o perdão e a salvação, começaram a prégar um Evangelho reformado, então, e só então, é que o povo principiou a comprehender a mordaz significação das satyras que alvejavam a clerezia. As auctoridades ecclesiasticas fizeram todo o possivel para supprimir estes reformadores. Patricio Hamilton, Jorge Wishart e muitos outros prégadores cheios de fervor e de espiritualidade foram martyrisados; e estas crueldades contribuiram mais do que os sermões ou as satyras para que o povo escocez se desgostasse da Egreja romana. A sanguinaria Maria tinha tornado a Inglaterra protestante; e o cardeal Beaton, com os seus homicidios judiciaes, e particularmente com o homicidio do velho Walter Mill, fez com que o povo da Escocia se preparasse para Knox e para os lords da Congregação.

Durante umas poucas de gerações a politica exterior da Escocia tinha sido de inimizade para com a Inglaterra e de amizade para com a França. A alliança com esta nação havia motivado o casamento da James V com uma princeza da casa de Guise, e, mais tarde, os esponsaes e casamento da herdeira do throno da Escocia com o delphim da França. James V morreu, ficando regente a rainha franceza, cuja conducta incutiu nos espiritos de muitos escocezes o receio de que a Escocia viesse a tornar-se uma provincia de França. Tinham sido nomeados francezes para cargos de confiança na Escocia; o castello de Dunbar tinha uma guarnição franceza; e a regente projectava crear um exercito permanente, segundo o systema francez. Este alarme foi tomando tal vulto que o partido nacional, que por fim triumphou, chegou a inverter a politica hereditaria da Escocia, e ficou tendo por objecto uma alliança com a Inglaterra e uma guerra com a França. A Inglaterra era protestante, emquanto que os verdadeiros senhores da França eram os Guises, os cabecilhas do fanatico partido romanista, os homens que planearam a carnificina de S. Bartholomeu.

Tal era o estado das coisas na Escocia quando João Knox começou a sua admiravel obra de reformador.

O povo estava educado acima da sua civilisação, e podia comprehender e saudar as novas idéas, tendo, como tinha, costumes grosseiros, e vivendo, como vivia, uma vida rude. A egreja tinha perdido a confiança da nação em virtude da immoralidade do clero, e por ultimo tinha excitado as paixões do povo contra si com a sua cruel perseguição de homens de uma vida immaculada que prégavam um Evangelho puro. Alguns dos barões tinham partilhado a revivificação religiosa começada pelos prégadores reformados; outros estavam anciosos por livrar o paiz do dominio francez, e outros, ainda, queriam a todo o transe seguir o exemplo da Inglaterra e enriquecer á custa da egreja. Todos estes motivos, uns puros e outros não, estavam agitando o povo da Escocia nos annos que precederam o de 1560.

=João Knox=, nascido em Giffordsgate, nos arredores de Haddington, em 1505, educado na universidade de Glasgow, e ordenado padre em 1542, tornou-se primeiramente conhecido do povo da Escocia quando, muito novo ainda, andou em companhia de Jorge Wishart para proteger este prégador reformado emquanto elle dirigia a palavra a immensos auditorios. Depois do martyrio de Wishart, e do assassinio do cardeal Beaton, Knox aggregou-se á facção que havia tomado de assalto o castello de St.º André. Quando os defensores se viram forçados a capitular, os poucos membros da guarnição que estavam, incluindo Knox, foram enviados para França e condemnados á escravidão das galés. N’uma occasião em que puxava pelos remos, foi-lhe apresentada uma imagem da Virgem, de pau, para elle a beijar como meio de adoração. Knox recusou-se a honrar «o madeiro pintado», e atirou com a imagem ao mar, dizendo que, como ella era de pau, «não havia de ir para o fundo». Apoz um captiveiro de dezenove mezes, elle, juntamente com outros que haviam sido aprisionados em St.º André, foi solto a pedido de Eduardo VI de Inglaterra. Restituido á liberdade em fevereiro de 1549, foi direito a Inglaterra, onde se empregou como prégador viajante. A sua eloquencia, zelo e incomparavel coragem em breve o collocaram em primeiro plano. Foi-lhe offerecida a diocese de Rochester, mas recusou-a sob o fundamento de que não era sua crença que similhante cargo fosse auctorizado pelas Escripturas. Foi consultado ácerca da revisão dos _Artigos da Religião_, e suggeriu a celebre _declaração sobre o assumpto de ajoelhar na Communhão_, que ficou inserta no Segundo Livro de Oração Commum de Eduardo VI (1552). A subida de Maria ao throno obrigou-o, apoz uma arrojada tentativa de proseguir na sua obra de prégador nomada, a retirar-se para o continente.

Um anno foi gasto a visitar varias localidades da França e da Suissa. Em Genebra tornou-se o intimo amigo de Calvino. Apoz uma curta estada em Frankfort sobre o Maine, onde foi pastor da congregação de refugiados inglezes que se haviam ajuntado ahi, tornou-se o pastor da Congregação ingleza de Genebra em 1555. Durante a sua curta permanencia ahi tomou parte na composição de aquelle directorio do culto publico, que, sob os varios nomes de Livro de Ordem Commum, Livro de Genebra e Lithurgia de Knox, serviu de guia no culto publico da Egreja reformada da Escocia até á publicação e adopção do Directorio dos Theologos de Westminster. Collaborou tambem ma traducção da mais popular das primitivas versões da Sagrada Escriptura, a Biblia de Genebra.

Durante a sua ausencia foi ganhando a pouco e pouco a reputação de ser o unico homem competente para conduzir os esforços do partido reformista da Escocia a satisfactorio resultado final; e no outomno de 1555 regressou á sua terra natal. Com a sua coragem habitual, começou logo a fazer predicas nos aposentos que occupava em Edinburgo, e fez alguns gyros predicativos, como, por exemplo, a Forfarshire, sob a protecção de Erskine de Dun, e a West Lothian, sob a protecção de Lord Torphichen. Foi durante esta visita que Knox principiou a administrar a Ceia do Senhor á moda reformada. A primeira celebração foi em casa do conde de Glencairn, na primavera de 1556.

O Reformador, provavelmente, não achou o paiz em estado de entrar em qualquer grande movimento que o approximasse da Reforma, e partiu da Escocia para Genebra em Julho de 1556. Queixou-se da lentidão, timidez e falta de união entre os protestantes, quando alguns dos fidalgos lhe solicitaram, em Março de 1557, que voltasse, e mandou dizer que achava melhor addiar o seu regresso. Esta reprehenção deu logar a uma Confederação dos nobres, que depois se tornou bem conhecida na Escocia sob o titulo de Lords da Congregação.

=A Congregação e a Primeira Convenção.=—O turbulento caracter dos barões escocezes, e a fraqueza da auctoridade central, tanto do rei como dos estados, eram origem de constantes confederações de homens de todas as classes para realisarem, com segurança, emprezas, umas vezes legaes, e outras illegaes. Os confederados promettiam ajudar-se uns aos outros na obra que se propunham executar, e defender-se mutuamente das consequencias que se lhe seguissem. Estas combinações eram geralmente redigidas em fórma legal por notarios publicos, e o seu cumprimento tornava-se obrigatorio mediante todas as formulas de garantia que a lei facultava. Estes Lords da Congregação seguiram um costume predominante em todas as confederações quando se alliaram para manter e dar maior desenvolvimento á bemdita palavra de Deus e á Sua congregação, e para renunciar á congregação de Satanaz com todas as supersticiosas abominações e idolatria que lhe eram inherentes; mas introduziram um novo sentido espiritual n’esta alliança quando o seu pacto de federação se tornou tambem uma promessa feita a Deus em publico, como as que encontramos no Antigo Testamento, de serem verdadeiros e fieis á Sua palavra e direcção. Esta «faixa assignada pelos Lords», como Calderwood lhe chama, foi a primeira das cinco convenções que se tornaram famosas na historia da Egreja Reformada da Escocia.

A esta convenção estavam ligadas duas resoluções, em que os confederados resolveram insistir no uso do Livro de Oração de Eduardo VI nas paroquias que estivessem debaixo do seu governo e dar incremento á exposição das Escripturas, particularmente, pelas casas, até que as auctoridades permittissem a prégação publica «por verdadeiros e fieis ministros».

Este acto reanimou grandemente todos aquelles que desejavam uma reformação, e fez com que o povo tivesse ousadia para exprimir a sua aversão pelas supersticiosas ceremonias da Egreja Catholica Romana. A Côrte, em 1559, prohibiu de prégar todos aquelles que não estivessem auctorizados pelos bispos; e, como não se fizesse caso d’essa prohibição, os prégadores foram intimados a apresentar-se no tribunal de Stirling.

N’este entretanto Knox voltou á Escocia. Desembarcou em Leith, a 2 de Maio, e dirigiu-se a Perth, onde os Lords da Congregação se haviam reunido para proteger o seu prégador. Chegou a Perth a noticia, emquanto Knox estava prégando, de que os ministros reformados estavam proscriptos, e no dia seguinte, depois do sermão, quando um padre tentou dizer missa na presença de uma excitada multidão, produziu-se um tumulto, e a «vil turbamulta», segundo a expressão de Knox, entrou nos conventos dos franciscanos e dos cartuxos, e pôl-os a saque. A rainha regente marchou a atacar os sediciosos; o conde de Glencairn saiu a proteger os reformados; estava prestes uma guerra civil. Quasi immediatamente, porém, a rainha cedeu; de ambos os lados se entrou em negociações sem uma mutua confiança. Por fim os Senhores da Congregação marcharam sobre Edinburgo, tomaram posse da cidade em Outubro de 1559, e, convocando os estados, depozeram a regente. Concluiu-se um tratado com a Inglaterra, e Isabel mandou tropas inglezas para protegerem a Congregação. Houve um combate entre a facção romanista, auxiliada pelo exercito francez, e a Congregação, auxiliada pelas tropas que tinham ido de Inglaterra, e os francezes foram repellidos. A rainha regente morreu em junho do anno seguinte, e a Congregação ficou senhora da Escocia.

Os estados do reino reuniram-se, e foi posto á sua deliberação um pedido da Congregação, referente a uma reforma de doutrina, de disciplina, de administração dos sacramentos, e da distribuição do patrimonio da egreja. Em resposta, os estados requisitaram um summario das desejadas reformas doutrinaes; e de ali a quatro dias foi-lhes apresentado um decumento, conhecido depois pelo nome de _Confissão Escoceza_. Foi tomado em consideração, os prelados fizeram algumas, poucas, observações, e, posto a votos, foi approvado quasi por unanimidade. Egual sorte tiveram as outras tres Actas, que aboliam a jurisdicção do papa no interior do reino, revogavam todas as anteriores determinações do parlamento que eram contrarias á Palavra de Deus e á Confissão de Fé recentemente adoptada, e prohibida a assistencia á missa e a outras ceremonias idolatras. E a religião reformada ficou sendo a religião da Escocia legalmente auctorizada. A auctoridade, comtudo, era o poder dos Estados, independentemente do soberano; pois que a rainha regente tinha fallecido, e a sua filha, Maria, rainha da Escocia, ainda não havia regressado da França.