A Reforma

Part 15

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Organizou-se um novo exercito, e o principe de Orange, atravessando o Meuse, tomou Oudenarde, Roermonde, e diversas outras cidades. Foi acclamado em toda a parte, e a sua marcha foi tão facil que elle contava chegar em pouco tempo a Bruxellas. Uma vez lá, confiou na promessa que Coligny lhe fez de o ajudar a expulsar os hespanhoes do territorio flamengo. Quando, porém, parecia estar em pleno successo, eis que chega uma noticia que o deixou atordoado, como se (segundo as suas proprias palavras) «tivesse levado com um malho na cabeça». Coligny e os huguenotes francezes tinham sido massacrados na vespera de S. Bartholomeu. Tudo estava perdido, pelos modos. Tornava-se necessario abandonar Mons, que Luiz de Nassau tinha tomado pouco antes; e o exercito do principe, apoz a retirada, foi dispensado do serviço.

Alba saiu de Bruxellas, e vingou-se atrozmente de Mons, Mechlin, Tergoes, Naarden, Haarlem e Zutphen. As clausulas da capitulação de Mons foram ignominiosamente violadas. Mechlin foi, de caso pensado, saqueada e incendiada pelas tropas hespanholas. O general a quem foi confiado o esbulho de Zutphen recebeu ordem para queimar todas as casas e matar todos os habitantes. Haarlem foi sitiada, resistiu desesperadamente, e por fim capitulou sob a promessa de um tratamento benevolo. Quando os hespanhoes tomaram posse d’ella, degolaram, a sangue frio, todos os soldados hollandezes, e com elles muitos centos de cidadãos, e, ligando os corpos a dois e dois, lançaram-n’os na lagoa de Haarlem. Dir-se-hia que os catholicos romanos tinham resolvido exterminar os protestantes quando vissem que não podiam convertel-os.

Algumas cidades resistiram, e a causa da liberdade não estava inteiramente perdida. O filho de Alba, D. Frederico, o verdugo de Haarlem, foi derrotado na pequena cidade de Alkmaar, sendo obrigado a retirar-se. Os «Mendigos do Mar» fizeram frente á esquadra hespanhola que fôra enviada para os destroçar, dispersaram os navios e fizeram prisioneiro o almirante. A nação de pescadores e de lojistas, de quem a Hespanha e a Europa haviam escarnecido por verem a paciencia com que supportavam as indignidades, tinha-se por fim mostrado uma raça de heroes resolvidos a não se sujeitarem mais ao jugo hespanhol. Guilherme o silencioso, a alma da revolta, tornou-se de um momento para o outro uma importante personagem na Europa, que os reis precisariam de lisongear. Publicou uma carta dirigida aos principes da christandade, para justificar a revolta dos seus compatriotas. «Alba», disse elle, «ha de tingir todos os rios e regatos com o nosso sangue e pendurar em cada arvore da Hollanda um hollandez para que os seus desejos de vingança fiquem satisfeitos. Pegámos, pois, em armas contra elle, em defeza das nossas mulheres e dos nossos filhos. Se elle tiver mais força do que nós, pereceremos, mas antes ter uma morte honrosa, e legar um nome aureolado de gloria, do que curvar os pescoços deante do jugo e permittir que a nossa terra fique escravisada. É por isso que as nossas cidades se comprometteram a resistir a todos os cercos, a soffrer todas as calamidades, a mesmo, se tanto necessario fôr, lançar fogo ás casas e deixar-se morrer nas chammas, o que tudo seria preferivel a obedecer ás intimativas d’esse algoz sedento de sangue».

A tormenta não podia deixar de inquietar Alba, apezar de toda a confiança que elle tinha em si proprio. Pediu ao monarca que o mandasse retirar dos Paizes Baixos. Como todos os tyrannos, considerou sempre efficacissimo o seu systema, mesmo depois dos revezes soffridos. Era sua opinião que se tivesse sido um pouco mais severo, se tivesse accrescentado mais algumas gotas do sangue que fez derramar, o seu exito seria completo. Quando Filippe, accedendo ao seu pedido, o demittiu do cargo que occupava, não teve outro conselho a dar ao seu successor senão o de mandar arrazar as cidades em que elle não podera pôr uma guarnição hespanhola.

=Requescens y Zuniga, o novo representante do rei.=—A pessoa que Filippe II escolheu para substituir o duque de Alba foi D. Luiz Requescens y Zuniga, membro da mais alta aristocracia de Hespanha e cavalleiro de Malta. Era elle um homem de indole magnanima, de nobre caracter, e, se tivesse sido enviado á Hollanda dez annos mais cedo, a historia d’esse paiz teria sido, certamente, muito diversa. Chegou, porém, tarde de mais, e elle em breve o reconheceu. A Hespanha dispunha ainda, n’aquella epoca, de um thesouro inexgotavel e de um illimitado numero de soldados. Os patrioticos defensores da Hollanda não poderiam leval-a de vencida em campo aberto; comtudo, o novo commandante hespanhol não os intimidou. Em todas as cidades fortificadas se luctava com a energia do desespero, e os «Mendigos do Mar» alcançavam triumphos sobre triumphos. E, comtudo, aos patriotas faltava gente e dinheiro. Requescens, depois de observar tudo isto, escreveu a Filippe: «Antes da minha chegada aqui, não comprehendia como os rebeldes podiam sustentar frotas tão consideraveis, quando vossa magestade nem uma, sequer, podia. Agora vejo que os homens que se batem pelas suas vidas, pelas suas familias, pelos seus bens, pela sua religião, embora falsa, pela sua causa, em summa, não exigem paga; dão-se por satisfeitos com a sua ração quotidiana». Tratou logo de adoptar um methodo inteiramente opposto ao de Alba. Aboliu os odiados impostos, dissolveu o Conselho de Sangue, e proclamou uma amnistia geral. Procurou também chegar a um accordo com os insurrectos.

Os habitantes da Hollanda e da Zelandia tinham tido uma amarga experiencia de amnistias e accordos hespanhoes. «Temos ouvido demasiadas vezes», disse Guilherme, «as palavras Combinado e Perpetuo. Ainda mesmo que dessemos ouvidos ás vossas propostas, quem nos garante que o rei as não daria depois por não feitas, sendo absolvido d’esse delicto pelo papa?» A lucta continuou, portanto, e Requescens, que detestava a politica do seu predecessor, teve de proseguir n’uma guerra que essa mesma politica havia provocado.

A sorte das armas parecia manter-se inalteravel. Os hespanhoes tinham saido sempre victoriosos em campo aberto, e quando no principio da primavera de 1574 Guilherme e seu irmão Luiz entraram na Hollanda á frente de um novo exercito composto, na sua maioria, de mercenarios allemães, alcançaram outra victoria na Mooker Haide, mais decisiva, segundo pareceu, do que qualquer outra que tivessem ganho anteriormente. O exercito de Guilherme foi inteiramente derrotado, perecendo os seus dois irmãos Luiz e Henrique, e com elles Christovão, Conde Palatino. Mais uma vez se afigurou que os hollandezes acabariam, por fim, n’uma completa submissão aos hespanhoes. Como sempre, porém, os heroes da patria, vencidos em terra, eram vencedores no mar, e nas cidades fortificadas combateu-se com tal denodo e perseverança que os hespanhoes não poderam deixar de reconhecer a sua derrota.

Os «Mendigos do Mar» pozeram em debandada uma frota no principio d’esse anno. Atacaram outra no Scheldt, apoderando-se de quarenta navios e mettendo o resto no fundo.

=O cerco de Leyden.=—A cidade conservava-se havia muito tempo em poder dos patriotas, e os hespanhoes faziam o maximo empenho em se apoderar d’ella. Luiz de Nassau fez levantar o primeiro cerco que lhe pozeram, mas desde maio de 1574 que o inimigo lhe dirigia repetidos e vigorosos ataques. Não foi possivel a Guilherme, depois da batalha de Mooker Haide, encontrar-se frente a frente com as tropas hespanholas. Precisava de todos os seus homens para guarnecer as cidades fortificadas. Leyden estava em perigo de ser conquistada, e não se lhe podia enviar soccorro algum. Achava-se situada n’uma planicie cheia de pomares e de searas que já pouco tempo esperariam pela ceifa, e esta planicie, como quasi todas as da Hollanda, estava abaixo do nivel do mar, sendo, por conseguinte, facil inundal-a, bastando para isso destruir os diques que se oppunham á invasão das ondas. Guilherme não viu outro meio de a soccorrer senão fazendo chegar a esquadra junto dos seus muros, e apresentou esse alvitre aos respectivos habitantes, que o acceitaram. Foram, pois, abertos os diques, e a esquadra dos «Mendigos do Mar» preparou-se para entrar com a maré e navegar em seguida sobre submersas hortas, pomares e campos de semeadura. O plano era este, mas levantou-se a contrarial-o uma chusma de difficuldades. Tornou-se uma tarefa difficil arrombar os diques; a agua começou a entrar, mas lentamente; violentissimos ventos a impelliam para fóra. Entretanto os viveres eram cada vez mais escassos na cidade, e a faminta população, subindo aos campanarios, via a agua sempre lá ao longe, via que os soccorros se approximavam muito vagarosamente, como se nunca houvessem de chegar, ou então como se houvessem de chegar tarde de mais. Os hespanhoes, que tambem conheciam o perigo e a miseria em que a cidade se encontrava, promettiam amnistias e uma honrosa capitulação. «Temos dois braços», exclamou do alto das muralhas um dos defensores, «e quando a fome nos apertar muito comemos o esquerdo, e deixamos o outro para manejar a espada». Quatro mezes se passaram n’um indescriptivel soffrimento, e por fim, em 3 de outubro, o mar chegou ao sopé das fortificações, e com elle a frota hollandeza. Os hespanhoes fugiram aterrorisados, pois que os «Mendigos do Mar» cairam sobre elles, soltando o seu costumado grito de guerra: «Antes turcos do que papistas». Os marinheiros e os habitantes da cidade dirigiram-se á sumptuosa egreja para dar graças a Deus pelo livramento que, por Sua misericordia, lhes viera do mar. Quando a numerosa congregação estava entoando um psalmo de libertação, as vozes calaram-se de subito, e não se ouvia senão soluços. Toda a gente, enfraquecida pelas longas vigilias e pelas privações, tendo agora uma consciencia nitida do seu inesperado livramento, se pozera a chorar.

A boa nova foi levada a Delft por Hans de Brugge, que chegou a esta localidade quando o principe de Orange estava assistindo ao serviço religioso da tarde, sendo só depois de elle terminar que o povo soube do succedido. O principe, apezar de doente, montou a cavallo, e partiu logo para Leyden, para tomar parte no regozijo publico. Propoz que, em acção de graças, se fundasse na cidade um estabelecimento de instrucção, e foi assim que teve origem a famosa universidade de Leyden. A cidade tornou-se o centro do protestantismo das provincias. Picou sendo na Hollanda o que Wittenberg era na Allemanha, Genebra na Suissa, e Saumur em França.

=Negociações entre as provincias do sul e as do norte.=—O levantamento do cerco de Leyden mareou um novo periodo na guerra da independencia. O oommissario hespanhol via que se estava formando, vagarosa e quasi imperceptivelmente, um novo estado protestante, e as difficuldades que de todos os lados o assediavam eram, pode-se dizer, invenciveis. Estava elle luctando com ellas, quando de subito morreu, em 5 de Março de 1576. A sua morte inesperada foi um golpe para a dominação hespanhola, e os acontecimentos que se lhe seguiram mostraram aos neerlandeses que eram catholicos romanos aonde o governo hespanhol poderia tel-os conduzido. A morte de Requescens produziu uma certa perturbação na politica hespanhola. Desde o tempo do duque de Alba o pagamento das tropas tinha sido feito com difficuldade, e agora os cofres publicos estavam despejados, e os soldados queixavam-se de se lhes dever alguns mezes de soldo. Por fim, perdida a esperança de que essa divida fosse liquidada, revolucionaram-se. «Dinheiro ou liberdade para saquear qualquer cidade», era o seu grito. A guarnição de Aalst foi a primeira a revoltar-se, sendo secundada pelas de quasi todas as cidades fortificadas das provincias do sul. Os revoltosos pozeram a saque as cidades de Aalst, Maestricat e Antuerpia. Deram-se por toda a parte horriveis scenas de roubo e assassinio e durante tres calamitosos dias de novembro a populosa e opulenta cidade de Antuerpia soffreu tudo quanto sobre ella podia ser exercido por uma soldadesca dissoluta e brutal.

O principe de Orange aproveitou esta sublevação para avançar com as suas tropas, e dentro em pouco estava de posse da importante cidade de Ghent. Os habitantes das provincias do sul tanto nobres como plebeus, tinham, por sua vez, sido victimas de aquellas horrorosas calamidades que os seus compatriotas os protestantes do norte, tinham, havia muito, experimentado. Antuerpia tinha soffrido; Bruxellas, mais resoluta, pegou em armas e expulsou os soldados hespanhoes. Os nobres de Flandres e de Brabante estavam anciosos por se unirem ás provincias do norte; e pediram a Guilherme que os livrasse dos hespanhoes. Em Ghent realisou-se um congresso de representantes das provinciais do norte e do sul, ficando assentes os preliminares de uma duradoura união. Foi a isto que se chamou a _Pacificação de Ghent_, que foi assignada por delegados de dezesete provincias.

Por este tratado eram expulsos os hespanhoes, estabelecia-se uma completa liberdade de commercio entre as provincias do norte e as do sul, ficavam revogados todos os edictos contra os protestantes, concedia-se protecção aos catholicos romanos, todas as provincias se uniam para constituir um unico Estado, e o principe de Orange ficava sendo _statholder_ até posterior decisão, que seria tomada depois de se retirarem os hespanhoes.

=D. João de Austria nos Paizes Baixos.=—A _Pacificação de Ghent_ alarmou em subido grau os politicos de Madrid. D. João de Austria, irmão de Filippe, e homem de brilhante reputação, foi enviado aos Paizes Baixos na qualidade de _statholder_ com plenos poderes. Os estados recusaram reconhecel-o emquanto elle não fizesse sair as tropas hespanholas. Apoz algumas negociações, as provincias obtiveram, apparentemente, que elle attendesse ás suas aspirações com a publicação do _Edictum Perpetuum_, que garantia a expulsão das tropas, a tolerancia para com os protestantes, e a unificação dos estados; por algumas cartas confidenciaes que foram interceptadas, viu-se, porém, que Filippe e o seu regente não haviam abandonado a antiga politica de repressão, e o conhecimento d’este facto uniu novamente os catholicos romanos do sul com os protestantes do norte. Os Estados Geraes não reconheceram a sua auctoridade, e designaram o principe de Orange para governador de Brabante. Havia, comtudo, muita difficuldade em que o norte e o sul se unissem por laços affectuosos. A tolerancia era impossivel n’aquelles tempos, em que os credos differentes se hostilisavam por uma fórma violenta, e as rivalidades locaes não se podiam vencer facilmente. Os nobres de Flandres e de Brabante representavam dois papeis, e essa sua duplicidade animou D. João de Austria a atacar as forças do principe de Orange. A guerra terminou com a batalha de Gemblours, em que os hespanhoes alcançaram uma completa victoria. O principe, comtudo, mostrou-se, como sempre, tão grande na derrota como na victoria, e o _statholder_ sentia fugir-lhe a esperança de que a totalidade da Hollanda, se conservasse fiel ao rei hespanhol. Morreu, cercado por todas estas difficuldades, em 1 de Outubro de 1578, e succedeu-lhe Alexandre de Parma, o mais habil, talvez, dos representantes de Filippe.

=Alexandre de Parma nos Paizes Baixos.=—Alexandre Farnese, principe de Parma, filho de Margarida de Parma, já tinha desempenhado anteriormente aquelle cargo, e, no dizer de alguns auctores, foi o ultimo dos grandes homens que a Hespanha possuiu no seculo dezeseis. Era um excellente general, um habil politico, e um homem de tacto. Encontrou as coisas nas provincias n’uma grande confusão. O seu unico elemento de força era a rivalidade que existia entre o norte protestante e o sul catholico romano.

O Tratado de Ghent tornou-se letra morta. As provincias do norte suppozeram que Flandres e Brabante as tinham traido nos negocios de que resultou a batalha de Gemblours. As provincias do sul não queriam submetter-se á dominação dos herejes do norte. Alexandre aproveitou-se habilmente d’esta desunião para prender as provincias do sul á Hespanha, com o inevitavel resultado de que os protestantes do norte se uniram mais estreitamente uns aos outros e se tornaram mais resolutos na sua determinação de permanecerem livres.

=O Tratado de Utrecht.=—Em 1579, a Hollanda, a Zelandia, Guelders, Zutphen, Utrecht, Overyssel e Gröningen fizeram-se representar n’uma assembléa, e redigiram o celebre Tratado de Utrecht, que continha, em esboço, a futura constituição das provincias unidas. As Sete Provincias não se separaram da Hespanha. Diziam-se ainda subditas da corôa hespanhola, mas reivindicavam o direito de darem culto a Deus e de se governarem segundo o seu modo de ver. Dois annos depois repelliram inteiramente o jugo hespanhol, e proclamaram a sua independencia, escolhendo Guilherme de Orange para seu governador perpetuo. Isto teve logar em Julho de 1581, em resposta a uma proclamação de Filippe, em que este denunciava Guilherme como um inimigo da humanidade, e offerecia uma recompensa de vinte e cinco mil corôas de oiro, e, além d’isso, um titulo de nobreza e o perdão de todos os crimes commettidos anteriormente, a quem assassinasse o principe.

Do Tratado de Utrecht em deante, as Provincias Unidas foram attingindo gradualmente uma completa independencia politica e tornaram-se uma potencia protestante. Guilherme da Orange foi em 1584, morto a tiro por um fanatico catholico romano chamado Gerardo, cujos herdeiros reclamaram e obtiveram parte da recompensa promettida por Filippe. A sua obra não terminou com a sua morte. As Sete Provincias elegeram, para Governador em seu logar, a seu filho Mauricio, mancebo de dezesete annos, mas já educado por seu pae para ser um habil general e um prudente chefe politico. Poz-se resolutamente á testa de aquelle conflicto com a Hespanha, que parecia interminavel. Isabel de Inglaterra prestou-lhe o seu auxilio, com o qual ella ficou mais prejudicado do que outra coisa. Depois da destruição da Armada, e do golpe que esse facto vibrou na monarquia hespanhola, alcançou uma notavel victoria sobre as tropas catholicas romanas. A guerra durou até 1604, ora vencendo uns ora vencendo outros, e, por fim, no referido anno os hollandezes abalaram fortemente o dominio hespanhol, apoderando-se dos navios que voltavam das indias Occidentaes e Orientaes, carregados de preciosidades. Em 1607 combinou-se um armisticio, e em 1609 ficou resolvido que houvesse treguas durante doze annos, tendo-se, porém, convertido essas treguas n’uma paz definitiva. Os hollandezes tinham conquistado a sua independencia, e constituiam uma poderosa nação protestante, cuja supremacia no mar só era disputada pela Inglaterra.

=A Egreja Hollandeza. Sua organização e confissão.=—Durante os annos de dura perseguição que o protestantismo soffreu nos Paizes Baixos desde o principio da sua existencia, os protestantes, não obstante os rigores postos em pratica contra elles, poderam organizar-se sob a fórma de egreja, e publicar uma confissão. Isto não foi feito sem dificuldades, que até entre elles proprios surgiram. Os habitantes dos Paizes Baixos tinham recebido de varias origens a nova fé, e cada qual entendia que só era verdadeira Reforma aquella que primeiramente havia chegado ao seu conhecimento. Os primeiros reformadores dos Paizes Baixos haviam aprendido o Evangelho em Wittemberg, com Luthero, e nas provincias do norte eram numerosos os lutheranos. Um pouco mais tarde as opiniões de Zwinglio penetraram na Hollanda, e foram adoptadas por pessoas que tomavam muito a peito a pureza da religião. Nas provincias do sul a Reforma foi transmittida ao povo por theologos francezes, educados no calvinismo. E assim, nos Paizes Baixos, havia adherentes de Luthero, de Zwinglio e de Calvino. Cada um dos partidos differençava-se dos outros, especialmente pelo que dizia respeito ao governo da egreja; e, posto que estas differenças fossem quasi vencidas, reappareceram mais tarde na contestação que teve logar entre a egreja e o Estado Protestante, acerca da vida e governo da egreja. Gradualmente, comtudo, o calvinismo foi levando de vencida o lutheranismo e o zwinglianismo, e a egreja dos neerlandezes tornou-se calvinista, tanto na doutrina como na disciplina.

=A Confissão Hollandeza.=—N’uma epoca relativamente afastada, isto é, em 1559 (alguns dizem que em 1561) um joven pastor flamengo, Guido de Brés, juntamente com Adriano de Saravia, Modetus, capellão de Guilherme de Orange, e Wingen, prepararam uma Confissão de Fé, para, diziam elles, justificar pela Escriptura a religião reformada.

Guido de Brés, que foi um dos primeiros evangelistas e martyres dos Paizes Baixos, nasceu em 1540, na cidade de Mons. Havia estudado para padre, e converteu-se dos erros do romanismo mediante o estudo das Escripturas Sagradas. Depois da sua conversão fugiu para Inglaterra, onde, nos dias de Eduardo VI, aprendeu theologia protestante. Foi depois para a Suissa, e ao voltar tornou-se um ardente evangelista no norte da França e no sul dos Paizes Baixos. Era um ardente admirador da Confissão da Egreja Franceza, e modelou a sua Confissão para a Egreja Flamenga pela celebre _Confessio Gallica_.

Esta Confissão, a Confissão Belga, como lhe chamavam, foi revista por Francisco Junio, discipulo de Calvino, em 1561, e foi apresentada ao rei, Filippe II, em 1562, assim como a Confissão de Augsburgo foi apresentada a seu pae Carlos V. O eloquente discurso que acompanhou a Confissão pode ser comparado á dedicatoria a Francisco I, que prefaciou os _Institutos_ de Calvino. Os protestantes negam que sejam rebeldes ao governo, e declaram que só o que desejam é liberdade para adorar a Deus segundo a consciencia e a Divina Palavra. De modo algum negarão a Christo, ainda mesmo que tenham, segundo a linguagem que empregaram, de «offerecer as costas ás chibatas, as linguas ás facas, e os corpos ao fogo, certos de que os que seguem a Christo devem carregar com a cruz de Christo, e renunciar-se a si proprios».

Esta Confissão, gradualmente adoptada pelos protestantes dos Paizes Baixos, introduziu o calvinismo nas egrejas d’essa parte do mundo.

=A Constituição da Egreja Hollandeza.=—Em 1563, isto é, quando ainda havia perseguição, os delegados de varias congregações protestantes reuniram-se em synodo, e concordaram n’um systema de governo de egreja, que copiou, em grande parte, os seus principios das _Ordenanças Ecclesiasticas_ de Genebra; e a constituição da egreja, quasi desde o seu inicio, foi baseada no modelo de Genebra. A organização presbyteriana, com pastores, professores, presbyteros e diaconos, não foi adoptada nos Paizes Baixos sem protesto da parte dos lutheranos, mas quando veiu sobre elles a feroz perseguição do duque de Alba a fórma presbyteriana do governo da Egreja foi a que melhor resistiu a todos os embates, sendo por fim a que se tornou preponderante. O systema consistorial de Luthero é apenas possivel quando o Estado esteja em favoraveis disposições para com a egreja, mas o presbyterianismo, como a França, a Escocia e os Paizes Baixos mostraram, pode manter-se, até mesmo quando a «Egreja sentir o peso da cruz.»

N’uma assembléa da Egreja que teve logar em Dordrecht, em 1574, a primeira assembléa geral da Egreja Hollandeza, foi revista, ampliada e formalmente adoptada uma serie de artigos que já haviam sido approvados n’uma reunião em Emden, e que continham os principaes elementos da organização presbyteriana. Todos os ministros tinham de obedecer ás _assembléas classicas_, ou presbyterios; e todos os presbyteros e diaconos tinham de assignar a Confissão de Fé e os artigos respeitantes ao governo da Egreja.