A Reforma

Part 14

Chapter 143,831 wordsPublic domain

Carlos V estabeleceu a Inquisição tanto em Hespanha como nos Paizes Baixos, e, de accordo com o que ella preceituava, publicou alguns edictos cheios de violencia, aos quaes, não obstante a passiva opposição dos regentes, não houve remedio senão obedecer. Foi prohibido imprimir, copiar, conservar escondido, comprar, vender ou dar qualquer livro de Luthero, Œcolampadius, Zwinglio, Bucer, Calvino, ou qualquer outro hereje. Foi tambem prohibido damnificar, de uma ou outra fórma, a imagem de qualquer santo canonizado, assistir a reuniões hereticas, ler as Escripturas, e entrar n’uma discussão ou controversia religiosa. Os transgressores, se se retractassem, eram mortos á espada ou enterrados vivos; se não se retractassem, eram queimados, com confiscação de todos os seus bens. Aquelle que denunciasse um hereje recebia uma boa parte da sua fortuna, logo que fosse provada a veracidade da accusação. Os suspeitos de heresia eram obrigados a abjurar, e, se tornava a haver duvidas a seu respeito, procedia-se com elles como se fossem herejes declarados. Durante o reinado de Carlos houve todos os annos um bom numero de execuções, e, não obstante, a Reforma ia-se propagando. Em 1550 já tinham fugido á inquisição 10:000 pessoas, que procuraram refugio em paizes estrangeiros. Filippe, a cujo conhecimento isto chegou, era de opinião que o terrorismo ainda não tinha sido exercido senão em pequena escala; concedeu, portanto, mais amplos poderes á inquisição, e ordenou á regente e ao seu conselho que prestassem aos inquisidores todo o auxilio que lhes fosse necessario.

=Os novos bispados.=—No principio do seculo dezesseis havia nos Paizes Baixos quatro bispados: o de Arras, o de Cambray, o de Tournay e o de Utrecht. Filippe, só com uma pennada, propoz que se acerescentassem quatorze. O cardeal Caraffa, já então o papa Paulo IV, deu logo o seu apoio a essa proposta, pois que, disse elle, a heresia andava desenfreiada pelos Paizes Baixos, e a seara era abundante mas poucos os obreiros. O clero dos Paizes Baixos protestou; o povo, indignado, appellou para a constituição do paiz, que não permittia que o clero fosse augmentado sem o consentimento d’este. Todos os protestos, porém, foram baldados. Em 1560 o paiz foi dividido em quinze bispados, que ficaram sobre as ordens de tres arcebispos, tendo por primaz o arcebispo de Mechlin; e Filippe alcançou assim um bom numero de voluntarios instrumentos de repressão, assim como uns poucos de tribunaes onde os casos de heresia fossem julgados e sentenciados.

=Tornar-se-ha hespanhol o paiz?=—No entretanto o paiz ia-se alarmando. Estas mudanças foram para a maioria dos neerlandezes indicios de que se intentava reduzir os Paizes Baixos á condição de Hespanha. O patriotismo identificou-se com a Reforma, e a causa nacional e a religião evangelica caminharam, por assim dizer, de mãos dadas.

Isto deu um grande impulso ao movimento protestante. Tornou-se a causa popular. Multidões intervieram nos castigos ecclesiasticos, apoderaram-se das victimas condemnadas á morte pela inquisição, promoveram tumultos por occasião da missa, e por vezes atacaram as egrejas e derrubaram as imagens.

Os nobres assustaram-se, e reuniram-se para formularem as suas queixas. O objecto da sua ira era Granvella, que tornaram culpado de todas as medidas dignas de censura. Filippe, fingindo concordar com os nobres, transferiu Granvella para outro ponto; mas o velho systema de terrorismo continuou, e os nobres perceberam que o rei, com a sua usual duplicidade, os queria fazer passar por culpados da tyrannia contra a qual haviam protestado.

A proclamação dos decretos do Concilio de Trento provocou uma nova resistencia. O principe de Orange, com toda a intrepidez, fallou contra a proposta em termos violentos; houve uma assembléa de nobres, e resolveu-se encarregar o conde Egmont da missão especial de informar o rei dos sentimentos do povo das provincias; porque ainda se julgava que Filippe ignorava certas coisas de que aliás estava perfeitamente informado.

Egmont era um zeloso romanista, e tinha provado ser um subdito leal do monarca hespanhol. Se alguem podia tirar partido de Filippe, esse alguém, segundo a opinião geral, era Egmont. Partiu para Madrid em 1565, onde foi recebido com apparente cordialidade, e assegurou-se-lhe que as representações dos nobres seriam attendidas.

Como de costume, Filippe II não tinha intenção alguma de cumprir as suas promessas. Deu, pelo contrario, ordem para que em todas as cidades fossem proclamados, de seis em seis mezes, os decretos de Trento, os edictos com caracter de perseguição e os sanguinarios mandatos da inquisição. Segundo contam os historiadores, o effeito d’isto foi quasi indescriptivel; o commercio ficou paralysado, as industrias desappareceram, e todo o paiz parecia ter passado por um enorme cataclismo. Distribuiam-se pamphletos, que eram avidamente lidos, contendo apaixonados appellos ao povo para que pozesse termo á tyrannia. Um d’elles, que tomou a fórma de uma carta aberta ao rei, dizia: «Estamos prontos a morrer pelo Evangelho, mas lemos n’elle «Dae a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus.» Damos graças a Deus por até os nossos inimigos se verem constrangidos a dar testemunho da nossa piedade e da nossa innocencia, e tanto assim que se diz commummente: «Fulano não pragueja, porque é protestante.» «Fulano não pratíca immoralidades nem se embriaga, porque pertence á nova seita». «E, comtudo, atormentam-nos com toda a especie de castigo que se pode inventar.»

=Os mendicantes.=—Os que entre os jovens fidalgos e burguezes tinham um espirito mais ousado resolveram unir-se para resistirem á tyrannia. Os seus chefes naturaes, que eram o principe de Orange e os condes de Egmont e de Horn, conservaram-se afastados, por considerarem insensata aquella empreza. Os confederados resolveram começar dirigindo-se em solemne procissão á regente para lhe pedirem a abolição da inquisição e a revogação de alguns dos edictos. Encontraram-se com a duqueza em 5 de Abril de 1556, e leram-lhe a representação que tinham preparado; e a regente, perturbada com a imponencia do acto, convocou a toda a pressa o conselho para saber o que havia de responder. Barlaymont, um dos seus conselheiros, e pessoa muito da intimidade de Filippe, foi de opinião que «aquelle bando de mendicantes» devia ser posto, á força, fóra do palacio, A duqueza despediu-os cortezmente, mas houve quem lhes referisse as palavras de Barlaymont. Achando-se trezentos d’elles reunidos n’um banquete para deliberarem, o conde Brederode levantou-se, e disse: «Chamam-nos mendicantes. Acceitamos esse nome. Empenhamos a nossa palavra em como havemos de resistir á Inquisição, e conservar-nos fieis ao rei e á Sacola do Pedinte.» Em seguida poz aos hombros uma sacola de coiro como as que usam os mendigos que andam de terra em terra, e, deitando vinho n’um copo de madeira, bebeu á prosperidade da causa.

=Prégações ruraes.=—O nome de mendicantes foi adoptado com grande enthusiasmo, e fez-se do distinctivo um uso quasi universal. Por toda a parte se viam burguezes, advogados, aldeãos e fidalgos com a sacola de coiro dos mendigos vagabundos. O povo começou a compenetrar-se da força de aquella aggremiação. Realisaram-se logo grandes conventiculos, ou prégações ruraes, em todo o paiz. O povo vinha armado, accomodava as mulheres e as creanças no ponto mais central, e punha sentinellas em redor, collocando-se os homens, armados, um pouco fóra do ajuntamento, e assim escutavam as pregações dos ministros excommungados. Liam as Escripturas, cantavam hymnos, e ouviam orações feitas na sua lingua natal. Era tal a agglomeração de gente, e estavam tão vigilantes e tão bem armados, que os soldados não se atreviam a atacal-os. A regente convenceu-se de que, se não lhe mandassem mais forças hespanholas, não poderia conter a excitação popular.

O povo, encorajado com a immunidade com que as prégações ao ar livre se faziam, começou a atacar os logares de culto catholicos romanos. Quando os padres passavam pelas ruas de Antuerpia levando processionalmente a milagrosa imagem da Virgem o Povo exclamava: «Mayken! Mayken! (Mariasinha) chegou a tua hora!» Uma turba de marinheiros invadiu a cathedral e destruiu os paramentos, as imagens e os quadros. N’outros pontos, como Tournay e Valenciennes, tiveram logar outros actos de violencia. A regente via-se sem forças para pôr termo aos tumultos, e, em desespero, concedeu ao povo a abolição da inquisição e a tolerancia da doutrina protestante. Confiando na sinceridade d’estas concessões, os nobres tomaram sobre si o encargo de apaziguar a população e de reprimir as desordens que se tinham levantado, e Guilherme de Orange e o conde Egmont tomaram uma parte proeminente na obra da pacificação.

Filippe, encolerizado pelo facto de a regente se haver desviado do regimen que elle adoptara, de desapiedada repressão, determinou, na primeira opportunidade, subjugar aquelle paiz e exterminar os cabeças de motim. Com a sua habitual dissimulação, procurou disfarçar os seus intentos, e o conde Egmont foi por elle enganado. O principe de Orange, sempre bem informado, e cauteloso por indole, sabia algumas coisas e suspeitava de outras que estavam para sobrevir á sua desditosa patria, e preveniu Egmont do perigo que este corria. Elle sabia que o rei havia de voltar ao seu velho systema de repressão; que os nobres que haviam dirigido o movimento não estavam suficientemente unidos para resistir; que os chefes menos cautos dos Mendicantes se haviam de revoltar; e que o rei havia de tomar, indescriminadamente, uma furiosa represalia.

Os mendicantes fizeram uma tentativa para se apoderarem de Walcheren; reuniram-se em grande numero em Anstruweel, e ameaçaram Antuerpia. Na sua marcha, destruiram reliquias e despojaram as egrejas das imagens e dos paineis. Egmont, querendo provar a sua fidelidade ao rei, caiu sobre esses insurgentes e desbaratou-os, terminando, por esse modo, a rebellião.

O rei, porém, tinha achado o pretexto que procurava; e o principe de Orange tinha tão exactamente interpretado o curso dos acontecimentos que, quando elle ainda ia a caminho do seu voluntario exilio, da Allemanha, ia nos Paizes Baixos o duque de Alba, á frente de um novo corpo de exercito hespanhol.

=O duque de Alba nos Paizes Baixos.=—Fernando Alvarez de Toledo, duque de Alba, era um dos servidores de Filippe II que mais se parecia com o seu amo. Era um hespanhol fanatico, um ignorante em todos os assumptos politicos e economicos, um avarento, e um impudente enganador. Publicações recentes teem demonstrado que elle possuía muito pouco do talento que os remotos historiadores lhe teem attribuido. O que o recommendou a Filippe foi a sua cruel obstinação, a sua dedicação por elle, rei, a sua fanatica inclinação pela egreja catholica romana, e o seu desprezo por todas as fórmas constitucionaes e por todos os impulsos de misericordia.

Filippe, ao mandar o duque de Alba e as tropas, continuava a dissimular. Assegurou á regente que não era sua intenção fazel-a substituir por elle, e fez todo o possivel para acalmar as suspeitas dos nobres e dos estados dos Paizes Baixos. Ao mesmo tempo dava ordem ao duque para acabar com a Reforma de um modo radical; para tirar uma sanguinolenta vingança de todos os disturbios que tinham sido commettidos; e para impôr conversões á ponta da espada. As instrucções que o rei enviou, por carta, ao duque de Alba eram: «Apoderar-se dos homens mais eminentes que haviam tomado parte nos tumultos e pôl-os em condições de não tornarem a fazer damno; prender e castigar os que de entre o povo estivessem criminosos; obter pela violencia todas as riquezas do paiz para abastecimento dos cofres de Madrid e para sustento das tropas; pôr em execução, com a maxima severidade, os edictos contra a heresia; ultimar a organização dos novos bispados, e punir as cidades rebeldes com a Inquisição e com a imposição de subsidios.» As tropas embarcaram em Carthagena, desembarcaram em Genova, e marcharam, atravez de Saboya, da Borgonha e da Lorrena, para o Luxemburgo e Paizes Baixos.

Alba sabia perfeitamente o que se esperava d’elle, e todo o seu desejo era desempenhar a missão que Filippe lhe confiara de um modo que agradasse a seu amo. Uma das suas maximas favoritas era: «Antes assolar uma nação por meio da guerra, se d’esse modo ella se conservar fiel a Deus e ao rei, do que deixal-a intacta em beneficio de Satanaz e de seus adherentes, os herejes.» Elle entrou nos Paizes Baixos inteiramente convencido de que poderia subjugar o espirito nacional e religioso dos seus habitantes. «Eu, que já submetti uma gente de ferro, em pouco tempo domesticarei esta gente de manteiga», disse elle, pouco depois de ter entrado no paiz.

=A prisão dos Condes Egmont e Horn.=—A primeira coisa que elle fez foi lançar mão dos dirigentes do povo, e para isso recorreu á mais vil dissimulação. Convidou-os para irem a Bruxellas, dispensou-lhes todas as amabilidades, e fez todo o possivel para os conservar ao seu alcance até ter opportunidade da os mandar prender. Ficou muito desapontado quando Guilherme de Orange se lhe escapou das mãos, e empregou todos os esforços para o attrair novamente. De subito, sem o menor aviso, prendeu o Conde Egmont e o almirante Horn, e mandou encerral-os n’um carcere.

Este facto produziu uma enorme consternação. Ambos aquelles fidalgos tinham mostrado a sua grande lealdade ao rei. Egmont havia incorrido no odio do povo pela firmeza com que procurou reprimir a insurreição, e Horn perdera todos os seus bens e todo o seu dinheiro no serviço de Filippe. Aquellas prisões mostraram aos neerlandezes e á Europa que o reinado do «rigor» tinha começado. A fuga de Guilherme de Orange foi publicamente lamentada pelos hespanhoes. Quando Granvella soube em Roma, do feito de Alba, perguntou: «Elle tem em seu poder o Silencioso?» E, depois de o informarem de que Guilherme estava em liberdade, disse que Alba não tinha conseguido coisa alguma, afinal de contas, pois que o homem que se lhe havia escapado tinha mais valor do que todos os outros juntos.

Havendo-se apoderado dos dois fidalgos, Alba tratou em seguida de aterrorisar o povo. Organizou um _Conselho de Disturbios_, que substituiu o antigo Conselho de Estado, e que teve a sua primeira, reunião em 20 de Setembro de 1567. Este conselho suspendeu todo o julgamento de causas pelos tribunaes ordinarios, e o povo chamava-lhe o «Conselho de Sangue». Alba presidia a elle, e procurava com todo o afan dar os crimes por provados e infligir o respectivo castigo. Fazia todo o possivel para evitar que os jurisconsultos interviessem. «Os juizes» dizia elle, «só teem servido até aqui para lavrar a sentença depois de se fazer prova do crime; mas agora as coisas passam-se de outra fórma». Este conselho de disturbios privava toda a gente das suas garantias individuaes, e ia investigar todos os delictos commettidos no passado. A accusação vulgar era a de ter conspirado contra o rei e contra a egreja, ou, na linguagem do codigo medieval, de ser réu de traição a Deus e ao rei. Todos os que haviam assignado petições para que os edictos contra a heresia deixassem de ser applicados, todos os que se haviam, de algum modo, opposto á creação dos novos bispados, todos os que haviam dito que o rei tinha obrigação de respeitar as liberdades das provincias, eram tidos como traidores, e castigados com multas, com prisões e com a pena capital. Todos os que eram apanhados a cantar o hymno dos mendicantes, todos os que não se haviam opposto activamente ás prégações feitas ao ar livre, ou que não haviam reagido contra a destruição das imagens, eram egualmente tidos como traidores. Era sufficiente a suspeita, dispensava-se a convicção, e em tres mezes o Conselho de Sangue enviou para o cadafalso mil e oitocentas pessoas. Isto teve logar durante annos. Guilherme de Orange pasmava da paciencia dos seus compatriotas, que soffreram sem uma organizada resistencia, e escreveu apaixonadamente: «Onde está o vosso espirito de liberdade? Onde está a vossa antiga bravura?»

No entretanto os Mendicantes continuavam a existir. Grupos d’elles vagueiavam pelo paiz, escapando á vigilancia das tropas hespanholas, roubando egrejas, mosteiros e residencias de clerigos. O paiz havia caido na anarquia.

=A guerra civil. O principe de Orange.=—Em 1568 o principe de Orange conjecturou que o paiz estava preparado para a revolta. Seu irmão, Luiz de Nassau, entrou na Frisilandia, e conseguiu evitar que o inimigo se apoderasse d’essa provincia. O duque de Alba marchou então contra os protestantes. Antes de se pôr a caminho, porém, executou, para espalhar o terror na capital, vinte membros da nobreza, e entre elles os condes Egmont e Horn. A patriotica milicia não poude bater-se vantajosamente com os disciplinados soldados de Alba, que derrotou por completo o exercito de Luiz e o obrigou a sair dos Paizes Baixos. Regressou depois a Bruxellas, para assistir ás sessões do Conselho de Sangue.

O principe de Orange, á frente de outro exercito, passou a vau o Meuse, chegando, segundo se diz, a agua ao pescoço dos soldados, marchou sobre o Brabant, e procurou dar batalha a Alba. O duque, que conhecia a sua inferioridade, diligenciou evital-o, cançar-lhe as tropas com exhaustivas marchas, e desalental-as. O exercito protestante, que era composto, na sua maior parte, de mercenarios allemães, começou a exigir clamorosamente o seu soldo, e o principe, a quem os hespanhoes deixavam sempre de mau partido, viu-se obrigado, com a approximação do inverno, a licenciar as suas tropas. Uma parte do exercito, composta de neerlandezes, conservou-se junto d’elle; e o principe de Orange, com os seus dois irmãos (o terceiro havia sido morto em combate) atravessou a fronteira, e foi em auxilio dos huguenotes francezes.

Guilherme, o silencioso, como os seus contemporaneos lhe chamavam, tinha até esse tempo sido catholico romano. Havia combatido contra os hespanhoes mais por patriotismo do que por motivos religiosos; mas durante o segundo desterro, quando a situação da sua patria se tornou extremamente precaria, transformou-se, fez-se outro homem. Acceitou as verdades da religião reformada, e tornou-se um firme protestante. Desde esse tempo em deante foi um homem sincero e profundamente religioso, descançando confiadamente na direcção e protecção de Deus.

=Os mendigos do mar.=—A parte mais valente da população neerlandeza eram os marinheiros e os habitantes da costa, que luctavam quotidianamente com as ondas do oceano germanico. Essa gente tinha, em grandissima parte, acceitado as doutrinas dos pastores reformados, e havia sempre nutrido o amor da liberdade, a despeito da implacavel oppressão dos hespanhoes e a despeito da inquisição. Diz-se que o almirante Coligny, o prestigioso chefe dos huguenotes francezes, chamou a attenção do principe de Orange para a utilidade de constituir com estes marinheiros, pescadores e traficantes maritimos uma força naval.

Quando Alba regressou á Bruxellas, para continuar a sua obra de execução por meio do fogo, da agua e da decapitação, o principe conseguiu pôr-se em communicação com os marinheiros e pescadores hollandezes. Tinha resolvido crear uma armada para dar caça aos navios hespanhoes, e conservar acceso o espirito patriotico das provincias. Deu as suas instrucções aos commandantes dos improvisados vasos de guerra, e os «Mendigos do Mar» tornaram-se dentro em pouco o terror dos hespanhoes. Estes corsarios hollandezes recrutavam, ao principio, as suas tripulações, e abasteciam-se, nos portos inglezes, mas, em virtude de uma reclamação do embaixador hespanhol, a rainha Isabel prohibiu que desembarcassem em Inglaterra. Viram-se compellidos a saquear as costas da Hollanda, tornando-se assim o terror dos hespanhoes tanto no mar como em terra.

O governo de Alba tinha quasi conduzido o paiz á ruina. As suas proscripções e execuções haviam diminuido muito a população. O commercio tinha chegado á ultima; da agricultura ninguem cuidava; as industrias estavam paralysadas. Alba estava embaraçado por não ter dinheiro com que pagasse ás tropas. Elle tinha promettido, ao sair de Hespanha, que havia de fazer com que desde Antuerpia até Madrid o oiro constituisse um rio com umas poucas de braças de profundidade. Era um leigo no que diz respeito a economia politica, e não comprehendia que com as disposições que tomara havia feito seccar os mananciaes da riqueza, transformando em poucos annos um paiz rico n’um paiz pobre. Julgou que ainda seria possivel extrair dinheiro dos hollandezes, e para conseguir esse fim estabeleceu novos impostos. Acudiu-lhe á mente um genero de contribuição que em Hespanha estava matando a vida commercial, e propoz o introduzil-a nos Paizes Baixos.

O seu plano consistia em tributar um por cento sobre toda a propriedade; esse imposto ficou sendo chamado a _Centesima_. A accrescentar a isto, ficava-se tambem na obrigação de contribuir com cinco por cento, ou seja a vigesima parte, de todas as rendas de terras, ou bens immoveis, e com dez por cento, ou a decima parte, de todas as vendas de generos ou de bens moveis. Este novo imposto, dividido em tres taxas, representava a ruina completa do paiz. Seria impossivel existir commercio n’uma terra onde elle tivesse de ser pago. Provocou maior opposição do que tudo quanto Alba tinha até então posto em pratica. A primeira provincia que protestou foi a de Utrecht, e logo depois todas as outras fizeram coro com ella. Alba, comtudo, estava precisadissimo de dinheiro. O seu poder dependia do exercito, e este tinha de ser pago; reconhecendo, porém, que tinha avançado de mais, addiou a cobrança das decimas para de ali a dois annos. A necessidade de dinheiro forçou-o, por fim, a pôr desde logo em execução o que tinha decretado, e deu ordens terminantes para se começarem a cobrar os dez e os vinte por cento. O resultado foi parar logo todo o commercio e industria. Os padeiros não quizeram cozer pão, os cervejeiros não quizeram fabricar cerveja, os sapateiros recusaram-se a fazer calçado; e não havia quem vendesse os artigos de primeira necessidade. E, como coisa alguma se vendesse, é claro que o imposto sobre as vendas não podia ser cobrado.

=A tomada de Brill.=—Emquanto os estados permaneciam n’uma insurreição passiva, a esquadra: dos «Mendigos do Mar», organizada por Guilherme, guerreava incessantemente os hespanhoes, e, com uma ousadia que o bom exito até ali alcançado lhes dava, aproaram de subito á ilha de Voorn, e tomaram a cidade de Brill, que era considerada uma das chaves da Hollanda. A posse d’essa cidade assegurava-lhes um ponto de ataque sobre toda a costa dos Paizes Baixos e da Islandia, e foi a ella que ficou devendo a sua origem o Estado das Sete Provincias.

De ahi em deante os hespanhoes nunca mais foram completamente senhores dos Paizes Baixos. A sorte das armas esteve incerta durante muito tempo, mas houve sempre uma parte do territorio flamengo independente de Hespanha. Os «Mendigos do Mar», perfeitamente seguros em Brill, dirigiram repetidos ataques ás povoações da costa, e em breve todas as principaes cidades da Hollanda e da Zelandia estavam em seu poder, acabando por proclamar Guilherme, principe de Orange, chefe da nação. O principe acceitou esse perigoso cargo. Estava em França quando lhe deram a noticia, e, disfarçando-se de camponez, atravessou as linhas do inimigo, e deu-se pressa em tomar o commando dos insurgentes. Antes de chegar até junto d’elles, a Hollanda e a Zelandia tinham-se pronunciado a seu favor. Convocou uma assembléa dos Estados em Dordrecht, ou Dort, onde de eommum accordo se resolveu estabelecer uma nova constituição, e, por unanimidade de votos, o principe foi reconhecido «o verdadeiro representante do rei na Hollanda, Zelandia, Frisilandia e Utrecht. Os estados, ali reunidos, convieram em reconhecer a sua auctoridade, em votar impostos, e em proseguir na politica d’elle. O seu primeiro decreto foi proclamar liberdade de culto tanto aos catholicos como aos protestantes.