A Reforma

Part 13

Chapter 133,581 wordsPublic domain

Os huguenotes, que não tinham quem os dirigisse, resolveram organizar-se, para que podessem estar sempre promptos, e tão diligentemente pozeram os seus planos em execução que n’um curto prazo se encontraram aptos para pôrem 20.000 homens em campo, á primeira voz. Foi em Montauban que tudo organizaram, e foi de lá que dirigiram uma representação ao rei, em que Coligny havia insistido pouco antes de principiarem as guerras religiosas. A côrte ficou sabendo que o espirito huguenote não se havia extinguido. Desde a matança de S. Bartholomeu um outro partido ia adquirindo lentamente importancia em França. Era elle constituido pelos catholicos romanos moderados, que estavam fartos de carnificinas, e que attribuiam todos os males do Estado ao poder de que os estrangeiros dispunham no reino. Exigiam a expulsão dos florentinos e dos lorrenezes, isto é, da rainha-mãe e dos Guises; e insistiam na reintegração das antigas liberdades da nação. Estes «Politicos», como também eram chamados, ainda mais se aferraram ás suas idéas quando tiveram conhecimento do traiçoeiro ataque a La Rochelle, e do programma politico que os huguenotes expozeram em Milhau, e, revestidos de paciencia, esperaram a occasião de intervir.

Posto que o cerco de La Rochelle e de outras cidades protestantes—a quarta guerra religiosa, como lhe chamaram—fosse seguido de um tratado de paz, nunca, de um modo ou do outro, se deixou de combater, e a rejeição do pedido feito pelos huguenotes não permittia duvidas quanto á imminencia de outra guerra ainda. Entretanto Carlos IX morria, em Maio de 1574, de uma terrivel enfermidade em virtude da qual o sangue lhe sahia por todos os poros da pelle, e o povo attribuiu-a a um castigo da carnificina de S. Bartholomeu. Succedeu-lhe Henrique de Anjou, o terceiro e mais vil dos filhos de Catharina, e que era o favorito d’esta. Henrique era ao mesmo tempo um papista cheio de superstições e um libertino cheio de impudencia.

Henrique III tinha-se, durante a vida de seu irmão, associado aos Guises, e adherira ao partido papista; pouco depois de subir ao throno, porém, como o amedrontasse a possibilidade de uma alliança entre os «politicos» e os huguenotes, concedeu, por meio de um edicto, uma parte do que os protestantes pediam. Concedeu, exceptuando em Paris, uma illimitada liberdade religiosa, egualdade de privilegios sociaes, o direito de ser julgado por um tribunal composto, em partes eguaes, de romanistas e de protestantes, e, além d’isso, ficavam oito fortalezas, como penhor, nas mãos dos protestantes.

=A Santa Liga.=—Este procedimento do rei deu logar á fundação da Santa Liga, sociedade formada pelos Guises e pelos jesuitas, cujo fim era promover uma alliança dos catholicos francezes com Filipe II de Hespanha e com o papa. Visava, em primeiro logar, a governar a França no interesse da fé catholica romana, não transigir em coisa alguma com os huguenotes, e impôr-se ao rei; para mais tarde ficaria o aniquilar os Bourbons, ou, pelo menos, o impedir que a corôa passasse para Henrique de Navarra.

Originaram-se de aqui as chamadas Guerras da Liga, em cujos variados incidentes não necessitamos de entrar. Tanto a quinta, como a sexta, como a setima guerra civil concluiu por um tratado de paz favoravel aos protestantes.

Em 1585 a Liga foi remodelada, consolidando-se o poderio dos Guises. A oitava guerra civil terminou em julho, mediante o tratado de Nemours, que não era tão favoravel para os protestantes. A nona guerra civil teve logar pouco depois. Foi denominada a Guerra dos Tres Henriques—Henrique III, Henrique de Guise, e Henrique de Navarra, o qual, apezar da sua pouca edade, havia ganho a confiança dos huguenotes. Essa guerra teve o seu termo na batalha de Coultras, em que os huguenotes ficaram victoriosos.

As luctas foram interrompidas pelas questões que surgiram entre o rei e o duque de Guise, presidente da Liga. O rei percebeu que a sua auctoridade diminuia rapidamente. Os Estados Geraes, que se reuniram em Blois, em Outubro de 1588, mostraram-lhe que a França estava sob o dominio do duque; e a insurreição que teve logar algumas semanas antes foi uma revelação do quanto a Liga se havia ramificado. Não querendo sujeitar-se por mais tempo áquella dependencia, resolveu libertar-se da Liga mediante a morte dos seus dirigentes. Henrique, duque de Guise, e Carlos, o cardeal, foram, portanto, assassinados em Dezembro de 1588, juntamente com muitos dos seus amigos; mas a Liga continuou a existir. É que ella havia estabelecido em toda a França associações similhantes aos clubs jacobinos do periodo revolucionario; e, quando os Guises foram assassinados, a sociedade mãe, ou, por outra, a Liga dos Dezeseis, como era conhecida, apoderou-se do governo, collocou adherentes seus em todos os logares de confiança, e submetteu os actos do rei á apreciação do parlamento. Henrique III, accomettido de um desprezivel medo, fugiu para o meio dos huguenotes, entregando-se ao seu grande rival, o rei de Navarra. Jacques Clemente, frade dominicano, e um dos fanaticos da Liga, foi, porém, em sua perseguição, e apunhalou-o. Algumas horas depois Henrique III expirava, e o general huguenote ficava sendo o legitimo herdeiro da corôa de França.

=Henrique de Navarra.=—Ao principio foi apenas reconhecido pela parte protestante da França. A Liga dispunha de grande poder, e estava resolvida a impedir que o throno fosse occupado por um huguenote. Até mesmo os catholicos romanos moderados com dificuldade podiam admittir que reinasse em toda a França um rei que professava a religião da minoria. O papa recusava-se a reconhecer um soberano protestante, e Filippe II de Hespanha fez a ameaça de uma invasão das suas tropas. N’estas circumstancias, Henrique de Navarra fez uma coisa extraordinaria: pediu para ser instruido nas doutrinas da religião catholica romana. Isto chamou para o seu partido um grande numero de romanistas moderados, e o rei poude desbaratar a Liga nas batalhas de Arques e Ivry.

A Liga continuava ainda a intimidai-o muito e projectava levar ao throno Carlos de Guise, duque de Mayenne, ou o Cardeal Bourbon, tio de Henrique, (que reinou effectivamente sob o nome de Carlos X), ou Filippe II de Hespanha, que tinha casado com uma Valois.

Em face de todas estas complicações, Henrique deu um passo que a sua heróica mãe nunca teria dado. Fez-se catholico romano. O effeito d’isto foi que n’um maravilhosamente curto espaço de tempo a Liga se dissolveu, e Henrique IV foi acclamado rei por quasi toda a França. Os seus velhos companheiros de armas e correligionarios, posto que deplorassem a sua apostasia, não abandonaram o joven que desde a infancia havia sido seu associado e chefe, e que, depois dos afflictivos dias de Bartholomeu, havia deixado a côrte assim que isso lhe fôra possivel, para combater junto d’elles. Elle, em troca, concedeu-lhes aquillo por que haviam luctado durante trinta annos.

=O Edicto de Nantes.=—Em 1598 foi assignado o famoso Edicto de Nantes, que se adeantava mais em tolerancia religiosa do que qualquer outro edicto do seculo dezeseis. Tinha, porém, um grande defeito, e era que as circumstancias em que a França se encontrava tornavam impossivel garantir liberdade religiosa sem conceder aos protestantes certos privilegios politicos que os constituiam um estado no estado, e que mais tarde obstaram á completa fusão dos dois partidos n’um governo.

Este edicto outorgava completa liberdade de consciencia; de ahi em deante ninguem mais seria perseguido por causa das suas idéas religiosas. Todos os nobres que possuissem aquillo a que se chamava «superior jurisdicção» tinham auctorização para ensinar o calvinismo, e toda a gente podia aproveitar-se das suas lições. Os nobres que não possuissem essa jurisdicção gozavam do mesmo privilegio, e podiam ter ao seu serviço quantas pessoas quizessem, quando residissem em localidades onde não houvesse catholicos romanos com a «superior jurisdicção». Dava licença para que continuasse, ou fosse restaurado, o culto publico «a que chamam reformado» em todas as cidades onde elle já existia em Agosto de 1597. Quando os protestantes estivessem espalhados por um districto provinciano, designar-se-hia para local do culto uma das povoações. Prohibia-se aos protestantes o culto publico em Paris, ou a cinco milhas de distancia d’essa cidade, e nas seguintes cidades, onde predominava o fanatismo catholico romano: Reims, Toulouse, Dijon e Lyon. N’outra qualquer parte os protestantes podiam ter egrejas, sinos, escolas, etc. Os principaes limites da liberdade religiosa consistiam em que a religião romana era declarada a religião estabelecida, e em que os protestantes tinham de pagar dizimos ao clero official, não podiam trabalhar nos dias santificados, e eram obrigados a conformar-se com as leis matrimoniaes da egreja catholica.

Os protestantes, ficou também declarado, tinham os mesmos deveres civis e os mesmos privilegios dos catholicos romanos, e podiam concorrer a todos os empregos e dignidades do Estado. Estabeleciam-se tribunaes de justiça especiaes, para julgamento dos protestantes. Estes retinham durante oito annos todas as cidadellas que lhes pertenciam anteriormente a 1597, com todo o material de guerra; e n’essas cidades os governadores eram nomeados pelos huguenotes.

CAPITULO IV

A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS

Os Paizes Baixos, pag. 113.—A politica de Carlos V, pag. 114.—Os principios da Reforma, pag. 115.—Filippe II e os Paizes Baixos, pag. 115.—A inquisição, pag. 117.—Os novos bispados, pag. 118.—Tornar-se-ha hespanhol o paiz? pag. 119.—Os _mendicantes_, pag. 120.—Prégações ruraes, pag. 120.—O duque de Alba nos Paizes Baixos, pag. 121.—A prisão do conde Egmont e do conde Horn, pag. 122.—A guerra civil. O principe de Orange, pag. 124.—Os mendigos do mar, pag. 124.—A tomada de Brill, pag. 126.—Requescens y Zuniga, pag. 128.—O cerco de Leyden, pag. 129. Negociações entre as provincias do sul e as do norte, pag. 130.—D. João de Austria, pag. 131.—Alexandre de Parma, pag. 132.—O tratado de Utrecht, pag. 132.—A Egreja hollandeza, sua organização e confissão, pag. 133.—O _Confessio Belgica_, pag. 134.—A constituição da Egreja hollandeza, pag. 134.—A força da Egreja na Hollanda, pag. 136.

=Os Paizes Baixos.=—A revolta dos Paizes Baixos contra Roma foi talvez a ultima d’esse genero se a datarmos do triumpho final, mas aquelle paiz teve a honra de fornecer os primeiros martyres da fé protestante.

Os Paizes Baixos ficavam em volta das boccas do Scheldt e do Rheno, e na edade media constituiam o lado norte do velho reino de Lotharingia, ou Lorrena, o celebre reino central, como era chamado. A sua situação, com uma extensa costa maritima, e os grandes rios que o atravessavam, tornava-o naturalmente um paiz commercial. O mar estava constantemente usurpando a parte secca, e era necessario oppôr-lhe diques; os rios trasbordavam, e era necessario evitar que os campos ficassem submergidos.

A perpetua lucta com a natureza a que estes perigos forçavam o povo fez d’elle uma gente endurecida e apta para tratar de si sem o auxilio alheio. O paiz abundava em grandes cidades, habitadas por gente livre e opulenta. A vida burgueza começou mais cedo nos Paizes Baixos do que na maioria das nações europeas. A liberdade civica era conhecida apreciada. N’alguns pontos os dirigentes eram principes, ou bispos-principes; n’outros havia um conselho districtal, o qual, como succedia em Utrecht, considerava seu subdito o bispo da provincia.

Outras influencias contribuiam, para que se preservasse o espirito da liberdade. O sul dos Paizes Baixos tinha sido a terra dos Trouvères, e a sua influencia era ainda bastante para que no povo se conservasse vivo o espirito anti-clerical. O clero romano nunca teve muito predominio nas cidades mais importantes, e mesmo nas provincias não conseguiu jámais levar de vencida as «Camaras de Oradores», como eram chamadas, as quaes algumas vezes, sob o disfarce de clubs de archeiros, ou sociedades de canto, eram na realidade agrupamentos que tinham por fim cultivar os talentos dramaticos dos seus membros, ou para representarem os oratorios medievaes, ou, mais frequentemente, para comporem e recitarem poesias satyricas e comicas em que os vicios dos homens da Egreja eram inexoravelmente atacados.

Os Paizes Baixos tinham sido tambem o theatro dos labores de Gerardo Groot, o fundador das escolas para creanças pobres e dos asylos para orphãos; e os seus collaboradores, os Irmãos da Vida Commum, tinham diffundido os seus sentimentos de mystico desprezo por uma Egreja mecanica e politica, e a sua ambição de que todos os paizes em redor fossem devidamente educados e seguissem a religião do coração. Thomaz á Kempis, João Wessel, João Goch, e outros reformadores que viveram antes da Reforma, todos elles eram dos Paizes Baixos.

=A politica de Carlos V.=—No seculo quinze a maior parte d’estes estados livres e d’estas cidades opulentas tinha caido sob o dominio dos duques de Borgonha, que eram ao mesmo tempo vassalos da corôa franceza e do Imperio. Não vem agora a proposito relatar a avidez com que Filippe o Bom, e seu filho, Carlos o Ousado, luctaram para fazer do seu ducado um reino, e para mostrar como o genio violento de Carlos deu motivo a que os seus planos fracassassem. Os paizes arrancados ás garras da França constituiram o dote de Maria de Borgonha, filha de Carlos, quando casou com Maximiliano de Austria, que era neto de Carlos V, o imperador na epoca em que se deram os primeiros episodios da Reforma.

Carlos V, que era conde de Hollanda, e _stadtholder_ dos Paizes Baixos, assim como rei de Hespanha e imperador da Allemanha, nasceu e foi educado nos Paizes Baixos, e reputava essas provincias suas propriedades exclusivas. A politica constante do imperador foi a de auxiliar, até onde podesse ser, os privilegios provinciaes e a liberdade civica, e nos Paizes Baixos fez tudo quanto estava ao seu alcance para centralizar o governo e remover os antigos privilegios constitucionaes. O povo não recebia com agrado estas medidas, mas attribuia-as a conselhos de procedencia hespanhola.

=Os principios da Reforma.=—Quando a Reforma começou na Allemanha, e foi publicado o famoso edicto de Worms, collocando Luthero, os seus adherentes e as suas obras sob o anathema do Imperio, Carlos fez sair nos Paizes Baixos um decreto que continha disposições similhantes. O edicto foi inefficaz na Allemanha, mas Carlos poude constranger á obediencia nos Paizes Baixos. Em 1523, dois frades agostinhos, Henrique Voes e João Esch, foram detidos pelas auctoridades, e, apoz um inquerito, foram queimados em Bruxellas, sendo elles os primeiros martyres da Reforma. Luthero compoz um hymno em sua honra, que intitulou «Cantico dos dois martyres de Christo em Bruxellas, queimados pelos Sophistas de Louvain.» Foram prohibidas as reuniões religiosas, assim como a introducção das obras de Luthero.

Não obstante estas restricções, o Novo Testamento de Luthero foi traduzido em hollandez, e impresso em Amsterdam em 1523, e as doutrinas da Reforma tornaram-se largamente conhecidas.

Os regentes que estavam á frente das dezesete provincias em nome de Carlos não deram plena execução aos severos edictos que lhes foram confiados. Margarida de Saboya, tia de Carlos, era inclinada á tolerancia em materia de religião, e Maria da Hungria, sua irmã, era, segundo se diz, secretamente partidaria da Reforma. N’estas circumstancias o movimento alastrou-se com rapidez no meio do povo, que estava acostumado a ler, pensar e julgar por si proprio; pois que, diz um historiador, «até nas cabanas dos pescadores da Frisilandia se depara com pessoas aptas não somente para ler e escrever, como tambem para discutir, quaes letrados, as interpretações biblicas.»

O movimento soffreu um grande revez com uma irupção do fanatismo anabaptista em 1534. Em Leyden os fanaticos tentaram apoderar-se da cidade e incendial-a. Em Amsterdam percorreram as ruas soltando loucos vaticinios. Na Frisilandia penetraram n’um convento, e combateram desesperadamente com os soldados que pretendiam fazel-os abandonar o edificio. O governo foi inexoravel com elles. Deu-se-lhes uma verdadeira caça, e foram torturados e mortos, affirmando-se que pereceram quasi trinta mil pessoas, e entre ellas muitos e pacificos protestantes que não approvavam de modo algum aquelles ardores anabaptistas. A Reforma, apezar d’este contratempo, foi fazendo progressos nos Paizes Baixos, até que, em 1555, Carlos V abdicou em seu filho Filippe II, começando então o povo a luctar pela liberdade politica e religiosa.

=Filippe II nos Paizes Baixos.=—Carlos viu todos os seus projectos transtornados pela Reforma; seu filho Filippe resolveu adoptar a mesma politica, usando, porém, do maior rigor e severidade. «Queria impôr, illimitada e incondicionalmente, o despotismo temporal e espiritual a que o restabelecido poder pontificio aspirava.» Sabemos agora que o empreendimento de Filippe era, desde o principio, irrealisavel; mas o elle ser ou não bem succedido constituiu um problema que teve a Europa suspensa durante quasi meio seculo. Por fim só em Hespanha é que logrou bom exito, para desgraça d’esta nação. O interesse que a lucta nos Paizes Baixos desperta provém do facto de ser a primeira revolta contra a politica de Filippe, e devido a ella o poder de Hespanha ficou tão abalado que a Europa poude sentir-se em segurança.

Ao tomar conta dos dominios hereditarios de seu pae, Filippe achava-se nos Paizes Baixos. Elle tinha observado com desgosto os progressos que a religião reformada fazia n’essa terra. A Hespanha estava segura, pois que se havia inteiramente extinguido n’ella toda a liberdade civil e religiosa. Filippe podia, portanto, permanecer nos Paizes Baixos, e superintender pessoalmente o inicio da sua obra de repressão. Descobriu que a Biblia estava toda traduzida em hollandez, por Jacob Liesfeld, que muitos dos nobres estavam em constante communicação com os principes lutheranos da Allemanha, e que os protestantes dos Paizes Baixos se entendiam tambem perfeitamente com os huguenotes francezes. As suas medidas para exterminio da heresia foram cuidadosamente elaboradas e com muita paciencia postas em pratica. Confiava, para o bom exito, na presença do exercito hespanhol, n’uma especie de conselho que lhe fosse dedicado e executasse a sua vontade nos mais minuciosos detalhes, no estabelecimento da inquisição, e n’uma remodelação do episcopado das provincias.

Os territorios da Hespanha, incluindo a parte que ficava ao sul dos Pyrenéus e os Paizes Baixos, confinavam com a França, tanto ao norte como ao sul, e quando em guerra com este paiz as tropas hespanholas haviam-se aquartellado nas dezesete provincias, com o fim de se encontraram com o exercito francez n’essa fronteira. Filippe resolveu conservar ahi essas tropas e servir-se da presença d’ellas para impôr os seus designios. Esta permanencia de tropas estrangeiras no seu territorio sem o seu consentimento representava um attentado contra um dos privilegios que as provincias mais apreciavam; o paiz, além d’isso, tinha acabado de passar por uma grande fome, e a brutalidade dos soldados ainda mais exasperava o povo, chegando os habitantes da Zelandia a declarar que antes queriam morrer afogados do que continuarem por mais tempo sujeitos aos ultrajes da soldadesca.

Filippe não podia ficar para sempre nos Paizes Baixos, pois que a sua presença era necessaria na Hespanha, e antes de se retirar precisava de nomear uma pessoa que ficasse governando em seu nome. As provincias queriam que esse encargo recaisse sobre um dos seus nobres, e os nomes de dois membros da aristocracia, Guilherme de Orange e o Conde Egmont, que eram tambem principes do Imperio Allemão, foram frequentemente pronunciados na presença do rei. Tinham sido ambos muito affeiçoados a Carlos V, havendo demonstrado por meio de actos a sua dedicação, e possuíam todos os requisitos para o desempenho de aquelle logar. A escolha de Filippe, porém, caiu em sua cunhada, Margarida de Parma, que estava inteiramente dependente d’elle, era estranha ao paiz, cuja lingua ignorava, e conforme Filippe suppunha, lhe obedeceria cegamente. Deixou junto d’ella, como primeiro conselheiro, Antonio Perrenot, mais conhecido pelo cardeal Granvella, creatura sua, e mais um ou dois que elle sabia ao certo que executariam sem hesitação qualquer ordem que mandasse.

=A Inquisiçao.=—O mais importante elemento de repressão, comtudo, foi a inquisição. Esta terrivel instituição differia inteiramente da organização que, com o mesmo nome, existiu antes da Reforma. A primeira inquisição, estabelecida para exterminio dos albigenses do sul da França, causou grandes soffrimentos aos não-conformistas da edade media, mas as suas funcções eram geralmente entregues aos dominicanos e aos franciscanos, e a rivalidade que havia entre uns e outros, combinada com o facto de terem sido estas duas grandes ordens as que deram acolhida á heresia medieval, obstou a que ella fosse o perseverante instrumento de repressão de que os papas de epocas posteriores á da Reforma, os jesuitas e os monarcas como Filippe II careciam. Foi, por conseguinte, remodelada em Roma sob a superintendencia do cardeal Caraffa, que mais tarde se chamou Paulo IV, separada das ordens monasticas, e restabelecida sobre uma base independente.

Tinha por fim, segundo a bulla que presidiu á sua fundação, extirpar a heresia, primeiro em Italia, e em seguida em todo o mundo; e no seu funccionamento havia quatro regras a observar. Em materias de fè não se permittia um momento de demora, e a inquisição tinha de proceder com o maior rigor á mais leve suspeita, não se respeitava as pessoas dos principes ou dos prelados, por mais elevada que fosse a sua posição; usar-se-hia de um rigor especial para com aquelles que se acolhessem á protecção de um rei ou de uma personagem equivalente; e não se concederia uma falsa tolerancia a qualquer heresia, sobretudo ao calvinismo.

A idéa do cardeal Caraffa era tornar a inquisição alliada do Estado, prestando o poder civil a sua coadjuvação para que as ordens da Egreja fossem cumpridas, e acoimando esta de heresia qualquer acto ou phrase que um Estado despotico entendesse que lhe era hostil. A inquisição tornava-se assim uma terrivel maquina nas mãos de um governo despotico, e, na verdade, onde quer que a sua presença se fez sentir por muito tempo, toda a liberdade civil e religiosa foi suffocada.

A Italia e a Hespanha ainda não se restabeleceram das feridas por ella abertas.