A Reforma

Part 12

Chapter 123,696 wordsPublic domain

=Coligny na Assembléa dos Notaveis.=—A côrte, comtudo, estava convencida de que a unica politica a seguir era a de exterminaçao, e as perseguições continuavam com o mesmo vigor. Necessitava, porém, de dinheiro, pois que as despezas do reino foram gradualmente excedendo as receitas, e em Fontainebleau foi, por fim, convocada uma Assembléa dos Notaveis. Os protestantes aproveitaram a opportunidade, apresentando o almirante Coligny, chefe da grande casa de Chatillon, duas supplicas, uma ao rei, outra á rainha mãe, da parte dos huguenotes da Normandia. Pediam a cessação das perseguições e a liberdade para celebrarem publicamente o culto divino.

Este corajoso acto de Coligny fez com que outros ganhassem animo. O bispo de Valence fallou a favor dos huguenotes da sua diocese, e pediu que fossem revogadas as leis que se oppunham á entoação dos hymnos e á leitura das Escripturas, e que se convocasse um concilio geral. O arcebispo de Vienne ainda se atreveu a mais. Perguntou se «estava resolvida a morte da França para agradar a Sua Santidade». A côrte viu-se obrigada a permittir que se realisasse a tal assembléa geral.

Os Guises não desanimaram. Para exterminio do protestantismo, tomaram a resolução de matar os seus homens de maior nomeada, e, segundo parece, tinham tambem em mente um massacre geral dos huguenotes. Fizeram com que o rei chamasse á côrte os Bourbons, isto é, o rei de Navarra, e seu irmão Luiz, duque de Conde, os quaes, sem se importarem com o perigo, para lá partiram.

O duque foi preso e sentenciado á morte, e o rei de Navarra por pouco escapou de ser assassinado. Quando, porém, a tempestade estava prestes a estalar, o rei adoeceu e morreu.

«Já lêstes ou vos referiram» diz Calvino n’uma carta que enviou a Sturm, «algum acontecimento mais opportuno do que esta morte do rei? Quando a desgraça tinha chegado a tal ponto que não se podia remediar, Deus revela-Se de subito lá do céu. Aquelle que traspassou os olhos do pae feriu agora os ouvidos do filho».

=Catharina de Medicis.=—Pela morte de Francisco ficou herdeiro do throno Carlos IX, que tinha então dez annos. Para regente foi nomeado o protestante Antonio de Bourbon, rei de Navarra. A mãe do joven rei, Catharina de Medicis, de quem haviam feito pouco caso durante a vida do marido, e que havia sido offuscada pelos Guises durante o reinado de seu filho mais velho, reivindicou então o direito de governar, na qualidade de tutora natural de seu filho. Os amigos do rei de Navarra instaram com este para que tambem fizesse valer os seus direitos. Se elle assim tivesse procedido, o futuro da França seria, porventura, mais pacifico. Ter-se-hia alcançado uma duradoura tolerancia religiosa, e ter-se-hiam lançado os alicerces de uma monarquia constitucional; elle, porém, teve a fraqueza de não fazer valer esses seus direitos, e Catharina foi investida no poder.

As circumstancias, porém, obrigaram-n’a a fazer concessões a todos os partidos. Não podia passar sem o apoio dos Guises, e ao mesmo tempo era indispensavel entrar em negociações com os huguenotes. Todos os herejes que estavam presos recuperaram, por meio de um edicto, a sua liberdade, mas foram avisados de que deviam não dar mais motivo de queixa. No entretanto reunia-se o Estado Geral, que havia sido convocado antes da morte do ultimo rei.

Coligny pediu, em nome dos huguenotes, liberdade de religião; uma reforma no governo da Egreja, e, em particular, a eleição livre dos bispos e do clero; um concilio nacional, sob a presidencia do rei, para discutir as questões religiosas, e, no entretanto, egrejas para os protestantes, e uma reunião da Assembléa dos Notaveis de dois em dois annos. Offereceu-se tambem para auxiliar o governo na promulgação de uma lei que auctorizasse a venda dos bens da Egreja para occorrer ás despezas do Estado.

As reclamações de Coligny constituiam, no dizer de Ranke, o programma da revolução do seculo dezoito; e, se ellas tivessem sido attendidas, essa revolução não seria assignalada com o atheismo que a desacreditou, e não seria necessario derrubar a monarquia e a aristocracia. A côrte não estava preparada para essas mudanças radicaes, e o mais que se poude obter de Catharina foi uma conferencia religiosa em Poissy, onde podessem ser discutidos pontos de fé entre pastores protestantes e padres catholicos romanos.

Em virtude da tolerancia que havia sido concedida aos huguenotes, voltou para França muita gente que se tinha refugiado na Inglaterra, na Allemanha, nos Paizes Baixos, e até mesmo na Italia. Vieram tambem alguns pastores de Genebra, não faltando, d’esse modo, homens bem instruidos que dirigissem as congregações protestantes. Era impossivel, porém, mudar todas as coisas por meio de um compromisso politico. Os Guises ameaçavam vingar-se. O idoso condestavel de Montmorency, que se tinha na conta de ser o campeão da antiga fé, resolvera oppôr-se áquella corrente conciliatoria, e fanaticas turbas se levantaram contra as assembléas protestantes. Nas localidades onde os huguenotes estavam em maioria, tornou-se difficil evitar que elles decisiva e energicamente defendessem os seus direitos. N’algumas cidades o povo correu em massa ás egrejas, derrubou as imagens e os quadros, e queimou as reliquias. Os que entre os huguenotes occupavam os primeiros logares fizeram todo o possivel por conter os seus correligionarios. Calvino escreveu de Genebra, protestando energicamente contra toda e qualquer illegalidade. «Deus nunca disse a pessoa alguma que destruisse os idolos, exceptuando aquelles que cada um tenha em sua casa, ou os que em publico se encontrarem revestidos de auctoridade.... A obediencia é melhor do que o sacrificio, e devemos ver bem o que nos é licito fazer, e manter-nos dentro de certos limites».

=A Conferencia de Poissy.=—A data designada para a Conferencia approximava-se com rapidez, e por toda a parte eram convidados todos os francezes que tivessem qualquer coisa a dizer em materia de religião a apresentarem-se na proxima assembléa de Poissy, na certeza de que não correriam perigo algum e seriam escutados com a maxima attenção. Os huguenotes tinham grande empenho em que Beza comparecesse, e pediram-lhe encarecidamente que fosse lá represental-os. Elle ao principio não queria ir, pois que estava convencido de que de similhante rainha se não tiraria resultado algum. Por fim acquiesceu, e os huguenotes ficaram descançados por saberem que os seus interesses estavam entregues em tão boas mãos.

Francez, nascido, em 1519, em Vezelay, e de nobre ascendencia, renunciara a um brilhante futuro ao abraçar a causa da Reforma. Era um homem de magestosa presença, muito illustrado, e de um trato captivante. Abaixo de Calvino, era elle a pessoa por quem as egrejas reformadas se deixavam guiar com maior confiança, e em quem viam o seu mais legitimo representante. Foi recebido pelo rei de Navarra, e por seu irmão, Luiz de Condé, e apresentado por elles á rainha mãe e ao cardeal de Lorraine. O seu porte, a sua erudição, e os seus modos de grande personagem, produziram sensação na côrte.

Quando teve logar a discussão publica, tornou-se tristemente manifesta a ignorancia dos bispos francezes, e o cardeal de Lorraine e outros mais trataram logo de pôr termo á conferencia, ou, no caso de não conseguirem esse proposito, de a tornarem completamente esteril. O resultado da discussão foi ambas as partes nomearem delegados para conferirem sobre determinados pontos, e d’essas conferencias proveiu um Edicto de Tolerancia, publicado em Janeiro de 1562.

Os protestantes tinham de renunciar ás suas egrejas e ás suas reuniões secretas, mas era-lhes permittido fazer os seus cultos ás claras, e a qualquer hora do dia, fora das povoações; e todos os seus ministros eram obrigados a declarar, sob juramento, que não ensinariam coisa alguma que não estivesse de accordo com as Escripturas e com o Credo de Nicéa. A tolerancia era, como se vê, muito limitada; mas desapparecia o fundamento legal para qualquer perseguição, e Calvino e Beza foram de parecer que um tal compromisso, não obstante as pouco favoraveis condições em que era feito, devia ser acceite. «Se a liberdade que o Edicto nos promette fôr duradoura», escreveu Calvino, «o papismo cae por si mesmo».

Os catholicos romanos não estavam de fórma alguma dispostos a chegar a um accordo com os protestantes. Os funccionarios civis, nas cidades e nas provincias, pertenciam á religião do estado, e os parlamentos, ou tribunaes de justiça permanentes, abominavam o protestantismo. Sabia-se, além d’isso, que o Edicto da Tolerancia era apenas um ardil de Catharina para ganhar tempo. Por outro lado, os Guises eram formalmente oppostos a qualquer convenio, e todas estas circumstancias incitaram os dois partidos a prepararem-se para uma guerra civil.

=O massacre de Vassy: outros massacres.=—O signal foi dado pelo duque de Guise, o qual, com o maior atrevimento, violou o Edicto da Tolerancia. No dia 1.º de Março de 1562, a um domingo de manhã, entrou, á frente de um grupo de cavalleiros armados, na cidade de Vassy, onde uma pequena e indefeza congregação de protestantes estava prestando culto a Deus n’um celleiro. Quasi no fim levantou-se um tumulto, e as pessoas presentes, que não tinham armas para se defender, foram, na sua grande maioria, assassinadas. Foi este o inicio d’essas medonhas guerras civis que tanta devastação produziram em França até Henrique IV subir ao throno.

O exemplo da carnificina que teve logar em Vassy foi seguido em muitos outros pontos em que os catholicos romanos estavam em maioria. Em Paris, em Sens, em Rouen, em toda a parte, emfim, os logares de culto protestantes foram atacados e os que n’elles se haviam reunido tiveram morte violenta. Em Toulouse os protestantes, temendo uma carnificina, fecharam-se no Capitolio; foram atacados pelos catholicos romanos, e, ao cabo de uma certa resistencia, entregaram-se sob a promessa de que lhes seria permittido sair da cidade sem serem molestados. Uma vez cá fóra, foram todos massacrados—homens, mulheres e creanças, tendo perecido, ao todo, para cima de 3000 pessoas. Este morticinio de protestantes, em que houve violação de um juramento, foi commemorado pelos catholicos romanos de Toulouse em 1662 e 1762, e tel-o-hia sido egualmente em 1862 se o governo de Napoleão III se não houvesse opposto á celebração do centenario.

Estes sanguinolentos massacres provocaram represalias. Os huguenotes precipitaram-se para as egrejas papistas, e destruiram as imagens, os altares e as reliquias. Destruição de imagens e derramamento de sangue era a ordem do dia na maior parte das provincias de França.

=A guerra civil. Os iconoclastas.=—No meio de tudo isto os dois partidos formaram-se gradualmente em dois exercitos inimigos, ficando um, o papista, sob o commando de Francisco, duque de Guise, e o outro, o protestante, sob o commando de Luiz, duque de Condé, e do almirante Coligny. A França poude então presenciar todos os horrores de uma guerra civil, em que o fanatismo religioso accrescentou, ás barbaridades communs a todas as guerras, as mais atrozes crueldades.

O embaixador de Veneza, escrevendo aos chefes do seu Estado, exprimiu a opinião de que esta primeira guerra religiosa obstou a que a França se tornasse protestante. As crueldades dos papistas tinham desgostado um grande numero de cidadãos francezes, que, sem serem impulsionados por fortes sentimentos religiosos, ter-se-hiam de muito bom grado alliado áquelles que, pela sua moderação, se mostravam competentes para inaugurar, e manter na pratica, um systema de tolerancia. Os chefes huguenotes faziam o maximo empenho em poder provar que os seus adherentes sabiam fugir aos excessos, e Calvino e Beza recommendaram que não se interviesse no culto dos catholicos romanos, excepto quando o caso fosse tratado judicialmente, e ainda assim com muita serenidade. Não, foi, porém, possivel evitar que os protestantes despedaçassem as imagens e dessem cabo de tudo quanto encontraram nas egrejas.

Em Orleans foram umas poucas de egrejas atacadas ao mesmo tempo. Condé, acompanhado de Coligny e de outros vultos importantes, dirigiu-se a toda a pressa para a egreja de Santa Cruz, onde o tumulto era maior. Ao chegarem á egreja, Condé reparou n’um soldado huguenote, que havia subido a um ponto elevado da frontaria e se preparava para atirar cá para baixo com a imagem de um santo. O duque pegou n’um arcabuz, apontou-o ao dito soldado, e ordenou-lhe que descesse quanto antes. Elle não parou com o que estava fazendo, proferindo, porém, estas palavras: «Deixe-me primeiro fazer este idolo em migalhas, e depois mate-me, se isso fôr da sua vontade». Tratando-se de gente assim, que preferia morrer a deixar de destruir as imagens, era impossivel esperar que se podesse pôr um dique á iconoclastia, e onde quer que as tropas protestantes entrassem as egrejas ficavam n’uma completa desordem. Este procedimento foi tomado em toda a França como um indicio de que os protestantes, se chegassem a ter o poder nas mãos, seriam tão intolerantes como os catholicos, e, por consequencia, a sympathia pela sua causa, que até ali fôra sempre crescendo, começou a declinar.

O desenvolvimento da guerra foi, no seu conjuncto, desfavoravel aos huguenotes. Francisco, duque de Guise, era um admiravel general, e os papistas estavam bem providos de dinheiro e recebiam auxilio de fóra; ao passo que os huguenotes estavam quasi exclusivamente dependentes dos seus proprios recursos, e achavam-se muito mal fornecidos de fundos para o proseguimento da lucta. Os huguenotes perderam a batalha de Dreux, em Dezembro de 1562, graças, principalmente, á admiravel disciplina dos auxiliares suissos de Guise; mas, por seu turno, os papistas perderam o duque de Guise, que foi assassinado em Fevereiro de 1563.

Com a morte do duque, Catharina adquiriu maior poder, e tornou-se mais facil a paz. Os huguenotes não tinham conseguido vencer os papistas; e, do mesmo modo, os papistas não tinham conseguido exterminar os protestantes. Não se haviam reconciliado uns com os outros, mas achavam-se cançados; e convieram n’uma suspensão de hostilidades. O Edicto da Paz garantia aos protestantes os privilegios que lhes haviam sido concedidos um anno atraz, e accrescentava outros, sendo o mais importante este: «Em cada baliado será escolhida uma cidade em cujos arrabaldes os protestantes poderão realisar os seus cultos, e em todas as cidades, excluindo Paris, onde em 7 de Março do anno corrente era praticada a religião protestante, será a pratica d’esta permittida em dois recintos _intra-muros_, que serão opportunamente designados pelo rei». O Edicto de Amboise, saido em 12 de Março de 1563, só resolveu as coisas por metade, o que irritou ambas as facções. Os catholicos romanos não gostavam d’elle por tolerar a religião reformada, e os protestantes por não lhes conceder tudo quanto elles desejavam. Foi obra de Catharina e de Condé, cada um dos quaes confiava em que o futuro se encarregaria de tornar inoffensivas para o seu partido as concessões que fazia.

As treguas duraram cerca de cinco annos, ao cabo dos quaes arrebentou a segunda guerra religiosa. A lucta durou mais de um anno. A unica acção decisiva foi a batalha de St. Denis, em que Montmorency foi morto. Seguiu-se então o armisticio de Longjumeaux, cujas condições eram identicas ás do Edicto de 1562.

Este armisticio durou apenas alguns mezes, findos os quaes começou a terceira guerra religiosa. Os protestantes receiavam-se do duque de Alba, o feroz governador dos Paizes Baixos, que se estava preparando para ajudar a côrte franceza a exterminar todos aquelles que não quizessem submetter-se á Egreja Catholica Romana, e resolveram tomar a offensiva. Condé e Coligny souberam que o duque tinha aconselhado a rainha a tirar a vida aos chefes huguenotes, cair depois sobre o povo, e, finalmente, supprimir a obnoxia fé.

Os cabeças fugiram para La Rochelle, e a guerra começou. Combateu-se durante quasi todo o anno de 1569, com alternativas de bom e mau exito, tanto diplomatico como militar. Por fim, teve logar a batalha de Jarnac, onde os huguenotes foram derrotados, e onde Condé e varios outros encontraram a morte. A sorte parecia ter-se tornado crudelissima para os huguenotes. Os chefes hereditarios do partido eram Henrique de Navarra, moço de quinze annos, e seu primo Henrique de Conde, que não tinha muito mais edade do que elle, de modo que Gaspar de Coligny é que teve de arcar com toda a responsabilidade. Tratou de reunir as forças dispersas, e, não obstante alguns revezes, poude obter um tratado de paz que offerecia vantagens como nunca os huguenotes tinham logrado alcançar. Foi auctorizado o culto publico n’um grande numero de cidades, e quatro d’ellas—La Rochelle, Montauban, Cognac e La Charité—foram dadas aos protestantes como logares de refugio.

=Coligny e Carlos IX.=—O almirante Coligny ficou sendo, em virtude d’este tratado de paz, o chefe em quem os huguenotes mais confiavam. Deixou-se ficar em La Rochelle, no meio dos seus correligionarios, e encarregou-se da tutella dos dois jovens principes que eram as esperanças dos protestantes, Henrique de Navarra e Henrique de Condé. O fim principal que elle tinha em vista era de tornar permanentes as vantagens que os reformados tinham conquistado mediante as terriveis guerras religiosas. Convidaram-n’o a ir á côrte, e, a despeito de todos os avisos em contrario, foi. «Prefiro», disse elle, «morrer mil vezes do que, por uma indevida solicitude pela minha vida, dar occasião a que se avente uma suspeita em todo o reino».

Como quer que fosse, o nescio, fraco e dissoluto Carlos IX sympathizou com o velho fidalgo. O pobre rei, que tinha então uns vinte annos, não havia conhecido nunca um homem como aquelle. A enfermidade não o havia deixado desde a infancia, e estivera rodeiado por pessoas que tinham interesse em o educar na imbecilidade e na devassidão. Assim que se poz em contacto com Coligny, que era um homem que inspirava um instinctivo respeito, que nada dizia ou fazia que não estivesse de accordo com as suas convicções, que se havia tornado a mais celebre individualidade da França, que fora o organisador do partido protestante, que era quasi adorado pelos seus amigos, e que, apezar da sua edade avançada, estava ainda em todo o vigor da vida, não poude deixar de confiar n’elle como nunca tinha confiado em pessoa alguma.

Catharina, Henrique de Anjou, seu filho, e os Guises conheceram que o rei estava sob uma nova influencia, a que precisavam de subtrahil-o a todo o transe. Tinham medo de que o rei, tendo a seu lado um homem pundonoroso, lhes escapasse das mãos; e esta extraordinaria affeição que o debil Carlos sentiu por Coligny foi, segundo affirmam alguns historiadoros, a causa do massacre de S. Bartholomeu.

Catharina e Henrique de Guise tramaram o assassinio de Coligny. O attentado, porém, falhou. Catharina foi então ter com seu filho, e referiu-lhe que Coligny e todos os demais huguenotes estavam convencidos de que elle, Carlos, entrara também na conspiração que tinha por fim a sua morte, e que, portanto nunca havia de ter paz emquanto os protestantes não fossem exterminados. Em seguida propoz uma chacina dos vultos preponderantes, em que o rei, fortemente instado, consentiu.

=A matança de S. Bartholomeu.=—Esta terrivel carnificina de protestantes, que teve logar na vespera de S. Bartholomeu (24 de Agosto de 1572) foi obra de Catharina de Medicis, de Henrique de Anjou e dos Guises. A matança foi feita em Paris por 20:000 milicianos da cidade, coadjuvados por alguns soldados e pelos mercenarios suissos, que eram pagos pelo duque de Guise. As forças a que se commetteu aquella tarefa eram commandadas pelos irmãos Guise.

Assassinaram em primeiro logar Coligny e alguns dos principaes cabeças, e depois o massacre tornou-se geral. As casas dos protestantes tinham sido previamente marcadas com cruzes brancas, e os assassinos, para reconhecimento mutuo, traziam faxas brancas, além de outros signaes. Só em Paris foram mortos, pelo menos, 2000 homens, metade dos quaes eram pessoas de distincção. O historiador protestante Crespin diz que foram mortos em Paris 10:000; e Brantôme, creatura sceptica e dissoluta, fixa o numero em 4000. Organizaram-se carnificinas pelas provincias, e o numero das victimas tem sido calculado entre 30:000 e 100:000. Sully, primeiro ministro de Henrique IV, que estava provavelmente bem inteirado, affirma que cairam sem vida 70:000 pessoas.

Ultimamente os escriptores catholicos romanos não se teem mostrado muito orgulhosos de aquelle commettimento, mas quando a matança teve logar muitos d’elles exultaram. Sabe-se perfeitamente que, se o acto não foi instigado de Roma, o papa e a curia estavam, pelo menos, scientes de que elle ia realisar-se. Houve illuminações em Roma para festejar o acontecimento, os canhões do castello de S. Angelo salvaram, organizou-se uma procissão que foi até á egreja de S. Marcos, e cunhou-se uma medalha para commemorar o _Hugonotorum Strages_. Alguns dos principes catholicos romanos enviaram mensagens de congratulação, e diz-se que o pobre e corrompido Filippe II de Hespanha sorriu, pela primeira e ultima vez na sua vida, quando a noticia lhe constou.

O massacre diminuiu cruelmente o poder dos huguenotes, e privou-os de quasi todos os seus caudilhos; mas elles continuavam a existir, e, em vez de se intimidarem, de se darem por vencidos, perante aquelle acto sanguinario, resolveram em seus corações vingar-se d’elle. Ainda restavam algumas cidades em poder dos protestantes; La Rochelle, Sancerre, Nismes, Montauban, e ainda outras, fecharam as suas portas, e negaram-se a dar entrada aos governadores que de Paris lhes enviaram.

La Rochelle foi atacada pelas tropas reaes commandadas por Henrique de Anjou, e os habitantes soffreram todas as calamidades de um cerco, obrigando, por fim, os sitiantes a retirar-se. Uma egualmente bem succedida resistencia da parte de outras cidades forçou a côrte a entrar em negociações com os seus odiados subditos protestantes, e ficou restabelecida a paz.

D’esta vez os huguenotes convenceram-se de que deviam estar sempre preparados para a guerra. Os horrores da vespera de S. Bartholomeu haviam-lhes mostrado o quão implacaveis eram os seus inimigos, e a traição por elles commetida quando foi do cerco e capitulação de Sancerre deu-lhes uma prova da sua deslealdade. Os protestantes estiveram sitiados oito mezes, e durante esse periodo morreram de fome quinhentos homens, pelo menos, e todas as creanças com menos de doze annos. «Porque chora», exclamou um rapazito de dez annos, «ao ver-me morrer de fome? Eu não lhe peço pão, mãe; sei que não tem nenhum para me dar. Visto Deus querer que eu morra d’esta forma, devemos acceitar isso alegremente. Lazaro, aquelle homem santo, não tinha tambem fome? Não o li eu na Biblia?» E depois de a cidade se haver rendido teve logar, não obstante a promessa que lhe tinha sido feita sob juramento, uma horrivel scena de homicidio e pilhagem.