A Reforma

Part 11

Chapter 113,788 wordsPublic domain

Francisco, ao principio, não incommodou muito os protestantes que existiam nos seus dominios; mas a sua derrota em Pavia, em 1525, e a sua alliança com o papa, mostrou-lhe que era prudente, lá no seu modo de ver as coisas, mostrar alguma vontade de expurgar da heresia as terras de que era senhor, e deu licença para que se pozessem em pratica as perseguições que tão ardentemente lhe eram pedidas pela Sorbonna, pelo Parlamento de Paris, por muitos dos bispos, pela mãe, a rainha Luiza, e por Du Pratt, o chanceller do reino. Foi só, porém, depois de Francisco ser feito prisioneiro pela segunda vez, e n’uma occasião em que precisava de dinheiro para as suas guerras, dinheiro que já não era possivel obter por meio de impostos, que elle permittiu que a heresia fosse exterminada de vez. O clero pôz á sua disposição elevadas quantias, exigindo-lhe em troca que o coadjuvasse no aniquilamento dos herejes, e o rei viu-se fornecido dos recursos de que necessitava, á custa da tortura e da carnificina dos seus subditos protestantes. Isto foi em 1528.

Severas medidas foram decretadas contra os protestantes. Era prohibida a leitura de obras protestantes; a ligação com pessoas suspeitas de heresia importava condemnação; e os herejes, onde quer que fossem descobertos, eram entregues ás auctoridades civis para serem castigados. Luiz de Berguin, homem erudito e de nobre estirpe, e n’outro tempo amigo do rei, e correspondente de Erasmo, foi a mais notavel victima d’estas disposições.

A inconstancia da politica do rei veiu alterar o estado das coisas. Francisco I intentou fazer uma alliança com os principes protestantes allemães, e recusou, portanto, associar-se a um plano geral para a exterminação da heresia.

=O anno dos placards.=—Em breve, porém, poz de parte este seu intento, e começaram novamente as perseguições. Os protestantes, por seu lado, mostraram uma grande somma de coragem. Imprimiram curtos folhetos em que se atacava a missa e outros ritos da Egreja Catholica Romana, e espalhavam-n’os pelas ruas e pelas escadas. O anno de 1535 foi chamado o anno dos placards. Um imprudente introduziu nos aposentos do rei um d’esses papeis em que a missa era apreciada com extrema dureza, e Francisco ficou indignadissimo. No primeiro impulso, prohibiu que se imprimisse fosse o que fosse, mas depois, revogando este decreto, entrou a serio no seu papel de perseguidor. Decretou que a heresia fosse punida com a morte; aquelle que denunciasse um hereje tinha direito á quarta parte dos bens que este possuisse, no caso de se provar a veracidade da accusação. Isto redobrou a perseguição, e em toda a França os protestantes eram accusados, condemnados, e punidos com prisão, perda de bens, e morte. Foi por este tempo que Calvino dedicou ao rei os seus _Institutos_.

Os ultimos annos do reinado de Francisco I foram uns annos de terrivel effusão de sangue e oppressão; e, comtudo, os protestantes augmentaram em numero, e a repressão, posto que sanguinolenta, mostrava-se inefficaz. O sangue dos martyres era a semente da Egreja. Em 1540 o Edicto de Fontainebleau intimava os officiaes de justiça a processarem todos aquelles em que houvesse mancha de heresia; a essas pessoas era negado o direito de appellação; os juizes negligentes eram ameaçados com o desagrado do rei, e os ecclesiasticos tiveram ordem para mostrar maior zelo. «Todos os subditos leaes», dizia o edicto, «devem denunciar os herejes, e empregar todos os meios para os extirparem, do mesmo modo que são obrigados a contribuir para que se ponha termo a qualquer conflagração publica». Seguiram-se outros edictos ainda mais severos, mas a Reforma foi progredindo, e tanto homens como mulheres soffriam resignadamente, por amor de Christo, todas aquellas calamidades.

=Os valdenses da Durance.=—A maior atrocidade commettida durante a perseguição foi o massacre dos valdenses da Durance. Uma parte da Provença que confina com a Durance chegara, dois seculos atraz, a estar quasi despovoada, e os proprietarios das terras dirigiram um convite aos camponezes dos Alpes para irem estabelecer-se nos seus territorios. Os novos colonisadores eram valdenses, e a sua industria e indole economica em breve encheram de ferteis herdades aquellas regiões desoladas. Garantiu-se-lhes que a sua religião seria protegida, pois que os seus senhorios, catholicos romanos, estavam satisfeitissimos com os serviços que elles prestavam. Quando na Allemanha e na Suissa começou a Reforma, estes aldeãos mandaram por alguns dos seus saudar os Reformadores, e em 1535 associaram-se por tal fórma ao movimento que forneceram o dinheiro necessario para publicar a traducção das Escripturas Sagradas em francez, feita por Roberto Olivetan, e corrigida por Calvino. Este procedimento despertou a hostilidade de alguns ecclesiasticos francezes.

O bispo de Aix excitou o parlamento local; fizeram-se prisões, e alguns dos aldeãos foram submettidos á tortura e soffreram morte violenta. Em 1540 o parlamento intimou quinze aldeãos de Mérindol a comparecer perante elle como suspeitos de heresia. Os aldeãos, tendo sabido que a sua morte estava resolvida, não appareceram; pelo que o parlamento fez sair o infame _Arrêt de Mérindol_, que, em resumo, ordenava a destruição de toda a aldeia.

A publicação d’este decreto provocou alguns protestos; o rei teve conhecimento d’elle, mandou proceder a investigações, e em resultado d’ellas deu ordem para que o referido decreto ficasse sem effeito. Foi, porém, induzido a revogar essa ordem, organizou-se clandestinamente uma expedição, e durante sete mezes de carnificina, com todos os seus acompanhamentos de traição e de infame brutalidade, foram totalmente destruidas vinte e duas cidades e aldeias, pereceram 4:000 homens e mulheres, e perto de 700 foram enviados para as galés.

Assim desappareceu uma geração, e a Reforma em França estava ainda luctando pela sua existencia no meio de perseguições mais terriveis do que aquellas de que os protestantes foram victimas n’outro qualquer paiz.

=Henrique II e os Guises.=—Em 1547 Francisco I morreu, succedendo-lhe Henrique II, seu filho, que seguiu a politica de seu pae, a qual obedecia ao intuito de enfraquecer o imperio da Allemanha e consolidar, em França, o poder real. Isto obrigava a occasionaes allianças com os principes protestantes allemães, e dava logar, em França, a uma continua perseguição aos protestantes. Todos os favoritos que tinha na sua côrte eram inimigos da fé protestante. O rei desposara a celebre e infame Catharina de Medicis, sobrinha do papa Clemente VII; e, além da rainha, o protestantismo tinha por inimigos poderosos e sem escrupulos: Diana de Poitiers, o Condestavel de Montmorency, primeiro ministro da corôa, que gozava de grande reputação como perito na arte da guerra e na gerencia dos negocios publicos, e os Guizes, notavel familia de procedencia estrangeira, que alcançara grande poder em França. Francisco, duque de Guize, tinha já conquistado grande renome como general; e seu irmão, o cardeal de Lorraine, que foi durante vinte e tres annos o conselheiro de Henrique II, era um dos homens mais sagazes da Europa. A irmã casou com Jayme V da Escocia, e tiveram por sobrinha Maria Stuart, rainha da Escocia, educada em França debaixo do cuidado d’elles, e casada por elles com o Delphim de França.

Francisco fizera da perseguição aos protestantes um negocio tão urgente que os tribunaes de justiça tiveram de interromper o julgamento de varias causas. Henrique creou uma nova divisão judicial, que se occupava exclusivamente dos casos de heresia, e as sentenças proferidas por estes tribunaes especiaes eram tão severas que o povo chamava-lhes _chambres ardentes_. Os martyres exhibiram um extraordinario heroismo, e a perseguição não estorvou o derramamento do Evangelho.

Conta-se que Henrique manifestou em certa occasião o desejo de ver com os seus proprios olhos, e interrogar, um d’esses obstinados herejes. Foi levado á sua presença um pobre alfayate, preso sob a accusação de ter trabalhado n’um dia santo, e esse homem, com grande espanto da côrte, respondeu ousada e respeitosamente a todas as perguntas sobre theologia que lhe foram feitas. Diana de Poitiers emprehendeu reduzil-o ao silencio mediante a zombaria; mas o alfayate, que lhe conhecia o caracter e estava ao facto da posição occupada por ella, retorquiu-lhe solemnemente: «Senhora, dê-se por satisfeita em ter contaminado a França, e não queira tocar com o seu veneno e com a sua immundicie uma coisa tão pura e tão sagrada como é a religião de nosso Senhor Jesus Christo.» O rei, encolerisado porque á amante fossem dirigidas estas palavras, deu ordem para que immediatamente o julgassem e executassem, e quiz assistir ao supplicio. Quando Henrique assomou a uma janella que dava para a praça onde o martyr ia ser queimado, este viu-o, e não despregou mais d’elle os olhos. Mesmo já depois de rodeiado pelas labaredas não deixou de perseguir o rei com aquelle olhar, e Henrique referiu depois que durante muito tempo aquelle espectaculo não se lhe varria da memoria durante o dia e lhe perturbava o somno durante a noite.

Tornou-se manifesto para todo o reino, incluindo a côrte, que estas repetidas execuções não estavam contribuindo para a repressão da Reforma. Outros martyres se apresentavam jubilosamente para substituir aquelles que os tinham antecedido; viuvas, mancebos, estudantes, raparigas mimosas, fidalgos da mais elevada estirpe, todos preferiam o cruel martyrio a negarem Christo. A côrte não pensava senão em medidas mais severas de repressão, e em 1551 foi promulgado um novo edicto, o de Chateaubriand, o qual, como os edictos de Decio, nos primeiros seculos, mandava destruir toda a litteratura christã, na idéa de que por essa fórma se faria desapparecer o christianismo.

Genebra estava situada na fronteira da França. Toda ella se encheu de refugiados francezes. Um certo numero de rapazes, cheios de coragem e de fé, instruidos por Calvino e seus companheiros nas verdades do Evangelho, havia-se offerecido para distribuir livros e folhetos por todos os pontos da França. O Edicto de Chateaubriand visava estes colportores, assim como os livros e tratados que elles vendiam. Prohibia terminantemente a entrada de quaesquer livros provenientes de Genebra ou de outras localidades notoriamente rebeldes á Santa Sé, a existencia nas livrarias de obras condemnadas, e toda a impressão clandestina. Estabelecia uma inspecção semestral a todas as typographias, mandava examinar todos os volumes que chegassem do estrangeiro, e submettia, de quatro em quatro mezes, a grande feira de Lyão a uma fiscalisação especial, pois que mediante ella é que se haviam espalhado pelo reino muitos livros suspeitos. Foi prohibida a venda ambulante de livros, fossem elles de que natureza fossem. Todo aquelle em cujo poder fossem encontradas cartas de Genebra era preso e castigado. Ás pessoas analphabetas não se consentia que discutissem pontos de fé nas tabernas, nas officinas, nos campos, ou em reuniões clandestinas. Por determinação da côrte, ficava, portanto, o povo impedido de se instruir, se é que edictos e officiaes de justiça o poderiam impedir. A sementeira proseguia. Dispostos para a vida ou para a morte, partiram de Genebra e de Strasburgo, para diversos pontos da França, muitos mancebos, levando comsigo Biblias, assim como livros e folhetos evangelicos. Beza mandou dizer n’uma carta a Bullinger que foram em numero espantoso os homens que se offereceram para arrostar com todos os perigos para que a Egreja de Deus avançasse.

=Organisação da Egreja reformada.=—No meio d’estas terriveis perseguições, os protestantes de França começaram a organizar-se em Egreja. Havia mais de trinta annos que elles, ou estudavam isoladamente a Biblia, ou formavam pequenos nucleos de crentes. A perseguição augmentou-lhes a coragem, e resolveram por fim constituir uma communidade.

O nascimento de um filho de La Ferriêre, fidalgo francez residente em Paris, em cuja casa um pequeno grupo de protestantes costumava reunir-se, é que motivou essa decisão. O pae do recemnascido declarou aos seus irmãos na fé que não podia ausentar-se de França, afim de obter que lhe fosse administrado um sacramento puro, e que de fórma alguma consentiria em que o baptismo se fizesse segundo o rito da Egreja romana. Implorou-lhes, pois, que formassem uma Egreja, e escolhessem um pastor, pondo assim termo a todas as difficuldades.

Acharam bom o alvitre, e, depois de jejuarem e fazerem oração, escolheram para pastor a João Le Maçon, que tinha por sobrenome La Riviére, contava vinte e dois annos, e havia abandonado familia, riqueza e perspectivas de um brilhante futuro pela causa de Christo. A pequena assembléa passou em seguida a escolher os presbyteros e os diaconos, estabeleceu-se uma Egreja segundo o modelo de Genebra, e foi adoptada uma breve constituição.

Faltava só em França, ao que parecia, quem se collocasse á testa do movimento. Succedendo-se rapidamente umas ás outras, as communidades constituiram-se em congregações, com os seus presbyteros e diaconos. Tres mezes depois da eleição de La Riviére, foi de Paris enviada a Genebra uma carta em que se pedia outro ministro. Passado um mez, Angers tinha tres pastores protestantes; e, posto que a perseguição continuasse sempre com a mesma violencia, nunca deixava de haver quem se offerecesse para esses perigosos logares, e a Reforma ia fazendo progressos.

=Os Huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon.=—Vendo que eram inuteis todos os esforços empregados para impedir a Reforma, o cardeal propoz o estabelecimento, em França, de uma Inquisição, modelada pela de Hespanha, de que Fillippe se havia servido, com tanta efficacia, para escorraçar de seus dominios a heresia. O espirito de liberdade constitucional não estava, porém, tão morto em França que se permittisse a perda total de todas as garantias que as leis concedem aos innocentes, o que necessariamente viria a acontecer se se introduzisse a inquisição hespanhola. Os varios tribunaes, e em particular os parlamentos, protestaram contra essa proposta. O rei e os seus conselheiros insistiram na adopção de similhante medida, mas em breve descobriram, para seu espanto, que o unico resultado colhido foi algumas pessoas nobres, das que de maior influencia dispunham, se declararem protestantes; e de ahi em deante (1558) a côrte e os romanistas tiveram de se defrontar com um forte partido huguenote.

A devassidão da côrte franceza trazia desgostosos muitos dos principaes representantes da nobreza, e o que elles observaram tambem no procedimento do clero levou-os a procurarem homens de vida pura que os instruissem no christianismo. Alguns membros da mais alta aristocracia que antipathizavam com os Guizes aggregaram-se aos calvinistas, uns por simples politica, mas muitos outros por convicção. Estes homens faziam uma opposição moral á licenciosidade da libidinosa vida palaciana, que Francisco I tinha animado, e uma opposição politica ao systema absolutista do rei e dos seus conselheiros.

Á testa d’este partido estavam os irmãos Bourbon, o almirante Coligny e seu irmão Francisco d’Andelot.

Um filho de S. Luiz havia desposado a herdeira da casa Bourbon, e esta familia era, no meiado do seculo dezeseis, representada por Antonio, duque de Bourbon, que, na falta do rei e dos filhos d’este, era o herdeiro do throno de França, e por seu irmão Luiz, duque de Condé. Antonio Bourbon tinha casado com a piedosa e heroica filha de Margarida de Angouleme, Joanna d’Albret, herdeira da corôa de Navarra, cujo filho foi Henrique IV de França. Em virtude do seu casamento, recebeu o titulo de rei de Navarra, e residia uma grande parte do tempo em Pau, onde assistia ás prégações dos pastores protestantes. Quando voltou para a côrte, começou tambem lá a frequentar as reuniões evangelicas, e declarou-se, por fim, protestante. O duque de Condé fez o mesmo. Andelot, o irmão mais novo do almirante Coligny, e a quem o povo chamava «o cavalleiro sem pavor», introduziu prégadores protestantes no seu castello da Bretanha, os quaes dirigiam a palavra a grandes agglomerações de gente. Foi preso, mas, em vista da sua gerarquia e do seu poder, não se atreveram a castigal-o.

Henrique, derrotado pelo partido opposicionista, concluiu um tratado de paz com a Hespanha para poder dedicar toda a sua actividade á destruição dos calvinistas. Era vastissimo, segundo se diz, o plano que elle tinha preparado. Genebra e Strasburgo iam ser destruidas, e a heresia soffreria um golpe mortal, tanto em França como nos Paizes Baixos. No meio, porém, d’estes preparativos, Henrique, ferido accidentalmente n’um torneio que teve logar em Junho de 1559, morreu.

=O primeiro synodo nacional.=—Um caso interessante é que, ao mesmo tempo em que se estavam planeando novas medidas de repressão, os protestantes francezes houvessem tomado uma deliberação que era mais um testemunho da sua progressiva força. Debaixo de muito segredo, reuniram, n’uma casa do Faubourg St. Germain, o seu primeiro _Synodo Nacional_. O que motivou essa reunião foi o seguinte: Em 1558, quasi no fim do anno, Antonio Chandieu, pastor de uma das egrejas de Paris, foi a Poitiers, afim de auxiliar o serviço da Communhão que se ia celebrar n’esta cidade. Encontrou-se lá, como era vulgar em similhantes occasiões, com pastores que tinham vindo de varios pontos, e, conversando ácerca do estado da Egreja, lamentaram a falta de unidade, assim como de modelos doutrinaes. Chandieu foi encarregado de apresentar no consistorio de Paris as opiniões dos irmãos. Resultou de ahi que a congregação parisiense enviou cartas ás outras congregações, convidando-as a mandar delegados a uma conferencia que ia realisar-se em Paris. Foi d’esta maneira que teve origem o primeiro Synodo Nacional. Era uma pequena assembléa, em que estavam representadas onze congregações apenas; mas proveu a Egreja franceza de uma Confissão de Fé e de um Livro de Disciplina.

A Confissão, conhecida depois pelo nome de _Confessio Gallica_, foi provavelmente redigida por Chandieu, e baseava-se n’uma resumida Confissão que Calvino compoz, chamando para ella a attenção do rei. Foi mais tarde revista por mais de uma vez, mas podemos ainda chamar-lhe a Confissão da Egreja Protestante Franceza.

_O Livro da Disciplina Ecclesiastica_ foi modelado pelas _Ordenanças_ que Calvino escreveu para uso das egrejas de Genebra, mas contém notaveis differenças, e mostra o que o livro de Calvino teria sido se o conselho de Genebra lhe houvesse dado toda a liberdade de acção. A constituição da Egreja franceza era inteiramente democratica e de um caracter representativo. Reconhecia os consistorios, que já existiam nas congregações, e, para os tornar verdadeiramente representativos, preceituava que as eleições para presbyteros e diaconos fossem annuaes. Provia tribunaes de appellação nos synodos provinciaes, que se reuniam duas vezes por anno, e em que cada congregação era representada por um pastor e um presbytero; e unia a Egreja toda sob um Synodo Nacional, ou Assembléa Geral, que constituia o ultimo tribunal de appellação, e a suprema auctoridade ecclesiastica.

É interessante observar como n’um paiz cujo governo se tornava de anno para anno mais arbitrario e absolutista esta «Egreja sob o peso da Cruz» organizava para seu uso um governo, que reconciliava mais perfeitamente talvez do que todos quantos teem sido organizados desde então, o principio da soberania popular com o de uma suprema auctoridade central. Para a constituição do presbyterianismo escocez a França contribuiu mais do que Genebra, e a organização da primitiva Egreja escoceza, a de Knox, era quasi uma exacta reproducção da franceza, O facto d’ella se afastar posteriormente do modelo francez, tornando vitalicios os cargos de presbytero e diacono, e a usurpação do exclusivo direito, pela junta mais moderna do presbyterio, de enviar representantes á Assembléa Geral, privou o presbyterianismo escocez, inglez e americano de uma grande parte do elemento popular que constituia a força das primitivas egrejas escocezas e francezas.

=Anne de Bourg.=—A morte do rei não alterou em coisa alguma a politica da côrte. Succedeu-lhe Francisco II, um mancebo de dezeseis annos. Este tinha por esposa Maria, rainha da Escocia, e sobrinha dos Guises, e a sua subida ao throno atirou com o poder para as mãos d’este fanatico partido, que era capaz de tudo para conseguir os seus fins. Os Guises, porém, não podiam fazer aquillo que só um legitimo soberano, consciente do poder que n’elle reside, pode fazer. Pediram com instancia medidas para a repressão dos protestantes mediante a exterminação, e aquelle seu grande empenho em que se derramasse sangue veiu por fim voltar-se contra elles proprios.

O partido recebeu um golpe tremendo com o julgamento e execução de Anne de Bourg, sobrinha de um dos chancelleres de França, que era tambem juiz. O seu crime consistiu em ter, em conselho publico, dito a Henrique II que era uma coisa muito seria condemnar aquelles que, no meio das chammas, invocavam o nome do Salvador dos homens. Quando, mais tarde, foi interrogada pelos Guises, fallou com tanta eloquencia e ousadia que ganhou o apoio de uma grande parte do publico. Ao ser proferida a sentença de condemnação á morte por meio da fogueira, tornou a fallar com um tão tocante fervor, com uma resolução tão pathetica, que até os proprios juizes se commoveram «Coisa alguma nos poderá separar de Christo, sejam quaes forem as ciladas que nos armem, sejam quaes forem as enfermidades que ataquem os nossos corpos. Sabemos que somos ha muito como ovelhas que são levadas para o matadouro. Que nos matem, pois, que nos despedacem; os que morrem no Senhor não deixam jámais de viver, e todos hão de apparecer na resurreição geral.... E, sendo assim, para que hei de eu permanecer mais tempo n’este mundo? Apodera-te de mim, verdugo, e conduze-me ao logar do supplicio.»

Desde a execução de Bourg a historia do protestantismo francez começa a ser outra. Os protestantes, que a pouco e pouco se haviam compenetrado da força de que dispunham, começaram de aquelle ponto em deante a reunir-se para tratarem do modo como se deviam manter na defensiva, e do modo como deviam aproveitar a crescente impopularidade dos Guises. Alguns dos mais impetuosos foram de parecer que se arvorasse immediatamente o estandarte da revolta. Calvino e Beza, a quem consultaram, dissuadiram-n’os de uma insurreição declarada. Não obstante, organizou-se uma conspiração. La Renaudie, protestante, e inimigo declarado dos Guises, foi o chefe d’essa conspiração, e a guerra civil que depois se seguiu teria sortido bom effeito se a conspiração não houvesse sido denunciada. Os Guises tiraram uma sangrenta vingança dos humildes adversarios da sua politica, e houve enormes carnificinas, particularmente em Amboise, que ficaram bem gravadas na memoria dos huguenotes. Os Guises accusaram judicialmente Condé de ser o cabeça da conspiração. Este requereu uma assembléa de todos os principes e de todos os membros do Conselho privado, e desafiou os seus inimigos a que o denunciassem. O duque de Guise não se sentiu com animo de o atacar de novo.

=O morticinio de Amboise=, longe de aterrorizar os protestantes, parece que lhes deu uma nova coragem. Começaram então a ser conhecidos pelo nome de _Huguenotes_. A origem d’este nome é obscura; tudo o que ao certo sabemos a seu respeito è que depois da conspiração de Amboise andava na bocca de toda a gente. Em Valence um bando armado apoderou-se da Egreja dos franciscanos, onde os serviços religiosos passaram a ser feitos por prégadores protestantes, sendo enorme a assistencia do povo. A Ceia do Senhor foi, por bandos armados, celebrada «á moda de Genebra», em Nismes, no Languedoc. O tempo das assembléas secretas tinha passado, e grandes reuniões ao ar livre, no norte, meio-dia e sul da França, demonstravam que a Reforma tinha sido abraçada por uma immensa quantidade de gente.