A Reforma

Part 10

Chapter 103,819 wordsPublic domain

É impossivel dizer que parte tomou Calvino n’estes regulamentos, de uma desnecessaria severidade. Muitos historiadores teem affirmado que elle dispunha de todo o poder em Genebra, e que poderia ter evitado muita coisa se quizesse. Elle era francez, e nenhuma nação tem como a França apresentado, em epocas de grande crise, tão duros legisladores. Calvino não tinha, por outro lado, abjurado a parte mais odiosa da theoria medieval quanto á disciplina da Egreja, isto é, a que auctorizava os tribunaes ecclesiasticos a recorrerem ao poder civil para que a certas offensas espirituaes fosse applicada multa, prisão ou execução capital, com o fundamento de que constituiam crimes contra a ordem e a paz da sociedade. Calvino acceitou esta doutrina; e o mesmo fez Beza, que chamava á liberdade de consciencia uma doutrina diabolica. Os theologos de Westminster admittiram egualmente a theoria medieval, e trabalharam para que ella fosse posta em pratica, em detrimento da reforma da egreja de Inglaterra. Não só Calvino como todos os principaes reformadores approvaram a morte de Servetus pelo motivo de haver negado a doutrina da Trindade e apresentado blasphemas asserções em defeza da sua opinião. Tudo isto tem de ser admittido.

=As ordenanças ecclesiasticas e a reforma dos costumes.=—Devemos lembrar-nos, por outro lado, de que não podemos dizer o que seria preciso para obter uma reforma de costumes n’uma cidade tão immoral e tão turbulenta como Genebra.

A Reforma, justamente porque era um protesto contra o então existente estado de coisas, teve de navegar contra a corrente do mal, que ella propria provocou. É-nos quasi tão impossivel comprehender o perigo dos excessos anabaptistas e outros como comprehender a corrupção moral da epoca em que o christianismo surgiu e se propagou. Professava-se o libertinismo pantheistico como se fosse um credo, e os documentos litterarios do periodo da Renascença revelam uma desaforada sensualidade que deve ser tomada em conta. O que Calvino viu deante de si em Genebra foi uma indulgencia para tudo quanto fosse immoral, indulgencia que a propria religião prescrevia, visto tratar-se de uma coisa natural. Era este o lado sombrio da Reforma, para o qual não era agradavel olhar, mas que existia, e que deve ser tomado em conta antes de se julgar o procedimento do conselho de Genebra ou o de Calvino.

O governo de Calvino, se é que era d’elle, não causou a decima parte do soffrimento que, a instigação de Luthero, os principes da Allemanha infligiram aos camponezes revoltosos, e aos seus cabeças, os enthusiasmados prophetas; mas o soffrimento causado pela paixão cega, quer provenha do medo quer provenha do odio, tem, o que é coisa curiosa, sido sempre olhado com maior brandura do que o soffrimento que é infligido no proseguimento de um rigoroso proposito de reforma.

Á parte de tudo isto, comtudo, não é improvavel que Calvino fosse menos omnipotente em Genebra do que se suppõe ter sido. A um francez, e de mais a mais logico como elle era, custa a attribuir as incoherencias que se notam entre os _Institutos_ e as _Ordenanças Ecclesiasticas_. É preciso não esquecer que o que tornou possiveis estes castigos que teem sido tão condemnados foram aquelles pontos das _Ordenanças_ que não eram da responsabilidade de Calvino, e contra os quaes escreveu. A verdadeira causa do mal era a relação que havia entre o consistorio e o governo civil da cidade. Supponhamos que uma das nossas camaras municipaes se constituia uma vez por semana em commissão zeladora da moralidade publica. Não se sentiriam escandalizados os vereadores se os casos que elles apresentassem á commissão, e que mereciam a reprovação d’ella, ficassem impunes? Não seriam tentados quando, no mesmo dia ou no dia seguinte, se encontrassem em plena sessão camararia, e revestidos de toda a sua auctoridade, a insistir na applicação do castigo? Não se deve attribuir a culpa de todos estes males a Calvino, ou mesmo ao conselho de Genebra. Surgiram naturalmente das tres vezes abominavel mistura da direcção dos negocios seculares com a direcção dos negocios espirituaes, que constitue habitual peccado contra o qual a Egreja e o Estado se devem precaver.

=A morte de Calvino.=—Durante a residencia de Calvino em Genebra, foi esta adquirindo cada vez mais opulencia e preponderancia. Os magistrados fundaram uma universidade, cujo primeiro reitor foi Theodoro Beza, e as suas aulas foram, durante o primeiro anno, frequentadas por oitocentos estudantes. Procuraram refugio na cidade, onde receberam um excellente acolhimento, numerosissimos protestantes italianos, francezes e escocezes. «Calvino converteu Genebra n’uma outra Roma». Pelas suas cartas se vê o poder de que elle dispunha e a influencia que exercia. Pediam-lhe conselhos, que nunca eram negados, os huguenotes da França, os reformadores de Inglaterra, a congregação escoceza, e os dirigentes da Reforma na Allemanha.

Morreu novo. O seu organismo, que nunca fôra robusto, resentiu-se do excessivo trabalho a que elle se entregava. Prégou o seu ultimo sermão no dia 6 de fevereiro de 1564, e falleceu a 27 de maio do mesmo anno, contando cincoenta e cinco annos incompletos.

Conhecendo a approximação da morte, chamou para junto de si os syndicos, ou primeiros magistrados de Genebra, e em seguida todos os ministros. Prohibiu que sobre a sua sepultura se erigisse qualquer monumento, acontecendo, d’esse modo, que se desconhece o sitio onde foi enterrado.

Era de pequena estatura, magro, de feições delicadas, nariz proeminente, testa elevada, e olhos que em dadas occasiões chammejavam. Trajava sempre com o mais escrupuloso esmero, e alimentava-se muito sobriamente.

Contrastando com Luthero, era um aristocrata pela educação e pelo temperamento; grande observador de todas as regras da etiqueta, sentia-se muito mais á vontade no meio das pessoas de posição do que no meio do povo baixo. Tem-lhe alguem chamado frio e insensivel, mas o que é facto é que os seus amigos e contemporaneos se referem sempre a esse frio, timido, austero e polido francez em termos os mais affaveis e respeitosos; e os mancebos davam-se perfeitamente com elle.

Muitos escriptores teem começado a estudar o caracter de Calvino com um certo sentimento de hostilidade, e, depois de o haverem estudado, descobrem que a sua antipathia se transformou em affectuosa admiração. Como será sufficiente um exemplo, vejamos o que Ernesto Renan diz d’elle:

«Calvino era um de aquelles homens absolutos que parecem ter sido vasados de um só jacto n’um molde, e que se estudam por meio de um simples olhar; uma carta das que escrevam, um acto dos que pratiquem, é o bastante para se fazer um juizo d’elles.... Não se importava com riquezas, nem com titulos, nem com honras; indifferente ás pompas, modesto no viver, apparentemente humilde, tudo sacrificava ao desejo de tornar os outros eguaes a si. Exceptuando Ignacio de Loyola, não conheço outro homem que podesse rivalisar com elle n’estes raros predicados. É surprehendente como um homem cuja vida e cujos escriptos attrahem tão pouco as nossas sympathias, se tornasse o centro de um tão grande movimento, e que as suas palavras tão asperas, a sua elocução tão severa, podessem ter uma tão espantosa influencia sobre os espiritos dos seus contemporaneos. Como se pode explicar, por exemplo, que uma das mulheres mais distinctas do seu tempo, Renée de França, que no seu palacio de Ferrara se via cercada dos mais brilhantes talentos da Europa, se deixasse captivar por aquelle severo doutrinador, enveredando, por sua influencia, n’uma senda que tão espinhosa lhe deveria ter sido? Similhantes victorias só podem ser alcançadas por aquelles que trabalham com sincera convicção. Sem manifestar aquelle ardente desejo de promover o bem dos outros, que foi o que assegurou a Luthero o bom exito dos seus trabalhos, sem possuir o encanto, a perigosa, posto que languida, doçura de S. Francisco de Sales, Calvino saiu victorioso, n’uma epoca e n’um paiz em que tudo annunciava uma reacção contra o christianismo, e isso simplesmente por ser o maior christão do seu tempo».

=Beza, o successor de Calvino.=—Theodoro Beza succedeu a Calvino em Genebra, e manteve a reputação que a Egreja tinha adquirido; e até ao meiado do seculo dezesete a voz de Genebra foi a que as numerosas egrejas protestantes escutaram com maior acatamento.

=A influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma.=—Sob a influencia de Calvino, desappareceram as differenças theologicas que havia na Suissa, e todas as egrejas que se chamavam reformadas adoptaram um typo de doutrina. Estas egrejas não tinham, como as lutheranas, um Catecismo e uma Confissão, mas, não obstante os varios credos, notava-se n’ellas uma perfeita unidade de pensamento e de sentimento. Calvino não escreveu Confissão alguma que viesse occupar o primeiro logar entre os credos das egrejas que se chamam do seu nome, mas a sua influencia em toda a parte se manifesta. Elle vive novamente, na obra dos seus discipulos.

Os seus mais importantes trabalhos que teem relação com o assumpto de que nos estamos occupando são o Catecismo para a Infancia e a Confissão de Zurich.

O Catecismo tinha por fim, disse elle, repôr no devido logar a instrucção religiosa das creanças, que tão lamentavelmente havia sido descurada pelos romanistas. Calvino, para a confecção do seu catecismo, serviu-se do Credo dos Apostolos, dos Dez Mandamentos e da Oração Dominical. Tiveram origem n’elle dois grandes Catecismos da Egreja Reformada: o de Heidelberg, que contém o Credo das Egrejas da Allemanha, e o Breve Catecismo da Assembléa de Westminster.

=A Confissão de Zurich= foi muito proveitosa, porque uniu as Egrejas Reformadas quanto á doutrina dos sacramentos pelo facto de reconciliar n’uma mais profunda unidade as opiniões de Luthero e de Zwinglio. Poz de parte a metaphysica medieval com que Luthero havia sobrecarregado a sua theoria, e ao mesmo tempo repudiou as idéas mais superficiaes de Zwinglio e dos primeiros reformadores suissos, que ensinavam que os sacramentos eram apenas signaes, ou imagens, das bençãos espirituaes.

Calvino fez um resumo da sua doutrina ao expôr esta Confissão: «Os sacramentos são auxiliares por meio dos quaes ou somos implantados no corpo de Christo, ou, no caso de já o estarmos, nos ligamos a Elle cada vez mais, até que seja perfeita a nossa união com Christo, na vida celestial».

A influencia de Calvino e de Genebra é, porém, mais nitidamente visivel na geração de protestantes que ella educou e enviou a combater com o romanismo. «N’uma occasião em que a Europa», diz Haüsser, «não podia mostrar solidos resultados da reforma, este pequeno estado de Genebra erguia-se como uma grande potencia; anno após anno, enviava apostolos para todo o mundo, mediante os quaes eram apregoadas as suas doutrinas, e tornou-se o mais temido contrapeso de Roma.... Os missionarios provenientes d’este pequeno nucleo manifestavam o elevado e intrepido espirito que procede de uma estoica educação e adestramento; tinham o cunho da abnegação e do heroismo, que em toda a parte era absorvido pela estreiteza theologica. Constituiram uma raça para a qual coisa alguma era demasiadamente ousada, e que deu uma nova direcção ao protestantismo, separando-o da velha e tradicional auctoridade monarquica, e fazendo com que elle adoptasse o evangelho da democracia como parte do seu credo.... Genebra dictou um pequeno trecho da historia universal, trecho que constitue a parte de que os seculos dezeseis e dezesete mais se devem orgulhar. O seu Credo foi professado por muitos dos mais eminentes homens da França, dos Paizes Baixos e da Gran-Bretanha; estes homens possuiam almas fortes, caracteres de ferro vasados n’um molde em que havia uma mistura de elementos romanos, germanicos, medievaes e modernos; e as consequencias nacionaes e politicas da nova fé foram por elles defendidas com o maximo rigor e coherencia.»

A Reforma lutherana fez poucos progressos fóra da Allemanha. A pequena republica de Genebra uniu primeiro a Reforma suissa, e em seguida deu os caracteristicos distinctivos aos movimentos reformadores da França, da Hollanda, da Escocia, da Bohemia, da Hungria, da Moravia e de uma grande parte da Allemanha. Luthero, o homem de festiva disposição de espirito, tão humano em todos os sentidos, foi, afinal de contas, o reformador de uma parte, apenas, da Allemanha; Calvino, tão insensivel, tão frio, tão ceremonioso, tão sarcastico, de uma logica tão desapiedada, foi o reformador de uma grande parte da christandade. A Reforma suissa passou muito para além da Republica Helvetica, e abrangeu as egrejas da França, da Hollanda e da Gran-Bretanha, com tudo o que d’ellas brotou.

CAPITULO III

A REFORMA EM FRANÇA

Principios da Reforma em França, pag. 87.—Francisco I, pag. 89.—A _Concordata_ de 1516, e a feição que ella deu á Reforma, pag. 89.—«Uma egreja debaixo da cruz», pag. 90.—O anno dos placards, pag. 92.—O Vaudois da Durance, pag. 92.—Henrique II e os Guises, pag. 93.—Organisação da Egreja Reformada, pag. 95.—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon, pag. 96.—O primeiro Synodo Nacional, pag. 97.—Anne de Bourg, pag. 98.—O massacre de Amboise, pag. 99.—Coligny na Assembléa dos Notaveis, pag. 100.—Catharina de Medicis, pag. 100.—A Conferencia de Poissy, pag. 102.—O massacre de Vassy, e outros, pag. 103.—A guerra civil, os iconoclastas, pag. 103.—Coligny e Carlos IX, pag. 106.—O massacre de S. Bartholomeu, pag. 107.—A Santa Liga, pag. 109.—Henrique de Navarra, pag. 110.—O edicto de Nantes, pag. 110.

=Principios da Reforma em França.=—Antes da Reforma se ter tornado em França um grande e importante movimento, appareceram dois typos da cristandade reformada, sellados com as individualidades de dois homens: Luthero e Calvino, o Pedro e o Paulo da Reforma, Na renhida lucta que em seguida teve de ser sustentada com o romanismo, o movimento mais moderno foi o que adquiriu maior importancia; foi Genebra, deixando Wittenberg em segundo plano, que se mostrou em condições de se defrontar com Roma. A dupla corrente da Reforma partiu d’estes dois centros para toda a Europa, mas nos terriveis combates que se travaram a feroz democracia do Calvinismo poude desenvolver uma força que era o dobro da do claudicante conservantismo do movimento lutherano. A historia do progresso da Reforma fóra da Allemanha é quasi inteiramente a historia do calvinismo, e do triumpho das idéas calvinistas. Foi assim em França.

Os principios da Reforma franceza ficam lá muito para traz, datam de uma epoca muito anterior á do nascimento de Calvino. Havia no sul e no sueste, no fim do seculo quinze e no principio do seculo dezesseis, uns taes ou quaes vestigios dos velhos albigenses; e os valdenses mantiveram-se, e foram protegidos, em virtude de antigos tratados, durante as perseguições dos huguenotes. A Egreja franceza havia-se distinguido sempre pela sua opposição ás reivindicações da côrte pontificia e do papa. Quando o papado, no seculo quinze, chegou a uma grande decadencia, e papas libertinos occuparam a sé de Roma, a Egreja franceza, tendo á frente os famosos chancelleres da universidade de Paris, João Gerson e Pedro d’Ailly, desempenhou a parte principal na convocação dos concilios reformadores de Pisa, Basiléa e Constancia, e no refreamento da curia romana. A Egreja franceza tinha-se sempre opposto energicamente ao ultramontanismo, e, protegida pela Sancção Pragmatica de Bourges, era talvez mais genuinamente nacional do que qualquer outro ramo da Egreja medieval. Muitas pessoas esperavam que a França, em vista da sua historia passada, tomasse a iniciativa de um movimento reformador. A Reforma, porém, que as summidades ecclesiasticas promoveram no seculo quinze não foi uma reforma de doutrina ou uma revivificação da religião espiritual. Os reformadores de Constancia queimaram João Huss.

Além d’isso, havia na Egreja franceza, pouco antes da Reforma, a mesma immoralidade, a mesma incuria, a mesma ignorancia que desacreditou a Egreja medieval do seculo dezeseis na Allemanha e na Italia; o inicio da Reforma em França proveiu do despertamento das lettras e da leitura das Escripturas nas linguas originaes.

Os primeiros sermões reformistas foram prégados em Meaux, onde o bispo, Guilherme Briçonnet, viu que havia urgente necessidade de reprehender a immoralidade monastica, e que o povo anhelava por um verdadeiro ensino religioso. Elle tinha ouvido fallar da erudição de Jayme Lefévre, de Etaples, e da perseguição que elle soffrera da parte dos doutores da Sorbonne por causa dos seus estudos biblicos; e convidou-o, a elle e ao seu ardente e joven discipulo, Guilherme Farel, o futuro amigo de Calvino, para irem para a sua diocese e estudarem, ensinarem e prégarem debaixo da sua protecção. Lefévre publicou, em 1523, uma traducção do Novo Testamento em francez, e o povo comprou o livro e leu-o com soffreguidão.

Os franciscanos, anciosos por se vingarem do que Briçonnet n’outro tempo lhes havia feito, accusaram-n’o de heresia, e de favorecer herejes. No meio da tempestade que então se levantou, o bispo perdeu a coragem. Farel fugiu para Strasburgo, seguido pouco depois por Lefévre e Roussel, outro prégador, e a Reforma ficou, apparentemente, suffocada. O povo, porém, que possuia a Biblia, lia tratados de Luthero, e conservava na memoria os sermões de Farel e de Roussel persistiu na fé evangelica. Alguns crentes tiveram de soffrer o martyrio, mas o fermento espalhou-se, ainda que occultamente, por toda a França.

=Francisco I.=—O rei de França, n’esses primeiros annos da Reforma, era Francisco I, a quem depois Calvino dedicou os seus _Institutos da Religião Christã_. Enthusiasta, e dotado de alguma intelligencia, havia saudado a revivificação das letras, protegeu Lefévre durante o tempo em que este sabio residiu em Paris, e orgulhava-se da correspondencia que mantinha com homens de grandes conhecimentos, taes como Erasmo e Budaeus. Suppunha-se um grande protector das letras, e toda a sua ambição era que o considerassem como tal; a universidade de Paris havia-lhe merecido uma especial attenção, e interessou-se tambem immenso na famosa maquina de impressão inventada por Henrique Estevão. Estabeleceu as cadeiras de Grego, Hebraico, e oratoria latina. Julgava-se poeta, e escreveu algumas poesias. A irmã, Margarida de Angouleme, mais tarde rainha de Navarra, foi uma das mais espirituosas conversadoras e uma das mais brilhantes escriptoras do seu tempo. Francisco não sympatizava nada com o desleixo e ignorancia de muitos dos clerigos de aquella epoca, e, particularmente, considerava o movimento da Reforma uma lucta da intelligencia com a estupidez. Protegeu os primeiros reformadores, chegando mesmo a auxilial-os. Francisco era um principe frivolo e egoista, que ambicionava brilhar como habil guerreiro, e cujo intento era estabelecer a absoluta supremacia do soberano. Não sympatizava com o caracter profundamente espiritual da Reforma, e as suas necessidades politicas não tardaram a prevalecer sobre o seu amor pela instrucção.

=A Concordata de 1516, e a feição que ella deu á Reforma.=—A independencia da Egreja franceza e os direitos do reino de França em opposição ao papado haviam sido mantidos pela Sancção Pragmatica de Bourges, que definia as liberdades das egrejas nacionaes de uma maneira clara e energica. Declarou que o papa estava sujeito a um concilio ecumenico, e que este concilio se devia reunir de dez em dez annos. Declarou que todos os provimentos de elevados cargos ecclesiasticos, taes como os bispados e abbadias, deviam ser feitos por eleição, e não por designação do papa. Restringiu os dispendiosos e incommodos appellos a Roma, e sanccionou o principio de que nenhum interdicto pode abranger tanto os innocentes como os culpados. A Sancção Pragmatica tinha sido sempre cuidadosamente defendida pela Egreja franceza, e pela maioria dos soberanos de França. Era intensamente abominada pelos papas, e não podia ser olhada com muito amor por um rei que pretendia a absoluta supremacia do throno. Uma egreja independente deve zelar a independencia do povo. Francisco comprehendia que, se podesse collocar a Egreja debaixo do seu dominio, ser-lhe-hia mais facil chegar ao absolutismo. Entendeu-se, portanto, com o papa, e trocou a Sancção Pragmatica por uma Concordata, que foi, no futuro, uma grande desgraça para a França.

Mediante esta Concordata o rei renunciou aos principios dos Concilios reformistas de Basiléa e de Constancia, e consentiu em que o papa ficasse com direito ao _Annates_, isto é, o vencimento relativo ao primeiro anno de todos os beneficios que eram providos, concedendo o papa, em troca, que a nomeação de todos os cargos ecclesiasticos ficasse dependente do rei. Por outras palavras, era reconhecida a posição dos papas como chefes supremos da Egreja, e dava-se-lhes annualmente uma consideravel somma de dinheiro; e o rei de França era praticamente, dentro do seu reino, o chefe da Egreja, podendo dispôr de todos os arcebispados, bispados, abbadias e priorados. Fez-se denuncia d’esse tratado, e de todos os modos se trabalhou para o annullar, mas conseguiu vencer todas as opposições, e permaneceu em vigor até á Revolução.

A Concordata de 1516 é a chave da historia da Reforma franceza, e não é possivel exaggerar a importancia que ella tem para a historia ecclesiastica franceza desde o principio do seculo dezeseis. Por um lado, secularizou a Egreja franceza. Todos os officios ecclesiasticos de valor eram doados pelo rei, e tinham de ser disputados por cortezãos que só nas coisas do mundo pensavam. Por outro lado, tornou identicos os interesses da Egreja e os do throno. Opposição ao systema ecclesiastico da Egreja franceza era necessariamente opposição ao absolutismo do soberano. Esta Concordata deu uma indole particular á lucta que a Reforma produziu em França. Os reformadores não podiam deixar de ser tambem os adversarios do absolutismo; e o rei, para ter o paiz sujeito a si na sua qualidade de chefe da Egreja, via-se obrigado a sustentar o papa, que lhe concedera a supremacia.

Aconteceu d’este modo que os protestantes tiveram em França um trabalho muito diverso do trabalho de Luthero na Allemanha, porque tinham de se oppôr não só á Egreja como ao Estado. Succedeu-lhes como aos reformadores escocezes e aos protestantes dos Paizes Baixos; na Escocia, porém, a Reforma poude, por fim, estabelecer uma monarquia limitada, e na Hollanda uma republica. Em França, por outro lado, o poder real foi augmentando lentamente; e, quando chegou a um ponto elevado, a um absolutismo como o de Luiz XIV, o soberano encontrou-se apto para exterminar a egreja protestante, por meio de uma sanguinolenta perseguição.

=«A Egreja que estava debaixo da Cruz».=—Luthero tinha, na Allemanha, um principe do seu lado, e Calvino foi, em Genebra, auxiliado pela suprema auctoridade civil. Em França os reformadores tiveram de luctar não só contra o poder do rei como contra o poder da Egreja. A Egreja reformada, em França, não recebeu, portanto, auxilio algum do poder civil, e teve de sustentar um combate tão severo e tão rude como o que teve de sustentar a Egreja dos primeiros tres seculos. A Egreja antenicena tinha duas coisas contra si; a religião estabelecida, que era o paganismo, e o Estado, que era egualmente pagão. A Egreja reformada de França teve duas coisas contra si; foi perseguida pela egreja estabelecida no reino, que era a romana, e foi perseguida pelas auctoridades civis, pois que o poder do rei era, pela Concordata, em grande escala dependente do reconhecimento do pontifice. Foi creando lentamente forças, sob uma dupla perseguição, como a Egreja primitiva dos martyres e dos apologistas. Eram dois os emblemas que ella gravava nos seus livros e esculpia nos seus monumentos: a sarça que ardia sem se consumir, e a bigorna que levava martelladas e estava sempre inteira. O grande Beza disse um dia ao rei de Navarra: «Sire, a Egreja de Deus é uma bigorna que tem partido muitos martellos».