Part 1
A REFORMA
A REFORMA
POR T. M. LINDSAY DOUTOR EM THEOLOGIA E PROFESSOR DE HISTORIA ECLESIASTICA
TRADUCÇÃO DE J. S. CANUTO (AUCTORISADA)
LIVRARIA EVANGELICA RUA DAS JANELLAS VERDES, 32 LISBOA
LISBOA TYP. ROSA, LIMITADA 29, Rua da Magdalena, 31
PREFACIO
As primeiras tres partes d’este livrinho são simplesmente uma compilação das melhores e mais accessiveis historias da Reforma, e de modo algum são apresentadas como uma dissertação original sobre o vasto e complicado movimento religioso que descrevem. Sou da opinião do dr. Merle d’Aubigné: a Reforma foi uma revivificação da religião, e não pode ser descripta com bom exito se não tivermos sempre deante de nós, e bem distinctamente, este seu caracter essencial. Os reformadores foram homens que, sob o impulso de um grande movimento religioso que se levantou n’uma occasião em que eram bem particulares as circumstancias intellectuaes, sociaes e politicas, se sentiram animados pelo desejo de que lhes fosse permittido dar culto a Deus segundo as direcções da Escriptura e os dictames da razão e da consciencia. Mas este desejo, apparentemente simples, envolvia uma tal mudança nas condições sociaes e politicas, não sómente em cada provincia e em cada nação, mas em toda a Europa, tomada no seu conjuncto, que não se pode escrever a historia da revivificação religiosa sem apresentar uma grande parte da historia politica e social de aquella epoca.
O dr. Leopoldo von Ranke tratou com tanta proficiencia da historia politica do periodo em questão, que o auctor até do mais humilde dos manuaes deve collocar-se quasi exclusivamente debaixo da sua direcção. Foi o que eu fiz, e em quasi todas as paginas me aproveito, com reconhecimento, das suas magistraes descripções do movimento politico e social.
Escusado seria mencionar toda a longa lista de auctores consultados na preparação d’este pequeno livrinho; como, porém, não se faz referencia alguma ás auctoridades citadas, cumpre-me dizer que, além de d’Aubigné e de Ranke, as pessoas que teem conhecimento do assumpto hão de notar um continuo uso das _Historias da Egreja_ de Hagenbach e Henke, do _Periodo da Reforma_ de Haüsser, dos _Huguenotes_ de Baird, de dois volumes das _Epocas da Historia Moderna_ de Longman, da _Era da Revolução Protestante_ de Seebohm, e do _Seculo de Isabel_ de Creighton. Refiro-me frequentemente á _Historia dos Credos do Christianismo_ ao tratar das Confissões, e á inapreciavel collecção de _Livros de Disciplina_, de Richter, ao tratar da organização ecclesiastica das varias egrejas reformadas.
A quarta parte, que se occupa summariamente dos principios fundamentaes do movimento da Reforma, deveria talvez ter ido em primeiro logar, servindo de introducção, mas preferi collocal-a no fim; em parte, porque similhante introducção poderia assustar os leitores jovens, e em parte porque os principios do movimento podem ser mais bem apreciados depois do leitor ter algum conhecimento da sua historia. A quarta parte é a unica porção d’este pequeno manual que se pode dizer com verdade que pertence exclusivamente ao auctor, e que apresenta opiniões sobre o assumpto de que só elle é responsavel.
O summario chronologico foi extraido quasi inteiramente das admiraveis tabellas de Weingarten.
T. M. LINDSAY.
INDICE
PARTE I
A REFORMA ALLEMÃ, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS LUTHERANAS PAG. 1-53
CAPITULO I
A REFORMA NA ALLEMANHA PAG. 1-48
O principio da Reforma, pag. 3.—As indulgencias, e as theses que Luthero escreveu contra as mesmas, pag. 5.—As theses de Luthero não atacavam sómente as indulgencias, pag. 6.—A historia de Luthero, desde o principio, pag. 7.—Partidarios e adversarios de Luthero, pag. 9.—A disputa de Leipzig, pag. 10.—A bulla do papa, e a queima da mesma, pag. 12.—O Imperador e a Reforma, pag. 14.—O estado politico da Allemanha, pag. 15.—Luthero e a dieta de Worms, pag. 16.—Luthero em Wartburgo, pag. 18.—Regresso de Luthero a Wittenberg, pag. 19.—A dieta de Nürnberg, pag. 20.—A revolta dos nobres, pag. 21.—A revolta dos camponezes, pag. 23.—As Dietas de Spira, em 1526 e 1529, pag. 28.—O imperador pretende subjugar a Reforma, pag. 32.—A Conferencia de Marburgo, pag. 33.—Divergencia entre Luthero e os suissos, pag. 33.—A Dieta de Augsburgo, pag. 36.—_A Confissão de Augsburgo_, pag. 38.—A Liga Protestante de Schmalkald, pag. 39.—A morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald, pag. 42.—O imperador e o Concilio Geral, pag. 43.—Loyola e os jesuitas, pag. 45.—A paz religiosa de Augsburgo, pag. 47.
CAPITULO II
A REFORMA LUTHERANA FÓRA DA ALLEMANHA PAG. 49-53
O lutheranismo fóra da Allemanha, pag. 49.—Na Dinamarca, pag. 50.—Na Suecia, pag. 51.
PARTE II
A REFORMA SUISSA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS REFORMADAS PAG. 55-154
CAPITULO I
A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO PAG. 57-66
As reformas suissa e allemã, pag. 57.—A situação politica da Suissa, pag. 58.—Ulrico Zwinglio, pag. 60.—As theses de Zwinglio, pag. 62.—A Reforma em Zurich, pag. 63.—Basiléa, pag. 64.—Berne, pag. 64.—Os cantões florestaes, pag. 64.—Caracteristicos da Reforma de Zwinglio, pag. 65.
CAPITULO II
A REFORMA EM GENEBRA SOB CALVINO PAG. 67-85
Genebra antes da Reforma, pag. 67.—Farel em Genebra, pag. 68.—A mocidade de Calvino, pag. 69.—_Institutos da Religião Christã_, pag. 71.—Calvino em Genebra, pag. 73.—A sua expulsão, pag. 75.—Genebra não pode passar sem elle, pag. 76.—_As Ordenanças Eclesiasticas_, pag. 77.—Como differem dos _Institutos_, pag. 79.—O seu effeito sobre uma reforma de costumes, pag. 81.—A morte de Calvino, pag. 82.—Succede-lhe Beza, pag. 83.—A influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma, pag. 83.—_A Confissão de Zurich_, pag. 84.
CAPITULO III
A REFORMA EM FRANÇA PAG. 87-111
Os principios da Reforma em França, pag. 87.—Francisco I, pag. 89.—A _Concordata_ de 1516, e a feição que ella deu á Reforma, pag. 89.—«Uma egreja debaixo da cruz», pag. 90.—O anno dos placards, pag. 92.—O Vaudois de Durance, pag. 92.—Henrique II e os Guises, pag. 93.—Organização da egreja reformada, pag. 95.—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon, pag. 96.—O primeiro _Synodo Nacional_, pag. 97.—Anne de Bourg, pag. 98.—A carnificina de Amboise, pag. 99.—Coligny na Assembléa dos Notaveis, pag. 100.—Catharina de Medicis, pag. 100.—A Conferencia de Poissy, pag. 102.—O massacre de Vassy, e outros, pag. 103.—A guerra civil, os iconoclastas, pag. 103.—Coligny e Carlos IX, pag. 106.—O massacre de S. Bartholomeu, pag. 107.—A Santa Liga, pag. 109.—Henrique de Navarra, pag. 110.—O edicto de Nantes, pag. 110.
CAPITULO IV
A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS PAG. 113-116
Os Paizes Baixos, pag. 113.—A politica de Carlos V, pag. 114.—Os principios da Reforma, pag. 115.—Filippe II e os Paizes Baixos, pag. 115.—A inquisição, pag. 117.—Os novos bispados, pag. 118.—Tornar-se-ha hespanhol o paiz? pag. 119.—Os _mendicantes_, pag. 120.—Prégações ruraes, pag. 120.—O duque de Alba nos Paizes Baixos, pag. 121.—A prisão do conde Egmont e do conde Horn, pag. 122.—A guerra civil. O principe de Orange, pag. 124.—Os mendigos do mar, pag. 124.—A tomada de Brill, pag. 126.—Requescens y Zuniga, pag. 128.—O cerco de Leyden, pag. 129. Negociações entre as provincias do sul e as do norte, pag. 130.—D. João de Austria, pag. 131.—Alexandre de Parma, pag. 132.—O tratado de Utrecht, pag. 132.—A Egreja hollandeza, sua organização e confissão, pag. 133.—O _Confessio Belgica_, pag. 134.—A constituição da Egreja hollandeza, pag. 134.—A força da Egreja na Hollanda, pag. 136.
CAPITULO V
A REFORMA NA ESCOCIA PAG. 137-154
Preparação para a Reforma, pag. 137.—A antiga Egreja celtica e a Educação, pag. 137.—A Escocia e o lollardismo, pag. 138.—A Escocia e Huss, pag. 138.—A Egreja romana na Escocia e a situação politica, pag. 139.—João Knox, pag. 141.—A Congregação e a Primeira Convenção, pag. 142.—A _Confissão escoceza_, pag. 144.—A rainha Maria e a Reforma, pag. 145.— O _Livro de Disciplina e a Primeira Assembléa Geral_, pag. 147.—A educação, pag. 148.—A morte de Knox, pag. 149.—Os bispos tulchanos, pag. 150.—André Melville, pag. 152.—O Segundo Livro de Disciplina, pag. 152.
PARTE III
A REFORMA ANGLICANA PAG. 155-201
CAPITULO I
A EGREJA DE INGLATERRA DURANTE O REINADO DE HENRIQUE VIII PAG. 137-174
O caracter excepcional do principio da Reforma ingleza, pag. 157.—Antecipações da Reforma em Inglaterra, pag. 158.—O estado ecclesiastico de Inglaterra no principio da Reforma, pag. 159.—As relações de Inglaterra com o pontificado, pag. 160.—As antigas relações de Henrique VIII com o pontificado, pag. 161.—Henrique muda de opinião, pag. 163.—Henrique VIII, Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia entre elles, pag. 164.—A submissão do clero, pag. 165.—O progresso da separação de Roma, pag. 166.—Separação de Roma e Reforma: duas coisas differentes, pag. 168.—Execução de sir Thomas More, pag. 169.—Suppressão dos conventos e confiscação das propriedades da Egreja, pag. 170.—_Os dez Artigos_, pag. 171.—_O Estatuto Sanguinario_, pag. 173.—A Egreja de Inglaterra em 1547, pag. 173.
CAPITULO II
A REFORMA NO TEMPO DE EDUARDO VI, E A REACÇÃO NO TEMPO DE MARIA PAG. 175-188
Será adoptada a Reforma? pag. 175.—A visita real, o _Livro de Homilias_ e o _Livro de Oração Commum_, pag. 176.—A alliança com o protestantismo continental, pag. 178.—Os _Quarenta e Dois Artigos_, pag. 178.—Os principios do puritanismo, pag. 179.—A morte de Eduardo VI, pag. 181.—O estado da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria, pag. 182.—A Hespanha necessitava do auxilio da Inglaterra, pag. 183.—Como Maria se firmou no throno, pag. 183.—A alliança hespanhola, pag. 184.—A reconciliação com Roma, pag. 184.—Porque não foi bem succedida a reacção papal? pag. 185.—As perseguições durante o reinado de Maria, pag. 186.—A questão dos bens de raiz da Egreja, pag. 186.—Os fructos do ensino no reinado de Eduardo, pag. 187.—A morte de Maria, pag. 187.
CAPITULO III
A REFORMA NO TEMPO DE ISABEL PAG. 189-201
A successão de Isabel, pag. 189.—Como se liquidou a questão religiosa, pag. 190.—_Os trinta e nove artigos_, pag. 192.—O puritanismo e as vestimentas ministeriaes, pag. 192.—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino, pag. 194.—A lucta interna com o catholicismo romano, pag. 195.—A Armada hespanhola, pag. 196.—As prophecias, pag. 197.—_Os conventiculos_, pag. 198.—_Os pamphletos anti-prelaticios_, pag. 198.—A Reforma ingleza, pag. 198.
PARTE IV
OS PRINCIPIOS DA REFORMA PAG. 203-236
CAPITULO I
A REFORMA FOI UMA REVIVIFICAÇÃO RELIGIOSA PAG. 205-214
A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares condições sociaes, pag. 205.—Uma revivificação da religião e uma approximação de Deus, pag. 206.—Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus, pag. 208.—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual, pag. 209.—A imitação de Christo, pag. 209.—Francisco de Assis, pag. 210.—Os mysticos da Edade Media, pag. 211.—A significação do perdão, segundo a Reforma, pag. 212.—Previsões de uma revivificação religiosa operada pela Reforma, pag. 213.
CAPITULO II
COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA PAG. 215-219
O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida social da epoca, pag. 215.—A Reforma desfez a noção medieval de uma sociedade politica, pag. 216.—Revolta contra o mediavelismo, anteriormente á Reforma, pag. 217.—O _De Monarchia de Dante_ e o _Defensor Pacis_ de Marcello de Padua, pag. 218.
CAPITULO III
A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES PAG. 221-224
Os Reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja, pag. 221.—Reivindicaram a sua posição por meio de um apello á Constituição do Imperio medieval, pag. 221.—A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e Calvino, pag. 222.—A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos, pag. 223.
CAPITULO IV
OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS DA REFORMA PAG. 225-236
Os principios _formaes e materiaes_ da Reforma, pag. 225.—O sacerdocio de todos os crentes: o grande principio da Reforma, pag. 226.—Explica a _Doutrina da Escriptura_, pag. 227, e da _Justificação pela Fé_, pag. 228.—A _Doutrina da Escriptura_ da Reforma em contraste com a medieval, pag. 228.—A Doutrina medieval da Escriptura, pag. 229.—O quadruplo sentido da Escriptura, pag. 229.—A definição medieval de _fé salvadora_. Interpretação infallivel, pag. 230.—Os reformadores e a Biblia, pag. 231.—A doutrina da _justificação pela fé_ da Reforma em contraste com a medieval, pag. 232.—A absolvição clerical e justificação pela fé, pag. 233.—Justificação pela fé e justificação pelas obras, pag. 234.—Conclusão, pag. 235.
SUMMARIO CHRONOLOGICO PAG. 237-255
INDICE DE PERSONAGENS, LOCALIDADES, ETC PAG. 257-261
I PARTE
A REFORMA NA ALLEMANHA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS LUTHERANAS
CAPITULOS:
I—A REFORMA NA ALLEMANHA.
II—A REFORMA LUTHERANA FÓRA DA ALLEMANHA.
CAPITULO I
A REFORMA NA ALLEMANHA
O principio da Reforma, pag. 3.—As Indulgencias, e as Theses que Luthero escreveu contra as mesmas, pag. 5.—As Theses de Luthero não atacavam sómente as Indulgencias, pag. 6.—A historia de Luthero, desde o principio, pag. 7.—Partidarios e adversarios de Luthero, pag. 9.—A disputa de Leipzig, pag. 10.—A bulla do papa, e a queima da mesma, pag. 12.—O imperador e a Reforma, pag. 14.—O estado politico da Allemanha, pag. 15.—Luthero e a dieta de Worms, pag. 16.—Luthero em Wartburgo, pag. 18.—Regresso de Luthero a Wittenberg, pag. 19.—A dieta de Nürnberg, pag. 20.—A revolta dos nobres, pag. 21.—A revolta dos camponezes, pag. 23.—As Dietas de Spira, em 1526 e 1529, pag. 28.—O imperador pretende subjugar a Reforma, pag. 32.—A Conferencia de Marburgo, pag. 33.—Divergencia entre Luthero e os suissos, pag. 33.—A Dieta de Augsburgo, pag. 36.—_A Confissão de Augsburgo_, pag. 38.—A Liga Protestante de Schmalkald, pag. 39.—A morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald, pag. 42.—O imperador e o Concilio Geral, pag. 43.—Loyola e os jesuitas, pag. 45.—A paz religiosa de Augsburgo, pag. 47.
=O principio da Reforma.=—A reforma principiou, se é que similhante movimento, cujos estimulos vieram de uma epoca remotissima, teve realmente um principio, quando Martinho Luthero pregou as noventa e nove theses contra as indulgencias na porta da egreja da pequena cidade de Wittenberg, na Saxonia. João Tetzel, frade dominicano, havia sido enviado á Allemanha pelo papa Leão X com o fim de colher dinheiro para o serviço da egreja; para ajudar a pagar as despezas da guerra com os turcos, dizia-se, mas o verdadeiro intuito era angariar fundos para serem dispendidos pelo papa em quadros e outras obras de arte para a sumptuosa egreja de S. Pedro, em Roma. O dinheiro obtinha-se em troca de uma especie de recibos, em que se declarava que o comprador havia recebido perdão da perpetração dos peccados que mencionara e pago a respectiva importancia.
O vendedor de indulgencias viajava sob a protecção do arcebispo de Mayença, um dos sete eleitores da Allemanha. Atravessou durante o outomno de 1517 o centro da Allemanha, e chegou em outubro a Leipzig, na Saxonia. A sua presença não tinha sido bem acolhida, nem pelos principes, nem pelos clerigos mais zelosos dos seus deveres, nem pelas pessoas do povo mais bem intencionadas. Os principes não gostavam d’elle pelo facto de extrair do povo tanta somma de dinheiro e mandal-o todo para o papa; estava empobrecendo o paiz; e alguns d’elles não lhe deram licença para entrar nos seus territorios senão depois d’elle prometter que lhes dava uma parte do que adquirisse.
A classe mais escolhida do clero paroquial não gostava d’elle pelo facto de, por onde quer que elle passasse, o povo se tornar peior; vendia por sete ducados o direito de assassinar um inimigo; aquelles que desejavam roubar uma egreja eram perdoados se pagassem nove ducados; e o assassinio de pae, mãe, irmão ou irmã custava apenas quatro ducados. Os homens e mulheres que compravam estas indulgencias queriam, como é natural, tirar algum lucro de aquillo que lhes custara o seu dinheiro, e por isso o crime abundava onde quer que o vendedor do perdão apparecesse.
As pessoas amigas do socego tambem lhe eram adversas, pelo facto do tumulto e dos escandalos a que a sua presença dava origem. Enviava adeante de si homens extravagantemente vestidos, que fixavam annuncios pelas paredes, e que apregoavam pelas ruas e pelas estradas a sua proxima chegada, encarecendo a excellencia das cedulas de perdão que elle trazia á venda. Eis algumas d’estas proclamações: «O perdão torna aquelles que o comprarem mais limpos do que o baptismo, mais puros do que Adão no seu estado de innocencia no paraiso»; «Assim que o dinheiro tilintar no fundo do cofre, o comprador fica perdoado, e livre de todos os peccados». Em seguida a estes charlatães, apparecia o vendedor do perdão e o seu ajudante, n’uma pesada carroça, que era conduzida para o meio da praça do mercado. Tetzel, tendo de um lado uma gaiola de ferro de cujas grades pendiam os celebres papelinhos, e do outro um cofre em que o dinheiro era lançado, offerecia ao publico a sua mercadoria, á maneira dos vendedores de elixires que costumam apparecer pelas feiras.
Luthero não o perdia de vista desde havia muito tempo, e a sua alma justa sentia-se indignada com o facto dos bispos, apezar de todas as suas cartas e protestos, permittirem que elle andasse de diocese em diocese. Não obstante haver prégado contra Tetzel e contra as indulgencias, o traficante do perdão ia-se approximando. Tetzel chegou, por fim, a Jüterbogk, perto de Wittenberg, e Luthero, que já se havia tornado famoso como prégador e como professor da universidade, não poude conter-se por mais tempo. Escreveu noventa e nove theses contra as indulgencias, e pregou-as na porta da egreja: declarava elle, n’essas suas proposições, que, se havia na Egreja logar para Tetzel e para os seus bilhetes de perdão, não o haveria para elle, Luthero, nem para as idéas que elle tinha relativamente ao peccado e ao modo como Deus concede o perdão. Roma e as indulgencias estavam produzindo uma forte indignação em toda a Allemanha. Bastaria uma faulha para ateiar o incendio; foram as theses que o ateiaram, dando principio á Reforma.
=As indulgencias, e as theses que Luthero escreveu contra ellas.=—As indulgencias que Luthero denunciou não constituiam uma coisa nova na Egreja, e, posto que Luthero não o imaginasse, formavam um elemento tão preponderante da vida exterior da Egreja n’aquella epoca que seria dificil censural-as sem ir de encontro a muitas outras coisas. A Egreja da Edade Media preoccupava-se muito com a representação visivel dos factos e forças espirituaes, e tornou-se um caso vulgarissimo dar tanta importancia a essa manifestação externa que se chegava a perder de vista o verdadeiro sentido espiritual, e d’esta fórma muitas e excellentes verdades evangelicas se acharam envolvidas por uma espessa camada de formulas estereis que não permittiam que se desenvolvesse a vida espiritual.
É uma verdade evangelica que quando um homem se sente triste por causa dos seus peccados ha de mostrar a sua tristeza d’este ou d’aquelle modo; o verdadeiro arrependimento torna-se sempre manifesto. A Egreja da Edade Media pegou n’este axioma e incrustou-lhe a idéa de que o arrependimento deve manifestar-se sempre em certos e determinados modos prescriptos pela Egreja; e esses meios exteriores de mostrar arrependimento, taes como, o dizer um grande numero de rezas, o jejuar em certos dias, ou o praticar outras penitencias mais ou menos dolorosas, vieram a ser consideradas como o verdadeiro arrependimento e a serem chamados por esse nome.
No decurso do tempo, quando a Egreja se tornou mais corrupta, ficou estabelecido que o pagamento de umas determinadas sommas de dinheiro dispensasse os signaes exteriores do arrependimento, comtanto que o peccador penitente se sentisse compungido no seu coração por haver peccado. Quando a Egreja attingiu um estado ainda peior, decidiu-se, como coisa assente, que o desembolso do dinheiro alcançaria o perdão—o perdão de Deus—tanto dos peccados commettidos, como de aquelles que se commettessem depois. Foi de ahi que proveiu o indigno trafico das indulgencias. Os papas e os seus dependentes acharam esta doutrina muito lucrativa, e, como foi abertamente proclamado, diligenciaram extrair todo o dinheiro que lhes fosse possivel «dos peccados dos allemães». A indulgencia contra a qual Luthero protestou era a quinta das que nos ultimos dezesete annos tinham sido publicadas.
As noventa e nove theses de Luthero constituem um discurso encadeado contra a doutrina e pratica das indulgencias. E torna evidentes estas tres coisas: (1) É, de algum modo, digna de approvação a indulgencia quando significa simplesmente um dos muitos meios de proclamar o perdão do peccado, _concedido por Deus_; mas uma tal proclamação deve ser sempre gratuita. (2) Os signaes exteriores do arrependimento não equivalem á dôr intima que se sente por haver peccado, isto é, ao verdadeiro arrependimento, e a auctorisação para deixar de os pôr em pratica não pode, de maneira alguma, garantir que Deus tenha realmente perdoado. (3) Qualquer cristão que se sinta verdadeiramente arrependido recebe um pleno perdão, e é participante de todas as riquezas de Christo, por um dom directo de Deus, sem ser necessaria uma carta de indulgencia ou outra intervenção humana. E, n’um sermão que publicou para explicar melhor as suas theses, declara que o arrependimento consiste na contricção, na confissão e na absolvição, e que a mais importante das tres coisas é a contricção. Se a dôr, ou contricção, fôr verdadeira, sincera, seguir-se-lhe-hão naturalmente a confissão e a absolvição. Assim, para Luthero, a coisa essencial é o facto intimo, espiritual, da dôr produzida pelo sentimento do peccado; a manifestação do pezar é uma coisa boa, mas para o que Deus olha é para o estado espiritual, e não para a exteriorisação d’esse estado.
=As theses de Luthero não atacavam sómente as indulgencias.=—Luthero, nas suas theses e no seu sermão, declarou que os factos intimos, espirituaes, experimentados pelo homem, eram de um infinito valor, comparados com a expressão d’esses factos mediante formulas esteriotypadas que a Egreja reconhecia; e tornou, outrosim, bem claro que no tocante a um tão solemne assumpto como é o perdão dos peccados o homem podia ir ter directamente com Deus, sem qualquer mediação humana. Dizendo isto, fez muito mais do que atacar as indulgencias; protestou contra as mais enraizadas noções da Egreja medieval.