A Queda d'um Anjo: Romance

Part 9

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Assim que se ergueu cuidou em aformosear a saleta, cuja decoração era menos de modesta. Saiu açodado ao armazem dos mais elegantes estofos, e comprou alfaias magnificas. O homem pasmava dos nomes d'aquelles objectos, nenhum dos quaes soava portuguezmente.

--Porque chamam a isto _chaise-longue_?--perguntava Calisto Eloy ao engenhoso Margoteau.

--Porque chamam?!

--Sim: eu creio que se não offende a França no caso de chamarmos a este movel uma cadeira longa, ou uma preguiceira, que sôa melhor. E _étagère_ e _console_ e _téte-à-tête_, e _onaise_? E é carissimo tudo isto! A gente, pelos modos, de fóra parte os objectos, tambem paga a lição de francez de samblador, que vem aqui aprender?

Sem embargo d'estes reparos, o oiro saiu-lhe generosamente da algibeira bem apercebida.

A pobre saleta do morgado, dentro em pouco, transformou-se em recinto digno de uma Ponce de Leão. Calisto, refestelado nos coxins elasticos da ottomana, contemplava os restantes adornos do aposento, quando lhe chegou do correio carta da sua esposa.

Dizia assim:

«Já com esta são tres que te escrevo, e ó por hora nem uma nem duas da tua parte. Marido! que fazes tu, que não respondes? Ando a futurar que não tens o miolo no seu logar. Longe da vista, longe do coração, diz lá o ditado. Ora, queira Deus que não seja por minga de saude; e, se é, dil-o para cá, que eu estou aqui estou lá.

«O primo Affonso de Gamboa esteve cá ha dias, e a modo de caçoada foi-me dizendo que lá na capital as mulheres inguiçam os homens, e fazem d'elles gato sapato. Eu fiquei sem pinga de sangue, meu Calisto! Mal fiz eu em te deixar ir ás côrtes. Bem tolo é quem está bem na sua casa, e se mette n'estas coisas dos governos, que só servem para quem não tem que perder, como diz o primo Affonso.

O peor é se tu pegas a doidejar com as mulheres, e saes do teu sério. Eras um marido perfeito como a santa religião o quer, e tenho cá uns agouros no peito que me não deixam fechar olho ha tres noites. Deus te defenda, homem, e te traga aos braços da tua mulher são e escorreito da alma e do corpo.

Saberás que o mestre-escola anda de candeias ás avessas por que tu lhe não respondes á carta em que elle te pediu uma venera. Olha se lhe arranjas isso ainda que te custe pedir ao rei ou lá a quem é a tal coisa. O homem tem-me feito favores, quando eu preciso que elle me leia a relação dos foreiros. A vacca preta comeu o bicho, e morreu hontem á noite. Lá se vão cinco moedas e um quartinho com a breca. O centeio da tulha do meio deu-lhe o gorgulho, e tratei de o vender, a trezentos e quinze, foi bem bom arranjo; eram mil e duzentos alqueires.

Olha cá, meu Calisto, disse-me a Joanna Pedra, que ouvira dizer ao Manuel da Loja, que ouviu dizer ao compadre Francisco Lampreia, que veiu de Bragança que lá lhe disseram que tu mandaras ir de casa de um negociante mais de cem moedas de ouro!!! Fiquei estarrecida. Pois tu lá não recebes do rei dinheiro que te sobre? Em que affundes tu tantas moedas, homem? Vê lá no que andas mettido, Calisto! E, se te fôr muito necessario algum dinheiro, cá estou eu para t'o mandar. Aquelle caixote de peças de duas caras fui ha dias escondêl-o na lareira da cosinha velha, porque tenho medo á ladroeira desde que tu andas por lá.

Não te enfado mais. Responde sem demora, que estou muito consternada.

Tua mulher que muito te quer _Theodora_.»

Calisto Eloy dobrou a carta vagarosamente, e disse de si para comsigo:

--Pobre mulher! já me sinto enfadado com as tuas cartas... Já as tuas sinceras babozeiras me incommodam e enjoam!... Agora vejo que tu eras quasi nada na minha vida. Não sei em que logar do meu coração estiveste, porque não dou pela falta, nem sequer a saudade me chama para ti!... Os contentamentos da minha vida passada deu-m'os o estudo. O coração dormia como os ventos da tempestade no bojo da nuvem negra, que serenamente se vae acastellando no horisonte. Eil-a começa a desfechar agora relampagos e coriscos. Mas o viver é isto! eu quero e preciso amar. Levam-me os impetos de uma vontade juvenil, e «a vontade é vida» como diz o Jorge Ferreira na Eufrozina. Amor! amor! que me caldeaste e retemperaste o peito nas tuas forjas! emborca-me os teus nectareos phyltros, embriaga-me este coração, que já não póde respirar de afogado nos seus ardores!...

Disse, e tirou de uma charuteira de canudos de prata um havano, cujas ondulações de fumo lhe perfumaram o quarto e subtilisaram a phantasia.

Depois, com forçado tregeito, estendeu o braço sobre uma banqueta de charão, em que assentava um tinteiro de crystal, e escreveu á esposa, n'este theor:

«Prima Theodora e estimada esposa.

Passo bem de saude; mas saudoso de ti. Não te tenho escripto, porque os negocios do estado me levam todo o tempo. Mandei vir dinheiro de Bragança, para emprezas de grande vantagem. Não te dê cuidado os meus gastos, que somos muito ricos, e não temos filhos. Até aqui vivemos miseravelmente, quando eu voltar a casa, quero que mudes de vida, prima. Hei de reformar o nosso palacete de Miranda, e viveremos como nossos avós, com representação e commodidades proprias d'este tempo. É preciso gosarmos a vida, que é curta. Não andes por lá a medir grão nem a tratar das aves. Entrega isso ás criadas, e faz-te a senhora e fidalga que és.

Em quanto ao mestre-escola, e á sua exigencia do habito de Christo, devo dizer-te que o mestre-escola é um asno. Não respondo a taes cartas. Manda-o á tabua, e não admittas similhante palerma á tua conversação. Lembra-te que és uma Figueirôa, casada com um Barbuda.

Se receberes ordem minha, em mão de algum negociante de Bragança, paga o dinheiro que disser a ordem.

Não te lembres de infidelidades do teu Calisto. O primo Gamboa é um patarata sem juizo, que te diz essas coisas para te disfructar.

Quando vier o recoveiro de Miranda, manda-me presunto, salpicões, e algumas ancoretas do vinho da Ribeira.

Teu muito affecto e extremoso _Calisto_.»

XXIV

*A mulher fatal*

Ás tres horas em ponto, parou uma sege de praça, á porta de Calisto Eloy de Silos. O bolieiro subiu ao terceiro andar, perguntando se s. ex.^a estava em casa. O morgado arregaçou com o pente as mechas do cabello, que lhe escondiam porção das escampadas fontes, apertou os cordões do rob-de-chambre na volta mais airosa da cintura, e desceu ao pateo a receber a visita.

Saltou da sege, amparando-se levemente na mão de Calisto, uma mulher d'aquellas que Lucifer fazia, quando assaltava no deserto a pudicicia dos Antonios, dos Paulos, dos Pacomios e Hilarioens.

Era alta e pallida: rutilavam-lhe os olhos como lustrosos azeviches á flor de um busto de marfim, algum tanto emaciado. Calisto machinalmente levou a mão ao coração: traspassara-lh'o uma azagaia electrica.

--É muita delicadeza da parte de v. ex.^a, disse Iphigenia.

--Oh, minha senhora!... tartamudeou o morgado da Agra, offerecendo-lhe o braço.

--Parece, tornou ella quando iam subindo, que o meu palpite não me enganou...

--O palpite de v. ex.^a?

--Sim... eu contava com um cavalheiro no rigor da palavra... Delicadeza egual ao talento, qualidades que raras vezes se conformam.

Entraram á sala. O morgado conduziu Iphigenia ao sophá, e disse com voz tremida:

--A que devo eu a honra d'esta visita, minha senhora?

--Abreviarei a minha historia e a minha pretenção. As suas horas deve-as v. ex.^a ao bem da patria, e indiscreta fui eu obrigando-o a estar fóra do parlamento a esta hora...

--Minha senhora... que vale a patria, em comparação da honra que v. ex.^a me dá?! atalhou Calisto Eloy, com o coração nos labios a sorrir.

--Sou brazileira. Pela falla me terá já conhecido...

--Sim: eu estava notando no fallar de v. ex.^a, uma graça indisivel...

--Meu pae era portuguez, capitão de mar e guerra. Foi de Portugal com D. João VI, e casou no Rio de Janeiro, com minha mãe, senhora de boa linhagem, mas de pouquissimos recursos. Nasci em 1830, e casei em 1846 com um official general, do exercito do imperador do Brazil. Meu marido tinha sessenta e seis annos. Emigrára em 1834, com a patente de brigadeiro dada por D. Miguel, tendo sido coronel ainda no reinado de D. João. Gonçalo Telles offereceu a sua espada e intelligencia a Pedro II, serviu bravamente o imperio, e subiu em postos. Eu vivia orphã de pae e mãe, na companhia de parentes maternos, que pensavam constantemente em me dar posição. Casaram-me, e, se me não fizeram feliz, deram-me pae, amigo e mestre na pessoa de Gonçalo Telles.

Ha dois annos que meu marido morreu. Deixou-me pouco, porque ninguem póde grangear muito com honra, principalmente na vida militar. Pouco antes de cair enfermo, me disse que, se algum dia me faltassem recursos e beneficios do governo brazileiro, viesse a Portugal e procurasse o amparo de alguns grandes fidalgos, seus parentes que elle me nomeou um por um; e ajuntou que, se os parentes me não amparassem, pedisse ao estado uma tença em attenção aos muitos serviços que elle fizera á patria em trinta annos, até ao dia em que foi promovido a coronel de cavallaria.

Ha tres mezes que cheguei a Lisboa. Procurei os parentes do meu marido. Apeei á porta de grandes palacios, e esperei largas horas em grandes salas de espera, como viuva que anda requerendo esmola. Enganaram-se.

Alguns, por mais tractos que deram á memoria, já não conseguiram lembrar-se de Gonçalo Telles de Teive Ponce de Leão; outros, os mais velhos, recordavam-se do sujeito, e lastimavam que elle deixasse o serviço da patria. Quando eu não tinha mais que lhes dizer nem elles a mim, eu levantava-me, elles levantavam-se, e despediamo-nos cerimoniosamente. A altivez com que eu os despreso, sr. Barbuda, authorisa-me a dizer-lhe que os miseraveis são elles: eu tenho comigo a riqueza do meu orgulho; e, se conservo os appellidos de meu marido, é porque elle foi talvez o unico de sua raça que os não desdourou...

--Diz v. ex.^a muito bem--atalhou Calisto.--Que nobre alma as suas palavras me manifestam!

--Ha dias, por não ter de portas a dentro coisa que me distraisse de pensares melancholicos, fui ao parlamento. Segui umas senhoras que iam subindo para as galerias. Um homem pediu-me o meu bilhete de admissão: eu não tinha bilhete, e ia descer algum tanto envergonhada, quando um deputado cortezmente me disse: «aqui tem uma entrada, minha senhora.» Agradeci, posto que a minha vontade seria regeitar. Entrei, quando v. ex.^a começava a fallar. Impressionou-me a sua eloquencia chã, os seus ares graves, a compostura, um não sei quê mais sério que os seus annos, permitta-me assim fallar. E, ao mesmo tempo, lembrou-me a recommendação de meu marido, respectivamente aos direitos que elle tinha de ser remunerado na pessoa de sua viuva. Eu nada sei de leis nem consultei quem as soubesse; ignoro se tenho direito a reclamar o que meu marido nunca reclamou. V. ex.^a póde de prompto responder-me?

--Não, minha senhora. O que eu de prompto posso asseverar a v. ex.^a é que, em honra da memoria e cinzas do honrado brigadeiro do sr. D. Miguel, não erguerei minha voz humilde no parlamento, pedindo aos inimigos de D. Miguel favores para a viuva de Gonçalo Telles.

--Em tal caso...--balbuciou D. Iphigenia--baldou-se a minha pretenção.

--Queira v. ex.^a ouvir-me...--Molesta-se com o fumo do charuto?--perguntou elle erguendo-se.

--Não, senhor.

Calisto accendeu o charuto com ademanes theatraes, e voltou a sentar-se, proseguindo:

--Se o marido de v. ex.^a houvesse profundamente estudado a sua arvore genealogica, ajuntaria alguns nomes, mais obscuros mas não menos antigos, á lista dos parentes em Portugal. Mais obscuros, digo eu; porém, a illustração dos mais claros não é de invejar, minha nobilissima senhora. Entre aquelles que se honram do parentesco dos Telles, dos Teives e ainda dos leonezes chamados Ponces de Leão, ha um que dispensou estes appellidos por se não demasiar em composturas nobiliarias. E esse, minha senhora e prima, sou eu.

--V. ex.^a?!--acudiu Iphigenia.

--Eu, que não costumo fallar de meus antepassados, sem invocar o testemunho dos tratadistas nobliarchicos, dos chronistas, dos genealogicos impressos e não impressos. Devo poupal-a a discursos, aliás curiosos, de agradaveis e historicas noticias: mais tarde v. ex.^a ouvirá com interesse as allianças travadas entre os meus maiores e os de meu parente Gonçalo Telles de Teive. Achou, pois, v. ex.^a um parente em Portugal. Boa estrella nos fez confluir a Lisboa; em boa hora me deixei vencer das instancias dos meus constituintes.

--Eu estou maravilhada!...--exclamou Iphigenia--Ha presentimentos prodigiosos!... Que força estranha era esta que me impellia para v. ex.^a!? Subi as escadas de sua casa com desusada affoiteza. Comecei a fallar-lhe com segurança e tranquilidade extraordinarias! Não me lembrei que estava diante de um cavalheiro, que podia intender-me falsa e desairosamente... Em fim, eu fallava a v. ex.^a como se deve fallar... a um primo.

--E mais que tudo a um amigo. E, como amigo, ouso perguntar a v. ex.^a qual é actualmente a sua situação.

--Francamente responderei. Entrei em Lisboa com dinheiro, que poderia bastar á minha economica subsistencia de dois annos; porém, como ao fim de tres mezes, não se me antolhava amparo de ninguem, nem esperanças de alcançar a paga dos serviços de meu marido, pensei em trabalhar para não exhaurir o peculio que tinha. Li um annuncio, convidando mestra de linguas ingleza e franceza para collegio. Confiei bastante em mim, e apresentei-me aos directores. Fallei francez, e cuidaram que eu nascêra em França; em quanto a inglez, deram-me como bastante conhecedora da lingua. Pareceu-me que a minha posição melhorava; mas enganei-me. Eu levava comigo o fatal condão de algumas mulheres; dizem que ainda não estou velha nem feia...

--Que favor lhe fazem, minha senhora!--atalhou Calisto mui risonho.

--Pois este accidente, de que tanto se desvanecem algumas mulheres, tornou-se para mim supplicio. Não querem crêr que eu envolvi meu coração na mortalha de meu marido, no tumulo d'elle o fechei; e, se podesse, este resto de formosura atirara áquella campa, que me roubou um pae.

--Então é certo que minha prima abjurou todas as alegrias do coração?--perguntou Calisto, já ferido n'alma por este desengano á paixão que o ia queimando com um crescer e desenvolvimento para pavores!

--Todas as que não condigam com a minha situação de viuva.

--Pois se a Providencia lhe deparasse um marido digno...

--Maridos dignos são unicamente aquelles que affagam como a filhas as mulheres; são aquelles que as mulheres estremecem como paes; são os que concentram todo o seu viver no pequenino ambito da familia, na placidez e silencios de almas que se contemplam mudas, quando as vozes do coração já não tem que dizer. Eu experimentei estes contentamentos ao lado de um pae, que me deu todo o seu saber quando já não tinha forças para manejar a espada. Não se podem repetir as situações do meu passado; lembro-as com saudade; mas não cogito nem levemente em revivêl-as. Aqui tem v. ex.^a a sincera exposição do que sou. Veiu isto a dizer-lhe que a vida de mestra, que adoptei, me é golpeada de desgostos e repugnancias que me fazem desgraçada.

--E como seria v. ex.^a feliz?--interrompeu Calisto.

--N'uma casinha entre duas arvores, com os meus livros e com as minhas saudades. Ambiciono muito, porque ha pessoas abastadas que nunca puderam conseguir esta felicidade, tão moderada apparentemente.

Ergueu-se Calisto Eloy de golpe, avisinhou-se da brazileira, tomou-lhe a mão com solemnidade, e abriu do peito estas graves e doces vozes:

--Prima Iphigenia, eu não permittirei que a sua mocidade vá emmurchecer-se n'uma casinha entre duas arvores. Para as arvores e flôres se fizeram as aves; e, todavia, na estação desabrida, umas aves desferem remontado vôo a outros climas, e outras pipilam enfezadas de frio e fome. Na estação das manhãs regorgeadas e das tardes inspirativas terá v. ex.^a a sua casa bem assombrada de arvores e rodeada de relvas e fontes que retemperem as calmas do estio. Porém, no inverno, gosará o aconchêgo e regalos que as grandes populações offerecem. Não lhe admitto replicas, prima. Achou um parente de edade authorisada, que requer obediencia. Agora, fallar-lhe-hei de mim. Sou rico, não tenho filhos, com quanto seja casado...

N'este ponto do discurso, Calisto de Barbuda fez ama visagem funebre, e correu os dedos vertiginosamente por sobre o bigode, ainda escasso. Depois, desentranhou um suspiro cavo, e continuou:

--Minha prima e mulher, se alguma vez se encontrar com v. ex.^a abrir-lhe-ha os braços de parenta. É uma creatura feita no campo, dotada apenas das luzes naturaes, que a levam pelo melhor caminho da felicidade n'este mundo. Casei, por que era necessario que o vinculo dos Figueirôas voltasse á casa d'onde saíra. Acho-me ha vinte e alguns annos ligado á mulher, que não devia ser minha. E, se ella é feliz, isso prova a muita probidade e resignação com que me tenho conformado ao meu destino...

Fez uma breve pausa, e proseguiu:

--V. ex.^a deu largas á sua alma: consinta que eu seja avaro do prazer de uma expansão.

--Porque não ha de sêl-o?--accudiu D. Iphigenia, interessada na commovente historia.

--Não sei o que é felicidade. Tenho quarenta e quatro annos, e ainda não vi uma aurora benigna. Muitos annos procurei aturdir-me no estudo. Roía-me o abutre de um desejo vago; mas eu, que me segregára do mundo para o escondrijo da minha bibliotheca, se ás vezes passava de relance entre mulheres, que poderiam espertar-me paixões, fitava n'ellas como idiota que perdeu a memoria da terra natal, e se quêda espantado das coisas que ligeiramente lhe espertam a lembrança. Se alguma vez me surpresou algum sentimento estranho de affecto, podia tanto comigo a consciencia da sujeição ao dever, que o mesmo era cerrar os ouvidos da alma ao quer que era, entidade dupla, que me segredava delicias de uma vida incognita. Estas breves e poucas pelejas, com o discorrer dos annos, cessaram. Eu tinha consummado a paralysia do coração, e chamado sobre mim todos os habitos da velhice. A minha vinda para Lisboa foi o resurgimento da vida, sepultada antes de haver consciencia de si. Achei-me entre homens, aquecidos á luz d'este seculo. Na athmosphera d'esta cidade ha perfumes que vaporam do coração das esposas amadas, das amantes queridas, das pombas ideaes, que volteam á volta dos espiritos anhelantes de cada homem. Pulou-me como arfar de vulcões a vida no peito. Vi-me no passado, e tive pesar, e saudade, e pejo da minha mocidade... Onde vão estas candidas revelações do meu pobre coração? Não na enfadam porventura minha senhora?

--Interessam-me e commovem-me--disse com affectuosa sympathia a brazileira--Vae dizer-me que se apaixonou?

--Tive um delirio--respondeu o morgado, compassando as palavras em tom muito do intimo--Um delirio, sonho de infeliz, que se desperta a arrancar do seio uma frecha. Foi o estremecer do terremoto, que alarma terrores, e se aquieta. Medi a profundeza da minha alma, e pude vêr que eu seria capaz de um crime... E, todavia, se algum seio de mulher podesse comprehender quanta pureza sanctificava os meus affectos!... Se alguem visse a aguia que por tão alto avoeja, sem descer ás searas a roubar um grão!... Fallo a um espirito elevado, que tem obrigação de me comprehender... Agora, senhora, perdão! Eu disse tudo: confessei-me diante de um anjo de Deus. Mostrei-lhe o desamparo d'este meu viver. E, se estas lagrimas alguma coisa significam, é uma supplica de amizade. Eu vejo ahi uma formosura que dobra a alma, e ouso procurar o compadecimento de uma amiga, porque sei agora que ha mulheres, diante das quaes um homem precisa chorar.

Calou-se o morgado. Iphigenia encarava n'elle com certo assombro e estranheza de pessoa que não póde, nem quer conhecer dos sentimentos que a alvoroçam. O inesperado remate d'este dialogo figurou-se-lhe a ella a passagem de um romance, que se não presa de muito verosimil. Porém, como quer que a viuva do general Ponce de Leão fosse grandemente lida em novellas francezas, o caso não lhe pareceu tão extraordinario como ao leitor e a mim, quando m'o referiram.

Passados momentos, Iphigenia, contemplando, sem as vêr, umas figuras chinezas do seu leque, disse:

--De maneira que esta apparição imprevista de uma mulher desafortunada, se deu logar á expansão, tambem foi causa a uma dôr de v. ex.^a!...

Calisto entrelaçou os dedos em postura supplicante, e exclamou:

--Chovam-lhe os archanjos do Senhor quantas felicidades a bem-aventurança encerra! Nunca uma nuvem escura lhe ennegreça os seus sonhos de felicidade! Multipliquem-se em alegrias eternas para v. ex.^a, estes instantes de ventura que me deu, minha misericordiosa amiga!

Nenhuma paixão subita estalou ainda com estrondos d'este tamanho. A gente comprehende como estas coisas acontecem; casos se podem ter dado comnosco da mesma natureza, mas o que nós não fizemos nunca, se o amor nos assaltou de improviso, foi fallar assim, romper tão depressa em vehemencias de enthusiasmo. Nós, homens creados mais ou menos por salas, affeitos a subordinar o sentimento ás praticas da civilidade, desafogâmos em extasis e suspiros, contemplamos embellezados a mulher que nos endoudece, respondemos com frioleiras gagas a uma pergunta, que nos ella faz com toda a presença do seu espirito. Toda a lastima é pouca para os ridiculissimos tregeitos que fazemos então.

Ora, isto é bom que assim continue a ser. Esse quarto de hora de suprema realeza das mulheres é tudo que ellas tem, e pouco mais. Esse espaço de fascinação, que nos embrutece, é a divinisação d'ellas. Ás pobresinhas, quando o tempo as apêa dos altares, e os maridos convertem a prata dos thuribulos em caixas de rapé, fica-lhes sempre a memoria consolativa d'aquelle quarto de hora.

Tornando ao ponto, queria eu dizer, que o morgado da Agra de Freimas não fallaria d'aquelle modo, nem tão do intimo da alma apaixonada, se tivesse experiencia dos usos da boa sociedade. Os bons usos ordenam que o homem se declare á mulher que ama, depois que as impressões repetidas de vêl-a e ouvil-a bajam desfalcado o vigor do sentimento. A praxe requer primeiro o extasis, depois as semsaborias tratamudas, ultimamente a declaração, com intervalo de tres mezes ao extasis.

XXV

*Perdido!*

Fecharam-se as camaras.

Calisto Eloy desamparára a sua cadeira do parlamento, quinze dias antes de encerrada a legislatura. Era opinião geral que o deputado de Miranda, desgostoso do governo e da opposição, se retirara, convicto da fraqueza de seus hombros contra o colosso, que tombava sobre o desangrado Portugal.

As gazetas realistas indigitavam Calisto como exemplo de peito illustre e invulneravel no marnel de febres podres em que ardiam e patinhavam miseraveis ambiciosos. Deram-lhe, á conta d'isso, varios nomes gregos e romanos, que lhe ajustavam tão a primor, como a verdade historica á legenda das fabulosas virtudes de Grecia e Roma. A opposição liberal lamentava que as medidas obnoxias e hybridas do governo afugentassem da camara um deputado como Benevides de Barbuda, a cuja alta intelligencia e virtude repugnavam os desatinos da camarilha. Calisto Eloy lia estas coisas nas gazetas, e dizia entre si:

--Como hei de eu crer no que vejo escripto a respeito dos outros!...

Ao tempo que estes juizos dos publicistas eram impressos e mandados á posteridade, estava o morgado da Agra no hotel de Cíntra, cuidando em alugar e trastejar com elegancia britannica uma casa, entre moitas de arbustos, a qual parecia feita para a rainha das flores ou para repousar-se em fresca sesta a aurora.