Part 8
Sarmento não o convidára a ir visitar as filhas a Campolide, nem de leve; no correr da noite, fallou d'ellas. Calisto Eloy tambem não suscitou conversação relativa ás senhoras, porque já a doblez do espirito lhe tolhia a usual franqueza e familiaridade.
Entrou a dementar-se aquella desconcertada cabeça. A saudade, em vez de lhe tirar lagrimas do intimo amadurou-lhe temporamente a apostêma de sandices, que em todo homem se cria paredes-meias com o coração. Ahi começa elle a imaginar que o desembargador Sarmento, adivinhando os amores mal recatados de Adelaide, a obrigara a sair de Lisboa. Corroborava a suspeita não o convidar elle a visitar as damas. Isto sobre excitou-lhe o sentimento; por que, a seu vêr, Adelaide estava penando, havia uma victima, um coração sopesado, uma alma em abafos de paixão.
Esta conjectura atirou com Calisto para os tempos cavalleirosos.
O olhar em si, e ver-se maneatado pelos vinculos sacramentaes, não o reduzia á compostura e honestidade de seu estado e annos. Ainda assim, sejamos justiceiros e ao mesmo tempo misericordiosos com esta alma enferma: na cabeça allucinada de Calisto de Barbuda não havia idéa ignobil e impudica.
O amor, resaltando da cratera abafada quarenta e quatro annos, dizia-lhe que era fidalguia de alma não transigir, por conveniencias e respeitos sociaes, com a oppressão, e alvedrio paterno. Se Adelaide o amava como e quanto Calisto já não podia duvidar, sua honra d'elle era pôr peito á defesa da oppressa, beber metade do absyntho do seu calix, luctar, sem desdouro da probidade de um Barbuda, até perecer, exemplo de amadores de antiga tempera.
Amou quem isto lê, e tresvariou aos vinte annos? Passou por uns hórridos eclipses de entendimento, que apoz si deixam lagrimas tardias e vergonhas insanaveis?
Amisere-se, pois, d'aquelles lucidissimos espiritos de Calisto, que por um se vão apagando ao ventar rijo da paixão, quaes se apagam em céo de bronze as estrellas do mar alto, já quando o naufrago desesperançado finca os dedos recurvos na espuma das vagas.
Ó mal-sorteado Calisto! que aureola de patriarcha te resplendia em volta do teu chapéo de merino e aço, quando entraste em Lisboa! Que anjo eras, entrajado na tua casaca de saragoça sem nodoas! Aquella scientifica boa fé com que procuravas monumentos em Alfama, e agua depurante do muco catharroso no chafariz d'El-Rei, e querias que os aljubêtas da rua de S. Julião te dessem conta do chafariz dos cavallos!...
Que te valeram as maximas de boa vida colhidas a centenares nos teus classicos, e enceleiradas n'essa alma, refractaria á ternura de tanta moça escarlate e succada, que, lá em Caçarelhos, se enfeitava para achar graça em teus olhos?
Cairias tu nas piozes d'esta princeza dos mares, d'esta Lisboa que filtra aos nervos dos seus habitantes o fogo que lhe estua nas entranhas?
Cairias tu, anjo?
XXI
*O mordomo das tres virtudes cardeaes*
Era por uma noite escura e fria de abril.
O vento esfusiava nas ramalheiras de Campolide.
A lua, a longas intermittencias, parecia, wagon dos céos, correr velocissima entre nuvens pardas, para ir ingolfar-se n'outras. Então era o carregar-se a escuridão da terra, e mais para pavores o rangido das arvores sacudidas pelos bulcões do septentrião.
Soaram doze horas por egrejas d'aquelles valles. Era um como crebro soluçar da natureza por pulmões de bronze. Era o grão clamor da terra em angustias parturientes de alguma enorme calamidade.
Áquella hora, e por aquella noite capeadora de assassinos e bestas-feras, Calisto Eloy, embrulhado n'um capote de tres cabeções e mangas, que trouxera de Caçarelhos, passava rente com o muramento da quinta de Adelaide.
Depois, como saisse da vereda escura a um recio que defrontava com a frontaria da casa, aqui parou, e cruzando os braços, se esteve largo espaço quedo, e fito nas janellas.
Nem lua nem scintilla de estrella no céo! As confidentes d'aquelle amador torvo como o cerrado da noite, negro como o coração que lhe arfa a lapela esquerda do collete, são as trevas. Quiz accender um charuto. Nem os phosphoros vingavam lampejar na escuridão.
E o vento assoviava no vigamento da casa, e nas orelhas de Calisto, o qual, levado do instincto da conservação, levantou a gola do capote á altura das bossas parietaes, e disse, como Carlos VI:
--Tenho frio!
E passou-lhe então pelo espirito um painel da sua situação tirado pelo natural. Viu-se no espelho, que a razão lhe offereceu, e cobrou horror da sua figura.
Bem que tal acto não implicasse delicto, nem affrontasse os bons costumes, Calisto, apertado no transito difficil das indoles que se passam do comportamento austero e captivo ás liberdades e solturas do vicio, olhava com saudade o seu passado, as suas alegrias puras; e, mais que tudo, áquella hora, como o frio cortava as orelhas, lembrou-se da quentura e aconchego do leito nupcial.
E como esta visão honesta, para mais o pungir, havia de ser encarecida com uma imagem de mulher leal e immaculada, Calisto viu D. Theodora de touca, n'aquelle dormir placido de quem adormeceu com a alma quieta e intemerata. Não bastava a touca, tão hygienica quanto pudica, a penitencial-o com remordentes saudades: viu-lhe tambem o lenço de tres pontas de algodão azul com que ella costumava resguardar os hombros, antes de subir as quatro escadinhas que conduziam ao alteroso leito de páo santo.
Se visões analogas, alguma vez, puzeram guerra ao demonio tentador dos maridos infieis e o venceram, d'esta feita não se logra a sã virtude do triumpho.
É que as toucas e lencinhos pudibundos, sobre não serem enfeites mui seductores, algumas vezes tornam a virtude rançosa e tamsómente boa para adubar palestras de avós com as netas casadoiras. Este mal deve-se ás artes da estatuaria, artes em que a imaginativa não põe nada seu, porque tudo é copiado da natureza nua, ou quasi nua. Nem se quer as Niobes, as Lucrecias e Penelopes o buril respeita. Nos casos mais lacrimaveis e tragicos, querem fados máos que os olhos achem sempre pasto á cobiça, quando a impressão devera ser toda para levantamentos de espirito, e «visões altas» como diz o bom Sá de Miranda.
Quando a arte deshonesta não despe as figuras, veste-as de feitio que pelo ondeado das roupas transparentes esteja o peccado a fazer negaças a conjecturas taes que, certo estou, Calisto Eloy, antes de se empestar em Lisboa, se taes impudicias visse, romperia no parlamento os vesuvios da sua eloquente indignação. E a posteridade, ajuizando da moral d'esta nossa edade de limos e alforrecas, viria a este lameiral esgaravatar a perola da edade aurea, caida dos labios do marido de D. Theodora, a qual, segundo fica dito, dormia de touca e lencinho de algodão azul de tres pontas.
Esta peregrina imagem não bastou a desandar Calisto pelo caminho de Lisboa, e do seu gabinete, onde os pergaminhos dos seus livros pareciam rever lagrimas de amigos descaroavelmente desprezados. O infeliz não desfitava olhos de certa janella, desde que vira perpassar uma luz pelos resquicios das portadas. Podia a trahida Theodora antepôr-se aos olhos extasiados do esposo, com a pudenda touca, ou com as madeixas estrelladas de brilhantes, que elle não a via nem queria ver.
Ahi por volta de meia noite estava Calisto recordando o que dissera, em circumstancias analogas, Palmeirim aquelle grão cavalleiro de Francisco de Moraes, diante do castello de Almourol que fechava em seus arcanos a formosa Miraguarda. N'isto scismava, comprehendendo então as phrases mélicas dos famosos amadores, quando as portadas da janella se abriram subtilmente, e logo a vidraça foi subindo mui de leve.
O recanto, em que o morgado da Agra se abrigára do vento, estava fóra do caminho, e sumido aos olhos da pessoa que abrira a janella. Ao mesmo tempo, ouvia elle passos na estrada, e logo viu acercar-se um vulto rebuçado da casa de Adelaide, e parar debaixo da janella que se abrira.
Conjecturou Calisto de Barbuda, que D. Catharina Sarmento, a esposa infida, reincidira nas presas do velho peccado, e sentiu algum tanto molestada sua vaidade de regenerador de corações estragados. Tambem suspeitou que Bruno de Vasconcellos, quebrando a palavra jurada, voltára do estrangeiro a reatar a criminosa alliança. Não lhe deram tempo a mais conjecturas. O encapotado espectorou um cacarejo de tosse secca; da janella, como contra-senha, respondeu outro cacarejo de mais sympathico som, e logo as duas almas se abriram n'este dialogo:
--Ainda bem que recebeste a minha carta, Vasco!...--disse Adelaide--Estavas em casa da tia condessa? Eu mandei lá por me lembrar que se fazia lá hoje a novena das Chagas...
--Fiquei espantado--disse Vasco da Cunha--Que rapida deliberação foi esta?! Vir para uma quinta com tão máo tempo! Foi caso de maior!...
--Fui eu a causa--tornou ella--São melindres do meu coração, que, por amor de ti, não soffre que outra voz de homem lhe falle a linguagem que eu só quero e acceito de tua bocca. Antes me quero aqui escondida com a tua imagem, que ver-me obrigada a tolerar os atrevimentos do Calisto de Barbuda...
--Que!--atalhou Vasco--pois aquelle homem tão serio!... tão temente a Deus!...
--É um hypocrita com a brutalidade de um provinciano!... Offereceu-me uns versos em segredo! Que ultraje! que falta de respeito á minha posição...
--E que desmoralisada e irreligiosa creatura! Casado, já d'aquelles annos, legitimista, e catholico, segundo diz, e ousar... Estou espantado! E a tia condessa que me tinha encarregado de o convidar para assistir, no domingo á festa das Chagas! Fiem-se lá!... E tu não faltes, á festa, Adelaide. Esto anno fazemol-a com toda a pompa. O prégador já me leu o discurso, e trata eruditamente a materia. A prima Lacerda vae cantar um _Benedicite_, e a prima viscondessa de Lagos canta um _Tantum ergo_. Havemos de fazer melhor festa que a do conde de Melres. Eu começo ámanhã a colher flores e a pedil-as para enfeitar o altar dos tres reis magos e das tres virtudes cardeaes, de que me fizeram mordomo, não sei se sabias?
--Não sabia, meu amor--disse Adelaide, congratulando-se com os enthusiasmos pios do excellente moço.
A palestra proseguiu n'este tom por espaço de uma hora. A lua espreitava estas duas pessoas por entre as nuvens, que a pouco e pouco se foram descondensando. O céo azulejou-se e estrellou-se para galardoar a virtude do mordomo das tres virtudes cardeaes e da bella menina destinada a maridar-se com o mais energico influente da festa das Chagas, com que o devoto conde de Melres se havia de dar a perros.
No entanto, Calisto Eloy, consultando a sua consciencia a respeito de Vasco da Cunha, decidiu que o homem, se não era um santo, propendia grandemente para a semsaboria de idiotismo. Esta critica é a prova de um animo já iscado da peçonha da meia impiedade que degenera em impiedade inteira. Já como castigo de escarnecer um moço virtuoso, sentia elle encher-se-lhe de amargura o coração. Não bastava ouvir-se qualificado de hypocrita brutal por Adelaide; quiz de mais d'isto a providencia dos amantes lerdos, providencia que eu não posso escrever se não com _p_ pequeno, quiz, digo, que Vasco da Cunha, mancebo em flor d'annos e gentileza, se estivesse alli rejubilando em novenas e mordomias das tres virtudes cardeaes, em quanto elle Calisto, a mais de meio caminho da morte, ardia em fogo impuro e cobiça peccaminosa, com os olhos cerrados á visão duas vezes pura de uma esposa de touca e lencinho azul de tres pontas sobre as espaduas não despeciendas, segundo me consta.
Merecem escriptura as ultimas phrases de Adelaide e Vasco.
A menina, interrompendo os enlevos do devoto moço, que se deleitava em conjecturar a zanga do conde de Melres, perguntou-lhe, com doce requebro, quando viria o dia suspirado de sua união.
Vasco deteve a resposta alguns segundos, e disse:
--Deixemos vêr se morre minha tia Quiteria, que me quer deixar os vinculos do Algarve.
--Pois nós--volveu Adelaide magoada--não poderemos ser felizes sem os vinculos de tua tia Quiteria, meu Vasco?
--Ninguém é feliz desobedecendo aos seus maiores, replicou Vasco. A tia Quiteria quer que eu espere a volta d'el-rei para depois tomar ordens sacras, e trazer mais uma mytra episcopal á nossa linhagem onde estavam como em vinculo as principaes prelazias do reino.
Adelaide, não obstante o coração, quando aquillo ouviu, sentiu-se mal do estomago.
XXII
*Outro abysmo*
Esta pungente lancetada não esvermou a postema do peito de Calisto de Barbuda. Desde que qualquer sujeito perde o siso do coração, escusado é esperar que a razão lh'o restaure: em tão boa hora que elle o recupera depois das amargas provas. O homem, porém, que amanhece tolo aos quarenta e quatro annos, a mim me quer parecer que ao entardecer-lhe a vida a tolice refinará.
Tenho dois grandes exemplos d'isto: um é Calisto de Caçarelhos; o outro é Henrique VIII de Inglaterra. Este, ahi pelas alturas dos quarenta annos, tão bom homem era, que até escrevia contra o impio Luthero, e vivia santamente com sua esposa, Catharina de Aragão. Insandeceu de amor, vinte annos depois de marido exemplar, e d'ahi por diante sabe o leitor que golpes elle deu no peito invulneravel do papa e no fragil pescoço das pobres mulheres.
Calisto Eloy não será capaz de repudiar nem degolar Theodora, porque n'este paiz ha leis que reprimem os patetas sanguinarios; todavia, eu não assevero que elle seja incapaz, alguma hora, de lhe chamar parva e hedionda, e de lhe atirar com a touca e com o lenço azul de tres pontas á cara vermelha de pudor. Veremos.
Calisto, digamol-o sem refolhos, caiu. Atascou-se. Foi de cabeça ao fundo do pégo em que deram a ossada o ultimo rei dos godos, e Marco Antonio, e o rei enfeitiçado pela comborça Leonor Telles, e Simplicio da Paixão, e varias pessoas minhas conhecidas, que experimentaram todos os systemas de desfazer a vida, desde o muro de S. Pedro d'Alcantara até ás cabeças dos palitos phosphoricos.
Este enguiçado Barbuda, na volta de Campolide, não teve uma lagrima que chorasse sobre a sua dignidade esfarrapada. Circumvagou a vista pelos seus livros, figurou-se-lhe vêr na lombada de cada in-folio o olho de um demonio zombeteiro, bem que aquelles pergaminhos encadernassem almas, no céo bem-aventuradas, e na terra immorredoiras, almas que n'este mundo se chamaram fr. João de Jesus Christo, fr. Pantaleão d'Aveiro, fr. Antonio das Chagas, e dezenas d'estes talismans, que tem salvado o leitor e a mim de soçobrarmos nos parceis que esbravejam á volta de Calisto.
Eram duas horas da manhã, quando o morgado experimentou uma sensação, que viria a definir-lhe o espirito, se alguem carecesse de vêr este homem a luz extraordinaria.
Nas aguas-furtadas do andar, em que elle morava, residia uma viuva de um tenente, senhora d'annos insuspeitos, de muitas lerias, minguada de recursos, e, por amor d'isso, se offerecêra a cuidar da casa e da cosinha do deputado. Ás duas horas, pois, bateu Calisto á porta da visinha, e, como ella lhe fallasse, exprimiu elle a sensação imperativa, que o levou alli, por estes termos:
--Sr.^a D. Thomazia, ha por ahi alguma coisa que se coma?
--Não ha nada feito; mas eu vou fazer chá, sr. Barbuda, e o que v. ex.^a quizer.
--Olhe se me póde frigir uns ovos com presunto--volveu elle.
--Pois lá vão ter d'aqui a pouco.
--Veja lá que se não constipe, sr.^a D. Thomazia--recommendou elle.
--Não tem duvida. Olhe que eu tenho muito que lhe dizer. Achou um bilhete de visita na escrevaninha? perguntou D. Thomazia pelo buraco da fechadura.
--Não achei.
--Pois lá está. Faz favor de ir, que eu vou vestir-me.
--Então a sr.^a D. Thomazia está-se constipando? Ora esta! Isso é que eu não queria!... Cá desço, e até logo.
O bilhete, que o deputado encontrou, dizia: Iphigenia de Teive Ponce de Leão, e logo a lapis: _viuva do tenente general Gonçalo Telles Teive Ponce de Leão_.
Desfilaram por diante do espirito de Calisto Eloy regimentos de illustres familias oriundas dos Telles e dos Teives e dos Ponce de Leão. Na linhagem dos Barbudas tambem alguma vez tinham entrado os Teives, e uma decima nona avó de Calisto viera de Hespanha, e era Ponce, dos Ponces genuinos dos duques de Banhos.
Estava o morgado combinando estes parentescos contrahidos ahi pelo ultimo quartel do seculo XII, quando D. Thomazia entrou com o presunto e ovos. Calisto assentou o prato sobre dois volumes da Historia Geneologica, que lhe tomavam a banca: e quanto a deglutição lh'o permittia, n'alguns intervalos, foi perguntando:
--Então quem é esta senhora, que me procurou?
--Eu só sei dizer, respondeu D. Thomazia, que é uma creatura linda, linda quanto se póde ser!
--Como assim?! atalhou Calisto, retendo uma lasca de presunto entre os dentes molares, pois ella não é a viuva de um tenente general, que naturalmente havia de morrer velho?
--Póde ser que elle morresse velho; mas a viuva o mais que póde ter é trinta annos.
--E com que então galante?
--É uma imagem de cera. V. ex.^a ha de vêl-a. E então elegante! A cintura cabe aqui, proseguiu D. Thomazia, formando um annel com dois dedos. Eu, quando ouvi parar uma carruagem, cuidei que era v. ex.^a e vim abrir as portas do escriptorio. A senhora veiu subindo, e puchou á campainha. Eu espreitei lá de cima, e, a fallar verdade, lembrei-me se seria a sua esposa, que lhe quisesse fazer uma agradavel surpreza. Perguntou-me ella pelo sr. Barbuda de Benevides, e foi entrando comigo para a sala. Levantou o véo, e disse: «Não está em casa?» Que voz, sr. morgado, que voz de creatura aquella!
--E isso a que horas foi? atalhou Calisto. Era por noite alta?
--Não, meu senhor. Eram seis horas da tarde. V. ex.^a tornou ás oito, mas saiu logo; e, quando eu voltei de fazer uma visita, já o não achei para lhe dar esta noticia.
--E depois a senhora que mais disse?
--Mostrou-se pesarosa de o não encontrar, e prometteu de voltar hoje ás tres horas.
--E a sr.^a D. Thomazia saberá o que me quer essa dama?
--Não sei; o que ella sómente disse foi que v. ex.^a era um genio.
--Pois ella disse-lhe isso sem mais nem menos?
--Foi a respeito de vêr aqui estes livros muito grandes, acho eu. Esteve a reparar n'elles com uma luneta... E a graça com que ella punha a luneta!... Mulher assim!... Os homens ás vezes por mais asneiras que façam, teem desculpa!...
--As paixões, minha sr.^a D. Thomazia...--obtemperou o morgado, e lambeu os beiços molhados da libação de um vinho nervoso d'aquella garrafeira já mencionada. E proseguiu.--As paixões do amor... Nem os grandes sabios nem os grandes santos se exemptaram d'ellas. Somos todos de quebradiço barro; somos uns pucarinhos de Extremoz nas mãos infantis das mulheres. O tributo é fatal: quem o não pagou aos vinte annos, ha de pagal-o aos quarenta, e mais tarde, quando Deus quer... Deus ou o demonio, que eu não sei ao justo quem fiscalisa estes malaventurados successos de amor, que a historia conta e a humanidade experimenta cada dia...
--É um gosto ouvil-o!--interrompeu D. Thomazia--Bem no disse aquella senhora: v. ex.^a é um genio, e falla de modo que se mette no coração da gente. Quer que lhe diga a verdade, sr. Barbuda? Foi bom que v. ex.^a me encontrasse n'esta edade. Se eu fosse moça e bonita, como dizem que fui, um homem como v. ex.^a havia de me dar cuidados.
--Ora, minha sr.^a D. Thomazia, isso é lisonja e favor. Eu já não estou tambem na edade de tocar corações, nem os meus habitos vão muito para ahi!
--Edade!--accudiu a viuva do tenente--v. ex.^a póde dizer que tem trinta e cinco annos, que ninguem lh'o duvida. É mania agora dos rapazes quererem á fina força passar por velhos. Pergunte quem quizer á visinha do primeiro andar se o acha velho. Está-me sempre a perguntar se v. ex.^a me diz d'ella alguma coisa... Conhece-a?
--Bem sei: uma mocetona cheia, com umas fitas escarlates na cabeça... Não é má...
--E sabe v. ex.^a que mais? Eu vou apostar que esta senhora, que veiu cá, traz coisa no coração, que a obrigou. Assim uma senhora nova, sosinha, tão encantadora!... Aquillo, em quanto a mim, é que já o ouviu no parlamento, e apaixonou-se. Ha muitos casos assim cá em Lisboa de senhoras apaixonadas pelos homens de talento. O talento é uma coisa muito bonita! Meu marido casou comigo quando era sargento do treze de infanteria, e andava nos estudos. Era feio, e ao principio tinha-lhe medo; mas assim que elle me mandou um acrostico... V. ex.^a sabe fazer acrosticos?
--Ainda não me puz a isso.
--Pois como eu me chamo Thomazia Leonor e tenho quatorze letras fez-me elle um soneto que me deu volta á cabeça, e tamanho incendio me tomou o peito, que o amei até á morte, e ainda agora, ficando eu viuva aos trinta e nove annos, fui, sou e serei fiel á sua memoria.
N'este ponto, D. Thomazia, ferida n'alma pelo acrostico memorando, chorou.
Calisto represou-lhe os prantos com algumas maximas consoladoras sobre a morte, e bocejou, já por que eram tres horas e meia da manhã, já por que o dialogo descaira nos aborrimentos de uma palestra em dia de fieis defuntos. D. Thomazia começou a espirrar, por que se não agasalhára bastantemente, e assim se apartaram estas duas pessoas, que uma hora de expansão aproximara.
Calisto, conforme ao antigo uso, levou um livro para a cabeceira do leito. Escolheu poeta, e saiu-lhe o seu já tão querido outr'ora Sá de Miranda. Abriu ao acaso, e saiu-lhe n'uma pagina _d'Os Estrangeiros_ esta maxima: _Duas sortes de homens ha no mundo que se possam servir: ou muito parvos ou muito namorados, e ainda os namorados tem grande vantagem_.
A meu vêr, o espirito d'aquelle honrado doutor, que tão santo marido fôra de Briolanja de Azevedo, até de saudades d'ella se deixar morrer, alli lhe viera, áquella hora, relembrar occasionalmente e a ponto uma de suas maximas, como em paga do affectuoso respeito com que Barbuda o lia e inculcava á mocidade depravada.
Calisto Eloy pôde ainda admirar o lidimo portuguez da maxima, e adormeceu.
XXIII
*Tenta o seu anjo da guarda salval-o mediante uma carta da esposa*
Calisto dormiu mal.
As alvoradas de um dia feliz são mais temporãs que as da estrella d'alva. O coração acorda primeiro que os passaros. O amor diz o seu _fiat lux_ primeiro que Deus. Estas tres sentenças, a meu vêr, são mais intelligiveis que o contentamento do morgado da Agra, ao levantar-se da cama em que dormitára algumas escassas horas alvoroçadas.
O desastre de Campolide quebrantaria um homem qualquer que viesse a cumprir n'este mundo os vulgares destinos da maxima parte dos mortaes. Individuos notaveis já sairam scepticos e bravos cynicos de aperturas menos dilacerantes. Os annaes ensanguentados da humanidade estão cheios de facinoras, empuxados ao crime pela ingratidão injuriosa de mulheres muito amadas e perversissimas. Superabundam casos de embaçadellas analogas á de Calisto: d'estes lances obscuros tem saido aparvalhada muita gente que era escorreita, e que se volve daninha á republica. São uns homens que vos namoram as criadas, se vos não podem requestar a familia; uns vampiros de sangue femeal, que trazem o demonio da vingança no corpo, demonio meridiano e nocturno, que bebe lagrimas de mulher, em quanto os possessos d'elle bebem cognac e absyntho. Um homem d'estes, encostado a frade de esquina, é o leão que espreita da sua caverna lybica a antilopa descuidosa. Officiala de modista, que se espaneja nas verduras do jardim da Estrella, como alvéola nas praias borrifadas de espuma, se o anjo da guarda a desampara um quarto de hora, tem os seus dias contados. O scelerado, com o simples auxilio de um gallego, em que por vezes se ingere e chafurda o confidente de Fausto, arranca da fronte da alegre palmilhadeira de botinhas a grinalda de laranjeira em botão, que esperava a sua primavera, o seu abrir-se e rescender, no primeiro dia nupcial. Que tristeza! E ninguem falla d'isto senão eu, porque me cumpre fazer o elogio de Calisto Eloy, que não fez cousa nenhuma d'aquellas.