# A Queda d'um Anjo: Romance

## Part 7

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Direi de Quintiliano, se este nome não desconcerta a ordem. Trata-se de oradores, e de estylos viciosos. Diz este mestre dos rethoricos que «ha um natural prazer em escutar qualquer que falla, ainda que seja um pedante, e d'aqui aquelles circulos que a cada hora vemos nas praças á roda dos charlatães» N'esta nossa edade, Quintiliano redivivo diria: «nas praças e nos parlamentos.»

_Vozes_: Á ordem?

_O orador_: Pois tambem Quintiliano?!

Bem me quer parecer que rarissimas vezes o admittem aqui a elle!...

_O presidente_: Lembro ao nobre deputado, que a camara não é aula de rethorica.

_O orador_: Assim devo presumil-o, vendo que todos a professam com dignidade, exceptuado eu, que me não desdoiro, em confessar que sou o discipulo unico e máo de tantos mestres. Eu direi a v. ex.^a qual eloquencia considero necessaria n'esta casa da nação: é a eloquencia que a nação entenda. A arte de bem fallar, _ars béne dicendi_, é o estudo da clareza no exprimir a idéa. Os affectos, as galas da linguagem, que lhe tolhem o mostrar-se e dar-se a conhecer dos rudos, não é arte, é tramoya, não é luz, é escuridade. Os meus constituintes mandaram-me aqui fallar das necessidades d'elles em termos taes que por elles v. ex.^a e a camara lh'as conheçam, ponderem, e remedeiem.

Sou da velha clientela de Quintiliano, sr. presidente. Com elle entendo que por de mais se enganam aquelles que alcunham de popular o estylo vicioso e corrupto, qual é o saltitante, o agudo, o inchado, e o pueril, que o mestre denomina _proedulce dicendi genus_, todo affectação menineira de florinhas, broslados de pechisbeque, recamos de fitas como em bandeirolas de arraial.

Eis-me já de força inclinado á substancia do discurso do sr. dr. Liborio. Primeiro me cumpre declarar que não sei pelo claro a quem me dirijo. Ha dias me regalei de ler o succoso livro de um doutor grande lettrado que escreveu da _Reforma das Cadeias_. Achei-o lusitanissimo na palavra; mas hebraico na locução. Tem elle de bom e singular que tanto se percebe lendo-o da esquerda para a direita como da direita para a esquerda. Soou-me que o sr. dr. Liborio, amador do que é bom, se identificára com o livro, e aformosentára o seu discurso com muitas louçainhas d'aquelle thesouro.

Não sei, pois, se me debato com o sr. dr. Ayres, se com o sr. dr. Liborio. _Se me debato_, desavisadamente disse! O discurso não dá péga a debates que não sejam philologicos. Estes não vem aqui de molde. Rethorica, grammatica e logica, se alguem quizer tratal-a n'este predio, entretenha-se lá em baixo no pateo com o porteiro, ou com as viuvas e orphãos, que pedem pão com a logica da desgraça, e com a rethorica das lagrimas: grammatica não sei eu se a fome a respeita: parece-me que não, por que na representação nacional ha famintos que a não exercitam primorosamente. (_Murmurio e agitação na direita. Applausos na galeria. Um «bravo» estridulo do desembargador Sarmento. Um cautelleiro dá palmas na galeria popular. A tolice é contagiosa. O presidente sacode a campainha. Restabelece-se o silencio. Calisto Eloy tabaqueia da caixa do radioso abbade de Estevães_.)

_O presidente_: Relembro, já com magoa, ao sr. deputado que se abstenha de divagações alheias do debate.

_O orador_: De maneira, sr. presidente, que v. ex.^a quer á fina força, subjugar as minhas pobres idéas em _aprisoamento_, como disse gentilmente o illustre collega!

Pois assim sou esbulhado de um sacratissimo direito? É então certo, como disse o sr. dr. Liborio, que não ha direito em Portugal? V. ex.^a sem o querer, está sendo, na phrase ingrata do illustre deputado, o _substituto do anjo S. Miguel_! (_Riso_) Oh! V. ex.^a não será algoz do pensamento, já de si tão intanguido que não é mister matal-o: basta deixal-o morrer... Callar-me-hei, se estou magoando v. ex.^a.

_Vozes_: Falle! falle!

_O orador_: O illustre collega referiu o que vem contado no livro do sr. dr. Ayres de Gouveia: _que o nosso rei D. Miguel já mancebo, saido da puericia se entretinha a maltratar animaes, chegando um dia a ser encontrado, arrancando as tripas a uma gallinha com um sacarolhas_. É pasmoso, sr. presidente, que os dois doutores, protestando pela legitimidade do seu rei, um no livro, outro no discurso, refiram a sanguinaria historia do sacarolhas nos intestinos da deploravel gallinha! Eu suei quando ouvi este canibalismo, suei de afflicção, sr. presidente, figurando-me o desgosto da ave!

Protesto, sr. presidente, protesto contra a suja aleivosia cuspida na sombra de um principe ausente, indefeso e respeitavel como todos os desgraçados. Que historia villã é esta? Quem contou ao sr. dr. Ayres o caso infando do sacarolhas nas tripas da gallinha?! Em que soalheiro de antigos lacaios de Queluz ou Alfeite ouviram os refundidores da justiça estas anedoctas hediondas, e mais torpes no squalôr de recontal-as?

E, depois, sr. presidente, que me diz v. ex.^a e a camara áquelle filho da rainha da Grã-Bretanha, que é um rapinante: _uma pêga humana_! Que musa de tamancos! _uma pêga humana_! Que imagem! que allegoria tão ignobil, e extractado do vocabulario da ralé!...

Em desconto d'estas repugnantes noticias, fez-nos o sr. doutor o bom serviço de nos dizer que homem em latim é _vir_, e mulher é _mulier_, e que, em alguns casos, _homo_ tambem é homem. Ficamos inteirados e agradecidos. Uma lição de linguagens latinas para nos advertir que a lei não legisla para a mulher!... Teremos ainda de assistir á repetição do concilio em que havemos de averiguar se a mulher é da especie humana? Se os srs. drs. Ayres ou Liborio, alguma vez, dirigirem os negocios judiciarios e ecclesiasticos em Portugal, receio que os legisladores excluam a mulher das penas codificadas, e que os bispos lusitanos as excluam da especie humana!... E peior será se algum d'estes ministros, no intento de punil-as, as classificam nas aves, e nomeadamente nas gallinhas! O horror dos sacarolhas, sr. presidente, não me desaperta o animo!

Porque não ha de ser castigada a mulher por egual com o homem? Resposta séria á pergunta que tresanda a paradoxo: «Porque, no delicto, as faculdades da mulher agitam-se perturbadas; é um periodo de evolução.» A mulher, que mata, por ciume é que mata; a mulher, que propina venenos, por ciume é que despedaça as entranhas da victima. Isto é crime, ao que parece; crime, porém, de _faculdades que se agitam perturbadas, e periodo de evolução_. Se o termo fosse parlamentar, eu diria _farelório_!

Quem ha de enristar armas de argumentação contra estes odres de vento?

O que eu melhor entendi, graças á linguagem correntia e pedestre da arenga, foi que o illustre collega, avençado com o sr. dr. Ayres, querem _que todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave o rosto e mãos duas vezes por dia, e tenha o cabello cortado á escovinha, e beba agua com abundancia, e não beba bebidas fermentadas, nem fume_.

N'este projecto de lei a pequice corre parelhas com a crueldade. Que o preso lave a cara duas vezes por dia, isso bom é que elle o faça, se tiver a cara suja, mas obrigal-o a lavatorios superfluos, é risivel puerilidade, juizo pouco aceiado que precisa tambem de barrela.

Privar do uso do tabaco o preso que tem o habito de fumar inveterado, é requisito de deshumanidade que sobreleva á pena de prisão perpetua ou degredo por toda a vida. Tirem o cigarro ao preso; mas pendurem logo o padecente, que elle ha de agradecer-lhe o beneficio.

Estes reformadores de cadeias, sr. presidente, parece que tem d'olho apertar mais as cordas que amarram o condemnado á sentença; picar-lhe as veias, e desangral-o gota a gota, na intenção de o regenerar e rehabilitar! Optima rehabilitação! humanissimos legisladores! Querem que o preso se regenere hydropaticamente. Mandam-n'o lavar a cara duas vezes por dia. _Agua em abundancia_, conclamam os dois doutores. Fazem elles o favor de dar ao preso agua em abundancia; mas descontam n'esta magnanimidade prohibindo-os de fallarem aos companheiros de infortunio, com o formidavel argumento de que _sáem das cadeias delineamentos de assaltos, e assassinatos de homens que sabem ricos_!...

«Delineamentos de assassinatos»! Que é isto? _Assassinato_ é coisa que me não cheira a idioma de Bernardes e Barros. Seja o que fôr, é coisa horrivel que sáe das cadeias com seus delineamentos, contra homens que os _presos sabem ricos_. Aqui, sr. presidente, n'este _sabem ricos_, quem soffre o _assassinato_ é a grammatica. O alticismo d'esta phrase é grego de mais para ouvidos lusitanos.

O que é um preso descomedido, sr. presidente? Dil-o-hei? _Vox faucibus haesit_!...

_É febricitante despedido do leito, que, como setta voada do arco, exaspera em barulho os males de toda a enfermaria_. Que se ha de fazer a um patife que é setta voada do arco? Faz-se-lhe lavar a cara terceira vez!

Que desperdicio de poesia para descrever um preso bulhento!

_Setta voada do arco_! Que infladas necedades assopram estes estylistas de má morte!

_Inclinando rasoamento_ (peço venia para me tambem enriquecer com esta locução do sr. dr. Ayres) inclinando rasoamento a pôr fecho n'este palanfrorio com que dilapido o precioso tempo da camara, sou a dizer, sr. presidente, que a melhor reforma das cadeias será aquella que legislar melhor cama, melhor alimento, e mais christã caridade para o preso. Impugno os systemas de reforma que disparam em accrescentamento de flagelação sobre o encarcerado. Visto que Jesus Christo, ou seus discipulos, nos ensinam como obra de misericordia visitar os presos, conversal-os humanamente, amaciar-lhes pela convivencia a ferocia dos costumes, não venham cá estes civilisadores aventar a soledade aos ferrolhos, o insulamento do preso, aquelle terrivel _voe soli_! que exacerba o rancor, e os instinctos enfurecidos do delinquente.

Tenho dito, sr. presidente. Não redarguo ao mais do discurso, porque não percebi. Sou um lavrador lá de cima, e não adivinhador de enygmas. _Davus sum, non OEdipus_.

_O orador foi comprimentado por alguns provincianos velhos_.

XVIII

*Vae cair o anjo!*

A respeito do ultimo discurso de Calisto Eloy, as gazetas governamentaes estamparam que a sala da representação nacional nunca tinha sido testimunha de insolencias de tamanha rudesa e tão audaciosa ignorancia. Os jornaes da opposição liberal disseram que o representante de Miranda, á parte as demasias escolares do seu discurso, déra uma util, bem que severissima lição, aos meninos que jogueteam com o paiz, indo ao sanctuario das leis bailar em acro-batismos de linguagem, que seriam irrisorios em palestra de estudantes de selecta segunda.

Em casa do desembargador é que o morgado deslumbrou o renome dos fulminadores de catilinarias e filippicas. A numerosa roda do fidalgo legitimista encarava com venerabundo assombro em Calisto Eloy. As raças godas, que o não conheciam, concorreram a dar-lhe os emboras a casa de Sarmento. Sangue dos Affonsos e Joões não se dedignava de inventar em Calisto um primo. Todos queriam ter nas arterias sangue de Barbudas. E elle, o genealogico por excellencia, modestamente contradictava o empenho de alguns parentes honorarios; bem que, de si para si, e para alguns amigos, se ufanava de não carecer de tal parentella para egualar-se barba por barba com os mais antigos titulares em limpeza de sangue. As expressões laudatorias que mais calaram no animo de Calisto Eloy disse-as Adelaide. A menina, confessando sua surpresa no parlamento, foi sincera. Não o julgava tão denodado e destemido em face de gente nova, que parecia acovardar-se diante da coragem de um provinciano algum tanto achamboado. Disse ella á mana Catharina que a fronte de Calisto parecia allumiada, e no todo das feições e ademanes se revelava certa nobreza e garbo, que o faziam parecer mais novo.

E era assim. Os quarenta e quatro annos do morgado, vividos na aldeia, e no resguardo da bibliotheca, viçavam ainda frescura de mocidade. A reforma do trajar fôra grande parte n'isto. A casaca antiga, e o restante da roupa trazida de Miranda, tolhiam-lhe a elegancia das posturas e movimentos, nos primeiros discursos.

Cicero e Demosthenes, se entrassem de frak, no forum ou na ágora, desdouravam os mais luzentes relevos de suas esculpturaes orações. A estatuaria do orador pende grandemente do alfaiate. Vistam Casal Ribeiro ou Latino Coelho, Thomaz Ribeiro ou Rebello da Silva, Vieira de Castro ou Fontes, de casaca de brixe e gravata sepulchral da mandibula inferior: hão de vêr que as perolas desabotoadas d'aquellas bocas de oiro se transformam em graniso glacial no coração dos ouvintes.

--Eu estava encantada de ouvil-o, sr. Barbuda--disse Adelaide--Tem uma voz muito sã e argentina. Gostei de vêr a presença de espirito de v. ex.^a, quando se levantou aquella algazarra contra as suas ironias. Lembrou-me então que prazer sentiria sua senhora, se o escutasse!

--Minha prima Theodora de certo me não attendia--observou o morgado.--Em quanto eu fallasse, estaria ella pensando no governo da casa, e na calacice dos criados. Eu já disse a v. ex.^a que minha prima Theodora entendeu no summo rigor da expressão a palavra «casamento». _Casamento_ deriva de _casa_. Senhora de casa e para casa é que ella é. E eu assim a acceitei e assim a préso.

--Mas o coração...--atalhou Adelaide.

--O coração, minha senhora, ninguem lá nos disse que era necessario á felicidade domestica. Tanto sabia eu o que era coração, como aquella creancinha, que sua ex.^{ma} mana tem nos braços, sabe o que é sensação do fogo. Ora veja como ella está estendendo as mãosinhas inexperientes para a chamma das velas... Se as tocar, que dôr não sentirá ella?

--Então, volveu a filha do magistrado, hei de crêr que v. ex.^a ainda ignora o que seja coração... o que seja amor?

--Se ignoro o que seja...--balbuciou Calisto.--Sabe v. ex.^a--proseguiu elle, reanimado, apoz longa pausa--sabe v. ex.^a que no paraizo existiu uma celestial ignorancia, até ao momento em que na arvore da sciencia tocou Eva?

--Sim... E Adão lambem tocou...

--Depois, minha senhora. Mas não discutamos a primasia: tocaram ambos, e eu comprehendo que deviam ambos peccar. Maior crime sería a resistencia a Eva que a Deus. Perdoe-me o céo a blasphemia!... A que hei de eu comparar nos nossos tempos, e n'este instante, a arvore da sciencia, da sciencia do coração?!... Comparo-a a v. ex.^a.

--A mim?! que idéa!

--A v. ex.^a. Eu contemplei-a, e... aprendi!... Hoje sei o que é coração: agora começo a estudar a maneira de o matar ao passo que elle vae nascendo.

Calisto levantou-se, agradecendo á Providencia a chegada de um ancião respeitavel que se aproximava d'elle a cortejal-o.

Adelaide quedou pensativa. Reflectiu, e considerou-se molestada e mescabada no respeito que devia ás suas virtudes um homem casado.

Receiosa de ajuizar mal, por equivoca intelligencia do que ouvira, buscou azo de provocar explicações de Calisto Eloy. Como o ensejo lhe não saisse de molde, consultou a irmã, referindo-lhe o supposto galanteio do morgado. D. Catharina dissuadiu-a de pedir esclarecimentos, aconselhando-a a simular que o não entendêra.

Pouco antes de terminada a partida, um moço legitimista recitou um poemeto dedicado ao nascimento do terceiro filho do sr. D. Miguel de Bragança. Perguntou alguem a Calisto se conversava alguma hora com as musas, ou se, á maneira de Cicero, escrevia o desgracioso:

_Ó fortunatam natam, me consule, Romam_.

Disse o morgado relanceando os olhos a Adelaide, que o seu primeiro parto metrico apenas tinha de vida quarenta e oito horas, e tão aleijado saíra, que elle se envergonhava de o offerecer ao apadrinhamento de pessoas authorisadas.

Instaram damas e cavalheiros pela amostra da obra prima, que certamente o era, attenta a modestia do poeta.

--São versos, disse elle, que se poderiam mostrar aos quinze annos, e que seriam derisão e lastima aos quarenta e quatro.

Objectaram as damas argumentando que o homem de quarenta e quatro annos devia receber as inspirações dos vinte, porque no vigor da edade é que o coração fulgura em toda a sua luz.

Tregeitou Calisto uns esgaros de satisfação ridicula. Eram os percursores de alguma enorme necedade.

Embora resistisse á exposição da sua estreada musa, não se conteve que, despedindo-se de cada uma das senhoras da casa, disse, á puridade, a D. Adelaide:

--V. ex.^a verá as trovas que só Deus viu, e ninguem mais verá no mundo.

D. Adelaide ficou embaçada. Seria aggravar as meninas de dezoito annos, e educadas como a filha do desembargador, e amantes como ellas de um compromettido esposo, estar eu aqui a definir a entranhada zanga que lhe fez no espirito d'ella o desproposito de Calisto. A estima affectuosa que lhe ella ganhára, por amor d'aquella cavalheirosa acção, por onde a paz domestica se restaurára, não teve força de rebater o tedio e o odio do tom mysterioso do provinciano.

Em quanto ella confiava da irmã o despeito e aversão com que a deixaram as ultimas palavras de Calisto Eloy, estava elle no seu gabinete retocando e peorando aquellas linhas rimadas, a cuja rebentação assistiu o leitor com piedosa tristeza.

XIX

*Ó mulheres!...*

Seguiram-se horas de insomnia. O juizo dava-lhe tratos amarissimos ao coração. O homem sentava-se na cama, e remechia-se inquieto como se o escarneo o estivesse picando d'entre a palha do enxergão.

Os intervalos lucidos eram-lhe intervalos do inferno. Os axiomas classicos sobre o amor caiam-lhe na memoria como chuva de dardos. Quem mais o suppliciou foi o seu mestre e amigo D. Amador Arraiz. Este santo bispo apresentou-se-lhe em visão, com D. Theodora Figueirôa ao lado, e disse-lhe as palavras do capitulo XLV dos _Dialogos_: «Em a lei de Christo a fidelidade que deve a mulher ao marido, essa mesma deve o marido á mulher; e, se as leis civis dão mais poder aos maridos que ás mulheres, não é para as offender e maltratar, nem para um ter mór jurisdição sobre si que o outro.»

Seguiram-se outras visões de não somenos pavor. Ahi pela madrugada, Calisto Eloy amodorrou-se em roncado dormir; mas a fada que lhe abrira os thesouros virgineos do coração, a esbelta Adelaide bateu-lhe com as azas brancas nas palpebras, e o homem acordou estremunhado a desgrudar os olhos, que se haviam fechado com duas lagrimas, as primeiras que o amor lhe esponjára do seio, e cristalisára nos cilios, como diria o dr. Liborio. Então foi o trabalharem-n'o umas cogitações tão sandias, que seriam imperdoaveis, se não estivessem na tresloucada natureza de todo homem que ama.

Entrou a inventariar as alterações que devia fazer no substancial e accidental da sua personalidade.

O uso do meio grosso pareceu-lhe incompativel com um galan. Aquelles sibilos da pitada, bem que denotassem espiritos cogitantes e gravidade de juizo, deviam de toar ingratamente nos ouvidos de Adelaide. De mais d'isso, a saraivada de bagos de rapé que elle sacudia dos sorvedouros nasaes, algumas vezes obrigava as damas a formarem sobre os olhos com os dedos um antemural sanitario contra as insuflações immundas do sabio. Deliberou, portanto, immolar as delicias pituitarias.

Viu-se no espelho de barbear, modesto utensilio do estojo de bezerro, e conveio no deslavado prosaismo da sua cara clerical. Resolveu deixar pera e meia barba, como transição para o bigode, que devia ir-lhe bem na tez um tanto moreno-pallida.

Como o estudo lhe havia extenuado os olhos, e por amor d'isso usava oculos de prata quando lia, adoptou a luneta de oiro com molas pensis.

N'este proposito, saiu a delinear as reformas capillares; fez alinhar as bases de uma cabelleira, que trouxera escadeada da provincia; e consentiu que lhe encalamistrassem dois topes rebeldes ao ferro.

Depois, quando a ancia de uma pitada começava a importunal-o, fez provisão de charutos, e fumou o primeiro com afflictivas caretas, e engulhos de estomago.

Colheu informações dos alfaiates de melhor fama, e foi ao Keil encommendar duas andainas de fato. O artista offereceu-lhe os figurinos; e, como lhe fallasse francez, Calisto suppoz que o attencioso alfaiate lhe dava a conhecer os retratos de alguns sujeitos illustres da França. Corrido do engano, depois de lêr as indicações das _toilettes_, saiu d'alli a procurar mestre de linguas, e a comprar diccionarios e guias de conversação.

Se o leitor, mais perseguido da fortuna esquerda, nunca passou por lances analogos, não se tenha em conta de desgraçado.

Quem tivesse conhecido, um mez antes, Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda, devia choral-o, quando o viu entrar n'um café a pedir agua para combater os vomitos provocados pelo charuto!

Irá perder-se aquella alma tão portugueza, aquelle exemplar marido, aquelle sacerdote e glorificador dos classicos lusitanos?

O amor abrirá no pavimento da camara um alçapão, onde se afunda aquelle grande brilhante, desluzido, mas promettedor de refulgente lume?

_Di meliora piis_!

Ó Lisboa!...

Ó mulheres!...

XX

*Proh dolor!...*

Adelaide, temerosa de algum imprevisto accidente, que a desmerecesse no conceito de Vasco, por causa do morgado da Agra, relatou ao pae o dialogo da antevespera, e a promessa da poesia para a noite seguinte.

O desembargador duvidou do entendimento da filha, antes de acreditar na insania do seu melhor amigo. Como havia de crer elle no intento deshonesto de um homem que lhe emergira a outra filha da voragem? E, crendo, como se comportaria em lanço de tanto melindre?

Meditou, e discretamente resolveu que suas filhas e genro fossem passar alguma temporada da primavera na sua quinta de Campolide; e se pretextasse a doença de uma neta, para que a saida se fizesse n'aquelle mesmo dia. Pôde mais com o velho a gratidão que a offensa.

Calisto Eloy chegou á hora costumada. Já não entrava á presença do magistrado com a facilidade e lhanesa de outros dias. A sisudeza do semblante arguia o incommodo da consciencia. Mais lh'a inquietava a estudada jovialidade, com que Sarmento o recebeu. Antes de perguntar pelas senhoras, lhe disse o velho o motivo da inopinada saida para ares. Calisto passou o restante da noite com os amigos da casa; porém, insolitamente abstraido, concorreu a augmentar a lethargia d'aquelles velhos soporosos, que pareciam ajuntar-se para se narcotisarem, e entrarem emparceirados nas silenciosas regiões da morte.

Fez sensação na assembléa tirar Calisto de uma charuteira de prata um charuto, e baforar columnas de fumo, com uns modos aperalvilhados, e improprios de sua gravidade. Sarmento, com delicada liberdade, observou a preponderancia que os costumes de Lisboa iam actuando sobre o animo do seu bom amigo. Sentiu que os ruins exemplos vingassem quebrantar aquella admiravel singeleza de trajo e maneiras que o morgado trouxera da sua provincia. Lamentou que, em menos de tres mezes, o modelo do portuguez dos bons tempos, se baralhasse com os usos modernos e viciosos.

Calisto Eloy defendeu-se froixamente, allegando que as mudanças exteriores não faziam implicancia ás faculdades pensantes; e ajuntou que, sciente de que tinha sido incentivo da mofa entre os seus collegas, á conta da simpleza um tanto anachronica dos seus costumes, entendera que a prudencia o mandava viver em Lisboa consoante os costumes de Lisboa, e na provincia, segundo o seu genio e habitos aldeãos. Concluiu, dizendo que: _Cum fueris Roma, Romam vivito mora_,[20] e que o fazer-se singular importava fazer-se ridiculoso; e que os seus annos não eram ainda bastantes para authorisarem a distinguir-se no mero accidente dos trajos.

Perguntado por que deixára de tomar rapé, costume indicativo de homem pensador e estudioso, respondeu que alguns escriptores modernos attribuiam á ammoniaca componente do rapé, o deperecimento das faculdades retentivas, pela acção deleteria que o poderoso alcali exercitava sobre a massa encephalica. Além de que a fumarada do charuto, sobre ser purificante e anti-putrida, dava aos alvéolos solidez, e consistencia aos dentes.

Estas explicações não evitaram que o desembargador, com os seus velhos amigos, prognosticassem o derrancamento do morgado da Agra, depois que elle se retirou, algum tanto azedado das reflexões d'aquella gente encanecida.

