Part 6
Eu vi em vossos olhos novo lume, Qu'apartando dos meus a nevoa escura. Viram outra escondida fermosura, Fóra da sorte e do geral costume...
Deitou-se por deshoras, e dormitou sobresaltado. Ante-manhã espertou com as alvoradas de uns pintassilgos e calhandras, que lhe cantavam amorosamente na alma. Eram as alegrias do primeiro amor, aquelles momentos de céo, visita dos anjos, que todo coração hospedou na infancia, na virilidade, ou já na decadencia na vida. Saíu alegre do leito, e leu algumas lyricas de Camões e Filintho Elysio.
Nunca em sua vida poetára Calisto Eloy de Silos. O amor não lhe havia dado o beliscão suavissimo, que por vezes, abre torrentes de metro da veia ignorada. Eis que o corisco da inspiração lhe vulcanisa o peito. Levanta machinalmente a mão á fronte, como a palpar a excrescencia febril que todo o poeta apalpa no conflicto sublimado do estro. Senta-se: pega da penna, e o coração distilla por ella este fragmento de madrigal, que, a meu vêr, foi o ultimo que o sincero amor suggeriu em peito portuguez:
Senhora de grão primor, Meu amor, Formosissima deidade, Arde meu peito em saudade, Quem fui hontem, não sou hoje; Minha alegria me foge, Se vos olho. Já captivo em vós me acôlho, Havei de mim piedade; Sêde minha divindade; Não leveis a mal que eu chore Com tanto que vos adore Gentil e nobre menina Como Camões a Cath'rina E como Ovidio a Corinna.
Posto isto, o morgado da Agra relanceou os olhos com desdem para o taboleiro do almoço, e com muita repugnancia, consentiu ao appetite que se desejuasse com uma linguiça assada, almoço que elle alternava com um salpicão frito.
Depois quando se estava vestindo, olhou para a casaca de briche e para as pantalonas apolainadas, e teve engulho d'esta fatiota. Vestiu-se, saíu apressado, entrou no estabelecimento do sr. Nunes na rua dos Algibebes. Aqui o vestiram o mais desgraciosamente que puderam, com um farto paletó de panno côr de rato, e umas calças, de xadrez cinzento, e colete azul, de rebuço, com botões de coralinas falsas. No Chiado abjurou um chapéo de molas de merino, e comprou outro de castor, á ingleza. Cumpria-lhe vestir as primeiras luvas de sua vida. No vestil-as arrostou com difficuldades, que venceu, rompendo a primeira luva de meio a meio. Disse-lhe a luveira que não introduzisse os cinco dedos ao mesmo tempo, e ajudou o na ardua empreza.
Dois mancebos galhofeiros, que estavam na loja, riram indelicadamente da inexperiencia do sujeito desconhecido. Um d'elles, confiado na inepcia tolerante do provinciano, ou supposto brazileiro, disse, a meia voz, ao outro:
--Quatro pés nunca vestiram luvas.
Calisto encarou n'elles com sorriso minacissimo, e disse á luveira:
--As luvas são boa coisa para a gente não dar bofetadas com as mãos.
Os joviaes sujeitos olharam-se com ar consultivo, sobre o despique digno da affronta, e tacitamente concordaram em se irem embora.
Ao meio dia, entrou o morgado na camara, e fez sensação. As calças de xadrez eram uma das grandes desgraças, que a providencia, por intermedio do sr. Nunes aljubêta mandára a este mundo. Como se a substancia não fosse já um crime de leso gosto e lesa seriedade; ainda por cima as pernas caíam sobre as botas em feitio de boca de sino.
A camara afogou o riso, salvo o dr. Liborio do Porto, que tirou de dentro esta facecia puchada á fieira do costumado estylo:
--Guapamente intrajado vem mestre Calisto! Faz-se mister saber que rolos de pragmaticas lhe impendem entre as botinas e as pantalonas. Certo, que o urso se pule e lustra. Bom seria que o cerebro se lhe vestisse de roupagens novas e hodiernos afeites!...
Foram festejados estes apódos pelos tolos mais convisinhos do dr. Liborio.
Calisto houve noticia da zombaria do doutor: a intriga politica não perdeu lanço de acirrar o morgado contra Liborio, que era governamental.
N'esta sessão fôra dada ao deputado portuense a palavra, na discussão de uma proposta de lei sobre cadeias. O morgado, assim que lh'o disseram, aguardou opportunidade de desforrar-se da chacota.
Ai da patria, quando os talentos parlamentares se incanzinam n'estas pugnas inglorias!
XV
*Ecce iterum Crispinus...*
Corrido um quarto de hora, fez-se na camara o silencio da subterranea Pompea. É que o dr. Liborio ia fallar.
--Sr. presidente, e senhores deputados da nação portugueza!--disse elle--_Vem-nos agora sob a mão assumpto, até aqui pretermittido_.[14] Pelo que toca e friza com cadeias patrias, direi os cinco stygmas que um estylista de folego esculpiu nos frontaes d'esses antros:
INJUSTIÇA!
IMMORALIDADE!
IMMUNDICIE!
INSULTO!
INFERNO!
Inferno, sr. presidente, inferno dantesco, inferno theologico em que ha o ranger de dentes, _stridor dentium_!
Que é da civilisação d'esta miserrima e tão coitada terra? Quem nos lampeja verdade n'esta escureza em que nos estorcemos? Ai! _A verdade ainda não matiza de rosicler a alvorada do novo dia_. As idéas entre nós estão como _flores palpitantes no gomo nascente_. Eu me esquivo, sr. presidente, _o lavor de historiar as successivas phases que tem percorrido os methodos do aprisoamento_. Urge primeiro pregoar a brados que se faz mister funda cauterisação na lei. O direito não se estudou ainda em Portugal. Pois que é o direito? _No seu todo synthetico e como corpo doutrinal, o direito é a sciencia da condicionalidade ao fim do homem_. Consoante vige e viça o nosso direito de punir, sr. presidente, _o juiz é o delegado de Deus, o carrasco o substituto do anjo S. Miguel_.[15]
Calisto Eloy pediu a palavra. O orador proseguiu:
--Sr. presidente, n'este paiz não se attende ás bossas. Os legisladores não estudam o crime com o compasso sobre um craneo esbrugado. _Se fordes a Windsor Castle e vos metterdes de gôrra com os guardas que mostram o castello, ouvireis que um dos filhos da rainha tem uma irresistivel tendencia para a rapina: é uma pêga humana_. Uma pêga humana, rapacissima, a mais não! Sr. presidente, _do nosso rei D. Miguel se conta, que já mancebo saodo da puericia, se entretinha a maltratar animaes, chegando um dia a ser encontrado arrancando as tripas a uma gallinha viva com um sacarolhas_.[16]
--_Vozes_: Á ordem! Á ordem!
--_O orador_: Pois em que me transviei da ordem?
--_Uma voz_: Não se diz no seio da representação nacional: _o nosso rei D. Miguel_.
--_O orador_: Eu referi o caso com as expressões em que o acho narrado n'um livro mirifico e sobre-excellente do sr. dr. Ayres de Gouveia.
--_Uma voz_: Pois não faça obra por inepcias do dr. Ayres de Gouveia.
--_O orador_: Retiro a dessoante phrase, que impensada destilei do labio, e ao ponto me revêrto. Sem a sciencia de Porta e de Blumenbache toda a penalidade saírá vêsga, bestial, e infernalissima. É natural, sr. presidente, que o sentimento se corrompa, assim como o _calculo se empedra, e arraiga o cancro nas entranhas, e o coração se ossifica, e o hydrocephalo se gera, ainda nos mais solicitos em hygiene_:
Posto isto, sr. presidente, cumpre dividir os sexos, pelo que diz respeito ao calibre do castigo. Eu citarei com quanta emphase me cabe n'alma, algumas linhas do jovem explendido de verbo, que auspicia e promette o primeiro criminalista d'esta terra. Fallo de Ayres de Gouveia, e n'elle me estribo. O douto viajeiro diz: «O individuo, para quem a lei legisla, e a quem tem em vista, é o homem (_vir_), não a mulher (_mulier_), desde os vinte e um annos, ou época do predominio racional, até aos sessenta, ou principio do periodo debilitante, no estado generico, ou que constitue a generalidade de ser homem, não descendo sequer ás gradações principaes, que tornam o _homo_ homem, o genero especie.»[17]
É certo, sr. presidente, que _a femina toca o requinte da depravação, e chega a effeituar horrores cuja narração é de si para gelar ardencias de sangue, para infundir pavor em peitos equanimes_, porem, o mobil dos crimes seus d'ellas é outro: _as faculdades da mulher agitam-se perturbadas; é um periodo de evolução_, e não ha ahi _arcar com evidencia_.
Que farte me hei despendido em razões que superabundam no caso em que me empenho, de parçaria com Victor Hugo, e com quejandas lumieiras que esplendem na vanguarda d'esta caravana da humanidade, que se vae demandando a Meca da perfectibilidade. Faça-se a lei, restaure-se a justiça, e depois crie-se a penitencia, regimente-se o criminoso _aprisoado_! Aos que já metteram rêlha e adubo no torrão do novo plantio, d'aqui me desentranho _em louvores e muitos e francos e perennes_.
Sr. presidente! Em quanto a cadeias, estamos no mesmo _pé de idéas da inquisição_! Que esterquilinios! que protervia! Eu quero, com o dr. Ayres, que _todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave rosto e mãos duas vezes por dia, e tenha o cabello da cabeça cortado á escovinha_. Eu quero, com o doutor supracitado, que elle não fume, nem beba bebida fermentada. _Água em abundancia_, e mais nada potavel. Não quero que os presos se conversem, porque, no dizer do insigue patricio meu, e abalisado humanista, _das cadeias saem delineamentos de assaltos, e assassinatos de homens que sabem ricos_.
_Lastimado isto_, sr. presidente, um preso descomedido entre os de mais, _é qual febricitante despedido do leito que como setta voada do arco, exaspera em barulho os males de toda a enfermaria_.
Eu quero que o preso funcionne intellectivamente, e de lavores corporaes se não desquite. O homem sem instrucção _obra instinctivamente, obra egoistamente, obra septicamente_, se lhe escaceia religião. Ao preso _lide-lhe a mão na tarefa, sim; mas lide-lhe tambem a cabeça na idéa_. _Inclinando rasoamento_ para isto, em todas as cadeias europeas lustram sciencias, pulem saber, e se amenisam instinctos. Veja-se o que diz o nunca de sobra invocado Ayres, honra e joia da cidade de Sá de Menezes, d'Andrade Caminha, de Garrett, cidade onde me eu rejubilo de haver vagido nas faixas infantis. É mister que se entranhe o sacerdote no cancro das masmorras; mas o sacerdote _atilado de engenho e todo impeccavel de costumes_; e não padres cuja _uncção sacrosanta se lhes convertesse no corpo em lascivos amavíos_. Quem sabe ahi _joeirar o optimo para capellães de prisões_?
Depois quer-se _um director, olho e norma_. _E tão boas partes se lhes requerem, que ainda scismando talhal-o um composto de virtudes, o não viriamos delinear senão escorço_.
Deu a hora, sr. presidente. A materia é tal e tão rica, e para tamanho cavar n'ella, que se me confrange alma de lhe não dar largas. Aqui me fico, e do imo peito espido brado de louvor, que louvaminha não é, ao illustre membro d'esta camara que mandou para a mesa a proposta da reformação das cadeias. Bençãos lhe chovam, que assim, com valida mão, emborca a froixo urnas de balsamos sobre a esqualidez da mais ascosa ulcera da humanidade. (Prolongados applausos. _O orador foi comprimentado por pessoas graves, que tinham estado a rir-se_.)
Calisto Eloy contemplou-o com a fixidez de medico, que estuda os symptomas da demencia nos olhos do enfermo. Depois, voltando-se contra o abbade de Estevães, disse:
--Eu queria ver como este dr. Liborio tem a cabeça por dentro.
E rythmando o compasso com os dedos na tampa da caixa declamou:
Quantos folgam fallar a prisca lingua Qual Egas, qual fallou, Fuas Roupinho, Qual esse conde antigo, que levára A villa de Condeixa por compadre! Mas como a fallam? Põem sua méestria Em palavras sediças, termos velhos Termos de saibo e mofo, que arrepiam Os cabellos da gente... Que dizes d'isto? Como chamas a estes?..... Que eu não acerto a dar-lhe um nome proprio. Que bem quadre a tão rancidos guedelhas? Quando estas coisas desvairadas vejo Dão-me engulhos de riso, ou já bocejos, Como arrepiques certos de gran fome![18]
XVI
*Quantum mutatus!...*
Á noite, no salão do desembargador Sarmento, soube-se que o morgado da Agra havia de orar no dia seguinte. Entre as pessoas alvoraçadas com a noticia, a mais empenhada em ouvil-o era D. Adelaide. Ao encontro de Calisto Eloy saiu ella pedindo-lhe com requebrada doçura, tres entradas na galeria das senhoras, para ella, irmã e pae.
--Já sou considerado senhora, amigo Barbuda!--ajuntou o velho--São as tristes honras da ancianidade!... E lá vou, lá vamos ouvil-o. Ha seis mezes que não saí de casa, nem saíria para ouvir o proprio Berryer ou Montalembert.
--Beijo-lhe as mãos pela cortezia, meu benigno amigo--disse Calisto; porém olhe que ha de chorar o tempo malbaratado. Eu não vou discorrer, nem cogitei ainda no que direi. Pedi a palavra, quando uma brava sandice me esfusiou nos tympanos, e estorcegou os nervos. Soou-me lá que o carrasco estava substituindo o anjo S. Miguel!... Ó meu caro desembargador, eu entro a desconfiar que a besta do apocalipse já tem tres pés bem ferrados no parlamento! Quando lá metter o quarto pé, a gente escorreita é posta fóra da sala a couces. Peço a vv. ex.^{as} perdão do pleismo do termo--disse Calisto voltando-se para as damas, que estavam examinando com espanto as transfiguradas vestes do morgado.--A boa policia, continuou elle, perde-se com a paciencia. Hei grão medo de volver-me ás minhas serras mais rudo do que vim.
--Está-se desmentindo v. ex.^a--acudiu D. Catharina graciosamente--com os trages cidadãos que apresenta hoje! Cuidavamos que havia jurado nunca reformar a sua _toilette_ de 1820!
Calisto sorriu contrafeito, e sentiu-se algum tanto molestado no seu pundonor e seriedade. Como a causa da mudança do vestido era pouco menos de irrisoria, o homem foi logo castigado pela propria consciencia. A si lhe quiz parecer que era já ante si proprio, outro sujeito, e que os estranhos lhe liam no rosto o desaire inquietador. Então lhe foi desabafo o coração. Soccorreu-se d'elle para contradizer as reprimendas do juizo; e o coração, coadjuvado pelas maneiras e ditos affectuosos de Adelaide despontara as ferroadas do juizo.
Os visitantes habituaes do desembargador e as senhoras da casa notaram certa mudança nos modos e linguagem de Calisto. Dir-se-ia que o paletó e as pantalonas lhe tolhiam a liberdade dos movimentos, e aquella assim rude, que sympathica espontaneidade da expressão.
Authorisados philosophos e christãos disseram que o vestido actua imperiosamente sobre o moral do individuo. Nas paginas immorredouras de fr. Luiz de Sousa está confirmado isto. «É nossa natureza muito amiga de si (diz o historiador do santo arcebispo) e experiencia nos ensina que não ha nenhuma tão mortificada, que deixe de mostrar algum alvoroço para uma peça de vestido novo. Alegra e estima-se ou seja pela novidade ou pela honra, e gasalhado que recebe o corpo. Até os pensamentos e as esperanças renova um vestido novo.»[19]
O adoravel dominicano, pelo que diz da alegria que influe no animo um vestido em folha, enganou-se a respeito de Calisto Eloy. O homem dava ar de quebranto e melancholia, salvo se o jubilo se lhe introvertera ao coração. Creio que era isto. Era o amor abscondito a magoal-o docemente. E a não ser o amor, o que poderia ser senão as calças de xadrez? De feito, o amor quando é serio, põe ás canhas o mais pespontado espirito, e o mais mazorral tambem. O amoroso de grande loquella, volve-se parvoinho em presença da sua amada; o sandeu tem inspirações e raptos, que seriam influxo do céo, se não soubessemos, que o demonio tentador costuma incubar-se e parvoejar eloquentemente no corpo d'estes palermas.
Calisto Eloy pagou o tributo dos espiritos esclarecidos. Umas eloquentes simplezas, com que elle costumava alegrar o auditorio; as maximas joviaes de Supico e outras com que elle intermeava a conversação; as gargalhadas provincianas, as liberdades desmaliciosas, o ar de familia com que elle se fazia bem-querer e desculpar de alguma demasia menos urbana do que permitte a convenção das salas: tudo isto, que lhe ia tão bem ao morgado, se demudou em recolhimento cogitativo, sombra triste e acanhada parvolez.
N'esta noite, concorreu á partida do desembargador aquelle Vasco da Cunha, galanteador de Adelaide, mancebo bem composto de sua pessoa, sisudo, e muito catholico. Este fidalgo, representante dos melhores Cunhas, mencionados na «Historia Genealogica da Casa Real» e no «Villas-boas» além do brilho herdado, estava-se gosando de lustre propriamente seu, figurando sempre nos annuncios pios em que os fieis eram convidados a assistir a tal festividade religiosa, ou convocando assembléas de irmandades, para o fim de consultas attinentes á maior pompa do culto divino. Dito isto, dispensa o leitor que se annumerem outras virtudes a facto só por si tão significativo. As outras virtudes hão de vir apparecendo naturalmente.
Alguem disse a Calisto Eloy que o circumspecto Vasco da Cunha não era estranho ao coração de Adelaide. Esta nova sobresaltou o peito do morgado, sem comtudo, lhe innevoar os olhos do discreto juizo, a ponto de se dar em espectaculo de risivel ciume. Reparou no porte de ambos; e tão graves e cerimoniosos os viu durante a partida, que não achou razão para os crer enamorados bem que, n'esta noite, Adelaide jogasse o voltarete com Vasco da Cunha, e seu cunhado Duarte Malafaya.
Ás onze horas, Calisto Eloy retirou-se taciturno e contristado.
A só com a sua consciencia, e debaixo do olhar severo dos seus livros, o marido de D. Theodora Figueirôa reflectiu conturbado na transformação do seu modo de viver e sentir. Gritou-lhe a razão que fizesse pé atraz no caminho que o levava á ladeira de algum abysmo, ou ás fauces voracissimas do amor que tão illustres victimas tinha ingulido. A memoria, alliada da razão, abriu-lhe os fastos desgraçados do coração humano, desde o perdimento de Troia até á extincção do imperio godo nas Hespanhas. Viu desfilarem, uma por uma, todas as mulheres fataes, desde Dalila até Florinda, a forçada do conde Julião; e, no couce de todas, a phantasia febril da insomnia afigurou-lhe Adelaide.
Aos quarenta e quatro annos a razão póde muito, se o coração já está enervado e enfraquecido de luctas e quedas; todavia, a razão dos quarenta e quatro annos é ainda frouxa e transigente, se o coração começa a amar tão a deshoras. Não se calculam as miserias e parvoiçadas d'esta serodia mocidade!
Não obstante, Calisto, pouco antes de adormecer por volta das quatro da manhã, protestára esquecer Adelaide, perguntando a si proprio se seria crime amal-a como os paladinos dos tempos heroicos amaram incognitamente grandes damas, sem mais logro de seus amores que adorarem-n'as? Com isto queria elle responder á imagem plangente de Theodora, que o estava arguindo.
Pobre senhora! àquella hora já ella andaria a pé, a moirejar pela cosinha, a fim de mandar almoçados para a lavoura os servos, e cuidar dos leitões.
Ai! maridos, maridos! Quando a Providencia vos enviar mulheres d'este raro cunho, encostae a face ao regaço d'ellas, e não queiraes saber como é que o inimigo de Deus enfeita as suas cumplices na perdição da humanidade!
XVII
*In Liborium*
Estavam cheias as galerias da camara.
Entre as mais formosas, extremava-se a filha do desembargador Sarmento. A pedido de Calisto Eloy, fôra o abbade de Estevães levar as entradas ao magistrado, e offerecer-se a conduzir as senhoras á galeria.
O vistoso coreto das damas exornavam-n'o, talvez mais que a formosura, algumas senhoras doutas enfrascadas em politica, amoraveis Cormenins, que aquilatavam o merito dos oradores com incontrastavel rectidão de juizo e apurado gosto. Lisboa tem dezenas d'estas senhoras Cormenins.
Não dírei que o renome de Calisto attrahisse as damas illustradas: era grande parte n'este concurso femeal a esperança de rirem. A nomeada do provinciano, bem que favorecida quanto a dotes intellectuaes, cobrára fama de coisa extravagante e impropria d'esta geração.
Entrou Calisto na sala um pouco mais tarde que o costume, porque fôra vestir-se de calça mais cordata em côr e feitio. Não me acoimem de archivista de insignificancias. Este pormenor das calças prende mui intimamente com o cataclismo que passa no coração de Barbuda. Aquella alma vae-se transformando á proporção da roupa. Assim como o leitor, á medida que o amor lhe fosse avassalando o peito, escreveria paginas intimas, ou ainda peor, cartas corruptoras á mulher querida, Calisto, em vez d'isso, muda de calças.
As damas, que o esperavam vestido conforme a fama lh'o pintára, desgostaram-se de vêl-o trajado no vulgar desgracioso, do commum dos representantes do paiz.
Apenas Calisto Eloy se assentou, entrou-se na ordem do dia, e logo o presidente lhe deu a palavra.
Cessou o reboliço e fallario d'aquella feira veneranda, assim que o deputado por Miranda, começou d'este theor:
--Sr. presidente! Muito ha que se foi d'este mundo o unico sujeito, de que me eu lembro, capaz de entender o sr. dr. Liborio, e capaz de fallar portuguez digno de s. ex.^a. Era o chorado defuncto um personagem que foi uma vez consultar o dr. Manuel Mendes Enchundia, ácerca d'aquella famigerada casa que elle tinha na ilha do Pico, com um passadiço para o Baltico. V. ex.^a e a camara, podem refrescar a memoria, lendo aquelle pedaço de estylo, que presagiou estas farfalharias de hoje.
Sr. presidente, a mim faz-me tristeza contemplar a ribaldaria, com que os belfurinheiros de missangas e lantejoulas adornam a lingua de Camões, despojando-a dos seus adereços diamantinos. A pobresinha, trajada por mãos de gente ignara, anda por aqui a negacear-nos o riso como moura do auto, ou anjo de procissão de aldeia. Se acerta de lhe pagarem os farrapinhos broslados de folha de Flandres em algum silvedo, a mesquinha fica núa, e nós a córarmos de vergonha por amor d'ella.
É forçoso, sr. presidente, que a linguagem castiça vá com a patria a pique?
Á hora final da terra de D. Manuel, não haverá quem lavre um protesto em portuguez de João Pinto Ribeiro, contra os Iskariotas, Juliões, Vasconcellos e Mouras, que nos vendem?
_Vozes_: Á ordem!
_O orador_: É contra o regimento d'esta casa, repetir o que está dito na historia, sr. presidente?
_O presidente_: Sem offensa de particulares.
_O orador_: Authorisa-me portanto, v. ex.^a a crer que n'esta casa está Iskariotas, e o bispo Julião, e Miguel de Vasconcelos, e...
_Vozes_: Á ordem!
_O orador_: Pois então eu calo-me, se offendo estes personagens a quem me não apresentaram, ainda bem! As minhas intenções são inoffensivas, no entanto, desconsola-me a camaradagem. Se eu soubesse que estava aqui similhante gente, não vinha cá, palavra de homem de bem!
_O dr. Liborio_: Mais prestimoso fôra ao cosmos, se o sr. Calisto estanceasse no agro do seu covil a lidar com a fereza dos javalis.
_O orador_: Não percebi o dito bordalengo: faça favor de explicar-se.
_O dr. Liborio_: Já disse que não desço.
_O orador_: Se não desce, cairá de mais alto. Refiro a v. ex.^a a fabula da aguia e do kágado, na linguagem lidima e chan de D. Francisco Manuel de Mello. É o _Relogio da Aldeia_, que falla no dialogo dos _Relogios fallantes_: «...Lembra-me agora o que vi succeder a um kágado com uma aguia, lá em certa lagoa da minha aldeia: veiu a aguia, e de repente o levantou nas unhas, não com pequena inveja das rãs, e de outros kágados, que o viam ir subindo, vendo-se elles ficar tão inferiores a seu parceiro. Julgavam por gran fortuna que um animal tão para pouco, fosse assim sublimado á vista de seus eguaes. Quando n'isto, eis que vemos que, retirada a aguia com sua presa a uma serra, não fazia mais que levantar o triste animal, e deixal-o cair nas pedras vivas, até que quebrando-lhe as conchas com que se defendia...» não me lembra bem se D. Francisco Manuel diz que a aguia lhe comeu o miolo.
Se o sybillino collega figura na moralidade d'este conto, offerece-se-me cuidar que não é a aguia.
(_Pausa do orador: riso das galerias_.)
Sabido, pois, sr. presidente, que as citações historicas fazem repugnancias ao regimento e á ordem, abjuro e exorciso os demonios incubos e succubos da historia, pelo que rogo a v. ex.^a muito rogado que me descoime de desordeiro.