A Queda d'um Anjo: Romance

Part 5

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--A moda, que franqueia as portas aos ruins desejos, ás cogitações viciosas, aos afrontamentos, ao pudor. Aquella filha de Pytagoras, a quem encareceram o feitio do braço, respondeu: «Bello é; mas não para ser visto». Na Andromacha de Euripedes, Hermion exclama: «Infelicitei-me, consentindo que de mim se achegassem mulheres preversas.» Quantas damas de hoje em dia poderão dizer, e na consciencia o estarão dizendo: Consenti, para minha desgraça, que preversos homens convisinhassem de mim!...

--Mas onde quer v. ex.^a chegar com o seu discurso? interrompeu a filha do desembargador.

--Á razão da sr.^a D. Catharina, minha senhora.

--Como assim?! quem o auctorisa...

--As lagrimas de seu ex.^{mo} pae.

--Veja lá, sr. Barbuda, que se não equivocasse com as lagrimas de meu pae... A minha reputação e costumes repellem similhantes allusões, se o são.

--Peores do que estas, sr.^a D. Catharina, minha senhora, peores referencias do que estas lhe faz a voz do mundo.

--A mim?

--Á fé! que sim! Dou-lhe em penhor da verdade a minha honra.

--Mas--interrogou irada e rubra de despeito a dama--que ousadia a de v. ex.^a fallar assim a uma senhora, que apenas conhece!... Olhe que essas liberdades de provincia não se usam cá em Lisboa.

--Não se moleste assim, minha senhora--tornou Calisto.--Respeito tanto v. ex.^a quanto estimo seu venerando pae. O atrevimento é grande, maior será a magnanimidade de v. ex.^a em perdoar-m'o. Lagrimas de velho e de pae dão estranho ousio. Desgraças sobranceiras incutem alentos destemidos nas mais fracas almas. No proposito de conjurar a tormenta, que se encapella e ameaça de sossobrar a felicidade de uma familia illustre, é que eu, sr.^a D. Catharina, me affoitei a ser o advogado espontaneo do bem de todos.

--Agradeço o zelo; mas agradecera-lhe mais a discrição--disse D. Catharina; e, retirando-se, fez uma ceremoniosa mesura a Calisto.

Não voltou mais á sala a dama. O desembargador não desfitava olhos de Calisto Eloy, que se assentou meditativo no mais assombrado do recinto.

Erguera-se do voltarete o abbade de Estevães, e abeirou-se d'elle, dizendo:

--Desconfiei que v. ex.^a estava missionando a dama... Amolleceu-a?

Calisto ergueu a fronte, enclavinhou os dedos das mãos sobre o peito consternado, e murmurou:

--Agora acabo de entender o meu padre Manuel Bernardes.

E repetiu em tom cavo:

«...Converto minha attenção, e temor a ti ó Lisboa, Lisboa, considerando o que em ti passa. Medo me fazem tuas corrupções tão graves e tão devassas, que já o lançar-t'as em rosto, não seja nos zelosos falta de prudencia, senão obra de magua.»

Depois, suspirou, e cheirou rapé.

XII

*O anjo custodio*

Santa audacia! Bizarra indole de antigo cavalleiro, que abriga no peito a generosidade com que os heroes dos Lobeiras, Barros, e Moraes se lançavam ás aventurosas lides, no intento de corrigir vicios e indireitar as tortuosidades da humana maldade!

Não desanimou Calisto Eloy, tão desabridamente rebatido por D. Catharina Sarmento.

Averiguou quem fosse o galan d'aquella cega dama, e facilmente lh'o nomearam. Era um gentil moço, ouzeiro e vezeiro de similhantes baldas, enfatuado d'ellas, e respondendo por si com sabre ou florete, quando gente intromettida em vidas alheias lhe fallava á mão.

O informador do morgado esplanou diffusamente as qualidades do sujeito, relatando as victimas, e os acutilados na defeza d'ellas.

Occorreu á memoria de Calisto aquella apostolica e heroica intrepidez de fr. Bartholomeu dos Martyres, quando foi a defrontar-se com um criminoso e façanhudo balio, que promettia engulir o arcebispo de Braga, e o collegio dos cardeaes com o proprio papa, se necessario fosse! Grande coisa é ter lido os bons classicos, se desejamos saber a lingua portugueza, e crear alentos para atacar velhacos!

Ahi vae o esforçado Calisto Eloy de Silos em demanda de D. Bruno de Mascarenhas. Um escudeiro annuncia ao fidalgo um ratazana.

--Quem é um ratazana?--pergunta D. Bruno.

É um sujeitorio, diz o criado, vestido ratonamente, e não diz o nome, porque v. ex.^a o não conhece.

--Que quer elle?

--Fallar com v. ex.^a

Vae perguntar-lhe quem é, d'onde vem, e que quer.

Interrogou o criado com máo semblante o morgado.

Calisto escreveu n'uma pagina rasgada da carteira, e perguntou ao criado se sabia lêr. Disse que não o interrogado.

--Pois entrega esse papel a s. ex.^a

D. Bruno leu, meditou algum espaço, e perguntou:

--Sabes se em casa do desembargador Sarmento ha algum criado chamado Custodio?

--Não, senhor, não havia até hontem; só se entrou hoje.

--Esse homem que ahi está dá ares de criado?

--Não, senhor: é assim um jarreta vestido á antiga, com uma gravata que parece um colete.

--Manda-o entrar para aqui.

D. Bruno releu a linha escripta a lapis, e disse entre si:

--Que Custodio é este!?

N'isto, assomou Calisto Eloy.

Bruno de Mascarenhas adiantou-se a recebel-o, e disse-lhe maravilhado.

--Eu já tive a honra de comprimentar v. ex.^a no escriptorio da _Nação_. V. ex.^a é o sr. Calisto Eloy de Barbuda.

--Sou, e agora me recordo que já tive o prazer de o encontrar...

--Mas v. ex.^a n'este bilhete diz que é Custodio!--tornou Bruno.

--Custodio, que é sinonymo de anjo-da-guarda, ou anjo-custodio da ex.^{ma} sr.^a D. Catharina Sarmento.

Abriu o moço a bôcca, e disse:

--Ah... agora é que eu entendi... Mas... queira v. ex.^a sentar-se... Eu não sei que allusão possa ser esta... que... a respeito de...

Calisto sentou-se, estendeu o braço direito com a mão aberta, e atalhou o enleio de Bruno, dizendo solemnemente:

--Vou fallar.

E, apoz curta pausa, relanceou discretamente os olhos á porta, como quem receia ser ouvido.

--Póde v. ex.^a fallar, que eu fecho a porta, disse o confuso Mascarenhas.

--O sr. Bruno de Mascarenhas--proseguiu o morgado--é solteiro. Cedo ou tarde ha de ser casado, por que é varão de preclarissima linhagem, e duas forças invenciveis hão de compellil-o a propagar-se: o sentimento congenito da especie, e a gloria, que vangloria não é, da prosecução da raça.

(Este exordio abrupto invencilhou os espiritos de D. Bruno, os quaes eram pouco entendidos em estylo garrafal.)

Façamos de conta--proseguiu Calisto--que v. ex.^a é hoje, como será, volvidos mezes ou annos, casado com uma dama egual em sangue, de honrada fama, acatada do conceito geral, dama emfim, na qual v. ex.^a empregou suas complacencias todas. Á boa dita de esposo succede-lhe a prosperidade de pae. Vê v. ex.^a em redor de si umas alegres creancinhas, que o beijam e o furtam com graciosas blandicias ás graves cogitações dos negocios, e aos aborrimentos que salteam as existencias mais descuidadas e desprendidas. A mãe dos filhinhos de v. ex.^a é o cofre de oiro: as creanças são as joias inestimaveis que v. ex.^a lá encontrou e lá encerra.

A mãe é a flôr, os filhos são o fructo. V. ex.^a arde de amores d'elles e d'ella. Por que a sua familia é não sómente a sua alegria domestica, senão que lhe é fóra de casa um pregão da honestidade e honra que vae n'ella.

De repente, quando v. ex.^a está meditando nos jubilos da velhice, com seus filhos já homens, com sua esposa laureada pelas cans sem macula, de repente, digo, ha um amigo em lagrimas, ou um inimigo secretamente satisfeito, que, lhe diz: «Tua mulher deshonra-te; essas creanças, que tu affagas, e para quem estás multiplicando os teus haveres, podem não ser teus filhos, por que tua mulher prevaricou.» Pergunto eu ao ex.^{mo} Bruno de Mascarenhas: a sua agonia, n'essa hora de atroz revelação, como hão de expressal-a os que a não sentiram ainda?

--Não sei...--respondeu Bruno--Só, no caso de se darem as circumstancias que v. ex.^a diz, é que se póde responder.

--Todavia, o seu entendimento e coração, já antes da experiencia, podem antever qual deva ser a agonia do marido deshonrado pela ignominia de sua mulher...

--Sim...

--Até aqui a hypothese em v. ex.^a: agora o exemplo em Duarte de Malafaya, marido de D. Catharina Sarmento. Duarte era rico, e dos mais fidalgos; por excesso de amor casou com D. Catharina, filha de um nobilissimo cavalheiro, porém magistrado empobrecido pelos desconcertos da politica. Duarte entrou n'aquella casa, restaurou a decencia antiga, e encostou ao seio as cans do magistrado octogenario, assegurando-lhe o socego e contentamentos dos annos ultimos da vida.

Decorridos cinco annos, Duarte tem cinco filhos. São anjos que descem a povoar o paraiso d'aquella ditosa familia. Brincam á volta de sua mãe, e como que lhe estão dando os alegres emboras da felicidade que elle está gosando, e lhe augura a elles.

É n'este ensejo que o inferno se abre aos pés d'esta familia honrada e ditosa. Surge das tenebrosas agonias um homem que despedaça ás mãos os laços humanos e divinos da santa união do velho, da filha, do genro, e dos netos. Ora, o homem que os assaltou no seu eden, foi o sr. D. Bruno de Mascarenhas.

--Eu!...--exclamou o moço com artificial espanto.

--V. ex.^a. Vejo-o admirado, não sei se da minha affoitesa, se da responsabilidade que lhe pesa, sr. D. Bruno!

--Mas que houve em casa do Sarmento?--perguntou alvoroçado o fidalgo.

--O que eu antes de hontem vi foi a face do ancião lavada de lagrimas. O que eu vi hontem á noite foi Duarte de Malafaya fitar os olhos nas creancinhas, e escondel-os para que o não vissem chorar. O que hoje verei em casa do desembargador Sarmento, se v. ex.^a o não presagia... Não temos tempo para conjecturas: a chaga deve ser cauterisada já, para não ser gangrena ámanhã. Quer v. ex.^a ajudar-me a conjurar a nuvem negra que vae rasgar-se em torrentes de desgraças?

D. Bruno reflectiu dois segundos, como se houvesse pejo de responder, no primeiro instante:

--Da melhor vontade. Eu desisto d'estas relações, para evitar desgostos serios á sr.^a D. Catharina.

--Falla-me um honrado portuguez, que tem o appellido dos Mascarenhas? perguntou com solemnidade o Barbuda.

--Juro pela honra de meus avós.

--Que vae fazer v. ex.^a?--tornou Calisto.

--Antecipo um passeio que mais tarde tencionava fazer á Europa. Parto no paquete de ámanhã para França.

--Sem dizer, nem fazer saber á sr.^a D. Catharina que esteve aqui um amigo do desembargador Sarmento...

--Nada direi sr. Barbuda.

--Aperto-lhe e beijo esta mão. Agradeço-lh'o em nome dos cinco filhos de Duarte de Malafaya, ou dos cinco anjos que lhe chamam pae.

--E saíu com os olhos marejados.

* * * * *

D. Bruno cumpriu a promessa com tanta pontualidade como o faria um sujeito de menos fidalgos brios, se lhe dissessem: «Afasta-te, se não queres o encargo de amparar uma familia, cujo esteio estás quebrando.»

É coisa que pouquissimo custa, em condições analogas, o ser pontual. Ás vezes, até se vinga fama de prudente e ajuizado.

Como quer que fosse Calisto Eloy foi d'alli em direitura á poltrona do magistrado, e disse-lhe:

--Cobre animo, amigo e senhor meu. O inimigo levantou o cerco. A maledicencia descaridosa, se não mudar de juizo, esquece-se.

Seguiu-se a narrativa do acontecido, e as alegrias do ancião interpolladas de agradecidas lagrimas.

XIII

*Regeneração*

Ó coração sensivel! ó peccadora Catharina, que vaes agora expiar o teu crime nas agonias da saudade! Aquelle Calisto, cuidando que te salvava, matou-te!

Não foi tanto quanto diz a apostrophe; mas, de feito, Catharina, quando recebeu de Bruno de Mascarenhas uma carta saturada de sãs doutrinas e reflexões, como as faria S. Francisco de Salles a mad. du Chantal, entendeu de si para comsigo que devia morrer de despeito e raiva. O fugitivo escrevia-lhe pouco antes de embarcar-se. Não referia o dialogo com Calisto; dava porém como certa uma tempestade a prumo das cabeças d'elles delinquentes. «Irei, dizia elle, morrer longe da mulher que amo, para lhe não sacrificar os creditos e os filhos. Se souberes que eu morri, recompensa-me esta virtude rara, dizendo em tua consciencia que eu te amei, como já ninguem ama sobre a face da terra.»

Depois, seguiam-se na carta os conselhos ajustados á felicidade da vida. Expunha as consequencias funestas das paixões. E terminava dizendo que as lagrimas o não deixavam continuar.

Que dama resistiria, depois d'isto, á morte?

Encerrou-se a filha do desembargador, no intento de providenciar em artigo de morte, e entrouxar para a eternidade.

N'estas cogitações a surprehendeu a mana Adelaide, mostrando-lhe uma carta de um certo Vasco da Cunha, que escrevia desde muito, e honestamente a menina solteira, no proposito de casamento. Este Vasco, de boa linhagem, conhecia Bruno, e via com desprazer os amores da dama, que havia de ser sua cunhada. Eventualmente soubera elle do embarque do Mascarenhas. Pessoas que o viram a bordo, referiram-lhe que o sujeito, perguntado ácerca dos amores de Catharina Malafaya, respondera fatuamente que se ia escapando a um aguaceiro de escandalos, com que elle não queria brincar, por que a mulher, enthusiasta e apaixonada mais que o necessario, seria capaz de o fazer assumir as funcções de marido não canonico.

Pouco mais ou menos, era d'aquella amavel contextura o periodo que D. Adelaide leu a sua irmã lagrimosa.

D. Catharina levantou-se com fidalgos brios, chamou pelos filhos, abraçou-se n'elles, e disse á irmã:

--Estou bem! Deus me perdoará, rogado por estes innocentes. Meu amado marido, como eu te quero hoje! como eu sinto o teu coração a consolar-me n'estes remorsos!...

Ora, eu não tenho a caridade de crêr nos remorsos de D. Catharina; mas piamente acredito que a mulher se estava sentindo mais amiga do marido, fineza que elle devia agradecer-lhe com as suas mais melifluas caricias.

E veiu logo a succeder que o esposo, surprehendido pela extremosa ternura da senhora, estranhou o caso, e requereu brandamente a explicação da improvisa mudança. Catharina, imaginosa como todas as pessoas que amam muito, explicou, entre alegre e lagrimante, que a final se convencera de que o seu Duarte a não trahia: suspeita de tanta força para ella, que podéra empeçonhar, com as serpes do ciume, a felicidade de duas almas, ligadas por paixão.

Duarte ficou lisongeado e satisfeito. Seguiu-se confessar elle tambem as suas vagas desconfianças emquanto á lealdade da esposa. Aqui é que foi a scena, digna de mais conspicuo narrador. A offendida senhora pregou os olhos no firmamento de madeira, espreitou por elle o azul do empyreo, com a dupla vista que dá a angustia, e murmurou:

--Céos! que injustiça!

Era dôr que lhe encolhia os folipos das lagrimas. Não arranjou a chorar. Caíu de golpe na poltrona de mais capacidade e flacidez para quedas d'aquella natureza! e, tapando a face com as mãos alvissimas, balbuciou, desentallando-se dos suspiros:

--Oh! que infeliz! que infeliz!

Duarte inclinou-se com os labios ao colo de Catharina, e disse affectuosamente:

--Perdoemos um ao outro. Estes ciumes reciprocos dizem que nos amavamos por egual.

Não queria a magoada senhora perdoar; porém, como lhe faltasse fôlego de despejo para sustentar a scena, envergonhou-se de si mesma, e teve dó do marido, a quem ella, e pae, e irmã, deviam a decencia, estado, representação e sociabilidade com as primeiras familias de Lisboa.

Instantes foram estes de consciencia rehabilitada, que poderam muito com ella no decurso da vida, e promettem ser-lhe amparo até ao fim.

É-me pequeno o peito para o prazer que sinto, relatando este caso, que é unico dos meus apontamentos, em egualdade de circumstancias. Ainda ha gente boa e de muitissima virtude: isto é que é verdade.

O fautor d'este successo, com que a gente se consola, foi, sem debate, Calisto Eloy, aquelle anjo!

Com que delicias d'alma contemplava elle a restaurada ventura d'aquelles casados, e o jubilo do desembargador! E os agradecimentos do ancião, que bem lhe faziam ao peito honrado! E os affectos de Catharina, que de todo ignorava ter sido elle o agente do seu socego; porém muito lhe queria pelo tom grosseiro, mas paternal com que lhe admoestára a culpa!

Afóra o desembargador, uma pessoa unica sabia que o morgado tinha sido o conciliador engenhoso da paz da familia: era Adelaide. Esta menina vivera receosa de que o seu Vasco, rapaz timbroso, a não quizesse esposar, fazendo-a cumplice dos desvios da irmã. Agora, já mais esperançada na realisação do casamento, via com olhos agradecidos o bom provinciano, e attendia-o com os disvelos de extremosa amiga. A isto a incitava o pae, que frequentes vezes lhe dizia:

--Se este honrado fidalgo fosse solteiro, e podesses amal-o, filha, que prazer o nosso se...

---Oh! papá...--atalhava quasi sempre a menina--pois eu havia de casar com elle?...

--Por que não? Honra, riqueza, sciencia e nobreza... que mais querias tu, filha?--perguntava o pae.

Adelaide sorria-se, e murmurava de si comsigo.

--Ainda bem que elle é casado, senão eu tinha que vêr com a jarrêta da creatura!...

No entanto, a reconhecida senhora, no auge da sua gratidão, jogava a sueca emparceirada com Calisto de Barbuda, e ensinou-lhe a jogar as damas, prenda em que o morgado revelou uma inhabilidade que excede todo o encarecimento.

XIV

*Tentação! Amor! Poesia!*

Eis que, a subitas, do coração de Calisto resalta a primeira faisca de amor!

Conheço que este desastre não se devia contar sem grandes prologos. Sei que o leitor ficou passado com esta noticia. Grita que a inverosimilhança é flagrante. Não póde de boamente consentir que se lhe desfigure a sisuda physionomia moral do marido de D. Theodora Figueirôa. Quer que se limpe da fronte d'este homem o stigma de um pensamento adultero. Honrados desejos!

Mas eu não posso! Queria e não posso! Tenho aqui á minha beira o demonio da verdade, inseparavel do historiador sincero, o demonio da verdade que não censentiu ao sr. Alexandre Herculano dizer que Affonso Henriques viu coisas extraordinarias no céo do campo de Ourique, e a mim me não deixa dizer que Calisto Eloy não adulterou em pensamento! Estes são os ossos malditos do officio; esta é a condemnação dos infelizes artifices que edificam para a posteridade, e exploram nas cavernas do coração humano os cimentos da sua obra.

Ai! Se Calisto Eloy foi de repente assalteado do dragão do amor, como hei de eu inventar preludios e antecedencias que a natureza não usou com elle!? Se o homem, espantado, a si mesmo se interrogava, e dizia: «isto que é?!» como hei de eu dizer ao leitor o que foi aquillo?!

O que elle sabia e eu sei é que, estando Calisto de Barbuda a jogar a sueca de parceiro com Adelaide, a razão de cruzado novo a partida, a menina passou a sua bolsinha de filagrana para a mão do parceiro, e disse-lhe:

--Administre-me o meu thesouro, sr. morgado. Tenho ahi o meu dote.

--Pois sejam todos muito boas testemunhas da quantia que recebo da ex.^{ma} sr.^a D. Adelaide, minha senhora;--disse Calisto, esvasiando a bolsinha.

Com as moedas de prata e oiro, que a bolsa continha, saíu um pequeno coração de oiro esmaltado com iniciaes.

Ah!--acudiu Adelaide pressurosa--isto não!...--E retirou sofregamente o coraçãosinho.

Algum dos circumstantes disse:

--Então o sr. morgado não serve para administrar corações?!

--Serve para os dominar com a sua bondade, e enchel-os de affectuosa estima--respondeu com adoravel graça a menina.

Foi n'este instante que o morgado da Agra de Freimas sentiu no lado esquerdo do peito, entre a quarta e quinta costella, um calor de ventosa, acompanhado de vibrações electricas, e vaporações calidas, que lhe passaram á espinha dorsal, e d'aqui ao cerebêlo, e pouco depois, a toda a cabeça, purpureando-lhe as maçãs de ambas as faces com o rubor mais virginal.

D'isto não deu tento Adelaide nem a outra gente.

Duas enfermidades ha ahi, cujos symptomas não descobrem as pessoas inexpertas; uma é o amor, a outra é a tenia. Os symptomas do amor, em muitos individuos enfermos, confundem-se com os symptomas do idiotismo. É mister muito acume de vista e longa pratica para descriminal-os. Passa o mesmo com a tenia, lombriga por excellencia. O aspecto morbido das victimas d'aquelle parasita, que é para os intestinos baixos o que o amor é para os intestinos altos, confunde-se com os symptomas de graves achaques, desde o hidrotorax até á espinhela caída.

E aqui está que Calisto Eloy--ia me esquecendo dizel-o--tambem sentiu a queda da espinhela, sensação esquisita de vacuo e despêgo, que a gente experimenta, uma pollegada e tres linhas acima do estomago, quando o amor ou o susto nos leva de assalto repentinamente.

Sem embargo da concumitancia de tantas enfermidades, Calisto de Barbuda embaralhou as cartas, passou-as á esquerda, e jogou a primeira partida com tamanha incuria e desacerto, que Adelaide, no acto do pagamento da aposta observou ao parceiro que era preciso administrar com mais zelo o dote da sua amiga.

E ajuntou:

--V. ex.^a esteve a compor algum bello discurso para a camara...

O morgado cacarejou um sorriso, e mais nada.

Proseguiu o jogo. Calisto deu provas de supina bestidade em quatro partidas de sueca. Adelaide, dissimulando a má sombra do fastio com que estava jogando, aturou até ao fim a partida, com grande desfalque do seu peculio.

Tinha-se feito uma atmosphera nova em redor dos pulmões de Calisto. A loquacidade, embrechada de sentenças e latinismos, com que elle costumava aligeirar as palestras dos eruditos amigos do desembargador, desamparou-o n'aquella noite. Isto causou extranhesa e cuidados ao amoravel Sarmento, que presava Calisto como a filho.

A partida acabou taciturna e triste.

Fechado em seu gabinete de estudo, o morgado da Agra, sentou-se á banca, apanhou entre dois dedos o beiço superior, e esteve assim meditabundo largo espaço. Depois, ergueu-se para dar largas ao coração que pulava, e andou passeando com desusada agilidade e aprumo de corpo. Parou diante da livraria, tirou d'entre os poetas classicos o dilecto Antonio Ferreira, sentou-se, abriu á sorte, e leu, declamando os dois quartetos do soneto V;

Dos mais fermosos olhos, mais fermoso Rosto, qu'entre nós ha, do mais divino Lume, mais branca neve, oiro mais fino, Mais doce fala, riso mais gracioso:

D'um Angelico ar, de um amoroso Meneo, de um spirito peregrino S'acendeu em mim o fogo, de qu'indino Me sinto, e tanto mais assi ditoso.

Repetiu, fez pausa, suspirou, e declamou ainda o primeiro verso do terceto:

Não cabe em mim tal bem-aventurança!

N'isto, a imagem de sua prima e esposa D. Theodora Figueirôa, trazida alli por decreto do alto, antepoz-se-lhe aos olhos enleados na imagem de Adelaide. Calisto estremeceu de puro pejo de sua fraqueza, e lançou mão da ultima carta que recebêra de sua saudosa mulher. Resava assim, escripta por mão de uma filha do boticario de Caçarelhos, com orthographia mais imaginosa que a minha:

«Meu amado Calisto. Cá soube pelo mestre-escóla que tens botado algumas fallas nas côrtes, e que tens muita sabedoria. O sr. abbade já cá veiu ler-me um pedaço do teu dito, e oxalá que seja para bem da religião. Olha se botas abaixo as decimas, que é o mais necessario. Aqui veiu um padre de Miranda para tu o despachares para abbade; e o regedor tambem quer que tu lhe arranjes um habito de Christo para elle, e uma pensão para a tia Josepha, que é viuva de um sargento de milicias de Mirandella. Assim que arranjares isso, manda para cá.

Saberás que mandei trocar os bois barrosãos á feira dos onze, e comprei vaccas de cria. Os sevados não saíram de boa casta, e acho que será bom trocal-os na feira dos dezenove. A porca russa teve dez leitões hontem de madrugada. E, com isto, olha se isso lá acaba depressa, que eu ando por cá triste e acabrunhada de saudades. Na semana que passou andei mal das reins, e muito despegada do peito. Hoje vou vêr medir seis carros de centeio, que vão para a feira, por isso não te enfado mais. D'esta tua mulher muito amiga, _Theodora_.»

Por mais que recolhesse o espirito vagabundo, Calisto não dava tento d'estes dizeres de Theodora, encantadores de simplicidade e boa governança de casa. Arrumou a carta, re-abriu o seu Antonio Ferreira, e leu no soneto XXXIII: