Part 4
Pois que, sr. presidente? Cançariam maguas a quem se lhe antolhasse ter de ainda ouvir n'esta casa voz de homem, de homem nado do ventre d'este seculo, de homem que aqui entrou a verter no gasolifacio do templo do eterno Christo da eterna liberdade, a drachma ou o talento, a mialha ou o thesouro de sua dedicação, repito, sr. presidente, quem deixára de estillar bagas de pranto, ao aportar em chão portuguez com o presagio de que, alguma hora, havia de ouvir n'este _sancta-sanctorum_ das luzes, blasphemias contra o luxo, que é a arteria, a órta do corpo industrial? Quem quizera, por tal preço, dizer ás nações cultas: «eu sou d'aquelle céo, nasci n'aquelle jardim de magas, onde Camões poetou glorias para invejas do mundo? Sou da terra dos laranjaes onde suspirou Bernardim? Sou da raça dos bravos que perpetuavam Aljubarrota, Badajoz, Valverde? (_Apoiados prolongados_.) Na minha terra... (quem quererá já dizer!) nasceram Gamas, nasceram Cabraes, e Castros, e Abuquerques, Nunes e Regras? Quem sr. presidente?
(_Calisto pede a palavra_.)
_O orador_: Que é o luxo? Perguntae ao selvatico das florestas invias o que é o seu _hamac_, e ao europeu o que é o seu almadraque de plumas, tão crato e flacido ás evoluções corporeas. Perguntae ás bellas europeas que lhes faz a grinalda de brilhantes, e ás bellas da Florida que prazer lhes insinuam os vitreos adornos de variegadas côres. Oh! o luxo! o luxo, senhores, é marco miliario de civilisação, a pomba que se volita da arca, e se vae espanejando de azas por céos e terras além, recobrada dos pavores primeiros, e saltitando de frança em frança. Oh! que rejubilos de coração para quem fadado lhe foi de cima o entender e amar, que o comprehender é amar, na phrase incisiva e galharda de Victor Hugo!
Sr. presidente! O coração da França, o encephalo, o grande nervo da França é o luxo. E eu estive na França, sr. presidente, fui lá para me reverberarem nos cristaes d'alma os lumes d'aquella perla d'Offir! Ai! a França! Quando nos entreluzem os zimborios da moderna Babylonia, «_a esperança remonta-se-nos em rasgado vôo para tudo mais vasto, mais copioso, mais opulento, a espirar vida e bem para o alto, para o largo e de muita benção, a branquear-nos a casinha da serra, a florir-nos o pomar da veiga, a dar-nos canções e alegrias no artifice_.» [11]
O luxo, sr. presidente, é o espantalho dos animos sandios e cainhos.
_O deputado Calisto_: Seja pelo amor de Deus!
_O orador_: Pois seja, e muito que lhe preste ao collega, que mister se lhe faz perdão de Deus pelas blasphemias economicas que ejaculou, sem dar de olhos na civilisaçao, matrona prestimosa, que toda se desentranha em blandicias e florinhas de viço e olor para opulentos e desremediados.
_O deputado Calisto_: Isso que diz em vernaculo?
_O orador_: Que me não falle á mão, se lhe sobranceio o intellecto. Affigura-se-me, sr. presidente, que tenho pela frente sombra, e sombra de que não ha temermo-n'os. Não sei, á bofé, com quem me esgrimo. Propugnar por artes, pôr peito a defender industrias, ruir os cancêlos das fabricas, bafejar incentivos á imaginativa do artifice, emfim e derradeiramente, encarecer a utilidade do luxo, isto me está assetteando o animo temeroso de desfechar injuria ao progresso, á idéa, ao _fiat_, á humanidade! Para que me estou aqui afadigando e derramando, sr. presidente se só mumias podem sair-me com esgares, de encontro ao civilisador principio? (_Muitos apoiados_.)
Corre-me obrigação de silencio. Já de contricto me recolho, e da offensa, á luz me penitencío; que eu me estive a espancar trevas que, em que pese a pávidos agoireiros, já não hão de espessar-se em derredor do sol esplendorosissimo.
_E, pois, antevejo que não ha mais dizer, sem entibiar-me a nota de repetições, aqui ponho fecho_.[12]
_O orador foi comprimentado_.
O _presidente_: Tem a palavra o nobre deputado Calisto Eloy de Silos de Benevides de Barbuda.
--Sr. presidente!--disse Calisto--Eu entendi quasi nada, porque o sr. deputado dr. Liborio não fallou portuguez de gente (_riso nas galerias_.) As laranjas, espremidas de mais, dão sumo azedo, que corta a lingua. O sr. deputado fez do seu idioma laranja azeda. Se a linguagem portugueza fosse aquillo que eu acabo de ouvir, devia de estar no vocabulario da lingua bunda. Parece me que os obreiros da torre de Babel, quando Deus os puniu do atrevimento impio, fallaram d'aquelle feitio! (_Ordem_! _ordem_!)
O _orador_: Ordem, srs. deputados, peço eu para a lingua portugueza! Peço-a em nome dos illustres finados Luiz de Sousa, Barros, Couto, e quantos, no dia do juizo, se hão de filar á perna do sr. dr. Liborio.
O _presidente_: Peço ao illustre deputado que se abstenha de usar phrases não parlamentares.
O _orador_: Tomo a liberdade de perguntar a v. ex.^a se as locuções repolhudas do illustre collega são parlamentares; e, se o são, peço ainda a mercê de se me dizer onde se estudam aquellas farfalhices. (Vozes: _Ordem_! _ordem_!)
O _orador_: Quando aquelle senhor me chamou _sandio_, não foi violada a ordem? (_Apoiados_). Ora pois: eu não quero desordens. Vou pacificamente responder ao sr. deputado, como souber e podér. Estou a desconfiar que a minha linguagem secca e desornada raspará nos ouvidos da camara, que ainda agora se deleitou com a rethorica florida do sr. deputado do Porto. Sou homem das serras. Creei-me por lá no tracto facil e chão dos velhos escriptores: aprendi coisa de nada, ou pouquissimo. A mim, todavia, me quer parecer que o fallar gente palavras do uso commum é coisa util para nos entendermos todos aqui, e para que o paiz nos entenda. Do menospreço d'esta utilidade resulta não poder eu aperceber-me de razões para cabalmente responder aos argumentos do discreteador mancebo. Percebi, a longes, pouquinhas idéas; porém, querendo Deus, hei de, se me ajudar a paciencia com que estudei o idioma de Thucydides, decifrar os dizeres de s. ex.^a no «_Diario das Camaras_.» (_Riso_).
O illustre deputado quer que o luxo indique a riqueza das nações. Isto é o que eu entendi do seu arrasoamento. Em França viu s. ex.^a mosquitos por cordas. Pois, sr. presidente, eu li que, em França, onde o luxo é maior, ahi é menor, em proporção, o numero dos individuos ricos (Vozes: _apoiado_!) Este caso, se é verdadeiro, corta pela haste as flores todas dos jardins oratorios do sr. dr. Liborio. Que mais disse s. ex.^a? Faça-me a graça de m'o achanar na linguagem caseira com que o diria á sua familia em _pratica como do lar_, consoante phrase a D. Francisco Manuel de Mello na _Carta de Guia_.
O _dr. Liborio de Meirelles_: Não velei as armas do raciocinio para me ir á liça da absurdeza. Melhores fadas me fadaram; e não me estou aqui sabbatinando como em pleitos de bancos escolares. (Vozes: _Muito bem_.)
O _orador_: Muito bem o que?... Vae-me parecendo historia isto, sr. presidente!... Eu queria-me entender com o sr. deputado, afim de tirarmos algum proveito d'este debate; mas s. ex.^a, pelos modos por me vêr assim minguado de affeites poeticos, acoima-me de absurdidade, e despreza-me!... Valha-me Deus! Se o sr. dr. Liborio me não lançasse da sua presença com tamanho desamor, havia de perguntar-lhe por que foram Athenas e Roma bem morigeradas quando pobres, e corrompidas quando ricas e luxuosas? Havia de perguntar-lhe que artes e sciencias progrediram entre os sybaritas e lydios, povos que a mais elevado gráo de luxo subiram? Havia da perguntar-lhe por que foi que os persas acaudilhados por Ciro cortados de vida aspera e privada do necessario, subjugaram as nações opulentas? Havia de perguntar-lhe porque foram os persas, logo que se deram ás delicias do luxo, vencidos pelos lacedemonios?
A suprema verdade, sr. presidente, a verdade que os arrebiques da rhetorica não seduzem, é que á medida que os imperios antigos se locupletavam, o luxo ia de foz em fóra, e os costumes a destragarem-se gradualmente, e o pulso da independencia a quebrantar-se, e os cimentos das nações a estremecerem. Depois, era o cair do Egypto, da Persia, da Grecia e Roma.
Até aqui a historia, sr. presidente; d'aqui em diante o sr. dr. Liborio de Meirelles, o moço poeta, que foi a França, e achou desmentidos Xenophonte e Thucidydes, Livio e Tacito, Plutarcho e Flavio.
O sr. dr., a meu juizo, é sujeito de grande imaginativa. Bonita coisa é idear fabulações em academia de poetas; porém, n'esta casa, onde a nação nos manda depurar a verdade dos fallaciosos ornatos com que a mentira se arrea, mister é que sejamos sinceros. Já o insigne author dos _Apologos dialogaes_ disse que a _imaginação era curral do conselho, onde, por não ter portas, todo o animal tinha entrada_. Bom é tambem que os moços muito imaginativos senão pavoneem até ao philaucioso sobrecenho de passarem alvará de sandeus á gente que raciocina mais porque imagina menos. É permittido aos versistas poetarem em prosa; mas as liberdades poeticas não ajustam bem nos debates circumspectos da res publica.
Vou concluir, sr. presidente, votando contra a proposta do illustre collega, que propoz a reducção dos direitos aduaneiros das sedas, e pedindo ao sr. dr. Liborio, que, se outra vez me der a honra de imbicar com este pobre homem lá das montanhas da raia, haja por bem de se expressar em linguagem correntia. Não sou homem de salvas e rodeios: digo as coisas á moda velha. Quero-me portuguez com os do sujeito, verbo e caso no seu competente logar. E, se assim não fôr, ir-me-hei com aquellas palavras que ouviu Arsenio: _Fuje, quíesce, et tace_; «foge, socega, e não falles.»
Sentou-se Calisto Eloy. Alguns deputados anciãos do partido liberal foram cumprimental-o; e outros, que se pejaram de imitar os velhos, encararam no rustico provinciano com cortezia e tal qual veneração. Calisto Eloy ganhára consideração na camara e no paiz.
Os deputados governamentaes acercaram-se d'elle, convidando-o em termos delicados a aceitar, no banquete do progresso, o logar que a sua intelligencia reclamava. Os deputados opposicionistas conjuravam-no a não levantar mão de sobre os projectos depredadores com que a facção governamental andava cavando novas voragens ao paiz.
O morgado da Agra respondia que estava descontente de gregos e troyanos, e acrescentava:
--Não sei, por ora, de qual dos lados da camara se falla peor a lingua patria. Tenho ouvido os quinhentistas á la moda, e os galliparlas. Todos ressabem á hervilhaca; uns estão gafados de francezias, outros tresandam nos seus dizeres o bafio que os bons seiscentistas regeitaram. Carecem de cunho nacional estes homens. O máo portuguez principia a sel-o, desde que mareia a pureza de sua lingua. Dêem-me portuguezes de lingua, e eu me bandearei com elles, como com portuguezes de coração. Com aquelle dr. Liborio do Porto nem para o céo. Tenho medo que Deus o não entenda, e nos ponha ambos fóra de cambulhada.
X
*O coração do homem*
Entremos no coração de Calisto Eloy.
Cuidava o leitor que não tinhamos que entender com aquella entranha do homem? Estou que a julgaram inviolavel ás suspeitas da historia em acto de tanto alcance na biographia d'este personagem!
Já se disse que orçava pelos quarenta e quatro o morgado. N'aquella edade, se ha fibras virginaes no coração, eram as d'elle.
Casára com sua prima Theodora, menina estimabilissima por virtudes, mas mais feia do que pede a razão que seja uma senhora honesta. A noiva deixou-se ir pela mão do pae á casa do esposo. Não ia alegre nem triste. Tanto se lhe dava casar com o primo Calisto como com o primo Leonardo. Logo que o pae lhe consentiu que levasse para Caçarelhos umas tres duzias de gallinhas e parrecos, que ella creara, não lhe ficou na casa natal coisa para sérias saudades.
Encontrou marido ao pintar. Coraram ambos ao mesmo tempo, quando o bulicio das festas nupciaes se aquietou e a mãe do noivo lhes disse: «Meninos, cada môcho a seu soito» phrase amenissima que em pouco e depressa exprime a muita poesia de toda aquella família.
Calisto, ao outro dia da primeira noite de esposo, por volta das sete horas da manhã, já estava a ler a _Viagem á terra santa_, por frei Pantaleão de Aveiro; e, á mesma hora a noiva andava de pé sobre um catre de pau preto rendilhado, com uma bassoira de giesta, a limpar teias de aranha do tecto.
Almoçaram, e foram visitar o pae e o sogro, em cuja casa jantaram. Durante a visita, a sr.^a D. Theodora esteve a ensinar uma criada a engommar as camisas do pae; e Calisto, como descobrisse n'um armario um tratado de alveitaria de 1610, levou-o de um folego, e tirou apontamentos, visto que o sogro se tratava por aquelle tratado, diminuindo as doses das drogas. Não sei quem lhe dissera a elle que o sr. D. João IV, nas doenças graves, se medicava com um veterinario.
Ora, d'este começo de amores infiram v. ex.^as o restante d'aquella doce vida!
Theodora tomou a cargo os cuidados domesticos de sua sogra, e muitos do tracto com caseiros, vendo que o marido, tirante as horas de comer, não saia da livraria, onde a mulher, como amavel sombra, o ia visitar, e olhando com desdem sobre os infolios, dizia-lhe:
--Ó homem, ainda não acabaste de ler estes missaes?
--Isto não são missaes, rapariga. Não estejas a profanar os meus classicos.
A esposa não entendia isto, e pedia-lhe que lhe lêsse pela vigesima vez as _Sete partidas de D. Pedro_. E o bom marido lia-lhe pela vigesima vez as _Sete partidas_, porque estavam escriptas em portuguez de lei. Vida para invejar! paraiso em que Deus se esqueceu de mandar o anjo do montante de fogo vedar a entrada!
Discorreram annos, sem que o morgado tivesse de perguntar á sua consciencia a explicação do minimo alvoroto de sangue na presença de mulher estranha. Andava por feiras, quando a mulher o mandava comprar utensilios agricolas; pernoitava por diversas casas da provincia, famosas pela belleza das donas, e contava-lhes casos mirificos de suas leituras, se acontecia não achar livro velho, que lhe deliciasse o serão.
Da maior, e talvez unica dôr litteraria da sua vida, fui eu causa. Calisto, pernoitando em não sei que solar de damas dadas á leitura amena, pediu algum livro, e deram-lhe um romance meu. Consta-me que deixou o volume com as margens annotadas de gallicismos e nodoas de toda a casta. Imaginem quantas punhaladas eu dei n'aquelle lusitanissimo coração!
Afóra este incidente, as boninas da vida campestre floriam immarcessiveis para o homem de bem, raro exemplo de compostura; salvo quando lhe beliscavam a estirpe que, então, como já disse, retaliava descaridosamente, e revelava a quebra contingente de todo homem imperfeito de sua natureza. Isto creou-lhe inimigos; mas detrahidores de sua fidelidade marital nenhum tentou infamar-lhe o bom nome. Das virtudes conjugaes de Theodora até me treme a penna sómente de escrever isto para encarecel-as! Duvide-se da pureza das onze mil virgens, antes de maliciar suspeitas d'aquella matrona, em tudo romana, do puro estofo das Cornelias, Poncias e Arrias.
Com esta pureza de vida entrara em Lisboa o morgado da Agra.
Ahi está um como Daniel á beira da fornalha. Ahi está o homem-anjo! Quarenta e quatro annos immaculados! Um coração que, se algumas imagens tem gravadas, são as dos frontispicios apparatosos de alguma edição princeps, d'algum Elsevir annotado por Grenobio.
XI
*Santas ousadias!*
Natural coisa é que este sujeito, intangivel ás caricias do amor, seja severo e intolerante com as fragilidades do coração.
Aconteceu-lhe frequentar, uma noite por outra, a sala d'um antigo desembargador do paço, que era pae de duas galantes senhoras, uma casada e outra solteira.
Soou aos ouvidos de Calisto Eloy, que uma das illustres damas innodoava sua gentileza e prosapia, violando os deveres de esposa. Fez-lhe sangrar o coração honrado tão funesta nova, e communicou elle o seu espanto e dôr ao collega abbade. O abbade desfechou-lhe na cara uma estrallada de riso civilisado, e disse-lhe:
--Ora o morgado tem coisas! V. ex.^a parece que caiu, ha pouco, de algum planeta! Olhe que Lisboa não é Miranda, meu amigo. Se o morgado tem de espantar-se por cada caso d'estes que chegar ao seu conhecimento, a sua vida na capital tem de ser um permanente ponto de admiração!... Deixe correr o mundo...
--Que remedio!--atalhou o morgado--mas o que eu farei é sacudir o pó dos meus botins á porta das casas, cuja desordem de costumes me escandalisa. Não voltarei a casa do desembargador Sarmento.
--Faça v. ex.^a o que quizer; porém, consinta que eu reprove similhante procedimento, por duas razões; seja a primeira, que o desembargador e a familia receberam o sr. morgado com cordeal affecto; segunda razão, é que v. ex.^a já não está em edade de perder a sua virtude seduzida por máos exemplos. Faça como eu: lamente as miserias dos homens, e viva com elles, sem participar-lhes dos defeitos; porque, meu nobre amigo, se a gente vae a regeitar as relações das familias, justa ou injustamente abocanhadas pela maledicencia, a poucos passos não temos quem nos receba.
--Eu tenho os meus livros, accudiu Calisto.
--E os seus livros, as suas chronicas, os seus classicos gregos e latinos não lhe contam enormes desmoralisações? V. ex.^a, que leu a vida romana em Tacito, e Apuleio, e no Festim de Trimalicão de Petronio...
--De qual Petronio?--interrompeu o morgado. Foram doze os Petronios em Roma, e todos escreveram com mais ou menos despejo.
--Pois melhor. Se v. ex.^a leu doze, eu li um, que era o ecónomo, ou arbitro dos prazeres de Nero, e este me bastou para edificação do meu espirito. Pois se o meu amigo póde ler sem horror as infamias das saturnaes, e os mysterios da deusa Bona, e quejandas protervias dos antigos tempos, como póde espantar-se do que ouve dizer da filha do desembargador Sarmento, que a final de contas, póde estar innocente do crime que lhe assacam?! Não a vê v. ex.^a filha cuidadosa, mãe estremecida, e esposa honesta na apparencia? Já a ouviu defender theses da moral do adulterio? Que lhe importa a v. ex.^a o que se passa lá na vida privada da mulher?
Calisto deteve-se breves instantes com a resposta, e disse:
--Acho-lhe razão, sr. abbade, não tanto pelo que disse, como pelo que não disse. As pessoas de vida impolluta devem acercar-se d'aquellas que prevaricam. Lá vem uma hora em que o conselho é taboa salvadora... Quem sabe se eu terei predestinação de desviar aquella senhora do caminho máo!?...
--É verdade--assentiu o abbade;--mas é justo e urbano que v. ex.^a não vá interrogal-a sobre coisas do fôro intimo.
--Não me ensine as leis da cortezia, abbade--replicou algum tanto affrontado o fidalgo da Agra.--Eu não me fiz em alcatifas de salas; mas aprendi a policia e trato humano nas lições de galãs afamados como D. Francisco Manuel. E, demais d'isso, meu caro sr. abbade, não me peça Deus conta de minha soberba, se lhe eu digo que o bom sangue como que já tem congeniaes e infusas em si as regras da urbanidade cortezã. Não se fazem mister directorios de civilidade a sujeitos, que herdam com a fidalguia a indole de avoengos palacianos, feitos nas côrtes, e affeitos a sentarem-se na ourella dos thronos.
--Não ponho duvida n'isso;--obtemperou o abbade, e accrescentou com malicia e bem rebuçada ironia--alguns fidalgos muito mal-creados que tenho topado, em quanto a mim, não lhes faltou a herança de polidez; foram elles que propriamente derrancaram sua indole, até se fazerem plebe grosseira e ignobil.
--Acertadamente--disse o morgado.
--Eu ensinar cortezia a v. ex.^a!--insistiu o deputado bracharense.--A minha observação tendia a moderar os impulsos descomedidos da sua justa censura aos máos costumes da sr.^a D. Catharina Sarmento. _Noli esse multum justum_, diz o Ecclesiastico.[13] Bem fidalgos e policiados eram S. Domingos de Gusmão, S. Francisco de Borgia, e Santo Ignacio de Loyola, todavia, bem sabe v. ex.^a com que exempção e santa descortezia elles invectivavam as corruptelas da mais elevada sociedade, em rosto dos proprios delinquentes.
--Mas eu não sou apostolo--acudiu Calisto.--Conheço que já não vim a tempo, nem a missão me condecora.
Assim mesmo, sem desaire das pessoas, hei de pôr a pontaria aos vicios, e, se poder, influirei pensamentos de emenda ao animo dos viciosos.
N'uma das seguintes noites, foi Calisto ao chá do desembargador Sarmento. Achou mais abatido e melancholico o antigo magistrado. Estiveram conversando á puridade sobre o desgosto que revia á face do hospedeiro ancião. Crê-se que Sarmento lhe dissera que sua filha Catharina, depois de haver casado por paixão, com cedo se desaviera da vontade do marido, e este da estima d'ella; de modo que raro dia deixavam de altercar e renhir por motivos insignificantes. D'isto resultava a tristeza constante do velho, acrescentada agora com ter-lhe dito alguem que sua filha andava infamada pela voz publica.
--Ferro penetrante--exclamou o desembargador--que me traspassou este corpo já fraco, e pendido á campa.
Calisto apertou-o nos braços e clamou:
--Amigo e senhor meu! A desgraça não derrete o aço dos peitos fortes. Tenha-se v. ex.^a arrimado ao bordão de sua honra, que não hão de adversidades derribal-o. Aqui me ponho de seu lado, com a fortaleza da amizade, para, como filho de v. ex.^a e irmão da sr.^a D. Catharina, minha senhora, tirar a limpo da sugidade da calumnia, se o é, a virtude d'ella, e o contentamento de v. ex.^a. Aqui vem de molde o repetir as palavras affectivas do meu dilecto Heitor Pinto, no tractado da _Tribulação_: «O que eu queria é que a boceta de vossas angustias estivesse depositada em minhas entranhas, e que os meus bens fossem vossos, e os vossos males fossem meus.»
Ouvido isto, o desembargador commoveu-se até ás lagrimas, e disse com mui entranhado affecto:
Quem me dera assim um marido para a minha Adelaide, que n'esta casa reinaria o socego da virtude! Agora vejo que lá nos escondrijos dos mattos da provincia se refugiaram as reliquias da honra portugueza! Ditosa senhora a que avassallou tão honesta alma!
D'ahi a pouco, o morgado da Agra, buscando azo de estar apartado com Catharina a um canto da sala, e praticando sobre livros perigosos, rompeu elle n'esta pergunta:
--A sr.^a D. Catharina já leu Homero?
--É romance? disse ella.
--Romance ou fabulado de alta moral lhe havemos de chamar; não já romances d'uns que, de oitiva o sei, por ahi impestam a sociedade. Na Iliada de Homero achei dois pares de casados; um é Paris, que se matrimoniou com Helena; o outro é Ulysses, que se casou com Peneloppe. Os primeiros, cubiçosos e voluptuarios, cobriram a Grecia de calamidades; os segundos, prudentes e discretos, foram o modelo do thalamo ditoso.
Fez Calisto uma longa pausa, e proseguiu, interpollando os dizeres com algumas pitadas, que solemnisavam a gravidade das fallas.
--Ninguem devera casar sem muito lêr e sem applaudir aquelles preceitos do casamento, escriptos pelo eminentissimo Plutarcho.
--Não conheço, disse a dama... Li _Le mariage_, de Balzac.
--Não sei quem é: deve ser francez.
--Pois não leu?
--Eu não leio francez. Não me chega o meu tempo para tirar aguas sujas de poços infectos. Plutarcho é oraculo n'esta materia. Um pensamento lhe li que me chegou á medula, e que ainda agora em Lisboa me saiu explicado. Diz elle algures. «Não podem as mulheres convencer-se de que Pasiphae, bem que esposa d'um rei, se enamorasse apaixonadamente de um touro; ao passo que estão vendo, sem espanto, mulheres que menospresam maridos benemeritos e honrados, e se dedicam a homens bestificados pela libertinagem.» Asseveram-me os pilotos peritos n'estes mares verdes e aparcellados da capital, que ha d'isto muito por aqui.
--É possivel... balbuciou D. Catharina.
--E porque não ha de ser, se algumas senhoras conheço eu casadas, tornou Calisto, que andam com os braços nus fóra das alcovas do seu leito nupcial!...
--E isso que tem?--atalhou a dama--é a moda...