A Queda d'um Anjo: Romance

Part 3

Chapter 3 3,927 words Public domain Markdown

Assim que os personagens dos romances começam a ganhar a estima ou aversão de quem lê, vem logo ao leitor a vontade de compor a physionomia do personagem plasticamente. Se o narrador lhe dá o bosquejo, a imaginativa do leitor aperfeiçoa o que sae muito em sombra e confuso no informe debuxo do romancista. Porém, se o descuido ou proposito deixa ao alvedrio de quem lê imaginar as qualidades corporaes de um sujeito importante como Calisto Eloy, bem póde ser que a intuição engenhosa do leitor adivinhe mais depressa e ao certo a figura do homem, que se lh'a descrevessem com abundancia de relevos e rara habilidade no estampal-os na phantasia estranha.

Não devo ater-me á imaginação do leitor n'este grave caso. Calisto Eloy não é a figura que pensam. Estou a adivinhar que o inquadraram já em molde grotesco, e lhe deram a edade que costuma authorisar, mórmente no congresso dos legisladores, os desconcertos do espirito, exemplificados pelo deputado por Miranda. Dei eu azo á falsa apreciação, por não antecipar o esboço do personagem. Acudo pelos creditos do personagem.

Calisto Eloy, n'aquelle tempo, orçava por quarenta e quatro annos. Não era desageitado de sua pessoa. Tinha poucas carnes, e compleição, como dizem, afidalgada. A sensivel e dessimetrica saliencia do abdomen devia-se ao uso destemperado da carne de porco e outros alimentos intumecentes. Pés e mãos justificavam a raça que as gerações vieram adelgaçando de carnes. Tinha o nariz algum tanto estragado das invasões do rapé e torceduras do lenço de algodão vermelho. A dilatação das ventas e o escarlate das cartilagens não eram assim mesmo coisa de repulsão. Estes narizes, se não se prestam á poesia lyrica, inculcam a seriedade de seus donos, o que é melhor. Eram assim os narizes de José Liberato Freire de Carvalho e de Silvestre Pinheiro. Quasi todos os estadistas de 1820 se condecoravam com a rubidez nazal. Não sei que ha n'isto indicativo de estudo, gravidade e meditação; mas ha o quer que seja.

As restantes feições de Calisto Eloy de Silos eram regulares, a não querermos encarecer a alta e brunida fronte, que poderia servir de rotulo a um talento abalisado, se o inimigo da Lucrecia Borgia não fosse, a meu ver, capacidade eminente, viciada pela educação e tradições de familia. Excedia a estatura meã, e era direito de pernas. No tronco havia tal qual inclinação, que denunciava o arqueamento da espinha por effeito da incansavel leitura, e minguado exercicio.

O que certamente o desairava era o traje. Calisto Eloy vestia de briche da Gollegã, e dos alfaiates de Miranda. A gola e portinholas da casaca eram serias de mais para estes tempos em que um homem se veste hoje á moda, e d'aqui a um mez corre o perigo de sair ridiculamente entrajado. Não se sabe a razão por que o morgado da Agra se affeiçoara ás calças rematando em polainas abotoadas de madreperola. Vestira assim umas pantalonas em 1833, quando se matrimoniou com D. Theodora. Ou por que a esposa gostasse do feitio das calças, ou porque a moda se mantivesse, mantida pelo fidalgo, na comarca de Miranda, o certo é que desde aquella época todas as pantalonas de Calisto foram talhadas pelas primeiras, e a abotoadura sempre aproveitada.

Ora, isto em Lisboa fez uma rasoavel impressão, especialmente no espirito observador dos gaiatos. Um d'estes desbragados ousou chamar gebo ao legislador; e outro levou a gandaíce ao extremo de planear-lhe um assalto ao chapéo.

Fartas vezes o advertira o abbade de Estevães da necessidade de reformar o vestido, e entrajar-se conforme o costume. Calisto respondia que não tinha que intender em costumes, que não fossem, em lusitanissima phrase, ruins costumes. Em quanto a vestiduras, dizia que o estofo das suas era portuguez como elle, e o feitio d'ellas era o que mais se aproximava das usanças dos seus maiores, os quaes andavam mais apontados no trajar do espirito que nas galanices do corpo. Salvo o abbade, ninguem se atrevia a contrarial-o, desde que a um joven deputado, que lhe observou o archaismo do trajo perguntou se elle era o alfaiate da camara, ou se as modas tinham fiscal subsidiado no parlamento.

Aconteceu ainda que outro deputado lhe analysasse galhofeiramente as botas aguçadas no bico. Sabia Calisto Eloy que este deputado era filho de um sujeito de Espozende que começara sua vida fazendo botas. Assim, pois, que o chocarreiro subiu da analyse das botas para a das polainas da calça, teve mão d'elle, dizendo-lhe: «agora, alto ahi! Em quanto o senhor escarneceu o feitio das minhas botas, estava no seu officio e no seu direito. Das botas acima, não. É o caso de eu lhe dizer como Apelles ao sapateiro, que lhe censurava a pintura: _ne sutor ultra crepidam_; o que em linguagem quer dizer: «não analyse o sapateiro acima da chinela.» Os circumstantes e a victima fizeram-se da côr do nariz de Calisto.

Estas passagens, significativas do salgado espirito do provinciano, sobre-doiravam a reputação que o trazia nas boas graças da fidalguia realista.

Sabia Calisto, como profundo genealogico, que existia illustrissima parentela sua em Lisboa; porém, pesavam graves motivos para que elle não quizesse recordar parentesco remoto com tal gente. Era o grão caso que, nos tempos do mestre d'Aviz estava na côrte um Martim Annes de Barbuda, da casa de Agra de Freimas, o qual conjurára com o Mestre na façanha do assassino do conde Andeiro. Até aqui havia muito para que o honrado portuguez se desvanecesse de tal parente. Martim Annes, todavia temeroso ou arrependido depois do feito, passou-se a Leonor Telles, e com ella e sua familia se foi a Hespanha, onde morreu, desprezado e amaldiçoado dos portuguezes. Na época de D. Duarte, os descendentes de Martim voltaram ao reino, e conseguiram perdão e posse dos seus haveres confiscados para a corôa. Eis aqui a razão do odio de Calisto á raça do máo portuguez.

Estava elle, um dia, folheando a reformação das leis de 1760 por Diogo de Pina, no intento de cravejar de erudição um projecto de lei sumptuaria, quando lhe annunciaram a visita do conde do Reguengo. Calisto estremeceu, e disse de si comsigo: «Vens ver o que eram e o que são os legitimos Barbudas de Agra de Freimas... Sê bem vindo!»

Entrou o conde, e disse com alegre alvoroço:

--Venho apertar nos braços um parente, que me honra tanto com a intelligencia, quanto seus avós me honraram com a lança.

Calisto permaneceu immovel na cadeira, e, tirando os oculos de prata, disse:

--Falta saber se meus avós se honraram dos avós de v. ex.^a

--Eu sou o conde do Reguengo---disse o outro, attonito.

--Já sei. O conde do Reguengo é o decimo sexto varão de Martim Annes de Barbuda?

--Sou eu mesmo.

Calisto ergueu-se, montou os oculos, foi mui depausa e a passo mesurado á estante dos seus livros, e tirou um in-folio. Voltou a sentar-se, mandou sentar o conde, abriu o livro e disse:

--Esta é a chronica dos reis, escripta por Duarte Nunes de Leão, e mandada publicar por D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa. Abro a pagina vinte e tres, e peço ao excellentissimo conde do Reguengo que leia.

O conde recebeu entre mãos a chronica, e leu o seguinte desde o paragrapho indigitado por Calisto: «As razões que ao Mestre moviam a apressar sua ida para fóra de Portugal, era conhecer a condição da Rainha, que, além do natural das mulheres, que é serem vingativas, ella o era mais que todas; mas, como mulher de grandes espiritos, e astuta que era, onde maior odio tinha, alli mostrava mais benevolencia, pelo que o Mestre tinha por mui suspeita a mostra de amizade que lhe fazia, e se temia mais d'ella, e tanto cria que lhe tinha maior odio, quanto mais affeiçoada era ella ao conde João Fernandes, de quem elle a apartou. Ajuntava-se a isto ter ella mandado chamar a El-Rei de Castella. Pelo que, sendo ella Rainha, e tendo o favor d'El-Rei presente, não confiava o Mestre que sua vida estava segura, pois em vida d'El-Rei D. Fernando, não sendo aggravada d'elle, o fez prender e o faria matar. Além d'isto, (as seguintes palavras estavam sublinhadas na chronica e emendadas com um _proh dolor_! da letra de Calisto) muitos dos que se a elle chegaram o deixavam e se passavam á Rainha, como fez Vasco Porcalho, e Martim Annes de Barbuda, commendadores de sua ordem, e Garcia Peres Craveiro de Alcantara, que para elle se viera.»

O conde entregou a chronica, e disse n'um tom de abborrido e confuso:

--E então?

--É v. ex.^a da progenie d'esse Barbuda infamado na pagina eterna de Duarte Nunes?

--Sou--respondeu ufanamente.

--Pois vá em paz, que eu não procedo d'esses Barbudas. Eu sou o decimo sexto varão de Gonçalo Pero de Barbuda, que morreu em Aljubarrota, na ala dos namorados. Gonçalo era irmão de Martim: mas, ao entrar na batalha, pediu a D. João I que lhe legitimasse um filho natural, para que, no caso d'elle perecer, os filhos do irmão trêdo lhe não manchassem o solar. Gonçalo, morreu e D. João I cumpriu a vontade do portuguez de lei.

--O que d'ahi infiro--disse sarcasticamente o conde--é que v. ex.^a procede de um filho natural.

--A mãe do filho natural era abbadessa de Vairão, da familia dos Alvins--redarguiu triumphantemente Calisto.

--Coito damnado!--retorquiu o conde.

--Discutamos esses pontos graves--voltou serenamente o morgado da Agra, tomando rapé.--A decima segunda avó de v. ex.^a Jeronyma Talha, era judia de Cezimbra, e esteve como covilheira dos sobrinhos de um Heitor de Barbuda com quem casou. Sua tresavó enviuvou sem filhos e casou com um filho do capellão. D'este matrimonio nasceu seu avô Luiz de Almeida de Barbuda, que foi o primeiro conde do Reguengo. Reconciliemo-nos, sr. conde, em quanto ao sangue de coito damnado, se v. ex.^a quer emparelhar o filho do padre com a abbadessa de Vairão, tia da mulher de Nuno Alvares Pereira por Alvins.

O conde ergueu-se accendido em raiva, e disse:

--No que não podemos emparelhar, sr. Calisto, é na tolice. Vou-me embora, com a vergonha de ter aqui vindo.

--Não vá, acudiu Calisto Eloy, que eu é que me hei de forrar á vergonha de dizer que v. ex.^a veiu cá.

E, passando a penna de ferro na pagina da chronica, rasgou a linha que dizia _Martim Annes de Barbuda_.

VIII

*Faz rir o parlamento*

Andava o animo de Calisto Eloy martellado pelo desejo de pôr cobro ao luxo da gente de Lisboa, sendo grande parte n'este intento o haverem-lhe os dois pisa-verdes do parlamento mettido a riso a sua casaca de briche. Impugnavam-lhe a idéa o abbade de Estevães, e outros correligionarios cordatos, mais entrados do espirito do seculo, e convencidos da inutilidade de atravessar represas á torrente caudal da indole de cada época. O deputado de Miranda respondia que viera de sua terra a cauterisar as chagas do corpo social, e não a cobril-as de pachos e lenimentos palliativos em respeito á sensibilidade dos doentes. Rebelde ás admoestações sisudas de amigos, que lhe receavam alguma queda mortal no conceito da camara, Calisto, provocado por um debate sobre importação e direitos de objectos de luxo, pediu a palavra, e o mesmo foi alvorotar alegremente a camara, desejosa de ouvil-o.

Concedida a palavra, e feito o silencio da curiosidade na sala, ergueu-se o morgado da Agra, e orou d'este feitio:

--Sr. presidente! Os conselheiros dos antigos reis de Portugal, homens de claro juizo e sciencia bastante, cortavam os abusos do luxo com pragmaticas, quando os vassallos se desmandavam em trajos, regalos e ostentações ruinosas do individuo, e, portanto, da cidade. O senhor rei D. Sebastião, que santa memoria haja, promulgou justas e rigorosas leis sobre o uso das sedas. E, n'aquelle tempo, sr. presidente, Portugal ainda se banqueteava com a baixella d'oiro do Pegu: ainda as paredes das salas nobres estavam colgadas de gualdamecins e razes da Persia. Era o Portugal, já não robusto nem enthusiasta; mas ainda sopitado das embriagadoras delicias dos reinados de D. Manuel e D. João III.

Nas Ordenações Filippinas, liv. 5.^o t. 82, § 4.^o, e seguintes, foram incluidas as principaes leis da reformação da justiça de 27 de julho de 1582.

Lá se vê quão salutar era a vara ferrea da lei no castigo dos contumazes em proveito da communidade. (_Um deputado boceja contagiosamente: outros bocejam; e o presidente de ministros adormece_). Vejamos a pena dos infractores: o peão perdia o vestido defezo, e pagava da cadeia quinze cruzados; e o nobre pagava da cadeia mais quinze cruzados que o plebeu. Note a camara que as reformas liberaes não complanaram tanto a egualdade entre poderoso e fraco. Bradam por ahi os ignaros contra os privilegios e exempções da fidalguia dos tempos ominosos. Estes democratas, se acontece de cairem nas presas da justiça, gritam pelo codigo das egualdades, e então experimentam o que vae da bonita redacção da lei á execução d'ella. Recolho-me ao assumpto, sr. presidente....

_Um deputado_: Faz bem.

_O orador_: Não me lisongea o beneplacito do collega. Recolho-me ao assumpto, sr. presidente. Lastimo este luxo que vejo em Lisboa! Por toda a parte, oiro, pedrarias, sedas, veludos, pompas, vaidades! Parece que toda esta gente voltou hontem da India nas naus que trouxeram as parias do Oriente! Essas ruas estrondeiam de carroagens, calechas e berlindas, como se cada dia se estivesse commemorando a passagem do cabo tormentorio ou o descobrimento da terra de Santa Cruz, atirando ás rebalinhas os thesouros que de lá nos vem. Por entre estas soberbas carroças...

_Um deputado_: Carroças são de lixo.

_O orador_: E bem póde ser que seja lixo o que vae n'ellas... Por entre estas soberbas carroças, sr. presidente, vejo eu passar mal arrimados ás paredes, e temerosos de serem esmagados, uns homens de aspecto melancholico, e mal entrajados. N'estes cuido eu vêr D. João de Castro, que empenhou as barbas, e tem duas arvores em Cintra; Duarte Pacheco, que vae entrar no hospital; e Luiz de Camões que vem de comer as sopas dos frades de S. Domingos. Cada época tem centenares d'estas illustres victimas.

_Um deputado_: Vê coisas magnificas!

_O orador_: E tambem vejo o dedo do propheta escrevendo na parede o lemma d'aquelle devasso festim... (_Pausa. O orador conserva o braço em postura sculptural, apontando á parede. O presidente accorda estremunhado, com a risada do ministro da fazenda_). O que eu vejo? quer o illustre deputado saber o que eu vejo? É a industria agricola de Portugal devorada pelas fabricas do estrangeiro; é o braço do artifice nacional alugado á escravidão do Brazil, porque a patria não lhe dá fabricas; é o funccionario publico prevaricado, corrupto e ladrão, porque os ordenados lhe não abastam ao luxo em que se desbarata; é o julgador dos vicios e crimes sociaes transigindo com os criminosos ricos, para poder correr parelhas com elles em regalias; é a mulher de baixa condição prostituida, para poder realçar pelos ornatos sua belleza; é a alluvião de homens, inhabeis, que rompe contra os reposteiros das secretarias pedindo empregos, e conjurando nas revoluções se lh'os não dão. O que eu vejo, sr. presidente, são sete abysmos, e á bocca de cada um o rotulo dos sete peccados capitaes que assolaram Babylonia, Cartago, Thebas, Roma, Tyro, etc. É o luxo, sr. presidente!

_Um deputado do Porto_:--Peço a palavra.

_O orador continuando_:

--De que desconhecida lua choveu ouro sobre estes paraltas enluvados e encalamistrados que pejam os theatros, praças, e botequins de Lisboa? Foi para estes tempos que um sabio e claro varão d'outro seculo escreveu: «Desde o bico do pé até á cabeça anda um d'estes cavalheiros bizarros (ou qualquer d'estes bizarros ainda que não sejam cavalheiros) armado de vaidade e de estudos de sua compostura, que são captiveiros de espirito, corrupções dos costumes, da republica, e despezas da sua fazenda, ou talvez da fazenda que não é sua.»

Aqui é que bate o ponto: _da fazenda que não é sua_. Á custa de quem se vestem estes Narcisos e Adonis? Que incognitos veios de ouro exploram? Qual é sua arte, se não devo antes perguntar quaes sejam suas manhas ou ronhas? Que sabe a policia d'elles?

E eu já vi, sr. presidente, andarem as senhorias e excellencias, as pobres esfarrapadinhas, por meio d'estes peralvilhos, que saem de casa do alfayate com o fôro grande e o desaforo maior. Que desbarato e corruptela é esta dos tratamentos em Lisboa? Abandalha-se tudo para passar a rasoira por sobre um lamaçal plano? Isso é congruente; mas então tapem lá o rôto cofre das graças, que a toda hora nos está despejando corôas e veneras, cruzes e mais cruzes, cruzes onde a honra de Portugal geme cravejada! Fechem lá esses decretos de permanente carnaval, que nos trazem sempre acotovellados com mascaras, que eram hontem os nossos fornecedores de bacalhau, e hoje nos não conhecem a nós, receiosos de que os conheçamos a elles!

Sr. presidente! v. ex.^a conhece a pragmatica do Sr. D. João V, ácerca de tratamentos. Eu tenho de a ler ámanhã a um tendeiro, que me vendeu figos de comadre, por que o homem se offendeu de receber um _vossemecê_, que eu longanimamente lhe dei. O alvará resa assim: «Que aos viscondes e barões, aos officiaes da minha casa, e aos das casas das rainhas, e princezas d'estes reinos; aos gentis-homens das camaras dos infantes; aos filhos e filhas legitimos dos grandes, dos viscondes e barões... como tambem aos moços fidalgos... se dê o tratamento de senhoria.»

Senhoria aos ministros no estrangeiro; senhoria aos governadores das praças; reitor da universidade; senhorias ás dignidades prelaciaes e civis; sr. presidente, falta uma senhoria legal para o homem, que me vendeu os figos. Creêmos esta senhoria, para alliviarmos de escrupulos os que lh'a derem a medo. Legislemos a podridão dos tratamentos nobilitarios. Atiremos ao esterquilinio com esta moeda refece. Isto já não vale nada, não prova nada, não estrema coisa nenhuma. Latissima licença de condecorar-se a gentalha! Se algum mesteiral, uma vez, praticar feito nobre, que lhe conquiste justo galardão, havemos de honral-o chamando-lhe homem do povo, d'aquella raça de povo, que D. Diniz e D. João I amaram cordialmente.

Desviei-me algum tanto, sr. presidente. Vou chegar-me á questão, e concluir, porque a hora me não permitte delongas, nem a camara terá a benevolencia de m'as tolerar.

Invoco a attenção dos representantes do paiz para a mortal peçonha, que vae cancerando o machismo vital da nossa independencia. Rédeas ao luxo! Tranquem-se as alfandegas ás drogas estrangeiras. Carreguem-se de direitos as mercadorias, que incitam o appetite e prevertem as condições melhormente morigeradas. Vistamo-nos do que podemos colher de nossas possessões, e do estofo, que nossas fabricas podem dar. Sigam-se as leis velhas do ultimo rei da dynastia de Aviz. Coimem-se e castiguem-se os que venderem tecidos estrangeiros e os que os puzerem em obra.

_Um deputado_: Como redigirá o illustre deputado similhante absurdo de lei?

_O orador_: Como redigirei? Facilmente. Como D. João II legislou a respeito das mulas dos frades. Ora aconteceu que os frades teimaram em cavalgar mulas. Que fez então o estomagado rei? Deu sentença de morte aos ferradores, que ferrassem as mulas dos frades. E o caso foi que os desmontou.

Conclui, sr. presidente.

_O presidente_: Fica reservada para amanhã a palavra ao sr. dr. Liborio de Meirelles, e está fechada a sessão.

O dr. Liborio de Meirelles era o deputado portuense, que pedira a palavra, durante o discurso de Calisto Eloy.

--Que sairá d'aquelle arganaz?--perguntou o morgado de Agra ao abbade de Estevães.

--Dizem que é moço de muita sabedoria, e que já escreveu livros.

Calisto sorriu-se e disse:

--Estou bem aviado, se elle escreveu livros!

IX

*O doutor do Porto*

O dr. Liborio de Meirelles, sujeito de trinta e dois annos, cara honesta, e posturas contemplativas, reunia os predicados que nos outros paizes ou passam despercebidos, ou são solemnisados pela irrisão publica; mas, em Portugal, taes predicados alçam o homem ao cume da escala politica, e dão-lhe escolta de absurdos propicios até onde o parvo laureado quer guindar-se.

Esta pessoa madrugou aos dezoito annos escrevendo poemas satyricos contra os titulares portuenses, não porque elle se pejasse de vel-os em sua plana, mas porque lhe fugiram d'ella. O progenitor de Liborio era um tendeiro, que entrara na estrada franca da fortuna prospera, creando de sua cabeça, para uso de gallegos e carretões madrugadores, um mixto saboroso e alcalino de licores, que ainda hoje sustentam o credito e primasia. Afóra isto, inventara o pae do dr. a aguardente de nabos.

Liborio foi menos feliz que o pae, no genero a que se dedicou. Os seus poemas viveram alguns dias afagados pela calumnia, como a belleza das collarejas lisongeada pelo rosto derrancado dos libertinos. Depois, o filho do tendeiro, graças á baixesa de sua posição social, antes de grangear o odio dos insultados, já tinha caido no desprezo d'elles.

Impellido pelo couce do pégaso, Liborio já não podia retroceder. Foi para Coimbra: fez-se examinar em latim, e foi reprovado. Desde este funesto dia de sua vida, Liborio começou a dizer que era sabio, e, por vingança dos examinadores, traduziu um poema latino com tanta claresa e fidelidade, que o poema original ficou sendo muito mais intelligivel aos ignorantes de latim, do que a versão; com que a memoria de Lucrecio fôra ultrajada.

Formou-se e doutorou-se Liborio, sem impedimento de uns _rr_ que, alguma vez, lhe acalcanharam o orgulho. Em seguida foi visitar a Europa; e, de volta aos lares, achou-se no regaço da estupida fortuna que o beijou, na fronte, e lhe disse: «este anhelito de meus beiços côa-te fogo ao cerebro! Amo-te, porque careço de ti. Eu sou a Circe dos gregos: bestifico tudo que toco, e em ti delego o condão de radiares tua bestidade ao cerebro de quem embarrar por ti. Proponho-me transfigurar, não já em cochinos, mas em mais nobres alimarias, os regedores da coisa publica de Portugal. Tu, dilecto, vae caminho da gloria. Hoje és deputado; d'aqui a pouco serás ministro.»

De feito, Liborio estava deputado, á mesma hora em que o fidalgo da Agra de Freimas era fadado a ser um dia verberado no parlamento pelo filho do inventor da aguardente de nabos.

Calisto entrou á sala, e, digamol-o com espanto de sua fleuma, ia tranquillo e até contente, sem embargo de lhe haverem dito alguns collegas quão funesto era o contendor que a sua má sorte e imprudencia lhe deparara.

O dr. Liborio, dada a palavra, ergueu-se com ademanes não vulgares, alisou os bigodes, encravou na orbita esquerda um vidro sem grau, e disse:

--Sr. presidente, discorri cêrca d'anno por estranhas plagas. Fui-me mundo fóra com o meu bordão e concha de romeiro do progredimento social. Bebi a tragos nas enchentes de mel hybleú que desborda dos mananciaes da civilisação. Vi muito, vi tudo, que me abraseavam sedes de aprender, fomes de Ugolino que rompe seus ferros, e se defronta com lautos estendaes de loirejantes iguarias. Que deliquios de exultação me tomavam alma! como eu me sentia a tragar luz e humanidade por aquelles climas onde o supremo architecto chove inventos a frouxo e a flux! Vi muito, e vi tudo, sr. presidente. Encheu-se-me o peito de anhelos pela sorte da patria, e d'amores muito seus d'ella, como de filho que do imo das entranhas lhe quer. Volvi-me no rumo do ninho meu; e mal se enrubesceram os horisontes d'esta minha e tão nossa terra de fragrancias e idyllios, assim me coou as fibras do seio um como filtro de melancholia, que me subia aos olhos exsudando lagrimas.

(_Calisto Eloy, em perigo de rebentar, ri-se. Parte da camara ciciou-lhe um sio prolongado. Calisto accommoda-se e desconfia que a maior parte da camara é tola_).

_O orador_: É que eu, sr. presidente, muito a dentro d'alma sentia uns rebates de presagio. Locustas de excruciantissimos toxicos, que me estavam empeçonhando esperanças, enleios, arrobos e dulcissimas chimeras de ainda ver florejarem os agros da patria, estrellarem-se estes céos plumbeos e rasgarem-se os horisontes á onda fecundante d'este uberrimo torrão. Doeu-me alma, choraram-me olhos, e comprehendi a angustia virgiliana do hemestichio: _pulcia linquimus arva_. (_Muitos apoiados_.)