A Queda d'um Anjo: Romance

Part 2

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Todavia, como a agua do chafariz de El-Rei aclarava o orgão vocal, e Calisto, á força de berrar ao pé da açuda e azenhas, estava um tanto rouco, mandou buscar um barril d'aquella salutifera agua, que o Mendes de Vasconcellos compára á das fontes camenas. Bebeu á tripa fôrra o deputado, e teve uma dôr de barriga precursora de febres quartãs. Valeu-se ainda do seu classico, e por conta d'elle mandou buscar á Pimenteira outro barril de agua, a qual, diz o citado author, _se busca para os doentes de febres_.

O velho criado e enfermeiro, quando viu o seu amo encharcado e cada vez peior, foi de moto proprio em cata do cirurgião, o qual deu o morgado rijo e fero em quinze dias com algumas beberagens quinadas.

Desde então, Calisto Eloy não bebeu senão vinho, e melhorou da garganta e do espirito, um tanto quebrantado, recitando, a cada garrafa que abria, o proverbio da sagrada escriptura:--_Vinum bonum laetifical cor hominis_.[4]

Não obstante, o descredito do seu classico deveras lhe doeu, mormente pelo tom de mofa com que o cirurgião enxovalhou as cãs do honrado e lusitanissimo escriptor Luiz Mendes.

Apenas convalescido, Calisto abria outro livro da mesma edade, escripto por identico motivo, para averiguar se o author do _Sitio de Lisboa_ claudicára como patranheiro em materia de chafarizes.

O bacamarte consultado era a _Fundação, antiguidades e grandezas da muito insigne cidade de Lisboa_, etc., escripto pelo capitão Luiz Marinho de Azevedo.

--Cá está!--exclamou Barbuda em soliloquio--cá está explicada a minha dôr de barriga! era destemperança do figado.

O deputado acabava de ler o seguinte periodo de Luiz Marinho:

«Encareceu Plinio muito a agua, que vinha a Roma da fonte Marcia, e Vitruvio a das fontes Camenas, porque nasciam quentes e eram saborosas no gosto, sendo por esta causa muito sadias e proveitosas para conservar saude. E posto que (_sic_) Luiz Mendes de Vasconcellos queira que por estas propriedades tenha a agua do charariz d'El-Rei as mesmas qualidades; a experiencia mostra que, sendo suave no gosto, o não é nos effeitos, porque lhe attribuem os medicos a destemperança do figado, que muitas pessoas padecem, e de que procedem varias enfermidades.»

--Fie-se lá a gente!--monologou o deputado.--É preciso cuidado com os classicos a respeito da agua de Lisboa.

E, proseguindo na leitura, encontrou confirmada a maravilha de se afinarem as vozes com o uso da agua do chafariz d'El-Rei, por estes termos:

«É causa das boas vozes dos musicos naturaes de Lisboa, ou que n'ella moraram, que tanto lustram em sua real capella, e na da corte de Madrid[5], conventos e egrejas cathedraes d'este reino e do de Castella: excellencia que tambem se acha nas mulheres, cuja feminina voz enleva os sentidos, como se experimenta ouvindo cantar as religiosas dos mosteiros d'esta cidade, em que mais parece se ouvem córos de anjos que vozes humanas.»

Á primeira vez que saiu, andou Calisto em demanda dos conventos de freiras, e das festividades de cada um. Disseram-lhe, em face de um repertorio, que a mais proxima festa era, no domingo immediato, em Santa Joanna. Foi Calisto á festa para ouvir cantar as freiras. Não lhe pareceu cantoria o que ouviu: eram tres narizes roufinhando destoantes. Calisto saiu do templo, foi ao palratorio, chamou a madre-porteira, e disse-lhe, com a sua candura de bom homem, que recommendasse ás senhoras cantoras a agua do chafariz d'El-Rei. A madre ficou passada do disparate, e voltou-lhe as costas.

Como quer que o morgado da Agra de Freimas não fosse homem que estudasse as materias perfunctoriamente, quiz esquadrinhar a respeito de aguas toda a substancia d'este importante elemento.

Decepções sobre decepções!

Quando morára na Alfama, observára elle que, n'aquelle bairro, as mulheres eram sardentas, rôxo-terra, e crespas de pelle. Pois o classico Marinho saía-lhe com este desmentido aos seus proprios olhos:

«Tem mais outra propriedade occulta a agua do chafariz (d'El-Rei) que é conservar os rostos das mulheres, que com ella se lavam, em uma alvura engraçada, e côr natural tão encarnada, que não necessita de unturas, nem confecções, com que ellas se envelhecem antes de tempo: _o que se vê claramente na vantagem que as de Alfama levam ás dos outros bairros no carão, rosto mimoso, e côr que logo se conhece por natural_; e, se bastára isto, por desengano ás que as usam postiças, não fôra pequeno o fructo, que se tirára de ler este paragrapho, havendo quem lh'o recitasse.»

Calisto Eloy certamente não iria recitar o paragrapho a nenhuma senhora pallida e magra, depois da incivil resposta, que lhe deu a porteira de Santa Joanna, e mais ainda com a desconfiança em que o puzeram os bons authores da sua predilecção.

Parece, porém, que elle andava aporfiado em afogar o seu recto juizo nas aguas de Lisboa. Lêra o deputado que tambem o _chafariz dos cavallos da rua Nova_ tinha prodigiosas virtudes em cura de molestias d'olhos. Procurou a rua Nova, que o terramoto de 1755 sotterrára; procurou o chafariz, que segundo elle, devia de estar na rua dos Capellistas ou Algibebes successoras d'aquella rua. Ninguem lhe dava conta do _chafariz dos cavallos_; e alguns logistas interrogados suppuzeram que o provinciano não podia beber em fonte que não tivesse aquella applicação.[6]

O erudito respondia aos chacoteadores.

--Pois saibam que se perdeu um mirifico chafariz! Resam os meus livros que as saluberrimas aguas d'esta fonte perdida tinham a propriedade occulta de engordar as cavalgaduras que bebiam d'ella; e acrescenta Marinho d'Azevedo, textualissimas palavras: _e quando ella faz tão conhecidos effeitos nos animaes, os fizera nos corpos humanos, se a beberam em sua fonte_.

Um bacharel, que ouvira as lastimas de Calisto, disse a um visinho a meia-voz:

--Este homem parece que tem uma cavalgadura magra no corpo!

Com estas zombarias é que em Portugal os sabios são premiados... Se Calisto fosse um parvo, o governo dava-lhe um subsidio até elle achar o chafariz dos cavallos.

V

*Estreia parlamentar de Calisto*

Antes de apresentar-se na sala das sessões, Calisto Eloy de Barbuda leu o _Regimento interno da camara dos deputados_, juntamente com um collega transmontano, o abbade de Estevães, sujeito de annos, e doutrina monarchico-absolutos.

O morgado de Agra embicou logo na fórma do juramento, e disse que não jurava sem aspar as palavras que o obrigavam a ser inviolavelmente fiel á carta constitucional. O abbade quiz amaciar-lhe a rigidez de espiritos, absolvendo-o do perjurio, que não era serio, porque já de si o juramento era irrisorio e mera brincadeira de nenhum peso na balança da justiça divina.

E allegava o clerigo esclarecido que os representantes da nação, com quanto jurassem fidelidade á religião-catholica-apostolica-romana, eram aliás atheus; jurando fidelidade ao rei, injuriavam-n'o nas gazetas; jurando fidelidade á nação, avexavam-n'a de tributos, e alguns a queriam fundir na Hespanha. Comedia e comedoria! exclamava o abbade. Se os deixarmos a elles jurar e mentir á sua vontade, a monarchia portugueza d'aqui a pouco não terá mais realidade no mappamundi que a ilha Berataria do Miguel Cervantes, ou as ilhas beatas do poeta Alceu!

A respeito das ilhas beatas do poeta Alceu, saiu-se Calisto de Barbuda com uma despropositada torrente de citações, em que a paciencia do padre esteve a pique. Era perigoso dar-lhe azo ás ejecções da sciencia velha, que não havia abafar-lhe as valvulas ejaculatorias.

O sabio, lá na sua terra, nunca tivera auditorio digno; escutava-se a si proprio; admirava-se e applaudia-se com perdoavel, senão legitima vaidade; faltava-lhe, porém, alguma coisa, a qual coisa era o abbade de Estevães.

Este clerigo, bem que tivesse exercido as funcções desembargatorias na relação ecclesiastica de Braga, era menos lettrado que o antiquario de Caçarelhos, mas um tanto mais illustrado em critica da historia. Por delicadesa, fingia engulir as araras que o morgado lhe ministrava guizadas pelo monge de Alcobaça Bernardo de Brito, por Fernão Mendes e Miguel Leitão d'Andrade, e centenares de outros escrevedores de polpa, que mentiram «mais do que permitte a força humana.»

Convencido da irresponsabilidade seria do juramento parlamentar, foi Calisto Eloy de Silos empossar-se da sua cadeira na representação nacional. Porém, proferido o juramento, e antes de sentar-se, não teve mão de si, e disse:

--Sr. presidente!

O abbade de Estevães ainda ciciou um _cio_, como quem lembrava ao collega que o _Regimento_ lhe tolhia o dom da palavra assim abrupta n'aquelle acto; mas o presidente, como esperasse alguma extraordinaria reflexão, deixou violar o artigo 30.^o do titulo e ouviu-o.

Continuou Calisto:

--Sr. presidente! Nos primordios da humanidade, a boa fé dispensava os juramentos: hoje em dia, para tudo se faz mister jurar, porque a boa fé desappareceu _velut umbra_ da face da terra. Se bem me recordo, os casos de juramentos mais antigos lêem-se nas sagradas escripturas. Abrahão jurou ao rei de Sodoma e ao rei Abimelech; Elieser a Abrahão; e Jacob a Labão...

O presidente, como o riso andasse já contagioso na sala e galerias, observou:

--O sr. deputado está fóra das prescripções do regimento. Peço licença para o convidar a sentar-se do lado que lhe convier.

--Eu concluo em duas palavras, tornou Calisto, conformando-me com o regimento, e mais ainda com o jurisconsulto Struvius, o qual no seu _jurisprudencia civilis syntagma_, diz que não deve exigir-se o juramento quando póde temer-se o perjurio. Preceito de mui remontada moralidade; sr. presidente! Preceito, cujo despreso, é a causa efficiente das apostasias que deshonram, dos sacrilegios que condemnam a alma, e estampam na testa dos precitos lemma de opprobrio indelevel. Disse.

E foi sentar-se, flauteando cromathicamente uma pitada, á beira do seu amigo abbade de Estevães.

A maior parte dos legisladores estava como indecisa entre rir-se ou espantar-se do aprumo com que o transmontano, atando facilmente as phrases, atirava á cara dos legisladores um murro indirecto. Tres brados lhe haviam victoriado o cabeçalho do discurso: eram expansões de deputados legitimistas, que entre si se ficaram victoriando de terem um homem bastante audaz, se necessario fosse, para fallar ao imperante como João Mendes Cicioso fallara a El-Rei D. Manuel.

--Fallou á portugueza, sr. morgado; mas extemporaneamente--murmurou-lhe o abbade de Estevães.

--A verdade é de todas as horas, abbade--redarguiu Calisto--mal de nós se havemos de esperar que ella caia a talho de fouce!... Deixem-me ir assim, que os meus constituintes assim me querem, Catão e Cicero, Hortensio e Demosthenes não fallavam pelo regimento. O conselheiro que disse a Affonso IV «senão procuremos outro rei» não pediu licença a presidente algum, nem viu no regimento se era hora de lh'o dizer. Eu li de tento e vagar o regimento, amigo abbade; e a mim me quiz parecer que tudo aquillo é um modo, o mais cerimonioso, de fazer callar aquelles cujos dizeres desagradam á presidencia, por via de regra, mancommunada com o governo.

--_Prudentia in omnibus_, diz o sabio--retorquiu o abbade.[7]

O morgado accudiu logo:

--_Estote prudentes, sicut serpentes et simplices sicut columbae_, disse Jesus, o sabio dos sabios.[8]

VI

*Virtuosas parvoiçadas*

A estreia parlamentar de Calisto de Barbuda fez hyperbolico estrondo nos salões da aristocracia, legitimista, que abriu suas portas ao esperançoso Berryer de Portugal.

Algum tempo se andou furtando o morgado ás solicitadas apresentações. Impediam-n'o o natural acanhamento de provinciano, e o affecto entranhado aos seus classicos, que lhe eram o deleite das horas feriadas do dia, e dos serões do inverno.

Como á força, fôra elle uma noite, ao theatro lyrico, em companhia do abbade de Estevães, que amava a musica pelo muito amor que tinha á guitarra, delicias da sua mocidade, e consoladora da velhice, já saudosa do tempo em que o coração lhe gemia nos bordões do instrumento apaixonado.

Calisto inteirou-se do enredo da opera, e assistiu em convulsões ao espectaculo, que era a _Lucrecia Borgia_. Saiu da platéa frio de horror e protestou, em presença de Deus e do abbade, nunca mais contribuir com oito tostões para a exposição das chagas asquerosas da humanidade. Rompeu-lhe então do imo peito esta exclamação sentida: _Amici_, noctem _perdidi_! Melhor me fôra estar lendo o meu Euripides e Seneca, o tragico! Medéa não mata os filhos cantando, como a scelerada Lucrecia! As devassidões postas em musica, dão bem a entender que geração esta é! Brinca-se com o crime, abafando-se os gemidos da humanidade com o stridor das trompas e dos zabumbas. É um tripudio isto, amigo abbade! Quem sae do seio da natureza rude, e de repente se acha à lavareda d'estes focos das grandes cidades, é que atina com a providencial phylosophia d'estas tramoias de theatros!

Assanhou o abbade de Estevães o azedume do fidalgo, dizendo-lhe que o estado subsidiava o theatro de S. Carlos com vinte contos de réis annuaes. Calisto fez pé atraz, e exclamou:

--_Obstupui_!... O abbade zomba!... _O estado_!... o meu collega disse o estado!

--Sim o thesouro... confirmou o clerigo.

--A res publica? o dinheiro da nação?

--Certamente: pois de quem hade ser o dinheiro, senão da nação?

--Pois eu e os meus constituintes estamos pagando para estas cantilenas do theatro de Lisboa!

--Vinte contos de réis.

Calisto Eloy correu a mão pela fronte humedecida de suor civico, e sentou-se nas escadas da egreja de S. Roque, por que ao espanto, colera e dôr d'alma seguiram-se-lhes caimbras nas pernas. Minutos depois, ergueu-se taciturno, despediu-se do abbade, e foi para casa.

Os alvores da primeira manhã acharam-no passeando e declamando na estreita saleta do seu aposento. Via-se-lhe no rosto a pallidez dos Fabricios.

Ás onze horas entrou na camara. Dir-se-hia que entrava Cicero a delatar a conjuração de Catilina. Deu nos olhos dos seus tres correligionarios que entre si disseram:

--Calisto vae fazer alguma interpellação de grande alcance!

Acabava de sentar-se quando um deputado do Porto se ergueu, e disse:

--Sr. presidente. Muito a meu pezar, e talvez da camara, volto de novo a expender as razões já tres vezes inutilmente expendidas sobre o dever, e justiça com que o Porto reclama um subsidio para o seu theatro lyrico. Sr. presidente...

--Peço a palavra! bradou Calisto Eloy, erguendo-se inteiriço e fulminante--Peço a palavra!

O representante do Porto expendeu a quarta edição peorada das suas idéas, sobre o dever e justiça, com que o theatro de S. João reclamava subsidio, e sentou-se.

--Tem a palavra o sr. Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda, disse o presidente.

O morgado da Agra escorvou-se de rapé, trombeteou a pitada, e orou d'este theor:

--Sr. presidente. Em Grecia e Roma as festas annuaes eram solemnisadas com espectaculos. Os cidadãos timbravam em se dispenderem aporfiadamente para o maior realce das representações theatraes. Na Grecia, o archonte eponymo, a cargo de quem o estado delegava as despezas das representações, esmava o dispendio de cada uma em dois talentos, 3:250$000 réis, pouco mais ou menos da nossa moeda. Este dispendio faziam-no espontaneamente os ricos; e se era o thesouro nacional, que adiantava as despezas, a concorrencia convidava pelo preço diminutissimo do _theorikon_ ou entrada, que correspondia ao vintem da nossa moeda. E de Pericles em diante, sr. presidente, tomou o estado á sua conta o pagamento das entradas dos pobres. Entre os romanos, eram os poderosos, como Lepido e Pompeu, e, ao diante, os imperadores, que sustentavam do seu bolsinho as representações theatraes. Os imperios opulentos, sr. presidente, os imperios, que digeriam a substancia do universo, os imperios que edificavam theatros para trinta mil espectadores, não impunham aos povos a obrigação de se privarem do necessario para abrilhantarem Athenas ou Roma, com luxuosas superfluidades. Os serranos das provindas do Lacio não eram constrangidos a pagarem as delicias dos patricios romanos. Estes, sr. presidente, quando queriam divertir-se em espectaculos theatraes, pagavam-os, e regalavam a gente pobre em vez de a obrigarem a entrar no erario com o estipendio dos actores. (_Sussurro e alguns «apoiados» provocados pelo sussurro_.)

Sr. presidente--continuou o orador, tomando rapé com a soffreguidão de quem teme que o raio inspirativo se arrefente--sr. presidente! Eu tenho o desgosto de ter nascido n'um paiz, em que o mestre-escola ganha cento e noventa réis por dia, e as cantarinas, segundo me dizem, ganham trinta e quarenta moedas por noite. Eu sou de um paiz, sr. presidente, em que se pede ao povo o subsidio litterario para pagar com elle as tramoias da Lucrecia Borgia. Eu sou de um paiz, pobrissimo, em que a veia da nação exangue soffre cada anno a sangria de algumas duzias de contos para sustentar comediantes, farcistas, funambulos e dansarinas impudicas! Sr. presidente, v. ex.^a sorriu-se, vejo que a camara está sorrindo, e eu ouso dizer a v. ex.^a e aos meus collegas, como o poeta mantuano: _sunt lacrimae rerum_. Aqui é o ponto de se carpirem por seus filhos aquelles, que se cuidam muito avantajados em civilisação a seus avós. Aqui é o ponto de nos alembrarmos dos israelitas livres, que sorriam em Jerusalem, e choravam depois escravos ás margens do rio estranho. Depois será o declamarmos com o epico:

Em Babylonia, sobre os rios, quando De ti, Sião sagrada, nos lembramos, Alli com gran saudade nos sentamos O bem perdido, miseros, chorando.

Os instrumentos musicos deixando

Peço á camara que repare nos tres versos, que completam a quadra e a prophecia:

Os instrumentos musicos deixando Nos estranhos salgueiros penduramos,

_Hic_, sr. presidente:

Quando aos cantares que já em ti cantamos Nos estavam imigos incitando.

Nos _cantares_, sr. presidente, é que bate o ponto do meu discurso: (_Hilaridade: susurro nas galerias: o presidente tange a campainha_).

O _orador_:--Sr. presidente! que me não queiram persuadir de que estou em casa de orates! Que é isto? Que bailar d'ebrios é este em volta de Portugal moribundo? Como podem rir-se os enviados do povo, quando um enviado do povo exclama: Não tireis á nação o que ella vos não póde dar, governos! Não espremais o ubre da vacca faminta, que ordenhareis sangue! Não queiraes converter os clamores do povo em cantorias de theatro! Não vades pedir ao lavrador quebrado de trabalho os ratinhados cobres das suas economias, para regalos da capital, em quanto elle se priva do aprezigo de uma sardinha, por que não tem uma pogeia com que compral-a.

E vinte contos e trinta contos de subsidios que moralidade fomentam, que lampadas accendem nos altares da civilisação? Eu peço á camara que leia attentamente o discurso theologico do padre Ignacio de Camargo, lente no real collegio de Salamanca, ácerca dos theatros. Não menos fervorosamente peço a v. ex.^a e ás camaras que leiam as mirificas paginas do nosso oratoriano Manuel Bernardes, sobre representações theatraes. O que são comedias? Responda por mim o eminente moralista, e mais que todos vernaculissimo escriptor: «Os assumptos das comedias pela maior parte são impuros cheios de lascivos amores, de galanteios profanos, de papeis amorosos, de rondas, passeios, musicas, dadivas, visitas, solicitações torpes, finezas loucas, empenhos desatinados, chimeras, emprezas impossiveis, que as solicita ordinariamente um criado, uma mulher terceira, uma chave, um jardim, uma porta falsa, um descuido do pae, ou do irmão, ou do marido da dama, e tudo isto costuma parar em uma communicação deshonesta, em um incesto, ou em um adulterio, em que ha muitos lances torpes, louvores lisongeiros da formosura, expressões affectadas de amor, promessas de constancia, competencias de affectos, temores, ciumes, suspeitas, sustos, desesperações, e em summa, uma gentilica idolatria, ajustada pontualmente ás infames leis de Venus e Cupido, e aos torpes documentos de Ovidio no livro de _Arte amandi_.»

_Vozes da galeria_: _Muito bem_! _Bravo_! (Espirram as risadas de varios sujeitos. Gargalhada compacta).

_O orador_: Sr. presidente! Eu irei contar aos povos, que me aqui mandaram, as gargalhadas com que fui recebido no seio da representação nacional, por que ousei dizer que um paiz carregado de dividas não instaura divertimentos attentatorios dos bons costumes com o dinheiro da nação. Irei dizer aos meus constituintes que se desfaçam das arrecadas e cordões de suas mulheres e filhas, para enfeitarem as gargantas despeitoradas das Lucrecias Borgias que custam quarenta libras por noite!

Sr. presidente, nossos avós, os coevos d'el-rei D. Manuel e D. João III, tiveram theatros. Era no tempo em que as frotas da India rompiam Téjo acima carregadas de oiro. O Plauto portuguez deliciava os paços dos reis, e os pateos e tablados do povo. Quando se abriu o erario para locupletar o alto engenho de Gil Vicente? Quando foi necessario ir mundo fóra em cata de gritadores que vendem tão caro o ar dos pulmões vibrado no mechanismo da garganta?

_Uma voz_: Fez-se a civilisação depois.

O _orador_: E a pobreza tambem. A civilisação que canta e dança, em quanto tres partes do paiz choram. A civilisação dos civilisados que dizem: _Coronemus nos rosis antequam marcessant_[9]. A civilisação do perdulario irrisorio, que traja de luzente lemiste no exterior, e aconchêga da pelle uma camisa surrada e fetida. Magnifica civilisação! Não sei de selvagens que nol-a possam invejar, e queiram cambiar comnosco a sua selvatiqueza!

Sr. presidente gosem nas boas horas os sátrapas da capital os deleites da sua civilisação theatral. Dispendam-se, arruinem-se, doudejem com essas ficções e visualidades, que relembram factos de alto escandalo que não deviam ser vistos á luz da civilisação, que o meu illustre collega preconisa. Se gostam, não serei eu, homem de outros tempos e gostos, quem lhes impugne a racionalidade de seus passatempos. O que eu requeiro, em nome da justiça e da pobreza do paiz, é que se não sizem os povos provinciaes para manutenção dos divertimentos de Lisboa. O que eu contesto é o direito de me fazerem pagar a mim e aos meus visinhos as notas garganteadas dos ganha-pães, que não tem na sua terra officio honesto em que vivam com seriedade e utilidade commum. O que eu sobretudo lamento, sr. presidente, é o silencio desapprovador dos meus collegas. Sou eu só: serei eu só o vencido. Não importa! _Victis honos_![10] As pequenas coisas tratam-n'as os pequenos: _Parvum parva decent_. Eu abro mão das glorias promettidas ao nobre collega, que, pouco ha, pediu subsidio para o theatro do Porto. Dêem-lh'o. Desenrolem a onda aurifera do Pactolo do nosso thesouro até Braga. Quem pede subsidio para o theatro bracharense? A equidade reclama-o. O meu circulo tambem quer um theatro. Theatro e subsidio para todo o logarejo onde morar um contribuinte. Estamos em vida ficticia como paiz independente. Somos como o sapateiro, que se veste de principe no entrudo. Pois bem! Comedia geral! Seja Portugal um theatro desde Monção ao cabo da Roca! Peço uma companhia italiana para a minha terra. Os meus constituintes querem provar o sabor das delicias que tem estipendiadas em Lisboa. Se eu não posso, sr. presidente, levar-lhes a boa nova de que vão ter estradas que os liguem á sua nação, seja-me permittida a gloria de lhes levar a Lucrecia Borgia, a incestuosa e envenenadora Lucrecia, que os ha de edificar e converter á civilisação. Disse.

_Algumas vozes por entre frouxos de riso_: Muito bem! Bravissimo!

Eram as ironias dos sublimes engenhos, que, ás vezes, não sabem como hão de havel-as com espiritos selvaticos do desplante montezinho de Calisto de Barbuda.

VII

*Figura, vestido, e outras coisas do homem*