A Queda d'um Anjo: Romance

Part 12

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A commiseração feriu as estragadas entranhas do morgado. Foi apanhar a mulher do chão, reteve-lhe os braços que escabujavam, e levou-a d'alli para um leito, onde a deixou entregue ás criadas e ao primo Lopo de Gamboa, que vinha entrando.

Passada a crise, Theodora ardia em febre, e dava pouco tino das pessoas que a rodeavam. Pareceu-lhe, porém, sentir um beijo nas costas da mão esquerda; e, olhando apressada na supposição de que era o marido, viu o rosto lastimoso do primo Lopo, que lhe disse a meia voz:

--Esquece o ingrato, prima!... Guarda a tua vida para quem te ama!...

Calou-se, porque entrava uma criada com um chá de sidreira e macella. Tomou elle das mãos da criada a chavena, e ministrou o charope a Theodora, que o foi bebendo com muitos vágados da cabeça desfallecida para sobre a espadua de Lopo, que se ageitára para amparal-a.

Á hora final Calisto entrou ao quarto, e não se commoveu. Disse algumas breves e seccas palavras de despedida, acrescentando que fechado o segundo anno da sua legislatura, viria para casa.

Theodora ainda balbuciou:

--E deixas-me assim doente, homem?

--Esse incommodo é passageiro, prima. Logo que tu reflexiones um pouco, levantas-te curada. Mal da patria, se os deputados casados obedecessem aos caprichos das mulheres, que lhes impedem irem onde o dever os chama. Pensas assim, porque foste educada rusticamente. Era minha tenção tirar-te d'aqui, levar-te para terra de gente, dar-te alguma educação, para depois te poder levar comigo para qualquer terra culta; vejo, porém, que desatinas e te fazes creança n'uma edade impropria de ciumes.

--Olha que não és mais novo que eu!--bradou ella.--Tens quarenta e quatro e eu quarenta.

--Está bom, está bom--obviou elle--não discutamos edades. O que se segue é que ambos envelhecemos: razão de mais para justificar a toleima dos teus zelos e desconfianças... Não posso demorar-me, que já ahi está a liteira, e a jornada de hoje é muito grande. Adeus. Primo Lopo, olha tu se dás juizo a tua prima, e manda-me no que quizeres em Lisboa.

--Parece-me que me não pões mais os olhos, Calisto!--clamou ella com profunda angustia.

--Adeus, adeus, minha tola; não penses em tal.

E saiu alegre como o encarcerado da prisão de longos annos. As azas candidas de Iphigenia sacudiam-lhe do espirito saudades e remorsos.

XXXII

*A virtude de Theodora em paroxismos*

Em outubro d'aquelle anno, a friza dezeseis do theatro de S. Carlos expoz uma cara desconhecida de todos, excepto de alguns raros rapazes da nata social que a tinham visto de relance, entre as aves e flores de Cintra.

Era Iphigenia, a formosa do novo-mundo, que uns chamavam a feição genuina da Circassia, outros a romana herdeira do perfil correcto das Faustinas e Fulvias; e os mais circumscreviam a sua admiração á mulher dispensando-se de lhe esquadrinhar o typo.

De feito, Iphigenia era belleza das que sómente se assimelham propriamente a si.

Ao lado d'esta mulher estava um homem, cuja nobre e fidalga presença abonava e encarecia a qualidade da dama: era o morgado da Agra de Freimas, Benevides de Barbuda.

A opinião publica da platéa e camarotes estava ou duvidosa ou indecisa. Aqui dizia-se que Iphigenia era parenta do cavalheiro, além desdouravam-lhe a posição, sem comtudo os rostos se voltarem corridos do escandalo.

Iphigenia, á saída do theatro, entrava n'uma luxuosa caleche tirada por hanoverianos soberbos. Calisto Eloy apertava a mão da dama, e entrava n'outra sege. A caleche parava na rua de S. João dos Bem Casados, no pateo de um palacete; o morgado apeava da sege em frente do hotel inglez, a Buenos-Ayres.

As pesquizas sincavam n'esta diversidade de paragens. Sabia-se que o deputado frequentava o palacete a horas em que se visitam senhoras cerimoniosamente. Sabia-se que morava alli a viuva do general Ponce de Leão, o qual morrera no serviço do Brazil. A pouco e pouco, a maledicencia ajuntou á admiração o respeito.

Uns parentes do general, porventura filhos d'aquelles que se entre-lembravam de terem sido procurados por uma viuva, levaram os seus cumprimentos ao palacete de S. João dos Bem Casados. Iphigenia fez-lhes saber pelo seu escudeiro que lhes agradecia a delicadeza e a honra do parentesco. E mais nada.

Ora, Calisto Eloy, sem embargo da seriedade e gentil compostura de sua pessoa, não podia de todo poupar-se ao riso de certas pessoas da platéa. Estava alli gente que o ouvira fulminar no parlamento o theatro lyrico, e nomeadamente a Lucrecia Borgia. Estava quem se lembrasse d'aquellas calças de polainas assertoadas de madre-perola, e do farfalhoso colete, e das pantalonas axadrezadas do aljubeta Nunes & filho. O doutor Liborio, do Porto, principalmente, ainda estomagado da reprimenda, saboreava a vingança, indigitando-o á hilaridade dos camaradas parelhos em nascimento, asnidade e estylo.

N'uma noite, Iphigenia reparou na attenção e nos sorrisos de um grupo. Ao voltar a vista para seu primo, encontrou os olhos d'elle, com uma tempestade sobranceira, que era o avincado profundo da testa. Andava por alli n'aquella fronte sangue de Traz-os-Montes, sangue de Barbudas.

Calisto estremara o doutor Liborio de Meirelles, entre a roda dos peraltas, que bebiam da garrafeira do paternal tendeiro, prodigalisada ao filho das esperanças suas e da patria.

N'um intervallo, saiu Calisto Eloy do camarote, e como não encontrasse no portico nem nos corredores o risonho deputado portuense, entrou á platéa.

Avisinhou-se de Liborio, que o encarou com semblante de côr incerta.

--O collega por aqui?--disse o doutor--Reminiscencias me não acodem de havel-o visto na platéa!

Calisto, sem o fitar no rosto, respondeu:

--Venho vêr as dimensões das suas orelhas.

--Como assim!...--balbuciou Liborio.

--Tenciono puchar-lh'as até á bocca, no proposito de tapar com ellas um riso alvar que vossa mercê tem, e que me incommoda grandemente. Veja lá se a operação lhe convém aqui ou lá fora.

--Não comprehendo a razão do insulto!--disse Liborio.

--Será lá fora--concluiu Calisto e saiu.

A gente, que rodeava o doutor portuense, comportou-se bem: cada qual, dizia de si para comsigo, que, se o caso fosse com elle, o provinciano enguliria a injuria com uma balla; assim, como não era com elles o caso, Calisto mereceu a Deus a felicidade de não ser varado de ballas.

O que passa como certo é que Liborio nunca mais desfranziu um riso voltado para a friza de Iphigenia.

N'uma d'essas noites, estava na friza fronteira á de Calisto a familia Sarmento. Adelaide não despregava o occulo de Iphigenia, salvo quando Catharina lh'o tirava da mão, para lh'o assestar.

Calisto exultava em delicias incomparaveis. Era a vingança, a carapinhada dos deuses n'um meio dia de julho, a vingança de amador menoscabado. Este cuidar que se vingam, mulheres e homens, é inepcia de marca maior, a que não houve esquivar-se aquelle sujeito de condição muito ajuizada se o confrontamos com outros, a quem o amor aleijou de todo em todo.

Reparou Calisto que no camarote de Duarte Malafaia, marido de D. Catharina Sarmento, entrara um sujeito que lhe não era desconhecido. Examinou-o com o binoculo, e reconhecera aquelle D. Bruno de Mascarenhas, a quem elle se apresentara na qualidade de anjo Custodio de D. Catharina. Sorriu-se o morgado para dentro por que lhe já não ficava bem indignar-se por dentro nem por fóra. A esposa de Duarte, segundo parecia, raro relance de olhos desfechava sobre o perturbador da sua consciencia de outro tempo. O morgado entendeu que a esposa regenerada reincidira na velha culpa. Enganara-se.

Permanecia ainda o salutar effeito da façanha moralisadora de Calisto Eloy. Bruno era odioso a Catharina: o anjo advogado dos maridos a estava sempre lustrando com as lagrimas do arrependimento. Não sei se o morgado da Agra levará ao desconto do juizo final duas acções que pesem tanto como esta na balança.

Passaram dois mezes sem que D. Theodora escrevesse ao marido. Embargada no leito pela enfermidade, que a poz em começos de phtisica, a pobre senhora, esteiada no amparo da piedade, fazia penosas promessas a santos da sua particular devoção, pedindo-lhes a amizade e restituição do marido. D'esta feita, pelo que a gente está vendo, os santos não levaram a melhor da legião de demonios que resaltam dos olbos de uma brazileira galante. Não obstante, a protecção dos privados do céo valeu-lhe o levantar-se da cama, e convalecer-se com leite de jumenta e oleo de figados de bacalhau. Mas o coração estava ainda, e cada vez mais encancerado; a saudade crescia consoante a ausencia e desprezo do marido se augmentava.

Por ventura, aquelles santos tão rogados estavam em volta d'ella a defendel-a das tentações do primo Lopo. Já Theodora o repulsava desabridamente, quando se via no risco de ser abalada em sua fidelidade. A pervicacia, porém, do astuto negociador de seus vilissimos interesses, servidos por infames lagrimas e exclamações compungentes, alguma vez a surprehendeu quasi desprotegida do escudo celestial.

Mas--honra á virtude que cae mais tarde que o costume!--honra á virtude de Theodora, que lhe punha sempre diante dos olhos, nas conjuncturas perigosas, a imagem do marido, e de sua mãe e avós todas esposas immaculadas!

Passemos a esponja por sobre Penelopes e Lucrecias.

Começou Calisto a receber cartas de sua mulher. Algumas, que abriu, não pôde digeril-as. Como a dôr sincera não costuma ser eloquente, nem a orthographia da filha do boticario exprimia com certeza as singelas lastimas de Theodora, o cru marido queimava as cartas para desmemoria eterna.

XXXIII

*Escandalos*

Abriram-se as camaras.

A opposição espantou-se de vêr o deputado por Miranda conversando muito mão por mão com os ministros. O abbade de Estevães ousou perguntar ao seu collega, amigo e correligionario, de que rumo estava. Calisto respondeu que estava de rumo em que o pharol da civilisação alumiava com mais clara luz. O antigo desembargador do ecclesiastico redarguiu com admoestações benevolas. O morgado sorriu-lhe na cara veneranda, e disse-lhe:

--Meu amigo, abra os olhos, que não ha martyrologio para as toupeiras. As idéas não se formam na cabeça do homem; voejam na athmosphera, respiram-se no ar, bebem-se na agua, coam-se no sangue, entram nas moleculas, e refundem, reformam e renovam a compleição do homem.

--Segue-se que está liberal?--perguntou o pavido abbade.

--Estou portuguez do seculo XIX.

--Apostatou!--disse com pesar mui entranhado o padre--Apostatou!...

--Da religião dos nescios.

--Mercês!--accudiu o abbade.

--Sem direitos--retorquiu o sardonico Barbuda.

Não tornaram a fallar-se, até um dia do anno seguinte em que o padre, despachado conego da sé patriarchal de Lisboa, aceitou o parabem e o sorriso pungitivo de Calisto Eloy.

Na primeira votação importante para o ministerio, Calisto Eloy defendeu o projecto que era vital para o governo, e fez-se desde logo necessario á situação. Orou por vezes, com seriedade tal de principios, que não servem para romance os seus discursos. Explicou a profissão da sua nova fé, respeitando as crenças politicas dos seus antigos correligionarios. Disse que escolhia o seu humilde posto nas fileiras dos governamentaes, por que era figadal inimigo da desordem, e convencido estava de que a ordem só podia mantel-a o poder executivo, e não só mantel-a, senão defendel-a para consolidar as posições, obtidas contra os cubiçosos de posições. Reflexionou sisudamente, e fez escola. Seguiram-se-lhe discipulos convictissimos, que ainda agora pugnam por todos os governos, e por amor da ordem que está como poder executivo.

Preparava Calisto um projecto de lei para a abolição dos vinculos, quando recebeu a seguinte carta de Lopo de Gamboa:

«Primo e amigo.

Recommendaste-me que désse juizo a tua senhora e minha prima. Contra paixões não ha conselhos. Tu lá o sabes por theoria e experiencia, como eu que não tenho dado máo burro ao dizimo, um coisas de coração.

Préguei-lhe prudencia, conformidade e paciencia. O abbade tambem lhe citou exemplos admiraveis de esposas sanctificadas pela ingratidão dos maridos. Não conseguimos nada. Cada vez te ama com mais furor. Diz que te ha de ir buscar ás entranhas da terra e aos abysmos do bárathro. Isto vae de galhofa; mas eu tenho sincera pena da nossa pobre prima. Desculpo-te, porque és homem, porque amas outra mulher, e porque esta realmente, deve pouco á formosura e graças. Não sou de ambages: digo o que sinto.

Contou-me o primo Gastão de Villarandêlho que te vira em S. Carlos, e comtigo no camarote uma deidade arrebatadora. Se é essa a rival da Theodora, quem ousará chamar-te ao caminho da probidade conjugal?! Já agora, só milagre. Nas nossas edades, meu amigo e primo, amores que entram, não ha juizo purgativo que os ponha fóra do corpo.

Vamos agora ao que importa.

Está tua senhora resolvida a ir procurar-te a Lisboa. Tenho tido mão d'ella; mas já não posso. Como lhe não respondeste á carta, desesperou-se, declarou-te guerra de morte, e tens que vêr com uma mulher furiosa. Fiz-lhe vêr que póde ser mal recebida e desprezada. Responde que quer esganar quem lhe roubou seu marido. Está doida; mas quem ha de contel-a?! Alguns parentes nossos dão-lhe razão: é o diabo isto; espicassam-n'a, e ella volta-se contra mim, dizendo que sou um patife como tu. Isto é bonito!

Em divorcio não quer que lhe fallem. Diz que quer o seu homem e não ha tiral-a d'aqui.

Prevejo os crueis desgostos que te vae ahi dar, além das vergonhas. Disse-lhe que não fosse, sem se vestir ao estylo das senhoras de Lisboa. Não quer. Apparece-te ahi gothicamente vestida, com o fatal vestido do casamento, e o fatal chapéo, que é um monstro de palha. Ha dois annos te dizia eu que vestisses tua mulher senhorilmente. Respondias-me que os melhores enfeites de uma virtuosa são as virtudes. Agora, atura-a. Se ella ahi fôr vestida de virtudes, diz lá a essa gente que se não ria d'ella.

E se tu tens de a vêr a testilhas com essa _diva_, que em quanto a mim não é _casta_? Então é que ellas são, primo Barbuda! Sobre arranhaduras, escandalo! A tua posição seria feita ludibrio da canalha. Os jornaes a fustigarem-te, e tu com a cabeça perdida! Eu imagino-me na tua situação, e tenho horror.

Que has de tu fazer n'estes apertos? Tens uma boa cabeça; mas eu estou mais a sangue frio para te aconselhar. O meu parecer é que sáias de Lisboa com essa dama, e vás para onde Theodora não te veja o rasto. Olha que vae com ella o tio Paulo Figueirôa de Travanca, besta finoria que ha de dar comtigo, se te não esconderes a bom recado.

A lealdade impoz-me o dever de te dar esta má noticia. Mais má seria, se t'a levasse tua senhora. Sei que outra pessoa te faria reflexões inuteis; mas eu tenho obrigação de conhecer os homens. No entanto, faz o que teu bom juizo te suggerir.

Teu primo muito dedicado _Lopo_.»

No dia seguinte, Calisto Eloy pediu licença á camara para retirar-se por algum tempo de Lisboa, a cuidar de sua saude.

Ao outro dia embarcou para França.

Perguntava-lhe Iphigenia, contente da repentina deliberação:

--Porque é isto, primo? Nunca me fallaste em visitarmos Paris!

--Quiz dar-te o prazer da surpreza. As melhores coisas, muito pensadas antes de possuidas, desmerecem quando se possuem.

Partiram.

No palacete da rua de S. João dos Bem Casados, ficou governando os criados, aquella sr.^a D. Thomazia Leonor, que fôra já desde Cintra, recebida como dispenseira e aia de Iphigenia.

XXXIV

*Perdida!...*

Para leitores entendidos na perversidade humana, a carta de Lopo de Gamboa é uma refinada e suja barganteria, estudada e escripta com um despejo não vulgar em bachareis d'aquelles sitios. Aquelle homem, se tivesse nascido em terras onde ha a centralisação dos biltres, morria com um nome para lembrança duradoura. Assim, nascido n'aquellas serras, onde não apégou ainda romancista de medrança, se o eu não transplantar para a corja dos birbantes das minhas novellas, o homem escorrega lá da serra no inferno, sem que a execração publica o cubra de maldições.

Repulso do coração da prima, que incessantemente se estava entregando á protecção dos santos, mudou o plano das insidias, incitando-a a procurar o marido em Lisboa, como ultimo desengano e final affronta. Convinha-lhe que a pobre mulher afogasse em lagrimas as ultimas e mais entranhadas raizes da sua pureza.

Em companhia de um velho inexperiente e credulo, o honrado Paulo de Figueirôa, que nunca saira das ruinas solarengas de Travanca, metteu-se D. Theodora a caminho de Lisboa. Deu um geito ás abas do chapéo que se entortara na canastra esquecida, lavou as fitas e a palha com chá da India, arejou o bafio do vestido de veludo que embolecera no inverno passado, e d'este geito entrajada se encaixotou na liteira, defronte do tio, que tinha a sinceridade de achar sua sobrinha muito bonita, vestida assim á moderna.

Nas differentes villas que atravessou até ao Porto, D. Theodora prendeu o espanto publico. Muita gente, aliás urbana, ria-se a cair. Onde parasse a liteira, o gentio fazia-lhe roda, e queria saber d'onde vinha aquella creatura incomparavel. Theodora, á entrada de Penafiel, a pedido respeitoso do liteireiro, tirou o chapéo e cobriu a cabeça com um lencinho de tres pontas. Ainda assim, o vestido de veludo côr de ginja dava nos olhos. Os padres de Penafiel, quando avistaram a liteira, cuidaram um momento que vinha alli alguma preeminencia ecclesiastica, como cardeal, ou coisa assim. A desharmonia do lencinho com o vestido offendia o bello ideal, e a symetria esthetica das damas da terra, as quaes ao verem-na saltar da liteira para o pateo da estalagem com o chapéo na mão, similhante a um cabaz de cavacas das Caldas, soltaram grande estrallada de riso. As meninas da estalagem, condoidas do aspecto doentio e honesto da viandante, informaram-se da qualidade da pessoa, e romperam no louvavel excesso de se insinuarem na fidalga, para lhe pedirem que se vestisse de outra maneira.

Accedeu sem repugnancia Theodora. As risadas francas do povo haviam-na amolecido. O velho tambem votou pela reforma dos trajos. E, como alli pernoitasse e deliberasse esperar o dia seguinte, deu tempo a que a provessem de chapéo rasoavel, e vestido com o competente paletó de seda, nas quaes coisas collaboraram todas as modistas da terra. Regenerada pelo vestido, parecia outra. As meninas pentearam-lhe os opulentos e negros cabellos a Stuart, segundo ellas disseram. Descobriram-lhe a fronte bem talhada. Deram-lhe umas lições de pisar e arregaçar-se, para a desacostumarem de ir com os pés sobre a orla do vestido, ou mostrar os calcanhares na andadura. O mirinaque foi um golpe certeiro no desaire da fidalga de Travanca. Ella mesma, olhando em si, dizia no secreto da sua consciencia illustrada em Penafiel:

--Eu assim estou melhor, a fallar verdade!

O tio Paulo torcia um pouco o nariz ao mirinaque, dizendo:

--Pareces-me uma boneca de roda de fogo! Tens aleijados os quadris, salvo tal logar! Mas, se é moda, deixa-te ir assim, menina até Lisboa; porém, quando entrares em casa, manda espetar esses arcos n'um pau, para espantar os pardaes da sementeira.

Como o velho fidalgo desejasse vêr o mar, resolveram ir para Lisboa no vapor. Theodora, quando principiou a enjoar, pediu os sacramentos; animada, porém com as risadas de outras senhoras, convenceu-se de que não era mortal a sua afflicção.

Hospedaram-se no cáes do Sodré. D. Theodora, não obstante a anciedade em que ia de avistar-se com o marido cuidou em reparar as forças com um dormir d'aquelles que a Providencia concede ás consciencias puras e ás pessoas que desembarcam enjoadas.

Paulo de Figueirôa saiu para a rua, no intento de informar-se da residencia de Calisto. Porém, como encontrasse na rua do Alecrim um macaco encavalgado n'um cão, que trotava a compasso de realejo, deixou-se ficar pasmado no espectaculo; depois, foi subindo até ao largo das Duas Egrejas, e quedou-se a ouvir um cego de oculos verdes que pregoava e referia o successo negro de um homem que matára seu avô. Terminava o cego, offerecendo a noticia impressa, onde tudo estava declarado. Comprou o fidalgo da Travanca a pavorosa noticia, e esteve largo tempo a soletral-a, sentado á porta da egreja do Loreto.

Terminada a leitura, o velho disse entre si:

--Isto é má terra! Tomara-me eu d'aqui para fóra!... Os netos matam os avôs!...

Chamou um gallego, que o guiou ao palacio das côrtes. Perguntou ao porteiro se estava lá dentro o deputado Calisto Eloy, morgado da Agra de Freimas.

--Não sei--disse mal encarado o funccionario.

--Eu sou tio d'elle; faça favor de lhe ir dizer que está aqui o tio Paulo de Figueirôa.

--Não posso lá ir--volveu o porteiro, mais brando.--Peça áquelle sr. deputado, que ahi vem que lh'o diga.

Paulo dirigiu-se a um sujeito de exterior sacerdotal. Era o abbade de Estevães.

--Essa pessoa está fóra de Lisboa, creio eu--disse o deputado--pelo menos pediu licença ás camaras para retirar-se.

--Iria para casa?--perguntou o velho.

--Creio que não. Então o senhor é tio d'elle!

--Sou tio d'elle em terceiro gráo, e sou irmão do pae da esposa d'elle.

--Pobre senhora! Murmurou compassivamente o padre.--Ella perdeu um excellente marido e o partido legitimista um strenuo defensor.

--Então meu sobrinho--atalhou Paulo--já não é legitimista?!

--Qual! fez-se um malhado acerrimo. Está com esta gente, e demais a mais fez-se governamental!...

--Oh! que maroto!...

--E tudo isto, meu caro senhor, deve-se á desmoralisação de uma mulher, que lhe tirou o juizo e a dignidade, e lhe ha de dar cabo da casa. Apresenta-se com ella nos theatros, e tem-na em palacete com carruagem montada, e lacaios e estado de princeza. E a pobre senhora lá na provincia a economisar as rendas, que elle está por cá delapidando!...

--Minha sobrinha veiu comigo--observou o velho.

--Veiu? Coitada da infeliz senhora! Quanto desejava eu poder ir comprimental-a; mas como estou indisposto com o sr. Barbuda, não quero que elle me julgue capaz de irritar sua consorte com os meus despeitos. Pois senhor, se sua sobrinha quizer vêr a pompa e luxo com que está vivendo a manceba de seu marido, que vá á rua de S. João dos Bem Casados, e veja o palacio, que está ao cimo da rua, onde lá os visinhos dizem que mora a chamada «fidalga brazileira».

--Faz favor de tornar a dizer?--pediu Paulo desenrolando o nastro de uma enorme carteira escarlate, para fazer nota da residencia da brazileira.

--Se eu lhe prestar de alguma coisa, aqui estou como principal amigo que fui do desgraçado sr. Calisto Eloy--ajuntou o abbade de Estevães.

Ao fim da tarde d'este dia, D. Theodora, que fremia de raiva desde que o tio lhe revelou as informações do padre, entrou com o velho n'uma sege de praça, por lhe dizerem que era muito longe a rua de S. João dos Bem Casados.

Apeou á porta do palacete, que um logista lhe indicou. Perguntou ao criado, que lhe fallou por um postigo da cavallariça, se estava em casa o sr. Calisto.

--Não mora aqui--disse o lacaio.

--Mora aqui!--teimou D. Theodora.

--Já lhe disse que não mora aqui--recalcitrou o criado.

--Então aqui não está uma mulher viuva?

--Mulher viuva?

--Sim.

--Está lá em cima uma mulher viuva, que é a governante da casa.

--Essa mesma é que eu quero vêr, disse D. Theodora.

--Quem lhe hei de eu dizer que a procura?

--Diga-lha que é uma pessoa.

--A este tempo estava já na janella a sr.^a D. Thomazia Leonor, cuja attenção fôra chamada pelo desabrimento do dialogo.

--Quem é a senhora?--perguntou a viuva do tenente.

D. Theodora impertigou o pescoço, e como visse uma mulher de touca parda, e já avelhentada, conjecturou que fallava com uma criada.

--Quero fallar á senhora viuva.

--Abra a porta, José--disse D. Thomazia ao criado.

--Subiu a fidalga com o tio, entraram na sala de espera, que já estava aberta, e d'ahi a pouco entravam n'outra sala, que era a das visitas.

D. Theodora olhava em de redor de si por sobre aquelles riquissimos setins e marmores, e dizia intallada:

--Olha o meu dinheiro por onde anda!...

Paulo benzia-se e murmurava:

--Parece o palacio do rei!