# A Queda d'um Anjo: Romance

## Part 10

Book page: https://www.cyberlibrary.org/pt/books/a-queda-d-um-anjo-romance-17927/index.md

Decoradas as paredes interiores, cobertos de oleado os pavimentos, e afestoadas as paredes exteriormente com lilazes e jasmineiros, baunilhas e eras de verdejante urdidura, entrou n'aquella casa D. Iphigenia, conduzida pelo braço de Calisto, e seguida de uma senhora de porte honesto e recommendavel, que vinha a ser aquella D. Thomazia Leonor, em honra de quem as musas do defuncto tenente suspiraram acrosticos. Mais atraz, iam duas criadas, e um servo fardado de casimira côr de pombo, com gola e canhões escarlates, golpeados de listas amarellas, distinctivos da libré dos Ponces de Leão de Hespanha.

Iphigenia foi surprehendida pelo seu gabinete de estudo, decorado de graciosas estantes e _étagères_, cheias de livros luxuosamente encadernados, acondicionados com tão elegante symetria que induziam muito mais á contemplação que á leitura. O restante d'aquella vivenda de fadas era por egual magnifico, em gosto e riqueza.

Calisto deu posse da casa a sua prima, e retirou-se ao hotel, para que ella sestiasse e se recobrasse da fadiga e calma da jornada.

Ao descair da tarde, o morgado foi bater á porta d'aquelle eden. Iphigenia saiu-lhe ao encontro com um ramilhete de flores, e disse-lhe:

--Aqui tem as primicias do seu jardim, primo.

Calisto aspirou o aroma das flores, osculou a mão que lh'as offerecera, e murmurou:

--Fechem-se os meus olhos, quando eu as poder vêr sem lagrimas de gratidão.

--Lagrimas... para que?--Volveu ella com meiguice.--As lagrimas deixemol-as aos infelizes. O primo não comparte do meu contentamento? Não vê que me realisou o meu sonho com tamanho excesso de delicias, que eu não me atrevera, sequer, a imaginar? Sinto-me ditosa!... Ainda não quiz pensar um instante se estas alegrias podem descair em magoas... Estou sonhando, e não quero que me acordem. Seria crueldade dizerem-me que ha viboras debaixo d'estas alcatifas de flores. Isto deve ser paraizo sem culpa, ignorancia santa do porvir sem pomo de arvore da sciencia que m'o descubra. Não é assim?...

--Que fallar o seu prima!--disse com vehemente, mas suffocado amor, o morgado--Que melodias!... Eu não sei responder-lhe... Apenas sei escutal-a. N'uma composição dramatica de Sá de Miranda, chamada _Vilhalpandos_, ha um epitheto dado a uma mulher, o qual eu não podia perceber, sem que o baptismo das doces lagrimas me chamassem o coração á vida.

--Sempre lagrimas!...--atalhou Iphigenia--Então que é que diz o Sá de Miranda?

--Na bocca de um amante, que encontra a sua amada, põe estas palavras: «mulher santissima». Quem disse mais n'este mundo? os seus poetas francezes disseram coisa mais peregrina?... E n'esta mesma scena, poucas linhas abaixo, diz o amante a Fausta: «Sabes que sonho?». Que immenso amor devia de ser o de Antonioto, que assim perguntava á vida de sua alma: «Sabes que sonho?»

--_Fausta_!... é um nome lindo, disse a mimosa viuva.

--Se não existisse Iphigenia...--accudiu Calisto. Já este nome me soava docemente quando, na minha mocidade relia as angustias da filha da Agamemnão, cujo sacrificio o oraculo de Aulida demandava.

--Ah! tambem eu conheço essas angustias da tragedia de Racine. Quantas vezes eu, nas minhas horas tristes, repetia com a Iphigenia do grande poeta francez, e com o espirito na alma de minha mãe, assim como ella o tinha no afflicto rosto da sua:

_Ah! Sous quel astre-cruel avez-vous mis au jour Le malheureux objet d'un si tendre amour?_

O primo, continuou ella, conhece perfeitamente Racine e Corneille?

--Perfunctoriamente. Conheço melhor Euripedes e Seneca. Pendi sempre á lição de classicos gregos, latinos e portuguezes. Crê-se nas provincias que o saber humano está n'isto. Os francezes começo a presal-os agora, porque... não ha linguagem que não sôe divinamente fallada por minha prima.

--Essas lisonjas--volveu ella sorrindo--aprendeu-as nos seus livros velhos, primo Calisto?

--A lisonja deixará alguma hora de ser mentira?... Eu não podia mentir-lhe, prima Iphigenia. Não!... Os meus classicos só me ensinaram duas palavras, que eu possa dizer-lhe: Mulher Santissima!

Iphigenia deixou-se amorosamente beijar nos dedos.

A natureza de Cintra, incluindo os rouxinoes d'aquellas ramarias, poderia espantar-se: eu, não.

XXVI

*E ella amava-o!*

Era já pleno estio. Os galans mais hardidos de Lisboa estanceavam por Sitiaes, por Pisões, e por aquellas varzeas de Collares, a engarrafar lyrismo para gastarem por salas nas noites de inverno.

O primeiro d'elles que descortinou por entre arvores a formosa brazileira foi alviçarando aos outros a ondina incognita, que saira das vagas a buscar camilha de folhagem e boninas entre as fragas da serra da lua.

Entram os agitados monteiros da estranha caça a circumvagarem nas encostas e oiteirinhos que rodeavam a vivenda de Iphigenia. Uns a viam ao sol posto, outros ao arraiar da manhã, e outros, quando ella perpassava por entre aleas de cylindras para uma gruta fechada como concha de perola.

A presença de Calisto Eloy, confundido com os arbustos floridos da casinha mysteriosa, augmentou a curiosidade dos indagadores. Uns consideraram esposa do deputado a bella esquiva; outros aventaram hypotheses mais romanticas, mas menos honestas. Á primeira conjectura oppunha-se uma forte razão negativa: se era marido, porque vivia no hotel do Victor? Á segunda conjectura, contradictava outra razão ponderavel: se era amante, que descuidado amante era elle, que se encerrava no seu quarto do hotel, durante as noites,--facto averiguado minudenciosamente pelos interessados? O mysterio, pelo conseguinte, a nublar-se, e as esporas de uma curiosidade impaciente a picar os moços ociosos, e os ricassos velhos, que espreitavam por entre a rede das sebes verdejantes, esta Susana, mais cuidadosa do que a outra, que accendia fogos nos lubricos juizes de Israel.

Entre os mancebos, estremava-se um, que passava grandes espaços de tempo em quietismo esculptural debaixo de um olmo, que sobranceava a casa de Iphigenia. Sempre que ella, á hora da maior calma, se aproximava da janella do seu gabinete a respirar o frescor do jardim, via o contemplativo sujeito de braços cruzados, e olhos fitos. Mas, assim que, ao intardecer, os arredores da casa começavam a ser frequentados, o moço, como quem se resguarda, desapparecia.

Era este sujeito aquelle Vasco da Cunha, que esperava a herança de uma tia para casar com Adelaide Sarmento. Os olhos indifferentes de Iphigenia assetearam-lhe a pia alma, n'um d'aquelles dias em que elle viera de Lisboa a Cintra para assistir á novena de Santo Antonio de Padua, celebrada solemnemente na capella de uma tia marqueza. Ou porque o ascetico fidalgo andasse com o coração amollecido pelas praticas piedosas, ou porque Iphigenia se lhe figurasse algum d'aquelles seraphins que visitavam os anachoretas da Thebaida, o certo é que não houve mais despegar-se-lhe a phantasia d'aquella imagem, que se interpunha entre elle e o santo filho de Martim de Bulhões.

Iphigenia attentou na pertinacia do homem, e contou ao primo Calisto, gracejando, a tempestade amorosa que lhe andava imminente na pessoa d'aquelle sujeito. Assomaram differentes côres ao rosto do morgado. Quizera elle dissimular o sobresalto com o sorriso: mas a rubidez sanguinea dos olhos, se o dramaturgo inglez a visse, arranjaria d'aquelle aspeito feroz assumpto para mais scelerado preto.

Iphigenia lisongeou-se d'aquella explosão de lavas que archejavam na testa do homem.

_Lisongeou-se_!... Pois amava-o ella?!

Não sei com que direito me fazem esta pergunta assim com uns visos de espanto! Amava-o como quem não tinha amado nunca. E para lisongear-se de incutir ciume não lhe fôra mister amal-o, digamol-o de passagem, e em nome da consciencia incorruptivel das senhoras, cuja attenção e reparo é felicidade que eu anteponha a todas.

Amava-o, sem pensar os beneficios extremamente delicados com que elle lhe dulcificava a existencia. Amava-o captiva do quer que é que primeiro prende a vontade da mulher, sem dependencia dos dons da alma. Calisto Eloy de Silos estava uma esbelta figura de homem. A cara compuzera-se arabicamente. O bigode cerrado e negro caía-lhe sobre as claviculas. O descostume da leitura restituira-lhe o aprumo da espinha dorsal. O ventre baixou ás proporções rasoaveis. No trajar; refinava em elegancia e gosto, subordinando-se ao alvitre do alfaiate. Todo aquelle ar de meneios, posturas e geitos accusava os fidalgos espiritos, resgatados da brutesa da antiga vida. Póde ser que alguma affectação lhe maculasse os modos e garbo das attitudes: sem embargo, o senhor da Agra de Freimas era homem para merecer, sem favor, a consideração de qualquer dama superciliosa na escolha.

Se isto não bastasse a ponderar no animo de Iphigenia, mal poderia resistir-lhe o coração aos respeitos, porventura demasiados, com que elle interpunha largo stadio entre as expansões da palavra e o minimo vislumbre de qualquer intento menos decoroso. Casos houve era que ella o surprehendeu com os olhos marejados de lagrimas e um sorriso nos labios, sorriso supplicante, de perdão para as lagrimas. Casos houve em que ella sentiu ferver-lhe o desejo de lhe pedir que, em vez de lagrimas, lhe desse um beijo na face, um d'aquelles beijos, que não tiram nada á formosura do corpo nem da alma, porque no rosto augmentam o rubor--o que é bello--; e na alma convencem a consciencia da adoração--o que é sublime. Difficil coisa será achar a virtude que se furta a estes conflictos! Virtude, que se esconde e encolhe para não ser alcançada pela flecha de um beijo, ás vezes acontece que, por muito esquivar-se, apouca-se, vapora-se, safa-se e ninguem sabe como ella se foi, nem como é possivel que um vaso fechado de essencias aromaticas appareça vasio sem ter sido quebrado. Este caso, naturalmente, anda explicado na esthetica. Eu hei de vêr o que é isto quando tiver vagar.

Vamos já rodeando por longe dos ciumes de Calisto Eloy. Revertamos ao assumpto.

Iphigenia tomou-lhe amorosamente da mão e disse-lhe:

--Meu primo, eu não quero lêr em sua alma uma pagina que se não assimelha ás outras.

--Pois que é, prima?... perguntou elle enleado e tremente.

--Eu não quero ter de justificar-me, tornou ella balbuciante.

--Justificar-se....

--Sim. Duas palavras que bastem a definir-me. Se eu perder a sua amizade, quero morrer. Veja quanto eu farei para lh'a merecer.

Calisto dobrou o joelho, e beijou a mão, que lhe estreitava calorosamente, a d'elle.

Seguiu-se silencio de alguns minutos.

Se houvesse elos na cadeia da felicidade humana, o ultimo, a maxima perfeição, devia prender com os gosos celestiaes. Esse ultimo elo não o ha: se existisse, o morgado, n'aquelle instante, perderia a consciencia d'esta vida, e entraria na exaltação beatifica dos anjos.

A fortuna dos corações que desbordam da felicidade no amor, deve ser aquella _Fortuna parva_, á qual Servio Tullio erigiu templos. Tito Livio, a meu vêr, toma o _parva_ no sentido de _baixa_ ou _pequena_: eu traduzo latamente «fortuna lorpa»; porque não conheço, quem, n'uns lances analogos ao de Calisto, mantivesse a inteireza de sua razão e espiritos. É que o morgado não disse coisa que mereça escriptura, elle que tão donosamente, em supremos apertos, face a face do dr. Liborio, tirou da veia copiosa repuchos de eloquencia!

No dia seguinte, quando as aves abraseadas do sol das onze horas, se embrenhavam nos tufos das ramagens, lá estava Vasco da Cunha debaixo da arvore.

Á mesma hora, Calisto Eloy circuitava a parede da matta em que se emboscava o religioso mancebo, saltava de manso, e quasi a subitas passava rente d'elle hombro a hombro.

Vasco não conheceu o homem que o fitava com sobranceria. Tres mezes antes se havia encontrado em casa do desembargador Sarmento com um Calisto, que não tinha que vêr com aquelle homem.

Sorriu-se o morgado, e disse-lhe:

--Costuma v. ex.^a intermear as suas novenas com a oração mental nas brenhas e florestas, á imitação dos antigos padres? Ou está pedindo aos deuses infernaes que lhe levem a alma da tia, e lhe deixem o vinculo da mesma para poder maridar-se com a sr.^a D. Adelaide Sarmento?

Alumiou-se Vasco de uns longes de suspeita, e cuidou estar ouvindo a voz mesurada e sonora de Calisto.

--O senhor... disse elle.

--Eu, que?--atalhou o morgado á suspensão do moço.

--Com que direito vem aqui incommodar-me?--tornou o mordomo das tres virtudes cardeaes.

--Não o incommodo, nem me incommodo. Dir-lhe-hei muito de relance que mora alli n'aquella casa uma prima de um Barbuda, e accrescentarei que tal dama não faz novenas a santo nenhum das particulares devoções de v. ex.^a. Se o sr. Vasco da Cunha aqui voltar ámanhã, continuaremos a palestra.

Vasco não voltou.

XXVII

*A saudade e a sciencia em dialogo*

Dois mezes depois de fechado o parlamento, D. Theodora Figueirôa, farta de escrever cartas, e de esperar respostas que lhe iam a razão de uma por dez, mandou chamar aquelle Braz Lobato, professor de instrucção primaria, e, com os olhos vermelhos de chorar, abriu do peito oppresso estas palavras:

--Que me diz vocemecê sr. Braz, á demora do meu homem?

--Eu estou passado, fidalga!--disse o mestre-escola empunhando e sacudindo o queixo inferior.--Seu marido, a minha opinião é que ficou por lá embeiçado n'alguma mulher. Lisboa é uma Babylonia, fidalga. Quem para lá vae com um bocado de temor de Deus, perde-o; e quem não tiver muito lume no olho, e alguns annos de tarimba e experiencia do mundo, como eu, póde contar que em lá chegando fica reduzido á expressão mais simples.

--E que é ficar reduzido á... que? como disse vocemecê? perguntou D. Theodora.

--Quero dizer que dá com as canastras n'agua. Foi o que succedeu ao fidalgo, futura-se-me isto! Sabio era elle, mas faltava-lhe a pratica do mundo. Foi uma asneira mandal-o a côrtes; eu bem não queria... mas emfim... tanto me azoinaram os abbades e os lavradores, que eu deixei-me ir com os outros... (O impostor que tinha votado em si!) E que diz elle nas cartas a v. ex.^a?

--Lá por milagre recebo alguma... Aqui tem vocemecê a que veiu aqui ha dias atraz. Ora leia lá isso.

Braz montou os oculos de cobre, e leu:

«Prima Theodora. Cessa de ter cuidado com a minha saude: eu passo soffrivelmente. Não me pude ainda desembaraçar dos negocios do estado, que me não deixam tomar fôlego. Á vista te contarei o que tenho feito a favor da nação. Tem tu saude, e descança da vida trabalhosa que tens. Ha de ir ahi um sujeito de Bragança para lhe entregares oito centos mil réis. Vende o grão todo que houver, e diz aos lavradores que por lá tem dinheiro a juro que eu preciso recolher essas quantias para negocio de mais interesse. Teu primo e affectuoso marido _Calisto_.»

Ahi tem vocemecê!--continuou a esposa atribulada, com os braços em cruz e as mãos nos sovacos.--O dinheiro, que ha sete mezes tem saido d'esta casa, é um louvar a Deus! Ainda o dinheiro vá que o leve a breca! mas andar-me por lá o marido, o meu homem, que d'antes, se ficava uma noite fóra de casa, era lá uma vez de anno a anno, e dizia elle que não estava bem senão á beira de sua mulher!... Que me diz a isto sr. Braz? Então vocemecê é de parecer que elle está por lá embeiçado? Pois o meu Calisto seria capaz d'isso?!

--Olhe fidalga--respondeu o professor de instrucção primaria fazendo com os beiços um bico e logo um arco, tregeitos meditabundos com que elle usava solemnisar os dizeres graves.--Um homem cá nas aldeias é uma coisa, e nas cidades é outra. Eu corri mundo, e sei o que fui. As mulheres das cidades tem umas artes e manhas, que, se um homem se não precata, ás duas por tres, não sabe de que freguezia é. Ainda que a gente não queira aquelles demonios taes esparrelas armam, que não ha remedio senão cair em fragilidades proprias da fragil natureza humana, como o outro que diz. O sr. morgado já não é rapaz; mas tambem não é velho. Aquillo, em quanto a mim, e oxalá que eu me engane, deu por lá com alguma menina que o embruxou...

--Sabe vocemecê que mais--interrompeu com abrupta resolução D. Theodora--pégo em mim, metto-me n'uma liteira, e vou por ahi abaixo até á capital. É o que eu faço!

--Essa idéa precisa de ser pensada com prudencia--observou o mestre-escola, erguendo-se, e dando alguns passeios na eira, onde estavam dialogando--Se a fidalga fôr, esta casa fica sem dono, entregue á criadagem, e o sr. morgado póde zangar-se. De mais a mais, ora supponhamos nós que o senhor seu esposo está, como elle diz na sua, occupado em negocios do estado; a ida de v. ex.^a vae atrapalhal-o, por que elle não a ha de deixar sosinha na estalagem. Depois a fidalga vae, palavra puxa palavra, um diz uma coisa, outro diz outra, e afinal desavem-se, e começam a viver de esguêlha. A minha opinião é que v. ex.^a se deixe estar em sua casa, e espere a vêr para onde correm os ventos. Se elle por lá anda com a cabeça a juros, deixal-o pagar o tributo, que elle cairá em si. Antes isso que quebrar uma perna. Lá o dinheiro isso é o menos. A casa dá para tudo, graças a Deus. A fidalga não sabe o que tem de seu. Lá em quanto ao marido, uma extravagancia não lhe dá nem tira. Salomão foi o mais sabio dos homens e teve trezentas mulheres e setecentas concubinas, e mais acho que foi santo. David, tambem era santo, e caiu tambem na fraqueza de amar a mulher de um capitão, general, ou uma coisa assim. As sagradas escripturas contam muitos casos d'estes... Pois emfim, a fidalga não esteja ahi a chorar. Seu marido ha de voltar são e salvo. O mais que eu posso fazer-lhe é ir por ahi abaixo ter com elle, e desenganar-me por meus proprios olhos.

--Isso é que era bom, sr. Braz!--exclamou Theodora, limpando as lagrimas ao avental de chita.

--Eu estou ainda com a idéa ferrada do habito de Christo. É cá uma birra com o boticario, que disse ao cirurgião que eu havia de ser cavalleiro do habito quando elle fosse papa. O sr. morgado não me responde ás cartas: é um ingrato d'aquella casta; mas, emfim, os favores que lhe fiz na eleição não me arrependo de lh'os fazer... Emfim, fidalga, se v. ex.^a quer, eu vou ter-me com o sr. morgado, e póde ser que venha com elle para cima e com o habito.

--Está dito!--clamou Theodora--Vocemecê vae, e eu faço-lhe as despezas.

--Isso lá como v. ex.^a quizer... Eu, a fallar verdade, não estou muito indinheirado, e alguns vintens que tenho todos me hão de ser precisos para pagar os direitos da mercê.

* * * * *

Ahi vem Braz Lobato, caminho de Lisboa.

XXVIII

*Ingratidão de um deputado*

Braz Lobato, antigo sargento de milicias, e antigo borra de frades franciscanos, era legitimo homem para farejar Calisto em Lisboa. Cuidou elle que encontraria o marido de D. Theodora de Figueirôa nos logares mais celebrados e admirados da capital, segundo é fama nas provincias. Como o não encontrasse na Memoria do Terreiro do Paço, foi procural-o ao Aqueducto das Aguas-Livres. Depois de baldadas estas pesquisas, outro qualquer sujeito desanimaria; Braz Lobato, porém, resolveu ir ao Paço das Necessidades em busca do seu patricio, porque, no seu modo de julgar as correlações dos altos poderes do estado, Calisto Eloy devia frequentar regularmente a casa real.

Perguntou o mestre-escola affoitamente á sentinella do paço se o representante nacional, morgado da Agra estava em palacio. A sentinella mandou-o entrar, e que perguntasse ao commandante da guarda. O commandante mandou-o a um fidalgo que vinha descendo, e o fidalgo interrogado mandou-o á fava.

Com o quê, Braz Lobato saiu á rua, e perguntou a um aguadeiro se alli não morava o rei. E, como soubesse que a familia real estava em Cintra, conjecturou que os deputados, e particularmente Calisto, deviam estar em Cintra para de lá governarem a monarchia.

Chegou o mestre-escola a Cintra, e descavalgou do jumento portador, á porta do palacio. Fez as suas perguntas á sentinella com aquelle ar marcial que lhe ficou das milicias. Esperou a vinda de um camarista, velho fidalgo attencioso, que sorriu da supposição do provinciano, e lhe disse que o deputado Calisto Eloy residia no hotel do Victor.

Chegado ao hotel, á hora mais de passeio, por fim da tarde, não encontrou Calisto, e foi demandal-o nos logares mais frequentados. Abeirou-se de um grupo de sujeitos, que inculcavam gente grave, e perguntou por Calisto Eloy de Silos Benevides de Barbuda.

Esta pergunta coincidiu com o caso de estarem aquelles individuos aventando hypotheses sobre a formosa solitaria, cujo ninho de folhas e flores apenas Calisto de Barbuda frequentava.

O ar provinciano de Braz fez crêr aos curiosos que o homem, sendo patricio de Calisto, poderia esclarecel-os ácerca da creatura mysteriosa.

--D'onde conhece vocemecê o sr. Barbuda?--perguntou um.

--Conheço-o desde menino, que é da minha terra, e eu sou o professor de instrucção primaria lá do concelho do sr. morgado da Agra de Freimas.

--Então, volveu outro, ha de saber se a senhora que está com elle em Cintra é parenta d'elle, ou mulher ou amante.

--A mulher do sr. morgado ficou em casa; parenta não me consta que elle tenha cá nenhuma. Isso ha de ser negocio de contrabando, em quanto a mim. Fazem favor vv. s.^as de me ensinarem o caminho da casa onde elle está?

Conduzido á espessa cancella de ferro, que estremava o jardim do caminho publico, Braz Lobato puchou a campainha. Fallou lhe um criado de libré, o qual, perguntado se o sr. morgado estava em casa, respondeu que n'aquella casa morava a viuva do general Ponce de Leão.

Dada a resposta, o criado rodou solemnemente nos calcanhares, e deixou o mestre-escola com o nariz n'um orificio da grade, e os olhos n'outros orificios, espreitando os massiços de murtas, que escondiam a fachada da casa.

D'ahi a pouco lobrigou elle entre os arbustos um galhardo homem com uma senhora pelo braço, atravessando vagarosamente para um bosque de aveleiras.

Fitou-se n'elle; mas não viu coisa que lhe désse lembranças do fidalgo da Agra. Cuidou que o tinham enganado os lisboetas, e desandou para a hospedaria.

Novamente informado, resolveu esperar que o morgado entrasse ás dez horas, consoante o costume.

Sentou-se á porta do pateo.

Viu entrar um empavesado sujeito retorcendo as guias do bigode, com os olhos postos na lua atravez de uma luneta. Levou urbanamente a mão ao chapéo. Calisto, divertido pela acção civil do sujeito, ia corresponder, quando reconheceu o mestre-escola.

--Você aqui, Braz! disse elle.

O professor arregaçou as palpebras, e exclamou:

--Que vejo! a voz é a do fidalgo!

--Sou eu, não tenha duvida nenhuma.

Braz levou a mão á testa, e da testa ao peito, e de um hombro ao outro, murmurando:

--Em nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Santo! Coisa assim nunca os meus olhos esperaram vêr!... V. ex.^a é outro homem!... Eu estarei a dormir! E esfregava os olhos, desconfiando seriamente que estava dormindo.

--Entre cá dentro, disse o morgado.

Entrados á sala, perguntou o fidalgo com um ar secco:

--Que novidade o traz aqui?

--Vim por ahi abaixo, afim de vêr v. ex.^a, e ao mesmo tempo...

--Bem sei no que quer fallar. O habito de Christo, sim?

--Não sendo coisa muito de costa acima...

--Ha de arranjar-se. E que mais?

---E que mais?...

Braz Lobato sentia-se como esmagado pelo tom rispido e sobranceria do fidalgo. A concisão e rapidez das perguntas enleavam-no a ponto de o engasgarem nas respostas.

--Como ficou minha prima? disse Calisto.

--Está muito contristada, senhor.

--Porque?

--São saudades. Ainda na vespera da minha vinda esteve a chorar na eira... O melhor seria que v. ex^a viesse comigo para casa... Mas como o fidalgo está mudado!... Então v. ex.^a, pelos modos, era o mesmo que eu vi, ao fim da tarde, n'aquella casa que tem porta de ferro! Bem me diziam que v. ex.^a estava lá com uma madama, e eu não o conheci.

--Aonde?--atalhou desabrido o morgado.

--N'aquella casa que tem muitas flores.

--Quem o mandou lá?

--Uns fidalgos a quem eu perguntei por v. ex.^a

--E quem o manda perguntar por mim?! Quem lhe disse que eu estava em Cintra?

--Foi no palacio do rei que...

