A princeza na berlinda Rattazzi a vol d'oiseau, com a biographia de sua Alteza
Part 2
Assim diz, por exemplo, fallando do theatro do Gymnasio:--«Este theatro não tem praso determinado para as suas representações pela excellente rasão de que as receitas são mais de que mediocres. Os artistas e directores do Gymnasio acham-se constantemente, uns para com os outros, na situação de um credor importuno para com Mr. de Tayllerand.
--O senhor não me dirá quando me paga o que me deve? dizia o credor.
--Ora sempre é muito curioso, respondeu o principe.»
Realmente é difficil perceber a que vem isto. Pela nossa parte entendemos que são profundamente ridiculos todos estes promenores da vida intima dos theatros... Julgamos além d'isso haver falsidade no mexerico da princeza. Mas ainda que seja verdade o que ella diz, não será de mau gosto trazer questõesinhas de soalheiro para um livro de viagens?
Do Gymnasio, diz ainda, que viu ali representar magistralmente o actor _Pedro_, secundado por duas jovens e formosas mulheres _Candida_ e _Lora_?
Dou-lhes um doce se adivinharem quem são estas duas jovens e formosas mulheres. Candida e Lora quer dizer Amelia Vieira e Emilia dos Anjos. Ha porém uma difficuldade, e desde já nos confessamos incompetentes para a resolver:--Qual será a Lora?
Mysterio que só a princeza poderá decifrar.
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Do theatro da Rua dos Condes diz que se representa ali _Lazaro, o pastor_... É possivel. Em todo o caso devemos declarar que essa peça subiu á scena expressamente para sua alteza a ver, e que foi ainda sua alteza a unica espectadora... O publico não a viu nunca.
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No capitulo _Theatros_ trata muito natural e judiciosamente o assumpto pateadas. Não gosta d'ellas, parecem-lhe estupidos e injustos os sujeitos que pateiam. Abre curso de sensibilidade no artigo _pateader_. Comprehende-se:--ella é que está sensibilisada ao escrever tudo isto, recordando-se do modo porque a plateia dos _Recreios_ recebeu a sua insipida e soporifera comedia.
_Tenha paciencia_. Diz no seu livro que esta phrase se applica a tudo no nosso paiz. É verdade. Applica-se a tudo. Até ás princezas infelizes que são pateadas.
Diz sua alteza fallando nos hoteis que os colchões são durissimos em todos elles; no _Braganza_ parecem até cheios de cacos de garrafas... Mas afinal sempre temos por cá alguma coisa mais dura do que os colchões... as pateadas...
Custam a roer, custam... Mas que se hade fazer? Rôa, rôa. De resto parece-nos que sua alteza tem deveras a bossa do estylo lacrimoso... Chore--a lagrima é livre.
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Depois da nenia das pateadas passa sua alteza a fallar da vida dos bastidores em Lisboa. Dêmos-lhe mais uma vez a palavra:--«--A vida dos bastidores em Portugal está ainda no estado primitivo. É mais burgueza que desregrada. Na maioria dos theatros as actrizes são casadas ou vivem maritalmente com pessoas da sua escolha, dando, com rarissimas excepções tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu talento. Se quizesse citar alguma que se distinguisse das suas collegas pelo seu luxo ou pelos seus amores, ver me-hia deveras embaraçada, não obstante ter pedido informações a toda a gente.»
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Sim, a princeza pedio informações a toda a gente. Apenas qualquer sujeito tinha a honra de lhe ser apresentado, a primeira coisa que a princeza fazia era disparar-lhe esta pergunta á queima roupa:--Ora diga-me meu bom amigo, sabe alguma coisa da Emilia das Neves?--Que lhe consta da Delfina?--Não se rosna coisa nenhuma d'aquella Joanna Carlota da rua dos Condes?
Esta febre da princeza em indagar a vida intima das nossas actrizes faz-me lembrar a historia de um provinciano que vindo a Lisboa pela primeira vez, com ideas muito errados acerca das nossas mulheres de theatro, começou durante a representação, de não sei que peça em D. Maria, a interrogar o visinho do lado, pelo theor que vae vêr-se, sempre que apparecia em scena alguma actriz.
Entrava por exemplo a sr.^a Emilia das Neves, o provinciano voltava-se para o sujeito e dizia-lhe piscando-lhe o olho intencionalmente:
--Esta...?
E o sujeito:
--Não sei...
Entrava a sr.^a Virginia:
--E esta...?
--Homem deixe-me...
Entrava a sr.^a Amelia Vieira.
--E esta...?
--Diabo, o senhor é inconveniente! Não sei nada...
O provinciano porém não se dava por vencido.
--E esta...? continuava elle sempre a perguntar.
De repente entra o Theodorico. Então o sujeito, desesperado, fulo, volta-se para o pobre provinciano e diz-lhe muito serio:
--Olhe este... com certesa...
A princeza fez exactamente o papel do provinciano, e, tão infeliz como elle, não ficou sabendo coisa nenhuma...
Ficou até sabendo menos que o provinciano...
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Em todo o caso registe-se que no entender de sua alteza a vida dos bastidores em Portugal é uma pulhice... «Mais burgueza que desregrada...» chega a ser infame, não é assim princeza?
E depois que mulheres estas de theatro! Que impossiveis creaturinhas! Dão tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu talento... O mesmo não se pode dizer que aconteça com certa pessoa que nós sabemos...
Essa dá muito mais que fallar pela sua conducta do que pelo seu talento...
Foi devéras infeliz a princeza em questões de theatro. Viu-se sempre embaraçada. Até se quizesse citar alguma actriz que se distinguisse das suas collegas pelo seu luxo ou pelos seus amores, até n'essas circumstancias os embaraços lhe não permittiriam a citação...
É realmente estar com azar.
Pois nós se quizessemos citar alguma princeza que se distinguisse de todas as outras pelo seu luxo _tapageur_ ou pelos seus amores, faziamos isso sem a mais pequena difficuldade...
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Termina sua alteza o capitulo dos theatros fallando das dançarinas de S. Carlos. Diz sua alteza:--«As dançarinas não dão que fallar de si. Ha para isto duas razões:--a primeira é que, salvo duas ou tres excepções são feias que mettem medo a segunda é que a maioria d'ellas parece-me ter chegado, a esta edade feliz em que se tem jus á veneração e ao respeito.»
Ora aqui está o que aconteceria a sua alteza se em vez de ser uma _bas bleue_ pretenciosa fôsse dançarina de S. Carlos. Ninguem fallaria n'ella... Por tudo, e principalmente... pela segunda razão...
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Deixemos porém os theatros e vejamos o que a princeza diz a respeito do nosso mais notavel monumento--o mosteiro da Batalha.
«_Batalha_, tambem pequena cidade, (que disparate!) alguns kilometros mais longe (do que Alcobaça, que descreve antes) possue um mosteiro mais pequeno; mas tambem gothico, e de um estylo ainda mais puro que o de Alcobaça.
Este mosteiro foi fundado pelo rei D. João I, que ahi repousa. Nota-se particularmente a sala do capitulo, cuja elegancia é superior a toda a expressão, bem como o claustro. Decididamente, os senhores frades d'aquelles tempos tinham bem boas habitações, e é pena que se não tivessem construido mais, tão encantadoras, não para lhe servirem unicamente de residencia, mas para alegrarem os olhos dos _touristes_.»
Ter visto a Batalha, ter entrado n'aquelle monumento, que é uma verdadeira epopeia de pedra, e escrever o que ahi fica, sabe o que é, princeza?--é um diploma. Simplesmente não lhe digo de quê.--Vá ter com alguns dos muitos estrangeiros illustres que visitaram aquelle mosteiro, francezes, inglezes, italianos, hespanhoes, russos, allemães, ou de qualquer outra nacionalidade, diga-lhes que viu a Batalha, mostre-lhes depois o que escreveu no seu livro... qualquer d'elles lhe dirá de que é o tal diploma...
Mas, que diabo! tambem não pode haver tempo para tudo, e, ella por ella, a equipagem do marquez de V. é decerto muito mais digna de attenção do que o monumental edificio da Batalha!
É pena, diz sua alteza, que não se tivessem construido mais monumentos para alegrar os olhos dos _touristes_...
Ah! sim, é pena! pois não! chega a ser uma dôr d'alma não estar o reino de Portugal cheio de monumentos, como a Batalha, para que sua alteza, a muito alta e muito nobre princeza Rattazzi, podesse percorrer o paiz com os olhinhos alegres!
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Porque afinal de contas, o magestoso e sublime mosteiro não lhe causou nenhuma outra impressão... alegrou-lhe o olho.
Frei Luiz de Sousa, descreve-o com a sua penna de ouro, o inglez Murphy estuda-o maravilhado durante largos annos, o erudito patriarcha D. Francisco de S. Luiz dedica-lhe uma extensa memoria:--n'uma palavra, nacionaes e estrangeiros, curvam-se reverentes em presença do patriotico e veneravel monumento... Rattazzi vae vel-o... faz-lhe a honra de conceder-lhe doze linhas... e alegra-se-lhe o olho... Isto é, o mosteiro produz-lhe o mesmo effeito que um copinho de _chartreuse_... Vamos compatriotas, sirvam café á princeza, e tragam n'uma bandeja... mosteiro da Batalha e copos... Sua alteza tem o olhar basso e triste... alegremos-lhe o olho... dêmos-lhe um calicesinho da _sala do capitulo_... Então princeza, nada de ceremonias... Se quer mandamos tambem buscar os Jeronymos... Beba, beba... Alegre-se... alegre-se...
É impagavel no fim de tudo esta Rattazzi:--Melicio é espirituoso e incisivo, e a Batalha... alegra-lhe o olho...
Delicioso, como dizia o Leoni nos _Amores de Boccacio_...
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Tudo quanto o leitor tem visto até agora, fica porém eclipsado pelo capitulo em que a muito nobre princeza falla do modo porque os estrangeiros são recebidos em Lisboa.
Leiam:
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«Pode dizer-se, sem grande exaggero, que ha um secreto horror pelos estrangeiros e que são olhados com maus olhos. Entretanto esta execração tem graus e não deixa de ser curioso fazer o seu estudo.
Supponhamos que um pobre diabo cae de inanição n'uma das praças publicas de Lisboa, confessando que não recebeu do céu a graça de ter nascido cidadão portuguez.
1.^o--Se é inglez, dão-lhe os restos da comida do dia antecedente.
2.^o--Se é allemão, um bocado de pão.
3.^o--Se é americano, umas migalhas.
4.^o--Se é italiano, um copo de agua.
5.^o--Se é francez, não lhe dão nada.
Aqui está approximadamente a gradação de estima a que um estrangeiro póde aspirar em Portugal.
Os inglezes são os mais considerados, o que se explica, dizendo-se que Portugal é um pouco uma colonia ingleza, uma terra de exportação para os productos da Grã-Bretanha: o ouro e os uniformes militares são inglezes. Ha n'este povo meridional muitos costumes anglicanos que ficaram como recordação da alliança das armas inglezas contra os francezes em 1808.
Os allemães gosam de alguma consideração.
Os americanos do norte são antes temidos do que estimados.
Os italianos são todos pastelleiros ou tenores; é a opinião dos portuguezes que dou aqui, não a minha. Mas é uma opinião perfeitamente estabelecida, e qualquer que seja a posição social d'um italiano que chega a Portugal, será considerado por todos como um pastelleiro que fez fortuna, ou como um tenor em procura de escriptura.
Os francezes muito bem acolhidos á superficie, são perfeitamente detestados no fundo. Quando não são luveiros, cabelleireiros ou cozinheiros consideram-os como uns aventureiros. Ha uma avidez por todos os fructos da sua intelligencia, tira-se-lhes tudo que produzem em sciencias, bellas artes e litteratura, mas ninguem se julga em obrigação de lhes dar nada em troca. Detestam-os por instincto. Esta antipathia transmitte-se de paes a filhos, ou para melhor dizer, remonta de filhos a paes até ao primeiro imperio.»
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Disse uma vez um poeta nosso que certo sujeito era uma perfidia dentro d'um assucareiro, d'este trechosinho póde dizer-se, parodiando aquella phrase:--que é tambem uma perfidia dentro d'outra coisa acabada em _eiro_.
Com que então em Lisboa quando se encontra um francez cahido no meio da rua, cheio de fome, morto de inanição, passa-se para deante e não se lhe dá nada, absolutamente nada, _rien du tout_?
Oh! honestissima e honradissima princeza, porque não se atolou mais um poucochinho no esterquilinio da calumnia,--para que deixou a cabecinha de fóra? Que diabo! tem pouca imaginação vossa alteza! gira-lhe nas veias sangue de principes, mas a calumniar não passa d'uma burguesinha--porque dizer só, que a um francez que se encontra estendido na praça publica, nada se dá, nada se lhe faz?--porque não disse antes, que se varria esse francez d'envolta com o lixo, porque não disse que se lhe dava um bolo de strichinina?--_Per Baco_, produzia mais effeito, princeza!
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Afinal, de tudo quanto ha no seu livro, a pagina deveras torpe, é aquella.
Do resto, diga-se a verdade, nem quasi valia a pena fallar.
Ah! mas aquella paginasinha, merece, merece que se escrevam algumas linhas...
Quem lhe disse, princeza, que os francezes eram detestados em Lisboa, detestados por instincto?--Eu sei quem lh'o disse,--foi a sua espertesa saloia. Vossa alteza sahiu de Portugal despeitada com muita gente,--por isto, por aquillo, por aquell'outro,--porque a nossa boa nobreza, que ainda a temos, não a visitou;--porque os jornaes não fallaram tanto quanto vossa alteza queria do seu talento e das suas obras;--porque a platéa dos Recreios a pateou desapiedadamente; etc. Sahindo d'aqui despeitada quiz vingar-se. É natural. Era preciso porém para que a sua vingança fosse completa que ella encontrasse echo n'essa grande nação que ainda hoje dá as leis ao mundo.--«Vou desacreditar Portugal á face da França--» disse a princeza com os seus algodões.--Mas para que a França faça o acompanhamento á minha serenata, o que heide eu fazer?--Porque afinal a verdade é esta:--eu sou muito conhecida em França... Alfonse Karr, Boissieu, Pelletan... que o diabo, os confunda a todos,--mostraram bem quem eu sou, nas _Guépes_ nas _Lettres de Colombine_, na _Nouvelle Babylone_... Ah! já sei! exclamou vossa alteza de repente:--escrevo que os francezes são detestados, execrados em Portugal... Sim, sim, é isto:--_Tonerre de Dieu!_ estava-me desconhecendo... Que tempo levei para fazer uma descoberta afinal tão simples, e tanto na minha indole... É claro como agua:--dizendo eu que os francezes são odiados, detestados, execrados, que ao vêl'os estendidos no meio da rua ninguem os soccorre, e que para ali ficam abandonados como famintos cãos vadios, elles, esses bons e enthusiasticos francezes, sentirão o fogo da indignação girar-lhe nas veias, e correndo ao meu palacio, virão gritar em côro debaixo das minhas janellas:--Bravo princeza, bravo, quanto dizes d'essa cambada, d'essa canalha de portuguezes é pouco; nunca as mãos te doam, mulher! Patifes, deixarem-nos morrer sem soccorros no meio da rua... Tira-lhes a pelle, escorraça-os, frege-os em postas--e conta que as nossas bençãos cahirão sobre a tua cabeça.»
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Ora tudo isto, princeza, permitta-me que repita a phrase, não passou de esperteza saloia.
A França, sabe perfeitamente quanto é querida e estimada em Portugal. Ella não ignora de certo que na hora da provação, quando rebentou essa terrivel guerra franco-prussiana, aqui n'esta cidade de Lisboa,--onde se abandonam vilmente francezes no meio da rua,--todos, sem distincção de classes, desde o chefe do estado, podemos dizel-o, até ao mais humilde cidadão, todos faziam votos para que a victoria fosse coroar com a sua rutilante aureola as armas d'esse valente e generoso povo, que Portugal tem o bom senso de não tornar responsavel pelos actos praticados por dois dos seus despotas.
E olhe vossa alteza princeza:--tudo isto aconteceu estando um Bonaparte á frente da França... Hoje, que não está lá nenhum, calcule como terá augmentado a nossa sympathia por aquella grande nação.
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A esperteza saloia precisava de correctivo. Ahi fica. A princeza diz que nós os portuguezes somos muito pacientes. Assim é, mas quando um mosquito começa a zumbir-nos aos ouvidos, a importunar-nos, depois de o sacudirmos, uma, duas, tres vezes, zangamo-nos e damos-lhe uma palmada com tanta vontade... que o esborrachamos.
É uma porcaria, d'accordo. Mas tambem para que serve a agua?
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Agora as ultimas palavras... as palavras da despedida.
N'uma carta circular que sua alteza dirigiu á imprensa diz:--_Il faut me pardonner quelques plaisanteries sans importance et sans parti pris_... que é como se dissesse:--queiram os senhores desculpar alguns gracejos innoffensivos e sem intenção...
Ah! pois não princeza! Com todo o gosto... Sem mais aquella, como se diz em giria... E se o nosso folheto tiver a honra de ser lido por vossa alteza, lembre-se das suas linhas e queira tambem desculpar-nos:--_quelques plaisanteries sans importance et sans parti pris_.
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Segue a biographia da princeza.
BIOGRAPHIA
Rattazzi--(Maria Studolmire Wyse, princeza de Solms, depois condessa) mulher de lettras franceza, nascida em Waterfard (Inglaterra) em 1833. É neta de Luciano Bonaparte, irmão de Napoleão I, e filha de Letizia Bonaparte, e de sir Thomaz Wise, membro do parlamento de Inglaterra, que morreu ministro plenipotenciario da Grã-Bretanha em Athenas. Descendente de uma serie de uniões consideradas como outras tantas _mesalliances_ para a familia Bonaparte, foi sempre considerada por esta como uma intrusa, ou como uma inimiga. Quando o principe Luiz, seu primo, foi eleito presidente da Republica franceza, prohibiu-lhe formalmente que usasse o nome de Bonaparte-Wise, pelo qual eram conhecidos seu pae e seu irmão. Entretanto, a sua filiação napoleonica, está tão bem estabelecida senão melhor que a do seu proprio primo. Seu avô Luciano, principe de Canino, casára, em segundas nupcias, com madame Bleschamp, viuva de um agente de cambio, casamento que descontentou muito Napoleão, e fez romper todas as relações da familia imperial com Luciano; este, tendo-se retirado á Italia, fez naturalisar romanos todos os seus filhos, tão pouca era a sua fé na restauração da dynastia a que pertencia. A neta, nascida de mãe romana, Letizia Bonaparte, e de pae irlandez, era realmente uma Bonaparte, mas tão pouco franceza quanto possivel. Foi comtudo educada na casa da Legião de Honra de S. Diniz, e, como não tivesse meios, fez-se professora.
Em 1848, quando á familia Bonaparte foi permittida a entrada em França, e o principe Luiz se propoz a presidente da Republica Franceza, foi pedida em casamento por Mr. Frederico de Solms, rico alsaciano que a dotou em 700 ou 800 mil francos, esperando que ella viesse a ser uma das estrellas da futura côrte de seu primo, e que assim o levasse ás grandezas. Não aconteceu nada d'isto. Os Bonapartes, e principalmente o futuro Napoleão 3.^o não a consideraram como da familia; como o pae da segunda mulher de Luciano occupara um emprego d'inspector _nos direitos reunidos_, pretendiam não terem nada de commum com a descendente d'um vendedor de tabacos, e foi isto o que os jornaes do Elysseu lhe disseram, nu e cru, quando Madame de Solms, posto que muito nova ainda, porque então apenas contava 16 annos, começou a tornar-se notavel.
Lançou-se então na opposição, attrahiu a sua casa algumas notabilidades do partido democratico, abriu as suas salas aos litteratos, deu festas esplendidas, e ostentou um luxo que tinha a pretenção de fazer epoca na historia contemporanea. No seu pequeno circulo comparavam-a a mademoiselle Montpensier e dizia-se que do seu _boudoir_ sahiria uma nova Fronda. Por occasião do golpe de estado de 2 de dezembro, em que estavam implicadas algumas pessoas que frequentavam as suas salas, julgou-se tambem obrigada a deixar a França, habitando ora em Roma, na Belgica, ora as cidades de caldas mais notaveis.
Considerava-se como exilada, e tendo alguns jornaes publicado que ella pedira para ser amnistiada, fez-lhes publicar esta resposta altiva:--«Só um governo liberal e sensato me póde fazer voltar á França. Até o dia em que triumphem as nossas liberdades, acceito o exilio; mas protesto energicamente contra toda e qualquer nova insinuação, grave ou pueril, tendente a fazer admittir que, no presente ou no futuro, sob qualquer consideração, e em qualquer extremidade em que me encontre, eu possa ligar-me directa, ou indirectamente, a uma familia da qual me separei voluntaria e seriamente.»
Isto não a impediu de entrar em França em fins de 1852; mas em fevereiro de 1853, recebeu ordem de expulsão e seu primo fel-a conduzir á fronteira acompanhada pelos gendarmes. A causa d'esta expulsão escandalosa era sempre a mesma, a sua obstinação em querer usar o nome de Bonaparte que lhe negavam. Protestou pelos tribunaes, encarregou Berryer de a defender, e o governo fez admittir pelos jornaes que a ordem (arrêté) d'expulsão estava em fórma, visto que madame de Solms era estrangeira e casada com um estrangeiro não naturalisado. É muito provavel que M. de Solms, nascido em Strasburgo, fosse francez; mas o governo obteve d'elle uma declaração na qual dizia não reclamar a qualidade de francez. Na _Patria_ foi publicada a seguinte nota:
«Por ordem do sr. intendente geral da policia, foram expulsos do territorio francez madame de Solms, dizendo-se condessa de Solms, e M. Wyse, (seu irmão, M. Bonaparte-Wyse) ambos estrangeiros; estas duas pessoas usavam sem direito nenhum o nome de Bonaparte, e longe de respeitarem o nome illustre que usurparam, serviam-se ao contrario d'elle para se entregarem a escandalos desordenados, afim de mais facilmente abusarem da credulidade das pessoas com quem estavam em contacto. A ordem do sr. intendente geral de policia foi posta em execução e madame de Solms e o sr. Wyse deixaram a França.»
Quando se fez a annexação de Nice e da Saboya (1862), pediu a Napoleão III a permissão de ficar em França, e obteve mesmo a de voltar a Paris; abriu ali o seu salão, como antigamente, deu festas, escreveu chronicas e _causeries_ em varios jornaes, o _Pays_, o _Constitutionel_, o _Turf_, etc., fez fallar de si, como de costume, e, tendo-se reconhecido n'um malicioso retrato traçado por M. de Boissieu, (_Fragment d'histoire, une des plus spirituelles lettres de Colombine_, 1863), intentou no _Figaro_ uma indemnisação de 200:000 francos de perdas e damnos. O tribunal regeitou-lh'a. Entretanto tendo-lhe morrido o marido, uniu-se a Rattazzi n'uma das suas viagens a Turim, e esta ligação teve algum tempo depois o casamento por desenlace. A sua estada em Paris em 1865 trouxe-lhe novas decepções; foi-lhes dada nova ordem de expulsão e retirada uma pensão de que havia tres annos gosava. Desde então madame Rattazzi viveu constantemente em Turim, Florença e Roma, e publicou grande numero de volumes. Um dos seus romances, _Richeville_, fez algum barulho na Italia, e valeu ao marido de madame Solms, algumas provocações em duello.
End of Project Gutenberg's A princeza na berlinda, by Urbano de Castro