CANTO II.
_Pag. 237. versos 15 e 16._
E que? algum de nós contra o que vive
A questão, se sim ou não se ha de o homem alimentar de substancias animaes, tem sido muitas vezes, e com oppostas sentenças, debatida por filosofos, poetas, naturalistas e medicos. A affirmação e a negação achárão para argumentos ja uso e consenso de povos em todos os tempos, ja razões intrinsecas tiradas de nossa propria conveniencia. He assunto que requeria larga escritura, e em que a qualquer seria facil dissertar eruditamente. Voar-lhe-hei pelas summidades.
Aquella vaga tradição, que em toda a parte permanece, de uma primitiva idade do mundo innocente e felicissima, entre as couzas de que reza, aponta sempre o não se comer de animal algum, senão só de frutas, hervas, leite e mel. De outro modo se não podião sustentar, conforme parece pelo ancianíssimo Genesis, os moradores do Paraizo, não só homens, porem todos os viventes. Quadrava o preceito e toava o uso pelo menos á humana natureza, que ainda agora, se a bem espreitarmos na infancia, ou antes de alterada por contrarios habitos, se afflige e revolve com o aspéto do sangue e morte. Verdade he, que depois da queda de nossos primeiros pais, nem o Testamento velho nem o novo, tornão a prohibir as carnes; mas toques da mesma nativa compaixão para com os animaes não lhes faltão, dos quaes pelo menos se deduz por bom discurso, que se os tivermos de comer, ainda ahi nos devemos haver com a possivel mansidão, poupando cruezas escuzadas, como são, e se costuma, atormenta-los na agonia por lhes refinar o sabor, caçar, montear e pescar por passatempo e pelo mero gôsto de malfazer. Lê-se nos Proverbios, segundo as versão dos Setenta: _Justus miseretur animas jumentorum suorum; viscera autem impiorum crudelia._—O que justo fôr ha de se apiedar da condição dos seus brutos; mas as entranhas dos impios não se apiedão da nenhuma couza.—No Exodo: _Non coques hædum in lacte matris suæ._—Não cozas o cabrito no leite de sua mãi.—He dito para ser ruminado, pelo mimoso do afféto que recende. No Deuteronomio: _Si ambulans per viam, in arbore vel in terra nidum avis inveneris, et matrem pullis vel ovis desuper incubantem, non tenebis eam cum filiis sed abire palicris, ut bene sit tibi, et longo vivas tempore._—Se o acaso te deparar no caminho, quer em arvore quer no chão, um ninho de ave, e a mãi estiver a agazalhar os filhos ou os ovos, não a tomes com os filhos, senão que em boa hora a deixes ir, para que boa estrêa te venha, e vivas largos annos.—
Entre os Santos Padres, que são os depositarios e dispenseiros do espirito christão, alguma couza se podéra citar que autorizasse este genero de piedade. Sabida he a de que usou S. Anselmo, uma vez para com uma lebre, outra para com um passarinho. Tertulliano se maravilha de que entre christãos, os haja que se accommodem a ser carniceiros: _nescio an dolendum an erubescendumn sit_;—não sei, diz elle, se mais he para se haver lástima, se vergonha. S. João Chrisosthomo escreva, que se não podia ser santo sem uma estremada suavidade de affétos, e muita vehemencia de bem querer, não só aos nossos, mas ainda aos estranhos, em tanta maneira que até aos brutos animaes abranja essa mansidão. (_Homil. 29. na Epist. ad Rom._) E dizia bem, que nas vidas de não poucos santos resplandecem as provas. S. Francisco de Assiz resgatava os cordeiros que hião para o córte, pagava e soltava as redadas dos peixes e os viveiros das aves. Mas não apontemos mais, por não enjoar filosofos, digo filosofos de nossa terra, dos que nos assoalhão filosofia de torna viagem, porque os lá de fóra ja deixarão muito para traz a impiedade.
Não he porem necessario ser christão, senão que basta ser homem, para repartir com os brutos do thesouro da charidade, de que muitos d’elles usão a seu modo, não só para com os seus, mas para comnosco. Sendo assim que onde os não maltratão, são elles de indole muito mais benigna: em Inglaterra, segundo se diz, nem ha cão que ladre, nem besta que escoucinhe: em não sei que ilha dezerta, acharão os primeiros descobridores, em aportando, (segundo encontrei na Escolha de Viagens por John Adams) serem tão cortezes as aves de que toda era chêa, que não fogião dos novos hospedes, antes os festejavão e se deixavão pôr a mão; semelhantemente ao que da ilha das Garças aponta João de Barros _Dec. 1 Liv. 1 Cap. 7_, aonde “como não erão traquejadas de gente (as garças e outras aves), ás mãos tomarão (os marinheiros de Nuno Tristão) tanta quantidade d’ellas, que ficou por refresco ao navio.” Dos leões he corrente entre os naturalistas não perseguirem, mas esquivarem-se dos perseguidores, embrenhando-se cada vez mais pelos seus sertões adentro, sendo alias mui leves de domesticar, e folgando de acompanhar, como rafeiros innocentes, a trôco de qualquer esmola de pão, por largo espaço de leguas. Muitas são em toda a parte, mormente em Africa, as serpentes, que namoradas do bom gazalhado, trocão seus matos pelas pouzadas humanas, e n’ellas se hão como boas comadres da familia. O cavallo do Arabe he o contubernal e primeiro amigo de seu dono: um bom Arabe na morte do seu cavallo deveria de se expressar pouco mais ou menos como Millevoye o suppoem na Elegia. Muitos prezos tem logrado domesticar aranhas e ratos, até o ponto de, no meio das asperezas de um segredo, se poderem esquecer por muitas horas do seu desamparo, crueldades e injustiças humanas. No páteo da rezidencia parochial de S. Mamede da Castanheira do Vouga, todos os dias a horas certas viamos acudir ao almoço e cêa que ás nossas pombas desparriamos, todos os passarinhos da vizinhança, que ja traziamos tão correntes, que nos vinhão comer aos pés, por saberem (porque os brutinhos sabem muito mais do que nós outros cuidâmos) que n’aquella cazinha da solidão moravão amigos seus, e nunca terem ouvido tiro, nem enxergado rede no pequeno arredor do templo e passaes solitarios.[16] Se a tudo isto e a muitos outros exemplos se lançar conta, alguma verdade se achará no affirmarem poetas, que no discaír da idade de oiro, ao mesmo tempo que se os homens corromperão degenerando em crueis, se forão as feras tornando bravias e desabridas.
Em todos os tempos, e até por fóra e mui longe d’esta religião charidosa, houve quem bem entendesse como entes nossos conterraneos n’este orbe, irmãos nossos em viver, sentir, padecer e acabar, com sangue e coração como nós, com amor, prazeres e filhos como nós, bebendo como nós no immenso vaso do pai commum o mesmo ar, a mesma luz, as mesmas aguas, e comendo comnosco á mesma mesa do universal banquete, poderião quando muito servir-nos de pasto; mas fóra d’ahi, qualquer injúria que se lhes accrescentasse, seria hortorosa profanação e violação da natureza. Plutarcho e Quintiliano referem, que os Athenienses castigarão severamente algumas sevicias commettidas contra animaes. O Alcorão espalhou por todos os povos, que largamente senhorea, muita d’esta benignidade: raro Mahometano deixará de matar a fome ao cão de seu inimigo. Na China passa esta beneficencia muito adeante. Que no-lo diga em seu estilo chão o nosso Fernão Mendes, ou talvez o Jesuita que em seu nome, e por um modo tão rijo de crer, compilou tantas e tão preciosas noticias do Oriente, mui desacreditadas em tempo, ja hoje em parte mui abonadas de verdadeiras. Padre ou marinheiro, diz assim: (falla de uma feira que no rio de Batampina, em caminho de Nanquim para Pequim, se faz com mais da duas mil ruas de barcaças, nas quaes ha para vender tudo a que no mundo se pode pôr nome.) “Ha tambem outras embarcações em que os homens trazem grande soma de gayolas com passarinhos viuos e tangendo com instrumentos musicos dizem em voz alta á gente que os ouve, que libertem aquelles cativos que são criaturas de Deos, a que muita gente acede a lhes dar esmola com que resgata daquelles cativos os que cada um quer e os lança logo a avoar, e toda a gente dando hũa grande grita lhe diz, _pichau pitanel catão vocaxi_, que quer dizer, _dize lá a Deos como cá o servimos_. Ha outros homens que noutras embarcações trazem grandes panellas cheyas de agoa, em que trazem muitos peixinhos viuos que tomão nos rios nũas redes de malha muyto miudas, tambem pela mesma maneira vem bradando que libertem aquelles cativos por seruiço de Deos que são innocentes que nunca peccarão, a que tambem a gente dando sua esmola, comprão daquelles peixinhos os que querem e os tornão logo a lançar no rio, dizendo, _vayte embora, e lá dize de mym este bem que te fiz por seruiço de Deos_. E estas embarcações em que estas cousas se trazem a vender não se hão de contar por menos soma que de cento e duzentas para cima.”
Na India são n’esta virtude extremosissimos. Alguns viajantes tanto encarecem a couza, que chegão a affirmar haverem por lá, ainda no seculo passado, hospitaes para as mais asquerosas sevandijas, como piolhos, pulgas e persovejos.
Pôsto que tudo quanto até aqui tenho trazido, possa parecer uma diversão do principal propozito, não o he, por quanto d’estes misericordiosos affétos he que se tem em parte derivado a abstinencia de carnes, observada por muitas pessoas, communidades, seitas e povos: em parte digo, porque em outros diversos fundamentos tem tambem estribado, como veremos.
E pois que a ultima que tocámos foi a India, a ella tornemos, levando por explorador e lingua, não algum estrangeiro, de que outros se contentão mais, mas um patricio nosso, dos varios que para tal officio se podérão tomar: he Duarte Barbosa, e diz:
“Ha neste regno (de Guzarate) outra sorte de Gentios, que chamaom Bramanes, estes nom comem carne, nem pescado, nem nenhũa cousa que mora, nem mataom, nem menos querem uer matar, por asy lho defender sua idolatria; e guardaom isto em tamanho estremo que he cousa espantosa, porque muytas uezes acontece leuarem-lhe hos Mouros bichos, e pasarinhos uiuos, e fazerem que hos querem matar perante eles, e estes Bramanes lhos compraom e resgataom, dando-lhe por eles muyto mais do que ualem, por lhe saluarem has uidas, e soltalos. Se tambem El Rey, ou ho gouernador da tera, tem algũu homem, porculpas que cometese, julgado ha morte; ajuntamse eles, e compramno ha justiça, se lho quer uender, pera que nom mora; e tambem algũus Mouros pedintes, quando querem auer esmola destes, tomaom muy grandes pedras, e daom com elas emsima dos ombros e barigas, como que se querem matar perante eles, e porque ho nom façaom, lhe daom muytas esmolas, e que se uaom em pas; outros trazem faquas, e daom-se cõelas cutiladas pelos braços e pernas, e pera se nom matarem lhes daom muytas esmolas; outros lhe uem has portas ha querer lhe degolar ratos e cobras, ha hos quaes eles daom muyto dinheiro por ho nom fazerem, e desta maneira saom dos Mouros muy apreciados: estes Bramanes se achaom no caminho algũu golpe de formiguas, aredam-se buscando por honde pasem sem bas pisarem. E em suas casas de dia çeaom; de dia nem de noyte acendem candea, per caso de algũs mosquitos nom irem morer no lume da candea; e se todauia tem grande necesidade de acenderem de noyte, tem hũa alenterna de papel ou de pano agomado, pera cousa nenhũa uiua poder ir morer dentro no fogo; se estes criaom muytos piolhos, nom hos mataom, e quando hos muyto aqueixaom mandaom chamar hũs homeins que antre eles uiuem, que tambem saom gentios, e eles hos haom por de santa uida, e saom come irmytães, uiuendo em muyta abstinença por reuerencia dos seus Deoses; estes hos cataom, e quantos piolhos lhe tiraom poemnos em suas cabeças, e hos criaom com suas carnes, em que dizem fazerem muy grande seruiço ha seu Idolo, e asy guardaom hũus e outros com muyta temperança ha ley de nom matarem: estes Gentios saom muy delicados e temperados em seu comer; seus manjares saom leites, manteiga, açuquar, e aros, e muytas conseruas de diuersas maneiras; seruem-se muyto de cousas de fruyta e ortaliça, e deruas de campo pera seus manjares; honde quer que uiuem tem muytas ortas e pomares.”
Na _Historia de Mysore_, lê-se que em Bengala, quando a violencia da fome a devastou em 1774, consumindo-lhe obra de trez milhões d’almas, forão em muito grande numero os Indios que antes quizerão deixar-se morrer á mingoa, do que acabar comsigo comer carne de animaes.
Frequente e antigo he na India este antojo, e tão notorio, que não ha porque afogar o discurso com mais exemplos. Bem podia proceder isso em parte da vegetavel abundancia e espantosa cultura d’aquellas terras, e de alguma especial compleição do clima, ou natureza ou costumes dos moradores, ou algumas outras circunstancias, segundo as quaes os corpos se dessem melhor com os pastos leves e frugaes: viria depois a religião consagrar por dogmas seus os conselhos da higiene, como com vinho, toucinho e abluções aconteceo em muito oriente á conta da lepra: para melhor incutir o preceito, cerca-lo-hia de fabulas amigas da imaginação do vulgo, como a encarnação dos Deozes em corpos de brutos, e a transmigração das almas humanas por differentes sortes de viventes até parar na vacca; materias estas de que as historias e perigrinações fazem larga menção. Dos Indios podérão tomar por mão a crença os Egipcios, os quaes, sendo moradores de solo não menos liberal, devião tambem perdoar grandemente aos animaes, em quem reverenciavão suas Divindades, ou santuarios ambulantes que d’ellas forão: e confirma-me na suspeita a conveniencia, que ja de alguem deverá ter sido notada, do boi Apis do Egito com a vacca ainda hoje sagrada dos Indios. Do Egito provavelmente trouxe Pithagoras para a Italia, em tempos de Numa ou Servio Tullio, a sua metempsícosa com a defensão do uso das carnes. Não pegou a invenção, se não foi em alguns escolares fanaticos de tamanho mestre; e nem filosofos pelo tempo adeante a sustentarão, nem poetas se valerão d’ella, afóra Ovidio nas metamorfoses, e só como narrador; e mais não deixava de ser fecunda e bem assombrada crença para poesias. Não pegou, porque não vinha propria á indole do solo ou ao temperamento dos Italos, ou, o que he mais certo, porque encontrava os antiquissimos usos de umas gentes, que primeiro tinhão sido pastoras e depois guerreiras.
Na Ilha da Palma, acharão os nossos, quando descobrião, conquistavão e amansavão aquelle archipelago, (senhorio traspassado depois em Castella, mas padrão glorioso do nosso Infante D. Henrique) serem mantimento dos moradores hervas, leite e mel.—Com este particular exemplo me acóde a memoria, mas alguns outros semelhantes de outras ilhas me parece ter achado pelas historias, de que me não ficou nem fiz a lembrança preciza.
Com a propagação da fé christã renasceo religiosa a abstinencia na Europa, por motivo não de brandura, mas de mortificação. Apparecerão Ordens numerosas de religiosos, primeiro só de homens, logo tambem de mulheres, que renunciando todos os carnaes deleites para melhor apurarem os do espirito, tomando o exemplo dos primitivos eremitas que se abastavão com as hervas, raizes, frutas silvestres, e aguas dos montes, não só cortarão pelas demazias na quantidade do sustento, não só o estreitarão com regra de jejuns, mas em varios de seus institutos o expurgarão de todo animal terrestre ou volatil, não consentindo, quando muito, senão em algum marisco secco e fraco, para regalo das festas. E he para notar como ainda os mais rígidos observantes logravão saude inteira e robusta, e chegavão ao ultimo fio da velhice: _mens sana in corpore sano_.
Annos ha que me recordo de ter achado em uma Gazeta de Lisboa, estar-se creando em Manchester uma seita, que por filosofica defendia tomar qualquer sustento animal. Era noticia de Gazeta, não affirmarei que tivesse pé, e se o teve, não sei em que parou.
Ja que estamos com Inglezes, fallemos de Franklin. Este homem, a quem a probidade e o juizo fizerão filosofo e liberal, e não a devassidão e o estouvamento, tendo lido, di-lo elle, o livro em que Tryon recommenda a dieta vegetal, determinou-se em a observar. Pô-lo por obra, e limitando-se em arroz e batatas, e ás vezes ainda em menos, como passas, bolaxa ou pão, com uma gota de agua, não só forrou do seu salario (era ainda então compositor de imprensa) com que poder comprar livros, mas do seu tempo acerescentou para estudos o que as refeições e digestões lhe podérão consumir: fez progressos proporcionados á clareza de ideas e fortaleza de percepção, que são o fruto da temperança no comer e beber. Seguio constante por algum tempo, não pouco, até que chega á ilha de Block, assiste a uma pesca, revolvem-se-lhe nas entranhas as maximas do seu Tryon, dá por genero de assassinio aquelle matar viventes, que nem tinhão feito nem erão capazes de fazer o mínimo mal. Poem-se os mortos ao lume, recende o guizado; o filosofo no seu tempo gostára apaixonadamente de peixe; entra pelo nariz a tentação, estremece a filosofia, e em boa hora lhe acode com uma bulla de composição, lembrando-lhe como ao abrir e limpar d’aquelles peixes, lhes víra dentro do buxo outros peixinhos mais pequenos. “Pois que he isto, diz elle entre si, se vós uns a outros vos comeis, porque não hei de eu tambem comer-vos a vós?” N’essa hora e com esta palavra se lhe quebrou o fadario; o que muito bem prova, acrescenta o bom homem, sermos nós _animaes racionaes_, sabendo, como sabemos, achar pretextos plausiveis para quanto nos póde dar gôsto.
Outro autor muito afamado de nossos dias, Raynal, era igualmente sobrio. A Senhora Marqueza d’Alorna, que muitas vezes o teve a jantar, me contou, que nunca o víra comer mais que algumas poucas hervas e fruta, nem beber senão agua. Era, observava ella, como um conviva das Ninfas, custando a crer como com aquellas refeições de idillio se podessem sustentar tantos nervos d’alma e de pensamento.
Se depois de autores de livros se póde citar quem não sabe ler, em Grada, lugarejo da Bairrada, vivia um moço que eu conheci, o qual nunca provára vacca. Perguntado a causa, não era religião, nem filosofia, nem tedio natural, mas effeito de um vehementissimo e entranhado amor que tinha aos bois, com quem se creára, com quem vivia, lavrava, e dormia paredes meias. Rústico era, e sem o cuidar discorria e fallava como o Sabio de Cheronea, quando dizia, que por tudo quanto o mundo tinha, não venderia nunca o boi que em seu serviço envelhecêra.
Afóra os monges, filosofos e amigos dos bois, ha ainda uma grande quantia de homens, puro comedores de vegetaes em quasi todo o anno: são os moradores das serras e aldêas pobres, a quem a estreiteza de sua fortuna mal dá licença para chegarem á carne por entrudo e paschoa, e poucas mais vezes e só escassissimamente, ao pescado, vizita mui rara em terras mesquinhas do sertão. De choupanas sei eu, e quasi de inteiros lugares, pelas abas da Serra do Caramulo, onde oito annos vivi, que de pouco mais se sustentão que do pão de centeio e milho, batatas e alguns legumes: e estes asperissimos banquetes, em que até pelo demais fallece o agro vinho verde de seus montes, trazem-os comtudo mais rijos e sãos no trabalho, do que as grandes ucharias aos mimosos das cidades.
Acabarei estes exemplos com o que melhor conheço, que he o meu. Quando eu compuz estes versos da _Festa de Maio_, era como ja no Ante-Prologo disse, todo Gessnérico: trazia a alma toda a nadar no coração empapado com os mais brandos affétos do mundo, como rosa a boiar em vaso de leite: amava as plantas e tratava com ellas como com entes sensitivos; todos os entes sensitivos amava-os como amigos e companheiros: tinha fantasia pronta, que muito ajuda em todo o genero de bem querer; esta me revelava de contínuo e me ataviava de suas fabulas e côres a particular vida e cheíssimo mundo de cada inséto; e porque esse seu mundo e vida dizia tanto com o meu, e o commum de seus substanciaes interesses com o commum dos substanciaes interesses dos homens, acontecia que imaginando-me ora grilo, ora passaro, ora borboleta, tinha aprendido uma perfeita, e se dizè-lo posso, egoista charidade para com todos elles. Ouvi debater a questão do uso das carnes: as razões affirmativas podião ter mais fôrça, mas as negativas dizião com o meu gôsto; he meia persuasão; caírão-me tão bem, que logo me dei, se não por convencido, por persuadido: e como persuadido e convencido escrevi os versos, que por isso aos indifferentes se de contrária sentença, devem parecer, como em verdade são, sobejos, exagerados e declamatorios.
Era o escrito fruto de minha opinião; mas esta, como accontece, se roborou por elle, e até tal ponto se confirmou, que do que até alí não passára de poetica theoria, instituí fazer prática minha em toda a vida, renunciando qualquer genero de alimento animal. Por duas vias se fazia de mal o tenta-lo, ja porque em couza tão excetuada do geral não deixarias de caír estranhezas e zombarias, ja porque tanta sobriedade entre quem a não usava, era genero de martirio continuamente renovado. Mas contra estes dois contrastes prevalecião outros dois argumentos: primeiro, minha consciencia, que repugnava banquetes de sangue: segundo, o presuposto em que estava, de que as faculdades da alma se havião de adelgaçar e crescer onde o corpo fosse favorecido da parcimonia. Metti-me Pithagorico aos vinte e trez d’Agosto do anno de 1822, tendo sido gastos os mezes, que desde a feitura do poema decorrerão até esse, em acabar de me resolver e aparelhar para tão grande façanha; e permaneci na observancia do voto até vinte e trez d’Agosto do seguinte anno. Acabei o noviciado, e em lugar de professar, despedi-me. Tive minhas razões; e ainda que pouco se me havia de dar agora do que se podesse dizer ácerca de um indivíduo, que n’esse tempo tinha o nome que eu hoje tenho, e do qual, segundo as theorias dos medicos, não conservo hoje uma só particula, sendo eu um, vivo e junto; elle outro, morto e disperso por todo esse mundo: todavia, porque ainda temos commum um leve som, que he o nome, quero lançar pontualmente na balança do juizo dos meus leitores os seus porques; e bons ou máos, forão estes.—Primeiro: que a abstinencia de uma só pessoa não poupava uma unica existencia de animal. Segundo: que era presunção ridicula o desquitar-se um sujeito, por alguns argumentos, de uma opinião e uso quasi universal, sendo assim que todos os homens, guerreando-se entre si por crenças religiosas, por sisthemas filosoficos, por principios de política e sciencias, por modas e gostos, todos se conformavão no comer das carnes. Terceiro: que realmente era obstinação o desconhecer como a natureza nos não aparelhára só para comer e digerir vegetaes. Quarto: estar-nos ella dando nos proprios animaes, que uns de outros se sustentão, uma prova de ser menos escrupulosa do que Pithagoras e a poesia. Quinto: que ella propria os multiplica á proporção do que uns a outros devem tragar. Sexto: que se ella faz com que cada passada, cada pedra que movemos, cada gota de agua que engolimos, cada fruto ou folha que aproveitamos, cada sôpro que inspiramos ou expiramos, cada movimento emfim que fazemos, ainda dos mais indispensaveis para a vida, a destrua a milhões e milhões de entes conhecidos, e a numero talvez ainda maior de desconhecidos, não ha porque nos tenha a grande peccado, o aumentar-mos por nosso bem a lista com mais algumas unidades. Setimo: que o adelgaçamento e crescimento de minhas faculdades intelletuaes que eu esperára d’aquella mais leve nutrição, não só se não tinha verificado, mas antes o contrário succedêra, pôsto que de diversas causas podésse pender o successo: e por muito tempo me ficou o costume de, quando via versos fracos e desengraçados, dizer: Devião estes de ser compostos por quem não comia senão hervas. Outavo, ultimo, e não leve motivo: que ainda que pouco dado ás delicias da gula, o cheiro e presença de melhores iguarias do que as minhas, de dia em dia me tentava mais, e quando succedia achar-me entre gente alegre e em mesa de festa, as ondas de tentação, que eu forcejava dissimular o melhor que podia, crescião e redobravão com os motejos dos circunstantes, que bem poderião ter sal, mas não que adubasse as minhas insôssas hervas.
De todos os varios antecedentes deduzo, que sem embargo das objeções, autoridades e exemplos, o uso das carnes se ha de ter por licito, e por dithirambico o que lá fica no texto: mas que fóra do caso de necessidade ou clara utilidade, e alem do ponto em que essa necessidade ou utilidade pararem, toda a sevicia contra viventes he immoral, injusta, insensata, e digna de muito grande castigo.
E tanto isto assim he, que, porque todo o carniceiro de officio contrahe na alma e nos modos alguma couza de cruento e de tigre, em muitas partes se tem por infame. Em Portugal, nenhum mechanico honrado e de conta acceitaria um tal para sogro ou genro, ainda com grosso cabedal de renda; nem de boca plebea pode saír mais afrontosa injúria que o nome de magarefe. Em Inglaterra não os admittem jurados em causa crime. Na principal ilha das Canarias encontrárão seus descobridores, que os naturaes, com viverem á lei de sua rudeza silvestre, “havião por couza mui torpe esfolar alguem gado, e n’este mister de magarefes lhes servião os cativos que tomavão; e quando lhe estes falecião, buscavão homens dos mais baixos do povo para este officio, os quaes vivião apartados da outra gente e não os communicavão em aquelle mister” (_Barr. Dec. 1. L. 1. C. 12._)—Bem hajão os inglezes, que formão sociedades para proteger animaes, e abençoado seja o inglez Deputado Martin, que para lhes fazer bem, se arrosta com os escarneos dos praguentos. Bem hajão os allemães, que em seus campos não perdoão multa municipal aos que, no levar rezes pelos caminhos, as atravessão deante de si na albardadura, ou tolhidamente as apinhoão dentro em carros. E bem haja a nossa Camara, quando conseguir desterrar o escandalo do afrontoso trato que nossos carreiros dão a seus bois, como ja desterrou a atroz e immoral matança dos porcos perante os olhos do povo.
Quero rematar com uma reflexão, que ja acima podéra ter cabido, mas que por dezejar da-la por conselho, e pô-la onde melhor se recommendasse, muito de industria deixei para o fecho. Vai o dito a pais e educadores, a quem toca. Nada importa mais, do que affazer cedo os meninos a uma grande suavidade de costumes: assim foi creado o bom Montaigne. Se os eu tivesse, parece-me que tambem assim os crearia, e bem bons frutos lhes havia de colher na minha velhice. Primeiro que tudo, parece-me que me conformaria com Rousseau em os não alimentar desde o leite senão com vegetaes, por entender como elle, serem estes mais accommodados a suas naturezas, e mais proprios para fisicamente os suavizar e humanar. Mas não quero agora averiguar isto que pertence a medicos; outro he o meu alvo. Não consentíra jamais que presenceassem espetaculos de atrocidades ou injustiça; e quando a minha má estrella lhos presentasse, procuraria afea-los com boas razões, mais de affétos e lagrimas que de raciocinios. As urbanas corridas de touros e as aldeanas festas de alanceamento de pombos, frangos e patos, como couzas antiquissimas e nacional feição, as respeito; mas não levára la os meus tenrinhos, que são mui branda cera para qualquer bom ou máo cunho. Se de alguem lhes fosse insinuada a correntissima abusão de nossos provincianos, de que em casa que devasta ou maltrata os ninhos do seu beirado, tudo vai para traz e de fôrça se ha de aguardar por enterramento, calára-me, porque acho razão a Fontenelle em dizer, que se na mão tivesse fechadas todas as verdades do mundo, Deos o defendesse de a abrir.
_Magnànima menzogna, or quando è il vero_ _Si bello, che si possa a te preporre?_
Dar-lhes-hia, da Historia natural poetizada, tanta luz, quanta bastasse para levarem grande interesse nos fados de cada individuozinho que respira: um raio de tal luz póde bastar para pôr fim a muita dureza que provenha de cegueira. Conheci e tratei com um parocho de fóra da terra, que desgostoso de que uma sua fregueza, rapariga nova, não pozesse reparo em maltratar animaes, a chamou brandamente, explicou-lhe como tudo que era nascido devia ter algum entendimento, capacidade para dores e prazeres, parentes, amigos e affeições. Com isto só a fez outra, e tão outra desde essa hora, que onde depois se lhe fazia de mister dar morte a uma pomba ou gallinha, ainda que em seu páteo não forão creadas, ja o coração se lhe confrangia, tremião-lhe os pulsos, e chegada á execução, não corria mais sangue da ferida, que mal acertava, do que lagrimas de seus olhos.—De mim mesmo me parece agora, que se escrevi os versos a que me refiro, e em commenta-los me alargo tanto, e uma e outra couza de tão boa mente, de tudo deve ter sido raiz a creação, em tudo excellente e n’esta parte bem empregada, que meu pai se esmerou em dar a todos seus filhos.
Outra couza fizera eu principalmente; era commetter-lhes o trato e tutela de alguns animaes caseiros, a quem podessem chamar seus. N’este exercicio aprenderião a ser observadores, vigilantes, serviçaes; tomarião com o gôsto da propriedade o amor do trabalho, havendo-se ja por algum modo como pais de familias; costumar-se-hião a acautelar, previnir e amar; tomarião para toda a vida o geito de amparar fracos e desvalidos, e de não ver um qualquer indivíduo, sem logo compor na imaginação a historia completa do seu viver, do seu padecer, do seu precizar.
Da efficacia de tal methodo, e tão simples, e tão formoso, tenho eu uma muito amavel prova de minhas portas a dentro. Uma mulher, toda boa, toda extremosa, tomou unicamente a peito o vingar-me da natureza; cerca-me de contínuo, como um anjo, de amor e de luz; empresta-me olhos para eu ver o mundo e as obras dos seculos; tira deante dos meus passos todos os espinhos no caminho da vida; inventa-me um encantamento novo para cada minuto; diz-me e faz-me entender como a verdadeira felicidade se não compoem de grandes pedaços, mas sim de atomozinhos que de longe se não podem perceber; repete-me e persuade-me que nasci para as Musas e para o amor, e não para a política, nem para os odios, serve-me, vela-me e defende-me como a filho, ama-me como a esposo, zela o meu nome como o de irmão; lançou a sua vida na minha vida, o seu pensamento no meu pensamento; existe pelo meu amor, morreria se lhe elle faltasse. Quem lhe ensinou tão generosa, tão nova benevolencia? quem lhe deo tantos segredos de fazer feliz? as suas aves e pombas, a sua amiga, e alguns livros, unica sociedade da cella, onde desde seus annos verdes a Providencia ma estava guardando e aperfeiçoando[17].
_Pag. 243. verso 18 e seguintes_
O mesmo coração, dezejos, gostos, Que tem nossas mortaes no peito occultos, Tem as Ninfas tambem &c.
Por estes versos começa uma torrente caudal de couzas vãs e doidas ácerca das mulheres, e relações dos dois sexos, que ora mais, ora menos turva, se vai alongando até pag. 254. A pezar de se devolver por leito de quasi proza, e por entre margens para meu gôsto mal assombradas, bom seria que por ellas nos podéramos ir detendo a pescar, e a examinar algumas das couzas mais graúdas que vão na chêa: serião questões apraziveis de ociosa filosofia, mas prometti no prologo despreza-las; perdoar-lhes-hemos, deixa-las ir seu caminho. Passem a seu salvo as regras de namorar á antiga; a arte não de amar mas de enredar e colher, como o são quantas com titulo de amar se tem escrito; a poligamia, menos de Mahometano do que de Tupinamba; o divorcio e ulteriores nupcias dos divorciados e divorciadas; a botecuda nudez dos sexos &c. La se avenhão como poderem todas essas puerilidades com seus inimigos, que se de minha Musa nascêrão, muito ha que eu e ella as desherdámos. O meu ponto agora he assentar boas pazes para sempre com as damas. Todas minhas Obras, não só esta, _Cartas de Echo_, _Amor e Melancolia_, _Noite do Castello_, _Ciumes do Bardo_, me devem ter perante ellas representado cavalleiro descortez de desleal poesia. Tempo he de mudar de cores, abjurar o erro, e para merecer o perdão, que ellas de puro boas concedem antes de pedido, romper lanças em favor de sua fama, não só contra inimigos, se os podem ter, mas contra mim proprio, pelas ter aggravado. He uma Nota estreita arena para tão singular duello: mas embora, que para outro dia e campo desafiado fica o eu mancebo desatinado e altivo d’outro tempo por mim grave, reflexivo e respeitoso; o eu versejador por mim pensador; o eu academico e solteiro por mim cazado e recolhido: emfim por mim conhecedor do terreno do combate o eu ignorante d’elle, a cuja face ja n’esta hora arremésso a luva, e lhe digo “Mentiste, e mercê de Deos e de minha Dama, provar-to-hei.” Mas pois que he forçado ficar para outro dia a pendencia, aqui não farei mais do que um pouco ensaiar-me para ella, campeando soltamente e esgremindo nos ares.
Nenhuma couza tem sido mais experimentada no mundo e mais vezes definida que o amor, nenhuma ha tão mal e imperfeitamente comprehendida como o amor. Fallo do amor dos homens, unico de que os homens podem fallar: o das mulheres he ainda mais incomprehensivel, e certamente muito mais espantoso, quando verdadeiro. O que pretende dar regras de amar, como alguns outros fizerão antes de mim, e como eu proprio supponho que pretendi, assemelha-se ao astronomo, que tendo endoidecido á força de ter velado as noites a observar os astros, presumisse, riscando órbitas com o lapis, constrangê-los a segui-las: as esferas e os affétos saem do nada ao sôpro de Deos, resplandecem com a sua luz propria e misteriosa, vão-se ora afastando ora aproximando de seus centros pelo caminho que sua natureza lhes ordena, eclipsão-se na hora prescrita, desappareceráõ quando Deos fôr servido; sem que em tudo isso haja querer, escolha, presciencia, ou conhecimento de nossa parte. Amamos uma mulher, e certa mulher; porque temos de a amar; porque he necessidade sua e nossa que a amemos; amamo-la pelo modo que a natureza quer e não outro, não he uma acção mas uma paixão: se a premião o premio he gratuito, se a punem he injusto o castigo, porque não recáem sôbre um effeito de eleição. Ama-se uma mulher, repito, sem o procurar, sem o cuidar, sem arbitrio, a despeito da razão, da vontade e dos votos, como á rosa, como á lua, como á harmonia, como aos sabores dos frutos deliciosos. Para ellas se vai como os rios dos montes para os valles, como a chamma para o ceo, como a pedra do ar para a terra, como o menino para os peitos da ama, como o coração para o prazer. N’estas occasioẽs todo em nós he extraordinario, e se o posso dizer, sobre-natural: sentimo-nos fôrças que não possuiamos para querer, seguir, abraçar e reter: o pensamento se torna infinito, porque o objéto que procurâmos, como uma metade nossa que nos foge, nos apparece infinito. Por dentro d’aquellas graças fisicas, de que os sentidos se namorão, imagina-se um mundo estranho e illimitado de perfeições, de que se namora a alma: ahi se dezeja tudo quanto he capaz de embellezar a vida; o dezejo he logo esperança, a esperança certeza, a certeza delirio, e novamente dezejos; e quem porá limites a dezejos, a delirios, a esperanças? O abrangimento do infinito da Divindade em um corpo humano não he misterio que o amor não saiba muito bem entender. He aqui o lugar de confessar que a este sobre-humano conceito, que da mulher amada se faz, mil vezes corresponde plenissima realidade.
Por mais que a natureza se aprimore em modelar, tornear, corar, amaciar, brunir, bafejar e endeozar o fisico da mulher, as suas graças, o seu merito, o seu ser de mulher não são esses dotes, sujeitos ao tempo e dependentes de um ar, assim como nas flores não são mel as pétalas vistosas e coradas, o cheiro suave e attrátivo, que o sol e o vento attenuão e desbaratão. Diz-se que as feiticeiras tem o seu encantamento em um novêlo; o novêlo do feitiço das mulheres está no seu coração e no seu espirito, que n’ellas he tambem coração. O coração da mulher não mora descançadamente reclinado no peito como o nosso, por toda sua alma esvoaça perdido de amor, gemendo de amor, como uma ave mãi e feliz por todos os ramos de um bosque de primavera: sente-se-lhe o frémito das azas, ouve-se-lhe a harmonia em tudo quanto diz, em tudo quanto cala, no que faz como no que deixa de fazer, no que pensa, recorda ou espera, nas lagrimas e no riso, no enfado e no contentamento, na vigilia e no sono. O coração lhe está á porta interior de cada sentido recebendo as impressões; para elle e por elle veẽm, para elle e por elle ouvem, para elle e por elle presencêão a natureza, communicão com ella e comnosco. Um sôpro divino formou a alma do homem, a da mulher de um beijo delicioso deveo ser formada.
Este afféto, esta doçura, esta, quero eu dizê-lo, feminidade da mulher são de tão alta natureza, tão estremes de liga, tão independentes do fim mesmo para que a providencia a destinou, que me parece ainda despojada de sentidos, poderia amar vehementemente como os espiritos angelicos. Que será quando os sentidos confluem, para atear com sua materia inflammavel este fogo celeste? ¿quando a Vestal, afrontando todo o futuro, deixa apagar no altar da Deoza de sua infancia a luz virginal que velou por tantos dias e noites? ¿quando na turbação insólita d’estas trevas desconhecidas, se entregou toda e com todo seu futuro ao ente que a implorou como Divindade, e que ella sabe e sente em si tornará feliz por cima de todas as felicidades? ¿quando uma vez encetou prazeres, cujo maior encanto para ella se da-los recebendo-os, e não os receber sem ao mesmo tempo consummar mais de um doloroso sacrificio? Oh então he o amar do amar! o afféto, que ja em profundeza não podia crescer, cresce em superficie, e trasborda todo e para toda a parte, como um perfume abundante; então he que sem voz pronunciou o _sempre_; que sentio apertar-se-lhe nas entranhas a indissolubilidade do consorcio, porque o amor de fantasia se fez realidade, de dezejo destino, de suspiro occulto gloria; a tudo tem ja direito porque ja deo tudo, não póde dezejar ser de outrem porque a outrem não teria tanto que dar. E he esta a grande differença da mulher ao homem, e do amor ao amor: o d’ella tem um abono e côr de eternidade, o nosso um elemento e uma côr de tempo. Podéra ser emblema do nosso, uma náo alterosa e possante, surta em uma bahia aprazivel, mercadejando e folgando com a terra, empavezando ufania de flammulas e galhardetes, aferrada ao fundo do mar com uma unha de ferro, mas podendo de uma hora para outra arranca-la ou picar a amarra, desfraldar as velas que sempre estão prestes, e vogar atravez de todas as ondas, por cima de todos os abismos, a mercadejar e folgar no extremo opposto do mundo: emquanto a feminil affeição, como barquinha contente e desambiciosa, feita para os ocios de sua enseada, coroada a pôpa ora de flores abertas ora de esperançosos verdes, sem deitar nenhuma ancora, não foge nunca d’entre aquellas margens conhecidas; por entre ellas vai e vem avoejando de contínuo, levando e trazendo sempre commodos e alegrias, sem curar que de sua barra em fóra haja outros mares, n’esses mares outras bahias; delicia-se na sua, onde tudo a festeja e saúda por seu nome, onde se entende com todos os ventos, todos os refugios conhece para o dia da tempestade. O amor do homem, com os sentidos satisfeitos muita vez se satisfaz e adormece; como o frizão dos Jogos Olímpicos, que chegado apoz violenta carreira a tocar na meta, surdo até ás vozes da gloria que esporeou, se estirava para repouzar ou para morrer. O amor da mulher, satisfeitos os sentidos, se restaura, resurge mais puro e extremoso, mais vivaz e promettedor; semelhante ás plantas, quando desfallecidas nos afrontamentos do verão se dessedentão com a chuva de uma nuvem que passsou, e viçosas reverdecem para embalsamar os ares de seu valle. Uma de muitas razões que para esta differença podem concorrer, he que n’essa hora adquirio a mulher direitos, o homem contrahio obrigações; as obrigações pezão, os direitos agradão, as obrigações limitão e apoucão, os direitos accrescentão e engrandecem. Trocarão-se os papeis na scena, o seguidor esquiva-se, a perseguida segue. O amor do homem he só amor, o amor da mulher he amor e amizade: elle, porque pertence ao mundo, á gloria e a tantas outras paixões, só tem meio coração, meia vontade, meio tempo para dar á sua companheira; esta, separada do mundo pelo mesmo mundo e pela natureza, por isso mesmo mais raramente accessivel a outras paixões, dá ao seu amigo todo o coração, toda a vontade e toda a vida; dar-lhe-hia se podesse mais vida, e mais coração, mas não mais vontade: com elle, por elle, e para elle existe, na propria ausencia o tem presente; e quando cessa de abraça-lo, he para se gozar de o ter abraçado, e cuidar como logo o abraçará de novo, e volverá a ser d’elle amado, fazendo-o feliz.
Tal he o theor da natureza: tem excéções e numerosas. Corações ha de homens, que sem ser effeminados, não desdirião n’um peito feminino; e corações de mulheres, que talvez bem nascidos e bem fadados, mas torcidos depois pela educação, quebrados pela sociedade, corrutos pelos exemplos, merecem as satiras, demaziadamente geraes, com que os autores de sua degeneração todos os dias lhe poem ferrete: mas essas, mais infelizes do que culpadas, os desgraçados que as pintem e condenem, eu pinto a mulher amante, a mulher perfeita, a mulher mulher, a mulher como a concebi, como a conheço, como a adoro. Foi esta a que Deos fez e temperou de poesia e harmonia lá na origem do mundo, quando vio que não era bom que o homem vivesse só. Esta he a que depois de nos dar a vida, no-la suaviza e apura; no-la multiplica em entes novos; no-la adoça nos momentos derradeiros; nos ama ainda, quando ja não somos; dá seus beijos amorosos a uma pedra, porque do nosso nome lhe conserva uma letra; e consummando o seu destino de amar, felicitar, sacrificar-se, ajoelhada na terra, nos vizita no mundo das sombras; estreitando o seu commercio com os ceos que a esperão, para nós só os invoca, e depois de no-los ter dado em amostra no tempo á fôrça de amor, á fôrça de amor no-los grangêa na eternidade.
Custa a crer como um ente, que he metade da nossa especie, que das duas he a mais amavel metade, a mais carinhosa, em tantas couzas nosso igual para nos attraír, mas com tantas differenças de nós para se nos unir ainda mais, que se tem defeitos de nós os recebe, e nos dá em troca, sem o cuidar, tantas das virtudes que possuimos, custa, digo, a crer como um talento, a quem sua propria fraqueza devêra tornar inviolavel, pôde ver-se em todos os tempos, e provavelmente continuará a ser até ao fim dos seculos, alvo e emprego das críticas mais desabridas, e mais grosseiras calúnias. Divindade extraordinaria, a quem seus proprios ministros e sacrificadores insultão adorando-a, e que de cima de seu altar, fragil mas eterno, inalteravel em sua mansidão, derrama sôbre bons e máos a felicidade! Que a filosofia as injuriasse não espantára. La Bruyere foi cruel para com ellas, Larochefoucault furioso, nenhum d’elles justo, nem sequer francez: a filosofia não anda sem os filosofos, e todos sabem como os dados a esse triste officio, são pelo demais almas seccas e incapazes de avaliar branduras, entendimentos sem olhos de imaginação, unicos proprios para julgar da verdadeira belleza; homens emfim eremiticos, rusticos e ignorantes no meio da sociedade; e para remate de suspeição, ja alongados pelo inverno da vida: da-se á filosofia o que as mulheres ja não querem.
A poesia não tem sido menos descomedida: a poesia, que d’ellas e para ellas nasceo, cujas Divindades forão com razão pelos antigos fabuladas em fórma feminil, como as Graças, como os Genios de tudo quanto ha amavel na natureza, a poesia, a seu máo grado, lhes tem sido rebelde todas quantas vezes os poetas, por de sobejo amantes e zelosos, precizárão desabafar desgraças verdadeiras ou fantásticas: a lira acostumada a lhes entoar seraficamente não louvores senão hinos, resoou execrações, ás quaes respondêrão numerosos echos; porque onde o numero dos ingratos e indignos era grande, não podia o dos maltratados e queixosos ser pequeno: e d’ahi nascêrão essas civis guerras da literatura a favor e contra o sexo, guerras batalhadas nas salas e saráos, nos passeios em romagens, nas merendas das comadres e nas academias, desde o Japão até Portugal, desde os serões da arca diluviana até os nossos dias, em que o amor cedeo á política, e as questões das mulheres ás questões dos ministerios: _Factus est repente de cœlo sonus, tamquam advenientis spiritus vehementer_.... Ahi vinha ja querendo-se intrometter o meu demonio meridiano: ápage!
Para as grandes pelejas de que fallava, se despejárão todos os arsenaes da mística theologia, da methafísica, da historia sagrada e profana, das fabulas e anecdotas, da fisiologia e novellas. Ficou largamente juncado o campo de cadaveres em folio, em quarto, em outavo, em doze, em dezeseis, em trinta e dois, em sessenta e quatro; de pergaminho, de marroquim, de seda, de taboa, de papelão, de carneira, de papel: defuntos quasi todos sem amenta, e cujos nomes, se os houvesse de compilar, encherião maior livro do que este. Depois do derramamento de tantos rios de tinta, ainda pende a mesma questão; ainda até ao fim do mundo se tem de trazer para ella couzas que pareção novas; e as cinzas de Lucrecia, Dido, Phryne, Sapho, Aspasia, Arria, Cornelia, Osmia, Heloiza; Christina, Catharina, Maria Thereza; as cinzas das que habitárão cazaes, harens, palacios, mosteiros; as cinzas de Ninivitas, Gomorritas, Babilonicas, Espartanas, Atticas, Romanas, Africanas, Botecudas, Amazonas bellicosas, Indicas Bailladeiras, Viuvas Indostanicas, continuárão a ser revolvidas, pizadas e adoradas por modos sempre differentes, e quasi sempre cegamente, até á consummação dos seculos. A mulher fisica principia a ser conhecida, a mulher intellétual sê-lo-ha, a mulher moral he o infinito.
A mocidade, quadra da vida em que reinão os mais encontrados ventos, em obras a maior vassalla e tributária do sexo, he, fallando, escrevendo, e talvez pensando, a sua maior detrátora. Uma conversação de mancebos, embora amantes, não se detem senão em rebaixar o merito das mulheres: nascidos os disséreis das pedras de Deucalião e criados ás tetas das lobas. Qual pode ser a causa d’esta mais que montezinha ferocidade? Será inveja á superioridade modesta? será despeito de vencidos? não; essas vitorias, e ainda essas superioridades em virtudes, que não são as distintivas do nosso sexo, facilmente se perdoão. He a causa o mesmo natural instinto, que faz que os soldados em tempo de guerra, seroando entre as armas á fogueira ociosa do seu rancho, encareção as derrotas do inimigo, e lhe assaquem fraquezas que não tem, para a si proprios accrescentarem animos e determinação para as futuras pelejas.
Facil he carecer das loucuras da idade que ja não temos, ou que ainda não temos; blazona-se d’isso, mas não he virtude: carecer porem dos vicios proprios dos nossos annos seria virtude, mas tão rara he, que o despossui-la deve merecer vénia dos sizudos. Era eu em toda a fôrça de minha adolescencia, quando entre coetâneos e a seu contento, cantava em meus versos destinados os fracos e imperfeições de algumas mulheres, como fracos e imperfeições de todas ou da maior parte. Da falsidade que n’isso havia me corro, mas muito mais do pouco delicado tom do meu cantar, porque se me figura agora delito ainda muito mais grave, do que attribuir-lhes defeitos, o pintar-lhos inamavelmente: a graça he o seu primeiro mérito, injuria-las graciosamente ainda não he de todo injuria-las. De muita nuvem se desaffronta, e de mui grande carga respira um coração confessando suas culpas, mormente quando pelas confessar se torna a entrar absolto e regenerado na estima e benevolencia das dominadoras do mundo: quasi se folga, como me está succedendo, de ter tido a culpa, para merecer a vénia e saborear a reconciliação.
Transfuga dos arraiaes dos levantados, ás trincheiras d’ellas me recolho, não só com as armas com que as guerriei, para as defender, mas com uma bandeira para chamamento e reunião de outros. Ressuscitaria, se podesse, para o meu novo campo todos os bem nascidos espiritos das idades cavalleiras e cortezes, para procurarmos salvar da ultima ruina o feminil imperio, que de dia para dia vai sendo entrado, talado e engolido da Política; fero monstro em que tão mal assenta feminino! E se o conseguissemos, se os moços que deixárão os affétos pelos debates, as sociedades pelos _clubs_, os versos e cartas apaixonadas pelos jornaes frios e praguentos, quizessem volver a seu natural officio de amar, de agradar e divertir-se, ¡como se não amaciaria esta bruteza quasi, cínica de nosso tempo illuminado, em que se não sabe ler! A propria Liberdade lucraria, porque os seus nervos e verdadeiros espiritos vitaes não são outros senão as virtudes e as bondades: ¿e quem como as mulheres, nos poderia ainda attrair da praça onde se briga, odêa e persegue, para a casa onde se quer bem e se folga, para a cosa onde até á ultima velhice nos educâmos, para a casa onde de bondades e virtudes nos dão ellas a todos os momentos exemplos vivos e formosissimos? _Tellus, et domus, et placens uxor!_ Oh se eu podesse mostrar este meu pensamento, como me está florejando na alma! dizer com palavras a mulher como a sei no meu coração!... mas feminina he a mão com que escrevo, ¿como dezenharia ella o seu retrato?
_Pag. 261._
FIM DA FESTA DE MAIO.
Se o fim de qualquer obra he a sua coroa, custará a achar obra tão mal coroada como esta _Primavera_. Dos quatro Poemas he a _Festa de Maio_ o ínfimo, não contribuindo pouco para isso o seu estirado comprimento: e da _Festa de Maio_ a ínfima parte he sem nenhuma dúvida a segunda e última. Boa e mui fertil era a idea primitiva, na qual, mas só na qual, mui casualmente me encontrára com o allemão Gerstenberg no dithirambo que traz titulo _Chipre_. Desenvolveo elle a sua, pôsto que em prosa, como poeta mui valente: derramei eu, e enfraqueci a minha em pobrissimos versos (era tempo que na maior parte dos dias compunha trezentos e mais) que bem podérão, sem detrimento de pensamentos, ser reduzidos ao terço do seu numero. Ja poderei parecer importuno com tanto repetir confissão das minhas faltas; mas antes isso, do que se diga que eu as córo ou tapo, ou com tantos annos ainda não caí em as conhecer cabalmente. Quem a este meu cortar pelas proprias roupas chamasse affétação, muito se enganára comigo: censuro-me, não para atalhar alhêas censuras; menos para provocar defezas aos que sempre folgão, quer em bem quer em mal, de encontrar as opiniões dos que escrevem; mas censuro-me e em todas minhas couzas marco seu preço, para que os agora principiantes lá ao deante se não queixem de mim, como eu podéra agora queixar-me de outros, com cujos livros me criei. Consciencia e Verdade, ainda em mesquinhas letras, devem de ser escrupulosamente servidas: tem uma e outra alguma couza de tão divinas, que por mais dolorosos sacrificios que de nós lhes façamos, no-los pagão com íntima satisfação. Certo he que fazendo o que eu faço, se corre perigo de vir a um grande dissabor, como he, depois de sinceramente confessados os defeitos, saírem os nescios na arte de criticar, e que nunca uma só linha escrevêrão, aproveitarem-se cobardemente de taes revelações, vozea-las como descobrimentos seus, e vingando-se de sua propria esterilidade, triunfar miseravelmente dos descuidos, sem nenhuma menção das boas partes. Ja isso por mim passou depois que dissertei ácerca da invenção da _Noite do Castello_. Onde tal se escreveo, quem o escreveo, e como o escreveo não o direi, que não quero em livros meus andar carreando dementes para a posteridade, se he que meus livros tem de la chegar, como cá chegárão alguns bem ruins dos tempos atraz. E a final, que valem semelhantes pregoẽs e taes pregoeiros, comparados com as suas duas maiores inimigas que são a verdade e a consciencia? podéra accrescentar a vergonha. Em meu conceito nada. Por tanto sigão elles por seu caminho, onde se afogão em lodo, e todos lhes cospem na face; e eu, que nem sequer os tenho em assaz de conta para os odiar, continue o dar documentos do unico merito de que me prézo, que he a candura. Para dar culto á Verdade e á Consciencia, não sacrificarei alhêas famas, que me não pertencem, mas pela minha rasgarei afoito: far-lhes-hei de meu sujeito intellétual, o que de seus corpos diz Fernão Mendes que fazião la em Tinagoogoo certos penitentes, que em procissões públicas se hião espedaçando ante os carros triunfaes dos seus idolos, e por fim se arremessavão por deante das rodas, para serem talhados e esmagados: _a que toda a gente_, como refere o bom perigrino, _com uma grande grita dezia: pachiloo a furão; que quer dizer: a minha alma com a tua. E decendo logo de cima do carro um sacerdote ... se chegava áquelles bemaventurados ou malaventurados ... e ajuntando os pedaços e as cabeças ... os mostravão ao povo de cima do mais alto sobrado do carro onde hia o idolo, dezendo n’um tom muito sentido:_ “_Rogai peccadores todos a Deos, que vos faça dignos de serdes santos como este que agora morreo em sacrificio de cheiro suave._”
FIM.
MAIS PRIMAVERA.
ADVERTENCIA.
Os trez seguintes Artigos vem, _mutatis mutandis_, trasladados da _Guarda Avançada_, Jornal campeão da CARTA e da RAINHA, como todos os d’esse tempo, sem excétuar um unico; Jornal exagerado, e muitas vezes injusto sem querer, como o serão sempre os redigidos por almas novas e ardentes, sinceras e poeticas, inexpertas e temerarias, que presumem que uma revolução póde realizar os filantrópicos sonhos de um solitario; Jornal emfim de que eu fui collaborador, quando vivia para a política, ainda que não da política, e do qual perante minha consciencia me recordo com pezar mas sem peijo, porque talvez fez males e grandes males, não aspirando senão ao bem. Tanto he verdade, que só a moderação he capaz de dar frutos abençoados! Relêa-se o meu Prologo do _Tributo Portuguez_. Aqui não quero accrescentar mais nada sobre materias, sim importantissimas, mas que eu ja dou todas por um malmequerzinho dos campos. — Sáem pois os Artigos substancialmente os mesmos. Pena será, se passado agora tanto tempo depois de escritos, os que por la estão espectadores das couzas públicas os acharem muito mais applicaveis aos presentes dias; e ainda maior lástima, se para o deante não vierem a perder boa parte de sua verdade.
Remato com o louvor, que no Prologo deixei promettido, de meu mestre e amigo o Snr. Antonio Ribeiro dos Santos: fragmento copiado do _Num. 2_ do _Jornal dos Amigos das Letras_. Se a alguem parecer que não cáe este sob o titulo de _Primavera_, paciencia; recebão-no como Nota, agazalhem-no como filho de gratidão. Para mim recende elle muita primavera de puericia, e de um jardim das Musas.
MARÇO
(PRINCÍPIO DA PRIMAVERA)
Eis aqui os primeiros dias da graciosa estação. Das flores lhe chamárão os poetas; melhor podérão chamar-lhe flor do anno. A terra, como viuva ainda verde que se enfeita para novas bodas, a terra pelo sol repassada de amorosa quentura, vendo-o volver a afaga-la, depois de lhe haver por tanto tempo fugido, arrêa-se de todas suas galas, esperançosa sorrí por entre a sua grinalda florída, embebe-se em perfumes, acerca-se de musicas voluptuosas, e suspira brandamente dentro nos arvoredos recem vestidos, nos valles alcatifados, pelas margens dos rios outra vez serenos. Com razão foi a Primavera consagrada dos antigos ás Musas e Graças: com razão se escolhião as suas vésperas para o Pontifice Maximo accender o novo fogo, que devia durar todo o anno: com razão os pais de nossa lingua derão a esta parte do anno um nome feminino, e os pintores apparencias de formosa moça; emquanto Estio, Outono e Inverno pela aspereza, pela fôrça, pela gravidade, pertencião a outro sexo. Cada fonte se aliza em um espelho; cada pedra se veste em assento aveludado; cada haste nua se desaperta n’um ramalhete: tornão-se os bosques outras tantas republicas populosas, cujos cidadãos, livres como as virações, voão, cantão, brincão, acaricião-se, desposão-se, educão a sua prole bafejada do ceo, e parecem não respirar senão o prazer da independencia, da ternura e da melodia. A natureza revoca á vida innumeraveis especies de animaes de que o Inverno só continha o germen; ás outras infunde, como aos passaros, um contentamento, uma ligeireza, uma attráção, que o Inverno lhes havia roubado ou amortecido. Do ceo chove fecundidade sôbre tudo que he vivo; e tudo o que he vivo sáe trajado de festa, e por toda a parte encontra mesa que Deos lhe assoalha, carregada de sua abundancia com luxo, magnificencia e formusura.
A humana especie não podia em tão geral favor ser esquecida, antes foi o seu quinhão de todos o mais largo. O amor, que para nós não tem uma estação exclusiva, n’esta entretanto se nos desenvolve com recrescida atividade: he porque o proprio ar, empregnado de elementos vitaes, nos está coando aos peitos uma extraordinaria energia: he porque tudo em de redor exemplos são que nos cativão: he porque o alvoroço e festa do universo convidão o coração a gozar: he porque ao florir da rosa dos jardins, muita e muita rosa esmorecida se reanima nas faces da belleza: he porque a voz da mulher então sáe, não sei como, ainda mais doce; e tanto ellas mesmas sem o saber o sentem, que em toda a parte em que as horas e circunstancias do seu canto não andão assentadas nas tarifas da moda, insensivelmente se achão a cantar, e este novo attrátivo parece n’ellas uma necessidade, como he nas aves da primavera. Dir-se-hia que a natureza nos manda as flores nos dias em que o amor nos instiga a offerecê-las.
Mas os feitiços da Primavera não se limitão nos da recreação e amor. Um medico vos dirá que he ella a estação da saude; um sabio a do vigor mental; um navegante a do princípio de confiança nos seus mares: o artífice a saúda como a que abre a porta a longos dias; o pastor como a mãi da abundancia; o agrícola vê as esperanças do anno desparzidas por suas terras, por suas vinhas, por seus pomares. Ah! só os homens das cidades, tristemente condenados á fadiga e ao luxo, quasi não encontrão a primavera no seu anno! Para esses reduz-se a mais algumas horas de luz, e a uma pouca mais serenidade em um ceo sem horizontes. Se ao menos se podesse esta serenidade reflétir nas nossas almas!... mas os redemoinhos das novidades, os raios das intrigas ambiciosas, o frio do desalento e carregadas nuvens ao longe esterilizão tudo, e se uma ou outra flor de esperança nos desabrocha a medo, lá está logo a reflexão, filha do conhecimento dos homens, que a faz com um sôpro desapparecer. O anno dos nossos destinos teve um inverno bem longo e rigoroso: n’elle sulcámos a terra para semear liberdade e ventura, adubámo-la com o nosso sangue e corpos de nossos irmãos, regámo-la com o nosso suor e lágrimas; e agora que nós e nossos filhos esperavamos ao menos a florescencia que nos augurasse frutos para o futuro, a Deos approuve de outro modo, e uma torrente de iniquidades, que não quer parar, continúa a assolar a terra de nossos avós.
ABRIL
Este mez, assim chamado por abrir o seio da terra á fecundidade; consagrado desde a infancia de Roma á Deoza da formosura, á Mãi das Graças, Amores, e Jogos, he o primeiro que ouza, por debaixo ainda das últimas nuvens chuvosas do inverno, sair e folgar com seu manto verde, e bordado de flores. O dia da sua entrada era para os nossos antepassados uma festa popular, menos estrepitosa que o Carnaval, de que parecia imitação, mas tambem mais innocente e serena. Ignoro se esse costume o herdárão elles de nações mais antigas, com quanto dos Romanos o não houvessem, de quem tantos outros lhes vierão. Tão pouco me recordo de haver lido alguma origem historica aos brinquedos rituaes do primeiro de Abril; mas sabido he que elles existírão em nossa terra, e inda hoje se lhes conservão os restos, mormente pelas Provincias. O dinheiro pregado nas ruas, as cartas, e prezentes de lôgro, a pedra que chamavão das agulhas, a fôrca de Judas, e outras quejandas bagatelas para rir, estão entretendo n’esta hora bastantes dos nossos aldeões do norte.
As lembranças velhas tem para mim muito grande saudade, e doçura; doe-me o coração quando vejo ir-se perdendo estas seculares tradições que a ninguem fazião mal, ainda que nascidas em berço de superstição, e que de bom tinhão o transportar-nos a tempos sabidos, e remotos, ou a tempos mais remotos ainda, e ignorados. E que he o que as apaga, e fica em seu lugar? odios, pobreza, e desgraças. Oh! aonde estará um poeta amigo dos serões e da innocencia, que se apresse em nos escrever os Fastos do nosso bom Portugal? No meio da confusão desconsolada do presente, nós beijariamos essa obra como santa reliquia em terra de infieis: veriamos um iris vão mas brilhante, entre nuvens de tormenta. Para excitar algum bom engenho a no-lo dar, he que eu coméço, e continuarei sempre a recordar nos seus dias proprios as nossas antiguãlhas: o que farei com muita avidez, porque d’aqui a alguns annos, o investiga-las será ja tarde. Assim os pintores Italianos se deleitão copiando os restos amortecidos das pinturas a fresco que sobre-vivem ao grande Imperio, e os antiquarios trasladão avidamente os enrolados livros das cidades soterradas, antes que de todo se desfação em pó.
MAIO.
He a apparição d’este mez uma festa da natureza, em que sempre os homens se alegrárão: quizeramos poder tributar-lhe algumas flores pelas tantas que nos elle concede. Não teçamos o seu encomio d’aquillo que sendo sensivel a todos não carece de ser descrito. Zéfiros e rosas, rolas e rouxinoes, abelhas e borboletas, a terra toda verde, o ceo todo azul, as noites começando a fugir como envergonhadas de esconder as alegrias da natureza, objétos são que ainda que desde a origem do mundo se apresentem sempre novos, já se tornárão lugares communs nas descrições da poesia. Voltemo-nos para as recordações; embalemos e adormeçamos com ellas por um pouco o espirito martirisado dos absurdos e crueldades d’estes máos tempos, em que ja se não crião fabulas risonhas e innocentes, coloridas pela imaginação, animadas pelo amor.
Forão os homens antigos os que idolatras da concordia, para melhor a insinuarem á terra, collocárão nos astros a sua imagem brilhante, e ao signo de Maio chamarão o signo dos Gémeos. Elles forão os que sensiveis aos encantos das Artes, consagrarão este mez a um Deos, que vivificando a natureza pela luz e calor, presidia com a Lira na mão aos prestigiosos artificios que a embellezão. Almas petrificadas ha ahi, para quem estas saudades do mundo antigo são frivolas, comparadas com um artigo de gazeta; para nós he delicioso andar mergulhando pelo oceano dos seculos, e não voltar a assentar-nos na nossa Ilhota escabrosa e esteril, senão carregados dos coraes, das pérolas, das riquezas formosissimas, que se cá não produzem. O fundador de Roma dedicou aos mancebos (_Juvenes_) o mez de Junho; era essa a idade que lhe fazia ganhar vitorias, mas ja primeiro havia consagrado o Maio aos velhos (_Majores_), porque feroz como era, Romulo experimentava o afféto que nos attráe para com o antigo. Passemos por alto Festas misteriosas da Deoza Bona, celebradas pelas Romanas no primeiro de Maio, em todo o segredo dos Penates e sem testemunha de varão; visitas das Vestaes ao Pontifice Maximo e principaes Magistrados da Republica; contemplemos a expiação dos Lémures, pois que usos nossos me parecem ter d’ahi recebido origem.
Á meia noite levantava-se o pai de familias, hia-se descalço, calado, e chêo de terror santo, á fonte, dando por todo o caminho amiudados estalos com os dedos para afugentar os genios máos. Lavava trez vezes as mãos, e tornando-se para casa, vinha atirando uma a uma, por cima da cabeça e para traz de si, favas negras, de que trazia chêa a boca, e articulando taes palavras—_com estas favas me resgato a mim e aos meus_:—o que por nove vezes repetia, sem olhar para traz, para não espantar o espétro que vinha apanhando as favas negras. Tomava agua por uma ou duas vezes, batia n’um vaso de bronze, e para conjurar a sombra a lhe largar a casa, por nove vezes repetia—_Sahi, ó manes paternos_.—Eis provavelmente d’onde provierão estes sustos vagos que ainda se dão a sentir aos homens rusticos no princípio de Maio; este uso de se repartirem e comerem castanhas seccas para evitar que o Maio se apodere de nós. A imaginação do bom povo perdeo de vista essas larvas, mas o medo que ellas produzírão lhe ficou: he uma especie de moeda, que safada como está de passar de mãos em mãos, ainda conserva a sua valia.
Outros costumes de Maio tem o nosso Portugal, a que folgáramos que alguem escavasse e descobrisse a raiz, sendo certo que na historia a devem ter. O Maio pequenino, que seguido de todas as crianças do bairro, corre enfeitado de flores, as ruas da cidade, ao som de um cantar antigo e uniforme; aquellas mimosas Maias tão arraiadas e donosas, que á orla dos caminhos se encontrão comprimentando os passageiros; aquell’outro estilo, ja talvez hoje passado, de se deitarem n’um mesmo leito um casal de creanças innocentes, para se lhes cantar em roda um como epithalamio, ou trova de suas bodas; os descantes amorosos dados com a viola n’esta occasião pelos aldeões ás suas escolhidas; não provirá tudo isto de alguma ja perdida lembrança de cultos da Deoza Maia? E a usança de ornar com flores Maias as portas e interior das casas, não será reflexo distante dos festejos Romanos á Deoza Bona?
A religião, que para si tomou ornato de tantas joias ao Paganismo, não se desdenhou tambem de perfilhar este mez. Em muitas freguezias, pelas nossas provincias do norte, o bom Parocho vai benzer no princípio de Maio a bandeja de rosas que entre os devotos se distribuem e se commungão, porque esta flor abençoada traz felicidade.—Vem depois aquellas tão esperançosas, tão cantadas e tão sabidas Ladainhas de Maio.—Hoje os camponezes de França vão plantar o seu Maio á porta das pessoas honradas da sua freguezia: os Inglezes renovão de certo modo as antigas _Vigilias de Venus_: os Gregos, como se os seus poetas d’outro tempo os inspirassem ainda, e a era das Elegias tornasse a reviver, vão descantar amores e pendurar grinaldas aos umbraes das suas inclinações: e os moradores de Roma, segundo nos foi dito por quem lá foi a essa terra de saudades, ainda agora se reunem na fonte de Egeria a respirar as delicias da natureza, debaixo d’aquelle ceo de tanto amor, que não a pensar em Numa e na grandeza antiga dos Romanos, de que a elles só veio em herança a terra coberta de muitas ruinas.
¿Para que servem todas estas memorias, nos estão perguntando os insaciaveis de Politica? e nós não lhes sabemos responder senão que a nós estes pensamentos nos fazem muito bem, e que aos amigos de passatempos innocentes se não ha de prohibir o que a ninguem faz mal. Deixai-nos ser algum dia do anno semi-pagãos. São as superstições da Politica ambiciosa as que empecem á felicidade, mas estes graciosos prejuisos de nossos pais a nenhuma couza do mundo danão. E de mais, se havemos de dizer toda a verdade, a fé, que a estes pobres erros acompanha, costuma trazer comsigo muita piedade religiosa, e n’ella alguma doçura moral, que nem sempre vai por onde vai a desenganada Filosofia. Ditoso d’aquelle engenho que podesse trazer outra vez ao mundo a innocencia que nos lá ficou no paiz das fabulas! mas interromper um sonho de poesia quando se julga que a felicidade vem apoz os nossos passos, voltarmo-nos, como Orfeo, para a abraçar, e vermo-la fugir e desapparecer n’um ai, e um mundo de realidades dolorosas estender-se immenso deante de nós, oh! isto he muito triste!
_ÁCERCA DA PESSOA DO Sr. Antonio Ribeiro dos Santos._
Pôsto que o escrever de Varão tão conhecido dentro e fóra d’este Reino, qual foi o Sr. Antonio Ribeiro dos Santos, já possa a muitos parecer escusado, o deixar de o fazer, mais que seja por alto, nem a opportunidade da occasião mo consente, nem menos mo consentiria o gôsto, que sempre do refrescar essas memorias me resulta; por quanto na primavera de minha vida, e primeira manhã de minha poesia, foi que a boa de minha fortuna me deu conhecer este Nestor de nossa Literatura, que já então, ao cabo da sua longa e proveitosa carreira, ornado de muitos méritos de sciencias e virtudes, respeitado e apontado de longe, pouzava sereno e magestoso, aguardando pela sua hora, á beira da eternidade.
Que fosse nascido nas terras do Douro, d’onde lhe prouve tomar nome de Elpino Duriense; que fizesse com bons mestres seus estudos; que se tornasse, lendo na Universidade de Coimbra, um de seus mais lustrosos luminares; que na Igreja e no Estado occupasse mui subidos empregos; que fosse o amigo e centro de quantos bons engenhos em seu tempo florecerão, não faltará quem o escreva entre seus outros muitos louvores. Tão pouco me deterei dispartindo entre a Jurisprudencia, a Historia, as Antiguidades, a Literatura, e a Poesia o opulentissimo cathalogo de suas Obras, cuja maxima, e por ventura optima parte, ainda até agora não viu a luz. Não hão de ser mãos tão debeis como as minhas as que revolvão tamanhos trofeos, nem em tão pequeno espaço como este coubéra retratar completo Homem que abrangeu duas idades, bem fazendo-lhes mutuamente a uma pela outra; anticipando em meio do seculo passado o gôsto, o apuro, a filosofia d’este nosso; transplantando para o presente o estudo, a boa fé, o saber do passado; e legando ao futuro thesouros que andou desencantando das antiguidades remotissimas. Menos arremessados são meus dezejos, e mais seguros, que só quero levar meus leitores a com este bom velho encetarem conhecimento.
Corre a primavera do anno de 1814 ou 15, que eu certo o não sei. A morada de Elpino, que em um dos mais desafrontados altos de Lisboa está formosamente situada, longe do bolicio, como bem cabia á sua indole pacifica e genio estudioso, he um templo de Musas, religiosamente vedado aos olhos e vozes de profanos, isto he dos máos e ignorantes, unicos de todos os entes para quem sua porta e animo não erão hospedeiros. Por aquellas salas, gravemente ataviadas á laia dos nossos antigos, de sedas e arrazes, alcatifas, tremós, espaldares e soberbos quadros dos mais perigrinos pintores, reina o silencio, e uma lembrança dos antigos e abundosos tempos de nossos avós, que tanto conforma com os nobres e portuguezes pensamentos de suas poesias, as quaes se raras vezes voão sublimes, nunca, nem por sombras, desmentem da boa moral e sã filosofia. Aqui o bom Elpino nos recebe cordialmente, a meus irmãos e a mim; os filhos do seu amigo são seus amigos, os estudiosos das Musas portuguezas e romanas são os seus amores. O ancião, que ainda entre sabios podéra ser ouvido como oraculo, remoça-se conversando com meninos, apouca-se para que o melhor comprehendão, orna-lhes a moral e o estudo com quantas flores sabe; do centro da gloria lhes ensina por onde se abre o caminho que para lá conduz; e pelo grande espirito e persuasão com que falla, talvez consegue crear algumas vehementes vocações literarias. Outras vezes nos convida para a bibliotheca, suas delicias, e nos acompanha com a alegria na boca. Os seus olhos, como que ao fim de tanto lêr ja quizessem descançar para sempre, não lhe alumião o caminho; e semilhante áquelle grande Bardo Ossian, a quem velho e cego, piedosa conduzia a moça Malvina para os logares usados de sua inspiração, no hombro de uma menina, sua afilhada e leitora, segurava o bom de Elpino uma das mãos, emquanto com a outra arrimada a um bordão, palpava o caminho, e se ajudava em seu quebrado andar.
Era a bibliotheca o íntimo retiro d’este ermitão do Parnaso, fugida para longe das casas, pôsto que tão quietas, e frescamente assentada em meio de muitas sombras, verduras e aromas de seu jardim, hortas e pomares. Grandissima cópia de livros, longamente procurados e custosamente juntos, e entre os quaes se estremavão no numero e riqueza os Gregos, os Romanos, e os antigos Portuguezes, alí estavão juntos, entre o susurro estudioso das ramas e os cantares descuidosos dos passaros. Um Apollo de marmore com a sua lira em punho, parecia estar-se mui bem cabido e contente no meio d’aquelle seu alcaçar, cercado de tantos seus cultores, servido por tão venerando Sacerdote. Lembranças são estas que trago colhidas de minha infancia, e que transplanto para aqui, por não querer que se percão.
Áquelle Homem, n’aquellas tardes, e debaixo d’aquelle této, devo a grande veneração que ainda hoje consagro aos meus livros latinos, não poucos dos quaes mos deu elle proprio; e tocados de suas mãos poeticas, me inspirão ainda agora poesia e virtude, até cerrados, e n’elles confio que me hajão de servir de pranchas, com que n’este pélago de freneticas e descompostas innovações, me não deixe, como tantos que mais valião do que eu, totalmente sossobrar. Nos seus ouvidos indulgentes lançava não só as primicias dos meus versos, mas ainda as traças e esperanças de obras que borbulhavão de uma seiba virgem de quatorze annos. Escutava elle tudo com desvellada benevolencia, umas vezes apontando-me melhores caminhos ou mais faceis, outras desviando-me de commettimentos maiores que meus annos e forças; agora revelando-me regras, logo insinuando-mas com exemplos, com que sempre fiel e muito a ponto lhe acudia a memoria. Não he verdade que ha em tudo isto um não sei que, por onde o que o pratíca não póde menos ser de um grande homem? Oxalá meus esforços melhor houvessem respondido a suas diligencias, ou me não houvesse elle desamparado no começo da carreira, para a qual apenas me aparelhou! Sim, porque embora me hajão a vaidade, a gratidão péde que eu publique, foi este Pontifice das Musas que me iniciou no seu culto, e no seu paternal enthusiasmo me disse—Tu serás poeta.—Scena digna de um pincel eloquente: um ancião coroado de louros, e cego como Homero, sagrando ao culto da mais bella das Artes, um menino cego como elle!
NOTAS
[1] Alguma vez publicarei o que acerca d’isto disputamos por Cartas, de Lisboa para Coimbra, o Padre José Agostinho de Macedo e eu. Negava aquelle escriptor, de incontrastavel talento, que a Poesia Allemã e Suissa mais fosse do que a nossa rica em graças naturaes, e amena frescura, antes affirmava que a nossa a excedia grandemente. Ou não escrevia elle deveras, ou se convenceo do erro, como será de ver das Cartas, quando ellas aparecerem. O motivo porque até hoje as tenho dos publicos olhos resguardadas, outro não foi senão recêo de que se me attribuisse a vãgloria a publicação de uma disputa em que tamanho sujeito me cedeo, principalmente sendo notorio que o favor que em seus escritos deu ás minhas primeiras tentativas poeticas e infantis, jamais o denegou com o andar do tempo, antes o reforçou com mui graciosos louvores.
[2] Conceder-lha-heis, se ja não tiverdes determinado emprega-la em outro uso, ou fundar nesse sitio alguma caza de Commissão que nada faça, ou algum quartel de guarda que legisle sobre os destinos publicos.
[3] O Livro _Le mie Prigione_, quanto á utilidade prática leva, me parece, a palma á _Imitação_ de Kempis. Em Kempis apparece a descrição da caridade e piedade, em Silvio a applicação d’ellas aos successos da vida. Kempis aconselha, Silvio ensina a perdoar, a amar, e a ser feliz, em despeito da fortuna: dá o exemplo d’isso, he elle proprio o exemplo.
[4] Quem bem reparar na justiça rigorosa (de cruel a taxaráõ alguns) com que eu proprio trato a minha Musa, perdoar-me-ha quando por amor ás nossas letras, aponto um defeito em meu mestre e amigo o Snr. Antonio Ribeiro dos Santos. Inda assim, porque me não fique remordendo a consciencia, como expiação, e mui suave, porei no fim do volume um penhor do meu respeito e grato animo a tão grande varão; capitulo ja impresso no _Jornal dos Amigos das Letras_, mas por isso mesmo apenas conhecido.
[5] Meu irmão Augusto Frederico de Castilho.
[6] Meu irmão Adriano Ernesto de Castilho.
[7] As Senhoras Mellos, a quem pertence a Lapa e a Quinta das Canas.
[8] Na _Primavera_ de meu Irmão Augusto Frederico de Castilho ha um lugar parallelo, não quanto á expressão, mas quanto ao pensamento principal. Releva porem que em duas couzas se advirta: a uma, que nenhum de nós foi plagiario, nem o podiamos ser, porque todos compunhamos em segredo; a outra, que o passo do poema, em que elle descreve Nize a figurar de Primavera, leva grande vantagem de valia a estes versos!
[9] Augusto Frederico de Castilho.
[10] O meu amigo Jose Vitorino Freire Cardozo da Fonseca (_Etmiro_) tinha começado em uma sua quinta na Beira um jardim, tal como o descrevo aos seguintes versos, e que pretendia consagrar á minha memoria. Mal haja aquelle, a quem semelhante penhor de amizade não enternece!
[11] Veja-se a Quarta Edição do Diccionario chamado de Moraes.
[12] Lamartine no Prologo de _Jocelyn_
[13] Em Maio se poem o ponto aos Estudos da Universidade, que eu n’aquelles tempos cursava. Só os que por ahi tem passado, podem entender o alvoroço com que he recebido.
[14] Antigo nome da Serra de Estrella d’onde nasce o Mondego.
[15] Por esta occazião me importa fazer um annuncio ao Publico. Ei-lo: declaro que se esse Jornal inexperadamente acabou, não foi minha a culpa, assim como de nenhum dos sócios, mas somente dos acontecimentos, assim publicos como privados da Sociedade: com elle nunca tive outras algumas relações senão as onerosas e de trabalho, que eu tomava comtudo com muito gôsto. Todos os sócios o sabem, mas interessa-me que o saiba toda a gente, para me salvar de quaesquer desasizadas reclamações.
[16] Em podendo ser, publicarei um volume de poesias, que lá compuz acerca d’aquella bemaventurada solidão, onde annos vivi ignorado e contente, na residencia de meu Irmão Augusto Frederico.
[17] Tudo isto, que eu julgava para sempre meu, passou! Aprouve a Deos mostrar-me só de relance a felicidade! Pouco mais de dois annos a illustre e digna sobrinha de Nicolau Tolentino de Almeida, a Senhora D. Maria Izabel de Baenna Coimbra Portugal, se sacrificou toda a felicitar-me: o Pai de todo o amor e de toda a virtude a chamou logo para o seu seio: era aquelle um Anjo que faltava no ceo. Esta Nota ao poema, vai como se achava feita quando ella ja me não escrevia, senão a espaços, mas ainda se comprazia de me ouvir dictar. Quando o seu fim era ja inevitavel, todos o sabião e talvez ella mesma, e eu contava ainda com largos annos de fortuna. O mesmo advirto quanto ás mais Notas e accrescentamentos d’este Livro, que tudo estava pronto (faltando só algumas poucas notas que não fiz nem ja farei) antes do fatal dia um de Fevereiro passado: dois se imprimio erradamente no Post Scriptum do Prologo. Se outrem não tivesse conservado essa data, e me não advertisse da inexatidão em que mal informado caí, ainda agora a podéra eu ignorar: esse dia, as vesperas e os seguintes não tiverão para mim nenhuma ráia nem de luz, nem do sôno, nem de alguma outra das couzas que estremão os dias.—_12 de Maio de 1837._
INDEX.
Pag.
Ante-Prologo 5
Prologo 25
_Post-Scriptum_ 47
Epistola á Primavera 49
Dedicatoria a minha Irmã 51
Duas Palavras de Introdução 53
Epistola 57
O Dia da Primavera Poemetto 75
Dedicatoria a minha Mãi 77
Historia da Festa da Primavera 79
O Dia da Primavera Canto I _A Manhã_ 95
O Dia da Primavera Canto II _A Tarde_ 111
Notas ao Poemetto antecedente 131
Nota 1.ª (_Elmano e Filinto—versificação esdruxola e aguda_ &c.) 131
Nota 2.ª de Augusto Frederico de Castilho 162
Os Cantos de Abril Idillio 167
Dedicatoria a meu Pai 169
Advertencia 171
Os Cantos de Abril 173
Nota ao Idillio (_Excerpto de alguns versos da primeira Edição do Idillio, rejeitados n’esta segunda_) 186
A Festa de Maio Poemetto 189
Dedicatoria ás Senhoras da Lapa dos Esteios 191
Historia da Festa de Maio 193
A Festa de Maio Canto I 199
—— Canto II 225
Notas á Festa de Maio 263
Nota 1.ª (_Com a tradução para latim dos amores de Galatea no Cant. 1 da Festa de Maio_) 263
Nota 2.ª (_Piedade para com os animaes—alimento animal_ &c.) 269
Nota 3.ª (_Em desaggravo das mulheres_) 291
Nota 4.ª (_Sôbre o 2.º Canto da Festa de Maio_) 305
Mais Primavera 309
Advertencia 311
Março (_Princípio da Primavera_) 313
Abril 317
Maio 319
Ácerca da Pessoa do Sr. Antonio Ribeiro dos Santos 324
FIM
Lista de Assignantes.
S. M. F. A RAINHA D. MARIA II. S. M. I. A DUQUEZA DE BRAGANÇA. S. A. R. O PRINCIPE D. FERNANDO AUGUSTO.
A. A. A. Moreira. Ab. M.ᵃ J. Paiva Manso. Abrahão Weelhause. A. Carneiro. Achilles de Pereira. A. Eustaquio da Silva. Ag.ᵗᵒ de Castro da Gama Lobo. —— José Pereira. —— Roïz da F. Soares. A. J. R. Leitão. Albino F. de Figueiredo. Conselh.ᵒ Alexandre Alb. de Serpa Pinto. _4 Ex._ Alexandre Lahmeyer. D. Alvaro. Amaro Coutinho Pereira. Anacleto José da Silva. André Joaquim Ramalho. —— Perez. A. Neves de Sequeira. Angelo Augusto Martins. D. Anna C. Guimarães. —— Ifig. do Valle de S. e Menezes. —— Lucinda Mont.ʳᵒ —— Ludovina. —— Margar.ᵈᵃ Fructuoso de Ar.ᵒ —— Victoria da Rocha Torres. Anonimo. _2 Exempl._ Anselmo J.ᵉ Braamcamp. Ant.ᵒ Adolfo Ferr.ᵃ Sarmento. _15 Exempl._ —— Adriano da Mata P.ᵗᵃ —— Ag.ᵒ Per.ᵃ Lacerda. —— Alves Souto. —— Aluisio Jervis d’Atouguia. —— Augusto Gonsalves. —— B. de Brito e Cunha. —— Cardoso e Silva. —— C. da Costa e Sousa. —— Coelho Bragante. —— da Costa Paiva. 130 _Exempl._ —— Dias d’Azevedo. —— —— Monteiro. —— —— Rodão. —— Diniz Couto Valente —— Ezequiel d’Aguiar. —— F. Mag.ᵃᵉˢ Coutᵒ —— F. Mendonça Arraes. —— Frz. Alves Fortuna. —— Florencio Reixa. —— Fr. Alv. Guimarães. —— Freire Castello Br.ᶜᵒ —— de Freitas. —— Gaud. S.ᵃ Monteiro. —— G. Barreto de Pina. —— Gomes Lima. —— Glz. d’Alm.ᵈᵃ Rino. —— Gueifão Bello Per.ᵃ —— Guilherme da Costa. —— Henriques Doria. —— Jacinto Santarem. —— Joaquim de Abreu. —— Cons.ᵒ Antᵒ Joaq.ᵐ da Costa Carv.ᵒ 6 _Ex._ —— Joaq.ᵐ Reis Junior. —— —— da Silva. —— —— Teix.ᵃ S.ᵃ —— J. d’Oliveira Lima. —— José d’Avila. —— J.ᵉ Bot.ᵒ da Cunha. —— —— Ferr.ᵃ de Sousa. —— —— Glz. Basto. —— —— —— Duarte. —— —— de Oliveira. —— J.ᵉ de Oliveira e S.ᵃ —— —— R. Guim.ᵃᵉˢ 3 _Ex._ —— —— de Sá Camello. —— —— da S.ᵃ Milheiros. —— —— de Sousa Martins. —— —— Teixeira Leal. —— —— de Vasc.ᵒˢ 20 _Ex._ —— Leite Pereira Lobo. —— Lopes de C. Alm.ᵈᵃ —— Lour. Coelho. 5 Ex. —— Luiz Nogᵃ e Freitas. —— M.ᵉˡ R. Abranches. —— —— Vargas. —— M.ᵃ d’Almeida e S.ᵃ —— —— de Campos. —— —— Ferreira. —— —— L. M. Queiroz. —— —— Machado. —— —— Thovar Lemos. —— Martins dos Santos. —— de Mello Breyner. —— N. Roïz. Cancella. —— Nunes dos Reis. —— Pedro de Carvalho. —— P. X. O. B. Leite. —— Pereira de Faria. —— Porfirio de Freitas. —— Ramos Azev.ᵒ Maia. —— Rib. Azev.ᵒ Bastos. —— Ribeiro de Faria. —— Sald.ᵃ R. Albuq.ᵉ —— Samp. X. Casqueiro. —— dos Santos Monteiro. —— de Sá Per.ᵃ Samp. —— da Silva Bastos. —— da Silva Leitão. —— S.ᵃ Monteiro. 2 _Ex._ —— Sotero Sz.ᵃ Falcão. —— Thomaz Aquino S.ᵃ —— Vicente de Sousa. —— Vieira de Carvalho. A. P. Ardisson. A. P. B. de Saldanha. A. R. Sealy. Assemblea Lisbonense. —— Portuense. Associação Civilisadora. Augusto. —— Frederico Ferr.ᵃ Dr. Augusto Lavit. 2 _Ex._ Augusto Maria Dermott. —— Victor Sabbo. Aureliano J.ᵉ de Moraes. Ayres Sá Nogueira. 3 _Ex._ —— da Silva Coelho.
Balthesar Lopes do Calheiros e Menezes. Bandeira—Ex-Governador do Castello. 4 _Ex._ Barão d’Argamaça. —— de Ruivoz. Barnabé F. Paula Ataide. Bartholomeu dos Martires. Bento Alão. —— de Almeida. —— G. Brito Taborda. —— Guilherme Klingleofer. 3 _Exempl._ —— J.ᵉ Teixeira Penna. —— de Moura Portugal. —— Pereira. Bernardino J.ᵉ dos Santos. Bernardo José de Miranda. Busch.
Dr. Cabral Teix.ᵃ Moraes. Caet.ᵒ Alberto Orlandi. —— J.ᵉ Alves d’Araujo. —— José M.ᵃ de Sena. —— Xavier Diniz. C. Almeida. Camillo da Silva Ferraz. Candido José Roïz Vieira. Cap.ᵃᵒ Engenheiro Carv.ᵒ Carlos Augusto Poppe. —— Gould. 5 _Exempl._ —— de Sá. —— Vieira da Silva. Carneiro. Castro Almeida. C. F. Altavilla. Christovão M.ᵃ dos Santos. Cipriano A. Rib. Freire. Cipriano Dom. Vianna. C. Lagrange. D. Clara Clorinda Lopes Pereira de Vasconcellos. Clem.ᵉ A. O. M. Alm.ᵈᵃ —— Augusto Bolonha. D. Clementina Adelaide da Silva Monteiro. C. Massa. C. M. Caula. Conde da Cunha. —— de Lumiares. —— de Mello. 6 _Ex._ —— de Villa Real. Condeça de Belmonte D. Jeronima. —— de Mello. 2 _Ex._ —— de Villa Real. Cosme José Dias. 10 _Ex._
Daniel Cesar S.ᵃ Ferraz. —— Sotero Caio dos S.ᵗᵒˢ D. A. R. Varella. David Ubaldo S.ᵃ Leitão. Diogo Ant.ᵒ de Sequeira. —— Aug. C. Constancio. —— P. Mtr.ᵒ Bandeira. Domingo Garcia Peres. Domingos Fr. Santos Lim. —— Monteiro de Albuquerque e Amaral. —— Ribeiro de Faria. —— —— dos S.ᵗᵒˢ Duque da Terceira. Duqueza da Terceira.
C.ᵉˡ E. C. C. F. Furtado. Eduardo Frederico Lour.ᵒ Emilia C. de Figueiredo. D. Emilia Martinini. Epifanio Fr. de Miranda. Ernesto Adolfo de Freitas. —— M. V. Montenegro. —— José Ferreira.
D. Faustina M.ᵃ das Dominações Simões. F. C. de M. Feliciano Alm.ᵈᵃ Vidal. Fernando Affonso Giraldes de Mello e Sampaio. Fernando Theod. Arnaut. F. L. Bettencourt. Figueiredo. 13 _Exempl._ Filippe Folque. Fortunato José Barreiros. —— —— N. M. e Mello. D. Francisca de Noronha. Fran.ᶜᵒ Abrantes. —— Adrião Pereira. —— Affonso da Costa Chaves e Mello. 12 _Ex._ —— Alves Souto. —— —— Alm.ᵈᵃ Reixa. —— Ant.ᵒ de Pinho. —— —— Cerqueira S.ᵃ —— —— F. S.ᵃ Ferrão. —— —— dos Santos. —— de Assis Almeida. —— —— —— Alm.ᵈᵃ C.ᵗᵉ Real. P. Francisco d’Assis Biga. Fran.ᶜᵒ Brito P. Almeida. —— Candido Mend.ᵃ —— de Castro Freire. —— C. Judice Samora. —— da Conc.ᵃᵒ Soares. —— Dias Brandão. —— Eduardo Andrade. —— Fabião de Mend.ᶜᵃ —— Gaspar Lahmeyer. —— Gomes Loureiro. —— Joaq.ᵐ da Cunha Travassos Cast.ᵒ Branco. —— —— da Fonseca. —— —— dos Santos. —— J.ᵉ de Freitas. —— J.ᵉ de Sousa Nunes. —— —— Tavares Junior. —— Luiz de Sousa. —— da Mãi dos Homens Annes de Carvalho. —— M.ᵉˡ C. Pimenta. —— —— de Negreiros. —— M. Silvr.ᵃ Menezes. —— —— de S.ˢᵃ Brandão. —— —— de Maris Coelho. —— M. Walsh. 4 _Ex._ —— Nunes da Silva. —— Paula Costa Feio. —— —— Seg. Lemos. —— —— S.ˢᵃ V. Boas. —— —— V. Campos. —— —— Zuzarte. —— P. Taboada Junior. —— P.ᵗᵒ de Magalhães. —— Raim. d’Andrade. —— da Silva Falcão. —— Vieira S. Barradas. Frederico Aug.ᵗᵒ Martha. Fructuoso Dias Mendes. —— —— de Paiva Card.ᵒ F. Z. Fer.ᵃ d’Ar.ᵒ 5 _Ex._
Dr. G. Centazzi. Gabriel Fran.ᶜᵒ Ribeiro. —— Lopes de Lima. G. A. Pereira de Sousa. Gaspar dos Reis e Sousa. —— Schindler. D. Genoveva Victoria da Rocha Farinho. D. Gervasia Joaquina de Sousa Falcão. Greg.ᵒ Mag.ᵃᵉˢ Collaço. Guilherme Ignacio Basto.
H. D. Wems. Henriq. J. Passos Chaves. Hermano Estanisláo Orlandi. H. Hodgson. 10 _Exempl._ H. J. Moser. H. O. Maya. 2 _Exempl._ Honorio Ces. Mendonça.
Ignacio Cabral Arez da Silveira Barros. Vice Almirante Ignacio da Costa Quintella. —— José de Sá. —— P. Qt.ᵃ Emaus. D. Ignez Raim. Prado. D. Ildefonso Olheiro. Isidoro H. C. Semmedo. Izidro Costa.
Jacinto de Freitas Oliv.ʳᵃ —— José de Mattos. —— José de Sá Lima. —— de Sousa Falcão. —— —— —— —— 2 _Exempl._ Jacomo Pereira de Carv.ᵒ J. Bento Pereira. J. B. Massa. J. B. S. L. de Almeida Garrett. J. C. Bastos. Jeronimo José da Silva. —— Perᵃ Vasconc.ᵒˢ —— —— da S.ᵃ Cardoso. J. F. Danin. J. F. Passos. J. F. R. S. de Azevedo. J. F. Thomaz. J. G. Toussaint. J. J. A. Redondo. J. J. da C. J. J. J. Loureiro. J. J. Manitti. J. M. Chaves. J. M. F. Dias. J. M. S. Freire. João A. de S.ˢᵃ Queiroga. —— A. Lobo de Moira. —— Anastacio Simões. —— Antonio Biga Nunes. —— —— Colasso da S.ᵃ 2 _Exempl._ —— —— Marques. —— —— Pereira. —— Bap.ᵗᵃ da Costa. —— —— da Cunha Fer.ᵃ —— —— e Mafaos. —— —— Sabo Junior. P.ᵉ João Baptista da S.ᵃ João Bpt.ᵃ S.ᵃ Malafaia. —— Bento da Costa. —— Bonifacio Guimarães. D. João da Camara. João Coelho de Gibraltar. —— —— da Silva. —— Dias X. do Loureiro. —— Ferr.ᵃ Azev.ᵈᵒ Junior. —— —— Camp. 10 _Ex._ —— —— dos S.ᵗᵒˢ S.ᵃ J. P. João Franc.ᵒ B. Lança. João Gomes Roldão. —— —— dos Santos. Dr. João Gonç. Miranda. Dr. João Gonç. M. Robalo. João Guilherme Caldeira. —— Ignacio Curvo. —— Januario V. Rezende. —— José da Assumpção. —— —— Ferr.ᵃ de Sousa. —— —— Freitas Aragão. —— —— Machado Ferr.ᵃ —— Lameira M. V. Lobos. —— Lourenço Ferr.ᵃ Braga. 4 _Exempl._ —— Luiz de Sousa Falcão. —— —— Talone. —— Manoel de Aral. P.ᵉ João Maria Cardeira. João Maria Feijó. D. João Martins Falcão. João da Matta e Silva. —— Mend. A. Barbarino. —— Neves Gomes Eliseu. —— Nogueira Gandra. —— Nunes da Silva. —— Pedro Coelho. —— —— Heitor Alcant.ᵃ —— —— Nol. Cunha. —— Per.ᵃ Queiroz Basto. 20 _Exempl._ —— Silva Fonseca. —— Procopio Tavares. —— Saecadura Botte Corte Real. 2 _Exempl._ —— da Silva Falcão. D. João Silva Pessanha. João da Silva Serrão. —— de Sousa Falcão. —— Vic.ᵗᵉ P.ᵗᵉˡ Mald.ᵈᵒ —— de V.ˡᵃ N.ᵛᵃ de Vasc.ˡᵒˢ Correia de Barros. Joaq.ᵐ Xavier da Maia. —— Ant.ᵒ Aguiar. 5 _Ex._ —— —— Barbosa Torres. —— —— da Costa. —— —— da Fonseca. —— —— Tenreiro. —— —— Vidal da Gama. —— Augusto Burlamaqui Marecos. —— Barreto de Castilho. —— Corrêa Moreira. —— Felix Moreira 6 _Ex._ —— Francisco Danim. —— G.ᵐᵉˢ V.ʳᵃ Gaio. —— José Bernardes. —— —— Costa Macedo. —— —— Costa Portugal. —— —— da Cunha. —— —— Dias Lopes de Vasconcellos. 3 _Exemp._ —— —— Figueira. —— —— Gião. —— —— Lobo. —— —— Marques Cald.ᵃ —— Julio da S.ᵛᵃ Ferraz. Cons.ʳᵒ Joaq. Larcher. Joaq. Lucio Arbues M.ʳᵃ —— das Neves Franco. —— Pedro Abreu Lima. —— Romão Lob.ᵗᵒ Pires. —— da Silva Cordeiro. —— da Silva Machado. —— Torquato Alvares Ribeiro. _6 Exemp._ —— Victor S.ᵃ Gosmão. —— Urbano de Sampaio. D. Joaq.ⁿᵃ Carlota Fons.ᶜᵃ Jorge Oom. José Anastasio Pereira. —— Antonio de Almeida. —— —— de Castro. —— —— Cob.ʳᵒ d’Azevedo Gentil. —— —— Mello Ar.ʲᵒ —— —— da Silveira. —— —— Soares M.ᵈᵉˢ —— d’Ar.ʲᵒ Coutinho V.ⁿᵃ —— —— Machado. —— Aug.ᵗᵒ Correa Leal. —— Bernardino Frazão. —— de Brito. —— Caetano Rebello. —— Candido Alz. Torres Barata Araujo e Lima. —— Carlos Cerveira Val.ᵗᵉ —— —— da Costa P.ʳᵃ —— —— Guimarães. B.ᵉˡ José Cesar da Silveira. José C. M. —— do Coração de Jesus. —— Crispim da Cunha. —— Ricardo P.ʳᵃ Cabral. —— Roïz. da S.ᵃ Vianna. —— dos Santos Nazareth. —— Servulo Costa e S.ᵃˢ —— Silverio da Fonseca. —— Silvestre de Andrade. —— Sousa Falcão Senior. —— —— —— Junior. —— Tello Mag.ᵃᵉˢ Collaço. —— Vaz Araujo Veiga. José Victorino Freire da Fonseca Cardoso. —— —— Zuzarte Coelho da Silveira. Jovencio Pedroso Oliv.ʳᵃ J. Paulo da Silva. J. P. N. X. de L. Brito. J. P. R. G. J. R. Blanco. J. R. Manco. J. R. Pinto.
K. Pinto.
L. A. M. Brandão. L. J. de Gouvea. Leandro Capistrano d’Almeida Figueiredo. Lourenço de Almeida. —— Justiniano Lima. —— M. Telles Mattos. L. T. H. de Brederode. Luciano S. Carv.ᵒ para si e seus amigos 40 _Ex._ Luiza Mathey. Luiz A. Bello Reis Junior. —— Antonio de Freitas. —— B. Ribeiro Vianna. —— Caet.ᵒ Guerra Santos. —— C. Alm.ᵈᵃ Botelho. —— da Costa Pereira. —— —— —— Pinto. —— Joaquim de Sampaio. —— José da Silva. D. Luiz M.ᵃ da Camara. Luiz de Mello Breyner. —— —— —— Corrêa. —— Miguel d’Azevedo. —— O. da Costa.
M.ᵉˡ Alves do Rio Junior. —— Antonio Rodrigues. —— —— Vianna. —— Bento Rodrigues. D. Manoel da Camara. M.ᵉˡ de Castro Pereira. —— —— —— e Silva. —— Coelho Bragante. —— Felix Oliv. Pinheiro. —— Ferreira Borges. —— Francisco Dias. —— —— —— das Neves. —— Gonçalves Pombo. —— I. Cunha Menezes. —— I. Moreira Freire. —— Joaq.ᵐ Cardoso Castello Branco. 2 _Ex._ —— —— Fortes. —— —— Freire. —— —— Moreira. —— —— Pereira Silva. —— —— Santiago. —— José Cordeiro Galão. —— —— Esteves Campos. —— —— da Motta. —— Maria da Rocha. D. M.ᵉˡ M. Sousa Falcão. M.ᵉˡ Per.ᵃ Lima Tavares. —— Ramos. —— Roïz Costa Salgado. —— dos Santos. —— Thomaz S.ˢᵃ Menezes. —— de Vasconcellos. —— Urbano. Marcellino Ant.ᵒ Moraes. D. M.ᵃ B. C. Vilella. —— —— C. S.ˢᵃ Falcão. —— —— Carlota Vidal Gama Lobo. —— —— Carmo Guimarães. —— —— C. Guimarães. —— —— Clara Braamcamp. —— —— F. Paes de Mattos. —— —— H. Sousa Falcão. —— —— José Ozorio. —— —— J. Sanches Brito. —— —— Luiza d’Albuquerque. 2 _Exempl._ —— —— Magdalena Sousa. —— —— Manoel Vidal da Gama Lobo. —— —— M. Silva Falcão. —— —— R. Sousa Falcão Ferreri. —— —— Vicencia de Mello. —— —— Xavier Falcão. D. Margarida Silva Machado Figueiredo. D. Marianna C. Ribeiro. —— —— G. Pereira de Beça. —— —— Noronha. —— —— da Silva Machado Figueiredo. Marquez de Fronteira. —— de Saldanha. M. F. da Costa. Miguel Ferreira da Costa. —— Fran.ᶜᵒ Saldanha. —— João Coelho. —— Joaquim Pires. —— J.ᵉ Okeeffe. 2 _Ex._ —— M.ᵃ Gomes de Andrade e Leiros. M. J. M. Dantas. 2 _Ex._ M. T. H. de Brederode.
N. H. Klingelhoufer. 3 _Exempl._ D. Nicasio Canete y Moral. Nicoláo Maria Nobre. Nicoláo C. P.ᵗᵒ Queiros. —— S. James. Nuno José Gonçalves.
Pedro A. N. Domingues. D. Pedro Cunha Menezes. Pedro Jacome de Calheiros e Menezes. —— José de Oliveira. —— M.ᵃ Costa Almeida. —— Paulo Ferr.ᵃ Sousa. —— —— Vasconcellos. —— P.ᵗᵒ Moraes Sarm.ᵗᵒ Bacharel Pedro dos Santos Freire. Pedro da Silva Ferraz. —— de Sousa Cardoso. P. G. Toussaint. P. M. Lagan. 4 _Exempl._ Prior da Magdalena. —— de Marv.ᵃ de Sant.ᵉᵐ —— do Milagre de Sant.ᵉᵐ
Quintino Teixeira Carv.ᵒ D. Quiteria da Silva Machado Figueiredo.
Rafael Antonio de Brito Pimenta d’Almeida. —— Archanjo de Carv.ᵒ Reis e Irmão. Roberto Wanzeller. Rodrigo de Azevedo Sousa da Camara. —— José Dias Lopes de Vasconcellos. —— Limpo Rav.ᶜᵒ Pereira de Lacerda. Rosa Coelho de Gibraltar. D. Rosa Dioguina Lopes Pereira de Vasconcellos.
Sebastião André Xavier. —— Casqueiro Vieira Gago. —— de Gargamala. —— J. Villaça Gama. —— Xavier Botelho. Servulo M.ᵃ de Carvalho. S. J. de Gouvea. Silencio Christão Barros. Simplicio Moura Mach.ᵈᵒ
Tertuliano Turibio Lobato Pinto Ferreira. D. Ther.ᵃ Hedeviges Leite de Moraes Castilho. —— —— Maria Botelho. —— —— Miquelina Alves de Sousa. —— —— Theodora da Soledade Martins. —— —— Xavier Botelho. Thomaz Aq.ᵒ S.ˢᵃ 2 _Ex._ —— Pinto Saavedra. —— Rufino Monteiro. Thomé A. Frnz. Roxo. Torcato Francisco Carn.ʳᵒ
D. Vasco Guterre Cunha. Vicente Altavilla. —— Pires da Gama. D. Vic.ᵗᵉ Segur. Menezes. Victorino José Gomes. —— Manoel de Oliveira Mascarenhas. Visconde do Porto Covo. 2 _Exempl._ Vital Jorge Maia Canhão.