A Primavera

CANTO II.

Chapter 47,318 wordsPublic domain

D’essa garrafa de cristal doirado Duas taças me enchei. Venha a primeira: Esta se esgote da amizade em honra. Ó divino licor! se o puro nectar, Que Hebes formosa a Jove ministrava, Comtigo competir podesse ao menos, Jove lhe perdoára o seu descuido, Nem dos bosques Ideos arrebatado Ganimedes gentil voára aos Numes.

Dai-me, dai-me a segunda. Em honra agora Do celeste prazer, que nos encende, Este liquido fogo ao peito envio. Graças ás mãos, que á terra afortunada Derão em hora boa éstas videiras! Graças a Baccho, ao protétor, que tanto Desvelo lhes prestou! Graças á turba De alegres raparigas, que levárão Os cachos ao lagar em largos cestos! A vós mancebos rusticos e alegres, Que aos pés calcastes as cheirosas uvas! E a ti, lenho feliz, em cujo seio Os sagrados toneis se transportárão Desde os campos de Chipre aos campos nossos! Do celeste perfume ébrias as Ninfas Te acompanhárão na veloz carreira; Continuamente as velas te enfunárão Com halito propício os frescos ventos, Que lá brincavão pelas ferteis vinhas, Faceis criando, e colorindo as uvas: E o mesmo Baccho (eu não vos minto, amigos: Ah! dai-me a taça, os labios se me seccão); Baccho em pessoa, o vencedor das Indias, Invisivel na pôpa revirava O leme dirétor co’a mão divina. Dai-me á pressa outro copo: outro: mais cinco: Mais um que eu vote a Febo, e nove ás Musas. Sinto o meu coração desfeito em gôsto! Ah! por piedade rodeai-me todos; Quando entre amigos bebo, um só não basta Para me encher atropelados copos. A cada qual de vós uma saude Quero fazer; mais uma a cada Ninfa; Aos Numes todos, que na terra habitão, Aos Numes todos, que dos ceos nos olhão, A todos que no Elisio nos esperão; Farei uma saude a cada vaga, Que desde a Herminea Serra[14] aos mares corre, Álua, a cada estrella, a quanto existe. Do mais vivo prazer me volvo em braços! Rio, e respiro magicas delicias!

Gelos, que em serras coroais as fontes, D’onde as urnas as Náiades inclinão Para mandar-nos de tão longe as aguas, Derretei-vos em subitas correntes: Brami de roda dos Hermineos lagos, Ventos da tempestade; as átras nuvens Reuní, condensai: retumbe ao longe O ronco do trovão pelas florestas, E o monte enorme em seus abismos trema. Todo em chuveiros se desate o polo: E cedo (oh! praza aos ceos!) e cedo o rio Vença o leito, e com impeto revolva Tropel ruidoso de espumosas vagas. Sem poder contrastar-lhe a furia immensa, Perto da margem sem poder ganha-la, No escuro turbilhão de rôjo iremos. Quando a aurora assomar, ja muito longe Nos verá pelo Atlantico engolfados. Do enfeitado batel voltando a prôa Contra as vagas austraes, candidas velas Presentaremos ao ligeiro Boreas. Em dia bonançoso, e mar de rosas Iremos sem temor, chêos de assombro, Gozando entre as equoreas Divindades Scenas de Maio no ceruleo campo. Cedo veremos verdejando e rindo O alto Cabo surgir na extrema ponta Da Lusitana terra: erguendo aos astros A nautica celeuma, alvoraçados. Poremos no occidente o vago leme Para afrontarmos as Titóneas plagas. Entre o Barbaro solo, e o solo Hispano Passaremos cantando o Estreito, aonde As Colunas ergueo famoso Alcides. Pelos ventos Hesperios ajudados, Movendo assombro ás cérulas Nereidas, Cortaremos, voando, em curtos dias, Mediterraneo, tua longa estrada.

Nossos astros serão por entre as ondas O astro de Venus luminoso, e claro, Ariadne, a esposa do contente Bromio, E os Tindáreos Irmãos, cuja concordia, Cuja amizade nos será de exemplo. Eolo prenderá com mil cadêas Euro o nosso contrario: as verdes ondas, Ouvindo de Tritão troar o buzio, Sem furia, sem fragor do barco emtôrno, Chêas por cima de alvejante espuma, Saltaráõ quaes no prado os cordeirinhos. Que, meus amigos! receais procellas? Procellas contra nós! Assáz os Numes Nas almas sabem ler; nós demandâmos Chipre, votada aos candidos prazeres: Do vinho a Deoza, a Deoza dos amores, Os Numes da amizade, eis nossos astros; Que havemos de temer? Não, não me importa Que o ar, que o pégo em furias se revolva: Por entre a serração, por entre a morte, Voaremos a rir de Chipre aos campos, Quaes na barca da Estige um dia iremos Dos lagos avernaes ao grato Elisio.

Não ha que recear. Dai-me outro copo; Outro bebei, e ouvi-me. Amigos fados Da Ilha encantadora ao melhor sítio Nos hão de conduzir: ja cuido vê-la! Um cáes em meia lua, um cáes não grande, Ja nos hospeda na conchosa arêa: Unidas penhas de elegante aspéto O anfitheatro deleitoso fórmão: Todas se vestem de verdura, e flores, Todas tem fria gruta, ou doce fonte. D’estas fontes, que emtôrno enchem os ares De um desigual, suavissimo murmúrio, Umas descem chovendo entre os penedos, Outras em larga enchente se arremeção, Sem o musgo occultar, de rocha em rocha, Té que ás bacias espumosas saltão. Aqui um mirto, alem uma roseira Coroa a entrada das pequenas grutas, Ou lhes fórma seu tôldo, ou quasi as cobre. Por toda a parte melindrosos ninhos Se ouvem piar; por toda a parte adejão Co’o sustento no bico as ternas aves. D’esta folhagem se levanta o melro, E vai pouzar na proxima folhagem: Queixa-se n’uma gruta Filomela Quando Progne sentida eleva o canto. Prezos aos troncos Zéfiros murmurão; Auras, dos valles proximos correndo, Das invisiveis azas nos derramão Almos efluvios de cheirosas flores. Vede assentos, que a mão da Natureza Nos rochedos abrio, que a mão do Tempo Cobrio, amaciou com verde estofo; Aqui se tem as Ninfas assentado Pelas tardes de Maio muitas vezes, Para gozar os brincos dos Amores, Que ora lutão na arêa, ora apostando, Se arrojão de mergulho aos verdes mares, E apparecem depois nadando e rindo.

Vamos: por esta parte o cáes nos deixa Na Ilha penetrar: commoda entrada Nos off’rece este portico de murtas. Deozes! que vamos vêr! Salve cem vezes, Bosque sombrio, magestoso, immenso! Do desmedido Atlante a espadoa enorme Não, não he quem sustem o eterno Olimpo, És tu, sagrado bosque; a vista humana Chegar não póde a teus soberbos cumes! Serras, diluvios de ondeantes folhas Sôbre colunas mil, que o raio assustão, Se agitão sôbre nós. Longe, ó profanos! Vates, erremos pelas frescas trevas! Alem, se não me engano, o sol penetra. Corramos. Oh prazer! oh maravilha! Eis um retiro aos Numes consagrado, Incognito aos mortaes, de encantos fertil! Tu que vizitas cada dia o mundo, Ó Sol, ¿que outro lugar no mundo encontras, Onde com mais prazer teus raios lances? Vede este prado, cujo fundo escondem De Hibleas flores animadas nuvens: Olhai sem guardador pingues rebanhos Livres saltando nos outeiros verdes: Vêde encostas de pampanos cobertas; Fontes á sombra de arvores sagradas; Jardins fechados de cheirosos muros De altos lilazes, de azareiro e cedro; Tanques no meio, onde em repuxo aos ares Voão do bico de marmoreos cisnes Argenteas linfas, que no ar se cruzão, Mil arcos, mil abobadas formando, E em fresca chuva vem mover os lagos!

Que ditoso paiz! não sei que sinto No meio agora d’estes sons campestres, Respirando balsamicos vapores, Em sacra habitação, entre os amigos, Longe dos homens, da innocencia ao lado! Abraçemo-nos. Sim: desde hoje unidos, Seremos d’este sítio os habitantes.

D’esse ribeiro na fecunda varzea, Ali, onde hospedagem graciosa Presta ás aves do ceo pequena selva; Ali, onde estendidos pela grama Junto ás novilhas candidas, repouzão, Co’a cornígera fronte entre as papoulas, Mansos touros, que o jugo inda não vírão, Ali se vos apraz, se apraz aos Deozes, Vamos pois construir nossas moradas.

Do Genio do lugar primeiro em honra Cumpre fazer as libações, e os votos; Venerar, depois d’isto, a turba agreste Das Ninfas do paiz; e culto, e nome Dar ás fontes, aos campos, e ás collinas D’estas gentis, incognitas paragens.

Vede faias aqui, pinheiros, chôpos; Abatei-os, tecei nossas cabanas. Formemos uma aldêa: a cada alvergue Juntemos um jardim, que ao fundo banhem Do claro rio as fugitivas aguas.

Não falte o culto ás sacras Divindades. Á obra, á obra! o templo se levante Nobre, proprio de nós, digno dos Deozes, Com paredes de cedro á luz vedadas. Deixamos á vaidade altas colunas, Cúpulas d’oiro, abobadas suspensas Em meia altura da extensão dos ares; De trémula parreira um této basta.

Ponde no tôpo o altar da Natureza, De nossa adoração primeiro objéto: Firmada sôbre um globo, como o nosso, Uma estatua gentil figure a Deoza, Virgem, bella, risonha, affavel, nua, Guardando-lhe o pudor sendal ligeiro: Colar de flores lhe atavie o collo, C’roa de frutos lhe circunde a fronte, Diversos ramos as madeixas ornem: Tenha n’uma das mãos celeste chama; Penda da outra, e por seguro fio, O Genio do prazer, que as azas bata Para voar-lhe ao cobiçado seio: Cerquem-lhe o pedestal em turba immensa Homens, feras, volateis, nadadores, E quanto emfim por seu influxo existe: Vejão-se á volta os poderosos Genios, Que a seu sabor os elementos movem, Salamandras, Ondins, Silfos, e Gnomos. D’esta ara ao lado se verão pendentes As flautas nossas, pois lhe são votadas.

Sôbre outro altar a Deoza de Cithéra, Não de marfim, nem marmore talhada, Mas de alva cera das abelhas nossas, Feita por nossas mãos encante a vista. Quero-a nua de todo: ao seio amime Entre os braços de neve o filho alado; E co’a ternura languida nos olhos, Como para o beijar lhe estenda os labios, Curta tornando, como a d’elle, a boca. As trez Irmãs de Amor pequenas, bellas, Como invejando do menino a sorte, Forcejem por trepar da Mãi ao collo, Emquanto o Irmão travêsso a rir pretende Co’as delicadas mãos lança-las fôra. Duas turbas de Amores apinhados Se ergão d’aqui d’ali: tenhão por terra Os arcos, e os farpões; na dextra empunhem Fachos, que hão de brilhar nos festos dias, Por nossas mãos com sacro lume accesos.

Defronte d’esta, na parede opposta, Outro brilhe votado á Primavera. Ali se mostre a Deoza, cuja veste Um manto seja de tecidas flores; De flores o toucado; a planta nua Sôbre floreo torráõ firmada alveje: Durma a seus pés o aurígero carneiro; O Maio, filho seu, tenha em seus braços, Igual em perfeições á Mãi formosa, Alado como os Zéfiros e Amores, Que os Amores, que os Zéfiros mais lindo. Tenha na dextra um ramo florecente, Onde pouzem pintadas borboletas: No esquerdo braço um cabazinho grave, C’os doces frutos, que em seu mez se colhem, E a rir pareça á Deoza appresenta-los; Mas a Deoza, estendendo a mão de neve, Como que busque o grávido cestinho Tirar de sôbre o seio, onde elle o punha. De Favonios um bando se reparta Aos dois lados do altar, em cujas dextras Ponhamos bem fingidas cornucopias Chêas d’agua, onde flores se conservam.

Atrio cercado de sombrios louros Haja na frente do sagrado alcaçar. Por trez frondosos porticos se passe Do templo ao atrio: emtôrno d’elle avultem, Dos loureiros á sombra, as Deozas nove, E o Nume protétor do equorea Delos.

Um de nós cada mez será por sorte Da sacra estancia o sacerdote, e o guarda. Ficaráõ a seu cargo os festos dias, Dos altares o culto, os hinos sacros, E a protéção dos ninhos melindrosos, Que as aves formaráõ do této em volta; Para que nunca violados sejão, Santa hospitalidade, os teus direitos.

Da nossa aldêa ás proximas campinas Daremos de cultura uteis desvelos. Vertumno, e Ceres, e Pomona, e Flora Hão de favonear trabalhos nossos, E em sustento pagar nossas fadigas.

Ricas hortas, dulcissimos pomares, Doiradas messes, pampinosas vinhas O celleiro commum nos terão chêo. Da ociosidade vã não será filha Nossa innocente e solida riqueza. Algum de nós ao trato dos rebanhos Seus cuidados dará: que importa o mundo? Vida de nossos pais! vida dos campos! Quem te nomeia humilde, e vergonhosa? Vive o pastor no seio da innocencia; No meio da pobreza he rico, e folga. Emquanto os grandes entre escravos gemem, Canta o pastor entre o rebanho, ou dorme, Fiado em seu amigo, em seu rafeiro: Nem ao menos que ha leis sabe nos campos. São seus dias cadêas de prazeres, E seus prazeres innocencia todos. Não cala seu amor, canta-o nos bosques Em alta voz, ou goza-lhe as delicias. Ao transmontar do sol volta a seus lares; Conta á porta o rebanho, e junto ao fogo Vai co’a cêa frugal entre os amigos Restaurar o vigor para o trabalho. Repouza em paz sobre o macio feno Emquanto alguma luz no ceo não raia: Não ha cuidado, que lhe rompa o sono; Se acaso sonha, os sonhos não lhe pezão, Pintão passados bens, ou bens futuros, E volta ao mesmo quando nasce a aurora. Vergonhosa ésta vida! ó desgraçados, Corai no meio das grandezas vossas: Se o pastor conhecesse o vosso estado, Nem de olhar-vos sequer nem se dignava.

No regaço feliz da natureza, Ao lado da ventura, os dias nossos Serão a imagem dos doirados dias. Como os primeiros pais da especie humana, Viveremos frugaes entre a abundancia, Ricos sem pompa, sem vaidade sabios, Socegados sem leis, sem armas fortes. Hão de mil vezes os campestres Numes, E o sacro Povo, morador do Olimpo, Compràzer-se de olhar a nossa aldêa. Ao romper da manhã, ser-lhes-ha doce Ver-nos todos sair dos proprios lares Co’a alegria na face: uns diligentes C’os instrumentos rusticos nas dextras, Ou seguindo seus bois, tornar-se aos campos; Outros guiando para os ferteis pastos Longa tropa lanígera balante. Ser-lhes-ha doce o ver como trabalhão Todos no bem commum, sem que se escutem Do _meu_ e _teu_ os nomes perigosos.

Quando o gallo doméstico no aldêa Soltar ao meiodia o canto agodo, Correremos á mesa: unidos todos De um bosque á sombra nos calmosos tempos E junto ao fogo quando reine o frio, Não veremos deante a rica prata Com vivo resplendor cegando os olhos; Nem dourados cristaes, nem porcelanas, Cuja louca ambição furiosa arrasta Tantos loucos mortaes, dignos de pranto, D’entre os braços dos seus aos torvos mares, E em fragil pinho, que rodêa a morte, De longinquo paiz os leva aos portos. De facil construção vermelho barro Fará nossa baixella; e cavos troncos Fundos, polidos, de jasmins c’roados, Servir-nos hão de o rúbido falerno.

De nossas hortas vegetaes gostosos, Os teus dons, ó Pomona, e os teus, ó Ceres, O mel puro e doirado, e o branco leite Bastão assaz da Natureza aos filhos.

E que? algum de nós contra o que vive Ouzaria vibrar da morte a fouce! O touro soffredor, cuja fereza Para servir-nos se abateo ao jugo, O touro, o nosso amigo, e o nosso escravo, Que sem ter parte alguma em nossos gostos Tomava parte nas fadigas nossas; Que armado pelas mãos da Natureza Podia, se quizesse, oppôr-se aos fracos, Que a paz, que a liberdade ouzão roubar-lhe, Depois de longo, aviltador serviço Deve ... (oh pejo! oh furor! oh sacrilegio!) Caír ás mãos do barbaro assassino, Para quem só viveo! por quem mil vezes Coberto de suor, chêo de espuma, Co’a fronte baixa, sem mugir ao menos, Queimado pelo sol, até soffria Duro, ferreo aguilhão se fraquejava! Qual ouzaria ensanguentar a dextra Na mansa ovelha, da innocencia imagem; Que incapaz de offender, nunca rebelde Aos brados do pastor, seu proprio leite Entre seus filhos e elle repartia, E até para cobri-lo as lãs lhe dava! Lindos filhos do ar, ternos cantores, Que innocentes voais pelas florestas, Nos prazeres, no Amor gastando a vida, Filhos do ceo, modelos, que adorâmos, Não temais habitar nos campos nossos. Se o açor, se o falcão por estes sítios Passar alguma vez, vinde, eu vos peço, Vinde-vos esconder em nossos lares, De vossa timidez sacra guarida: Se nos virdes passar nos sitios, onde Entre os ramos, á sombra vos agrada Divertir gorgeando a terna esposa, Que muda, e carinhosa esconde, e aquece Entre as azas seus filhos pipilando, Se nos virdes passar ... oh! por piedade Não fujais, prosegui vossas cantigas; Sois como nós da Natureza filhos; A Mãi commum vos deo a liberdade, Sustenta-vos, bem como nos sustenta: Sois fracos, tanta basta; e nós não somos Nem tiranos, nem perfidos, nem baixos Para abusar da fôrça: he jus terrivel! Se para vos matar compete ao homem, Para o homem matar compete ao tigre. Não: vivei entre nós, como entre amigos: Somos todos irmãos: arcos, e setas, Redes, e visco, passatempos torpes, Não usa quem adora a Natureza: Serião entre nós nefandos crimes.

Se um dia á caça algum de nós (os Deozes Affastem para longe o agouro horrendo), Se um dia á caça algum de nós corresse; Coberto de suor, de sede extinto Praza aos ceos que discorra os duros campos; Curve-o das armas o terrivel pezo; Não ache onde empregar da morte as furias; Seus proprios cães os membros lhe lacerem Té que as entranhas vis ao sol descubrão, E rôto arqueje o coração perverso: Semivivo, rugindo, ardendo em raiva, Entre penedos se revolva, e espume, C’os olhos ja sem luz, chêos da morte, Pallido o rosto, ensanguentada a coma; Té que, mugindo em subita voragem, Se rasgue a terra ao detestavel pezo, E ao fundo o arroje dos sulfureos lagos. E se o malvado consummar seu crime, Se as mãos tingir no sangue do innocente, O rio onde correr para banha-las As ondas atropelle, e volte á fonte, Fique attonito o monstro, e o leito sêcco; E quando sôbre o fogo os miseraveis Membros pozer, que o sangue inda gotejão, Que inda tem no tremor de vida um resto, Chêas de horror e de piedade as chamas, Deixando intáto o funebre cadaver, Com medonho estampido abandonando N’um momento seu lar, se ergão aos ares Para chover no algoz, torna-lo em cinzas.

Mas vá longe de nós o quadro infame! Somos frugaes, e simplices; e basta Olhar-nos para ver nossa virtude. Sim: que a lavrada seda, o oiro, as telas, E dos insanos cortezãos a pompa Não nos ha de cubrir. No inverno algente, Contra os rigores da estação nublosa Usaremos da lã que nos revista, Sem que do artista a dextra insultadora Lhe desfigure a côr, lhe mude o aspéto: Se no outono reinar do inverno o frio Voltaremos á lã: na primavera Basta o candido linho: emfim no estio, (Deixe-me em paz, ou seus ouvidos serre Quem no corruto coração fomenta De prejuizos vãos caterva impura!) No estio, amigos meus, com vosco fallo, Seremos todos nus: rião-se embora Os perversos, que ao vício costumados, Até na natureza encontrão vício. Sim, andaremos nus; nus se mostrárão Os pais, e as mãis do mundo em tempos d’oiro, Nos vaguêão da America nos bosques Da Natureza não corrutos filhos, Nem os tinge o rubor, a côr do pejo, Que o pejo nasce se a innocencia morre: A Innocencia, a Verdade, as Graças bellas Pintão-se nuas: nuas pelos bosques Errão as Ninfas: d’entre as ondas nua Venus saío de encantos rodeada: Seu Filho, qual nasceo, se mostra ainda: E todos nós, dizei, como nascemos? Quando, depois de trabalhosas dores, Nos cingem nossas mãis aos ternos peitos, Tecidas vestes sobre nós encontrão? Não: se o tempo o exigir cubra-se o corpo; Se o tempo o não requer, porque insensatos, Vãos, inuteis incommodos buscâmos?

Prazeres me pédis, dou-vos prazeres: A musica suave, a dança, os versos, Dos bons ditos o sal, carreiras, lutas, Tecer grinaldas de campestres flores, Fresco, e murmúrio de favonios, e aguas, Os ternos sons de aligeros cantores, Da natureza o estudo, as graças d’ella, As formosas manhãs, as bellas tardes. Iremos navegar pelo ribeiro N’este mesmo batel; a branca lua Deante nos irá para guiar-nos: Os ventos dormiráõ pelos outeiros: De um, d’outro lado as arvores ao longo Das socegadas margens, docemente Se ouviráõ susurar de quando em quando: O astro da noite ledo e scintillante Se verá na corrente em longa estrada: Echos repetiráõ nossas cantigas: D’entre um canavial a Filomela Se ouvirá gorgeando convidar-nos: Com mil olhos de luz o ceo da noite De ver nossa alegria ha de alegrar-se. Algum campestre Fauno, que aturdindo Com voz immensa a silenciosa margem, Seus amores contar da fonte ás Ninfas, O canto estrugidor alguns momentos Suspenderá, de assombro arrebatado. Se tivermos calor volta-se a proa Sobre uma ilhota de vermelha arêa, E encalhando o batel salta-se ás ondas: N’uma noite encalmada um banho fresco Nos consola, e refaz: ali se julga Acima estar da natureza o homem; Vive em novo elemento, em cujo seio Revestido se crê de essencia nova. Ao brando frio os membros pouco a pouco Se conformão, se affazem, se contentão; Dissipa-se o tremor, e a voz anciada Um momento depois se resserena. Todo o vivo prazer então começa: Ora apraz o nadar contra a corrente, Ora girar nas aguas escondido, Ou c’os olhos na lua ir descançado Em parte occulto, em parte descoberto, De costas, ao som d’agua, escorregando. De quando em quando um toma pé no fundo, Assemelhando o busto de uma estatua De marmore polido, que se eleva Fronteira á lua, e solitaria brilha; Os companheiros de redor o cercão, E com muito clamor sobre elle atirão Co’as plantas, e co’as mãos ondas sobre ondas. Elle grita, elle ri, jura, e promette De os punir, de vingar-se; então se arroja Ás ondas outra vez, e os segue, e os urge, Chove sobre elles desmedidas vagas. C’o festival combate o rio ferve, Perturba-se a corrente, os echos bradão Oh como he doce um banho entre mancebos! Um ri contando uma engraçada história, Outro grita, outro canta, e todos folgão. No fundo desigual talvez se encontre Dormindo alguma Náiade entre as conchas. Sois mortaes? e que importa? humano he Páris, He Páris um pastor, goza entretanto Ternos abraços de immortal Enone, Que deixa por goza-lo a propria fonte, E vem sentar-se entre um rebanho humilde; E ai de vós, se das Ninfas não moverdes Os puros corações para a ternura! Mulheres não as ha nos campos nossos, E vazia de amor a vida he nada. Redobrai a attenção, pois devo agora Fallar em baixa voz, porque receio Que as formosas Mondágides me escutem.

O mesmo coração, dezejos, gostos, Que tem nossas mortaes no peito occultos, Tem as Ninfas tambem: de exemplos quantos Se não póde cingir ésta verdade! Sobre as aras de Amor todas off’recem: Os ais do adorador nenhuma offendem, Comprazem-se de ouvir que as chamão bellas, E a gloria prezão de enxugar o pranto, O pranto que ellas sós nos arrancárão. Se nos ouvem crueis, se esquivas fogem, He porque insana lei de atroz costume Lhes ordena o fugir, lhes insinua Que he delito em seu sexo a natureza: Mas contra a natureza em vão combatem De cega educação fataes abúsos! A mãi universal ou cedo ou tarde Vence, triunfa, e no triunfo leva O sexo encantador ja maniatado. Todas oppõe sabida resistencia, Mas cumpre não ceder: por nós combatem Seu mesmo coração e a natureza, Que auxilio inefficaz jamais nos farão. ¿E não sabeis que emquanto desdenhosas De nossos ais parecem offendidas, Quaes se as mordesse venenosa serpe, Tremem, recêão que ao temor cedamos, E frouxa timidez nos furte as armas? Inda que ostentem ríspida esquivança, Agrada-lhes a guerra, e occultos votos Fazem a Amor para ficar vencidas. Implorar-lhes perdão he ultraja-las; Contra ellas ser audaz he ser-lhes caro, He dar-lhes bens, poupando-lhe a vergonha. Mas a regra primeira, a grande, o tudo Entre as regras de amor, he o artificio. He vasta a gradação de sentimentos Da innocencia á ternura. Em cume altivo De alta montanha, cujo aspéto assombra, Tem seu templo a Ternura, onde cercada Das Graças, dos Prazeres, dos Amores, Encanta os corações benigna Venus: He forçoso galgar toda a montanha, Subir de rocha em rocha, e p’rigo em p’rigo Para se entrar no deleitoso alcaçar. Quem pretender poupar um passo ao menos, Quem saltar pretender, perde o ja ganho, Para mais não surgir baquêa em terra. Amor azas não tem, como se pinta; A curtos passos, devagar só anda.

Começaremos offertando ás Ninfas Sôbre altares campestres, levantados Das arvores á sombra, ao pé das fontes, Ou nas grutas do fresco, ou sôbre outeiros, Festões, grinaldas, passarinhos, frutos, E capellas de búzios e de conchas, Mais brilhantes, mais bellas do que o Iris. Formaremos cantigas, em que aos echos Dos campos entre a lida repitamos As perfeições, os méritos, os nomes Das Napéas, das Dríades formosas, Hamadríades, Náiades, e quantas Filhas da Natureza a terra habitão, Para formar com dextra occulta e sábia Do rústico o prazer, do vate o encanto. Isto, e a nossa virtude, e a vida nossa Laboriosa, honrada, alegre, e quasi Igual á vida dos campestres Deozes, Disporáõ para nós seu terno peito. Talvez qué pouco a pouco minorado O custo susto de encontrar humanos, Não fujão de mostrar-se a seus cantores. Se eu descançar junto de um cedro antigo, Ou de uma faia, ou reclinar a fronte Sôbre a raiz em parte descoberta De uma oliveira, ou castanheiro antigo, Darei graças á Dríade, que habita No tronco bemfeitor, que me faz sombra; E d’elle a amavel Dríade saindo Virá sentar-se ao lado meu na relva.

Depois que pouco e pouco transformado Se houver em confiança o pejo, o susto, Mudaremos de estilo: em nossos versos, E só, e de contínuo a formosura Em fogo nos porá do estro as azas. Hão de sorrir-se e comprazer-se, e muitas Suspenderáõ em seu caminho os passos. He lei sem excéção; domina em todas A sêde, a gloria de chamar-se bellas. Mas bellas tão somente heis de chama-las, Sem falar-lhes de amar: depois de affeitas A ouvir a narração de seus encantos, Dizei-lhes que por certo as rochas mesmas, Os troncos, e o cristal das frias aguas Ardem cativos de bellezas tantas; Que o sol com mais prazer detem seus olhos Nos campos d’ellas, só por ver seus rostos. Se virdes que um sorriso gracioso Vos recompensa o canto, audacia, amigos! Avante um passo, e n’este passo cumpre O segredo buscar. Desde esse instante Não lhes falleis deante das mais Ninfas; Buscai até que os socios vos não oução.

Suppõe tu, caro Antíeno, encontrar-te (Esta supposição perdoe Alcippe) N’um bosque solitario, onde vaguêa Quem te faz delirar em novo incendio. Se ella está pensativa, “Oh venturoso O objéto, lhe dirás, em que se occupa Tua imaginação, formosa Ninfa! Se eu o fosse!... ai de mim! porque revolve Loucas esp’ranças, se chorar só devo?” Se a vires sôbre o espelho do cascata Com brancas rosas concertando as tranças, Qual sôbre o teu ribeiro o faz Alcippe, “Feliz rainha das mimosas flores, Feliz rosa, dirás, inda que perdes Ao pé das graças d’ella as graças tuas!” Se pozer sôbre o seio as melindrosas Roxas flores de amor, dirás: “Que inveja! Por ser vós um momento eu dera a vida!” Mas isto em meia voz, para que julgue Que não he por te ouvir que assim fallaste. Não se irritou? prosegue, e de mais perto, “Permitte-me, (dirás com ar ingenuo, Chêo de timidez) permitte, ó Ninfa, Que eu te torne mais bella, e te componha Essas flores, que um pouco se desmandão.” Se ella o permitte, a occasião não percas: Se ella hesita e se cala, não recusa; Compõe-lhe o ornato no formoso seio, E sorrindo, lhe dize: “Alguem no mundo Existe que não ame as proprias obras? E’sta obra, que findei, me agrada tanto!...” N’isto beija-lhe o seio, e deixa as flores. D’aqui avante o mar he ja tranquillo, Propício o vento, e mui vizinho o porto: Ja de piloto o lenho não carece; Quanto offerece amor tudo he ja vosso.

Ja vejo sôbre os ceos dos nossos campos Todo o dia brincando em roseo coche Pelas pombas tirada a amavel Cípria: Coroado de louro, ei-la contente Entre palmas, que sombra lhe derramão! Ei-la por toda a parte sacodindo Do misterioso cinto encantos, gostos, Delicias, tudo emfim que obriga a Jove Mudado em branco cisne, ou chuva d’oiro, A trocar pela terra o sacro Olimpo! Desde então mais ditosa he nossa aldêa, Mais risonhos seus bellos arrabaldes: Ha misterios de amor em qualquer gruta, Em qualquer solidão brincão prazeres.

Eis os frutos de amor, que desabrochão! Ja os vejo das bellas entre os braços, Qual pequeno botáõ nascido apenas Da rosa ja perfeita ao lado brilha. Ei-las co’o proprio leite a sustenta-los; Taes como descreveo nos magos versos Francilia; Musa de meu patrio rio, A doce amiga sustentando o filho, _Igual a Venus com Amor nos braços._ Eu as vejo, depois de afagos ternos, Soltar de si os cintos azulados, Em dois troncos prender as pontas ambas, Abri-los, deitar dentro entre mil flores, Depois de o ter beijado, o tenro infante, Para ser dos favonios embalado. Eu as vejo nos troncos encostar-se Co’as mãos na face, e os olhos no innocente, Juntando aos sons das aves em seu ninho Ternos cantos, que os filhos adormeção.

Ja co’a turba infantil recresce a aldêa: Succedem ao silencio alegres brincos, Gostosos passatempos se preparão, De nossos bens o número se aumenta. Vai crescendo em razão, crescendo em fôrça Ésta prole feliz, que os Cíprios valles Como os Amores, como as Graças, honra. Creados longe do tropel das côrtes, Puros no coração, que ninguem busca Semear de illusões, de prejuizos, Educados na paz, sem ver tiranos, Sem ouvir discorrer pedantes sabios, Té das Sciencias ignorando os nomes, Terão destinos, que excedendo os nossos, Não hajão que invejar os puros dias, Que cegamente se nomêão d’oiro. D’oiro! ai d’elles se o oiro então se visse! Mais nocivo que o ferro, a bemfazeja Terra o sumio nas maternaes entranhas, Sôbre leitos de pallido veneno. Quando o Genio do mal o trouxe ao dia, Chêas de assombro, de tropel correndo, Fugírão co’a Justiça almas Virtudes; E pelas fundas minas, que o guardavão, Surgio do patrio inferno a perseguir-nos Chusma de Vicios, e raivosas Furias, Que os Vicios inspirando, os Vicios punem. Se alguma vez os descendentes nossos, Quando a terra pacificos romperem, Encontraram com oiro, um grito soltem; A aldêa se reuna ardendo em raiva, Qual se dos bosques férvido saisse, Igual ao raio, o bruto d’Erimantho; E o pallido fulgor da massa infesta Vão longe sepultar nos verdes mares. “Monstro contrário a nós, sê devorado Pelo monstro do mar, que em furia vences” Dirão todos em chusma; e socegados Tornaráõ a lavrar seus ferteis campos.

Que idea pelo espirito me adeja Chêa de luz, de encantos rodeada! Ja vejo pelos ares scintillando Os fachos de Himeneo. Ja pelas ruas Vestidos de alvo linho, e coroados De fresca mangerona os moços correm, “Ó Himeneo! Vem Himeneo!” gritando. “Ó Himeneo! Vem Himeneo!” respondem Os campos d’echo em echo; e pelas casas, Chêas de gôsto, e de esperança as virgens “Vem Himeneo, ó Himeneo!” repetem. As ruas de verdura estão juncadas, Listões de flores coroando as portas Enchem os ares de composto cheiro: E os meninos, que as causas não percebem Do confuso prazer, vão transportados Correndo em chusmas, e batendo as palmas, Gritando, “Ó Himeneo!” La desce, e pouza O Nume sôbre o altar da Cípria Deoza! O venturoso par la vai sobindo Por entre a multidão, que attenta o mede. La chega ao sítio destinado aos votos. Sacerdotes não ha: da aldêa os velhos Os cercão de redor. La se abraçárão!... He curto o voto seu. “Juro adorar-te Emquanto o doce amor tiver no peito.” Unindo o seio ao seio, e face á face, Depois se beijaráõ por largo tempo; E o Nume da alliança, o carinhoso Filho de Urania os cingirá dos mirtos, Que de Venus, e Amor as frontes ornão. Depois algum de nós se erga c’roado, Para fallar d’ésta maneira ao povo.

“Nasceo Amor para encantar os homens, Não para ser dos corações tirano. Menino ama o brincar, e quer ser livre. Cura o tempo as feridas que elle fórma: Depois de alto clarão, que cega os olhos, Seu facho, pouco e pouco enfraquecendo, Vem por fim a apagar-se: a Natureza, Nada produz que não succumba á morte. Os animaes, as flores, os arbustos Tem curta duração: vai manso, e manso O tempo destruindo altas montanhas, Gasta-se o escolho c’o bater das ondas; Succede a lua ao sol, á noite o dia, Uma estação perece, outra renasce: Tudo he mortal na terra, e mais que tudo As humanas paixões insulta a morte: Succede ao riso o pranto; á dor prazeres; Ao odio amor; ao terno amor a raiva. Eu vi moraes affétos n’um só dia Nascer e terminar, qual nasce e murcha N’um só dia de abril a rubra rosa. Ditoso par! amai-vos extremosos Emquanto a natureza vos consinta, E oxalá que o consinta em largos annos! E oxalá que de vós o que entre os mortos Primeiro descançar, sinta regadas Pelos olhos do sócio as mudas cinzas. Feliz quem n’um só fogo arde constante; Feliz, mas raro como os negros cisnes! E ha loucos, e ha perversos, que ante as aras Jurem guardar uma constancia eterna? Cegos, que a natureza desconhecem, Ou zombão d’ella escarnecendo os votos. Jurão-se amar sem fim, e ou tarde ou cedo, Sem fim, e sem remorsos se detestão! Jurão-se amar sem fim! Mal que resoa Debaixo das abobadas o voto, Calcando o arco aos pés com ar maligno O pobre Amor retira-se chorando D’ésta afronta cruel; pois sua glória, Seu prazer, e seu timbre he ser voluvel. Crepitando em faiscas derradeiras Se apaga o facho, que debalde agita, E emtôrno espalha venenoso fumo, Fumo, que obriga a lágrimas eternas. Entre pios e agouros desgraçados, Ao leito nupcial os acompanha Entre alegre e assustada a meiga Venus. Co’as serpes do cabello desgrenhadas, Mas inda sem silvar, detraz os segue Impaciente a rabida Discordia. De flores se coroa a lauta mesa, Voão-lhe em roda as graças, e o falerno, E riso, e confusão de encantos chêa. Mas ah! cedo os pezares, e os suspiros, A desesperação, e as vãs querellas, E a desordem, e as lágrimas rodêão Os lares do prazer; a scena infausta Não rara vez negro punhal termina, A viuvez, o luto envolve o leito! Mas vós, ditoso par, vós, cujos labios Não proferírão temerario voto, Folgai, vivei, nos braços da ternura, Melindrosa ternura, que não morre Se lhe não lanção vergonhoso jugo. Para amar-vos fieis por largo tempo Sede amaveis, ou sede virtuosos Porque a doce virtude he sempre amavel. Se o fogo se acabar, voltai ao templo, A prender novo objéto em novos laços.”

Ouvindo este discurso o povo inteiro O applaude em baixa voz, e á Mãi das Graças Se canta o hino, que remata a festa. O resto d’este dia he dado aos jogos, Gasta-se a noite á roda das fogueiras Em musicas e em danças variadas.

Engano-me, ou queixosa a Natureza Escuto suspirar? não, não me engano! Ella suspira, e pede-nos vingança D’outra injustiça, que lhe faz o mundo. Ouvi, e concordai: sabeis que muito Em número nos vence o amavel sexo. Se a Mãi universal não gera um ente, Que não consagre a amor; e a lei sagrada, Que obriga a propagar a propria especie, He lei universal, que abrange a todos, ¿Com que jus, por que horrenda tirania Privadas d’Himeneo suspirão tantas? Não: cada esposo esposas enumere, Té que uma só sem thalamo não fique; Todas d’est’arte viveráõ contentes; A honra de ser mãi pertence a todas: Cresce a aldêa, não brada a Natureza; Infamadas não são as que procurão Os prazeres de amar, de ser amadas: Não se ouvirá que um barbaro veneno Dera a mãi a seu filho inda no ventre; Ou que um férreo punhal, ou laço infame Logo ao nascer lhe terminára os dias: Nem Venus corará vendo offertar-se De ternura venal corsutos mimos.

Quão bellos correráõ nossos momentos, Longo, e tão longe dos polidos povos! Quasi Numes na vida encantadora, Até na duração quasi seremos Rivaes do povo habitador do Elisio. O fio d’oiro da existencia nossa Inteiro volveráõ no fuso as Parcas. Com pé tardío a inevitavel Deoza, Que o Mundo despovoa, e bebe o pranto, E acompanha a saudade entre os ciprestes, Sem terror, e sem fouce, e até sorrindo, Sem que a precedão seus fataes ministros, Nos levará de manso e a curtos passos, Coroados do cãs para o sepulcro. Mas, amigos, quem sabe! as Cíprias Ninfas, Se o fado o não tolher, talvez nos mostrem A verde planta, que ao cerúleo reino Deo mais um Nume, transformando a Glauco. Semideozes então, nos tornaremos De nossa aldêa os sacros protétores! Mas não: a lei da morte he lei terrivel, Que rara vez os Numes quebrantárão.

He forçoso morrer!... Longe os temores! He forçoso morrer, morra-se embora. Não faltaráõ dulcissimos transportes, Prazeres e ternura ao lance extremo! Sôbre o funereo leito o moribundo, Ja sem côr, ja sem fôrça, e quasi extinta Em seus olhos a luz, e a voz nos labios, Erguendo a fraca dextra acena, e chama Cadaum junto a si; vai despedir-se Para o sono sem fim! Sôbre as heranças Que ha de recommendar se não tem nada? Nada excéto a virtude, e os instrumentos Com que a terra lavrou. Sua cabana Vai ter outro senhor; as flores suas Implorão no jardim desde este instante D’outro cultor a próvida tutella: D’outro, sim; cuja mão todos os dias Irá de madrugada aos sacros manes, Pendurar sôbre o tumulo orvalhado Uma grinalda de orvalhadas flores.

Elle abre inda uma vez seus frouxos olhos, Onde começa a derramar-se a noite, E de seus labios tremulos, por onde Ja põe a occulta morte a mão gelada, Sólta chêo de afféto a voz, que expira, E seus amigos, e seus filhos chama: Os seus amigos mudamente o cercão, E não mostrar-lhe as lágrimas procurão: Áluz da tibia alampada contemplão Quanto a hora fatal ja se aproxima. E seus pobres filhinhos entretanto N’um canto da cabana estão sentados; Dos amigos no gesto, e nas maneiras Ler seu destino impacientes buscão, E attonitos, e tristes nem se atrevem A fallar, a fazer qualquer pergunta, Porque os não lancem d’este sítio fóra: Mas olhão-se entre si co’um ar tão meigo, Lastimoso, innocente, que podéra Desfazer de piedade a propria morte, Se o fado não contasse os nossos dias. Seu Pai, que os adorou, quer inda vê-los, Lançar-lhes a sagrada, última benção, Ver seu pranto, gozar dos seus afagos, Quer chama-los. A voz faltou de todo! E deixando caír de lado o rôsto, Soltou da vida o derradeiro arranco.

Ao profundo silencio altos clamores Succedem n’um momento; e o pranto, e os gritos Por toda a parte na cabana sôão. Os meninos confusos se levantão, Ouvem a nova, attentão no cadaver: Ouriçado o cabello, o sangue frio, Pallido o rosto, e vacillante o passo, Fogem para o jardim, por onde os segue A imagem de seu Pai, no susto envolta. Qual o vírão ha pouco, o tem comsigo! Dos parreiraes as sombras os perturbão, Vem nos troncos das árvores fantasmas. Vão buscar o luar do rio á borda; Mas lembrão-se que ali todas as noites Passeavão com elle: ésta lembrança Os torna a perseguir; e em tudo encontrão De um Pai tão caro o aspéto, que os assusta,

Pela aldêa se espalha a infausta nova, E parece que a morte em cada casa Arvorára um trofeo! Domina em todos A dor, que se desfaz em pranto e gritos! Dir-se-hia que furioso, insuperavel, Hia de této em této um vasto incendio. Depois que um pouco em lúgubres transportes A dor se evaporou, por toda a parte Sôão louvores do chorado amigo. Cadaum lhe encarece uma virtude, E de cada virtude exemplos contão.

O Justo dorme em paz: mas entretanto Ninguem dorme na aldêa. Ouvio-se o gallo Cantar, quando expirou da noite em meio: Torna o gallo a cantar na madrugada; E em contínua vigilia discorrêrão As longas horas, que á manhã precedem! Torna o gallo a cantar na madrugada, A aurora quer nascer; enchem-se os ares De uma luz, que ao luar excede um pouco. Do ninho suspendido em nossos tétos A andorinha ja sáe; vôa cantando Defronte agora das janellas nossas Para nos saudar, pois entra o dia. Ja dos ceos pelos flúidos espaços Circula a cotovía, que não cança No longo canto, ou desmedido vôo: Ja o rumor das arvores e fontes, Que da noite na paz costuma ouvir-se, Vai fugindo com as trémulas estrellas; Torna a alegria ao mundo, e ao campo as cores: Mas a alegria d’entre nós he longe, Os campos todos para nós tem luto. Ja se ouvem resoar da aldêa as portas; Ja sáe, ja se reune o povo inteiro. O ar de meditação domina em todos, Todos trazem de pranto rociadas As recentes grinaldas, que tecêrão.

Em plantas aromaticas envolto, Do alvergue, ha pouco seu, la vem saindo O deplorado amigo: ao caro pêzo Submettem quatro os hombros vigorosos. Bençãos, bençãos ao Justo, em cujo aspéto Por entre a pallidez inda ressumbrão Mansa innocencia, affétos generosos! A lenta marcha á turba consternada Rompem com baixo tom sonoras flautas, Que de triste alverôço o peito agitão. Apôz ellas, o funebre cadaver Dos Anciãos vai precedendo á chusma. Estes, fronte inclinada, olhos em terra, Vão suspirando, e a vista lacrimosa Lanção de quando em quando ao doce amigo, Que os precedeo na regiáõ da morte. Em seguida, modestos se confundem Os mancebos, de teixo coroados, Co’as bellas raparigas, que parecem Mais formosas co’a languida tristeza: Elles cantão em côro aos longos echos O como a quanto existe abrange a morte; Ellas em tom mais doce a voz levantão, Para mostrar como a existencia curta De prazeres doirar-se ao menos deve. Vão depois os meninos innocentes De ambos os sexos em confuso bando: Levão em suas mãos para o sepulcro Pequenas oblações; pomos, e flores, Taças de leite e mel, de vinho e d’agua Tomada em fonte viva antes da aurora, E de barro thuribulos não grandes.

Ja se chega ao lugar sagrado á morte: He um valle sombrio, onde se abração Mil arvores diversas, onde habitão Meigas filhas do ceo, canoras aves: Reveste fresca relva a terra fria, Pallido musgo os carcomidos troncos. Aqui frescos favonios adejando Pelas folhudas grimpas, docemente Só se ouvem suspirar: aqui mais terna Derrama a aurora o pranto matutino; Mais terna geme e rôla; e mais delirios Na alma gera o luar por estes campos. He fechado o lugar de mil rochedos, Por onde algumas fontes se derivão Com tacito rumor, que inspira os sonos: Pelas profundas, tenebrosas grutas, E sôbre os agudissimos rochedos Crê-se ver e escutar sagrados manes, Em frouxa voz, que as auras assemelha, Cantando os gostos da passada vida. La não geme a coruja, ou pia o mocho: Reina em vez do terror branda saudade, Terna melancolia, encanto, enlêvo Dos corações, das almas bem nascidas.

Que estrondo he este pelo chão de morte? São as férreas enchadas, que se alternão Para formar do eterno sono o leito. Agora cresce a dor na despedida. La chega, la se arroja, la se esconde Da Mãi universal no seio um filho! “Paz ao homem de bem!” dizem de roda Os velhos, e retirão-se chorando. “Leve te seja a terra!” os moços gritão, E partem derramando-lhe folhagem. Chega a turba infantil, seus dons off’rece, E vai juntar-se á multidão, que torna Aos trabalhos de novo á sua aldêa.

Mas ah! qual d’entre nós terá primeiro, Caros amigos, de fechar seus dias? Quaes choraráõ no tumulo silvestre! Talvez eu vos preceda, e vá saudoso Ver na Tenárea porta o Cão trifauce, Na Estige nebulosa a barca horrenda, E do Elisio paiz os gratos campos, La onde os vates do universo inteiro, Ja Numes, em republica se unírão.

Mas não pensemos n’isto: he Maio agora Que devemos cantar: nós o jurámos. Recomponde na fronte as vossas c’roas; Ergamo-nos, enchei de vinho as taças; E ante o Ceo, ante a Lua, que nos ouve, Entre os Favonios, e as formosas Ninfas, Que escondidas nas ondas nos rodêão, Saudemos novamente o alegre Maio, Jurando que desde hoje em nossas liras Ha de escutar cada anno os seus louvores.

Ó Maio, eu fallo; escuta-me. “Por este Licor de Bassareo, que me arrebata; Pelos Filhos gentís da branca Leda, Que pela mão a nós te conduzírão; Por tuas flores, com que estou soberbo; Por tuas fontes, zéfiros e bosques; Por teu ceo graciosa; e por ti mesmo; E pela tua amiga, a minha Musa, Juro de consagrar emquanto viva, Todo o teu mez ao teu louvor, e ás festas.”

FIM DA FESTA DE MAIO.

NOTAS Á FESTA DE MAIO.