CANTO I.
Eia, amigos, ao campo! ha ja trez horas, Que os Tindáreos Irmãos no aéreo espaço Vírão do meio dia o rôsto ardente: Eia, amigos, ao campo! as horas vôão, E o Maio alegre ás féstas nos convida: Os Zéfiros ligeiros, embalando Do parreiral a trémula folhagem, Ao rio, ao barco estão chamando a turba. ¿O Deos Menino, o gracioso Maio Não vamos celebrar na fresca Lapa? Pois que se tarda? os Numes não consentem No culto seu ministros preguiçosos. Chamai á pressa as pastorís Camenas, Tomai as flautas, coroai as frontes Co’as grinaldas, que em premio vos cingírão Da Primavera no primeira tarde. Como! o tempo ... (ai da flor da mocidade!) O tempo as destruio! de graças tantas Que existe pois? um pó. Jazem desfeitas, Sem perfume, sem côr as lindas flores, E as verdes folhas se enrolárão murchas! Ah! corramos; o pezo, que as esmaga, Róla tambem sôbre a existencia nossa: Nossas grinaldas nos festins vivêrão, Morrêrão no prazer; e nós, como ellas, Devemos esperar, brincando, a morte.
Cedo nos hombros do nervoso Atlante O eixo voluvel em perpétuo giro Ha de erguer ante o Sol novas esferas: O Touro ja fugio: Castor, e Pollux Succedêrão-lhe agora: hão de apoz elles Os astros scintillar, que nos conduzão Da estiva calma os importunos tempos. Então fenecem pelo campo as flores, Tépidas correm na planicie as fontes, Calão-se as aves nos cavados troncos, E fallece a frescura ás proprias noites. Vamos, emquanto as flores não perecem, Emquanto soprão lisongeiras auras, Emquanto um doce frio as ondas levão, Emquanto as aves pelos ares cantão, E as claras noites co’a frescura aprazem; Vamos correndo: de vergonha córe Quem último chegar do rio á margem.
¡Graças aos ceos, que a suspirada arêa Ja pizâmos emfim! mas pelas faces Abrazado suor me está caindo. Inda o barco não chega: eia, sentai-vos. D’esta aura carinhosa ao fresco sôpro Quanto he doce voltar o rosto ardente, E ora uma face, ora outra offerecer-lhe! Ella as beija brincando, e espalha em ondas Os escuros anneis, que lhas roubavão.
Verde canavial, salve trez vezes! Co’as boliçosas, arqueadas folhas Nos escondes a rir de Febo aos olhos. Ninfa adorada pelo Deos da Arcadia, (Deos dos pastores, inventor da flauta) Sacrilego furor não nos incita: Não te offendas se agora as nossas dextras De tuas canas adornadas vires: Sua altiveza airosa nos agrada, Vates somos, os trémulos seus cumes Ondulando, os lascivos seus abraços A cada viração que vai fugindo, Tudo isso nos namora, e diz poesia. Não te offendas ó Ninfa, ei-las colhidas! Gravai com ellas n’esta arêa os nomes Das vossas bellas, imprimi-lhe um beijo, E partamos, que o barco ahi fere a margem. Bem: eu lancei da Primavera o nome Em caratéres taes, que ao longe possa Lê-los o pescador no fim da tarde.
Eis-nos emfim nas transparentes ondas! Agora cumpre diligencia, esfôrço, Para vencer as fugitivas aguas. Ferva o trabalho, as varas não descancem; No fundo leito redobrai os golpes, E suavisai com musica a fadiga. Eu deitado na pôpa, eu dicto os versos; Cantai, e o echo em baixa voz aprenda.
Ouvi Ninfas do placido Mondego, Ouvi com ledo rôsto as preces nossas.
Saí correndo das limosas grutas: Occultas no cristal do patrio rio, Vós podeis impellir co’as mãos de neve, E fazer que o batel, qual aguia, vôe. Bellas Filhas do lúcido Mondego, Vamos passar a tarde á grata sombra, Das lindas Graças na famosa Lapa. Ali, se acaso não me illude o estro, Vós, Ninfas, vós com ellas muitas vezes As noites do luar passais em danças: Sôbre um tronco musgoso Amor sentado, Para acertar as rápidas choréas Com saudosa flauta a Noite acorda, E Venus compassiva lhe desata Dos olhos entretanto a escura venda. Mil Amorinhos sem farpões, sem facho, (Nem onde vós estais carecem d’elles) Vôão aqui e ali por entre os ramos.
Ouvi Ninfas do placido Mondego, Ouvi com ledo rôsto as preces nossas.
Dai-nos breve chegar, sereis cantadas; E iremos outro dia erguer altares De cada vosso chôpo á sombra amiga, Pondo-lhe em roda uma vistosa grade D’aureas canas com murtas revestidas: Em vossas ondas lançaremos rosas, E puro leite, e saboroso vinho. Porque tardais, ó Náiades esquivas? Turba innocente de mancebos rindo Bem merece o favor dos sacros Numes. Nós não vamos em lenhos alterosos, Roçando as nuvens com soberbas velas, C’o ferro a lampejar nas bravas dextras, Levar da guerra a furia aos outros povos, Lançar em fogo os bosques, e as cidades, Para voltar aos mares tormentosos Co’um pouco do metal, que gera os crimes: Nós vamos procurar vizinha praia Para rir, e beber de Maio em honra; Vamos c’roar-nos de verdura, e lirios, Cantar ao som da flauta a Natureza, Dançar no meio de innocentes gostos, E longe dos mortaes, viver ditosos, Poucas horas sequer, na paz dos campos.
Ouvi, Ninfas do placido Mondego, Ouvi com ledo rôsto as preces nossas.
Terra, terra: éstas árvores das margens, Que ora nos vão passando sôbre as frontes, Convidão a colher sua folhagem: Saltai, colhei os mais viçosos ramos, Teça-se um tôldo, que nos roube á calma.
Ávante! adeos, ó Driades, ficai-vos Em doce paz; o orvalho vos fecunde; Ache vossa raiz no estio as aguas Tão abundantes, como as tendes hoje. Nós vamos celebrar o mez das flores, Quando voltarmos vos daremos graças. Ávante! não cesseis, alegres nautas! Cantai: eu voas ensino um canto novo.
Das Filhas de Nereo a mais formosa Foi Galatéa candida, e rosada. Por seus olhos azues morreo de inveja Aglaia, irmã de Amor; a curta boca Ciumes acendeo no peito d’Egle, Bem que da boca d’Egle um doce beijo O scetro pagaria ao rei dos Numes; E Eufrosina, entre os Deozes celebrada Pelos aureos anneis da longa trança, De Galatéa a trança cobiçava. E o seio! o seio túrgido e nevado, Mais nevado que a espuma em que se tornão Na frente de um cachopo as crespas vagas, O seio era melhor que o teu, ó Cípria! Treze vezes floríra a primavera, Depois que aura vital gozava a Ninfa, E ja no mar, no ceo, no mundo inteiro Das bellas todas triunfava a bella, E ais e louvores a seguião sempre. Nereo, chamando-a á funda gruta um-dia, Assentou-a nos trémulos joelhos, Ao hombro lhe lançou paterna dextra, E beijando-a lhe diz.—“Assaz he tempo, “Filha, de rematar da infancia os brincos. “Tu conheces teu rôsto, ¿e não conheces “Que he preciso fugir á turba insana, “Que te rodêa, que te chama bella? “Crê tu nas cãs de um pai, de um pai no afféto; “Quanto mais suas fallas te agradarem, “E mais seus modos lisongeiros vires, “Mais pérfidos serão. Cabe a meus annos “Dar prudente conselho á tenra idade; “Perdoa-me, acautello-te a innocencia. “De meus delfias o lúbrico rebanho, “Desde hoje apascentar he teu cuidado: “Não convem á belleza ociosa vida.”— Disse, e poz-lhe na mão, como a pastora, Cajado de coral com ponta d’oiro; Entregou-lhe a rebanho, e conduzindo-a De seus mares a um placido retivo, —“Fica, pastora, aqui, lhe-disse o Velho, “Vir-te-hei vêr muita vez.”—Rio-se, e deixou-a.
Alguns dias ali viveo contente Com seu rebanho a equorea pegureira. Ora entre as moutas dos coraes ramosos O levava a pascer os brandos limos, Ora ao marinho cão deixando-o entregue, Hia colher das perolas as conchas.
Uma tarde de Maio, quando aos braços De Thetis vio que o sol hia descendo, Ouzou sair do fundo, e foi sentar-se A gozar do espétaculo dos bosques Na alegre entrada de uma verde gruta. Nas ondas por acaso então nadava Acis gentil de encantadores olhos: Vio-o, e visto, calou seu canto alegre; Sólta um suspiro, e se perturba, e córa. Do paternal preceito inda lembrada, Quer na gruta esconder-se até que parta Das ondas o mancebo: eis se arrepende, Ja não quer occultar-se, e quer que a veja. D’entre o verde do mar o níveo corpo, Que os olhos cega, e o coração cativa, As proporções, a ligeireza, a graça, Com que agora se occulta, agora assoma, E em modos mil as posições varía, Tudo, tudo a detem. De quando em quando, Sem conhecer que o faz, se lhe aproxima; As tranças, que trazia ao vento sôltas, Sem saber o porque, reparte e lança Sôbre os hombros de neve, e cobre o seio: Consulta no mar lizo a propria imagem; Quer mais bella tornar-se, e mais não póde.
Cançado de banhar-se o Moço emtanto Vinha a praia ganhando: ella assustada Corre á gruta; ali cora, ali desmaia, Quando o mancebo, quando o pai lhe lembra. O bello nadador não tarda muito, Entra na gruta, onde largára as vestes ...
Amigos, vós parais como esquecidos? Deixais que o lenho na corrente desça? Ah! voltai ao trabalho; e por castigo Não ouvirèis do alegre canto o resto.
Novo me inspira agora esse murmúrio, Com que a Fonte das lagrimas se lança Da serpeada varzea ao rio aberto.
Junto á fresca matriz d’este ribeiro, Onde gozou em seculo remoto O mais ditoso par de amor os mimos, Meu estro agora placido voltêa Por entre os cedros, e os feraes ciprestes; E ora ao lago pacífico se arroja, Ora da fonte nos penedos pouza. Comvosco não existe o vosso amigo; Gira fóra d’aqui no sítio umbroso, La conversa co’a Musa, aprende, e canta Gratas histórias dos passados tempos.
Uma noite de Maio Inez formosa, Ao pallido clarão da argentea lua, Com seu Pedro fiel aqui vagava. De seu candido amor primeiro fruto, Lindo, qual dos Amores o mais lindo, Um tenro filho, que a fallar começa, Co’a pequenina mão á mãi seguro, A passos desiguaes a acompanhava. No dextro braço do gentil consorte O alvo braço despido entrelaçando, Languidamente a bella se apoiava. Traja da côr da neve, ornão-lhe as tranças Rúbidas rosas que reveste o musgo: Sob um véo raro e sôlto arfão dois peitos, Que estrema, que matiza, e que perfuma A flor, que he d’entre mil só digna d’elles, O amor perfeito em fresco ramalhete. Pelo silencio, e paz da noite amiga, Nos extasis de amor arrebatados, Ebrios ambos do nectar da ternura, Vagueando em seu ermo, respiravão Todo quanto prazer nas almas cabe. —“Inez, dizia Pedro, olha estes cedros, “Que doce murmurando agita o vento! “Olha as aguas do tanque, onde tão clara “Se está dos Ceos a Lua retratando! “Ouve o rumor das ondas transparentes, “Que vem brotando da cavada penha! “Cara Inez ... ah! calemo-nos; escuta “O amante rouxinol como gorgeia! “Não o sentes mui proximo? quem sabe! “Talvez que em teu jardim celébre agora “Ao lado de uma esposa os seus prazeres: “Se assim he, refinai perfume, ó flores, “E vós levai-lho, zefiros da noite, “No instante em que Himeneo tem de ajuntal-los. “Ó minha Inez, não ser inda possivel “Confiarmos á luz nossa ventura, “E eu dizer, sou de Inez!...”—N’isto o mancebo, Apertando a seu peito o braço d’ella, De beijos lhe inundava a mão mimosa. Em silencio e cuidosa a linda Castro Parava contemplando os ceos, o esposo, E unindo a regia dextra ao seio oppresso, Dava a resposta n’um fiel suspiro. —“Oh! (dizia depois) que Deos contrário “Ao terno amor, á candída innocencia, “Poz peito, ó doce encanto, a separar-nos? “Quão melhor fôra haver nascido em choças! “La, tendo por imperio um só rebanho, “Lãs por purpura, e flores por diadema, “Pedro fôra pastor e Inez pastora. “Teu solio quantas lagrimas nos custa! “Mas se fosse teu solio um manso outeiro, “Docel um parreiral firme em colunas “Das que dão fruto e flor, saude, e agrados, “Não cortíra em meus sonhos o remorso, “Teu coração ninguem mo disputára, “Não se encobríra o meu amor ...”—“Oh cessa, “Cessa (Pedro lhe diz interrompendo-a): “De que servem, querida, essas lembranças! “Se te adoro, que temes? se me adoras, “Que posso eu mais querer! Virtudes tantas, “Raros dons quaes os ceos em ti resumem, “Não são para jazer na escuridade; “Dos reis, de teus avós te poem no estrada, “Para luzires nos corrutos dias, “Como astro de bondade entre os humanos. “Gozemos do prazer. Olha esta noite “Como he formosa, minha Inez; não tornes, “Eu to peço por mim, por ti, por esse “Fruto do nosso amor que te he tão caro, “Não tornes a acordar taes pensamentos. “Queres tu, minha amada, á curta noite “Dar emprego melhor, mais proprio d’ella? “O assento ao pé da fonte nos convida, “Vem-me outra vez cantar os magos versos, “Onde quasi exprimiste o enlevo d’ambos, “Quando a primeira vez nos vimos juntos “Tambem de noite, e n’este sítio mesmo.”
Disse, e Inez imprimindo-lhe nos labios Co’a meiga curta boca um longo beijo, —“Vamos, responde, apraz-me esse meu canto, “E agradar-te, inda mais; partamos logo.”— Diz, e ja leva ao collo o seu filhinho. Forceja o pai furtar-lhe o doce pezo, Ella a ninguem o cede:—“O meu menino “He meu, lhe diz; quando eu tiver meninas, “Dar-tas-hei, desde ja chama-lhe tuas; “Pertence o filho á mãi, e ao pai a filha.”— Sorrindo com ternura o ledo Amante, —“Ser-me-ha dado, lhe diz, que de teu filho “Ao menos colha uns beijos que me deve, “Ou hei de só com os teus ficar contente”?— —“Se tos deve meu filho, eu vou pagar-tos” Inez responde, e lhe pagou mil beijos.
Chegados são aos bancos do rochedo. —“Ja do sol o calor morreo na pedra; “Para assento, he mister ser estufada. “Não rias, o brocado hão de ser ramos; “Para a pastora Inez, nenhum mais proprio”— Voa ao proximo cedro, os ramos corta, Alastra-os sobre o marmore, e reclina O infantinho, que pósta a loira fronte No maternal joelho, eis adormece.
Absorto no painel delicioso, Não podendo parar nem desviar-se, Como homem, que formosa feiticeira Prende e agita n’um círculo encantado, Vaga o Principe á luz voluptuosa De lua por entre arvores. Desponta No ermo silencio o canto namorado! O suave da voz, o doce estilo, A musica tocante, a frase meiga Alhêão-no de si, todo elle he fogo: Não conhece onde está, quem he não sabe: No cahos do prazer, em que se abisma, Só vê brilhar Inez, Inez só ouve; E qual se nunca em braços a apertára, E virgem melindrosa o ceo benigno Lha houvéra ali chovido aquella noite, Arde e delira em sofregos dezejos. Já não sabe conter-se, o fim do canto Já não póde esperar; “Ó minha, exclama, “Ó minha ...” e sem findar, pois não encontra Nome que exprima o que lhe ferve na alma, Voa a abraça-la sem poder fallar-lhe; A voz com loucos beijos lhe interrompe, Quer dos labios sorver-lhe os sons divinos; Mas ella rindo, e a boca desviando, Que a deixe terminar lhe pede a custo. —“Sim, acaba (responde), Inez, acaba”— E emtanto hia beijando o collo, o seio. Depois, como ante Nume, ajoelhando, Suspenso a contemplava espaço longo; E depois no regaço o rôsto acceso Lhe punha, como em ninho de delicias, E no certo esperar crescia o fogo. Só vós caladas arvores no emtanto A canção namorada ouvindo estaveis Da mui ditosa Inez! Como expirava A derradeira nota, estremecendo Acorda o moço, alvoraçado surge, E tomando á cantora a mão submissa, —“Vamos, lhe diz, a lua vai descendo, “O tácito poente a chama ao sono: “Oh quão leve entre nós foge esta noite! “As auras pela relva estão dormindo, “Pendem com sono as arvores seus cumes, “Do largo tanque as aguas nem se encrespão. “O rouxinol que ha pouco gorgeava ... “Ja tambem se calou: sabes a causa?”— —“Talvez lhe empeça a voz, responde a bella, “Teimoso furto de continuos beijos.”— —“Não, não, responde o amante, agora occulto “Co’a docil companheira em quente abrigo, “Aperta o rouxinol de amor os laços. “E nós Inez? ah toma o teu menino, “Talvez não tarde a aurora, ao leito vamos, “E do fresco da noite ali zombemos.”
Emfim chegámos! c’o ligeiro impulso Bate a proa no cáes, o lenho treme, Tremem com elle de seu tôldo as folhas. Salve ameno lugar, que as Graças pizão! Glória ao sacro arvoredo, que diffunde Sôbre a calma do vate a sombra fria! Glória ás auras, que prêzas n’este sítio, Das Dríades por mão aos troncos d’ellas, Agitão com susurro a massa enorme Da folhagem suspensa! honra aos que brincão Puros raios do sol sôbre o terreno, Mal que um favonio lhes descobre a entrada! Eterno amor ás aves, que em seus ramos A vinda nossa a gorgear celebrão! Paz ao dezerto, onde comnosco as Musas, Esquecidas de Pimpla, se contentão De encher de alegres canticos os ares!
Á festa, á festa! Reuni-vos todos, Vinde colhêr as fugitivas horas: Como vaga que passa, ou flôr que murcha, Para mais não voltar, se escoa o tempo. Á festa, amigos! Oh! n’esta eminencia Eis ja pronto um altar! ei-lo cingido Com largas fitas de pintadas flores! Ante elle o rosmaninho, a murta, as rosas Té não curta distancia o chão tapizão; Heras, e lirios candidos o toldão: De heras e lirios adornai as frontes. Ajoelhai: lá sobe a Divindade! Silencio! paz!... Retumbe pelos echos, Sem mistura de voz, o som das flautas. No coração, no espirito me chovem D’estro divino eléctricas centelhas. Ja me sinto mudado em branco cisne! Cercai-me: eu vou cantar; calam-se os ventos!
Voa invisivel das Hemonias serras, Tu que no Xantho as aureas tranças lavas: E se he tua, qual Roma suppozera, Ésta a melhor porção da florea quadra, Do cantor de teu mez protege a audacia.
D’entre os filhos da immensa eternidade, D’entre esses doze Irmãos, que repartido Tem por sua influencia o anho inteiro, Maio foi sempre o mais gentil de todos: Qual dos cachos o Deos, e o Deos das setas, Goza brincando eterna mocidade. As Graças infantis, e a Formosura O creárão nos ceos com o proprio leite. Mal que o mundo surgio do horrendo cáhos, Veio formar-lhe os seus primeiros dias, E Maio foi da terra a fresca aurora. Em mimos escondendo a magestade, He Maio o pai, e o rei da Natureza: Qual em soberbo paço, anda nos bosques; Ou, qual em solio, nos outeiros verdes Se assenta, ao lado da risonha Flora. Compõe-lhe o seu cortejo Auras, Favonios, Que das plumas azues fragrancia espargem Furtada ha pouco ás pudibundas rosas. Em seu reinado insolita doçura Exhala o canto dos volateis bandos, E canoro parece o bosque inteiro. Em seu reinado os prados florecentes Só curão de ostentar perfume e cores: E a Ninfa ás vezes longas horas fica A meditar na escolha dos ornatos.
Co’a folhagem densissima susurra O bosque annoso a celebrar-te, ó Maio; Susurra a celebrar-te o rio, a fonte. Com serena alegria o sol derrama Vasto oceano de luz no aereo espaço. A pompa da manhã, da tarde o brilho Tem não visto matiz d’oiro e de rosas, E côr de fogo sôbre um ceo de leite. Toda patente a abobada de estrellas, Toda brilhante a prateada lua, Te dão, como as do Elisio, alegres noites, De importuno calor desafrontadas, Chêias de encanto, da saudade amigas, Gratas a um tempo ao coração, e ao estro. Aqui, e ali os rouxinoes se escutão Longas horas c’os echos porfiando. Gira, vaguêa pelas fracas trevas Dos pirilampos o lustroso bando: Resoa em cada aldêa alguma frauta, E emtôrno d’ella as camponezas danção: Bala no aprisco impaciente o gado As poucas horas, que á manhã precedem.
Como he doce o teu mez, benigno Maio! Alegra-se o viandante ao ver nos campos Do verde trigo as trémulas searas Iguaes a um vasto lago, onde os favonios, Nascidos inda ha pouco entre as florestas, Aprendem a encrespar as verdes aguas. Aqui a par de um campo, onde começa O milho a despontar, desprega aos ares Com vaidosa soberba altas bandeiras De outros milhos o exército infinito. Ostentando riqueza alem menêão, Entre a argentea folhagem pendurados Cachos de flor, os olivaes fecundos. Os pomares de frutos se carregão, Que ja sem medo aos furacões, e ás chuvas, Com áncia a côr, e a madureza esperão. As aves da manhã, quando revôão Com longo canto pela immensa altura, Se aprazem de os olhar; e ás vezes descem, E vem pouzar nos encurvados ramos, O futuro sustento ali festejão: Tal de annos onze uma pequena virgem De adoradores mil se vê cercada; Bem que á sua belleza inda lhe faltem Terno expressivo olhar, globos de neve, Voluptuoso dezejo entre suspiros, Buscado enfeite, graciosas fallas, Rodêão-na comtudo, adivinhando Pelo botáõ fechado a flor aberta.
Mas, ó Maio, o teu mez não brilha esteril! La se ergue o laranjal c’os frutos d’oiro; Doces limões, e saborosas limas, D’entre a larga folhagem descobrindo A amarellada tez e o forte aroma, Prendem sentidos convidando ao furto; Ri-se entre as mais a alegre cerejeira, Que ainda que no gôsto a muitas cede, Mais que todas seduz co’as vivas bagas; A ginjeira com ella aposta encantos, Mas apenas gostada, a palma he sua; Iguaes a um coração em côr, em fórma Os suaves morangos ja maduros, Contentes da humildade, estão dormindo No fresco seio da materna planta: D’ali, se vem um zefiro acorda-los, Olhão em roda as pampinosas vinhas; E vendo como os pequeninos cachos, Que a fronte cingem do celeste Bromio, E um dia gratos brilharáõ nas mezas Mudados no licor, que gera os risos, Do nativo terreno apenas se erguem, Zombando riem da vaidosa audacia, Com que somem no ceo pomposo cume Árvores tantas menos uteis que elles. Por toda a parte as desveladas hortas C’o verde alegre das crescidas plantas O suor do colono estão pagando; Seu terreno sulcado está coberto De immensas produções, que vão nas mesas Ser preciso sustento, ou grato mimo, E ora entrar na choupana, ora nos Paços.
Em teus dias, ó Maio, as vélas sólta Sem medo o nauta pelo vasto oceano, E olhando puro o ceo, de leite as ondas, A cujas furias escapou nadando, Sobre a pôpa da náo regendo o leme, Pensa na esposa, nos filhinhos pensa; Prometteu-lhes voltar; nem ja receia, Maio, fiado em ti, ser-lhes perjuro: Sobre a cana do leme encosta os braços, E ou sólta em grande voz grosseiros versos, Ou costumada musica assobia Olhando a estrada de alvejante espuma, Que d’um e d’outro lado á prôa foge. Brinca nas aguas, e ou se esconde, ou salta De vagos peixes prateada turba; Na verde superficie as Ninfas danção, Da tarda noite nas caladas horas, Das estrellas á doce claridade.
Mas eu quero soltar mais altos vôos, Trazer ao mundo incognitas verdades. Em teus dias, ó Maio, os Páfios bosques Vírão nascer os trêfegos Amores! N’um valle opaco, onde buscando o fresco Costumavas dormir entre mil flores, La teve a Deoza o seu fecundo parto. Apenas sobre a attonita verdura Cípria depunha um pequenino alado, Logo o via nos ceos voar, sumir-se: Tal dos Amores o soberbo genio! Quando cançados de brincar nos ares, Um passatempo á terna Mãi pedião, Tu lhes foste ensinar pelas florestas A formar arcos de flexiveis ramos, E despedir, sem nunca errar, seus golpes. Tu lhes mostraste os rezinosos troncos, De que havião formar brilhantes fachos. Tu mesmo entre elles companheiro e mestre, Pelos campos as flores procuravas, Com que doces prizões tecer devião.
Tudo em teus dias no universo adora; O sexo, a idade, as condições não livrão. Entre o rebanho, que amoroso bala, Amoroso pastor canta ou suspira; Ternas gorgêão no arvoredo as aves; Ragem ardendo de dezejo as feras; Suspiros ouço ás arvores, e aos ventos; Abrem o seio as virgemzinhas flores, E Venus as fecunda, e mãis se tornão. Em cada gruta, em cada bosque ás Ninfas Uma emboscada os Sátiros aprestão. Em bellezas mortaes embevecido, Canta em rustica voz novos amores C’roado de pinheiro o Deos da Arcadia, E ante a Ninfa gentil mudada em canas Pelas canas da flauta os sons varía Com ar alegre, que perjuro o torna. Sensivel para o Sol se volta Clície; O Sol na terra outras bellezas busca, E outras acha, que o peito lhe cativão, E fazem que mais tarde a Thetis desça. Entre os astros as Pléiades luzentes Com saudade seus thalamos recordão: Junto d’ellas o Touro inda parece Mugir lembrado da formosa Europa. Mais placida refulge a Cípria estrella; Dissereis que saudosa indaga os sitios, Onde comtigo, venturoso Adonis, Passava as noites do formoso Maio: E quando foge, a Aurora se envergonha, E cora por voltar tão cedo ao mundo; Pois quem ha que não saiba os seus segredos? Quem de Céfalo a história não repete? Em cada tronco um dísticho de amores, Ou dois nomes se lem, como enlaçados. Uma sombra, uma só não ha nos campos, Onde Amor não recorde, ou não prepare, Ou não veja presente uma vitoria. Foi, Maio, foi teu mez que ao Rei das sombras Fez que deixasse o sempiterno cáhos, Para roubar a encantadora esquiva, Do flóreo campo de Enna ornato, e Deoza. Foi, Maio, foi teu mez que ouviu primeiro Diana a suspirar, arrepender-se De ser das virgens tutelar Deidade.
Graças ao teu poder, e ao teu influxo! És tu que a rir convidas gracioso Minerva um pouco a abandonar seus livros[13]. Quem póde resistir-te? emfim te cede, Toma-te pela mão, para que a leves A divagar em teus vistosos campos; O ar de meditação troca em agrados, E vê contente abandonar-lhe a côrte De seus alunos juvenil caterva, Que alvoraçada aos patrios lares vôa. Sim, Maio, eu voarei aos patrios lares! Mas cuidas que jamais distancia ou tempo D’este dia a memoria hão de apagar-me? Não: onde quer que os fados me conduzão Sempre te hei de cantar, sempre c’roado De teus altares me verás ministro: Mas d’esta sociedade, e d’estes brincos, Em quanto a noite se adornar de estrellas, Nunca a lembrança volverei sem mágoa.
De generoso vinho enchei-me o copo, Que de mírtea grinalda ornado quero. Imitai-me tambem. Por este, ó Maio, Suavissimo licor, pai da alegria, Por este, digo, cuja taça empunho, Juro ante o ceo, de teu altar em frente, Que um anno só não deixará meu estro De exaltar tua glória, e a minha amada, A Deoza tua mãi, a Primavera. Reformai-me outra vez a funda taça. Em honra a vós, formosas moradoras D’este ameno lugar, esta se esgote.
Aguardai, cabe agora o sacrificio; Vou-me a buscar a vítima, que a trouxe Occulta e prêza do batel na pôpa. Eis-me, abri-me caminho! eu volto ás aras: Para a santa ablução trazei-me um vaso. Silencio! fallo ao Deos!—“Sejão-te acceitos A vida, e leve espirito do prezo Que vem n’esta gaiola, o qual eu vate Por todos nós agora te dedico, E dedicado entrego ás livres Parcas. Digna he de ti formoso ave formosa Como esta; pintasilgo ativo em canto, Garrido em côres, no brincar esperto, Mestre em tirar do cristalino poço Com o balde de avelã sua bebida: Outro melhor nunca girou nos bosques. D’esta estação n’um dos primeiros dias, Segundo o meu costume antes da aurora Saí a espairecer nos campos verdes, Ouvir das aves os primeiros cantos, E aquecer-me sentado sobre a relva Ao primeiro calor do sol nascente. Banhei o rôsto n’um remanso puro, Colhi as flores inda ha pouco abertas; E co’a mente serena, e possuido Do amor do campo, e dos campestres gostos, Voltei de novo ao lar. Junto á janella Por onde largo sol ja vinha entrando, Fui sentar-me a pascer em vãs delicias. Eu sonhava acordado! ah nos meus sonhos Não via mais que bosques e pastores, Rebanhos, fontes, rusticas choupanas! Dono me cria d’um torrão pequeno Mas pingue, de uma choça pequenina Mas alva, entre nogueiras, rodeada De alvos cordeiros nédeos e alvas pombas. Eis que afoitando um vôo, esta avezinha Me entra por casa; ao seu gorgeio acórdo, Pois junto a mim pouzava gorgeando. Ouves, Maio, este som, com que parece Approvar adejando o que te conto? Ouves? repara bem: tal modulava Quando amoroso a vizitar-me veio. Ganhando confiança a pouco e pouco, Saltou-me para o hombro, e de improvizo Prêzo se vio na minha mão fechado. Quiz debater-se, emvão; piou, carpio-se, O bom coraçãozinho lhe batia. Beijei-o, puz-lhe mesa; o sem ventura Nada acceitava, anciando só fugir-me. “Conheces-me bem mal, pobre innocente, Lhe digo; essa gaiola he teu palacio Não carcere, eu teu servo e não tirano. Servo e palacio um dia de experiencia Talvez tos faça amar: se não, prometto Abrir-te a porta e libertar-te os vôos.” Á janella da minha a estancia d’elle Penduro; os aureos grãos e a clara linfa, Cama fôfa entre ramos florecentes, Vista de campo e céo por toda a parte, Mas livres um de açôr, outro do tiros, Manso, mansinho ás grades o affizerão: Comeo, bebeo, cantou. “Pois que tu cantas, Vatezinho silvestre, em nossa casa, Juntos e amigos ficaremos sempre. Tu serás de meus dias a harmonia, Eu tua providencia; a fonte e a messe Te viráõ procurar, dar-te-hei florestas La dentro em teus penates de cortiça, E porque logres tudo, uma consorte Virgem, bella, fagueira, e cujos filhos Seráõ só teus, e como tu formosos.” Desde então ledo vive, e tanto aos mimos Se acostumou domesticos, e tanto A amizade entendeo, que lhe abro a grade Fronteira aos ceos da aurora, aos bosques amplos, E nem bosques nem ceos lhe dizem—foge.— Da liberdade que lhe acena á porta Se despede cantando, e empoleirado, Reizinho em casa sua, a mim e a ella Nos compara, e lhe diz: “Aquelle humano Deos foi que para mim creou taes ocios!”
“He esta, ó Maio, a vítima que trago Ao sacrificio teu! perco um amigo!” Com esta mimosissima grinalda De sensitiva lhe circundo o collo, Para sinal da dor que me comprime. Vamos, venha o punhal, que eu limpo o pranto. Ó ceos!... quanto me custa! He sacrilegio Qualquer demora mais: ânimo agora, Saudoso coração!... Venceste, ó Maio! Venceste! consumou-se o sacrificio! O fio prêzo ao pé cortei de um golpe, Lancei-o ao ar; voou; nem ja o ouvimos. Foi rever seus antigos companheiros, Sua amada, seu bosque, e o seu alvergue. Oh! como será doce emtôrno ao sócio Que julgárão perdido, apinhoada Papear parabens a alada tribu! Oh tu lhes dize então do amigo o nome, Que vezes te beijei de madrugada Por me acordares co’o suave canto, Para trocar o leito pelo grato Passeio da manhã, d’onde trazia Pera a tua gaiola hastes de flores. Ouvirá leda a esposa a leda historia, E a contará depois aos tenros filhos. Talvez que em meu passeio inda algum dia, A festejar-me, emtôrno a mim se junte Chêa de gratidão toda a familia, Tu meu amigo, a tua esposa, e prole.
Dispersai-vos, bebei, cantai, amigos, Ride, e dançai, porque invejoso o tempo, Co’as cãs na fronte, e o coração gelado, As horas do prazer furta aos mancebos. Mas ai de nós, que o perfido voando Ja nos fugio co’a encantadora tarde!
Desçamos ao batel: adeos ó Lapa, Adeos, fica-te em paz; e cedo espera Ver de novo juntar-se á sombra tua Da Natureza os candidos Amigos. Deixai as varas, gracejemos antes, Não cumpre trabalhar, para fugirmos De um bosque sacro a Maio, e sacro ás Musas.
FIM DO CANTO PRIMEIRO.
A FESTA DE MAIO.
POEMETTO