A Primavera

CANTO II.

Chapter 216,725 wordsPublic domain

_A Tarde._

Ja dos louros as grimpas se embalanção: Surgir, surgir da relva sonolenta! Ja fresca viração consola os ares: Que zoada que vai por toda a selva! Estrépito de rio impetuoso Na calada da noite a crê mil vezes O viandante perdido. Hora da Festa, Bem te ouvimos anciosa estar chamando. ¡Da Primavera á Festa, á gruta, ó Socios, De Amarilis e Umbrano á vasta gruta! Ja agora o bom de Anfrizo ha de ter pronto De sua déstra mão o altar gramíneo, Arqueado em docel do cedro a cópa, E do cedro no pé com flórea tarja Da nossa Primavera aberto o nome, Se he que amor lhe não fez gravar _Dorinda_; Dorinda, cujos magicos encantos Na lira do amador gerão milagres; Cujos olhos, tão negros como a noite, São como a noite ao Deos de amor tão caros.

Sim, vamos — Vedes vós o pequenino Que la vem amontado em verde cana? Quão guapo agita as redeas côr de rosa, E açouta co’a varinha a brava fera! Ouvis-lhe a doce voz que por mim chama? —“Salve, menino! e adeos, que hoje não posso. “Outro dia virei, toda uma tarde, “Trabalhar nas flautinhas, que arremedem “Cantar de rouxinol soprando-as n’agua. “Amanhã me procura aqui no outeiro, “Verás, verás que historias te não conto.”—

Partio: como galopa afervorado! Ja vai conta-lo á mãi. Este menino He da aldea a doudice, e os meus amores. He dote de seus annos a innocencia, Como do botãozinho he dote a graça: Mas aqui ha melhor, he botãozinho Ja fragrante, he virtude antes do sizo. N’aquella sésta do abafado agosto, Quando fostes nadar, eu passeava Sozinho a espairecer pela frescura; Eis para mim correndo este menino, Vergonhoso me diz:—“Queres atar-me “Este cordel nas pontas do meu arco, “Bem seguro, bem forte, que não quebre?”— —“Sim, amavel menino (eu lhe respondo) “Sim quero atar-to bem seguro e forte”— E emquanto lho fazia, assim lhe disse: —“Vais caçar borboletas? ou mordeo-te “Alguma abelha, e queres castiga-la?”— —“Não, não: vou dar em minha mãi um tiro”— —“Um tiro em tua mãi!”—“Sim n’outro dia “Deo-me tanto nas mãos, que me ficarão “A doer, tão vermelhas como as rosas”— —“E porque assim te deo, que te ficassem “As mãozinhas vermelhas como as rosas?”— —“Eu tinha (acudio elle) um melro novo: “Era meu, apanhou-o a minha rede. “Sempre estava a cantar; era tão lindo! “E quando assobiava? os outros melros “Punhão-se la do bosque a responder-lhe, “Queria tanto á nossa Mirtilinha! “(A nossa Mirtilinha he a mais pequena “Das minhas trez irmãs): e ella tratava-o, “Quando eu hia á seara ás cegarregas. “No outro dia esqueceo nos a gaiola “Ao sol toda a manhã: quando fui vê-lo, “Não se podia ter, abria o bico “E não tomava nada. Um pequenito “Me disse que era calma: agarro n’elle, “Vou-me ao tanque, e mergulho-o cinco vezes. “Ficou muito peór: punha-o direito, “E elle sempre a caír, fechava os olhos, “E estremecia todo. Aquietou-se: “Cuidei eu que dormia e disse, Dorme, “Veio um velho, abanou-o, e disse, He morto. “Fui com elle na mão chorando, e em gritos, ta, “Procurar minha mãi. Ficou pasmada “Quando o vio, e eu lhe disse—Ahi está, não can- “Nem ja faz festa á nossa Mirtilinha— “Poz-se a ralhar por isto, e castigou me”— “Cruel menino (lhe volvi severo), “Cruel menino, e em tua mãi pretendes “Ir com setas vingar-te?”—“Oh! não (me torna), “Não lhe hei de fazer mal. Se tu soubesses “O que uma seta faz!...”—“Não te percebo, “E pois que faz? explica-te, saibamos”— —“Na cabana de Silvio (me responde) “Ha um cópo de páo todo pintado, “Que elle ja prometteo que me daria “Se eu lhe levasse a fita, com que ás vezes “A minha irmã Glicera ata os cabellos. “Por fóra do tal cópo está com um arco, “Para atirar a uma pastora linda, “Um menino como eu, com os olhos negros “Voltados para mim, e sempre a rir-se. “Anda nuzinho ao frio, e tem nos hombros “Azas, que lhe não ganha a borboleta. “Silvio disse-me o nome que lhe davão, “Porem ... ja me esqueceo: tambem me disse “Que elle costuma á gente descuidada “Atirar muita vez d’aquellas setas. “Eu cuidava que as setas matarião, “Tinhão-mo dito um dia os caçadores, “Mas Silvio me jurou que não matavão, “E contou-mo sem rir; Silvio não mente. “Aquellas setas vem, entrão no peito “Sem ferida nem sangue, e até sem dores. “Se obrigão a chorar e a ficar triste, “Como ás vezes succede ao meu bom Silvio, “Em toda esta tristeza ha tanto gôsto, “Que he mais doce gemer, que estar alegre. “Eu d’isto nada entendo, porem Silvio “Me disse que algum tempo o entenderia. “Lembra-me agora! o tal menino d’azas (certo “Chama-se _Amor_; não he verdade?”—“He (Lhe respondo, apertando-o nos meus braços), “Chama-se Amor, e he como tu formoso.”— —“E seus tiros não fazem que fiquemos “Tão amigos de alguem, como o cordeiro “Que anda a brincar com seu irmão no prado?”— —“Sim he verdade”—“Então venha o meu arco, “Ja tenho em casa muitas setas prontas, “Vou ferir minha mãi.”—“Louco! o teu arco “Como o d’elle não he (lhe brado rindo): “Lança-te ao collo seu, perdão lhe pede, “Beija-a, conta-lhe tudo, e eu te prometto “Por cada beijo teu, mil beijos d’ella”— Não me ouvio mais, correo: e de caminho Colheo para offertar-lhe algumas flores.

Mas eis-no; ja no suspirado sitio! Essa a gruta: este o cedro annoso e immenso, Condigno pavilhão do altar votivo. Inda as c’roas vos faltão, ela ó Socios, Rompei demoras, ide ás flores, ide, E volvei logo a dar princípio á Festa.

Só fiquei: se eu podesse aqui no prado Por meus olhos tambem colher algumas! (Que as violetas que hei posto andão ja murchas.) —“Ó pastorinha de formoso gado, “Se podes, nem te peza alguns momentos “Perder comigo, apanha-me violetas, “Ensinar-te-hei por prémio outros cantares. “Teu rafeiro no emtanto o gado vele.” Partio, deixando ao lado meu, na relva O cordeiro que tinha em seu regaço, Tão alvo, tão pequeno como um lirio. Pobre innocente! nos meus dedos busca Da mãi, que ao longe bala, a doce têta! Se comer ja soubesse, eu lhe daria D’estas papoulas, d’esta fina grama.

Que silencio! mal ouço uma fontinha; Serena viração de quando em quando; O crepitar miudo dos raminhos, Que a leve cabra arranca do espinheiro; A voz d’um lavrador aos bois tardios; E o cançado gemer de um carro ao longe.

Cá volve a minha Flora! estou c’roado: “Graças ó doce e rustica Belleza! Sempre emtorno de ti rebentem flores Que o teu rebanho cobiçoso pasça; Nunca te falte pelo estio a sombra: E amor te volte em fruto as esperanças, Se esperanças de amor no peito nutres. Vês tu aquelle altar? foi obra nossa, Foi por nós consagrado á Primavera, E vamos festeja-la. Altar sem Nume Faz menos devoção; se tu quizesses, Bem o podias ser. Anda, mimosa E amavel pastorinha; enflora á pressa A trança, o collo, o seio, e no regaço Lança flores quaesquer, qualquer verdura: Oh! da-me este prazer. Do cedro ao tronco Vai-te encostar do modo que te digo, Co’a mão na face, e com o sorrir nos labios[8]. Direi aos socios meus, quando voltarem: “Invoquei tanto e tanto os meus Amores (Nome he que á Deoza dou, não tenhas susto “Nem me furtos a mão) e he tão benigna, “Tão docil, tão cortez a Primavera, “Que saío do seu bosque, e apraz-lhe ouvir-nos.” Folgaremos de os ver caír no engano, Ajoelhar-se á fingida Primavera, E mais de coração cantar-lhe os hinos. De que te ris, singela rapariga? Porque foges de mim? Se não consentes, Cedo iremos buscar-te nos teus montes, Chamar-te Deoza, em dôbro envergonhar-te.”

Que he isto! ja volveis? mostrai-me as c’roas. Como escolheste bem, terno Josino, Meigo no coração, na voz mavioso! Goivos com mirtos para ti cazaste, Com o suave condiz a suavidade. Se nos campos do ceo, reino do Genio, Eu podesse colher miudos astros, Dos versos onde alçaste ao ceo meu nome C’roa de ethérea luz seria prémio. Dou-te o que posso, gravarei teu nome Em bosque, onde Hamadríades o leão: Decoraráõ com o verso os teus louvores, E alguma em si dirá: “Quem me ora désse Em minhas solidões este Josino, Por ver se he no cantar, qual dizem, meigo.”

Vejamos meu Irmão[9] a tua escolha. Eis-te como eu cingido de violetas; Ah quanto são iguaes os gostos nossos! Abraça-me cantor da natureza, Um a outro, um pelo outro aqui juremos Juntar sempre em busca-la a industria nossa. Abraça-me outra vez: nossa amizade, Nossa terna amizade, e nosso estudo Aperte mais e mais do sangue os laços. Se jamais fado atroz nos separasse ... Longe do pensamento esse impossivel! Duas vidas irmãs que medrão juntas Tem uma só raiz; dão flor, dão fruto Nas mesmas estações, e ás horas mesmas. Quer benção mande o ceo, quer sôpro de ira, Um só bem, um só mal abrange as duas, Emquanto uma existir persiste a sócia. Vai para o nosso altar, um só momento Me prende, o meu lugar tu la conserva Entre ti e o das Musas ja mimoso Nosso irmão, que no berço achou a flauta: Menino, a quem cingistes de alvas rosas, Como elle emblemas da innocencia breve.

Elmiro, o teu diadema he bello e simples; Mirto e teixo pregões de amor e mágoa. Não são menos de ver, nem menos proprias As vossas, bom Franzino, alegre Albano. Do amor perfeito as flores melindrosas Tecem, Franzino, a tua, e tem por joia Uma saudade a tremular na fronte. De teus suspiros o ditoso emprego Longe está, bem o sei, mas não suspires: Tua amada fiel na ausencia chora, Sua imaginação durante o dia Voa a buscar-te aos campos do Mondego; Dos campos do Mondego aos braços d’ella Sua imaginação te leva em sonhos. Albano, a ti o amor foi mais propício: Vês amiude os olhos que te inflammão E o sorrir facil que te muda em louco. Não muito abertas, incendidas rosas Cercando as tuas fontes, me afigurão A imagem ver de envergonhados beijos.

Vem meu Anfrizo: a tua d’entre todas He por certo a mais funebre grinalda; Um ramo de cipreste e alguns suspiros. Ah tua mãi tão cedo abandonar-te! Orfão triste, perdoa ao vate amigo, Que em chaga inda tão fresca a mão te ha pôsto. Se para ella ha balsamo no mundo, Só Amor sabe d’elle, e mãos de neve Tem para to applicar virtude innata. Sim, Dorinda gentil como que busca Esse ermo de tua alma encher de affetos, E no vão do teu peito insinuar-se. Mas a saudade maternal he muito; Todo o mundo, a amizade, e até Dorinda Só poderáõ na angustia confortar-te. Teu mal sustido chôro eis recomeça! Só a dor te contenta, á dor sirvamos: Narrar-te quero a historia do cipreste, Que dos ramos feraes partio comtigo.

Prêzo das graças da opulenta Silvia Titiro guardador de pobre armento, Com seus ais estes montes abalava. A bella desdenhosa, muitas vezes Quando o sentia a modular ternura Ao som da flauta n’um sombrio valle, Torcia, por não ve-lo, o seu caminho. Ah se o visse, estendido entre o rebanho, O pranto a borbulhar nos fitos olhos, E ao som da flauta, em baixa voz unidos De quando em quando um ai, e o nome d’ella! Rigores virginaes, desdens de rica A amor, á compaixão talvez cedessem, E ficasse mais bella, a ser piedosa. Por só consolação de seus desgostos, Co’a pèga que ja foi da ingrata Silvia Folgava repetir de Silvia o nome. Nunca a avezinha ao misero deixava, Que assim a havião prêza os novos mimos. Só ás vezes aos lares revoando Da formosa cruel, de la trazia Furtada alguma prenda ao pobre dono; Sem querer lhe atiçava o fogo inutil. Era triste, mas doce, ouvir de noite Pelos bosques bradar “Ó Silvia, ó Silvia” O terno amante; e acompanha-lo a pêga, Ja pouzada em seu hombro, ou ja gritando La de cima de um tronco “Ó Silvia, ó Silvia!” Longos tempos assim pelas florestas Vagar se ouvirão solitarios ambos; Té que o loquaz brutinho de cançado Veio um dia caír entre as mãos d’elle, Bateo as azas, terminou seus dias. Á fiel companheira ultimas honras Deo como poude Titiro: sagrou-lhe Um pequenino tumulo de barro, E um ciprestinho de anno, que por novo Inda estudava o geito de ser triste. Aos Numes implorou que o não crescessem: Mas pouco e pouco o tronco foi subindo, E com elle de Titiro a saudade. Bem póde ser que o tumulo não visses, Que ervas espessas de redor o afogão Ah desde que o pastor tambem jaz morto, Morto ás mãos da saudade, e em terra alhêa!

Tempo he da Festa. Á Festa!—Ahi estão as flautas Ja silvando rebate ás alegrias! Travai dança, alta dança ruidosa, Quaes em seu monte os Sátiros a saltão! Venhão de apoz os hinos: logo Bacho Nos acuda co’as taças, menineiro No aspéto e no palrar, no resto annoso, De cãs a reluzir por entre as parras. Ser-lhe-ha boa salva o retinir dos cópos E os das saudes misturados gritos. Do altar meu canto agora ascenda ao Nume!

Vem ó Dona das Graças e Flores, Volve á terra teu mago calor; Aos que fogem de amor gera amores, Nos que a amores se dão cria amor.

Tu és Venus, a Grecia delira Crendo-a Filha do túrbido mar, Tu és Venus e Musa da lira, Cumpre á lira teu Nume exaltar.

Tu és Dríade, e Náiade, e Flora, Mocidade e Saude e Prazer, Com mil nomes o mundo te adora, Mil poderes compoem teu poder.

Do Ceo puro és a noiva córada, És só d’elle como elle he só teu; Rica em trajos, de aromas banhada A seus beijos te off’rece Himeneo.

Feliz extase, abraço jocundo Do consorcio completa as prizões, Primavera, em teu seio fecundo Ja pullullão mais trez estações.

Á voz tua amorosa e macia, A teu mago e perpetuo sorrir Tudo cede, e te adora á porfia, Como te ha de o mortal resistir?

Léda brinca a feliz meninice, Léda a ninfa em seus dons se revê, Lédo o velho desruga a velhice, Tudo he lédo, e não sabe o porque.

Onde assomas o mato florece, Desatina a avezinha a cantar, Côr d’esp’ranças a terra amanhece, Arde o peixe nas brenhas do mar.

Perde as iras a rábida fera, E se estranha de ter coração. Primavera, que és tu Primavera? Vida, fôrça, virtude, união.

Desde que abre ao carneiro doirado Hora alegre o celeste redil, E das sombras e gelo espalhado Despe as terras Favonio subtíl;

Despe a mente por ti bafejada Suas neves e escuro invernal, Ressuscita de flores toucada, Enche a lira, nem sôa mortal.

Pois tu és quem me acorda e me inflamma, A ti, Deoza, os meus versos serão. Mas debalde o meu estro te chama, Os meus olhos jamais te verão!

Amigos, baixo he o Sol, findem-se os hinos: Ponde silencio aos copos falladores; Assaz he tempo. O dia era dos campos, Ás aguas toca a noite; a noite grave, Recolhida, saudosa, ama pascer-se No murmurinho de deserto rio: Tambem o coração tem dia e noite, E precisa dos bens desenfadar-se. Largo dista a corrente; o passo aperte Quem sabe quanto he grato á luz de estrellas Ouvir palrar as Náias a deshoras. Vamos tomando o gôsto aos fins da tarde; E emquanto mais ligeiro o bom Josino Corre a aprestar a barca, entreteremos O caminhar, colhendo rosmaninho Para o colchão nóturno. ¡Que delicias, Ir-se acamado em flores aboiando Á luz modesta da nascente lua! Ama o rio os cantares de saudade; Cantares de saudade atiraremos Até ao mar pelas sombrias margens. Logo que o não rogado, amigo sono, De papoulas toucado perguiçosas, Lá nos for procurar, e manso e manso Forem caindo os sons e pensamentos, Iremos amarrar na margem muda A qualquer tronco a barca flutuante: Lançaremos por cima o branco toldo, Bastante abrigo do nóturno orvalho: E estendidos macio, e conversando Em voz baixa, embalados cederemos Ao começado sono os restos da alma. Quando alta noite algum de nós acorde A um leve crepitar do linho undaute, Cuidará que uma Náiade surgíra Fóra da agua a cabeça curiosa, E inclina o seio ao bôrdo; e nos espreitas Assim como alvoreça, a luz da aurora, E vós, madrugadoras andorinhas, Para o campo acordado heis de acordar-nos. Correremos as candidas cortinas, E veremos de subito, encantados, Sobre nós a verdura estar pendente, Do pranto da manhã ja rociada.

Não tarda o Sol momentos em sumir-se; No mais vivo escarlate ensopa os campos, Tinge a folhage, os rostos nos accende, Por montes e olivaes dos ceos oppostos Começa a desdobrar seu manto a noite. Busca o rustico azilo o boi tardio; Por toda a parte os gados vão passando. Sustenhamos o halito, escutemos Esta distante musica toada Que assim transporta os animos em gôstos: He toda feminil, toda feitiços, Vem toda ao coração; oh se a conheço! Pastoras são, que ao longe no arvoredo, Vão para a aldea recolhendo em chusma O tropel dos rebanhos misturados. Cantão, porque he sazão de primavera, E peito de mulher, como avezinha, Desfaz-se em canto e amor em vendo flores: Cantão, porque de um dia assim formoso Serão formoso as toma, e o fuso leve Que andou por solidões um dia inteiro, Vai girar no conchego da fogueira; E cantão, porque flautas de pastores Que vão na companhia, as desafião. Mas tantos sons confunde-os a distancia, Figura-se uma voz de tantas vozes; Como que uma só boca a manda aos ares, Exprime um só afféto, um só deseja. Oh Natureza! oh Tarde! oh Primavera!... Lagrimas de prazer vertem meus olhos! Somos em bosques de propícias Fadas? Ou vaguêo ja Sombra, e vós comigo, Na semi-vida e semi-luz do Elisio?

Ja tudo se esvaío, tudo he silencio: Por campo e campo ao largo impera a Noite. Erguida a lua nova o horror lhe troca Em saudosa tristeza, e o mocho alerta La do alto a ajuda com o piar carpido: Ja ouço o estrepitar das frescas aguas. Vem barquinha da noite, perguiçosa, Vem, toma o rosmaninho, e a nós recebe, Oh que ameno he pousar passada a lida, Em meio de aguas tantas, rodeado De amigos bons, e triste, não de proprias Tristezas, sim das mansas do Universo! Ouvi, amigos meus, os meus dezejos, Quaes mos ora no seio estão brotando A hora, o sítio, a lua, aquelles pios; Relevai que ao folgar vos furte instantes.

Seios Deozes minhas supplicas ouvissem, Um torrão fertil, rústica vivenda, Houvérão de abrigar-me a vida pura: La minhas ambições se fartarião De nobre, de quieta obscuridade. Mas pois que de outra sorte aprouve aos Deozes, E o fio, não de lã grosseira e nívea, Me torcem, mas de ferro as trez do Averno, Guardai vós na memoria o meu dezejo.

Depois que entre os abraços delirantes De todos os que amei, findar meus dias, Sepultai-me n’um valle ignoto e fertil[10]. Para marcar da sepultura o sítio, Sôbre o cadaver, que vos foi tão caro, Mangeronas plantai, cuja verdura Em roda fechem variados lirios. Na raiz funda de soberba olaia Pouze a minha cabeça, e o tronco amigo Sobre mim curve a cópa florecente. Mil piteiras unidas, ostentando Na hastea vaidosa as flores amarellas, Em quadrado não grande me defendão Das incursões das cabras roedoras. Em meu tronco se escreva este epitafio:

_Foi poeta amador da Natureza:_ _D’entre as sombras ancioso a procurava,_ _Qual terno amante a bella fugitiva._

Sôbre isto pendurai sonora flauta, Que se revolva á discrição do vento. Não cerque os ossos meus, não mos ensombre Nem teixo nem cipreste; arvores quatro Quizéra só no meu jardim de morte. N’um canto a larangeira graciosa, Que mescla util e doce, a flor e o fruto: N’outro a figueira sob as amplas folhas Modesta occulte seus nectareos mimos: Defronte um pecegueiro em frutos mostre Que amavel he pudor, quando enche faces De penugem subtil inda cobertas: No ultimo canto ... (a escolha me confunde) Plantai no ultimo canto uma ginjeira, He a arvore da infancia, até na altura; D’esta por sua mão colhe um menino A mui ridente baga, e ri de ufano. Alguns tempos depois que a fria terra Meus restos encerrar, á minha olaia Vós, meus amigos, vós dareis meu nome, Pois de mim se nutrio, e eu serei n’ella.

Dos guerreiros nos tumulos afiem Faminta espada os barbaros guerreiros: No sepulchro do sabio o sabio estude; E dos reis nos marmoreos monumentos Vá sonhar a ambição, grandeza e pompas: Vós soltos de freneticas loucuras Aqui vireis mil vezes vizitar-me, Na amizade pensar que nos uníra, E unir-nos deverá transposto o Lethes. Porque me interrompeis com taes suspiros? Ah! deixai-me acabar. Quando sentados Emtorno a mim na flórida alcatifa, Guardardes meditando alto silencio, Se d’entre as mangeronas que me cobrem, Saír acaso a borboleta errante, ¿Não vereis n’ella o espirito do amigo Que vem gozar do sol a claridade? Quando o suave rouxinol de noite Da minha olaia gorgear nos ramos, Não pensareis, de santo horror tranzidos, Que feito rouxinol, meus cantos sólto? Sim pensareis, e erguendo-se inspirado Algum lhe ha de bradar “Ó meu Amigo!” Responderáõ “Ó meu Amigo” os bosques; E vós direis que o meu fantasma errante Da argentea lua á muda claridade, Á conhecida voz d’alem responde, E em tudo encontrareis a imagem minha.

Se inda então meus costumes vos lembrarem, Se vos lembrar meu coração piedoso, Velai que em meu retiro as bellas aves De caçador cruel cantem seguras: Amor, o leve Amor, com arco d’oiro, Só elle e mais ninguem, logre atirar-lhes; Careço de amorosa melodia Que me poetize o sono derrabeiro: Morto que nada tem preciza d’estas Pobres delicias rusticas, se folga Que a namorada moça, o terno amante Juntos ou sós, a vizitá-lo acudão. Então ao som de languidos suspiros, De alegres cantos, de amorosos versos, De ternas queixas, de perdões suaves, Muitas vezes contente a minha Sombra; Formando ao pôr do sol vermelha nuvem, Girará n’estes ares, revolvendo Da passada existencia almas lembranças.

FIM DO POEMETTO

NOTAS AO POEMETTO ANTECEDENTE.

_Pag. 109. verso 10._

Com seus trovões, com seus coriscos _horridos_.

Trazia este verso na primeira edição a seguinte Nota—_Eis àhi os primeiros esdruxolos que fiz em minha vida, e espero que sejão os ultimos, ainda que por isso que fique excluido da communhão de certa Seita moderna._—Supprimi-a, e no declarar o porque, vou dar não equivoca prova da minha candura. Prezar-se um escritor de mais amigo da verdade que de Platão e de Aristoteles, alguma couza he; mostrar porem que mais do que a si proprio a ama, certo que não he vulgar o exemplo, e esse tenho eu dado, e não raro, ja fallando ja escrevendo limpa e rasgadamente o que de minhas Obras me parece. He um bom propozito que eu fiz em meu interior, e espero não quebrantar nunca, não só porque de si he honesto e nobre, senão que por este meio, o qual não custa mais do que algum suspiro á nossa vaidade que sempre se torce e confrange de ser mostrada nua, me estremarei da manada dos charlatães literarios, de quem nem o estomago me consente fallar. E porque chegue por direito caminho á questão dos esdruxolos, recordarei com vénia e boa paz dos leitores, o que ja no Prologo da terceira Edição das minhas _Cartas de Echo_ deixei tocado; com a differença, que d’esta vez o farei mais explicitamente.

No tempo em que eu cursava meus estudos na Universidade de Coimbra, florecia ella com muitos e bons engenhos de mancebos dados ás Bellas-letras. E porque ainda então se não tinhão accendido os desastradissimos odios das parcialidades políticas, a Hobbesiana propensão de guerrear se exercia nas letras. Duas seitas de escrever se contavão; a cada uma das quaes não faltavão admiradores, apostolos e evangelistas, assim como por isso mesmo inimigos, escarnecedores e parodiadores. Os Livros em que uma juramentava os seus adeptos, erão Gessner e Bocage; Filinto era o Alcorão da outra. Gessner quanto ás couzas e affétos, e Bocage quanto ao térso e lustroso de estilo e metro, erão os idolos de uma; os da outra erão, quanto a couzas e affétos Filinto, quanto a estilo e metro Filinto, e Filinto quanto a tudo em que Filinto podesse bem ou mal ser imitado. Tinha cada uma d’ellas suas vantagens e seus descontos, como agora claramente diviso, quando as considero com animo livro e desassombrado de preoccupações. Não fallarei aqui de Gessner, porque ja no Prologo o fiz; confrontarei somente, e de corrida, Elmano e Filinto.

A ambos dotára natureza de talentos, bem que entre si diversissimos, assaz fortes todavia que podessem cunhar á sua feição a poesia do seus tempos. Elmano, que talvez em seu genero nos ficará sendo unico, de fôrça devia deslumbrar e encantar pelo caudal inexhaurivel, brilhante e estrepitoso de sua vêa, que eu appellidarei, e ria quem rir, um Niagara de talento: e assim como, os que pasmão deante d’essa grande catarata de puro embevecidos em sua cópia e magnificencia, não tem olhos para notar o esteril do seu curso, o assolador do seu ímpeto, e os penedos que rója envoltos e desfarçados com suas aguas, assim os que presentes assistirão ao poetar de Bocage, ou da tradição o receberão, fascinados com os seus estrondos, espumas e iris, mal se podem lembrar de lhe desejar afféto, sizo, e exatidão, que muitas vezes lhe fallecem.

Cinco couzas, pelo menos, para o bom poeta se requerem: _faculdade inventiva_—_faculdade sensitiva_—_sciencia_—_lingua_—_e ouvido_; e ainda com estas cinco outra, que talvez resultará rempre de sua união, e sem a qual todas as mais seráõ baldadas; fallo d’aquelle discernimento pronto, que a muitos erradamente pafeceo instinto, e a que se costuma dar nome de _gôsto_. Em raros sujeitos concorrem tantos predicados; por isso só de longe a longe apparecem os maximos poetas, e ja se dão por grandes aquelles a quem menos faltou d’estes requisitos. —

_Faculdade inventiva_ ou não a tinha, ou apenas a tinha Manoel Maria; a sua queda para tradutor bastaria para indicio, se de indicios te carecesse aonde claras reluzem as provas: um _Fado_, um _Jove_, _Eternidade_, _Natureza_, _Sóes_ e _Caos_ são o _index rerum notabilium_ da maior parte de seus escritos; e tanto abunda n’estes bordões sustedores e disfarçadores de sua fraqueza, como Ferreira (e quem descobrirá os meus?) na cançada repetição do _esprito_, Jorge de Montemayor na de _hermoso_ e _hermosura_, Pina e Mello na de _alento_ e _impulso_, Alfeno Cynthio na de _santo_ (epítheto, que por mais não ter onde o pegue, até o poem, se bem me lembro, como arrebique na cara de suas pastoras e namoradas): com a differença que os particulares bordões d’estes poetas, e ainda outros de outros muitos, não são em suas Obras senão meras circunstancias e accidentes, e os de Bocage menos são estribilhos do que fundo o substancia de inteiros e repetidos periodos.

De _faculdade sensitiva_ talvez o houvesse menos escaçamente dotado a natureza, mas outras qualidades que lhe ella mesma deo em maior auge, taes como volubilidade de fantasia, aspereza de condição, espirito sobranceiro e satírico, e coração, como elle mesmo confessa.

_Mais propenso ao furor do que á ternura,_ lhe entibiarão os affétos benignos, de que sé a longes distancias lhe sáe, como a descuido, algum reflexo. A estes máos e naturaes elementos accrescêrão desvarios da fortuna ou do acaso, bem valentes para de todo lhe seccarem a fonte das branduras. Vida mal preparada de educação, nua dos amoraveis habitos domesticos, desalumiada de doutrina e estudo, aturdida de applausos contínuos e encarecidos, amargurada amiude de pobreza, vagabunda entre amigos não amados e por terras não suas, vida, porque tudo diga, corrida á ventura e sem norte conhecido, desenfreada de todas as leis, sôlta por todos os vicios, cínica por timbre, e por indole silvestre e bravia, como podia ser que lhe não tisnasse no germen os affétos maviosos? Isso foi, e isso conhece quem bem attento o ler e meditar. Mas em desconto, as paixões fortes como o ciume, a colera, a vingança, sente-as e pinta-as vigoroso, assim como todos os objétos grandiosos, remontados, encarecidos, ou terriveis. Não vos debuxará um mendigo, avergado de annos, estendido n’umas palhas esquecidas, junto do cão seu ultimo companheiro, e orando no desamparo da noute, por quem, sem o convidar para a sua fogueira do inverno, lhe deo fóra da porta meia fatia de pão; nem ainda as carícias de uma mãi a seu filho: mas dir-vos-ha, rico e altisono, os impetos de uma tempestade, a sanha de uma batalha, as iras de uma madrasta, ou as furias de um infeliz que pragueja sua má ventura.

Os affétos e a invenção póde a _sciencia_ por álgum modo suppri-los, opulentando-nos com os affétos e invenção de melhores autores, uma vez que por nós tenhamos a arte de bem escolher, bem digerir, e bem converter esses literarios alimentos em substancia nossa, em nosso proprio ser: ainda mui boa estrella he essa, e não poucos dos afamados desde Virgilio até ós nossos dias, só á sciencia, e a essa arte de a aproveitar, haverão devido a melhor parte do seu credito. He o saber, princípio e fonte de bem escrever, dizia o Mestre dos poetas; e dizia o dos oradores, que uns e outros era mister entenderem de tudo. E se ja isso foi nos tempos antigos conselho e quasi preceito, preceito absoluto se tornou, e necessidade, para quem escreve n’estes tempos, em que a luz se derramou mais ampla, em que as sciencias, cançadas de viver sobre si, se congregarão como boas irmãs em uma só familia, juntarão os seus patrimonios em commum, e cada uma ajudando a todas as outras, vem a por todas ellas receber um infinito accrescimo em seu peculio. Limitadissima era a instrução de Bocage: o latim e o francez, na primeira de cujas linguas mormente era primoroso sabedor, segundo referem, podérão ter-lha dado copiosissima: mas nem a viveza de seu animo, os prazeres e os divertimentos que em seu cerrado círculo o trazião como enfeitiçado, lhe permittião estudos, nem são elles facil couza para pobres e viciosos, nem o que era saudado por divino, como quer que _desatasse na voz o acceso turbilhão_ de suas ideas, carecia de ir excavar em livros o suado cabedal, com que outros negocêão veneração.

Quanto á _linguagem_, não será pêjo dizer, que a usava limpa e sã, não se podendo taxar a sua de mendiga e remendada, como a ja muitos de seus contemporaneos vinha acontecendo, nem encarecer de rica e ambiciosa: pouco tinha lido do portuguez, mas esse pouco com aproveitamento: só d’isso ajudado, e do latim la se foi remindo e esteando a sua Musa sem emprestimos do francez; e este carecer de vicios ja então era grande virtude. Para lhe darem, como a texto, cabimento em nosso Diccionario[11], não vejo eu razão sufficiente, assim como a não ha para o desprezo e esquecimento, em que os havidos por puritanos o deixárão cair. Uma couza he porem verdade irrefragavel, e he, que em nenhum escritor, antigo nem moderno, apparece a lingua portugueza mais senhoril e polida, mais igual e ao meio entre o usual e o sublime, entre a penuria e a prodigalidade.

Somos chegados á _harmonia_, o mais eminente merito de Bocage, e no qual nem antecessor teve, nem ainda até hoje successor. De todas as partes que em Bocage concorrião para poeta, nenhuma havia tão delicada, e em que tanto se houvesse a natureza esmerado como o ouvido. A verdadeira musica dos nossos metros, particularmente do hendecassíllabo, não só a desempenhou e ensinou elle, senão que a inventou; e com felicidade tão rara, que não cuido se possa a pontar hespanhol, e nem por ventura italiano que o iguale, e mais he o italiano pela abundancia de suas brandas e variadas vogaes, pelo moderado e macio de suas consoantes, pelas licenças e elasticidade de seus vocabulos, muito mais pronto e domavel para todo o uso métrico do que o portuguez. Poucos estafárão tanto os consoantes como Bocage (e ainda ahi he grande o seu louvor, que não he dado rimar mais primorosamente); mas a ninguem erão os consoantes mais escuzados: são esses para o verso uns arrebiques e sinaes com que os mal assombrados se disfarção, para poderem apparecer, mas de que os graciosos e bellos não carecem, nem os devem consentir, por não parecerem menos do que são. Porque não ouzarei eu dizer, que mais são os seus versos poeticos, do que era poeta elle proprio? Como simples cantilena agradão, agradão ainda quando por vãos os engeita o juizo e o coração por frios: um estrangeiro que ignorante d’esta lingua os ouvisse bem e devidamente ler, recrear-se-hia como com a toada de um bem tangido instrumento. Grande excellencia por certo he esta, á qual principalmente deveo levar traz si suspensos e encantados os animos, e por onde logrou ser, sem o cuidar, fundador de uma escola, que se me não engano, ainda de todo não passou. Toda a gloria de engenho he oiro em que nunca faltão fezes: o produzir pela mágica de sua versificação uma seita de versificadores, por honroso se podéra haver, se aos discipulos podesse ter transmittido, juntamente com as normas, o talento, a fôrça, a graça e o gôsto com que as produzia e aperfeiçoava: porem quiz algum Genio máo, para lhe humilhar a vaidade e descontar a vitoria, que a maior parte de seus sectarios menos lhe tomassem a melodia do que os escarcéos, as empollas, os trocadilhos, as apóstrofes, as redundancias, e os versos que ja se hoje chamão de dobrar,

_Seu mais doce penhor, seu bem mais doce.—_ _Vio n’ella os risos, vio as graças n’ella.—_ _Um Deos não he perjuro, um Deos não mente._ _Que não paga de um Deos, de um Ceo não paga,_ _Ouzaste pregoar mais Ceos, mais Deozes.—_

versos, que parcamente lançados, como nas Obras de Virgilio, tem graça; semeados a frouxo são affeites e desdoiros do estilo.

Do seu _gôsto_ ja me julgo dispensado de fallar, porque me parece que o que d’isso podéra dizer por si mesmo está nascendo do que fica dito. Concluamos: o que de Bocage digo em geral, com suas exceções se ha de entender, porque por uma parte muitas paginas ha suas, mormente em algumas traduções do francez, onde parece lhe esqueceo pôr o tal verniz de dicção e sons que para si inventára, e de que a ninguem deixou a verdadeira receita: e por outra parte tambem, obras ternos suas, mormente sonetos e traduções latinas, cabaes e redondissimamente perfeitas.—Passemo-nos já a tomar iguaes contas a Filinto.

Muito mais melindroso he este processo, até porque ja o querer tomar-lhas será para seus apaniguados um crime de leso Apollo, e primeira cabeça. Valha-me porem a declaração que faço, de que em tudo quanto disser, não seguirei outras partes que as de minha razão, declarando previamente que muito pouco dou eu mesmo por ella; mais são consultas que faço que sentenças que profiro, e antes exercicios de imparcialidade do que acintei de inimigo: de ninguem o sou, quanto mais de poetas, de perseguidos, de velhos, de mortos. Foi tempo em que eu, obscuro poetastre do Mondego, ria e vazava epigrammas contra o tradutor dos _Martyres_: hoje se me afigure muito mais valioso. He elle o mesmo, mudei eu; Deos sabe quantas vezes mudarei ainda com os annos: do mudar não he nossa a culpa; nossa he porem, e feíssima a de persistir no erro conhecido; se a republica literaria tivesse inquisidores, por heresia e contumacia que não havião relaxar ao braço secular. Ha por ahi muito homem do meu officio que possa dizer de si outro tanto? Mas deixemos esses que estão vivos, e vamo-nos a Filinto.

Se he ou não _creador_, ja vi ser renhida questão entre ociosos: para mim tenho que semelhante titulo mal lhe pode caber. O frequente verter ha pouco disse eu que denunciava esterilidade; e podéra accrescentar uma sentença ainda mais desabrida, que ha muito encontrei, cuido que nas Lições literarias do Doutor inglez Blair, e que muito me caío; a saber, que o costume de traduzir, bem que olhado pela rama pareça dever ser frutífero, sempre ao cabo vem a desgastar-nos a faculdade inventiva. Compara-lo hei com o linho, que apezar de tão precizo no mundo e de tão agradavel aos lavradores depois de colhido, por isto só desgosta a muitos d’elles, que a terra onde se criou fica magra, e como elles dizem queimada para outras novidades. Muito mais de metade dos tomos de Filinto trazem no titulo os nomes de autores estranhos, devendo-se ainda lançar a este rol por boa restituição, bastantes Obras, que talvez por descuido, imprimio sem nenhuma menção de serem, como erão, vertidas. As imitações são no merito e inconvenientes meias traduções, e as do nosso poeta são numerosissimas, disfarçadas umas, outras manhosamente dissimuladas. No resto que he de sua lavra, apenas se nos depara couza que abone talento original e produtivo a: são os chamados lugares communs de poesia filosofica, que ja por safados custão a passar, e as tão esfalfadas visões e apparecimentos de Apollos, de Musas, de Amores, de Pégasos, e de outros mil defuntos, a quem o tempo ja comeo o balsamo, e que todavia são ainda a unica povoação de quasi todos seus poemas, tanto jocosos como sérios. Algumas vezes me vem desconfianças de que n’aquelle passo da Sátira do _Bilhar_, em que o nosso Tolentino parece rir de certas Odes, contra Filinto hia tirada a seta de sua crítica:

_Co’as verdes mãos o serpeado Tejo_ _Alça o trilingue, mádido tridente;_ _Mas que Górgona filtra? eu vejo, eu vejo ..._ Em dizendo isto he Ode certamente.

Em _affétos_ porem sobreleva a Bocage, e não abunda. A espaços lhe vislumbrão assomos d’aquella sismadora melancolia, que mais ou menos respira em todos os bons poetas. As amarguras e saudades, que em tão larga vida e desterro lhe não faltárão, alguma, e não rara vez, lhe soprárão versos amoraveis, e deliciosos de tristeza. He este de todos os dotes de poeta o mais caramente comprado; sendo assim que Deos sabe quantas vezes em applaudir um verso que nos toca, batemos por ventura palmas a calados infortunios de quem no-lo escreveo. Não nos assuntos ditos _sentimentaes_ se conhece tanto o verdadeiro sentimento, como nos de indole mais fria e izenta; porque, se n’estes ultimos apparece inesperada uma palavra maviosa, n’uma flor de festa uma nôdoa de lagrima a descuido, ahi vem o infallivel documento de ternura e suavidade: e d’estas sombras de lagrimas, d’estas palavras, maviosas achamo-las em Filinto.

Na _sciencia_ he que elle mais notoriamente leva a palma ao seu contendor. Que muito? com o dôbro de vida, com precizáõ de estudar para se divertir das mágoas e ganhar pão, com o ar e tráfico de Paris onde todos inspirão e expirão letras, e com tão espaçosa velhice, pingue quadra em que as paixões quietando nos deixão todo o silencio, remanso e curiosidade necessarios para o estudo! Tornarão-se-lhe familiares os classicos portuguezes e latinos, de uns e outros dos quaes talvez Bocage não tivesse acabado dois ou trez volumes; familiares os classicos francezes, hespanhoes e italianos, e ainda as versões dos inglezes e allemães. Á roda d’elle chovião de dia a dia, e de hora a hora, os frutos novos de todos os ramos das Sciencias, de que he impossivel a quem por lá vive não provar, até sem querer, e ao cabo não se nutrir e fortificar. Entretanto repararia eu, se o ousasse, que para quem logrou concurso de tão favoraveis circunstancias, como as que a sua má estrella lhe deparou, não saío Filinto o que se podéra esperar de noticioso e culto; e ou desaproveitou o maná que ás mãos do espirito lhe chovia, ou se o tomou lhe não luzio. Á primeira d’estas duas conjéturas me inclino, porque segundo o que de seu natural alcanço por suas Obras, parece-me que na lição das estranhas mais se hia á caça de vocabulos e frases curiosas, insolentes e atrevidas, do que de doutrinas e filosofia. A sua era meã e usual: cançados louvores á Liberdade, á Amisade e á sã Virtude, ao estudo, ao descanço e ao deleite, alguns arremeços de encontro aos Bonzos e Naires, eis ahi sondado até ao lastro o seu poço de saber moral: alguma historia não rara antiga e moderna, eis todo o seu saber positivo; e todo o seu saber natural, alguns dos principios geraes e diarios das Sciencias fisicas. E certo, que se mais avultados fossem estes seus cabedaes, e vêa mais fecunda lhe consentisse anciar mais altas couzas do que palavras e frases, não se deixára ficar tanto atraz no meio de um seculo novo e alado de poesia; não se contentára o seu estro abstémio com a agua do Parnaso até á ultima hora da vida; e não nos deixára seus volumes pejados quasi só de fabula, como armarios de muzeu antiquario, onde se não vai procurar qual he o mundo em que vivemos, mas deduzir de troncados e desluzidos fragmentos, o que em tal ou tal parte da terra houve lá n’outros tempos, com os quaes e com a qual só pouco ou nada temos. Diz um Escritor insigne[12], que a poesia assim como ontr’ora viveo de fabula, revive hoje e se apascenta de verdade. Melhor dissera que de verdade viveo em todos os tempos a nobre poesia, pois que o que para nós se descubrio fabula, era nos dias em que appareceo e florio, verdade de factos, ou capa allegórica de verdades, mui crida e sincera.—Resumamos; Filinto soube mais que Bocage, menos do que podéra, e diverso do que devêra saber.

A _linguagem_, de que pela ordem se me segue fallar, mais requeria n’este caso um tratado, do que uma nota de fugida. Algum dia o tentarei, quando me achar mais de assento e sobre mão do que agora, que as justas raias d’este escrito me estão tolhendo. He a linguagem e elocução a principal feição caraterística de Francisco Manoel, como de Manoel Maria o he a harmoniosa elegancia.

A torrente das hipérboles e conceitos hia arrazando e engolindo todo o nosso Parnaso, quando para lhe pôr a ella diques, e a elle salva-lo, e repovoa-lo de natureza, appareceo a Arcadia. Detençosa e ardua se representava a obra, como aquella em que a razão nua tinha de lutar com a imaginação delirante. Para anteparar ímpetos de vêa tão engrossada com as contínuas nascentes e tão copiosas de Italia, Hespanha e Portugal, ja tão senhora do leito e dominadora das margens, era mister que braços fortes lhe levantassem muralhas solidas de grossa e pezada cantaria. Virão os Arcades como lhes estavão á mão as obras, não todas primorosas, mas quasi todas massiças dos nossos quinhentistas e dos romanos classieos: erão accommodadas ao intento, dizião com seu gôsto e costume; valerão-se d’ellas, accrescentarão-lhes as suas proprias, levantarão o muro; bramio, quebrou e escoou-se a inundação. Raro he o bem, que só porque o he, não traga outros comsigo: dos trabalhos, que havião tido por fim acabar com os nojos e puerilidades do falso engenho, nasceo um conhecimento mais profundo da linguagem, mais extremoso amor á sua pureza, e o comêço do encarniçado e ainda não findo pleito, entre a puridade e o gallicismo. Verdade he que n’este segundo campo se não guerreou com tão favoravel marte como no primeiro, porque se as maravilhas da _Fenix Renascida_ passárão, os gallicismos fôrão em successivo crescimento, sendo ja hoje tão caudaes e trasbordados, que princípio a desconfiar não haverá remedio senão rendermo-nos, encruzar os braços, e deicharmo-nos ir ao fundo: tanto estou convencido de que nem a propria razão he poderosa contra o espirito de um povo: e a final de contas, Deos sabe, até n’isto, o que he razão!

Era Filinto, por sua amizade e commercio íntimo com os sujeitos de maior credito na Arcadia, e por motivos de sua propria conveniencia, homem que de necessidade devia entrar na pendencia, e sustenta-la até á ultima: n’isso assentou, e o cumprio mui pontualmente. Entendeu desde todo o princípio, como aquelle a quem não fallecia bom juizo, em se prover das armas seguras e bem temperadas, sem que lhe não conviria arriscar-se no combate: e se as defensivas que vestio lhe podessem ter saído tão impenetraveis ás setas do ridiculo como as offensivas que meneou erão fortes e penetrantes, guapissimo Cavalleiro houvéra apparecido, e invencivel. Do antigo portuguez e do latim instituio concertar toda sua armadura: com diurna e nóturna mão versou pois os monumentos de ambas estas linguas; e quanto do portuguez ja feito se podia enthezourar, ou se lhe podia accrescentar por derivação, por composição, por analogia, por translação, ou por qualquer outra licença poetica, sem embargo de desenvolta e extrema, tudo ouzou com ardimento verdadeiramente admiravel. Fez estranheza a novidade, offenderão-se os mimosos com o escabroso e difficil de tal estilo, arripiarão-se os pusillanimes com o arrôjo, os ignorantes e priguiçosos com a immensa fadiga que bem vião seria necessaria para entender, não só imitar e seguir, quem tão por fóra caminhava das veredas batidas e vulgares. Todos estes, e com elles os invejosos, saírão em campo, combaterão, e apuparão, e quanto mais apupavão e combatião, mais recrescia em Filinto o acintoso proposito de se não descer do começado, antes encarecê-lo sempre até o ultimo ponto. Outra causa havia que para isto lhe fazia fôrça, e era conhecer como sem estes bordados, recamos e relêvos de frase, o cabedal de suas galas poeticas appareceria, qual em realidade era, grosso, commum e de mui baixa valia. Mas quer o movesse esta causa bem perdoavel, quer fosse generosidade com que se offerecia aos motejos, e desapreço de muitos, com o só intuito de restaurar, e avantajado, o edificio do idioma portuguez, sempre fica certo que n’este particular mereceo mui bem de sua patria, e a deixou muito mais medrada do que a achára. Oxalá que dois ou trez mais, dotados de igual credito, pozessem como elle peito á empreza; e muito embora demaziassem como elle: cunhassem a flux tudo quanto dão as minas portugueza e romana; ainda muito oiro puro de dicção viria enriquecer-nos, e facilitar-nos o tracto; pôsto que tambem como elle lá cunhassem á mistura oiro enfezado, não de lei, nem de receber: o juizo público estremaria umas de outras moedas, e as engeitadas a ninguem farião mal, se não fosse ao credito de seu autor. Assim crescêra cabedal, que ainda mingoa para as obras do engenho patrio. Nossa lingua, qual por ora a temos, e até restituindo-lhe todos seus fóros caídos, todas suas joias enterradas, não supre as hodiernas precizões do espirito. Quando a esfera do saber, sentir e pensar se está de hora para hora dilatando no mundo, do qual nós outros (ainda que o não pareçâmos) somos tambem parte, forçado hé que a esféra da expressão ao mesmo compasso se dilate, e engrandeça. Repôr ao idioma quanto ja teve será louvavel consciencia, porem não bastará, se apoz isso se lhe não dér com mão liberal, mas prudente, quanta substancia nova elle possa receber e commutar, para que na apostada carreira que os entendimentos das nações agora levão para o infinito desconhecido, o da nossa, por fraco e sem azas, se não deixe ficar atraz.

Uma reflexão quero eu aqui fazer, mais que a taxem de digressão; não será nova para os que escrevem, mas servirá para que os que lem se abstenhão mais de acoimar pobrezas em nossos poetas. Ja das palavras se averiguou serem ellas fio e arrimo de que a mente se vale para melhor ir seguindo por suas ideas sem queda nem tropêço. Pois se as palavras, que não passão de reflexos e retratos do pensamento, tem virtude para o fecundar, menos ainda se duvidará precizar a imaginação poetica de uma abundante linguagem, para se manifestar por obras, assim como o pintor de finas e variadas tintas para seus paineis, e o musico de instrumento pronto e copiosamente registado, para enlevar os animos. O poeta francez, porque tem uma lingua que á fôrça de bem cultivada por muitos e differentes engenhos, se accommoda préstes e serviçal aos pensamentos mais subtis e novos, e aos affétos mais delicados e passageiros, d’ella se ajuda para inventar, e com ella exprime completamente o que inventou. Não assim nós, que em pertendendo alçar-nos por cima das communs ideas do nosso paiz, nos achâmos, sem o cuidar, pensando em francez; e se isso, que bem ou mal nos apparece na alma, tentâmos passa-lo para o papel, suâmos, bramimos, aqui nos faltão de todo as expressões, ali só tibias nos acodem, outras mal determinadas e mal entendidas, outras estiradas em perífrases. Dai-me o proprio Lamartine nascido nas margens do Tejo, e pedi-lhe uma só _Meditação_, uma só epocha de _Jocelyn_; grande será o acêrto se as conceber, quasi impossivel que as escreva. Ponderou Condillac mui avizadamente, que a razão porque apparecião em certo povo e tempo maior numero de varões abalisados em letras, era o ponto de crescimento e sufficiencia abastada a que chegou n’esse tempo a lingua d’esse povo. Melhor será que o deixemos por sua boca doutrinar-nos, que bom missionario he em couzas d’estas.

“Acontece com as linguas (diz elle) o mesmo que com os algarismos dos geómetras: quanto mais perfeitas são, mais vistas novas nos offerecem, e mais nos dilatão o espirito. Os bons acertos de Newton de antemão havião sido preparados pela escolha dos sinaes que antes d’elle se fizera, e pelos methodos de calculo ja imaginados. Se mais cedo nascesse, podéra ter sido homem grande para o seu seculo, mas não fôra agora maravilha d’este nosso. Outro tanto vai pelos demais generos. A boa fortuna dos engenhos mais bem aparelhados inteiramente depende dos progressos da lingua no seculo em que vivem, porque os vocabulos correspondem aos algarismos dos geómetras, e o modo de empregar os vocabulos corresponde aos methodos do calculo. Por tanto, em uma lingua aonde ha penuria de palavras ou de construções bem azadas, ha os mesmos obstaculos em que a geometria topava antes do invento da algebra. O idioma francez foi por largo discurso de tempo tão pouco ageitado aos progressos do espirito, que se imaginarmos Corneille em cada um dos seculos ascendentes da monarchia franceza, quanto mais ao remontar nos fôrmos afastando do em que viveo, tanto mais, e gradualmente, irá mingoando o seu engenho, e chegar-se-hia por ultimo a um Corneille que nenhuma prova poderia dar de talento.”

Voltemos a Filinto. Não decedirei se houve ou não bom fundamento para o allegarem por autor e texto, como o fizerão na quarta edição do Diccionario de Moraes: nem ouzaria eu pôr mão no fogo pela infallibilidade de sua pureza, porque (mas a medo e sommisso vai o dito, que por dito e não sentença merece vénia) aqui ou acolá se me figura enxergar por suas paginas algumas nódoas d’aquella mesma côr a que nunca perdoou odio. Mas se as ha, são manchas, no passo que o geral de sua escritura he recheado de muitas preciosidades para quem poz peito a bem escrever esta lingua. Por toda a parte lhe estão pullullando lusitanismos em vocabulos, frases, collocação, inversões, geito e feição de períodos, que se houver gôsto em quem lê para os joeirar e limpar de alguma mistura chôcha ou sédiça, farão muito bom sustento para poetas e prozadores. Se houver gôsto, puz eu, e muito que o puz de indústria, porque, os que d’elle carecerem, lição tal só os fará mais ridiculos; os que ainda o não houverem formado, e se metterem por esses onze e mais volumes sem bom e constante Mentor, não sei se em linguagem e em poesia viráõ nunca a dar fruto que bem saiba e se abençoe.

Em summa, Francisco Manoel do Nascimento foi um martyr da religião de nossa lingua: para lhe lançar mais gloria cerceou a sua propria: com o excessivo das joias com que a arreou, deixou-a affétada, e menos matrona grave do que bailarina de corda; sim habilidosa e leve, mas dengosa e presumida: mostrou-lhe o como e por onde devia subir á perfeição, a que por outros, porem tarde e mui tarde, será levada: foi, porque tudo diga, um destemperado despertador, que nos poz a pé para o dia das letras.—Quero repetir, fez serviço talvez maior que nenhum dos classicos, mas he de todos o menos para seguir ás cegas. Bem haja elle que tocou a alvorada para nos acordar, mas mal haja quem quizer ficar com trombeta tão rouca e dissonante a tocar alvoradas todo o dia: ja estamos acordados, cabe agora aproveitar o tempo, como gente de juizo.

Se da lingua passâmos em Filinto á _harmonia métrica_, damos maior salto que o de Léucade, e como cumprindo igual oraculo, ou nos afogamos em um mar bravo, ou de lá surdimos curados de todo o amor a tal poeta. Em nenhuma das quatro ou cinco partes do globo, e em nenhuma era se metrificou jamais lão dura, desleixada e insolentemente. Se alguma vez se esquece com dois ou trez versos bons, logo se vinga com duas ou trez duzias, que se os reduzissem a linhas iguaes, não serião mais nem menos que desaceiada proza. E ainda he para agradecer quando só lhe falta melodia, porque algumas vezes nos dispara versos, em que as pauzas vem todas desconjuntadas, e outros, em que sobejão síllabas, por mais que a maço as procuremos entalar e embeber umas por outras.—A sua rima he por via de regra desnatural a pobre: os seus sonetos e toda sua lírica de consoantes, enxabimentos ou arripíos. Bem se alcança como erão arrufos de maltratado, as injurias que em muitas partes vomitou contra a rima, e não como as de Boileau, vozes só de um juizo rigoroso, que de dentro das letras as media. Nos defeitos de versificador fez de idade para idade successivos enotados progressos, sendo assim que ou por desleixo, ou por certa petulancia, em que engenhos grandes muitas vezes cáem, tomando por timbre o escarnecer do Publico, quanto mais hia usando do officio, tanto mais desprimoroso se foi mostrando, até ganhar tão duro callo na consciencia, que nem a deliciosa harmonia dos versos de Racine lhe podia ja ao cabo inspirar, um só verso toleravel de tradução.

Do muito que só deixo apontado se deduz a idea que para mim tenho do seu _gôsto_; melhor será do que só deixa-la deduzir, declara-la. Parece-me pois ser o seu gôsto pouco e máo; e n’isto estribo o parecer: 1.º que para suas Obras originaes costumava de escolher fracos sujeitos—2.º que as pejava de taes invenções que ja em tempo de Romanos o não erão—3.º que por vida se repete, e por costume redunda—4.º que na ordem desordenadissima em que seus escritos pôz, anda o peor tão travado com o melhor, e as puerilidades vergonhosas com as Odes que lhe lucrárão nome, que sem que o lustre do bom disfarce o máo, o esqualor e nojo d’este deturpa e estraga aquelle—5.º que se para traduzir elegeo ás vezes bons originaes, taes como o Oberon e os Martyres, outras os escolheo desenganadamente incapazes, taes como a triste historia em verso da Guerra Púnica: outras vezes, escolhendo originaes optimos, nem antevio, nem pelo discurso do trabalho conheceo, nem sequer sentio depois de findo (porque talvez se o sentisse nos houvéra poupado a ler a versão), que havia n’essas Obras exclusivos e essencialidades, quer da lingua em que estavão feitas, quer do engenho que as fizera; haja vista ás tão graciosas e admiraveis fabulas de Lafontaine, que em Filinto parecem tanto as mesmas, como a estampa de Bertoldo se podéra julgar retrato do Apollo de Belveder. etc. etc. etc. etc.

Taes são hoje para mim Filinto e Bocage: mui outros dos que ja me parecêrão, e talvez dos que me hão de parecer quando novos livros, novas couzas, e o rodear dos annos me houverem feito sou ordinario e incontrastavel officio. N’aquellas eras pois, que ja eras antigas se me representão aquelles meus tempos, caía todo com o meu Gessner em braços, para a parte de Bocage, mancebo e lustrozo; e se me figurava que se lograsse trava-los, fundi-los em um, faria obra de se me agradecer. Os partidarios de Filinto, que não sei porque, trazião guerra declarada com Bocage, vierão saindo de seus montes escarpados, empeçados e tenebrosos, para dar váias e tirar remêssos de epigrammas ao nosso bando: cerrámo-nos com a bandeira, démos sobre elles com iguaes armas, foi batalha campal, rôta e sem misericordia: não houve mórtos nem cativos, poucos transfugas, feridos muitos. Recolhidos nas trincheiras, cantámos uns e outros, como he costume, o _Te deum_ da vitoria; dobrámos a altura aos vallos, e profundez aos fossos que nos estremavão; jurámos não acceitar nunca pazes, quanto menos commette-las, nem consentir em alguma couza que ás dos inimigos se parecesse. Eu que fôra dos mal feridos e ainda palpava as costuras, como havia de faltar a nenhum ponto da conjuração? Muitos d’elles merecerião tratados, mas porque não fazem para o fim d’esta Nota, venho aos esdruxolos, e só libarei a materia.

Da natureza, como quer que seja, nos vem sempre o gôsto; mas sendo que a moda, que muitas vezes se gera de um acaso, introduz o uso, e este chega a mudar ou alterar a natureza, vem a ser o gôsto em muitos casos enleada materia e muito esquiva para questão, abonando-se talvez por ahi o proverbio, que sobre gôstos prohibe disputar. Dir-me-hão, que nada tem a natureza com os métros, que só a moda a seu talante os cria e os acaba: he e não he verdade; mas tambem isso deixaremos de parte, por pedir digressão larga e mui sobida filosofia. Em breve, parece-me que a fantasia ou o acaso inventa os métros, a moda os espalha e rege, a nossa natureza se lhes affaz, mas deve quanto podér afeiçoa-los e conchega-los comsigo. Das dez, onze ou doze síllabas de que pode constar o nosso verso heroico, quiz a moda que o numero de onze fosse em Portugal, Hespanha e Italia o usual e corrente; moda que estribou no ser d’estas linguas, em que a quantia de vozes graves excede á das agudas e dactílicas. Costumou-se o ouvido com a igualdade da queda, criou uma certa natureza, e todas as vezes que inopinadamente o obrigão a outra queda maior ou menor, como que se espanta e sobresalta: porei exemplo nos que sobem ou descem ás escuras e ja pelo tino uma escada; se lhes falta no subir um degráo com que ainda contavão, o pé que no ar pôz firmeza cáe em falso, e comsigo leva todo o corpo estremecido; se lhes sobeja um no descer, o pé que ja se dava por assente, não desce mas atropella e traspoem. Por tanto, regra geral, o verso grave, que he o da moda e tambem o da nossa natureza, he o de que nos deveremos servir: como porem entre as couzas sujeitas á poesia, se nos deparem algumas, cuja indole póde ser esse mesmo estremeçáõ, ou atropellamento, razão será que em taes casos bem averiguados e por via de excéção, acudamos á idea com o verso que melhor lhe condiz: os exemplos são faceis de colher nos autores, não gastaremos com elles papel. Ora para se consentir n’esta excéção, não deixa de haver outro motivo de algum momento, e verdadeiramente he elle o mesmo em que a regra geral se fundou; porque as estranhezas, que por desagradaveis persuadírão á regra, por uteis nos conformão com a excéção, sendo que tem virtude para nos espertarem, quando o embalar da monotonia nos vai adormecendo. Não por outra causa, vierão os melhores metrificadores latinos em variar, ainda que rarissima vez, os seus hexámetros perfeitos com o espondaico ou com um monosíllabo final: ambos nos abalão; os primeiros em certo modo como os esdruxolos, os segundos como os agudos; e abalando-nos a propozito, por exemplo para sentirmos a queda do animal no famoso _procumbit humi bos_, deixão-nos afiados para proseguir com attenção, e melhor tomar o gôsto ao caminho, que outra vez continúa lizo e macio, passado o tropêço.

Assentámos o princípio, vejamos se o uso lhe tem sido conforme. A Italia, attenta a prontidão, e musica de sua lingua, devêra ser d’estes trez povos do sul o mais aprimorado em toda a qualidade de metrificação, e todavia he o contrario no hendecasíllabo sôlto, podendo dizer por si o que o seu Ovidio poz na boca de Narciso, que a sua riqueza a fez pobre: os seus poetas, ainda os modernissimos, sôbre não curarem dos sons que recheão o verso, e quantas vezes nem das pauzas, sôbre estirarem desmesuradamente os seus períodos, consentindo que os versos se travem e encadêem de contínuo, misturão sem nenhum motivo de effeito, os versos agudos e esdrúxolos com os graves, segundo o acaso lhos vai deparando. He o mesmo que succede a quem possue terra de sobejo fertil e facil: ella que supra por si ás primeiras precizões; trabalhe-se o necessario para que não falte, o resto, que bastaria para a fazer paraizo, dê-se á priguiça. Os francezes, que tão menos poetica lingua tinhão, obrigados por essa mesma pobreza a cultiva-la, esmerados e incançaveis, ¡quanto a não levão ja por arte, adeante do que por natureza podéra ser a italiana! são n’uma parte os paúes de Hollanda a produzir; na outra, terras pingues e dobradas de Otaiti a regalar com pão e frutos espontaneos aos semi-nus e ociosos naturaes. D’este versejar de italianos, me dizia uma vez José Agostinho de Macedo, que a maior parte de taes poesias lhe dava a lembrar as récuas de mulos de almocreve, que enfiados e prezos uns a outros, ao som dos chocalhos enfadosos, la se vão, ora tropeçando ora erguendo-se, continuando o caminho, e sempre chegão com a carga onde tem de ir. Quando assim fallo, quero que se entenda que me não refiro a todos sem excéção, mas só ao geral d’aquelles poetas. Bem pode ser que os haja agora primorosissimos que eu não conheça, e dos conheçidos alguns ha com quem não serei tão severo taes como Monti na tradução da Illiada, Fóscolo se me não engana a lembrança que d’elle me ficou, Alexandre Manzoni, e Felice Romani.

Em Portugal, pois que a lingua era tambem préstes e serviçal, e os que n’ella poeta vão se comprazião de se irem sempre na pista dos Toscanos, sente-se nos poetas antigos o mesmo desmazelo. La andão com os versos graves os esdruxolos inuteis, ainda que não frequentes e os agudos aos cardumes. Camões, que de todos elles foi por ventura o de mais delicado ouvido, rimando hendecasíllabos, até na epopea não duvidou em os pôr, quando acaso lhe apparecião, e sem nenhuma intenção ou fito poetico; o que a Vasco Mauzinho de Quebedo seu inferior em poesia, mas superior, se he lícito dizê-lo, em metrificar, por tal arte desagradou, que em todo o poema de Affonso Africano nunca interpolou com elles versos graves, e d’isso faz alarde em seu prologo.

N’esta incerteza correo a couza até os nossos tempos, em que dois homens de fôrça, dois athletas da poesia, representando cada um uma das encontradas opiniões, devião ter perante os olhos publicos um calado e rijo certame, para decisão ultima da contenda. Foi Bocage o mancebo, cavalleiro da metrificação liza e uniforme; o velho Filinto da mista e libérrima. Todo o empenho de Bocage era a harmonia constante, todos os seus versos forão graves, e de compasso batido. Nascimento queria por cima de todas as outras couzas dar todas suas ideas, boas ou más, graudas ou miudas, mui bem pintadas e repintadas, que ainda quando insignificantes, não deixassem de ferir na vista. Servia Bocage ao metro como a senhor: Nascimento, como de escravo se servia d’elle, trazia-o rôto, contrafeito, demudado, e por todas as ilhargas estalando com o pezo da carga. Se he lícito comparar estes dois poetas com outros dois romanos, de muito mais subidos quilates, digo, que são na metrificação hendecasíllaba, o que nos dístichos elegíacos eróticos forão Ovidio e Propercio. O dísticho de Ovidio he sempre torneado por medida, nada lhe falta nem sóbra, reluz de polido, e algumas vezes pouco péza: nos de Propercio ha sempre mais succo de couzas (bastante espremeo d’elles Ovidio para seu remedio); mas o hexámetro sáe amiude desalinhado, o pentámetro dissonante da sua usual toada, acabando não em dissíllabo, como para bem o requer o geito de tal metro, mas em trissílabos e quadrissíllabos á moda de Catullo; partem-se menos apuradamente os hemistíchios, embebe-se e embrulha-se em demazia o pentámetro no hexámetro, e, o que mais rijo he, o hexámetro de um dísticho no pentámetro do anterior; o que não tira ser Propercio, em meu conceito, um poeta de mui alta valia (e não sei se diga que o unico amante apaixonado dos antigos, com licença dos grammaticos e dos priguiçosos que o engeitão por escuro), e Ovidio um dos mais bem assombrados engenhos do mundo.

Do que levo ponderado, se he exáto como cuido que he, segue-se que nem Bocage, nem Filinto erão para modellos absolutos, e que tão desacordado andava quem não consentia em verso que grave não fosse, como quem esdruxolava por vida e fóra d’aquelles casos em que o esdruxolar traz em si mesmo a desculpa e o louvor. Entendi que ja por acinte o fazião, e por acinte contra acinte escrevi essa Nota da primeira edição, que atraz deixo trasladada. Fôra o voto pueril, conheci-o assim como o sangue alvoraçado da batalha me esfriou, mas tão sobre maneira se oppunha a vergonha a uma retratação, que permaneci até hoje sem um esdruxolo em tantos versos soltos como tenho impresso, e tantos mais que ainda não saírão á luz. Quantas vezes, compondo a _Noite do Castello_ e o _Bardo_, não senti tentações e ímpetos de romper e acabar por uma vez com uma prizão imaginária, que a olhos vistos me estava tolhendo mui bons effeitos poeticos; e comtudo confrangia-me, esquivava-me, escrupuleava, e não podia acabar comigo que me resolvesse, podendo dizer como aquelle rei de França _La se vai tudo, menos a honra_. Os passos d’esses poemas em que tal me acontecia, por si se estão indo agora denunciando, póstos os dactílicos imitativos nos lugares, que abaixo do final se podem reputar pelos mais autorizados e distintos do verso, que são o ponto do hemistíchio ou pauza do meio verso, e o comêço do seguinte, quando fica bem cortado e estremado. — D’este livro ao deante me dou por desobrigado do voto; e eis aqui, me parece, o como lã para os outros me hei de haver: nunca porer só por pôr ou por me forrar trabalho, verso dactílico; nunca o engeitarei quando a fôrça, graça ou qualquer outra vantagem da poesia o requererem. Bem quizera dizer outro tanto dos agudos, mas ahi ainda o meu antojo he forte; sei que a razão não está menos por elles, e não ouzo segui-la: veremos o que o tempo, grande causador de mudanças, poderá trazer comsigo.

NOTA

_de Augusto Frederico de Castilho._

_Pag. 118. verso 6._

Vejamos, meu Irmão, a tua escolha. &c.

Quando um autor, para publicar os seus pensamentos se entrega á nossa boa fé o lealdade, os nossos olhos e mãos para logo mudão de dono, ficão seus; tem de vigiar e selar o depósito confiado, para que nada se lhe accrescente nem cercêe: qualquer palavra, qualquer vírgula de mais ou de menos, por muito que as pareção estar pedindo este ou aquelle passo do texto, são mais que violação de testamento, porque ideas são propriedade mais real e sagrada do que bens da fortuna. Assim he, mas cumpre que não seja assim na presente occasião: faltarei ao direito do autor e á minha obrigação de secretario, para cumprir com outra mais santa lei, a do amor fraterno, alliviando aqui, e em mais de uma maneira, o meu coração, ás escondidas do mesmo autor, para quem serão grande novidade estas linhas, quando de alguem (que não de mim) as chegar a ouvir ler.

Direi em primeiro lugar, que na Festa da Primavera, cujas honras forão na maior parte a meu Irmão, os versos a que esta Nota vai lançada tanto abalo fizerão em mim, que pela primeira vez os lia, que eu me vi necessitado a interrompê-los coberto de lagrimas e afogado em soluços, para me ir lançar no seio d’elle, protestando-lhe assim, com um silencio que eu não tive palavras para romper, que os seus dezejos de vivermos para sempre unidos, ja em mim erão necessidade, e que o pensamento de separação se me representava tão _atroz_ e _impossivel_ como a elle. Eu o vi profundamente commovido entre os meus braços, e foi esta a primeira vez em que nos-fizemos uma declaração tão expressa e amor, nós que semelhantes aos _Dois amigos_ de Gessner, sempre tinhamos vivido e contávamos com viver um para o outro, sem ainda uma só vez nos havermos dado o nome de amigos. O meu voto, ufano-me de o dizer, tem sido santamente cumprido: ja la vão quinze annos, e eis-me aqui ao lado d’elle, eis-me tão inseparavel como tinha sido desde menino até áquella hora! que digo? ainda mais, porque para reparar a perda horrivel que elle acaba de experimentar; eu carecia de ter agora em mim, em vez de um, dois ou mais corações para lhe offerecer.

Agora cumpre-me preencher o principal fim d’esta Nota, transcrevendo para aqui alguns versos parallelos a estes, de um meu Poemetto, que com o titulo de _Primavera_ recitei n’aquelle mesmo Dia. Os elogios que o leitor vai achar, não mos inspirou só a amizade fraternal, mas a convicção em que ainda hoje estou, e hoje muito mais, do subido mérito do elogiado. Aqui era o lugar de desmentir um grande numero, talvez a maior parte das sentenças, que sôbre a valia d’estes poemas a sua modestia (em tudo excessiva) lhe dictou no Ante-Prologo, e principalmente no Prologo d’este Livro: mas não cuido que a minha licença possa chegar tanto adeante: calar-me-hei, bastando-me agora ter desabafado, por algum modo, nos versos que se vão ler.

E tu, meu caro Irmão, tu me arrabatas, Quando magico attráes aos sons da lira, As Musas da Danubio á foz do Tejo. Oh dize-me onde has visto a Natureza, Virgem tão bella para ti sorrindo? La na idade infantil, quando teus olhos Inda na luz formosos se espraiavão, ¿Veio ella mesma perfumar-te o berço, Tingir-te em rósea côr dos ceos o espaço, Encher-te o ar de ignotas harmonias, De affétos orvalhar-te o brando seio, E com magas visões doirar teus sonhos? Sim veio; e quaes na mente que as afaga As maternas feições impressas ficão, Taes seu olhar, e voz, e graça, e tudo Te vivem, te reluzem pela mente, Doirão-te a escuridão, compõem-te um mundo, Em silencio te admiro ha longo tempo; E até (que fui tão louco) ouzei co’as tuas Minhas fôrças medir, tentar-te a gloria. Não somos nós irmãos, me disse eu mesmo? Não corremos iguaes no longo estudo? Pois ha de a lira d’elle ousar prodigios, Sem que, para a imitar, desperte a minha? Mas que vale o dezejo, o sangue, o estudo! Tu sabes remontar-te aos ceos n’um vôo: Eu tento, eu me debato, ergo-me, cáio, No inglorio chão cançado me adormeço: Será pois d’elle só a eternidade. Só d’elle? a sua gloria aos dois nos basta; Qual nossos corações amor vincula, Tal has de unir, ó fama, os nomes d’ambos. Com todo o eterno sôpro enchendo a tuba, “Este o maior, dirás dos lusos vates!” Dirás depois mais baixo: “Este com os olhos “Leo e estudou do Irmão, do terno amigo.”

OS CANTOS DE ABRIL IDILLIO.

_O mais deslavado e insôsso Poemetto na primeira edição, erão Os Cantos de Abril. Só a invenção fôra boa; na execução e estilo revia um tão contínuo desprimor, que me foi necessario demolir e reedificar. Por tanto, com o mesmo titulo he obra diversa, muito melhor, mas não perfeita, porque ja para a emenda da emenda não chegou a paciencia._

DEDICATORIA A MEU PAI.

_He a educação o maior prezente que de homem se pode haver. Vós, meu Pai, fizestes mais do que educar-me: superior a uma preoccupação tão geral quão perniciosa, vistes nascer o meu engenho poetico e não o destruistes, viste-lo crescer e não o contrastastes, senão que antes lhe déstes amparo, bafo e desvelos. Eis aqui por tanto um reconhecimento da minha gratidão._

_Oxalá possão estes versos, que me afouto a vos offerecer, agradar-vos tanto, como os Cantos de Abril, no silencio da noite e debaixo do parreiral da cabana, agradárão ao bom Menalca._

ADVERTENCIA.

Notar-se-ha que por todos os Poemettos d’este livro se dão sempre versos á infancia, e n’este Idillio tem ella não uma parte, nem a principal, senão o todo: se o porque, pode importar a alguem, agora lho direi brevemente.

Parece-me um Menino, de todas as couzas graciosas que Deos fez u graciosissima. Aquelle ajuntamento e consonancia de tantos dotes; formosura, d’elle proprio nem buscada nem sabida; graças que lhe ninguem ensinou; singeleza e candura; alegria, fraqueza, innocencia; e muito afféto, e muito mostra-lo; e total descuido do porvir; e não o temer nada; e a poesia particular do seu dizer; e a sua grammaticazinha natural que a nó nos faz rir, couzas são estas que apoz si me levão esquecido e encantado. No trato d’estes botões da humanidade, que vem abrindo, parece-me, e ja pareceo a muitos, poderem-se lucrar boas vantagens: ja não fallo em seu bondoso contentamento que talvez se pega, e na felicidade de recobrarmos horas de meninice, imitando-os, sem saber, a elles, como elles nos imitão a nós; fallo porem no muito que o nosso espirito se acostuma então a estremar o bom do máo, e a joeirar cá dentro o puro do impuro, para nem por sonhos profanar o que das mãos da natureza saío e se conserva santo. E demais, um Menino não sabe nada, quer saber tudo, e por tudo nos pergunta: ¿não he isso estar-nos pondo a caminho de muitos descobrimentos de verdades e relações das couzas, que nunca aliás por nossa preguiça ou descuido fariamos?—Muitas pessoas vejo, e faz-me pena, desamarem as creanças, despreza-las, havê-las por menos de gente, tolher-lhes as fallas, as obras de sua idade, e Deos sabe se tambem o entendimento: eu por mim, quero-lhes muito, porque entendo que excedem em valia aos seus desprezadores, e sinto que a mim me levão grande vantagem em bondade e ventura. De um ajuntamento esplendido mil vezes tenho fugido para elles: no campo, melhor que em nenhuma outra parte, saboreio esta doçura a meu contento. Todos os pequenos das aldeas em que tenho estado me conhecem, e sei que são meus amigos: apinhão-se-me ao redor em me vendo; invento jogos, historias ou conversas para elles; divirto-os, divertem-me; uns com outros, e uns de outros aprendemos.

Erão horas bem doiradas essas de minha vida, como as ja tivéra João Jaques, como as terão tido muitos, e como as poderáõ ter quantos as dezejarem.

_Lisboa: 7 de Janeiro de 1837._

OS CANTOS DE ABRIL IDILLIO.

Por um serão de Abril suave e ameno, Menalca, a bella Dafne, e seus trez filhos, Estavão-se a folgar ante a cabana. Por entre as parras do sonoro alpendre A mansa lua chêa se enlevava, Espreitando esta rústica familia. Menalca erà ja velho: os justos Deozes, Querendo premiar lhe a larga vida Passada em os amar e amar aos homens, De Citheréa ao Filho havião dito: “Filho de Citheréa, entrega Dafne Por esposa na Menalca, a fim que o velho Remoce, vendo ao lar a mocidade, E a virtude que tem o alegre em outrem.” Amor nem sempre aos Deozes obedece, Porem amava a Dafne; entrançou logo A florente cadêa, e vendo-os prezos, Tanto a si mesmo do que fez se aprouve, Que ficou sempre entre elles na cabana.

“Filho de Citheréa, accrescentárão Depois os Deozes, da-lhe o teu retrato Em filhos, e uma filha irmã das Graças, A fim que em seu crepúsculo da tarde. O velho inda se alegre, e abrace esp’ranças: Da-lhe prole, o fada-la a nós pertence.” E Amor lhe déra prole, dois meninos Seu retrato, e uma filha irmã das Graças. Ja rosas de abril decimo florecem No semblante de Silvia; um anno a vence Titiro; e vence a este um anno Alexis.

Menalca, em juncos molles estendido, Tem da esposa no candido regaço Como em ninho amoroso a branca fronte: Pelas feições transpira-lhe bondade; O mistico luar o diviniza. Dafne o contempla muda, e niveos dedos De afagar umas cãs sentem vaidade. Elle a querida mão colhe entre as suas, Beijada a achêga ao rosto, os fracos olhos Derrama pelos céos alumiados, E fitando-os na lua “Olhai, meus filhos, Olhai, disse elle, como brilha a lua! Que suavidade e paz não côa ao largo O astro das noites! como attráe da terra Nosso espirito humilde a pensamentos De outro mundo melhor, mansão de Deozes! Que esp’ranças, de saudades misturadas, Não traz a pura noite ás almas puras! Dias que em vão suspiro, amenos dias Da minha mocidade...! agora jazo Como arvore das folhas despedida, Que mais não florirá, porque o machado Ja lhe abrio marca para se ir ao fogo. Então era eu cantor chamado ás festas, E afamado por longe entre os cantores Na frauta e no rabil, porque os meus cantos Erão sempre á Virtude e á Natureza. Por uns serões assim, como acodião Todos a ouvir-me! As Ninfas era fama Que descião do bosque, e pelas sarças Vinhão pôr mais de perto o ouvido á escuta: E os ventos se detinhão, recostados Aos duros troncos, sem bolir co’os ramos. Té dizião que a frauta, em que eu tangia, O benevolo Pan ma déra em sonhos. E ora jaz, annos ha, de pó coberta! Em tôrno ao meu fogão ja não se apinhão Os pegureiros a aprender-me os cantos, Meu cabello nevou, nevou minha alma. Ah! se não fosseis vós, Dafne, meus filhos, Vivido tenho assaz, pedíra aos Numes Tornar a ver meus pais n’outras cabanas, Onde he perpetua a luz, e a eternidade Uma estação de musicas e flores. Quando eu la renascer á vossa espera, Á tua espera ó Dafne, á vossa ó filhos, Resurgirá comigo a minha frauta; E com ella enganando aquella ausencia, Penosa até no Elisio, em versos novos Louvando os Immortaes, e eterno eu mesmo, Pedir-lhes-hei comtudo que só tarde Vos levem para mim; que vos derramem De virtudes e bens copiosas bençãos Sempre n’esta cabana, onde hei nascido; E que no meu sepulchro o passageiro Diga parando—Ó bom pastor Menales, Leve te seja a terra, e tu contente Porque os teus filhos te excedêrão todos.”

Aqui sentio caír na fronte calva Uma calada lagrima, e doeo-lhe Ter nublado o prazer de seus Penates. Senta-se, alegra o rosto, enchuga os olhos; E unindo ao seio a esposa “Ouvi meus filhos:” O cantar diz co’a noite, agrada á lua, Contenta á vossa mãi. Cantai louvores D’este suave Abril; nunca em meus versos Deixei de o celebrar, quando era moço. Os pastores de outr’ora Abril sagrarão A Venus, graciosa Mãi de tudo. Vede-a n’aquella estrella estar sorrindo; As glorias do seu mez são glorias d’ella. Alexis, principia, eu te acompanho Co’a tua mesma frauta; os sons da frauta Dão como vida ás solidões da noite. Seja a toada a que inventei (quão lédo!) No dia que nasceste, e a nossos olhos Se doirou de alegria esta cabana: Bem a sabes, começa, e Pan te ajude.

ALEXIS.

Eu amo o verde Abril, porque he formoso, Todo está chêo de arvores vestidas.

TITIRO.

Eu amo o alegre Abril, porque he sonoro; Vem cantado por bandos de avesinhas.

SILVIA.

Eu amo o rico Abril porque he cheiroso, Espalha em cada prado um mar de flores.

ALEXIS.

A folhagem traz sombra, as sombras trazem: Seus folgares da sésta á gente grande, E a nós para brincar franca licença.

TITIRO.

As aves são dos ares alegria; Chamão na madrugada os preguiçosos, E divertem na lida aos lavradores.

SILVIA.

Flores dão côr á terra, e cheiro ás auras; Flores são mãis da fruta; os Deozes rindo As crearão, e rindo acceitão flores.

ALEXIS.

O Pan que está na gruta do arvoredo Não pára senão lá, por mais que o mudem; Sinal que um bosque e a sombra apraz aos Deozes. Tudo ali he formoso á maravilha! Por baixo a fresquidão, por cima o verde; A terra de reflexos variada; O této sonoroso e movediço; Mais alto, o ceo azul, dado ás amostras. E que direis do rio entre arvoredos? ¿Como se pintão na agua aquellas folhas, E o vento que as revolve, e as pombas alvas Pelos ramos, e um sol desfeito em muitos? Parece que no fundo do remanso Tem Pan outro arvoredo, igual em tudo. Quando hoje eu lá passava, a Pan dei graças, Porque achei que um tal sítio encantaria Ó meu Pai, teus passeios solitarios.

TITIRO.

Fonte como a das Náiades nenhuma: Cantão-lhe em volta passaros sem conto; Sinal que o bando alado apraz ás Ninfas. Por ali me regala ir espreitando Tantos ninhos por entre tantas folhas. Admiro a perfeição d’aquelles berços, E o tino com que os pobres de uns brutinhos Os souberão livrar a soes e a chuvas: Aqui uma avezinha inda sem pennas, Outra a romper da casca; alem uns ovos Branquejão d’entre o musgo, e ja palpitão; Se os tóco, sinto dentro o passarinho, E fujo com temor que a mãi o engeite. ¡Ver as mãis vir do pasto alvoraçadas, Darem o almoço aos filhos que pipilão, E co’as azas e peito agazalha-los! E ver logo os maridos tão contentes A gorgear-lhe á roda! o porque o fazem Mal sabeis vós; cuidais que he diverti-las! Oh que não: he ja dar lições e exemplos De canto aos filhos seus: não de outra sorte O nosso pai nos ensinou seus versos.

SILVIA.

C’roas frescas de rosas cada dia De Citheréa ás portas amanhecem; Sinal que a Citheréa aprazem flores. Todo o anno era Abril se eu fôra a Deoza! Nunca no meu altar e ás minhas portas Faltarião montões de flores frescas. Todas só para ti as cobiçava, Ó minha mãi: com ellas te enfeitára Cada hora do dia; cada noite As renovára ao leito onde tu dormes; Não porias teus pés senão em flores. Se o passageiro ás vezes me pergunta, Quando me encontra á borda do caminho, “Quem he a tua mãi?” eu lhe respondo Chêa de gloria “A minha mãi he Dafne!” Hontem de tarde o graciosa Amintas, O pobre guardador das duas cabras, Quando o meu pão lhe dei pedio-me um beijo, Chamou-me bella, e disse que o meu rosto Era como o de Dafne, ou como as rosas. Sendo assim, bella sou, que outra pastora Igual a minha mãi não ha na aldea, Nem flor em todo o mundo irmã da rosa.

ALEXIS.

O vizinho Milão, que hoje he tão rico, Não tinha mais que uma arvore, e de terra Só quanto aquella sombra lhe cobria. “Corta-a Milão, dizião-lhe os pastores, Alegras teu campinho, e terás lenha Para aquecer a choça um meio inverno”— —“Eu? respondia o triste, eu pôr machado Na boa da minha arvore? primeiro Me falte lume alheio o inverno todo, Que eu mate a que a meu pai ja dava séstas; A que de meu avô me foi mandada, Que a não poz para si; e a que nos braços Me embalou tanta vez sendo menino. Os Deozes a existencia lhe dilatem, Que assim lhe quero eu muito, e o meu campinho Produza o que podér, que eu sou contente.”— Sorrião-se os pastores; o carvalho Cada vez mais as sombras estendia, E Milão de anno em anno hia a mais pobre. Lembrou-lhe um dia, em bem, que uma videira Plantada a par com o tronco, o enfeitaria, E os cachos pendurados pela cópa Lhe darião tambem sua vindima: E eis que ao abrir a cova, acha um thesouro! Desde então ficou rico, e diz-me sempre, Que os Deozes immortaes lhe hão dado em prémio Por amar suas arvores. He elle Quem mas ensina a amar, são d’elle os versos, Com que ao bosque de Pan cantei louvores.

TITIRO

Deozes, tocai o peito de Mirtilo Porque não sáia máu quando fôr grande. Hoje, entrando na mata, o vi la dentro Andar armando aos passaros. Que pena, Disse em mim; não ser passaro um momento; Não poder ir correndo o bosque aos pios, E dizendo em cada arvore “Cautella Meus irmãozinhos do ar; vejo inimigo; Não saiaes; o inimigo anda no bosque...!” Paciencia, assim mesmo hei de acudir-lhes. Vou-me por entre as moutas rastejando Até ao ouco e immenso castanheiro, Que abre em seu tronco uma portada de heras, E se nomêa a casa de Silvano. Trepo, e dentro me escondo: os meus vizinhos Lá por cima na cópa papeavão, Cuido que adivinhando o que eu faria. Encósto a boca á fresta carcomida, Que está fronteira ao portico da entrada, E clamo em rouca voz “Pára Mirtilo.” Parou, ergueo-se, e poz-se a olhar em roda; Vendo tudo em socego ás redes torna. Com voz mais estrondosa e mais horrenda, Torno-lhe eu a bradar “Mirtilo pára.” Não esperou terceira: arroja tudo, Salta, vôa; oh que riso! uns echos fêos Lhe hião gritando apoz “Mirtilo pára.” Somio-se; á terra pulo, espreito o mato, Acho as redes, os presos sólto, os mortos Levo-os onde ôlho de ave os não descubra: Encho-as de pedras, na torrente as lanço, E corro a procura-lo—“Oh tu não sabes, Lhe digo, de que morte escapo agora! Não te engano, era um Deos, vi-o eu, rangia Os dentes, bracejava uma alta fouce, Vinha a saír das sombras do arvoredo; Vio-me e gritou me “Pára” eu páro e chóro. —“Es tu que andas armando ás minhas aves? Pois eu vou dar-te o ensino; as tuas redes Ja te lá vão por esse rio abaixo, E agora has de ir tu morto á caça d’ellas.”— E então vem para mim, co’a fouce aos lanços Cortando pelo ar—“Bom Deos, perdoa, Lhe grito a soluçar co’as mãos erguidas, Eu sou Titiro, o filho de Menalca, As tuas aves amo, e temo os Deozes: Eu redes, eu caçar!”—“Estou perdido! Disseste que eu ... Mirtilo me interrompe.” —“Não, Mirtilo, socega, eu não lho disse, Nem sabia que tu ... fallemos baixo Que nos não ouça o Deos. Olha, este p’rigo Passou, mas outra vez não te aventures, Que eu bem sei como o vi, não te perdoa. Deixa ás pobres das aves innocentes Divertir-te e cantar; nada mais querem; Não tens razão, não teus de as perseguires. Quanto ás redes, eu quero consolar-te: Ouve Mirtilo, acceita este cestinho De cana entretecida em juncos verdes, E este meu cajadinho em boa altura Liso, airoso, e sem nós.”—Assim dizendo, Enfiei-lhe no braço o meu cestinho De cana entretecida em verdes juncos, E entreguei-lhe o cajado. Então Mirtilo Me abraçou, e saltando de contente, Jurou-me nunca mais armar ás aves.

SILVIA.

Glicera por vaidosa he que ama as flôres: Apanha-as para si não para os Deozes, Não lhas merece a Mãi e alcança-as Mopso. Quando em nosso jardim vejo Glicera, Ja me eu ponho a tremer: corta as melhores, He seu costume; enfado-me, sorri-se; Chóro, ri-se; e enfeixando-as, me repete: “Que te servem por ora estas floritas? Deixa passar mais cinco primaveras, E então sim, nem mais uma hei de furtar-te; Pois sei te hão de servir quaes me hoje servem.” Coitado de quem he como eu menina, Que se manda esperar por primaveras! Que podia eu fazer? queixei-me ás Ninfas. Hontem, ja pôsto o sol, quando erão horas De logo vir Glicera, a presumida, Que furta e vai cantando; ajoelhei-me Co’as mãos póstas por entre as minhas flôres. E disse: “Como as arvores tem ninfas, Que lhes morão la dentro e as aviventão, Ha ninfazinhas a velar nas flores. Ninfazinhas das flores, escutai-me: Se a rega, com que as folhas aquecidas Vos refresquei ha pouco, vos foi grata, Olhai por vós, fazei com que Glicera, Como eu vos vi e ouvi, vos veja e ouça; Apparecei-lhe como a mim, por sonhos, Vestidas de mil côres, perfumadas, Pequenas, mui mimosas, e só outras Em não mostrar-lhe a ella um ar festivo. Dizei-lhe como os Deozes vos crearão Para amores de zefiros, recreio De borboletas e olhos, e formosas Copeiras do formoso mel doirado: Dizei-lhe que tão bella e curta vida Não se deve encurtar, que as deshumanas Tem máo fim, que apezar de passageiras, Ninfas sois, e o Destino ha de vingar-vos: Que se tornar sacrílega a colher-vos, Vossos fragrantes ultimos suspiros Seráõ de queixa aos ceos, e antes de tempo As rosas no seu rôsto hão de murchar-se.” Como eu isto dizia, entrou Glicera: Murchas trazia as rosas de seu rôsto, Não rio, nem colheo nada, e suspiráva. Penada de a assim ver, beijei-a, e disse: “Se alguma d’estas flores te contenta, Eu mesma a vou cortar.”—“Não (me responde) Ja não quero mais flores, Mopso ingrato As que ultimas lhe dei deo-as a outrem: Como as flores me engeita hei de engeita-lo.” Ao que eu logo acudi—“Vês tu, Glicera, Fallei verdade ou não? nascem as flores Só para as nossas mãis, e para os Deozes, Da-lhas tu, e verás se hão de engeitar-tas.”

MENALCA.

Basta meus filhos, basta; não ha sombras Tão gratas no verão, cheiro de flores Tão suave, ou tão ledo canto de aves, Que me recrêem como os vossos versos. Vinde, vinde, abracemo-nos, ó filhos: Dei-vos eu a doutrina; engenho os Fados; Mas os Deozes virtude: alcatifais-me De bem viçosa esp’rança o meu declivio: Dais-me o que nem pedir ouzava aos Deozes. Antevejo a florir-me a sepultura ...

DAFNE.

Entremos na cabana: aquella nuvem Quer encobrir a lua; ergueo-se o vento, Não tarda muito algum ligeiro orvalho.

NOTA AO IDILLIO.

Na muita rama que ao Idillio decotei para esta segunda edição, ninguem, por mais que a cate, poderá achar fruto, nem sequer uma triste flôr, se a não he o passo que para aqui traslado, da falla de Alexis pag. 96 na primeira edição; ácerca do qual e de tudo o mais quanto supprimi ou accrescentei, releva reclamar pela maior indulgencia dos leitores. Não ma negará quem ja alguma vez houver experimentado como de todas as couzas, que parecendo tenues, são agras e laboriosas, a mais agra, laboriosa, e não sei se diga impossivel, he poetar e metrificar as fallas da infancia: caminho he esse que estreitissimo corre por entre precipicios, sendo maravilha que ahi os maiores engenhos se tenhão, e sigão sem caír ou para a direita ou para a esquerda. O primeiro e melhor juiz do homem candido he a sua consciencia: a minha me diz que os trez filhos de Menalca nem sempre, antes poucas vezes, fallão como conviria: de sobejo são poetas para meninos e rusticos; e tanto, que se não fôra a resalva, que logo do comêço lhes vai lançada, de serem filhos de improvizador, e por elle doutrinados no canto, não haveria perdão que de ridiculos os salvasse.

Segue-se o excerpto, com todos seus defeitos e aleijões de nascença:

O MENINO ALEXIS.

Ver-me no bosque de prazer me enchia; Quando Amintas, chamando-me da gruta, Aonde estão de musgo revestidas As imagens das Náiades da fonte, Assim me disse, dando-me uma rosa: —“Eu te darei uma pequena ovelha, Toda branca, na testa só malhada, Se fores ter com Egle, e lhe entregares A rosa, que te dou, se lhe disseres “Egle, Amintas por ti morre de amores.” Beija-a depois na face, e continúa; “Egle, este beijo é do extremoso Amintas.” ¿Não a vês la ao longe entre os salgueiros, Apascentando as candidas novilhas? Corre; e não tardes a buscar a ovelha.”— Eu fui correndo a ella, dei-lhe a rosa, Beijei-lhe a face, e disse-lhe: “Este beijo, Egle, este beijo é do extremoso Amintas.” Nada me respondeo, sorrio-se, e as faces Como a rosa encarnadas lhe ficárão. Abraçando-a depois, lhe disse alegre, “Egle, Amintas por ti morre de amores.” Rio-se outra vez, e dando-me na face, “Oh como tu és máo! vai-te, me-disse, Não posso ... não, não quero acreditar-te.” Nada lhe respondi, voltei á gruta, Onde o Pastor contente e alvoraçado Me deo sem custo uma pequena ovelha Toda branca, na testa só malhada. ¡Como a minha ovelhinha é bella, e mansa! Andei com ella todo o dia ao pasto Pela relva do bosque, etc.

A FESTA DE MAIO

POEMETTO EM DOIS CANTOS.

_Se nos trez Poemettos precedentes pude fazer muito mais do promettido no Prologo, n’este último fica a minha palavra empenhada. Pouquissimos de seus defeitos mais palpaveis cheguei a apagar, e esses quasi só de linguagem. Receoso de me vir a faltar o tempo ou o animo, se desde a primeira pagina do Livro me começasse a esmerar seguidamente, fôra minha primeira occupação ir por todo elle despontando, á ventura e sem ordem, o que me apparecia pessimo, justamente como no Prologo deixára promettido. Conheci logo que este trabalho era insufficiente: entrei no outro mais miudo e ordenado; refundi a cito_ a Epistola, o Dia da Primavera, os Cantos de Abril, _nenhuma das quaes Obras cheguei com tudo a lustrar. A_ Festa de Maio, _por ser a derradeira, quasi ficou, e até nova edição (se algum dia se fizer) ficará, como era. O maior bem que lhe pude fazer, foi abri-la em dois Cantos, para que o leitor achasse marco onde descançar em tão enfadonha e comprida estrada._

DEDICATORIA ÁS SENHORAS DA LAPA DOS ESTEIOS.

SENHORAS,

_A segunda tarde, que passámos em Festa na vossa Lapa, não tem jamais de nos esquecer. O vosso gracioso e cortez descer a ouvir-nos, as carícias com que amimastes o nosso Maiozinho, dando-lhe entre vós assento, detendo-o nos regaços, beijando-o, ¿como he que nos não havião de cativar, a nós, que o cingíramos de suas galas, o sentáramos em throno, pôsto que menos para apetecer, e o levantáramos por Divindade em nossos Cantos? Finalmente aquelle vosso generoso trocar de nome á Lapa, querendo que por nosso respeito se ficasse chamando_ dos Poetas, _em tamanhos obrigações nos pozerão, que as Musas nos acodiráõ para um dia vos provarmos que nós, Sacerdotes seus, não somos ingratos. A minha, de mais atrevida que he, me envia adeante, a tributar-vos este Poema, que pois o approvastes, ja não he de vós indigno. He prezente de uma Deoza do Parnaso, não podem as trez Graças rejeita-lo._

HISTORIA DA FESTA DE MAIO.

Pelas trez horas da tarde do primeiro dia de Maio de 1822 ja nós, a Sociedade dos poetas _Amigos da Primavera_, nos achávamos á sombra das arvores, pelo Encanamento do Mondego, esperando anciosamente o batel, que nos havia de tornar á Lapa dos Esteios, para celebrarmos a Festa de Maio: de tantos que lá fôramos no Dia da Primavera, só faltava _Anfrizo_, em cuja vez recebêramos _Antíono_, mancebo mui dado a bons estudos, versado na lingua e poesia allemã, e autor ja então de Anacreonticas e Idillios de muito preço.

O suspirado batel acudio cedo á nossa ancia: todo toldado, alcatifado e cingido com mui curiosas invenções de verdes e flores, vinha parecendo o naviozinho do _Primeiro Navegante_. Abica, saltâmos-lhe dentro todos juntos; larga, vogâmos contentes e cantando. Quem bem quizesse pintar com a penna affétos do coração, não achára bastante um volume para historiar esta só tarde. Dezejára eu muito convidar cortezmente meus leitores a nos acompanharem, tomando seu quinhão em nosso folgar; mas não o posso, e ainda mal, que o de maior valia fica-lo-hão perdendo. Hiamos todos tão unidos em vontade, conformes em gôsto, feriados de cuidados, crentes na ventura, chêos e cercados de poesia, e namorados da natureza, que os todos só parecião um, um só moço, transportado em bemaventurança.

Ora cantando, ora encarecendo, quasi adorando as varias gentilezas que a perto e a longe, e por toda a parte se presentavão e renovavão de contínuo, aportámos apoz uma hora, na formosa Lapa dos Esteios. Erguemo-nos, vozeâmos, voão do barco para o ceo foguetes que todo o ar estrugem, e para a margem os hinos de uma orchestra que comnosco hia. Diz a musica muito com todos os affétos da alma, mas do contentamento, onde o ha, faz alvorôço, que muitas vezes prorompe em lagrimas. D’esta maneira triunfal saltámos para o cáes, voámos ao alto da Lapa. Conhecia-nos o sítio pelos mesmos, desconheciamo-lo nós por melhorado: obrados erão sobre a natureza milagres de Maio. Ja as arvores alardeavão ás virações montes de folhagem, que pelo ar se embalavão ao sol; era agora o rio ainda mais puro, os ares mais temperados e benignos. ¿Quereis haver alguma idea da habitação das almas felizes? quereis pintar os lugares onde as Ninfas, os Faunos e Pan apparecião aos pastores innocentes na idade de oiro? entrai a Lapa dos Esteios pelos graciosos dias de Maio. He a Primavera nos princípios uma linda menina; mas não sabe firmar o passo, balbucia, tudo teme, não se decide em nada, suas graças ja se annuncião claramente mas ainda se não desenvolverão; em Maio he moça toda viçosa de mocidade, a quem ledos cortejão Amores e Prazeres, cujo sorrir endoidece o pensamento, e vai entender com os corações. Tinha a Natureza dado a segunda mão e ultima ao lugar; mas a Arte quizera entrar com ella á competencia, sem comtudo lhe desacatar a primazia: tudo estava varrido e puro e concertado de um sem numero de vasos de muitas, e finissimas flores.

No alto assentámos o altar do Deozinho Maio: todo elle era verdura; duas colunas, artificiosamente fabricadas de flores, e rematadas em umas maçanêtas de igual marmore, se alevantavão dos dois cantos da frente, e communicando-se no cimo por um semicirculo, que na materia e primor não desdizia do resto, ajudavão a formar um genero de portico bem vistoso e engraçado; os lados, fundo e abobada do recinto erão de ramos verdes de todas as qualidades, bem entrelaçados e bordados de frescas e vermelhas rosas; no meio estava um assento pequeno, á feição de poial rústico, tecido de lustrosas heras, onde se via recostado o Maio em acto mui gentil, e com um geito todo seu. Era um Menino de cinco annos, louro como o sol, e alvo como a neve, cabellos crespos e annelados, caídos por um e outro hombro: de roupagem, não tinha outra de seu que um aventalinho, que debaixo dos peitos lhe descia aos joelhos; o qual, assim como os listões que de cima dos hombros lho vinhão tomar encruzando-se por deante e pelas costas, estava recamado de cedro e buxo, com sua orla mui accesa de flores de romeira, cravos, e rosas: calçava cothurnos de seda escarlate; na cabeça ostentava corôa de verdura, e do braço esquerdo como que acenava ás vontades com um cabazinho, farto dos frutos do seu tempo; e tudo por modo tal, que a bôca se não sabia determinar se o diria nu ou vestido, nem a fantasia dos poetas se o quereria simples Menino, ou verdadeira Divindade.

Mandámos por dois dos nossos vizitar e convidar para a Festa as amaveis Senhoras, cuja he a Lapa, as quaes na quinta que por cima fica tem seu perpétuo domicilio. Não tardarão: recebemo-las como convinha, nós com a festa dos nossos musicos, e com muitos seus abraços as Senhoras, que abaladas dos annuncios de tão bôa tarde, nos tinhão feito a honra de acudir ao sítio. Ja era crescido o auditorio, e muito para contentar e accender engenhos: fomo-nos uns a outros seguindo com os poemas que levavamos, os quaes em fórma de rito religioso, se recitavão em pé deante do altar, fazendo a nossa orchestra uma harmoniosa ráia de poema a poema, que para tudo as tardes de Maio deixão tempo. Poz-se-lhe remate com os vinhos e saudes d’uma saborosa merenda, como á primeira tarde da Primavera se havia feito. Passou-se o serão parte pelas salas, outra parte pelo jardim das nossas hospedeiras.

A noite era uma das mais bellas de tal mez: a lua brilhantissima despedia até os horisontes um clarão quasi diurno, não se enxergando nuvem por todo o descampado do seu céo; refletia-se, e desenrolava sua alcatifa de movediça prata ao longo d’esse Mondego tão digno de seus amores; o ar era tão manso e quêdo, que as luzes, curiosamente distribuidas por entre os vasos de flores, nem de leve estremecião; suave era de ver sair por toda a parte d’entre planta e planta uns reflexos verdejantes mui amigos dos olhos, muito mais da fantasia de poetas.

Prazeres que o coração estriou por uma noite assim enfeitiçada, não são para se poderem pintar. Pouco tardou que a sociedade, como acontece, se não soltasse e dispartisse em ranchos pequenos: a musica errante e fóra dos olhos, umas vezes folgando, suspirando outras, e outras como quem sismava algumas amorosas mágoas, hia-se ja pelos arvoredos da quinta, ja ribeiras do rio acima e abaixo, tão grata, que ainda não sei couza que mais quizesse. Muitos e muitas baillavão arcadicamente sob a abobada do céo, em quanto nós outros, os que das Musas só fôramos fadados para versos, os estudavamos e repetiamos á porfia. Algumas semelhantes horas devia ter passado o primeiro que escreveo Elisios.

Era a noite crescida para muito alem do meio, quando nos despedimos; e la foi caír na eternidade um dia, que ainda agora me persegue saudoso, e apoz o qual nenhum outro veio semelhante.

A FESTA DE MAIO.

POEMETTO