A philosophia da natureza dos naturalistas

Chapter 3

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A critica do materialismo, n'este ultimo ponto de vista, tem sido mil vezes feita e não preciso reproduzil-a aqui.

O que quero é fazer sentir quanto o monismo evolucionista da escola de Haeckel (que não é mais do que uma forma do materialismo) cuja maior pretensão é ser uma philosophia positiva da natureza, ainda por este lado não é positivo, por não poder explicar uma ordem inteira e a mais importante dos factos do universo.

Declarar que a liberdade e o sentimento moral são meras illusões subjectivas, e que os mais intimos e mais autonomos phenomenos da consciencia resultam apenas d'acções mechanicas e são a transformação d'essas acções--é facil. Agora o que não é facil, porque é simplesmente impossivel, é explicar e fazer comprehender (como ha poucos annos ainda Du Bois-Reymond perguntava a Haeckel) como é que o movimento, um grupo de movimentos por mais complexo que o supponhamos, pode produzir, não já os factos superiores da vida do pensamento, mas o mais elementar, a simples sensação? Deante d'esta simples pergunta desaba todo o edificio do monismo. A vida moral não é cousa que se decomponha em retortas, nem se descobrirá jámais o equivalente mechanico do genio ou da virtude:

_There are more things in heaven and earth, Horatio, Than are dreamt off in your philosophie_

QUINTO ARTIGO[F]

Pretenderei eu accaso com esta critica, contestar o valor dos trabalhos da escola monista, ou ainda a sua importancia philosophica?

De modo algum.

O que eu contesto é o valor do seu systema, como systema, o que eu censuro é a pretensão de fundar uma philosophia da natureza com a simples generalisação dos dados d'um grupo de sciencias, e sem ter em conta o indispensavel criterio das ideias. Mas abstrahindo d'estas pretensões, a tentativa de Haeckel, considerada em si, tem um alto valor. Tem-no, sobre tudo, como symptoma da tendencia, que cada vez mais se manifesta na esphera da sciencia para uma unidade de comprehensão, que assentando rigorosamente no terreno scientifico, saia ao mesmo tempo da analyse e abstracção inherententes á sciencia, procurando como formula, uma ideia de caracter synthetico, isto é, uma ideia propriamente philosophica.

Esta tendencia é sem duvida alguma, o facto intellectual mais importante do seculo actual e um d'aquelles em que mais se traduz d'um lado, a influencia d'ora em deante cada vez mais predominante do criticismo de Kant, e do outro, a feição eminentemente positivista do espirito moderno. Se uma philosophia positiva é e será sempre, como já mostrei, uma chimera, a acção e authoridade directa da sciencia na philosophia será d'aqui em deante (quero dizer depois da _Critica da Rasão pura_) um facto que tem de se impor a todos os pensadores.

Mas acção e auctoridade da sciencia na philosophia é uma cousa, e philosophia positiva, outra. As ideias syntheticas da philosophia não saem das sciencias, não são simples generalisações scientificas: são um producto da especulação e quando chegam a apparecer no terreno scientifico é infiltradas para ali das regiões da especulação, é porque a especulação as forneceu, sob forma de hypothese, á sciencia. Não cabe em escrito d'estas dimensões expor a theoria da hypothese. Bastará mostrar como a theoria geral da evolução, hoje com tanto vigor e brilho formulada por Haeckel e seus concorrentes ou discipulos, longe de ser, como vulgarmente se imagina, uma _descoberta_ das sciencias naturaes e um resultado directo da analyse scientifica, é, pelo contrario, uma verdadeira hypothese philosophica, que, producto da elaboração especulativa de perto de trez seculos, acabou por se manifestar no dominio das sciencias.

Com effeito são mais fundas as suas raizes, mais longiqua a sua procedencia.

Essa ideia não saiu das sciencias naturaes, mas penetrou n'ellas pela influencia (obscura, é certo e indirecta, mas muito real) das noções metaphysicas lentamente elaboradas, a partir da renascença, dentro da ideia fundamental de _natureza_. A maneira dynamica, autonomica, realista, de conceber a natureza é o que mais radicalmente distingue o pensamento moderno do antigo. A natureza para o pensamento antigo, e ainda para o mais genial dos seus intrepretes e o mais objectivo, Aristoteles, era concebida como abstracta, inerte, passiva: longe de parecer concreta e espontanea, era considerada apenas como um reflexo, acto ou emanação d'um ser ou seres transcendentes e perfeitos: as _ideias_ de Platão, a _intelligencia_ de Anaxagores, o _motor immovel_ e as _formas substanciaes_ de Aristoteles etc.) exteriores a ella e só verdadeiramente autonomos. Esta maneira de conceber manteve-se pela Escolastica e pela Theologia christã, até á Renascença. A partir dos ultimos tempos da Edade-media, com a dissolução da philosophia escolastica e as revoluções de toda a especie, intellectuaes, sociaes religiosas, que annunciam a aurora dos tempos modernos, dá-se nas regiões mais profundas da intelligencia humana uma fermentação extraordinaria, que se exprime, ainda com pouca consciencia do seu proprio alcance, nas creações da astronomia e da physica modernas (Kopernico, Keppler, Galileo, Torricelli) e nas reformas philosophicas de Bacon e Descartes; que se avigora com Leibnitz e Spinosa e com os primeiros trabalhos de physiologia, botanica e sciencias sociaes (Gesner, Harvey, Malpighi, Boerhaave, Hobbes, Grocio, Vico, Lessing, etc.) para acabar, plenamente consciente no seculo XIX, por se affirmar, não já n'esta ou n'aquella ordem de phenomenos, mas em todas as espheras da actividade humana, nas sciencias, na philosophia, na sociedade civil e politica e na propria arte e poesia contemporaneas. O naturalismo é para os tempos modernos o que foi o racionalismo para a Antiguidade:--a formula mais geral da sua actividade.

A doutrina da evolução é apenas uma das determinações, a mais recente e porisso a mais intensa, e intima, do naturalismo moderno.

E convirá notar que o seu apparecimento é simultaneo na astronomia, na geologia, na biologia, na linguistica e na historia: Lamarck, Laplace, Werner, Goethe, Geoffroy Sainte-Hilaire, Herder, Saint-Simon, Bopp, Adelung, são contemporaneos, ou proximamente contemporaneos.

O evolucionismo dentro das sciencias da natureza não é mais do que a applicação a uma ordem de factos do principio fundamental do pensamento moderno, uma das suas determinações particulares.

Mas esse principio é uma hypothese geral e, como todas ideas syntheticas, um resultado da especulação, não é um facto positivo. Se apparece no dominio das sciencias, é como hypothese philosophica, não como lei scientifica. Se as sciencias da natureza e da sociedade convergem hoje no sentido da evolução, convergem movidas pelo influxo intimo do estado mental-metaphysico que as envolve, não pela força exclusiva e independente do seu desenvolvimento proprio. Não ha, como se pretende, a eliminação do elemento metaphysico pelo elemento scientifico: ha uma mutua penetração; penetração da especulação na sciencia, pela hypothese que a vem fecundar; penetração da sciencia na especulação, pelo correctivo imposto, em nome da realidade, dos factos positivos, ao á-priorismo inherente ao pensamento especulativo.

E é por isso que o concurso da sciencia e da especulação é indispensavel para a constituição definitiva da philosophia moderna (da qual todos os systemas, desde Bruno e Bacon até aos nossos dias são apenas esboços e prenuncios), para a organisação systematica do pensamento moderno em todas as suas determinações.

Creio com Haeckel, assim como com Schelling, Hegel, Hartmann, Comte e Spencer, que é no terreno da evolução que essa grande synthese tem de ser construida, e que, depois do seculo XVIII e depois de Kant, já não é possivel uma philosophia que não seja essencialmente uma theoria geral do desenvolvimento, isto é, uma philosophia da evolução. Mas creio tambem que a organisação da ideia d'evolução n'essa theoria geral do desenvolvimento é problema que excede muito a capacidade especial das sciencias da natureza, quero dizer, a esphera theorica d'essas sciencias, porque excede os limites e alcance do puro espirito scientifico.

A metaphysica do seculo XIX apezar do descredito em que momentaneamente parece ter caido, não disse ainda a sua ultima palavra, nem abdicou. Se a conclusão final das sciencias tem de ser, como creio, o mechanismo universal, a conclusão final do pensamento metaphysico tem por seu lado de ser o universal idealismo. Mas já hoje se começa a comprehender que entre estes dois termos não ha contradicção essencial e que esta _these_ e _antithese_ é reductivel a uma _synthese_, que satisfaça plenamente tanto a sciencia como a especulação. Essa synthese em que o idealismo apparecerá com complemento necessario do mechanismo já hoje se deixa entrever; e creio que nem a todos parecerá temeridade e paradoxo, concebel-a, como eu a concebo, nem idealista nem materialista no antigo e mais usual sentido das palavras, mas num sentido novo e mais profundo, como um _materíalismo idealista_.

FIM

====================================================================== Tiragem de 200 exemplares numerados ======================================================================

TYPOGRAPHIA DO CAMPEÃO POPULAR

Rua da Graça n.^o 15--Ponta Delgada

*Estabelecimento fundado em 1889*

*Notas:*

[A] _A Provincia_--N.^o 48, II anno--Porto, 1 de março de 1886.

[B] Aliás de Iena. (E. P.)

[C] _A Provincia_--N.^o 49--II anno--Porto, 2 de Março de 1886.

[D] _A Provincia_--N.^o 50--II anno--Porto, 3 de março de 1886.

[E] _A Provincia_--N.^o 51--II anno--Porto, 4 de março de 1887.

[F] _A Provincia_--N.^o 52--II anno--Porto, 5 de março de 1887.