A Pata da Gazella: romance brasileiro.

Part 8

Chapter 83,940 wordsPublic domain

--Foi em casa do Azevedo que o apresentaram á senhora.

--Não; conheço-o de muito tempo; ha perto de dois mezes.

--De onde, si não é segredo?

--Segredo por que? Elle frequenta a casa de D. Clementina que recebe ás quintas-feiras. Constantemente nos encontramos ahi. É uma reunião muito agradavel, estamos quasi em familia, sem a menor ceremonia.

--Ah! nunca me convidou para essas reuniões; eu teria muito prazer em acompanhal-a, mas talvez fosse importuno, como já vou sendo aqui.

--O senhor está habituado a viver na alta sociedade; havia de aborrecer-se.

--Mas a senhora não se aborrecia; ao contrario divertia-se bastante.

--Alguma cousa.

--E Leopoldo era seu par?

--Era.

--Par constante?

--Não sei si era constante ou não; quasi sempre elle dansava commigo, porque lá não ha muito onde escolher; os pares são poucos.

--Optimo systema! Assim não se repara?

--Em que?

--Em certa assiduidade! Ainda mesmo que uma moça já tenha noivo arranjado, ha gente que exige da parte dessa moça certa reserva, porque emfim o outro póde não querer acceitar a responsabilidade de tudo! É uma impertinencia, concordo, mos o mundo tem destes caprichos.

--Isso se entende naturalmente com as moças que têm _noivo arranjado_, retorquiu Amelia frisando a palavra, e não com aquellas, cuja mão se pediu talvez para satisfazer uma simples fantazia.

A moça levantou-se da mesa, lançando ao leão um olhar desdenhoso, e foi sentar-se ao piano. Emquanto ella tocava uma variação de Thalberg, Horacio para fazer alguma cousa, se entreteve em arranjar as figuras chinezas de um jogo de paciencia. Nunca elle precisára tanto de provêr-se dessa virtude evangelica.

Decorridos alguns instantes o leão ergueu-se da meza; deu algumas voltas pela salla, e aproximou-se do piano, como para vêr a elegancia com que a moça dedilhava.

--A senhora acha muito natural, D. Amelia, que uma noiva frequente assiduamente uma casa onde não tem entrada o homem com quem vai casar-se; acha natural que essa moça tenha em taes reuniões um par effectivo, que provavelmente cultiva uma dessas amisades candidas dos romances de Balsac, verdadeiros _lirios do valle_, que vivem de orvalhos e de sombras. Eu, porém, sou um espirito prosaico e material: tenho a infelicidade de não acreditar na attracção mysteriosa dos espiritos, no consorcio ideal das almas irmãs, nos sonhos ethereos, nos effluvios celestes, em toda essa giria sentimental. Para mim, intelligencia grosseira, tudo isso não passa de uma hypocrisia do primeiro tartufo deste mundo, o amor. É um tyrannete que toma todas as figuras e posições; faz-se menino ou velho, anjo ou demonio, poeta ou banqueiro... Estou incommodando-a talvez?

--Não; acabe.

A moça fazia com uma ligeira surdina o acompanhamento das palavras do leão; mas á ultima phrase, ella retirou as mãos do teclado. Foi esse o motivo da pergunta de Horacio.

--A senhora deve sentir muito, e Leopoldo com maior razão, de serem privados de uma distracção que tanto lhes agrada!

--Comprehendo, replicou Amelia. O Sr. me prohibe que eu vá á casa de D. Clementina?

--Que idéa! Não tenho direito de prohibir; ainda não sou seu marido; a senhora é completamente livre de suas acções, póde ir á casa de D. Clementina, ou onde lhe approuver; assim como eu posso, querendo, passar as noites no Club ou no Alcazar.

Amelia soltou uma risada.

--Pensava, que os leões estavam isentos dessa fragilidade do ciume.

--Perdão; não se trata de ciume, nem sei o que isso é. A questão reduz-se á uma antipathia de caracteres, á uma contradicção de genios, que deve ter para o futuro graves consequencias. A senhora é idealista, eu sou materialista. Um quizera viver no mundo dos sonhos, outro neste valle das lagrimas e das realidades. A senhora procurando-me no céo entre as estrellas e os anjos, e não me achando ahi, soffreria uma cruel decepção; entretanto que eu na terra, ficarei reduzido á sombra da mulher que amei.

--Não é tão pouco, para quem se contentava com um pé de criança; disse Amelia com ironia.

--Mas esse pé era a realidade, a expressão a mais sublime della!

--Custa-lhe pouco á possuir essa realidade Mande fabrical-a em cêra: sahirá ainda mais perfeita.

--Ainda não perdi a esperança de encontral-a.

O chá interrompeu o dialogo. Os dous noivos aproximaram-se da meza oval, onde o criado acabava de collocar a bandeja.

A phisionomia de Amelia perdêra a expressão de tristeza e desanimo que tinha a principio; a conversa lhe deixara no semblante alguns tons vivos.

Occupada em dispôr as chicaras para enchel-as; os gestos sempre macios da moça revellavam certa crispação nervosa.

Horacio ficára contrariado, porque não tivera tempo de precipitar o _casus belli_. Receiava que se demorasse ainda o rompimento que elle tanto desejava.

--Mamãi, disse Amelia com intenção, amanhã é quinta-feira. Vamos passar a noite em casa de D. Clementina?

--Si quizeres.

--Não devemos faltar; deixámos de ir a semana passada.

--Foi logo depois do baile do Azevedo.

--Não o convido, disse Amelia voltando-se para Horacio, porque o senhor não frequenta essas reuniões de gente pobre.

--Sem duvida; tenho medo de evaporar-me em devaneios e suspiros; respondeu Horacio, cruzando com a moça um olhar de desafio.

Elle sentiu que Amelia o provocava, e exultou. A moça estava disposta a resistir; o rompimento era infallivel e prompto.

--Eu gosto bem dessas partidas; a noite passa tão agradavel.

Aproveitando-se de um momento em que D. Leonor se afastou, Horacio atirou á moça rapidamente estas palavras:

--Pois si a senhora voltar á casa de D. Clementina, eu não voltarei mais aqui.

Amelia estremeceu.

Um quarto de hora depois, Horacio retirou-se. Quando se despedia das senhoras, disse o leão á moça apertando-lhe a mão:

--Desejo que se divirta muito amanhã.

--Aonde? perguntou D. Leonor.

--Em casa de D. Clementina. Não vai, D. Amelia?

A moça hesitou um instante. O offêgo de seu collo trahiu uma luta violenta, mas rapida.

Sua resolução, antes que ella a exprimisse, manifestou-se na altivez do porte, que uma vibração intima erigira.

--Vou sem falta!

Horacio, soltando a mão da moça, que foi bater inerte nos folhos do vestido, cortejou profundamente.

--Seja muito feliz.

Apenas o leão desappareceu na porta, Amelia abraçando e beijando a mãi, subiu precipitadamente á sua alcova; atirou-se á uma conversadeira, e desafogou em pranto e soluços a dôr que tinha recalcado desde muitos dias.

A maior parte da noite foi para ella de vigilia. Viu correrem as horas; cada momento que se escoava era uma esperança, uma illusão que se desfolhava da flôr viçosa de sua alma.

Aquelles que se separam das pessoas ou dos sitios queridos, conhecem bem esse travo do coração que chamamos _saudade_ e sabem quanto é cruel o momento de separação.

Mas não ha despedida cruciante como seja a da alma pelo amor que nutrio durante muito tempo. Ha ahi mais do que uma separação; é quasi a mutilação moral.

Amelia comprehendêra que tudo acabara entre Horacio e ella. Desde o dia do jantar receiara esse resultado; mas ainda alimentava uma esperança. Naquella noite a esperança murchara, si não foi ella propria Amelia, quem a desfolhara.

Agora na calada da noite, era sua alcova que lhe parecia um ermo, ella tinha medo do isolamento em que se achava. Algumas vezes sua alma sentia-se como que asphixiada pelo silencio e pela treva que a submergiam.

XVII

Como dissera á Amelia, na sua ultima visita, Horacio não tinha perdido a esperança de encontrar o que elle chamava a realidade de seu amor; o pésinho gentil e mimoso do qual elle possuia a botina.

Illudira-se nas suas investigações; era preciso recomeçar.

Tal era o pensamento que preoccupava o leão, recostado naquella mesma poltrona, onde o vimos no primeiro dia. Seu olhar embebido nos frocos da fumaça do puro havana, rastreava nas espiraes diaphanas a imagem confusa de seus pensamentos.

Tinham decorrido tres dias depois do seu rompimento com Amelia. Logo na seguinte manhã, o leão para não dar tempo ao arrependimento da moça, escreveu uma carta ao Salles, manifestando seu receio de que a antipathia de genios tornasse infeliz uma união que todos ardentemente desejavam.

O negociante mostrou a carta á filha, que lhe disse com um sorriso forçado:

--Elle tem razão!

A carta de Horacio teve resposta no mesmo dia. O Salles encontrando-o na rua do Ouvidor recusou-lhe o comprimento.

O leão satisfeito com esse prompto desenlace que evitava longas explicações, achou-se á poucos passos de distancia em frente de Leopoldo.

--Oh! Tu me trazes felicidade! exclamou o leão, apertando-lhe a mão. Sempre que nos encontramos ou está para acontecer ou já tem acontecido alguma cousa de bom para mim.

--Não sabes quanto estimo!... Assim eu sou uma especie de astro propicio, sob cuja influencia nasceste.

--Queres vêr? Havia muito tempo que não te via, quando nos encontramos no baile do Azevedo. Pois nessa noite decidiu-se meu destino.

--Ah! e sob o meu influxo benefico?

--Está visto. Lembras-te que eu te disse que estava disposto a todos os sacrificios até o do casamento para possuir aquelle pézinho!...

--Lembro-me.

--O unico obstaculo era uma especie de promessa ou arranjo de familia. Felizmente a menina, a tal Amelia comprehendeu que perdia seu tempo, e arrufou-se na noite do baile por uma ninharia. Eu aproveitei o pretexto; escrevi ao pai retirando minha palavra, e agora mesmo elle me acaba de responder. Estou livre como o ar, e contente como um rapaz que sahe do collegio.

--Neste caso dou-te meus parabéns.

--E tu como vais com o _sorriso_?

--Sem novidade.

--Diz-me uma cousa, no dia em que a viste pela primeira vez, ella estava só ou com outra moça. Faço te esta pergunta porque foi na rua da Quitanda e quasi pelo mesmo tempo que eu achei a botina.

--Eram duas; respondeu Leopoldo sorrindo.

--Em uma victoria?

--Sim.

--A outra era mais baixa?

--Não affirmo.

--Adeus.

O leão separou-se do amigo, e repassando as particularidades de sua conversa com Amelia perto do bastedor e no dia do jantar, começou a combinal-as com as informações de Leopoldo, e com as circumstancias do encontro no _Passeio Publico_, onde vira o signal impresso na arêa pelo mimoso pézinho.

Agora, fumando seu charuto depois do jantar, o leão resumia todas as suas reflexões, e chegava á este resultado.

--Decididamente o pézinho é de uma moça que ia com Amelia, no dia em que se perdeu a botina e no dia em que eu a vi de longe no _Passeio Publico_. Essa moça, cuja inicial é um L, não é outra senão Laura. Aquelle pudor feroz era um indicio infallivel. Amelia procurava imital-o por motivo bem diverso; mas não o conseguiu.

O moço chegou-se a banquinha onde estava o cofre de pau rosa e contemplou a botina.

A noite o leão foi a uma partida. Sua estrella o favorecia. Laura lá estava. Dirigiu-lhe algumas banalidades graciosas, que ella a principio recebeu com manifesta esquivança, mas depois com timidez.

Horacio comprehendia a razão do procedimento da moça. Para tranquillisal-a, teve o cuidado de nunca abaixar a vista á fimbria do vestido, e mostrar-se enlevado pelo collo gracioso da gentil senhora. A lição que recebêra anteriormente, o tornou de uma prudencia consummada.

No fim da noite o leão conseguira restabellecer a confiança no espirito de Laura, desvanecendo-lhe a suspeita deixada pela scena do theatro. Era o essencial; com os meios de seducção de que dispunha, e a inclinação que a moça revelava por elle, contava certa a conquista. A questão era de tempo.

Antes de quinze dias frequentava a casa da moça, e estava na intimidade da familia.

Laura perdêra o marido aos 17 annos, pouco tempo depois de casada. Era rica; não lhe faltavam pretendentes atrahidos pelo dote e pela belleza; mas ella não parecia disposta a tentar segunda vez a felicidade conjugal, embora não tivesse passado da lua de mel. É natural que o desejo lhe chegasse com o primeiro fio de neve; quando fossem rareando os apaixonados que a cercavam.

Uma manhã, Horacio passando á pé, como costumava, pela casa da moça, viu-a, por entre as grades, sentada no jardim e occupada em fazer um ramo de flôres. Entrou e foi ter com ella, á sombra de uma latada de madre-silvas.

Laura deu-lhe logar perto de si; e começaram a conversar sobre flores, modas, e mil futilidades.

Eram dez horas do dia. O sol brilhava em céo limpido; uma aragem fresca sussurrava entre as folhas; os colleiros trinavam nas ramas das larangeiras. Esse concerto de perfumes e harmonias convidava o coração á abrir-se e cantar o seu hymno de amor.

Laura reclinou a fronte e emmudeceu, com os olhos embebidos no seio de uma rosa, que tinha no regaço. Horacio tomou-lhe a mão, que ella cedeu com tenue resistencia.

--Sabe desde quando eu a amo, Laura? Desde o dia em que a vi pela primeira vez passar em um carro. Foi si não me engano na rua da Quitanda; ia com a filha do Salles. Lembra-se?

A moça fez um gesto afirmativo.

--Depois encontrei-a no theatro. A principio seus olhos me deixaram conceber alguma esperança; mas o desengano foi cruel. Nem imagina como soffri! Cuidei que não houvesse mulher capaz de obrigar-me a voltar ás ingenuidades dos 18 annos. Um dia ainda me lembro, vi-a de longe entrar no Passeio Publico; apressei-me para ter o prazer de cortejal-a e receber um olhar. Debalde corri todas as ruas; quando voltei á porta fiquei desesperado. A senhora tinha sahido, sempre com a filha do Salles. Recorda-se?

--Recordo-me; respondeu a moça. Mas era por mim que fazia tudo isso?

--Duvida, Laura?

--Nega que esteve apaixonado por Amelia Até diziam que já a tinha pedido.

--Que ingratidão! Não sabe então porque me fiz apresentar em casa do Salles? Para vel-a, era preciso procurar um meio; a senhora já não se lembra da dureza com que me tratava.

--E por isso consolava-se com Amelia?

--Si amasse, Laura, havia de saber o que é o ciume, e as loucuras que elle nos obriga a fazer! Mas a senhora não ama!

--Quem lhe disse!

--Essa frieza.

--E o que eu soffri?... balbuciou a moça pondo os olhos languidos no semblante do mancebo.

--Perdão, Laura; exclamou Horacio ajoelhando. Eu era um louco, indigno de teu amor; e não mereço tanta felicidade. Mas deixa-me implorar o meu perdão; deixa-me beijar teus pés, que...

--Ah!...

Horacio proferiu aquellas palavras apaixonadas, de joelhos diante da moça que sorria inclinada para elle; de repente abaixou-se para beijar-lhe os pés, esse objecto de sua adoração. Foi então que ella soltando um grito de espanto, o repelliu para longe de si com horror.

Comtudo, o moço, que preparara toda aquella scena para chegar a realisação do desejo por tanto tempo afagado, conseguira vêr... Mas não o que esperava; um pésinho mimoso e gentil; e sim dois pés inglezes de soffrivel tamanho, que lhe pareciam descansar sobre uma almofada preta.

O semblante de Laura se tinha demudado de uma maneira espantosa; em suas faces entumecidas respirava uma expressão feroz de odio e vingança.

Horacio comprehendeu que naquelle momento qualquer explicação era impossivel. O que tinha de melhor a fazer era eclipsar-se. No fim de contas esse desenlace lhe convinha, pois cortava todas as dificuldades da retirada.

Cortejou e sahiu.

A alguns passos da casa, o leão não poude conter uma gargalhada, que lhe estava a soffocar, e desabafou-a. Realmente havia de que rir; duas vezes mistificado em sua paixão, elle o rei da moda, o conquistador sempre feliz.

Insensivelmente começou á reflectir sobre o occorrido. Por mais que se désse tratos, a imaginação não podia decifrar o enigma. A botina que achara fôra perdida por uma das duas moças; mas não pertencia á nenhuma. Seria encommenda de outra amiga, e talvez para alguma menina de dez annos?

De repente surgiu no espirito de Horacio uma idéa tão original, como a situação em que se achava.

--Eu vi os dois pés de Laura; mas de Amelia, só vi um; é verdade que esse valia por tres. Mas... Não resta duvida. A naturesa tem destes caprichos. A maravilha a par do monstro, o mimo em face da deformidade! É o principio do contraste, que rege o mundo. Eu vi o direito, o aleijão. O esquerdo ficou occulto, como a perola e o diamante.

Compenetrado dessa idéa, de que o pésinho adorado pertencia a Amelia, a quem a naturesa em compensação aleijara o outro; Horacio admittiu a possibilidade de que sua paixão pela moça revivesse, embora menos ardente, ou mais positiva.

Ter aquelle pésinho em suas mãos, sentil-o estremecer e palpitar de emoção, cobril-o de beijos, acariciar a rosea cutis diaphana, tecida de veias azues; brincar-lhe com as unhas crespas, como conchinhas de nacar; cingir ao seio esse gnomo gentil, titilante de amor e volupia!...

Não podia haver para o leão maior delicia neste mundo. Elle daria por ella todo o quinhão de prazer que por ventura lhe estava reservado para o resto da existencia.

Foi engolphado nestes devaneios que Horacio apeou-se á rua Direita de um tilbure, que tomara no largo do Machado.

Seguindo para a rua do Ouvidor, á passo lento e descuidado, o leão aspirava o ar da cidade, como o ocioso que não sabe em que ha de consumir o dia, e fareja uma aventura qualquer.

De repente avistou cousa que o pôz alerta. Um carro que subia a rua do Ouvidor passou por elle; era o _coupé_ do Salles. O rosto encantador de Amelia appareceu-lhe á principio de relance na penumbra que azulava o acolxoado de damasco, depois em plena luz moldurado pelo quadro do postigo.

Acompanhando com o olhar a carruagem, Horacio a viu rodar por algum tempo vagarosamente por causa de embaraço no transito e parar proximo á esquina da rua dos Ourives. O lacaio, com a mão na aldraba, esperava naturalmente ordem para abrir.

Horacio apressou o passo. Por duas vezes avistara a fronte de Amelia coroada com um chapeosinho de palha de Italia, assomando no postigo, afim de percorrer a rua com o olhar. A idéa de que a moça lhe desejava fallar passou pela mente do leão, que a repelliu, sem comtudo consideral-a impossivel.

Em todo o caso elle acreditou que mais ou menos tinha parte naquella parada do carro, e não se enganava.

--Para que mandaste parar? perguntou D. Leonor.

--Quero comprar luvas no Masset; respondeu a filha.

--Ficou atraz.

--Podemos ir a pé.

Quando o leão chegou a dez braças do carro, a portinhola abriu-se e Amelia, em companhia de sua mãi, saltou na calçada. A moça tinha um roupão côr de café, de extrema simplicidade, porém muito elegante; as luvas eram da mesma côr de cinza das fitas do chapéo de palha.

As duas senhoras dirigiram-se para a casa do Masset. Horacio procurou cortejal-as na passagem, mas ellas não lhe deram occasião. Comtudo o leão reparou que a moça desfarçadamente voltou o rosto para olhal-o.

Emquanto as senhoras compravam luvas, Horacio as esperava em frente da casa do Valais, á alguns passos do carro. Pouco tardaram. Amelia vinha só na frente. Felizmente o transito pela calçada diminuiu naquelle instante, de modo que o conquistador poude vêr a gôsto a moça aproximar-se delle. Levados por um impulso irresistivel os olhares do mancebo abaixavam-se para os volantes do vestido, e rastejaram no chão que a moça pisava.

Amelia percebeu a insistencia do olhar, e um ligeiro sorriso fugiu-lhe dos labios. Imaginando que na calçada havia lama, colheu com ambas as mãos a frente da saia, e com tanto estouvamento que descobriu os pés até o colo da perna.

Horacio ficou fulminado.

Vira pousados na calçada dois pésinhos mimosos que palpitavam dentro de botinas de merinó côr de cinza. Pareciam um par de rolinhas, arrulhando na praia, e beijando-se com o biquinho rosado. Durante o rapido instante, que seus olhos poderam admirar esses primores de graça e gentileza, não escaparam a Horacio as ondulações voluptuosas e os contornos suaves dos dois silphos. Nunca elle observara no talhe elegante da mais formosa mulher, requebros tão avelludados como tinha aquelle dorso arqueado, e aquella palmilha subtil.

Tamanho foi o pasmo de Horacio, que só deu por si quando a moça, passando por elle, entrou na carruagem. Voltou-se então precipitadamente, sem consciencia do que ia fazer; mas a parelha já tinha partido a trote largo.

Momentos depois o leão descia a rua do Ouvidor completamente absorto. Seu labio distrahido ia debulhando, sem o sentir, alguns trechos dos lindos versos do conselheiro José Bonifácio:

«Padres, não me negueis, se estáes em calma, Um coração no pé, na perna um'alma!»

XVIII

Laura e Amelia eram primas e amigas de infancia; havia entre ellas apenas a differença de dezoito mezes.

Desde a idade de tres ou quatro annos, isto é, desde que deixou as faxas, Laura usou sempre de roupas compridas. Isso causava reparo a todos que viam a menina trajada como uma senhora. Muitos achavam extravagante e ridiculo o capricho e censuravam a mãi.

Esta ouvia as censuras de suas amigas, assim como os motejos estranhos, e calava-se; mas não alterava o vestuario da menina. A ternura e piedade materna lhe davam a paciencia necessaria para arrostar com as zombarias do mundo.

Laura tinha um aleijão; nascêra com os pés disformes. Para mais aggravar o desgôsto dos pais, essa monstruosidade vinha ligada á uma belleza angelica. A senhora avaliou do infortunio de sua filha; e preparou-se para todos os sacrificios. Consultas foram dirigidas aos melhores medicos da Europa; chegou a emprehender uma viagem para tentar os recursos da sciencia; foram todos ineficazes.

Desenganada afinal, dedicou-se a esconder a desgraça de sua filha, afim de que ella não fosse obrigada á envergonhar-se na sociedade. Durante muito tempo Laura não teve outra criada, alem de sua mãi. A custa de esforços constantes, de uma vigilancia incessante de cada dia e cada hora, conseguiu a senhora manter esse segredo de familia, do qual dependia a felicidade da filha.

Attingindo a idade de oito annos, a menina com o instincto da mulher, comprehendêra seu infortunio; e desde então descansou a mãi daquelle cuidado incessante. Ficando moça casou-se, e seu marido que a amava extremecidamente, morreu ignorando o segredo.

Com bastante magoa sua, Amelia sorprendeu o segredo da prima e amiga.

A filha de Salles tinha dois pésinhos de fada, breves, arqueados, com uns dedos que pareciam botões de rosa. O desgosto e vexame que isso causava á moça, ninguem o imagina. Ella suppunha-se aleijada; apezar de seus 18 annos, seus pés eram de menina.

Assim o mesmo cuidado com que Laura escondia a sua monstruosidade, punha ella em occultar essa graça e prenda da natureza. Naquelle tempo não se tinha introduzido ainda a moda dos vestidos curtos; bem ao contrario o tom era arrastar desdenhosamente pelo chão a longa fimbria do vestido.

Um dia que Laura passou em sua casa, Amelia teve curiosidade de comparar seu pésinho com o da prima, para saber si a differença era excessiva. Em quanto a outra endireitava o penteado no toucador, realisou ella seu intento.

Avalie-se da vergonha e afflição de Laura; o desespero de Amelia foi maior ainda. Não perdoava a si mesma o ter causado tão grande pezar á prima, á quem ella queria muito bem. Para mitigar essa dôr profunda, Laura esqueceu a sua.

Desde então as duas amigas se consolavam mutuamente. Laura admirava o pésinho de Amelia; esta, ou sinceramente, ou para attenuar a magoa da prima, chegava a invejar o seu infortunio.

Aborrecida de não encontrar nas lojas calçado que lhe servisse, Amelia tinha descoberto por acaso o sapateiro da rua Sete de Setembro. Conhecendo a habilidade do Mattos, pensou que elle podesse disfarçar o defeito da prima. Não se enganou; o artista realisara a obra-prima de paciencia, que Leopoldo tivera occasião de apreciar por um acaso.

Amelia fez á Laura o sacrificio de expôr-se para não comprometter o segredo da amiga. O sapateiro não a conhecia, nunca a tinha visto, recebia as encommendas por intermedio de um criado que pagava á vista. Facil foi portanto illudil-o.

Na occasião em que as duas primas esperavam de carro na rua da Quitanda, o lacaio vinha da casa do sapateiro, o qual vexado com a pressa, esquecêra as recommendações de fechar bem o embrulho.