A Pata da Gazella: romance brasileiro.
Part 2
Imagine, quem conhecer o coração humano, a vehemencia dessa paixão, excitada pelo tédio do passado, e alimentada por uma imaginação ociosa. De que loucuras não é capaz o homem que se torna ludibrio de sua fantazia?
As extravagancias de Horacio, contemplando a botina, verdadeiras infantilidades de homem feito, bem revelavam a agitação dessa existencia, embotada para o verdadeiro amor, e gasta pelo prazer.
Não se riam, homens serios e graves, não zombem de semelhantes extravagancias; são ellas o delirio da febre do materialismo que ataca o seculo.
Essa paixão de Horacio, o que é sinão uma aberração da alma, consagrada ao culto da materia? A voracidade insaciavel do desejo vai criando dessas monstruosidades incomprehensiveis.
Succede á esta embriaguez do amor o mesmo que á embriaguez do alcool. A principio basta-lhe o vinho fino e aristocratico; depois carece da aguardente; e por fim já não a satisfaz a infusão de gengibre em rhum; isto é, a lava de um volcão preparada á guisa de grogue.
IV
Ao mesmo tempo que o nosso leão, entrava Leopoldo de Castro na modesta habitação que então occupava na Gloria.
Quando lhe fugira a celeste visão, o mancebo foi seguindo com o passo e com os olhos o carro que levava sua alma presa áquelle rosto encantador. O passo era rapido e o olhar ardente; um anciava por chegar; o outro quizera attrahir pela força da paixão, pelo iman das centelhas magneticas, que desferia a alma.
Fosse illusão dos sentidos perturbados pela commoção interior, ou breve e confusa percepção da realidade, julgou o moço vêr, no momento de dobrar o carro pela rua Sete de Setembro, um talhe esbelto inclinar-se para a frente, e apparecer de relance um rosto alvo, donde escapou-se vivo e rapido olhar.
Leopoldo não tinha o intento de alcançar, nem mesmo seguir, o carro que fugia com velocidade; mas embalava-o a esperança de que um obstaculo qualquer, impedindo por instantes o livre transito, lhe permittisse outra vez contemplar a moça. Quando, porém, isso não succedesse, consolava-o a idéa de conhecer a direcção que tomaria a linda victoria:
--Si eu soubesse ao menos para que lado mora ella!... Esse ponto seria o meu horizonte, o meu céo. Me voltaria para ali quando adorasse á Deus, e quando conversasse com ella. Amaria as estrellas, as nuvens e até as borrascas dessa banda do firmamento; amaria as ruas, as calçadas e até a poeira desse arrabalde da cidade.
O mancebo vagou assim durante duas horas, percorrendo as ruas sem destino. Não era tanto a esperança de vêr a moça ou sómente o carro, como a necessidade de occupar seu espirito, o que o impellia nessa perseguição de uma sombra.
--Eu tornarei a vel-a, pensava elle comsigo; e ella me ha de amar, tenho convicção. O amor é um magnetismo; eu acredito que o magnetismo se resume nelle; que a lei da attracção não é sinão a lei da sympathia; os polos são a cabeça e o coração, na terra, como no homem. Si ella fôr a mesma que eu vi com os olhos de minha alma, a mesma que se revellou á minha paixão, aquella a que devo unir-me eternamente para formar um ser mais perfeito, eu caminharei para ella, como ella para mim, impellidos por uma força mysteriosa, por mutua aspiração.
Com o animo repousado por essa convicção que nelle se derramára, entrou Leopoldo em casa. Ahi o esperava o isolamento em que se ia escôando sua vida, depois da perda de uma irmã á quem adorava.
Nessa irmã tinha elle resumido todas as affeições da familia, prematuramente arrebatadas á sua ternura; o amor filial, que não tivera tempo de expandir-se, a amisade de um irmão, seu companheiro de infancia, todos esses sentimentos cortados em flôr, elle os transportára para aquelle ente querido, que era a imagem de sua mãi.
Essa perda deixára um vacuo immenso no coração de Leopoldo; a principio enchera-o a dôr; depois a saudade; agora essa mesma terna saudade sentia-se desamparada na profunda solidão daquelle coração ermo. O mancebo carecia de uma affeição para povoar esse deserto de sua alma; de uma voz que repercutisse nesse lugubre silencio. É tão doce partilhar sua melancholia, ou seu prazer, com um outro eu, com um amigo ou uma esposa. São dous hombros para a cruz, e dous peitos para a alegria; alliviar-se o peso, mas duplica-se o gozo.
Ao cahir da tarde, quando o crepusculo já desdobrava sobre a cidade o véo de gaza pardacenta, Leopoldo, sentado á janella de peitoril de sua casa, fumava um charuto, com os olhos engolphados no azul diaphano do céo, onde scintillava a primeira estrella. A seus pés desdobrava-se a bahia placida e serena como um lago, com a sua graciosa cintura de montanhas, caprichosamente recortadas.
O espirito do moço não se embebia de certo na perspectiva dessa encantadora natureza, sempre admirada, e sempre nova. Ao contrario abandonava-se todo ás recordações de seu encontro pela manhã e aos enlevos que lhe deixara a contemplação da linda moça. Passava e repassava em sua memoria como em um cadinho, todas as circumstancias minimas deste grande e importante acontecimento, desde o momento em que assomou a visão até que desappareceu por ultimo ao dobrar o canto da rua.
Achava nisso o mesmo praser que um menino guloso experimenta em chupar novamente os favos já saboreados; lá ficou um raio de mel, que o labio avido colhe. Para Leopoldo esses raios de mel eram os olhares, os movimentos, os sorrisos da moça, avivados pela maior contensão do espirito.
Houve uma occasião em que o mancebo quiz representar em sua lembrança a imagem da moça: naturalmente começou interrogando sua memoria á respeito dos traços principaes. Como era ella? Alta ou baixa, torneada ou esbelta, loura ou morena? Que côr tinhão seus olhos?
A nenhuma dessas interrogações satisfez a memoria; porque não recebêra a impressão particular de cada um dos traços da moça. Não obstante, a apparição encantadora resurgia dentro de sua alma; elle a revia tal como se desenhára a seus olhos algumas horas antes. Era a imagem diaphana de um sonho que tomara vulto gracioso de mulher.
--Não me lembro de seus traços, não posso lembrar-me!... murmurava no intimo. Eu a contemplei, como se contempla uma luz brilhante: ve-se a chamma, o esplendor; e nem se repara no espectro que a flamma envolve como uma roupagem. Ella é minha luz; não sei a côr e a fórma que tem, mas sei que scintilla, que me deslumbra; que innunda meu ser de uma aurora celeste. Não poderia descreve-la, como um poeta... Mas que importa? Pois que eu a sinto em mim; pois que eu a possuo em meu coração?
As palpebras do mancebo cerrarão-se coando apenas uma restea de olhar, que se embebia nas alvas espiras da fumaça do charuto. Percebia-se que naquella nevoa se debuxava á sua imaginação a seductora imagem, deante da qual elle cahia em extases de uma doçura ineffavel.
--Quem sabe? Talvez não seja ella o que nos bailes se chama uma moça bonita; talvez não tenha as feições lindas e o talhe elegante. Mas eu a amo!... O amor é sol do coração; imprime-lhe o brilho e o matiz! Venus, a deosa da formosura, surgindo da espuma das ondas, não é outra cousa senão o mytho da mulher amada, surgindo d'entre as puras illusões do coração! O que eu admiro nella, o que me enleva, é sua belleza celeste; é o anjo que transparece atravez do envolucro terrestre; é a alma pura e immaculada que se derrama de seus labios em sorrisos, e a envolve como a scintillação de uma estrella.
Leopoldo já não estava só na existencia; tinha para acompanha-lo na esperança essa doce apparição; como para partilhar a saudade tinha a memoria querida de sua irmã. O coração aproximou as duas imagens; ligou-as por algum vinculo misterioso; e creou assim uma familia ideal, em cujo seio viveu para o futuro, como para o passado.
Nas horas do trabalho, o moço absorvia-se completamente nas occupações habituaes e cerrava sua alma para não deixar que as miserias do mundo ahi penetrando profanassem o templo de sua adoração; o templo da esperança e da saudade. Fora dessas longas horas, encerrava-se naquelle asylo e ahi vivia.
Alguns dias depois do encontro da rua da Quitanda, o Castro percorrendo distrahidamente os jornaes da manhã, deu com os olhos sobre os annuncios de espectaculo, cousa que desde muito tempo não existia para elle. Representava-se no theatro lyrico a _Lucia de Lamermoor_, o mais sublime poema de melancolia, que já se escreveu na lingua dos anjos.
O mancebo teve um desejo irresistivel de ir aquella noite ao espectaculo, apezar de conservar ainda o luto pesado. Não comprehendia esse capricho de seu coração; attribuiu ao encanto das reminiscencias daquella musica tão triste, e tambem daquelle amor tão estremecido, que os homens quizeram romper, mas a fatalidade uniu para sempre no tumulo. Elle ia saturar-se de tristeza; não havia, portanto, profanação de uma dôr santa.
Eram perto de dez horas: cantava-se o final do segundo acto da opera, e Leopoldo, sentado em uma cadeira, do lado direito, estava completamente absorvido no canto magistral de Lagrange e Mirate. Um momento, porém, ergueu os olhos, e volvendo-os lentamente, fitou-os em um camarote da segunda ordem. Estremeceu; o olhar morno e baço que se escapava de sua pupilla illuminou-se de fogos sombrios e ardentes.
Vira a mulher amada.
Amelia estava nessa noite em uma de suas horas de inspiração; a mulher bella tem, como o homem de intelligencia, em certos momentos, influições energicas de poesia; nessas occasiões ambos irradiam; a mulher fica esplendida, o homem sublime.
O talhe esbelto da moça desenhava-se através da nivea transparencia de um lindo vestido de tarlatana com laivos escarlates. Coroava-lhe a fronte o diadema de suas bellas tranças, donde resvalavam dois cachos soberbos, que brincavam sobre o collo. Os cabelleireiros chamam esses cachos de arrependimentos, _repentirs_. Por que motivo? A alma que se arrepende convolve-se daquella fórma; o pezar a confrange. Já se vê que os cabelleireiros tambem são poetas.
Não foi, porém, o suave perfil da moça, nem os contornos macios de suas fórmas gentis, o que arrebatou o espirito do mancebo. Elle só viu a luz, o brilho d'alma, rarejando do sorriso. Contemplava a rosa, embebia-se nella, sem contar-lhe as petalas.
Amelia, que apoiava o lindo braço sobre a almofada de velludo da ballaustrada, prestava attenção á scena, recolhendo ás vezes a vista para discorrel-a vagamente pelos camarotes fronteiros. Depois que o panno cahiu, conservou-se na mesma posição, conversando com sua mãi e Laura que ali estava de visita. Então voltou rapidamente o rosto, e deixou cahir sobre a platéa um olhar subito e vivo. Foi uma centelha electrica, listrando no espaço, para logo apagar-se.
Revelou-se no semblante da moça alguma inquietação e visivel incommodo. Quiz disfarçar, mas afinal ergueu-se, para occultar-se no interior do camarote, por detrás de Laura, a qual occupava o outro logar da frente.
O olhar que deitára á platéa encontrou o olhar profundo e ardente de Leopoldo; e batendo de encontro a esse raio brilhante, reagiu como estylete para feril-a no coração.
Leopoldo notou vagamente esse movimento; mas como entre a columna e o busto de Laura elle via a sombra da mulher a quem amava, não se interrompeu seu enlevo. De vez emquando passava-lhe pelo rosto um lampejo subtil, no qual presentia o olhar furtivo da moça.
V
Estava a subir o panno.
Amelia resolvêra ficar onde estava, e não tomar o logar da frente, apezar de Laura ter voltado a seu camarote. Mas essa resolução, tão solidamente calcada em seu coração, cahiu de repente: bastou um olhar. Vira na platéa, encostado á balaustrada da orchestra, um elegante cavalheiro.
Era Horacio.
O sorriso brando que manava dos labios da moça, como a onda pura e christalina de um ribeiro, desappareceu então sob outro sorriso mais brilhante, que borbulhava como a frol da cascata. Era o sorriso da vaidade, como o outro era da innocencia.
A moça collocou-se na frente, fazendo realçar com a graça de seus movimentos a suprema elegancia do talhe. Demorou-se mais do que era preciso nesse acto; e sentando-se, houve em seu corpo um impulso quasi imperceptivel de mysteriosa expansão. Dir-se-hia que ella se queria debuxar no quadro illuminado do camarote.
A causa desse elance não o adivinham? O leão tinha assestado seu binoculo de marfim; e a moça com um irresistivel assomo de faceirice abandonava-se ao olhar do mancebo.
Durante o acto, Amelia distrahiu mais a attenção do semblante pallido de Leopoldo. Enleiava os olhos na figura elegante de Horacio; prendia-se ao fino buço negro que sombreava o labio desdenhoso do leão; embebia-se toda na graça de sua attitude: tentando assim resistir a curiosidade incommoda que attrahia sua attenção para o importuno desconhecido.
Não sei porque, Leopoldo, cuja adoração era infatigavel como a emanação de uma chamma perenne, sentia naquella occasião a necessidade de dar um repouso a sua contemplação. Então como si a luz que o deslumbrava se fosse tornando mais doce, elle pôde vêr destacar-se o perfil gracioso da moça.
--Tem o cabello castanho! É pena! Acreditava que a mulher a quem amasse algum dia, havia de ser loura. É a côr do reflexo da luz, deve ser a côr desse véo casto que Deus fez para o pudôr. A madeixa foi dada á mulher para recatar a face que enrubece e o seio que palpita; essa gaza preciosa deve ser de ouro, ou antes de graça e esplendor.
O moço já não olhava para Amelia; com as palpebras cerradas estava agora vendo-a na penumbra d'alma.
--Mas para mim é indifferente que tenha o cabello castanho; podia têl-o negro como a treva. Eu a amo, amo sua alma, sua essencia pura e immaculada! Si Deus me enviou um anjo para consolar-me em minha afflicção; para amparar-me em meu isolamento; para encher de ineffaveis jubilos meu ser saturado de amarguras; posso eu queixar-me porque o Senhor o vestiu de uma simples tunica de lã, e não de um sumptuoso manto de ouro? Eu gostava dos cabellos louros: pois agora só gosto, só quero, só vejo uns cabellos castanhos, porque pertencem a ella, s'impregnam de seu perfume, e respiram seu halito!
Terminára o acto. Leopoldo, contemplando a moça, pela primeira vez lembrou-se de saber quem era, na sociedade, aquella mulher que lhe pertencia pelo pensamento. Tinha-se habituado a consideral-a como uma cousa sua; parecia-lhe que ninguem mais existia sinão elles dois.
Volveu os olhos em busca de algum conhecido, a quem dirigisse a pergunta. Não encontrou: mas ao cabo de alguns instantes descobriu o leão em seu posto.
--Ah! lá está Horacio, que póde me informar. Elle conhece todo o mundo! Justamente agora pôz o binoculo para o camarote.
Como desejava sahir, dirigiu-se para aquelle lado; mas o leão, inquieto e preoccupado, sahira açodadamente, e subia de um pulo as escadas que o separavam da segunda ordem.
--Aquella mão é irmã do meu adorado pesinho! Não tem a graça delle, sem duvida, nem se compara com aquelle mimo de amor; mas ha um certo ar de familia, um quer que seja!...
Assim cogitando, Horacio chegára á porta de um camarote, e pela fresta fitára com disfarce o olhar em Laura, cuja mão, excessivamente pequena, e calçada por uma luva muito justa, custava a segurar o binoculo de madreperola.
O moço, apenas reconheceu o vestido de seda violeta, e a mãosinha que lhe servira de phanal, abaixou o olhar para a fimbria do vestido a vêr si descobria alguma cousa, o peito, a ponta, a sombra, ao menos, do pesinho mimoso, do idolo de sua alma. Mas não foi possivel: o vestido arrastava no chão; nenhum movimento fazia ondular a seda; e comtudo o mancebo ali ficou immovel, palpitante de emoção, como si esperasse dos labios da mulher amada o monosyllabo que devia dicidir de seu destino.
A paixão que o mancebo concebêra pela dona incognita da botina achada, longe de se desvanecer, adquirira uma vehemencia extrema. Horacio, o feliz conquistador, o coração fogoso e inflammavel, nunca ardêra por mulher alguma, como agora ardia por aquelle pesinho idolatrado. Era um verdadeiro amor de leão, terrivel e indomito; era um delirio; uma raiva.
Seus amigos já não o reconheciam; elle apparecia nos bailes, nos theatros, nos pontos de reunião, de relance, como um meteoro, seguindo após uma idéa fixa, ou uma sombra que fugia diante de seus passos. Conversou-se muito na rua do Ouvidor á este respeito. Uns attribuiam o facto inaudito á primeira derrota.
--Horacio, dizia um de seus amigos, como Napoleão, só devia ser derrotado uma vez. Mas essa vez foi Waterloo!
--Que pensa então?
--Que o pobre rapaz caminha para o seu rochedo de Santa Helena. Ou casa ahi com alguma mulher feia e rica, ou engorda como um cevado.
Outros lembravam-se de algum desarranjo de fortuna, ou de alguma velleidade politica, para explicar o mysterio. Mas sabia-se que o moço tinha bom e seguro rendimento; e quanto á politica, elle a comparava a uma embriaguez causada pela mais ordinaria zurrapa de taberna.
Muitas vezes disse, gracejando, a seus amigos:
--Quando me quizer embriagar, em vez de zurrapa, beberei champanhe. É mais fino, e tambem mais barato, porque não deixa uma irritação de estomago, cujo preço é muito superior ao de uma caixa de melhor _cliquot_.
A causa real da mudança do leão ninguem, pois, a sabia, nem a suspeitava.
Depois da achada da botina, sua vida tomara um aspecto muito differente. Naquella mesma tarde em que o deixamos na sua casa de Botafogo, terminado o jantar, mandou apromptar o tilbure e voltou á cidade. Seu apparecimento áquella hora na rua do Ouvidor causou extranheza; um leão de raça, como elle, não passeia ao escurecer, sobretudo no centro do commercio, onde só ficam os que trabalham. Seria misturar-se com os leopardos que aproveitam a ausencia dos reis da moda, para restolhar alguma caça retardada.
Correu Horacio todas as lojas de calçado á procura de informações. Para disfarçar sua paixão, inventou uma aposta, como pretexto á sua curiosidade. A um freguez como elle não se recusava tão pequeno favor, sobretudo quando levava o sainete de uma anecdota de bom tom. A todos elles o leão se dirigia mais ou menos nestes termos:
--Fiz uma aposta com uma senhora. Que em todo o Rio de Janeiro não se encontram tres moças de 18 annos que calcem n. 29. Tenho todo o empenho em ganhar a aposta, não tanto pelos botões de punho, como porque, si ella perder, ha de ser obrigada a mostrar-me seu pé, para eu verificar si é realmente desse tamanho. Peço-lhe, pois, que me dê uma nota das freguezas a quem costuma vender calçado deste numero.
Nesta pesquiza gastou Horacio muitos dias, sem colher o menor resultado. Os poucos pares de calçado n. 29, vendidos pelas differentes lojas, eram destinados á meninas de doze annos ou a pessoas desconhecidas, cuja idade se ignorava. Apezar de tudo o leão não desanimava; todas as manhãs, ao acordar, levantava um plano de campanha, que punha em pratica durante o dia.
Horacio sentira-se de repente tomado de indefinivel ternura por uma classe; de que antes só lembrava-se para amaldiçoal-a: a classe dos sapateiros. Quando via um sujeito de avental de couro e sovella, o leão sentia-se attrahido para aquelle individuo, que talvez encerrasse o segredo de sua felicidade, seu futuro, sua existencia. Outras vezes, porém, tinha de repente uns accessos de ciume selvagem. Lembrando-se que esse operario talvez já houvesse tomado medida ao adorado pésinho; que essas mãos calosas teriam tocado a cutis assetinada do anjo de seus pensamentos; o mancebo sentia em si o furor de Othello e procurava um punhal no seio; felizmente só achava a carteira, a adaga de ouro com que neste seculo se assassina mais cruelmente.
Depois de consumir as horas em suas indagações, ia contemplar a botina, prenda querida de seu amor e proseguia á noite sua porfia incansavel. Corria os espectaculos e bailes, com o olhar rastejando para descobrir por baixo da orla do vestido, o ignoto deus de suas adorações. Não dansava para observar melhor o arregaçado dos vestidos; de ordinario andava pelas escadas e portas, afim de aproveitar o ensejo da subida e descida; muitas vezes ia fumar junto ao logar onde se collocavam os lacaios, na esperança de conhecer o portador da botina.
Quando as rainhas da moda, as deusas do salão, sorprezas e attonitas o viam passar sem distinguil-as com uma palavra ou uma fineza, elle, atirando-lhes um olhar de compaixão, dizia comsigo:
--Coitadas! não sabem que o leão viu a pata da gazella e fareja-lhe o rastro. Que lhe importam as garras da panthera?...
Recolhendo, Horacio accendia duas velas transparentes e collocava-as a um e outro lado da almofada de velludo escarlate, sobre uma mesinha de charão, embutido de madreperolas. Tirava de um elegante cofre de platina a mimosa botina, e com respeitosa delicadeza deitava-a sobre a almofada, de modo que se visse perfeitamente a graciosa fórma do pé que habitara aquelle ninho de amor.
Então accendia o charuto, sentava-se n'uma cadeira de espreguiçar, defronte, porém, distante, para que o fumo não se empregnasse na botina, e ficava em muda e arrebatada contemplação até alta noite.
Sobre aquella botina via elevar-se como sobre um pedestal, um vulto de estatua, mas vago, indistincto; e comtudo esse esboço sem fórmas seductoras, aquella sombra sem alma e sem calôr lhe parecia de uma belleza deslumbrante. Não era ella a mulher a que pertencia o mais formoso pé do mundo, o mimo, a obra prima da natureza?
Recordava-se das mulheres mais bonitas que tinha visto, das mais lindas senhoras a quem amára com paixão, e sua memoria as trazia todas, uma após outra, para as collocar ao lado daquella figura vaga e desvanecida, que plainava sobre a almofada, como sobre uma nuvem de ouro. Como ellas fugiam abatidas e humilhadas diante de seu impetuoso desdêm!
--Não são dignas, murmurava elle, nem de beijarem o chão pisado pela fada desta botina!
Eis qual tinha sido a vida de Horacio até o momento em que o vamos encontrar no mesmo logar defronte da porta entreaberta do camarote. Laura percebeu-o afinal, e sorriu-lhe com ternura. A attenção do rei da moda era uma fineza, um ar de seu real agrado; cumpria-lhe agradecer.
Fitando com mais força o olhar na pupilla da moça como para travar-lhe da vontade, Horacio abaixou lentamente esse olhar até a fimbria do vestido de chamalote com uma insistencia significativa. Laura fez-se escarlate; e a porta do camarote, rapidamente fechada, a subtrahiu ás vistas ardentes do leão.
--É ella! exclamou o coração do mancebo afogado em jubilo. Não ha duvida. Para sentir esse pudor exagerado e incomprehensivel é preciso ter ali occulto um pé como aquelle que eu sonhei. Um pé?... Não; um mimo, uma maravilha, um thesouro, um céo!... É o pudor da violeta, que se esconde na sombra; é o pudor da perola, occulta na concha; é o pudor do diamante, sumido no seio da terra; é o pudor da estrella, immergindo-se no azul.
O leão desceu as escadas murmurando:
--Vêl-o e morrer.
Pouco depois terminou o espectaculo. Amelia com um resaibo de melancholia na fronte, embuçou-se na pellissa e desceu. Ella perdêra de vista Horacio, e só o tornára a vêr parado em frente á porta do camarote de Laura. Desamparada pelo encanto do gentil mancebo, soffrêra todo o resto do espectaculo o desassocêgo que lhe incutia o olhar de Leopoldo. Por mais que voltasse o rosto sentia a phosphorecencia estranha desse olhar repulsivo, que entretanto a prendia, máo grado seu.
Leopoldo esperava no corredor da entrada a passagem da moça, quando avistou a seu lado Horacio. O leão soffrego e impaciente, volvia o olhar em varias direcções; naturalmente procurava alguem, e receiava que lhe escapasse.
--Adeus, Horacio.
--Boa noite, Leopoldo.
Amelia appareceu nesse momento.
--Conheces aquella moça, Horacio?
--Qual?... Espera!
Horacio tinha avistado Laura, que descia o lanço da escada opposta, e corrêra pressuroso, com os olhos fitos na fimbria de sêda. Seu olhar tinha tal força que parecia um croque a levantar a orla do vestido. Debalde; nem a sombra do pé: o encorpado estôfo arrastava pesadamente pelo chão.