# A Paranoia

## Part 5

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A expressão _delirio systematisado_, empregada por opposição á de _delirio dissociado_ ou _incoherente,_ significa apenas que certas idéas morbidas habitualmente adherem e se conjugam em grupos associativos; assim comprehendida, esta expressão não allude, nem mesmo remotamente, quer á _origem_ d'essas idéas, quer á _natureza_ e _grau_ da affinidade que as liga, quer, emfim, á sua _evolução_. N'este sentido, tão systematisados são os delirios protogenicos como aquelles que succedem a estados affectivos, tanto os que constituem doenças como os que apenas representam syndromas, tanto aquelles em que as associações morbidas são activas e fortes como aquelles em que ellas são examines, passivas e frouxas, tanto os que marcham para a extincção pela demencia como aquelles que se perpetuam, tanto os continuos como os que procedem por accessos.

N'este sentido geral ha, pois, delirios systematisados _primitivos_ e _secundarios_, _idiopaticos_ e _symptomaticos_, _continuos_ e _intermittentes, agudos_ e _chronicos_. E assim, a não ser nos casos extremos de mania, de demencia, de confusão mental e de idiotia, todos os delirios serão mais ou menos systematisados, até os que se geram na imbecilidade, até os que, uma ou outra vez, se desenvolvem nos periodos iniciaes da paralysia geral, o que não fará espanto, se nos lembrarmos de que a systematisação associativa é o fundamento mesmo de toda a actividade mental. _Verrücktheit_ é o termo empregado pela maioria dos auctores allemães para, exprimirem este sentido geral dos delirios systematisados; e se estes, como é de regra, se associam a illusões e allucinações, o termo _Wahnsinn_ é synonimamente empregado, se bem que com menor frequencia.

Mas ao lado d'este sentido geral e vago, ha um outro limitado e restricto,--precisamente o que nas paginas precedentes vimos implicitamente adoptado pelos psychtatras francezes. Este novo sentido exclue os delirios _secundarios,_ os _symptomaticos_ e os _agudos_ para comprehender apenas os _primitivos_, os _idiopaticos_ e os _chronicos_. Na accepção restricta do termo, só são systematisados os delirios que não teem uma base affectiva em estados expansivos ou depressivos (mania ou melancolia), e que na sua evolução progressiva ou remittente, mas sempre continua e chronica, não offerecem tendencias para a demencia. Tal o delirio de perseguições, typo-Lasègue; tal o delirio ambicioso, typo-Foville; tal o delirio dos perseguidos-perseguidores, typo-Falret.

Este sentido restricto parece ser tambem o proprio, se attendermos a que o termo _systema_, pedido á technologia das sciencias physico-mathematicas, implica a idéa de uma força _activa_ e _persistente_ de attracção ou de affinidade (_systemas planetarios, systemas de crystalisação_); por analogia, na esphera psychologica o _systema delirante_ deveria resultar de uma força _viva_ e _permanente_ de associação das idéas, tal como se dá sómente nos delirios primitivos, idiopaticos e chronicos,--delirios movimentados, activos, tenazes. _Paranoia_ é o termo com que de preferencia exprimem os auctores allemães contemporaneos este sentido restricto dos delirios systematisados, quer isolados, quer succedendo-se, quer coexistindo no mesmo doente; e assim corresponde inteiramente á _loucura systematizada_ dos francezes, na qual estão comprehendidas as syntheses de Morel, de Gérente e de Régis.

Entretanto, mesmo os auctores para quem o termo _Paranoia_ tem esta accepção restricta e determinada, o desviam d'ella não raras vezes (o que é uma causa de confusão) para tomal-o no sentido geral e como synonimo de _Verrücktheit_ ou _Wahnsinn_; é o que faz, por exemplo, Krafft-Ebing que, não admittindo na sua theoria da Paranoia (_psychose degenerativa_) senão a fórma primaria, idiopatica e chronica, não duvida empregar as expressões de _Paranoia epileptica_, de _paranoia masturbatoria_ (_delirios syntptomaticos_), como não deixa de occupar-se em detalhe de uma _Paranoia Secundaria (estado terminal das psychoneuroses_). Note-se, porém,--e isto fará cessar toda a confusão--que o termo Paranoia, quando empregado n'um sentido geral pelos auctores a que me refiro, vem sempre seguido de um adjectivo que o determina; quando tomado no seu sentido restricto, ou vem só ou, quando muito, acompanhado de um termo que faz allusão a accidentes evolutivos de chronicidade ou ao contheudo das idéas delirantes, como nas expressões _Paranoia originaria, Paranoia adquirida_, ou ainda _Paranoia persecutoria, Paranoia ambiciosa_. No primeiro caso, sendo a _Paranoia_ uma _Verrücktheit_, um _Wahnsinn_, um delirio systematisado, importa determinar-lhe a _especie_; no segundo, sendo uma _Primäre Verrücktheit_, um _Cronicher Wahnsinn_, um delirio systematisado primitivo e chronico, a sua especie está definida, o seu logar marcado na classificação, importando apenas, quando importe, designar-lhe a _variedade_.

Posto isto, diremos que é sobre a _Paranoia_ como synthese clinica e doutrina equivalente em extensão á _loucura systematisada_ dos francezes que primeiro vae recahir a nossa attenção. Claro está que este modo de limitar o assumpto e de fixar-lhe a terminologia, de modo nenhum nos inhibe de dar na historia das doutrinas um logar áquellas em que o assumpto se toma n'uma extensão maior; esse logar, porém, deve ser o ultimo, não só porque assim o exige a clareza da exposição, mas porque só depois de passados em revista os delirios systematisados primitivos e chronicos, ácerca dos quaes ha na Allemanha uma doutrina mais ou menos definida, poderemos com vantagem occupar-nos dos secundarios e agudos, cuja controvertida existencia é um thema de infinitas e obscuras divagações.

Quanto á terminologia por nós adoptada n'esta exposição, diremos que, podendo empregar indifferentemente as palavras Paranoia, Primäre chroniche Verrücktheit ou Chronicher Wahnsinn, faremos uso exclusivo da primeira, não só por um motivo de simplicidade, senão pelas razões que os italianos invocam para dar-lhe tambem preferencia: a sua origem grega, que a assemelha aos outros nomes da psychiatria; a sua expansibilidade internacional, que lhe vem d'essa mesma procedencia; emfim, a facilidade com que d'ella se fazem necessarias palavras derivadas, adjectivos e adverbios.

Depois dos trabalhos de Snell[1], de Griesinger[2] e de Sander[3], a doutrina da Paranoia foi retomada em 1878 por Westphal[4], que a desenvolveu e aprofundou.

[1] _Über Monomanie_, 1863.

[2] _Arch. f. Psych._, 1867.

[3] _Über eine specielle Form der primäre Verrücktheit_, 1868-69.

[4] _Zeitschr. f. Psych._, 1878.

Como os seus antecessores, elle insistiu na origem protogenica da Paranoia: a perturbação ideativa é o facto inicial, independente de estados affectivos preexistentes; os sentimentos depressivos ou expansivos que no curso d'esta psychose se observam, não são senão secundarios e determinados pelo contheudo das idéas hypocondriacas, de perseguição ou de grandezas. Ainda como os seus predecessores, Westphal insistiu na falta de tendencias da Paranoia para a demencia; a debilidade mental que por vezes se nota nos paranoicos, é prévia e não consecutiva, e não póde, por isso, servir para caracterisar a psychose, mas o terreno em que ella germina. Reconhecendo a frequencia das allucinações na Paranoia, Westphal notou, todavia, que ellas podem algumas vezes faltar; para elle a caracteristica fundamental da Paranoia reside na perturbação ideativa, na anomalia conceptual que, por si só e independentemente dos erros sensoriaes, gera as idéas delirantes destinadas a dominarem de um modo completo e absoluto o Eu vesanico. As idéas de perseguição e de grandeza podem, segundo Westphal, succeder, como notara Morel, á hypocondria, mas podem tambem nascer e organisar-se _d'emblèe_. De resto, segundo Westphal, o desvio paranoico está no modo de formar as idéas, não de as associar, o que explica a persistencia do raciocinio e a coherencia entre os actos e os pensamentos do doente.

Alargando a area extensiva da Paranoia, Westphal integrou no quadro clinico d'esta psychose as _obsessões_, que, não offerecendo a marcha e evolução das idéas delirantes dos paranoicos, teem, comtudo, como ellas, uma origem primitiva e espontanea; d'aqui a creação de uma variedade, _Paranoia abortiva_ ou rudimentar ou frustre, para designar a loucura obsessiva ou das idéas fixas.

Até aqui, como se vê, a doutrina de Westphal não differe essencialmente das estudadas syntheses clinicas dos psychiatras francezes. Todavia na sua classificação da Paranoia produziu o eminente professor de Vienna uma idéa que o separa dos seus predecessores francezes e allemães: de facto, ao lado da fórma _hypocondriaca_, já conhecida desde Morel, da fórma _originaria_ ou congenita, descripta antes por Sander, e da fórma _chronica_, de marcha progressiva ou remittente, em que _d'emblèe_ se produzem idéas de perseguição e de grandeza, admittiu Westphal uma fórmia _aguda_, caracterisada pela subita eclosão de allucinações principalmente auditivas e muitas vezes aterradoras, acompanhando-se de idéas de perseguição e levando o doente ora á incoherencia e confusão mental (_Verwirrtheit_) com impulsões, ora ao stupor, á prostração e aos estados catatonicos de Kahlbaum.

A creação d'esta fórma _aguda_, que está fóra dos limites por nós traçados ha pouco á Paranoia, foi o ponto de partida, entre os allemães, das mais numerosas e mais graves dissidencias doutrinarias sobre este capitulo da psychiatria. Comquanto não tenhamos de occupar-nos agora d'este ponto, entendemos dever fazer-lhe desde já uma referencia, não só para não deixarmos incompleta a exposição das idéas de Westphal, mas para marcarmos a origem historica de uma corrente de idéas que teremos de estudar e precisar mais tarde.

Notaremos, por fim, que Westphal só á fórma _originaria_ reconhece um fundo degenerativo.

Fritsch[1] em 1878 insistiu nas relações entre as idéas delirantes e os estados affectivos, comparando o que se passa na Paranoia com o que tem logar na mania e na melancolia.

[1] _Psychiatr. Centralblatt_, 1878.

Ao passo que n'estas psychoses o delirio surge secundariamente, e as idéas falsas podem, com Griesinger, considerar-se _tentativas de interpretação_ das emoções iniciaes depressivas ou expansivas, na Paranoia, ao inverso, as idéas delirantes são primitivas e os estados emocionaes secundarios,--meras reacções do sentimento sob o contheudo das idéas. Adiante voltaremos a citar este auctor, que não acceita a fórma _aguda_ da Paranoia.

Em 1879, Schaefer[1] continuou as idéas de Westphal, pondo, comtudo, n'um relevo maior o papel das allucinações e illusões.

[1] _Alig. Zeitschr. f. Psych._, 1879.

Se a Paranoia essencialmente consiste no facto de que as idéas delirantes são acceites pelo doente como realidades e n'este sentido constituem o alimento habitual e ordinario de toda a sua actividade psychica, não deve esquecer-se que os erros sensoriaes, mais frequentes n'esta psychose do que em todas as outras, activam o delirio, dão-lhe uma base, um ponto de apoio constante, e pela sua diuturnidade criam para o doente um mundo phantastico, falseam-lhe o juizo e acabam por n'elle abolir o _senso critico_.

Digamos de passagem que Schaefer acceita todas as fórmas da Paranoia descriptas por Westphal, incluindo a _aguda_, que teria por ponto de partida as allucinações.

No mesmo anno, Merklin[2] descreveu pela primeira vez o delirio processivo (_Quaerulantenwahnn_) como variedade ou sub-grupo da Paranoia, encontrando-se assim no terreno da theoria com Lasègue, para quem, como foi dito, o delirio dos perseguidores seria uma variedade (_fórma activa_) do delirio de perseguições.

[2] _Studien über primäre Verrücktheit_, 1879.

No seu _Tratado_, cuja primeira edição remonta a 1879, fez Krafft-Ebing da Paranoia um estudo completo, de uma rara e attrahente lucidez. Paranoia e loucura systematisada são termos e noções equivalentes; assim, separando-se de Westphal, regeita a fórma aguda da Paranoia e desintegra d'esta psychose a loucura obsessiva, no que procede á maneira dos auctores francezes. Mas o ponto original da sua doutrina está em dar á Paranoia um logar entre as degenerescencias psychicas. Duas ordens de considerações conduzem Krafft-Ebing a este modo de vêr; a génese e a evolução da doença, por um lado, os antecedentes psychopaticos dos doentes, por outro. Nem o modo de apparição, nem a marcha permittem considerar a Paranoia uma doença accidental, como o são as psychonevroses; pelo contrario, tudo a inculca uma psychose constitucional, uma doença de um cerebro tocado quer pela hereditariedade, quer por graves affecções capazes de irreparavelmente o enfraquecerem. De facto, sem obnubilação de consciencia, sem alteração fundamental de affectos, no goso habitual de um humor nem deprimido, nem exaltado, e a despeito da integridade das fórmas do raciocinio, o paranoico vê o mundo erradamente e é incapaz de corrigir quer as suas idéas, quer as suas falsas percepções. As idéas delirantes, não procedendo do exterior, nem resultando de emoções preexistentes pelo mecanismo psychologico da reflexão, vêem do inconsciente e impõem-se ao paranoico, do mesmo modo que se lhe impõem os erros sensoriaes: um excesso de subjectivismo e uma radical ausencia de senso critico, são, pois, as caracteristicas fundamentaes da Paranoia, cuja evolução, sem tendencias para a demencia ou para a cura, é essencialmente chronica. De resto, a banalidade das causas determinantes (que muitas vezes não são senão as phases physiologicas da vida: a puberdade, a menopause, etc.) implica uma forte predisposição congenita ou adquirida. Por outro lado, a historia de todos os paranoicos (e não só, como pretendia Westphal, a dos originarios de Sander) é a dos desequilibrados, dos candidatos á loucura, dos degenerados, n'uma palavra; de sorte que a doença representa apenas o exaggero ou _hyperthrophia_ de um caracter preexistente, não podendo entre ella e o estado normal traçar-se, como nas psychonevroses, uma nitida linha divisoria.

Krafft-Ebing classificou a Paranoia pelo contheudo das idéas delirantes, descrevendo uma fórma _persecutoria_ com o seu sub-grupo _processivo_, e uma fórma _ambiciosa_ com as suas variedades _religiosa_ e _erotica_; e notou o sabio professor de Graz que estas fórmas podem observar-se isoladas e podem ora coexistir, ora succeder-se no mesmo doente. Na descripção da Paranoia persecutoria insistiu na passagem gradual e progressiva das idéas hypocondriacas ás de perseguição e d'estas ás de grandeza. Segundo a pratica do grande alienista, esta ultima evolução dar-se-hia n'um terço dos casos da doença. É de notar que Krafft-Ebing, ao inverso da maioria dos auctores francezes, não concedeu ao raciocinio o minimo papel na transformação pessoal, que se realisa pela passagem do delirio de perseguições ao de grandezas; o inconsciente domina, segundo o eminente professor, toda a evolução da doença.

Póde seguramente affirmar-se que, com Krafft-Ebing, a doutrina da Paranoia, tomada como equivalente de loucura systematisada, recebeu na Allemanha os seus derradeiros desenvolvimentos. De facto, n'esta ordem de idéas, os psychiatras allemães que lhe succedem, nada accrescentam a esta construcção synthetica, ao mesmo tempo simples, elegante e profunda.

Ulteriormente veremos que logar assignala o eminente professor aos casos que Westphal, Schaefer e outros incluiam na fórma aguda da Paranoia.

Em 1880, Scholz[1] insistiu lucidamente nas idéas de Krafft-Ebing sobre o papel do inconsciente na génese dos delirios paranoicos. Os factos morbidos obedecem, no fundo, ás leis reguladoras dos factos normaes; ora, no estado physiologico, é da esphera inconsciente que procedem os factos psychicos destinados a tornarem-se conscientes; nos delirios primitivos é tambem d'essa esphera que naturalmente emergem as idéas e conceitos falsos. As idéas delirantes, como as idéas justas, não são, definitivamente, senão resultados finaes, complexos e conscientes de actividades elementares e inconscientes do cerebro; toda a differença está em que nas idéas delirantes a actividade molecular das cellulas corticaes se encontra pervertida. D'aqui resulta que, a não existirem, como não existem na Paranoia, modificações anatomicas profundas, os processos logicos do pensamento podem subsistir, e o doente não fará senão raciocinar _justo_ sobre premissas _falsas_; a apparente lucidez dos paranoicos não é senão isto. Mas não são susceptiveis d'esta explicação os casos em que o delirio tem por base as allucinações e illusões; o inconsciente não representa aqui um papel. Para dar conta d'estes casos, é necessario admittir no cerebro um estado de enfraquecimento, que o predispõe á falsa interpretação das percepções ou das excitações sensoriaes; n'esta ordem de idéas, Scholz dá aos delirios de base allucinatoria um caracter eminentemente asthenico, notando que elles se desenvolvem frequentes vezes na convalescença das doenças febris.

[1] _Über primäre Verrücktheit_, 1880.

Em 1882, Jung[1] reeditou as idéas de Westphal e de Fritsch sobre a diversidade genetica dos delirios na Paranoia e nas psychoses depressiva ou expansiva. Notando a frequencia crescente da Paranoia, Jung attribuiu o facto á extensão que todos os dias toma a degenerescencia physica e mental da nossa especie. Isto denuncía um accordo entre este auctor e Krafft-Ebing sobre a pathogenia intima da doença.

[1] _Zeitsch. f. Psych_, 1882.

Kraepelin[1] em 1883, retomando no seu _Compendio de Psychiatria_ as idéas de Krafft-Ebing sobre a Paranoia, definiu-a «uma profunda e duradoura transformação do Eu, essencialmente evidenciada por uma anomala comprehensão e elaboração das impressões internas e externas». Sem obnubilação da consciencia e sem vivas emoções que lhe perturbem o curso dos processos intellectuaes, o paranoico acceita as idéas delirantes, que se lhe impõem e que elle é incapaz de corrigir; esta _invalidade psyquica_--umas vezes congenita, adquirida outras--é, pois, a base e o terreno de evolução da Paranoia, que, porisso mesmo, não representa um mero accidente na vida de um homem são, mas uma doença _constituicional_, atacando nos seus mesmos fundamentos a personalidade psychica. Todas as relações do Eu com o exterior se encontram radicalmente pervertidas no paranoico; e isto não tanto pela interferencia das allucinações, que são apenas symptomas, como pela caracteristica tendencia do doente á _comprehensão egocentrica do mundo_. E não só as relações do Eu com o meio ambiente, mas as que elle mantem com o corpo, se encontram alteradas. Pelo que, ás fórmas _persecutoria_ e _ambiciosa_ de Krafft-Ebing, Kraepelin accrescenta, descrevendo-a minuciosamente, a fórma _hypocondriaca_,

[1] _Comp. der Psych._, 1883

Devemos notar que Kraepelin separa da Paranoia o _delirio processivo_, que considera uma fórma de _loucura moral_. Baseia-se para essa separação em dois factos: de um lado, a ausencia de allucinações nos alienados litigantes; do outro, a radical incapacidade destes enfermos para se elevarem á noção de direito, como facto objectivo, o que denuncía uma suspensão de desenvolvimento psychico nos dominios ethicos, tal como se dá nos criminosos.

Em 1883, Tuczek[2], fazendo o estudo da hypocondria, apeia-a do pedestal de fórma nosographica e considera-a um syndroma, ora da melancolia, ora da Paranoia, ora loucura obsessiva. A presença ou ausencia habitual de uma depressão primitiva indicará se a hypocondria symptomatisa um estado melancolico ou representa, pelo contrario, simples e primitivo desvio ideogenico. Este modo de vêr projecta uma luz intensa no assumpto, fazendo ás idéas hypocondriacas na Paranoia a parte que de todos os tempos vinha sendo feita ás idéas de perseguição e de grandeza, que não são, aliás, privativas da loucura systematisada. Um delirio de perseguições póde episodicamente symptomatisar um accesso de melancolia ou secundariamente estabelecer-se após elle, como um delirio de grandezas póde ser a expressão de um accesso maniaco; mas, ao lado d'estes delirios, ha uma Paranoia persecutoria e uma Paranoia ambiciosa. O que distingue estes casos é a lesão primitiva: da sensibilidade nos primeiros, da ideação nos segundos, com o delirio hypocondriaco, ora expressão de uma hyperesthesia dolorosa, essencial e primitiva, ora manifestação de um desvio ideogenico permittindo ao vesanico a habitual serenidade e igualdade de humor que caracterisa o paranoico. N'este ultimo caso a hypocondria, como justamente observara Kraepelin, não seria senão uma perturbação das relações do Eu com o corpo ou com as impressões internas, analoga á perturbação das relações d'elle com o mundo externo ou com as impressões sensoriaes. E assim se comprehende como, ao lado das fórmas _persecutoria_ e _ambiciosa_, deva dar-se no quadro da Paranoia um logar á fórma _hypocondriaca_, a despeito de uma errada tradicção que espirito faz surgir como inseparaveis as idéas de hypocondria e de melancolia.

[2] _Alig. Zeitschr. f. Psych._, 1883

