# A Paranoia

## Part 4

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Este periodo é caracterisado por uma concentração dolorosa do Eu, de que procedem idéas delirantes de natureza depressiva e de um contheudo que varía com a intelligencia, a educação e o meio do doente. As falsas concepções hypocondriacas subsistem ainda; mas, ao lado d'ellas, outras germinam: a crença n'uma hostilidade dos homens (delirio de perseguições) ou de maleficos poderes sobrenaturaes (demonomania). Perturbações da sensibilidade geral e especial, sobretudo allucinações auditivas, dominam esta phase do _Delirio Chronico_, de uma duração que póde ser muito longa.

Mas, pouco a pouco, a dôr moral esbate-se; e na personalidade vesanica, enfraquecida pelo delirio depressivo, uma sorte de reacção se dá em sentido contrario. Então, no espirito enfermo, trabalhado por infinitas angustias, uma pouca de felicidade rompe, como n'um ceu enevoado uma restea de sol: entre as idéas depressivas surgem idéas de grandeza, ainda vagas, mas a que o futuro reserva uma preponderancia definitiva. Esta confusão de elementos apparentemente contradictorios, de idéas e sentimentos depressivos com estados expansivos, caracterisa o segundo periodo, chamado, por isso, mixto ou de transição.

Como a dôr moral e as idéas depressivas definem o primeiro periodo, a plena beatitude de espirito e as idéas ambiciosas definem o terceiro. Lentamente, as emoções e as concepções expansivas do periodo mixto vão tomando crescente logar no espirito vesanico á custa de uma reducção na intensidade e numero das emoções e idéas depressivas, que acabam por desapparecer. Então, um delirio de grandezas de colorido mystico ou humano, versando sobre a graça, sobre dotes pessoaes, sobre riquezas, sobre posição social, se estabelece definitivamente, caracterisando na sua exclusividade o terceiro periodo do _Delirio Chronico_.

Esta lenta evolução da vesania--tão lenta que póde cobrir dezenas de annos, não se faz sem que a mentalidade soffra nas suas forças vivas e productoras. E assim, o seu termo natural é a demencia, quer simples e apathica, se o delirio cessou absolutamente, quer agitada, se restam perturbações da sensibilidade e falsas concepções desconnexas e dissociadas.

Tal é, summariamente, a marcha typica do _Delirio Chronico,_ segundo Gérente,

Nem sempre, porém, faz observar o auctor, as coisas se passam d'este modo regular e eschematico; não raro apparecem casos em que a evolução descripta não tem logar: póde, por exemplo, o periodo depressivo, representado por um delirio de perseguições, extender-se por toda a vida do doente que não chega a fazer um delirio de grandezas, caracteristico do terceiro periodo; póde do periodo mixto passar um outro doente á demencia, sem que o periodo expansivo se tenha realisado em toda a sua pureza; póde acontecer que a doença suspenda a sua evolução n'um delirio hypocondriaco inicial, que se perpetua, systematisando-se e estereotypando-se; emfim, póde mesmo dar-se uma regressão, voltando o doente do delirio ambicioso ao de perseguições. Como todas as doenças, comporta o _Delirio Chronico_ anomalias evolutivas, que compete á clinica registrar; esses casos, porém, não invalidam o _typo_ descripto sobre exemplares completos.

Como se vê, n'esta synthese clinica retoma Gérente as idéas fundamentaes de Morel sobre os delirios systematisados, reduzindo-os a expressões symptomaticas e momentos evolutivos de uma vesania caracterisada pela successão de duas phases apparentemente oppostas: uma, inicial, angustiosa e depressiva; outra, final, expansiva e de beatitude, Toda a differença, entre os dois psychiatras, está em que Morel chamava _Loucura hypocondriaca_ ao que Gérente denomina _Delirio Chronico_,

Vejamos agora a pathogenia da doença, tal como a comprehende este psychiatra.

De um lado, importa considerar o fundamento hereditario, commum a todas as psychoses funccionaes: «Não é vesanico, diz elle, quem quer: é precisa uma longa incubação; são precisas, pelo menos, duas gerações que preparem o terreno»[1]. Não, é claro, duas gerações de delirantes chronicos, mas de nevro e psychopatas. «São umas vezes, explica, nevroses, outras vezes intoxicações chronicas, outras ainda anomalias da intelligencia, do sentimento ou da vontade a que se não prestaria, talvez, attenção, mas que nem por isso deixaram de imprimir o seu cunho sobre o individuo e os seus descendentes»[2]. A tara hereditaria cria a predisposição; para determinar a doença qualquer abalo moral é bastante.

[1] Gérente,_Obr. cit._, pag. 8.

[2] Gérente,_Obr. cit._, pag. 9.

Mas, por outro lado, importa em relação ao _Delirio Chronico_ attender á natureza especial do terreno predisposto. O que atraz dissemos, dispensa-nos de insistir sobre este ponto: é sabido que para Gérente, como para Morel, essa feição peculiar consiste na hypocondria.

Emfim, conhecidas as causas e o terreno morbido, importa conhecer a _lesão,_ no sentido psychologico do termo.

Ora, segundo Gérente, nenhuma duvida póde existir a este proposito. «É sempre, diz elle, uma alteração do senso emotivo, é a alteração do sentimento, agora penosa, logo expansiva, que imprime tal ou tal direcção ás perturbações da sensibilidade e ás idéas delirantes; esta alteração é, pois, a _lesão essencial e caracteristica ao delirio chronico_»[3].

[3] Gérente,_Obr. cit._, pag. 24.

Cremos ter dado uma idéa sufficiente da doutrina exposta por Gérente. Uma psychose, de origem hereditaria, de evolução de ordinario regular e tendo por lesão primitiva uma perturbação do sentimento, integraria como syndromas os delirios systematisados, hypocondriaco, de perseguições e ambicioso, descriptos na antiga psychiatria como doenças autonomas, sob a designação de monomanias; _Delirio Chronico_ é o nome d'essa psychose.

Dissemos que Gérente se inspirou nas idéas de Magnan; e talvez podessemos mesmo affirmar que aquelle não fez senão expôr no seu trabalho, que é uma these de doutoramento, os pontos de vista do mestre. De facto, não só a designação de _Delirio Chronico_ tomada por Gérente para titulo do seu livro, foi creada por Magnan, que a vulgarisara nas suas lições oraes, mas foram colhidas no serviço e sob a direcção d'este, no asylo de Sant'Anna, as observações clinicas da these. Entretanto, nos debates que em 1887 se abriram sobre o assumpto na Sociedade Medico-Psychologica de Paris, Magnan apparece-nos, como mais tarde nas suas _Lições Clinicas_, publicadas em 1893, expondo uma doutrina do _Delirio Chronico_ notavelmente diversa da proclamada por Gérente. Admittiremos que o insigne clinico de Sant'Anna concedesse ao seu discipulo uma absoluta liberdade de opinião? É isso possivel; mas não é provavel que Gérente abusasse de tal liberdade até ao ponto de cobrir com a designação consagrada pelo mestre uma doutrina propria e em mais de um ponto contraria á d'este. O que nos parece mais acceitavel é que o conceito de _Delirio Chronico_ tenha soffrido no espirito de Magnan uma evolução durante o periodo que vem da these de Gérente á discussão da Sociedade Medico-Psychologica.

Como quer que seja, as duas doutrinas, a de 1883 e a de 1887, differem muito. É o que vamos vêr.

Ao passo que Gérente, como foi dito, fazia derivar o _Delirio Chronico_ de uma predisposição quasi sempre hereditaria e preparada atravez de gerações, Magnan affirma que um tal facto é excepcional e que, de ordinario, a psychose affecta individuos isentos de qualquer tara nervosa e absolutamente correctos no ponto de vista mental. «O _Delirio Chronico_, diz Magnan, fere em geral na idade adulta individuos sãos de espirito, não tendo até então apresentado perturbação alguma intellectual, moral ou affectiva. Insisto sobre este importante ponto, porque tal particularidade basta para separar immediatamente os delirantes chronicos dos degenerados hereditarios que offerecem desde a infancia perturbações que os fazem reconhecer»[1].

[1] Magnan, _Leçons cliniques sur les maladies mentales_, pag. 236.

Ao passo que Gérente, seguindo a tradição de Morel, admittiu como constante uma phase inicial hypocondriaca na constituição do _Delirio Chronico_, Magnan não a acceita senão a titulo excepcional. «Para Morel, escreve o medico de Sant'Anna, é preciso que elles (os perseguidos que se tornam ambiciosos) tenham sido hypocondriacos primeiro; ora, sendo a hypocondria, como se sabe, as mais das vezes uma manifestação dos hereditarios degenerados, não parece provavel que o _hypocondriaco-perseguido-ambicioso_ possa apresentar caracteres bastante fixos para entrar no quadro do _Delirio Chronico_»[2].

[2] Magnan, _Obr. cit._, pag 221.

Emfim, emquanto Gérente concedia irregularidades de marcha ao _Delirio Chronico_, admittindo a existencia de casos frustres em que a evolução se suspendia ou mesmo por algum tempo retrogradava, Magnan exclue do _Delirio Chronico_ todos os casos d'esta natureza. Depois, com effeito, de ter admittido na evolução do _Delirio Chronico_ quatro periodos nitidamente desenhados--o _de incubação_, o _de perseguições_, o _ambicioso_ e o _demente_, Magnan escreve: «Estes periodos succedem-se irrevogavelmente da mesma maneira, de sorte que podemos sem receio pôr fóra do _Delirio Chronico_ todo o doente que _d'emblèe_ se torna perseguido ou ambicioso, ou que, primeiro ambicioso, se torna depois perseguido»[3].

[3] Magnan, _Obr. cit._, pag 237.

São estes tres os pontos em que as syntheses clinicas do _Delirio Chronico_, a de 1883 e a actual, differem. Quanto ao nome, julgou Magnan, depois dos reparos de alguns criticos, dever amplial-o para o tornar mais explicativo: _Delirio Chronico de evolução systematica_ é a designação adoptada por este psychiatra nas suas _Lições Clinicas_.

Naturalmente occorre perguntar para que nova cathegoria são relegados os casos, tão numerosos, de delirios systematisados de evolução irregular que Gérente considerava como exemplares frustres de _Delirio Chronico_ e que Magnan resolutamente aparta do quadro clinico d'esta psychose. A resposta vae o leitor encontral-a no resumo que em seguida fazemos dos debates a que deu logar na Sociedade Medico-Psychologica de Paris a doutrina do _Delirio Chronico_.

Digamol-o desde já: vigorosamente sustentada por Garnier e Briand, a synthese clinica de Magnan foi tambem rudemente combatida.

Ninguem contestou a existencia de alienados que, primeiro inquietos, suspeitosos, interpretando illusoriamente e n'um sentido pejorativo todos os actos e palavras d'outrem (_periodo de incubação_), se tornam depois allucinados, sobretudo do ouvido, e se lançam n'um delirio systematisado de hostilidades (_periodo de perseguições_), fabricam mais tarde ainda idéas de grandeza (_periodo ambicioso_), e, por fim, cahem n'um estado de enfraquecimento cerebral em que as concepções falsas se esbatem e dissociam (_periodo de demencia_). Ninguem contestou, repetimos, a existencia d'estes casos; contestou-se, porém, desde todo o principio, que elles fossem _regra_. A fatalidade do terceiro periodo do _Delirio Chronico_ foi, por exemplo, negada. Assim, J. Falret sustentou que _o delirio de grandezas só n'um terço dos casos succede ao delirio de perseguições_. Facilmente se comprehende o alcance d'esta affirmação que varios alienistas--Christian entre outros--apoiaram: ao passo que para Magnan o delirio ambicioso é um periodo inevitavel do _Delirio Chronico_, para Falret elle não constitue senão um episodio fallivel da evolução vesanica, um delirio que apenas accidentalmente vem juxta-por-se ao de perseguições. Se todo o alienado que entrou, não _d'emblèe_, mas após uma phase mais ou menos longa de incubação, no delirio de perseguições, houvesse fatalmente de tornar-se ambicioso, Magnan teria, talvez, razão, affirmando a existencia de uma _Psychose_ na qual o delirio de grandezas representaria, segundo a sua phrase, um papel evolutivamente similhante ao da _suppuração n'nuna erupção variolica;_ mas se, como pretende Falret, esse alienado póde perpetuar-se no delirio de perseguições sem jámais esboçar uma idéa ambiciosa, tal _Psychose_ não existe: a synthese clinica legitima não é o _Delirio Chronico de evolução systematica,_ mas o _Delirio de Perseguições,_ que póde ou não, _sem mudar de natureza_, complicar-se de um delirio ambicioso. Baseada em factos e apoiada na auctoridade de alienistas illustres, a objecção de Falret parece decisiva contra a doutrina actualmente professada por Magnan.

Notemos de passagem que o argumento de Falret não attingiria a doutrina de Gérente, segundo a qual o _Delirio Chronico,_ á maneira d'outras doenças, comportaria casos de evolução irregular, anomala, entre os quaes estariam esses a que se reporta o sabio medico da Salpêtrière.

J. Falret contestou ainda a Magnan que a demencia constitua o termo irrevogavel de uma vesania que passou pelas phases dos delirios de perseguições e de grandezas: muitos perseguidos e ambiciosos ha, segundo elle, que, ao fim de trinta, de quarenta e mais annos de delirio, morrem sem ter attingido a demencia. É mister dizer-se, para avaliar este argumento, que Magnan não toma a palavra _demencia_ no restricto sentido de abolição das faculdades, mas na accepção mais larga de enfraquecimento e falta de iniciativa mental. Desde que o delirio se _estereotypa_ (o que é de regra na phase ambiciosa e muitas vezes se dá mesmo na phase persecutoria da vesania), o enfraquecimento cerebral é já, segundo Magnan, um facto, que a diuturnidade da doença não faz senão aggravar; chamar-lhe, pois, _demencia_, quando elle attinge um grau em que os conceitos delirantes, desde ha muito invariaveis, se dissociam, não deverá parecer senão legitimo. Em todo o caso, é n'este sentido que o medico de Sant'Anna toma a _demencia_ quando faz d'ella a phase terminal da sua Psychose.

Manifestando uma grande incomprehensão das idéas do medico de Sant'Anna, alguns membros da Sociedade tentaram atacar a doutrina do _Delirio Chronico_, affirmando que muitos vesanicos são ambiciosos antes de serem perseguidos; que outros surgem com um delirio de perseguições sem terem passado por uma phase de incubação; que alguns, emfim, só intermittentememe deliram n'um sentido persecutorio ou ambicioso. Todos estes casos são conhecidos e de observação diaria; mas, desde que Magnan os colloca, pela irregularidade mesma da sua marcha, fóra do quadro do _Delirio Chronico_, é evidentemente absurdo invocal-os contra a legitimidade d'esta psychose.

Para Magnan, ao lado do _Delirio Chronico de evolução systematica_, ha os delirios que elle chama _polymorphos_ ou _d'emblèe_. E as distincções entre aquelle e estes são, segundo o eminente alienista, tão profundas quanto possivel, porque derivam da marcha, da etiologia e do prognostico. Ao passo que o _Delirio Chronico_ se caracterisa evolutivamente pela successão regular e irrevogavel de certos periodos, sendo o primeiro de incubação, os delirios polymorphos teem uma evolução irregular, imprevista, e rompem subitamente, sem preparação. Emquanto, sob o ponto de vista da etiologia, o _Delirio Chronico_ prescinde para constituir-se de uma pesada tara ancestral, podendo installar-se em individuos psychicamente correctos, os delirios polymorphos são eminentemente hereditarios e só podem realisar-se em degenerados, quer dizer em individuos tendo antes offerecido signaes de um desequilibrio mental. Emfim, emquanto o _Delirio_, _Chronico_, na sua qualidade de psychose progressiva e cyclica, é absolutamente incuravel, os delirios polymorphos, de marcha remittente ou intermittente, curam muitas vezes.

É evidente, em face d'esta doutrina, exposta sem reticencias no seio da Sociedade Medico-Psychologica de Paris, que os casos, invocados por Dagonet e outros, de doentes que entram em delirio de grandezas para ulteriormente se tornarem perseguidos, de doentes que abruptamente, de um dia para o outro, apparecem allucinados do ouvido e se crêem victimas de injustificadas hostilidades, de doentes que após semanas de um delirio qualquer ambicioso ou de perseguições, surgem curados para recidivarem mais tarde, ou cahem rapidamente em demencia,--é evidente, diziamos que esses casos nada provam, em si mesmos, contra a existencia do _Delirio Chronico_, por isso que, segundo Magnan, elles pertencem a uma cathegoria diversa e não são senão episodios mais ou menos longos e interessantes da vida dos degenerados hereditarios.

A doutrina do medico de Sant'Anna não póde ser combatida senão pela demonstração de que as differenciações por elle feitas entre os delirantes chronicos e os delirantes degenerados, são infundadas. Mas como, sob o ponto de vista da marcha, a differenciação é, _ao menos n'um certo numero de casos_, indiscutivelmente exacta; como por consenso de todos os alienistas e por testemunho irrecusavel da experiencia, ao lado de doentes que incubam um delirio de perseguições e d'este passam para o ambicioso, cahindo por fim n'um estado de fraqueza mental (_Delirio Chronico_ de Magnan), ha doentes que fazem bruscos, irregulares e mais ou menos ephemeros delirios multiplos, de que por vezes curam, embora para recidivarem mais tarde (_delirios degenerativos_ de Magnan), o ataque á synthese clinica do medico de Sant'Anna só póde ser feito de um ponto de vista mais alto, demonstrando-se que as duas ordens de delirios, a despeito das suas _allure_ diversas, procedem de uma causa commum e assentam sobre um mesmo fundo.

Séglas viu isto--e só elle parece tel-o visto--quando na Sociedade Medico-Psychologica affirmou que alguns delirantes chronicos de Magnan apresentam os estygmas physicos e mentaes dos degenerados hereditarios.

Demonstrar esta proposição seria evidentemente destruir á doutrina de Magnan o seu mais solido fundamento: o etiologico. Se os degenerados hereditarios podem delirar tanto de um modo remittente e anomalo como de um modo regular e progressivo, caminhando tanto para a cura como para a demencia, toda a differença entre o _Delirio Chronico_ e os _delirios polymorphos_ se reduz a accidentes de marcha e a possiveis variações de prognose, o que não é bastante para estabelecer _especies_ morbidas distinctas.

Nos longos debates da Sociedade Medico-Psychologica sobre os delirios systematisados, tomaram parte os mais eminentes psychiatras francezes; cremos, porém, que só Falret e Séglas produziram contra a legitimidade clinica do _Delirio Chronico_ argumentos de valor.

Mas não insistiremos sobre elles; por agora fazemos apenas historia.

Para completarmos o que na psychiatria franceza tem direito a menção especial em materia de delirios systematisados, resta-nos expôr a maneira de vêr de Régis.

Retomando uma doutrina exposta por Baillarger em 1853, o auctor do _Manual pratico de Medicina Mental_ sustenta que uma natural distincção existe entre as _loucuras generalisadas_ e a _Loucura parcial_: ao passo que as primeiras se caracterisam pela presença constante e essencial de um elemento affectivo, _excitação_ na mania e _depressão_ na melancolia, a segunda manifesta-se por simples perturbações intellectuaes e moraes sem participação, a não ser accidental e episodica, da emotividade. A excitação e a depressão, affirma Régis, são tanto a fundamental caracteristica das loucuras generalisadas que muitas vezes só ellas existem n'estas doenças: tal é o caso das manias e melancolias sem delirio, nas quaes, como se sabe, ha exaltação ou diminuição do _tonus emotivo_, sem compromisso grave da intelligencia e do senso moral. O contrario d'isto se dá na _Loucura parcial_: um delirio mais ou menos extenso caracterisa n'este caso a alienação, que só por momentos póde acompanhar-se de crises ephemeras de excitação ou depressão, analogas ás dos espiritos normaes em conflicto com causas externas. A mania e a melancolia, accrescenta Régis, sendo muitas vezes idiopathicas, são, não raro, meros symptomas d'outras doenças mentaes, como a hysteria, a epilepsia, a demencia paralytica; ao contrario, a _Loucura parcial_ é sempre idiopathica, essencial.

Ora, é n'esta _verdadeira loucura_ que os delirios systematisados se integram, segundo Régis, a titulo de manifestações e de estadios evolutivos.

No seu curso regular e typico, a _Loucura parcial_ offereceria tres periodos: um, de _analyse subjectiva_, caracterisado pelo _delirio hypocondriaco_; outro de _interpretação_, revellado pelo _delirio de perseguições_ ou pelo _delirio mystico_, segundo o doente attribue a pessoas ou a divindades os seus males; um terceiro, emfim, de _transformação pessoal_, exteriorisado pelo _delirio ambicioso_. As allucinações, sobretudo auditivas, são o symptoma dominante da _Loucura parcial_.

Quanto á etiologia, sustenta Régis que a doença é constitucional, faz parte do individuo e surge n'um dado momento sob a influencia de quaesquer circumstancias; isto é dizer que _Loucura parcial_ é eminentemente hereditaria. Segundo este auctor, «ella attinge de preferencia os individuos sombrios, desconfiados, com tendencias á mysantropia e ao orgulho»[1]

[1] E. Régis, _Manuel pratique de médecine mentale_, 2º ed., pag. 228.

Como se vê, a _Loucura parcial_ de Régis mantem relações profundas de similhança com a _Loucura Hypocondriaca_ de Morel e o _Delirio Chronico_ de Gérente. Um mesmo pensamento etiologico-evolutivo preside ás tres syntheses clinicas.

* * * * *

Expostos os trabalhos francezes sobre os delirios systematisados na sua phase de synthese clinica e de interpretação pathogenica, vejamos, retrocedendo na ordem dos tempos, o que se passou na Allemanha desde que, com Snell, Griesinger e Sander, a psychiatria d'este paiz assentou na existencia de delirios _primitivos_ de perseguições e de grandezas.

Antes, porém, seja-nos licito dar uma explicação sobre a marcha a seguir.

Delimitar um assumpto é a primeira das condições a preencher para tratal-o scientificamente; a segunda, é possuir uma nomenclatura definida e precisa. Ora, não satisfazendo a uma só d'estas duas condições os trabalhos allemães sobre os delirios systematisados, a impressão que recebe quem d'elles procura tomar conhecimento, é, sem exaggero, a de ter penetrado n'um labyrintho. Não o dizemos nós: por esta ou analogas expressões disseram-no em 1887 Séglas e recentemente Kéraval, os alienistas francezes que com maior auctoridade se occuparam do assumpto; disse-o tambem, mais insuspeitamente, Pelman ao formular ha vinte annos esta queixa: «Acabaremos por nem mesmo entre nós, psychiatras, nos entendermos»; repetirara-n'o, emfim, em 1894 quasi todos os alienistas allemães que tomaram parte na discussão aberta sobre a Paranoia na Sociedade Psychiatrica de Berlim.

De facto, a extensão do assumpto varia de auctor para auctor; restricta para uns que, como Krafft-Ebing, lhe estabelecem os mesmos limites que os alienistas francezes, ella é tão vasta para outros, para Cramer, por exemplo, que parece estar contida lá dentro a psychiatria inteira. Por outro lado ainda, a nomenclatura é vaga e é confusa: vaga, pela multiplicidade de termos com que um dado auctor exprime um mesmo facto; confusa, pela variedade de significações de cada termo para cada auctor. _Wahnsinn, Verrücktheit_ e _Paranoia_ são as palavras com que na litteratura allemã apparecem designados os delirios systematicos descriptos pelos franceses; estes termos, porém, ora figuram como synonimos, ora como vocabulos de significados distinctos, succedendo ainda que o ultimo é pelo mesmo auctor tomado umas vezes n'um sentido restricto, outras vezes n'um sentido geral, infinitamente mais amplo.

N'estas deploraveis condições de maxima obscuridade, fazer n'uma ordem rigorosamente chronologica e sob a respectiva terminologia a exposição das doutrinas allemãs ácerca dos delirios systematisados, seria, evidentemente, deixar o leitor em conflicto com obstaculos e difficuldades que indeclinavelmente nos cumpre remover-lhe. E eis porque, abandonando este invio caminho, procuraremos, antes de fazer historia, fixar os limites do assumpto e o valor dos termos.

