A Paranoia

Part 3

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Sobre a necessidade do _neologismo_ nos delirios systematisados de uma longa duração, escreve o eminente alienista: «Por vezes a linguagem ordinaria não basta ao doente para exprimir o proprio pensamento, pelo que construe, ao menos para traduzir as suas concepções delirantes, um vocabulario especial, que elle crê ser a linguagem primitiva, a linguagem dos ceus»[3]. Ainda a proposito da exteriorisação do delirio, Griesinger nota que «por vezes o doente occulta cuidadosamente o seu systema geral de absurdos»[4].

[3] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

[4] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

Sobre o estado affectivo d'estes delirantes exprime-se assim o professor allemão: «Nunca estes doentes tomam parte, como outr'ora, nas coisas do mundo externo, ou são capazes de amar e odiar como antes; podem morrer-lhes os paes e os amigos, póde ser-lhes subtrahido o que mais estimavam, póde o mais terrivel acontecimento incidir-lhes sobre a familia sem que elles sintam mais que uma ligeira emoção, se alguma sentem. Um só ponto ha em que podem ser ainda emocionados, que póde abalar-lhes promptamente os sentimentos e provocar uma forte reacção da vontade: procurem-se combater pelo raciocinio as suas idéas fixas e logo elles se irritarão e entrarão em colera; acariciem-se, pelo contrario, as suas concepções e elles mostrar-se-hão contentes»[1].

[1] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

Crêmos que as citações precedentes bastam para demonstrar que Griesinger conheceu intimamente os perseguidos e ambiciosos. A descripção que d'elles faz, como quadro symptomatico _d'après nature_, é nas suas linhas capitaes e até em alguns detalhes a mesma que alguns annos mais tarde haviam de exhibir-nos os alienistas francezes que, não conhecendo os trabalhos do professor allemão, tinham, comtudo, diante de si analogos modelos.

Mas se a descripção symptomatica é a mesma, a _interpretação nosographica e pathogenica_ é profundamente diversa, porque, ao passo que os francezes consideraram sempre os delirios parciaes como fórmas primarias da loucura, Griesinger julga-os, como vamos vêr, fórmas secundarias ou estados procedentes da mania e da melancolia.

O que é, com effeito, a _Verrücktheit_ do psychiatra allemão? «Sob este nome, diz elle, designamos os estados secundarios de loucura, nos quaes, embora tenha diminuido consideravelmente ou mesmo desapparecido por completo a situação afectiva que caracterizava a fórma mental no seu começo, o doente não cura, e em que a alienação consiste n'um pequeno numero de concepções delirantes fixas que elle acaricia de um modo particular e constantemente repete»[2]. E accrescenta: «A _Verrücktheit_ é _sempre_, pois, uma doença _secundaria_, consecutiva á melancolia ou á mania»[3]. _Residuos de estados de exaltação ou depressão,_ diz ainda em outro logar, constituem a _Verrücktheit_ que, por isso mesmo, elle colloca no grupo dos _estados de enfraquecimento psychico_, ao lado da demencia.

[2] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 382.

[3] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 382.

Na direcção de Griesinger e pelo caminho que elle abriu seguiram longo tempo os alienistas allemães. «O delirio parcial, escrevia Albers em sobretudo uma fórma de terminação da loucura com excitação ou depressão geraes; quando se encontra esta fórma, uma das duas existiu anteriormente e acabou por _uma cura incompleta_»[1]. Fallando da metamorphose do Eu que acompanha os delirios systematisados n'uma phase de adiantada chronicidade, Spielmann escrevia no mesmo anno «que ella suppõe a existencia anterior da melancolia ou da mania, sem uma das quaes não póde _nunca_ produzir-se»[2]. Em 1859 Neuman considerava a _Verrücktheit_ «uma cura com perda de substancia da intelligencia», isto é, uma cura incompleta da mania ou da melancolia, um estado secundario ou consecutivo, acompanhado de uma decadencia das faculdades.

[1] Albers, _Memoranda der Psychiatrie_.

[2] Spielmann, _Diagnostik der Geisteskrankheiten_.

Crêmos inutil proseguir em citações. As precedentes bastam a dar-nos uma clara idéa da doutrina pathogenica dos delirios, systematisados segundo a psychiatria allemã d'esta epocha. Suspensas na sua evolução para a demencia, a mania e a melancolia atardar-se-hiam nas fórmas expansivas ou depressivas da _Verrücktheit,_ delirio de grandezas ou delirio de perseguições.

Em contraste, porém, com estas idéas, que durante vinte annos dominaram absolutamente a psychiatria allemã, descreveu Snell em 1865, baseando-se em dez casos de observação pessoal, uma nova fórma de loucura essencialmente caracterisada pela apparição primitiva de estados allucinatorios e conceitos delirantes de contheudo mixto, expansivo e depressivo.

Esta fórma, que Snell denomina _monomania_ ou _Wahnsinn_, é inteiramente distincta da mania e da melancolia. N'ella podem as idéas de perseguição e de grandeza ser contemporaneas ou successivas; quando as ideias ambiciosas succedem ás de perseguição realisa-se uma metamorphose da personalidade vesanica. A evolução d'esta fórma é essencialmente chronica e o seu prognostico infausto. A adopção do termo francez _monomania_ parece indicar a parcialidade do delirio que, segundo Snell, não conduz nunca á demencia, como a do termo allemão (derivado de _Vahn_: delirio, e _Sinn_: sentidos) põe em relevo a importancia das allucinações.

Acceitando este modo de vêr, Griesinger penitenceia-se em 1867 da excessiva e precipitada generalisação das suas idéas pathogenicas e acaba por admittir, ao lado da _Secundäre Verrücktheit,_ uma _Primäre Verrücktheit_, analoga ao _Wahnsinn_ de Snell. Na lição de abertura do seu curso n'esse anno exprimia-se assim o grande chefe da psychiatria allemã: «Áctualmente não considero já como fórmas secundarias as alterações peculiares, muito chronicas e mixtas do delirio persecutorio e ambicioso; ao contrario, convenci-me da origem _protogenica_ d'estes estados que denomino _Primäre Verrücktheit»._

Perfilhando as idéas de Griesinger sobre a _Primäre Verrücktheit,_ descreveu Sander em 1868, baseado em quatro casos clinicos, uma variedade congenita d'esta fórma sob a designação de _Originäre Verrücktheit_. Os delirantes perseguidos ou ambiciosos d'este sub-grupo são desde a infancia taciturnos, mysantropos, romanticos, excessivamente phantasistas, faltos de energia, onanistas, n'uma palavra, originariamente enfermos. É na puberdade que os delirios, de longa data preparados, fazem explosão. Sander nota as tendencias remittentes da _Originäre Verrücktheit_ e observa que a demencia está muito longe de ser um dos seus modos de terminação.

Como se vê, a primitividade ou protogénese dos delirios systematisados, admittida desde todo o principio pelos alienistas francezes, é agora acceite pela psychiatria allemã, cujo dogmatismo desde 1845 a 1865 mandava admittir _quand méme_ uma preexistente psychose maniaca ou melancolica em todos os delirios de perseguição e de grandeza.

Não morreu, como veremos ainda, a _Secundäre Verrücktheit,_ a despeito de Koch e de Pelman que lhe negaram a existencia; mas a sua esphera clinica foi estreitecendo á medida que alargava a da _Primäre Verrücktheit_.

* * * * *

Voltemos aos trabalhos francezes.

Tendo tido a felicidade de sobreviver trinta e um annos á publicação da sua memoria sobre o delirio de perseguições, Lasègue foi conduzido pela ulterior observação clinica dos factos a modificar uma das affirmações que n'esse trabalho fizera. Assim, tendo escripto em 1852 que os perseguidos supportam resignadamente todos os seus martyrios--a ponto, dizia então, de não ter visto um só reagir por um acto de vingança, Lasègue constatou mais tarde a existencia de muitos que se apresentam armados para a lucta, represaliando energicamente, como Sandon, como Verger, como Teulot, as suppostas perseguições. Perito em mais de uma ruidosa questão medico-legal determinada pelas violencias d'esta ordem de doentes, o eminente professor foi ainda, elle proprio, victima das aggressões brutaes de um d'elles, que o appellidava _chefe dos alienistas alienisantes_. Modificando as suas primitivas idéas, o celebre psychiatra achou que o delirio de perseguições comporta duas variedades, correspondendo aos modos de reacção dos doentes: uma _passiva_, a mais commum, representada pelos perseguidos que apenas se defendem, fugindo ao convivio, mudando de logares, tomando nomes suppostos, cosinhando os proprios alimentos, queixando-se ás auctoridades, barricando-se dentro dos seus aposentos, suicidando-se mesmo; outra _activa_, representada pelos que acceitam a lucta e respondem ao mal com o mal, calumniando, ferindo, matando até. Aos doentes d'esta ultima cathegoria deu Lasègue o nome, depois consagrado, de perseguidos-perseguidores, consignando que a explicação do seu modo especial de reagir deve ser pedida, não a condições privativas do delirio, mas ao caracter moral preexistente á vesania.

Pondo no estudo da variedade _activa_ do delirio de perseguições o mesmo espirito de analyse que desenvolvera na creação da fórma _passiva_ ou commum, Lasègue fez a proposito as seguintes indicações de uma justeza clinica indiscutivel: que os perseguidos-perseguidores chegam á personificação do seu delirio em virtude de circumstancias accidentaes ou de factos sem importancia, mas exactos, que determinaram a sua antipathia por um dado individuo; que taes circumstancias ou factos reaes não são, em geral, recentes, mas antigos e evocados pela memoria, incessantemente occupada na revivescencia do passado; emfim, que os doentes, uma vez achado o seu perseguidor, não o esquecem mais, não o abandonam, nem o substituem, quando mesmo factos ulteriores e de maior valia justifiquem sentimentos de odio e de vingança contra outros individuos. Na escolha do perseguidor evidenceiam os perseguidos activos a mesma critica futil que os passivos demonstram na determinação dos factos que apontam como provas de perseguição: uma pedra achada á porta, um lençol esquecido na varanda de um visinho, a tosse de um sujeito que passa. De resto, Lasègue observou que, excepção feita do modo de reacção delirante, perseguidos activos e passivos se comportam identicamente, offerecendo o mesmo quadro de symptomas e a mesma evolução pathogenica.

Creando a variedade _activa_ do delirio de perseguições, o notavel professor melhorou, pois, completando-a, a sua primitiva descripção clinica d'esta psychose, sem, todavia, a alterar na essencia; de facto, a unidade da doença persistiu, não tendo alcance nosologico, mas apenas medico-legal, o reconhecimento das duas variedades.

Ulteriores trabalhos, porém, vieram quebrar, dentro da propria França, essa unidade do delirio de perseguições.

Notou, com effeito, J. Falret em 1878 que ha entre os perseguidos activos ou perseguidos-perseguidores duas cathegorias de doentes que profundamente divergem; symptomas, evolução, etiologia--tudo n'elles é differente. Uns, em verdade (e são esses os que Lasègue notou), apenas no modo de reacção delirante se separam do typo classico dos perseguidos passivos, sendo-lhes em tudo o mais similhantes: nos symptomas, porque, como estes, offerecem idéas systematicas de perseguição alimentadas por erros sensoriaes constantes, sobretudo por allucinações auditivas; na marcha, porque, como os perseguidos communs, podem soffrer a alteração de personalidade caracterisada clinicamente pela passagem do delirio de perseguições, ao de grandezas; na etiologia, emfim, porque teem uma historia ancestral e pregressa identica á dos perseguidos vulgares. Com razão, portanto, fez Lasègue d'estes perseguidos activos os representantes apenas de uma variedade clinica do delirio de perseguições. Outros, porém, não offerecem do quadro d'esta psychose senão as idéas systematisadas de perseguição, divergindo em tudo o mais: na symptomatologia, porque as suas concepções morbidas não se apoiam em erros sensoriaes; na marcha, porque nunca o seu delirio se transforma, n'um sentido ambicioso; na etiologia, emfim, porque a sua historia ancestral e anamnestica não é a dos outros perseguir, dos, activos ou passivos, mas a dos degenerados hereditarios.

A doença de Lasègue não comporta esta cathegoria de perseguidos-perseguidores; forçoso é, pois, no dizer de Falret, acceital-os como representantes de uma outra _especie_ nosographica.

Pottier desenvolve no seu _Estudo sobre os alienados perseguidores_ as idéas do eminente clinico de Salpêtrière, seu mestre, insistindo no diagnostico differencial entre estes vesanicos e os outros perseguidos. A proposito da etiologia escreve: «Estes doentes, em vez de apresentarem desde a juventude um caracter desconfiado ou de passarem pela phase de hypocondria que muitas vezes precede o delirio de perseguições ordinario, teem quasi sempre manifestado na infancia, na adolescencia ou na idade adulta alguns dos symptomas physicos e moraes attribuidos hoje aos alienados hereditarios: alterações de caracter, desigual desenvolvimento das funcções intellectuaes, faculdades eminentes ao lado de enormes lacunas, accidentes nervosos ou perturbações mentaes passageiras, na puberdade, existencia movimentada, irregular, vagabunda, perversões genitaes e outras. O passado d'estes doentes é, n'uma palavra, não o dos perseguidos classicos, mas o dos alienados hereditarios»[1].

[1] Pottier, _Ètude sur les aliénés persécuteurs_, pag. 3

A proposito da ausencia de allucinações n'estes doentes, diz Pottier: «Imaginou-se que as allucinações auditivas, escapando a uma observação superficial, seriam encontradas n'estes doentes por um exame escrupuloso. Não é assim, porém. Nós crêmos, ao contrario, que, na direcção actual das idéas, se teem admittido allucinações não demonstradas ou se teem tomado como allucinações simples phenomenos de interpretação delirante, illusões ou mesmo impressões procedentes do mundo exterior e realmente percebidas pelos doentes, cuja acuidade sensorial se encontra muitas vezes exaggerada»[2].

[2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 38.

Sobre a evolução do delirio n'estes doentes, diz ainda Pottier: «Ha periodos de remissão prolongada e de intensa exacerbação, mas nenhuma evolução progressiva ... Estes alienados são, em regra, muito orgulhosos, mas não chegam, como os outros perseguidos, á megalomania, ao delirio de grandezas, emfim, a uma verdadeira transformação da personalidade»[1].

[1] Pottier, _Obr. cit._, pag. 39.

A estas notas differenciaes junta Pottier uma outra: a existencia, nos doentes de que nos occupamos, de accidentes cerebraes, congestivos ou convulsivos, produzindo-se a largos intervallos. «Observem-se attentamente, diz, o auctor, estes doentes durante o curso da sua vida, estudem-se as observações já publicadas, e chegar-se-ha a verificar que, nos perseguidores lucidos, accidentes cerebracs graves se dão de tempos a tempos e que, as mais das vezes, elles morrem cerebralmente, quer por um ataque, quer por influencia de lesões consecutivas»[2].

[2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 41.

Ainda no capitulo do diagnostico, o mais completo do trabalho que vimos citando, observa Pottier a extrema facilidade com que os perseguidores conseguem fazer perfilhar as suas idéas por um grande numero de pessoas, chegando mesmo a interessar em sua defeza a propria imprensa. A explicação d'este _contagio delirante_ procede sobretudo, segundo Pottier, da convergencia d'estes dois factos: de um lado, a intelligencia de ordinario muito viva d'estes doentes e a sua incansavel actividade; de outro lado, o colorido verosimil do seu delirio, que não é em si mesmo absurdo, que se não apoia em estados allucinatorios, mas que tem por base factos reaes, embora morbidamente interpretados, e circumstancias possiveis, cuja veracidade não é facil contestar ou mesmo pôr em duvida.

Os _litigantes_ ou _processomanos_ constituem a mais importante cathegori d'estes doentes; uma outra é formada pelos _perseguidores hypocondriacos_ que, attribuindo os seus imaginarios males ao tratamento seguido, hostilisam o medico assistente.

As idéas de J. Falret fizeram carreira em França, onde os perseguidos-perseguidores são geralmente considerados como exemplares de loucura lucida _(folie raisonnante)_, sub-grupo das degenerescencias psychicas hereditarias. Nas suas _Lições clinicas sobre as doenças mentaes_, Magnan presta um largo apoio á doutrina de Falret, fazendo apenas reservas sobre dois pontos: as allucinações, que elle admitte a titulo de excepção, e os accidentes cerebraes, que julga, em face da sua experiencia pessoal, muito menos frequentes do que se tem pensado.

De passagem faremos notar que na Allemanha o _delirio processivo_ tem soffrido as mesmas vicissitudes theoricas que experimentou em França o delirio dos perseguidos-perseguidores. Ao passo que a maioria dos auctores, á maneira de Lasègue, consideram aquelle delirio uma simples variedade da _Verrücktheit_, descrevendo-o, como faz Krafft-Ebing, ao lado do delirio de perseguições, outros, como Arndt, Kraepelin e Schüle, fazem d'elle um sub-grupo da _loucura moral._

III--PHASE SYNTHETICA

De Morel a Magnan; de Westphal a Cramer; de Buccola a Tanzi e Riva--A loucura hypocondriaca; o delirio chronico; a loucura parcial; a Verrücktheit aguda e chronica; a Paranoia; a delusional insanity--Determinação pathogenica.

Vimos precedentemente que Morel, quando ainda a psychiatria franceza se esforçava por elevar á cathegoria de fórmas nosographicas autonomas os delirios de perseguições e de grandezas, esboçara a doutrina segundo a qual taes delirios não seriam senão manifestações de uma doença ou, mais precisamente, transformações progressivas da loucura hypocondriaca.

Da idéa inicial de um compromisso da saude, caracteristica da hypocondria, passaria o doente, generalisando, á idéa de um compromisso da vida, da honra, dos interesses intellectuaes e moraes, caracteristica do delirio de perseguições. Este seria uma simples manifestação da hypocondria anomala ou, como elle proprio escreve, sublinhando, _uma hipocondria de uma natureza mais intellectual_. Em 1860 exprimia-se assim no seu _Tratado_ o illustre psychiatra: «Fallando da hysteria, disse eu que esta nevrose póde percorrer as suas phases mais extraordinarias sem que a alteração das faculdades intellectuaes e afectivas se torne uma consequencia forçada. A hysteria larvada, se assim posso exprimir-me, offerece perigos muito maiores para o livre exercicio das faculdades, como provei com numerosos exemplos. A mesma reflexão póde applicar-se á hypocondria. Para d'isto nos convencermos, basta examinar até que ponto o temperamento dos individuos com delirio predominante de perseguições está sob a influencia d'este estado nevropathico»[1]. E mais adiante: «Quando elles (os hypocondriacos) chegam á supposição de que os seus alimentos teem venenos ou, pelo menos, substancias que lhes produzem as sensações de que se queixam; quando elles se imaginam expostos aos maleficios do que chamam potencias occultas, como a electricidade e o magnetismo, e pensam que a propria policia procura perdel-os, podemos estar certos de que vão entrar _na phase d'este delirio especial_ que a designação de _delirio de perseguições_ melhor do que todas exprime»[2].

[1] Morel, _Traité des maladies mentales_, pag. 706.

[2] Morel, _Obr. cit._, pag. 707.

Quanto ao _delirio ambicioso_ elle seria, segundo Morel, uma terminação frequente do delirio de perseguições. Fallando dos megalomanos, escrevia: «E quando mesmo os doentes chegaram a este estado de contentamento e de vaidosa satisfação que é proprio das idéas systematicas de grandeza, elles não lograram collocar-se de um modo fixo e irremediavel sobre o pedestal da sua loucura senão com a condição de passarem por todas as peripecias do delirio de perseguições, e de terem, as mais das vezes, experimentado todos os soffrimentos dos hypocondriacos»[3].

[3] Morel, _Obr. cit._, pag. 716.

Para explicar a passagem do delirio de perseguições ao de grandezas, Morel não invocava, á maneira de Foville, o _raciocinio_ e a _logica,_ mas a _physiologia morbida:_ era, com effeito, ao echo psychico de uma alteração no funccionalismo visceral dos hypocondriacos que elle ia procurar a chave d'este phenomeno _tão frequente quanto assombroso para os homens alheios á medicina e desconhecedores das leis dos organismos doentes._

Esta doutrina, integrando os delirios de perseguições e de grandezas na hypocondria, representava uma tentativa de synthese clinica, naturalmente destinada a não encontrar seguidores entre os contemporaneos de Morel, porque o tempo era de analyse, e a tendencia geral a da multiplicação das fórmas nosographicas. O estudo minucioso dos symptomas absorvia as attenções, relegando a um plano subalterno o das causas e da evolução das doenças. Embora combatidas quasi desde a sua introducção na sciencia, as _monomanias_ de Esquirol triumphavam ainda então: o delirio de perseguições era uma monomania, o delirio de grandezas, outra. O _Tratado_ de Marcé, o mais cotado dos livros classicos da psychiatria franceza, consagrava esta doutrina em 1862; e a memoria de Foville, que atraz citámos, tem a data de 1869, como tem a de 1871 a monographia de Legrand du Saulle, de que tambem démos idéa no capitulo anterior.

Isto é dizer que não foi comprehendida a maneira de vêr de Morel sobre os delirios systematisados, como o não foram outros pontos de vista d'este homem de genio, que Morselli justamente denomina o _Darwin da psychiatria_. Fallava para o futuro o auctor das _Degenerescencias Humanas_, cuja alta originalidade rompe na historia da medicina mental franceza o parallelismo entre a ordem chronologica e a ordem logica das idéas.

É só em 1883, mais de vinte annos depois de publicado o _Tratado_ de Morel, que as idéas d'este psychiatra a proposito dos delirios systematisados são retornadas e postas em relevo n'um trabalho de Gérente.

Escripto sob a evidente inspiração de Magnan, esse trabalho destina-se a provar com o apoio dos factos, que não existe _um_ delirio hypocondriaco, _um_ delirio de perseguições e _um_ delirio de grandezas, mas uma vesania, o _Delirio Chronico,_ de que aquelles não são senão phases evolutivas. «Vamos, diz o auctor, estudar clinicamente todos os delirios da vesania; seguiremos n'uma observação attenta a génese e a evolução d'estes delirios; e, por conclusão d'este trabalho, esperamos que em vez d'essas _monomanias_, tão artificiaes e tão confusas, de certos auctores, appareça claramente, emfim, _uma só e mesma especie morbida_ que chamaremos o _Delirio Chronico_»[1].

[1] Gérente, _Le délire chronique_, pag. 10.

O que é, verdadeiramente, este _Delirio Chronico_? Segundo Gérente, uma doença que, germinando sempre n'um terreno hypocondriaco, se denuncía nos seus casos typicos e eschematicos pela successão regular de tres periodos: um de concentração dolorosa do espirito; um de expansão; e um mixto ou de transição entre os dois. Se a doença se prolonga sufficientemente, a demencia é o seu termo natural.

O terreno hypocondriaco em que, segundo Gérente, o _Delirio Chronico_ mergulha as suas raizes para constituir-se e crescer, é caracterisado essencialmente por uma impressionabilidade anormal, de origem quasi sempre hereditaria, por uma perversão dolorosa da sensibilidade mental, n'uma palavra, por uma _hyperalgesia psychica_; uma autoobservação permanente, uma sorte de habitual _ruminação_ interior de estados physicos ou de estados moraes define a mentalidade prediposta, da qual, sob a mais ligeira causa determinante, ha de surgir a vesania. É, pois, um hypocondriaco o candidato ao _Delirio Chronico_; mas não é um alienado, emquanto sobre si mesmo poder exercer uma acção de _contrôle_. Sel-o-ha no dia em que esse exercicio se torne impossivel, no dia em que a preoccupação dos seus estados physicos e moraes venha a ser absorvente e o desligue das relações normaes com a sociedade. A hypocondria simples torna-se então loucura hypocondriaca. E é d'ela que vae sahir o periodo inicial ou depressivo do _Delirio Chronico_.