Part 2
Exposta pela primeira vez d'uma maneira dogmatica e n'um certo grau de generalidade nos seus _Estudos Clinicos,_ a observação de Morel tinha, contudo, precedentes na sciencia. Pinel, com effeito, illustrando o que elle chamava a transição da _melancolia depressiva_ á _melancolia ambiciosa_, expozera em 1809 alguns casos de doentes que, tendo-se julgado por mais ou menos tempo victimas de hostilidades e de manejos criminosos, acabaram por crêr-se grandes personagens; pelo seu lado, Esquirol notára tambem desde 1838 que da hypocondria póde passar-se á _lypemania_ e d'esta á _monomania da vaidade_, apresentando como exemplos alguns interessantes vesanicos primeiro hypocondriacos, depois perseguidos e por ultimo ambiciosos. Entre os casos de Pinel ha o de um alienado que durante oito annos delirou como perseguido, crendo-se em constante imminencia de morte por envenenamento, não ingerindo senão alimentos que furtava na cosinha do asylo, e que acabou por crêr-se igual ao Creador e soberano do mundo; entre as observações de Esquirol figura a de um doente que, excessivamente inquieto sobre o seu estado de saude durante mais de dois annos, entra em seguida no caminho das perseguições, imaginando-se objecto de tentativas de envenenamento por parte da familia, e termina, decorrido um anno, por crêr-se filho de Luiz XVI. Mas, por valiosas e instructivas que sejam em si mesmas, estas observações não desempenham nos livros de Pinel e de Esquirol mais que um papel episodico e sem alcance. Morel foi indiscutivelmente o primeiro a vêr n'uma tal successão de delirios, não apenas um curioso accidente, mas uma verdadeira lei de evolução vesanica, segundo a qual a passagem regular da hypocondria ao delirio de perseguições e d'este ao delirio ambicioso seria um facto constante nos alienados hereditarios. D'aqui a affirmar a existencia de uma psychose degenerativa de que os delirios hypocondriaco, persecutorio e ambicioso, succedendo-se, não constituiriam senão _étapes_ ou phases evolutivas, vae uma pequena distancia que Morel percorreu, como veremos, desde a publicação dos _Estudos Clinicos_ em 1853 até á do _Tratado das Doenças Mentaes_ em 1860.
Outros auctores franceses, entre os quaes Renaudin, Broc e Dagonet, notaram a successão de delirios diversos, nomeadamente de perseguições e de grandezas, n'um mesmo alienado; todavia, por desconhecimento ou incomprehensão do alcance dos trabalhos de Morel, nenhum d'elles se preoccupou com a interpretação do phenomeno. Só em 1869 Foville, retomando a questão na sua excellente memoria sobre a _Loucura com predominio ao delirio de grandezas_, procurou interpretar, sobretudo, a passagem--tão frequentemente observada agora que a attenção dos clinicos incidia sobre ella--do delirio de perseguições ao de grandezas.
Marcando na historia dos delirios systematisados um periodo importante, o trabalho de Foville merece deter-nos um momento.
Depois de ter mostrado que o delirio de grandezas póde apparecer a titulo episodico na maioria das doenças mentaes e com mais ou menos relevo constituir um syndroma de algum dos seus periodos evolutivos, Foville estabelece que elle se torna preponderante e reveste inconfundiveis caracteres semeioticos em dois casos: na loucura parcial e na demencia paralytica. Pondo de parte, por alheio ao nosso estudo, este ultimo caso, vejamos o que Foville pensava do primeiro.
A loucura parcial, que importa não confundir com a monomania de Esquirol, representaria, segundo Foville, as alienações caracterisadas pelo conjuncto d'estes caracteres: presença de um delirio systematisado, ausencia de um estado habitual depressivo ou expansivo, existencia de perturbações sensoriaes, e chronicidade.
O delirio de perseguições descripto por Lasègue é um dos representantes d'este grupo; um outro seria, segundo Foville, a _megalomania_, que elle define como um delirio de grandezas logicamente coordenado, associando-se a allucinações chronicas e, no seu periodo de estado, a idéas de perseguição.
Em rigor, nem o termo é novo, porque antes o tinham empregado, entre outros, Broc e Dogonet, nem a definição da doença absolutamente original, porque desde Esquirol se havia reconhecido a existencia de um delirio ambicioso idiopatico. O que de original e novo existe no trabalho de Foville é a maneira de estudar a génese do delirio de grandezas e as relações d'elle com a doença de Lasègue.
Segundo Foville, na loucura parcial, de que são escólas o delirio de perseguições e a megalomania, toda a symptomatologia essencial se reduz a concepções delirantes e erros sensoriaes, podendo estas duas ordens de factos manter entre si relações diversas, que importa muito considerar para a comprehensão da pathogenia. Ou as concepções delirantes se apresentam primeiro, apparecendo as illusões e allucinações como um facto secundario da doença, ou, pelo contrario, a esphera sensorial é primitivamente affectada e só depois irrompem as concepções chimericas.
Ora, segundo Foville, não é de modo nenhum indifferente para a natureza mesma da doença que a successão das duas ordens de symptomas se realise n'um sentido ou n'outro, porque o allucinado-delirante é, em regra, um perseguido que póde tornar-se megalomano, ao passo que o delirante-allucinado é mais vezes um megalomano que póde vir a ter idéas de perseguição. A razão d'isto, no dizer de Foville, vem de que na loucura parcial as allucinações primitivas são, como estabelecera Lasègue, preponderantemente, senão exclusivamente as do ouvido, de um caracter, em regra, penoso ao principio e de molde, portanto, a gerarem um delirio depressivo. Ora, sendo a hypothese do allucinado-delirante mais frequente que a do delirante-allucinado, é tambem mais vulgar o perseguido-megalomano que o megalomano-perseguido.
Posto isto, que serve para mostrar que não é meramente accidental a passagem de um delirio a outro, Foville, estreitando mais o assumpto, deriva á explicação do modo intimo por que ella se realisa.
A transição (mais frequente, como foi dito) do delirio de perseguição ao de grandezas opera-se, ao vêr de Foville, por um processo logico. «Depois, diz elle, de terem por mais ou menos tempo attribuido as proprias allucinações a inimigos desconhecidos, contentando-se com explical-as por uma palavra mais ou menos obscura e mysteriosa, certos lypemaniacos allucinados dizem a si mesmos: Factos d'esta ordem não podem passar-se, no estado social em que vivemos, sem a intervenção de pessoas influentes e altamente collocadas; essas só, portanto, são as instigadoras dos nossos tormentos. Outros, ao contrario, reconhecendo que não succumbem nunca de um modo completo aos perigos de que se sentem cercados; suppõem ter amigos occultos, mas de um grande poder, que os protegem. Esta ordem de idéas imprime desde então o seu cunho ao conjunto das concepções e allucinações: os doentes fallam de grandes personagens que vêem por toda a parte, desconhecem a identidade real dos individuos, que os cercam e crêem que imperadores, imperatrizes e principes os visitam ou lhes enviam mensagens. No meio do delirio melancolico as idéas de grandeza adquirem realmente uma importancia preponderante. Mas as coisas podem ir mais longe ainda. Impressionados pela desproporção entre a sua posição burgueza e o poder de que devem dispôr os seus inimigos para os attingirem, a despeito de tudo; entre o apagado papel que desempenham no mundo e os moveis imperiosos que podem explicar o encarniçamento com que são perseguidos, alguns d'estes doentes acabam por a si proprios perguntarem se realmente são tão pouco importantes como parecem. Uma nova perspectiva se abre diante do seu atormentado espirito: não é já a dos outros, mas a propria personalidade que aos seus olhos se transforma. Para que os persigam d'este modo, dizem elles, é preciso que um alto interesse se dê, e isso só se comprehende porque elles façam sombra a gente rica e poderosa, porque tenham, elles proprios, direito a uma fortuna e a uma posição de que fraudulentamente os despojaram, porque pertençam a uma classe elevada de que foram afastados por circumstancias mais ou menos mysteriosas, porque não sejam seus verdadeiros paes os que como taes consideram, porque pertençam, emfim, a uma alta estirpe, as mais das vezes real»[1].
[1] Foville, _La folie avec prédominence du délire des grandeurs_, pag. 345.
E accrescenta: «Estas idéas terão, sobretudo, tendencia a produzir-se nos casos em que, já antes de doente, o individuo teve de soffrer no seu orgulho ou nos seus interesses pelo facto da irregularidade ou do mysterio do proprio nascimento. Assim, temos notado que esta fé n'uma origem illustre, que esta crença n'uma imaginaria fortuna é relativamente frequente nos _filhos naturaes_ que véem a cahir na loucura. São elles principalmente os preparados para ás idéas de perseguição juntarem um novo romance em que dominam as concepções de grandeza, as substituições ao nascer, as confusões de pessoas»[1].
[1] Foville, _Loc. cit._, pag. 346.
Como se vê, Foville não faz senão seguir a orientação psychologica de Lasègue, que explicava pela intervenção de um raciocinio a passagem, no delirio de perseguições, do periodo prodromico ao de estado. Um processo logico, essencialmente deductivo e syllogistico preside tambem, segundo Foville, á génese das idéas ambiciosas que derivam de um delirio persecutorio.
Mas não é este, reconhece-o Foville, o unico modo por que o delirio de grandezas póde produzir-se; algumas vezes succede que as concepções ambiciosas se installam primitivamente, dando-se então o caso de surgirem depois idéas de perseguição, por _uma sorte de propagação regressiva que, ao fim de um certo tempo, acaba por nivelar as situações._ Qual é agora o mecanismo de transição? «É difficil, escreve Foville, crêr-se um doente na posse de direitos á fortuna e ao mando, figurar-se descendente de uma familia illustre, e não se sentir vexado pela modestia da posição que occupa ou pela exiguidade dos recursos de que dispõe. N'isto vê elle um signal de injustiça, que attribue á acção de inimigos poderosos; crê-se, pois, victima de manobras hostis e fabrica assim um systematico delirio de perseguições, secundario agora e consequencia das idéas de grandezas»[1].
[1] Foville, _Loc. cit._, pag. 347.
É ainda, como se vê, um processo logico o destinado; segundo Foville, a explicar a passagem do delirio ambicioso ao de perseguições; toda a vesania parcial, portanto, qualquer que tenha sido o seu ponto de partida e qualquer que haja de ser o seu termo, se desenrola sob a dependencia do raciocinio e dentro da esphera consciente da ideação.
Os casos em que o delirio de grandezas succede immediatamente a allucinações de caracter agradavel e lisongeiro, são extremamente raros; a interpretação dos erros sensoriaes, isto é, um processo consciente e reflectido, é ainda d'esta vez origem da doença.
Referindo-se á doutrina de Morel, Foville declara não a acceitar, porque o delirio hypocondriaco, ponto de partida necessario, segundo aquelle auctor, dos delirios de perseguições e de grandezas, só excepcionalmente o encontrou.
De quanto vem de ser exposto a conclusão a tirar é esta:
Existe um delirio systematisado de grandezas que, no seu periodo de estado, se combina sempre com idéas de perseguição, que é invariavelmente acompanhado de allucinações auditivas e que tanto póde originar-se, por via deductiva, de um preexistente delirio persecutorio, como nascer _d'emblèe_. Não sendo um episodio morbido, nem mesmo a phase evolutiva de uma vesania anterior, porque póde ser e é muitas vezes primitivo, esse delirio constitue uma doença com foros de autonomia e direitos a uma designação privativa: a _megalomania_.
Tal é, em resumo, a memoria de Foville na parte consagrada ao delirio parcial de grandezas.
Depois dos importantes trabalhos de Lasègue e Foville, a psychiatria franceza não nos offerece, dentro d'este periodo de analyse, estudo que tenha feito progredir pela interferencia de pontos de vista novos o conhecimento dos delirios systematisados. O livro publicado por Legrand du Saulle, sob o titulo de _Delirio de perseguições_, em 1871, valioso, certamente, pela copia de observações e pelos detalhes de analyse clinica, nada tem, no fundo, de original, embora tentem proclamar o contrario estas ambiciosas palavras do prefacio: «A despeito da sua extrema frequencia e dos seus tão claros caracteres distinctivos, o delirio de perseguições achou-se confundido com a melancolia de Pinel, com a lypemania de Esquirol, com a monomania depressiva de Baillarger; é ahi que eu vou buscal-o para o estudar nas suas diferentes phases, para o constituir _de toutes pièces_ e fazer d'elle uma _especie_ á parte»[1]. Dezenove annos antes fizera Lasègue, como vimos, o que n'esta passagem se annuncia. O trabalho de Legrand du Saulle, excepção feita dos capitulos consagrados ao tratamento, á medicina legal e ao contagio do delirio, que nada teem que vêr com a constituição scientifica da doença, não é senão um desenvolvimento da memoria de Lasègue, cuja ordem de exposição adopta e cujas expressões mesmo não raro se apropria.
[1] Legrand du Saulle, _Le Délire des persécutions,_ pag. 11.
Como Lasègue, Legrand du Saulle descreveu dois periodos no delirio de perseguições: um, de começo, exteriorisado por uma _inquietação indefinivel e de nenhum modo comparavel á do homem normal que tem um grande interesse compromettido;_ outro, de estado, caracterisado pela definitiva systematisação das idéas delirantes formando um _romance_ invariavel para cada doente.
Como Lasègue, Legrand du Saulle caracterisa a inquietação do primeiro periodo comparando-a á _cephalalgia_ e ao _arrepio_ que são muitas vezes os precursores de graves doenças communs, mas que em si mesmos nada teem de preciso.
Como Lasègue, Legrand du Saulle explica a transição do primeiro ao segundo periodo por um acto de reflexão do perseguido, por um verdadeiro raciocinio. «O doente, escreve Legrand du Saulle, diz a si proprio e aos outros que não são naturaes as inquietações e angustias que experimenta, que lhes não encontra causa no meio em que vive, no estado da propria saude, no da propria fortuna. No seu passado experimento grandes infortunios, mas sabia o motivo d'elles e não eram os mesmos os seus soffrimentos, não tinham o caracter vago e indefinido dos actuaes. Este mal-estar tão grande, estas impressões tão penosas e tão injustificadas devem ter uma causa secreta. E é assim que o doente se sente naturalmente levado a pensar que inimigos occultos, interessados em perdel-o, se reunem e procuram fazel-o soffrer»[1].
[1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 17.
Como Lasègue, Legrand du Saulle dá na symptomatologia da doença um logar preponderante ás allucinações auditivas, precedidas frequentemente de illusões do mesmo sentido. «O doente, escreve o auctor, começa por dar uma falsa significação aos ruidos reaes que escuta: uma porta que se abre, pessoas que fallam na rua, uma palavra pronunciada ao pé d'elle, os passos de alguem, tudo é materia do delirio. As verdadeiras allucinações só começam, em geral, mais tarde e n'uma epocha variavel»[2].
[2] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 43.
Como Lasègue, Legrand du Saulle admitte um periodo de declinação na doença, que, sendo, em regra, incuravel, póde terminar pela cura n'uma quinta parte dos casos. Na etiologia, Legrand du Saulle constata, como Lasègue, que a doença é mais frequente nas mulheres e se realisa preferentemente na epocha por excellencia das grandes luctas da vida. Algumas considerações que faz sobre a _hereditariedade_, o _onanismo_ e as _perseguições infantis_ são de um caracter vago. Como se vê, em tudo quanto póde servir para caracterisar como _especie_ o delirio de perseguições--na symptomatologia, na marcha, na etiologia, Legrand du Saulle não faz senão seguir a memoria de Lasègue.
Vamos vêr que n'um ponto de maxima importancia, não tratado pelo eminente professor da faculdade de Paris no seu trabalho de 1852, Legrand du Saulle acompanha a memoria de Foville. Refiro-me á passagem do delirio de perseguições ao de grandezas, explicada, como vimos, por Legrand du Saulle acceita esta mesma pathogenia. «Depois, diz elle, de ter soffrido tantas hostilidades da parte de implacaveis inimigos, depois de ter sido victima de tantas intervenções devidas á magia ou ao electro-magnetismo, o perseguido recolhe-se por vezes e pensa: Como podem em pleno seculo XIX produzir-se factos d'esta natureza? É preciso admittir no fundo de tudo isto uma energica vontade superior, a de um alto personagem, a de um principe ou, talvez, de um rei! Deve ter sido necessaria, com effeito, para explicar o meu caso uma auctoridade verdadeira, que só póde existir nas mãos de millionarios, de ministros e de imperadores: quem ordenou tudo é, pois, um grande senhor ou um notavel personagem. Um outro perseguido pensará: Armam-me redes, mas eu evito-as; expõem-me a coalisões formidaveis, mas eu saio-me bem d'ellas; attentam contra a minha vida, mas eu resisto; alguem, pois, de um alto poder vela por mim e me protege; esse alguem é o chefe do estado. Eis, a partir d'aqui, toda uma ordem nova de idéas imprimindo uma outra direcção ás concepções delirantes e ás allucinações. O perseguido não cessa desde então de fallar em ministros, em familias reinantes, na côrte pontifical, desconhecendo o caracter real das pesssoas que o cercam e affirmando que Napoleão lhe envia mensagens, que Trochu o chamou, que Thiers vae recebel-o, que tal ou tal princesa vem visital-o. N'uma palavra, encontramo-nos em presença de idéas de grandeza pathologicamente juxtapostas, porque as perseguições não cessaram, os inimigos existem ainda»[1].
[1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 84.
«Acabamos de constatar, continua Legrand du Saulle, erros grosseiros sobre a personalidade dos outros; pois vamos vêr que uma nova transformação se opera agora e que erros mais grosseiros ainda vão dar-se d'esta vez sobre a personalidade de perseguido. Sigamos um pouco o raciocinio do doente: As operações dos meus inimigos, pensa elle, são tão desleaes como persistentes e perigosas; os meus inimigos são infatigaveis e poderosos; mas que interesse podem elles ter em me mortificarem d'este modo, a mim, homem ignorado, obscuro ou collocado n'uma situação modesta? O contraste entre os perseguidores e a victima é dos mais notaveis. Quem sou eu com effeito? Talvez um ser menos apagado do que se pensa, mais importante do que se imagina, mais temivel do que se suppõe. E nem póde deixar de ser assim. Enchem-me de humilhações odiosas, dirigem contra mim os mais tenebrosos attentados; ha, pois, um interesse em fazel-o. Esse interesse parte de millionarios, duques, principes ou imperadores, e é, portanto, dos mais consideraveis. Mas então faço eu sombra a alguem e esse alguem roubou-me necessariamente o meu nome, o meu titulo, a minha fortuna, o meu logar social, a minha corôa. Eu não sou, portanto, o homem humilde sob cuja mascara vivi até hoje: fui mysteriosamente posto de lado, iniquamente esbulhado; o nome de que uso não é o meu, os que teem feito de meus paes não são da minha familia; eu sou o neto de Luiz XVI ou o filho de Napoleão, sou o duque de Orleans ou chamo-me D. Carlos»[2].
[2] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 85.
Para não deixar de seguir passo a passo Foville, que, como vimos, notara a relativa frequencia do delirio ambicioso nos perseguidos _filhos naturaes_, Legrand du Saulle accrescenta: «Se o perseguido não tem um acto de nascimento regular, se alguma vez soffreu pelo facto de uma situação indecisa, de uma paternidade não confessada ou de uma educação mysteriosa, se o seu orgulho foi torturado ou lesada a sua fortuna, com que perniciosos elementos não crescerá o seu delirio, com que apparencias de verosimilhanças não fallará elle a todos da sua imaginaria fortuna, do seu nascimento illustre?!»[1]
[1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 86.
Como Foville e Morel, Legrand du Saulle refere casos em que no delirio de perseguições se observam concepções hypocondriacas; estas, porém, como as de grandeza, não constituem para elle uma phase evolutiva, mas apenas um _acompanhamento_ ou _complicação_ da doença de Lasègue.
Uma parte nova e valiosa do trabalho de Legrand du Saulle é a que se refere ao diagnostico differencial entre o delirio de perseguições idiopathico e o que, como syndroma, apparece na demencia senil, na paralysia geral, no alcoolismo subagudo e nas intoxicações pelo chumbo e pelo sulfureto de carbone.
Não terminaremos esta rapida analyse do livro de Legrand du Saulle sem notar que elle soube pôr em relevo dois factos interessantes, ulteriormente notados por quantos se teem occupado d'este assumpto: a existencia em muitos perseguidos de allucinações auditivas bilateraes de caracter differente--vozes benevolas d'um lado, vozes hostis do outro, e a tendencia d'estes doentes á formação de _neologismos_ e de um incomprehensivel vocabulario privativo de cada um.
* * * * *
Até aqui os trabalhos francezes. Vejamos agora, retrocedendo um pouco na ordem dos tempos, de que maneira os psychiatras allemães comprehenderam os delirios systematisados.
Foi Griesinger o primeiro entre elles a occupar-se d'este assumpto no seu _Tratado de Doenças Mentaes_ cuja apparição remonta a 1845, mas que só vinte annos depois veio a ser conhecido em França pela traducção Doumic. N'esse livro, por muitos titulos notavel, descreve o eminente professor de Zurich, sob a denominação de _Verrücktheit_, os delirios parciaes que alguns annos mais tarde Lasègue e Foville haviam de elevar, dando-lhes nomes privativos, á cathegoria de especies em nosographia mental. Se bem que abreviada e n'um ou outro ponto confusa, a descripção de Griesinger abrange todos os pontos essenciaes da symptomatologia dos perseguidos e megalomanos, como facilmente se ajuizará pelas transcripções que seguem.
Referindo se ás concepções que são o nucleo mesmo do delirio e o seu mais apparente symptoma, Griesinger escreve: «São umas vezes idéas activas, exaltadas, maniacas; o doente occupa uma posição elevadissima e tem um grande poder: é Deus, as tres pessoas da Santissima Trindade, reformador do Estado, rei, um grande sabio, um propheta, um enviado de Deus ou descobriu o movimento perpetuo, é o dominador de toda a natureza e conhece os elementos de todas as coisas, etc. Outras vezes são idéas passivas: os doentes crêem-se lesados, dominados, submettidos ao poder d'outrem; julgam-se perseguidos, victimas de tramas hostis; mysteriosos inimigos atormentam-nos pela electricidade, os maçonicos fazem lhes mal, são possessos do diabo, estão condemnados a supplicios eternos, e roubados nos seus bens mais caros, etc.»[1]
[1] Griesinger, _Traité des maladies mentales,_ trad. franceza, pag. 386.
Occupando-se dos erros psycho-sensoriaes, escreve: «As illusões e allucinações em nenhuma outra fórma de loucura são tão frequentes como na _Verrücktheit;_ em grande numero de casos são ellas principalmente que alimentam e entreteem o delirio. Muitas vezes os doentes conversam com as vozes que escutam, ou discutem com ellas, entregando-se então a accessos de colera»[1]
[1] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.
Sobre o caracter absorvente d'estes delirios e sobre as transformações de personalidade, diz Griesinger; «Involuntariamente o alienado refere tudo ao seu delirio, e é d'este ponto de vista que julga todas as coisas ... As concepções falsas relativas ao proprio Eu chegam a attingir um elevadissimo grau, a partir do qual o doente não considera as coisas do mundo externo senão de um modo inteiramente pervertido ... Alguns d'estes doentes parecem crêr que a sua verdadeira personalidade anterior deixou de existir»[2]
[2] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 387.