Part 11
É incontestavel que, encarando de um modo geral as relações possiveis dos erros sensoriaes com os conceitos morbidos, são legitimos e a cada passo se realisam os casos enumerados por Foville: se ha delirios que provocam as allucinações, outros ha, que, ao contrario, as teem por base e ponto de partida. Isto é de tal modo reconhecido que os ultimos d'estes delirios teem na psychiatria contemporanea o nome consagrado de _allucinatorios_ ou _sensoriaes_ (Wahnsinn), que allude a um fundamento perceptivo, como os primeiros teem o de _systematisados_ (Verrücktheit), que inculca uma coordenação ideativa. Sómente, a experiencia clinica ensina que os deliros sensoriaes ou são absolutamente dissociados e dispersivos ou apenas attingem uma frouxa coordenação, ao passo que os delirios francamente systematisados podem, como o persecutorio na sua variedade litigante, evolucionar sem a intervenção de estados allucinatorios.
De resto, o depoimento da clinica não seria difficil de prevêr. Allucinações nascidas _sur place_, sem uma idéa que as provoque e lhes forneça o contheudo, só podem ser, como aliás nota Legrain, autonomicos effeitos de um erethismo dos centros sensoriaes, anatomica ou funccionalmente compromettidos; mas, sendo assim, ou o cerebro anterior as corrige e nenhum delirio é então possivel, ou, perdido o _contrôle_ normal, elle as acceita e delira, não n'um sentido determinado, mas em tantas direcções differentes quantas as allucinações, cujo contheudo nenhuma razão ha para não suppôr variavel e proteiforme como nos delirios sensoriaes das anemias, das febres, das intoxicações e das nevroses. Sem a direcção superior de um conceito ou, para fallarmos a linguagem de Magnan e Legrain, sem a intervenção provocadora do cerebro anterior, os centros sensoriaes, autonomisados e procedendo por conta propria e exclusiva, exportam, como nos sonhos, para as regiões superiores do cortex, os mais caleidoscopicos elementos de ideação; se, com materiaes d'esta natureza, um delirio tem de formar-se, elle não poderá ser senão, como o _hallucinatorischer Wahnsinn_ de Krafft-Ebing, alguma coisa de tormentoso e incoherente.
Assim, nem _à posteriori_, isto é, tomando para base a clinica, nem _à priori_, isto é, partindo da doutrina da percepção, é licito acceitar a primitividade das allucinações nos deirios systematisados.
Discutamos, entretanto, no terreno especial da Paranoia persecutoria a affirmação de Foville, retomada pela escóla de Sant'Anna.
Fallar, como Legrain, de uma lesão anatomica dos centros sensoriaes no delirio de perseguições, é, evidentemente, fazer um abuso de linguagem, pois que jámais uma autopsia denunciou em paranoicos qualquer coisa de parecido com um desarranjo palpavel e visivel d'essas limitadas regiões do cortex. Perturbações d'ordem dynamica, alterações funccionaes, desequilibrios de movimento cellular, eis quanto o estado actual da physiologia permitte admittir. N'este sentido, o termo de _erethismo_, empregado por Legrain, parece-nos feliz. Mas provocado por que causa, esse erethismo?
Não o diz o escriptor citado, e é lamentavel.
Excluidas, naturalmente, as intoxicações e as asthenias cerebraes, que são as causas mais frequentes de estados allucinatorios, não vejo que nos fiquem para explicar a sobreexcitação funccional dos centros sensoriaes senão as idéas, delirantes; postas estas de parte, nada resta, a invocar na interpretação do phenomeno,--tão importante, aliás, e tão essencial, no dizer da escóla franceza, que n'elle repousa a doença inteira.
Passemos, porém, ao de leve, sobre esta deficiencia de analyse e admittamos por um instante que uma causa, ainda não definida, vem provocar e determinar nos centros corticaes da sensibilidade especial um erethismo de que o cerebro anterior não partilha. O que nos diz a theoria da percepção que deveria succeder n'esta hypothese? Surprehendidas pelas extranhas sensações exportadas d'esses centros hyperfunccionantes, as regiões superiores da intelligencia entrariam com ellas em conflicto; e o resultado d'este, dada a integridade e normalidade d'essas regiões, a que incumbe a funcção suprema do _contrôle_ psychico, seria, indiscutivelmente, a correcção, a rectificação definitiva dos erros sensoriaes. É isto, como se sabe, o que acontece nos casos de illusões e allucinações em espiritos normaes. Fallar da integridade de uma razão, que constroe um delirio sobre percepções falsas, é um perfeito não-senso; admittir a normalidade de uma região de _contrôle_, que centros subordinados perturbam e vencem, é cahir n'uma grosseira contradicção. Por si sós, dil-o a experiencia clinica e ensina-o a theoria da percepção, os erros sensoriaes não falseiam os juizos, porque, para corrigir as illusões e allucinações, dispõe o cerebro de recursos, que vão desde a elementar contraprova da acção de um sentido pela dos outros até ao testemunho alheio e ao confronto dos dados perceptivos com o preexistente systema de conceitos e sentimentos, que é o fundo mesmo da personalidade sã.
Se os erros sensoriaes não são corrigidos, mas acceites e elaborados como realidades objectivas, é que uma d'estas duas hypotheses se dá: ou o allucinado não empregou os recursos de rectificação e _contrôle_ da percepção exterior, porque, delirante já, viu nas allucinações uma confirmação dos seus conceitos; ou os empregou sem exito, porque o insistente depoimento dos centros sensoriaes em erethismo, acabou por vencer os argumentos da razão.
Qual d'estas duas hypotheses se realisa no delirio de perseguições? Segundo o antigo ensino da escóla de Sant'Anna, de que Legrain é um interprete eminente, a primeira teria logar nos perseguidos _d'emblèe_, que são degenerados, e a segunda nos delirantes chronicos, que são normaes até á invasão da doença.
É inutil repetir que não acceitamos esta distincção, e que a primeira das hypotheses formuladas é para nós a que tem logar em todos os casos não só de delerio de perseguições, mas dos outros delirios systematisados.
Analysemos, comtudo, as affirmações de Legrain em relação ao Delirio Chronico.
Estabelecendo com Magnan (como o fizera Lasègue para o perseguido) que o delirante chronico é um ser normal até á invasão da doença, Legrain compraz-se em vêr na incubação d'esta uma lucta da razão com os morbidos elementos invasores. Ao passo que o degenerado supportaria, por assim dizer, o seu delirio,--espontanea manifestação de um desequilibrio preexistente, o normal _fabrical-o-hia_ lentamente, hesitantemente e raciocinando sempre. É a velha doutrina. Mas como de um raciocinio só podem surgir conclusões falsas quando as premissas o são tambem, Legrain, á maneira de Delasiauve e de Foville, faz das illusões e allucinações, nascidas _sur place_ nos centros sensoriaes, o elemento morbido aggressivo e a premissa erronea de que o cerebro anterior deduzirá, emfim, o delirio.
Acabamos de vêr, e toda a insistencia n'este ponto seria impertinente, que a incapacidade de corrigir percepções erradas implica deficiencia de senso critico e, portanto, insanidade mental, anormalidade psychica. Nem mesmo admittindo com Legrain que o cerebro reage contra a allucinação invasora com todas as suas energias, poderia evitar-se a conclusão, pois que a derrota denuncía a fraqueza e inferioridade d'essas energias.
Mas será verdade, ao menos, que o perseguido reaja contra as illusões e allucinações incessantemente originadas nos centros sensoriaes sobreexcitados? De modo nenhum. Bem ao contrario do que Legrain pretende, as illusões e allucinações são para os perseguidos, como para todos os paranoicos, pontos de apoio e não de partida do delirio, confirmações e não elementos formativos d'elle, eccos dos erros conceptuaes e não o seu fundamento, n'uma palavra, precarios symptomas derivados e não phenomenos essenciaes e primitivos.
A demonstração d'esta verdade clinica não será difficil, nem longa.
Uma só passagem de Magnan a fará. Fallando do que se passa no chamado periodo de incubação do delirio persecutorio, escreve n'um dos seus ultimos trabalhos o eminente observador: «Os doentes experimentam um mal-estar, um descontentamento que não sabem explicar-se; tornam-se apprehensivos, inquietos, _desconfiados, crendo notar certas mudanças_ na maneira de ser da familia e mesmo dos extranhos. Dormem mal, teem menos appetite, menos aptidão para o trabalho e para os negocios. N'esta época poderiam ser tomados por hypocondriacos. Pouco a pouco _parece-lhes que os observam_, que _os olham de travez_, que os _desprezam_; duvidam, hesitam, permanecem fluctuantes entre idéas variadas, acceites primeiro, repudiadas em seguida, admittidas pouco a pouco e dando logar, emfim, a interpretações delirantes ... O doente persiste assim perturbado, inquieto, por vezes excitado, todo entregue ás _concepções penosas que principiam a assaltal-o_ e _indifferente a tudo o que não parece prender-se com o seu delirio_. Os grandes acontecimentos não o commovem, as perturbações politicas deixam-no indifferente, as perdas de dinheiro e as luctas de familia não o emocionam. Pelo contrario, factos insignificantes, mas que se relacionam com as suas preoccupações penosas, que as justificam, adquirem uma importancia extrema e provocam-lhe a colera. Se uma pessoa se esquece de o saudar, vê n'isto uma injuria voluntaria; se alguem tosse ou escarra ao pé d'elle, se diante d'elle uma janella ou uma porta se abrem, se-uma cadeira se desloca, reconhece outros tantos testemunhos de despreso. As provas de benevolencia e de afeição tornam-se zombarias, e o proprio silencio é uma offensa. O vago apaga-se pouco a pouco; á hesitação succede a certeza, e, fortificadas por todas estas provas, as suas convicções tornam-se inabalaveis. N'estas condições, o doente, sempre em guarda, espia, escuta, surprehende n'uma conversação uma phrase que se attribue--eis a interpretação delirante; ou se crê aggravado por uma palavra insignificante, mas cujo som apresenta alguma analogia com uma injuria grosseira e que elle confunde com esta--eis a illusão. Depois, a _idéa constante de uma perseguição_, a tensão incessante da intelligencia acabam por _despertar o signal representativo da idéa_, a imagem tonal; n'uma palavra, a allucinação auditiva produz-se»[1].
[1] Magnan, _Obr. cit._, pag. 237.
Não é possivel estabelecer de um modo mais preciso e mais eloquente a primitividade do delirio e a secundariedade da allucinação. Todo o commentario seria pallido, todo o retoque prejudicial a este quadro _d'après nature_.
A questão de saber corno Magnan exprime em 1893 uma opinião diametralmente opposta á de Legrain, que em 1886 se dava como interprete da escóla de Sant'Anna, é secundaria para nós e sem interesse para a sciencia.
Cremos que n'este caso, como no de Gérente, Magnan se contradicta a si proprio, fazendo do seu Delirio Chronico edições successivas e todas differentes.
Felizmente, e é isto o que nos importa notar, a correcção introduzida ultimamente no capitulo das relações entre os erros perceptivos e conceptuaes, é conforme á verdade clinica.
VI--AS OBSESSÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS.
A inquietação dos perseguidos e as hesitações de certos paranoicos na exhibição do delirio; como se explicam estes factos--A doutrina classica das obsessões; sua inexactidão--Idéas do auctor; inesperada confirmação d'ellas por J. Séglas--A obsessão é um delirio systematico abortado; este é uma obsessão progressiva--Demonstração; analyse dos factos--Como se fórma o Eu; estratificações systematisadas--A personalidade e as subpersonalidades; o atavismo.
Se as idéas que formam o contheudo dos delirios paranoicos, não traduzem um esforço de reflexão exercendo-se sobre estados emotivos, nem reconhecem por causa os erros sensoriaes, como cremos ter provado, a conclusão se impõe de que ellas surgem na consciencia á maneira de obsessões.
Comquanto sustentada por uma parte dos psychiatras allemães e italianos, esta affirmação está de tal modo em desaccordo com as radicadas tradicções da escóla franceza que não será sem vantagem discutil-a. Antes, porém, seja-me licito notar que, acceite a origem obsessiva dos delirios systematisados, dois factos, que os alienistas francezes não lograram explicar senão phantasiosamente e em contradicção com os dados mais positivos da observação clinica, recebem uma interpretação simplicissima: refiro-me á inquietação dos perseguidos quando o seu delirio aponta, e ás hesitações de grande numero de paranoicos na exhibição dos seus conceitos falsos.
O primeiro d'estes factos, abusivamente comparado pelos psychiatras francezes ao vago mal-estar precursor das doenças graves, não é, em realidade, mais do que a natural reacção emotiva do Eu, subitamente empolgado por uma idéa penosa, que irrompe do inconsciente; longe de constituir, como a anciedade melancolica, uma situação primitiva de que surgirão os erros conceptuaes, é um estado secundario, um effeito mesmo da presença inesperada de uma idéa depressiva no campo da consciencia.
Em que consiste, de facto, essa inquietação? Definitivamente e no fundo--em sentimentos e actos defensivos; ora, a organisação de uma defeza suppõe a idéa de um ataque, de uma hostilidade, de um perigo. Sem duvida, essa idéa só se terá transformado n'um conceito e recebido a sua inteira systematisação, quando se houver feito o reconhecimento do inimigo e das causas da aggressão; a partir, porém, do momento em que obsessivamente ella irrompe e se impõe ao espirito, a inquietação apparece como o grito de alarme da esphera emotiva do perseguido.
Quanto ás hesitações, tantas vezes observadas, do paranoico na exteriorisação do seu delirio, qualquer que elle seja, nada mais facil que interpretal-as. Trata-se ainda, n'este caso, de um phenomeno secundario, inseparavel do primeiro. Surprehendendo a consciencia pelo contraste que faz com o systema de conceitos positivos recebidos da educação, a idéa delirante é para o Eu alguma coisa de extranho e de interposto que, tendo-lhe provocado uma forte reacção emotiva, irá ainda remodelar toda a sua precedente orientação pensante, não sem difficuldades e combates; a hesitação em affirmar o delirio é, pois, o resultado da novidade e extranhesa das idéas que o formam. Longe de ser, como se pretendeu, a duvida de um espirito que elabora conjecturas e procura cotejal-as com os actos, essa hesitação traduz o esforço penoso e vacillante de adaptação do Eu a uma nova ordem de idéas, que elle vê surgir e cuja origem desconhece. O paranoico não duvida, porque não critica. Como a victima de uma suggestão hypnotica activa não procura evitar o acto ordenado e imposto, ainda quando elle choca, ás suas habituaes inclinações, mas busca dar-lhe apparencias de espontaneo e querido, o paranoico, longe de tentar a correcção da sua idéa falsa, cuida em reforçal-a pela interpretação delirante dos factos.
Mas ás vezes succede tambem que já o delirio se encontra systematisado e ainda o paranoico o occulta ou apenas o confia do papel, n'uma sorte de soliloquio. A razão d'este facto está em que o doente, reconhecendo, pelo que, em si proprio se passou no periodo presystematico, a extranheza do seu delirio e a formidavel antithese que elle faz com as idéas correntes, procura evitar as inuteis e irritantes discussões que provocaria, exhibindo-o. É o conhecido caso de alguns crentes que, em vez de propagarem a sua fé, penosamente conquistada em repetidas luctas interiores, se recolhem n'ella, evitando a controversia, sentindo uma sorte de pudor em desdobrar diante de profanos irreverentes o inabalavel systema das suas convicções religiosas.
Mas eu prevejo uma objecção a esta doutrina. Como acceitar, dir-se-ha, a origem obsessiva dos delirios systematisados, se um dos caracteres das obsessões é justamente o de não serem integradas na consciencia, de subsistirem no Eu em lucta aberta com as disposições preexistentes, n'uma palavra, de não formarem systema?
A resposta implica um exame de doutrinas a que vamos proceder.
Westphal, definindo a obsessão _uma idéa que, sem precedencia de um estado emotivo ou passional, se impõe á consciencia do doente contra a sua vontade, impedindo o jogo normal do pensamento, em que se insinua, e sendo sempre reconhecida como anomala e extranha ao Eu_, foi um dos primeiros a proclamar a irreductivel systematisação da idéa obsessiva.
Pelo seu lado, os auctores, que ulteriormente mais se occuparam das obsessões, insistiram sempre no facto de que ellas constituem na economia psychica uma sorte de _corpo extranho_, releve-se-me a expressão, para eliminar o qual, inutil, mas consciente e penosamente se esforça o Eu. Assim, Magnan, definindo a obsessão pathologica _um modo de actividade cerebral em que uma palavra, uma idéa, uma imagem se impõem ao espirito sem intervenção da vontade e com uma angustia dolorosa que a torna irresistivel_, conta, como Westphal, entre os caracteres pathognominicos d phenomeno (que para elle é sempre um syndroma da degenerescenda psychica), a _consciencia completa_ de um estado morbido. E.J. Falret, interpretando no Congresso Psychiatrico Internacional de 1892 as mesmas idéas, affirmou não só que as obsessões são _conscientes_ e _anciosas_, mas que se _não acompanham de allucinações_ e se _não transformam nunca em outras doenças mentaes_, embora algumas vezes e n'uma adiantada phase de evolução se possam _complicar_ de um delirio melancolico ou persecutorio. O assentimento do Congresso as conclusões do Relatorio de Falret foi como a consagração official da doutrina que faz da idéa obsessiva um facto insusceptivel da assimilação, um producto que o Eu considera sempre extranho, que a consciencia jámais incorpora, que a vontade combate e contra o qual a emotividade perpetuamente lança o seu grito de alarme.
Será, porém, rigorosamente assim?
Reconhecendo que a nossa experiencia é curta e a nossa auctoridade nulla, atrevemo-nos, comtudo, desde 1892; tendo por base uma solida convicção, a discutir alguns dos pontos essenciaes da doutrina classica.
Assim, em conferencias publicas d'esse anno, a proposito de um caso medico-legal de impulsividade criminosa, sustentamos que a idéa obsessiva não póde ser, nem é na vida mental um elemento inerte, e que a sua actividade, como a de todo o phenomeno psychico, se mede pelo maior ou menor numero de factos da mesma ordem que ella evoca na consciencia, o que equivale a dizer--pelas mais ou menos extensas _systematisações_ que provoca. Como cada atomo de um aggregado material, diziamos então, entra n'elle com uma certa affinidade, cada phenomeno psychico figura no Eu com uma dóse propria de força systematisante. E a idéa obsessiva, extranha á consciencia pelas suas origens confusas, não é essencialmente diversa dos outros factos psychicos, nascidos tambem em grande parte da cerebração inconsciente; surgindo, ella evoca, pois, pela sua mesma affinidade com esses factos, pela sua mesma força systematisante (de que as leis de associação não fazem senão constatar a existencia e denunciar parcialmente as orientações), idéas, emoções, desejos, impulsos, novas imagens mentaes, em summa.
Longe de acompanhar-se, diziamos, de uma perfeita e _completa consciencia,_ a obsessão, representando um começo de _dissociação pessoal_, uma scisão do Eu por dois grupos antinomicos de systematisações psychicas, a normal e a obsessiva, implica uma _obnubilação da consciencia_ individual, pois que esta não póde comprehender-se senão como synthese de estados psychicos harmonicos e expressão da unidade do Eu.
Este modo de vêr, seja dito de passagem, encontramol-o sustentado com profusão de argumentos psychologicos e clinicos nas excellentes _Lições sobre as doenças mentaes e nervosas_ de Séglas, publicadas em 1896. Este imprevisto encontro do nosso espirito com o do eminente psychiatra, sob ser-nos lisongeiro, depõe grandemente em favor da justeza das idéas que defendemos.
A _angustia_ que acompanha os estados psychicos, diziamos nas mesmas conferencias, traduzindo a extranheza da consciencia em face da idéa imposta, está longe de ser um thenomeno invariavel, pois que, no fundo, elle depende da extensão maior ou menor que tomam as systematisações pathologicas em face das normaes. Ha estados em que toda a reacção emotiva se limita a uma passageira e leve inquietação de espirito; outros, em que surgem phenomenos criticos de anciedade, pronunciados, duradouros e graves. Procurando interpretar estes factos, Westphal collocou-os principalmente sob a dependencia do contheudo das obsessões, affirmando que, em igualdade de circumstancias, a idéa fixa de matar repugnará muito mais que a de pronunciar uma palavra inconveniente. Talvez seja assim; mas essa _igualdade de circumstancias_, reduzindo-se, no fundo, a uma identidade absoluta de disposições affectivas e moraes, não póde nunca affirmar-se com segurança em dois individuos ou n'um só em periodos diversos. Dizer que uma idéa obsessiva repugna, pelo seu contheudo, mais ou menos que uma outra, é dizer que as systematisações provocadas por cada uma valem diferentemente para o Eu. Mas porque? Em ultima analyse, porque as systematisações normaes com que ellas entram em conflicto na consciencia são diversas ou desigualmente organisadas. Á medida que a idéa obsessiva, quer por força propria, quer por frouxidão das suas antagonistas, alarga a esphera da sua systematisação, a dissociação do Eu progride, a extranheza da consciencia diminue e a _angustia_ reduz-se proporcionalmente. E o limite d'esta reducção, que theoricamente é zero, terá sido attingido, quando no campo da consciencia não existam systematisações que directa ou indirectamente não sejam provocadas pela idéa obsessiva.
Mas, n'esta hypothese dois casos podem dar-se: ou as systematisações normaes readquirem, decorrido um certo tempo, a sua supremacia, ou, mais fracas, ellas se deixam vencer definitivamente pelas systematisações pathologicas. No primeiro caso, a consciencia individual restabelece-se, e da phase de derrota fica apenas a memoria confusa de uma sorte de estado secundario e de sonho,--o que tem permittido comparar as obsessões impulsivas a crises de epilepsia psychica; no segundo, um novo Eu se fórma, tendo por substracto associações pathologicas, isto é, um delirio systematisado.
Tal foi, nos seus contornos, a doutrina que esboçamos em 1892 e exposemos ainda em conferencias sobre a Paranoia no começo de 96, contradictando os que pretendem achar contrastes irreductiveis entre obsessão e delirio. Insubsistentes no terreno da psychologia abstracta, esses contrastes não o são menos no campo da clinica, onde Tamburini, Stephani, Séglas, Catzras e outros demonstraram, contrariamente á cathegorica affirmação de J. Palret, que existem allucinações sensoriaes e psychomotoras exclusivamente determinadas pela persistencia de idéas obsessivas. Longe de serem antinomicos, a obsessão e o delirio approximam-se pela communidade de origem: a obsessão seria, na ordem de idéas que sustentamos, um começo de delirio systematisado, como este seria uma obsessão progressiva, desenvolvendo-se á custa de successivas associações. N'este sentido se interpreta sem esforço a expressão de _paranoia rudimentar_ por que Arnadt, Morselli e outros designam a obsessão.
Mas, porque reputamos fundamentaes estas idéas, procuraremos dar-lhes aqui todo o desenvolvimento que ellas comportam.