A Paranoia

Part 10

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A resposta parece-nos poder derivar-se da doutrina formulada por Tonnini: Estes delirios são paranoicos; e a psychonevrose que os precedeu, impotente em si mesma para os crear, provocou-os todavia, estimulando a peculiar actividade ideativa de um cerebro degenerescente. É possivel que, a não se realisar a incidencia perturbadora do elemento emocional implicado na psychonevrose, esse cerebro tivesse feito a sua evolução sem manifestações delirantes, comquanto houvessem de caracterisal-o sempre um exaggerado subjectivismo e uma apreciavel egocentricidade. Vulneravel, porém, elle não póde resistir ás causas que nos espiritos sãos determinam as psychoses; uma d'estas installou-se, portanto. O que deverá succeder a partir d'esse momento? Naturalmente, alguma coisa diversa do que costuma passar-se nos cerebros normaes: em vez de marchar para a cura ou para a demencia franca, a psychonevrose apressará aquella _maturidade degenerativa_ de que fallam Tanzi e Riva e que tem por expressão intellectual um delirio systematisado. Já em manifesto desequilibrio e já cançado pela passagem tormentosa da psychonevrose, o cerebro não poderá dar a este delirio secundario a forte seiva de que se alimentam os primitivos; entretanto, dar-lhe-ha ainda a força psychica precisa a uma evolução que póde ser longa e de certo modo movimentada. É n'este especial sentido que, a meu vêr, a Verrücktheit secundaria deve ser admittida.

Note-se, porém, que dizemos Verrücktheit e não Paranoia, no que divergimos de Tonnini. E esta divergencia não é só de fórma, mas de fundo, não apenas de nomenclatura, mas até certo ponto de interpretação. Com effeito, se bem comprehendemos todo o pensamento do escriptor italiano, a psychonevrose sommar-se-hia com uma simples predisposição vesanica para determinar a Paranoia, que os delirios systematisados secundarios symptomatisam; ao contrario, eu penso que a Paranoia preexiste á psychonevrose, embora tendo uma fórma mitigada e revestindo até ao advento d'esta uma feição mal definida, um verdadeiro typo indifferente. A psychonevrose que, na interpretação de Tonnini, contribuiria essencialmente para a constituição da Paranoia, não faz, a meu vêr, mais do que accentual-a, provocando a Verrücktheit, isto é, imprimindo-lhe um definido typo delirante. Todas as degenerescencias teem graus intensivos ou de gravidade: na ordem das paranoicas a mais grave seria a que mais rapidamente chega á maturidade, a mais precoce, a que desde a puberdade se revella por delirios systematisados, isto é, pela _Verrücktheit originaria_; a menos grave seria a que só attinge a maturidade por virtude de um abalo emocional, a mais tardia, a que se manifesta pela _Verrücktheit secundaria_. Mas em qualquer dos dois casos, como cm todos, a anomala constituição cerebral que na essencia caracterisa a Paranoia, é congenita. E eis porque eu não hesito em acceitar uma _Verrücktheit secundaria_, como não hesitei em admittir uma _Verrücktheit aguda_, comquanto sustente a _primitividade_ e a _chronicidade_ essenciaes da Paranoia.

IV--O RACIOCINIO E OS DELIRIOS PARANOICOS

Erros doutrinarios de Lasègue e Foville sobre a interpretação pathogenica dos delirios systematisados; como se perpetuaram na psychiatria franceza--A autoobservação e o raciocinio não representam um papel na génese dos delirios paranoicos--Depoimento dos factos--A primitividade dos delirios paranoicos, sua origem ideativa.

Entre os erros concebidos a proposito da origem, sempre anciosamente procurada, dos delirios de perseguições e de grandezas, um ha que, embora contradictado pela experiencia, se divulgou, sobretudo em França, com manifesto prejuizo de uma sã pathogenia: refiro-me ao que faz intervir na génese d'estes delirios a autoobservação e o raciocinio do doente. Lasègue, affirmando que o perseguido, normal até ao momento da invasão da doença, annunciada por um vago, mas profundo mal-estar, se perscruta, se dobra sobre si mesmo, e acaba, não sem hesitações, por encontrar na hostilidade dos homens a interpretação dos seus soffrimentos, foi o creador d'esse erro funesto, que Foville generalisou mais tarde, fazendo proceder a megalomania da necessidade que o perseguido sente de explicar-se os motivos das acintosas miserias soffridas.

Repetida como uma sorte de _cliché_ por successivas gerações de alienistas franceses, esta gratuita vista do espirito, que só Morel repudiou, insinua-se ainda nos livros contemporaneos; e assim é que, embora sem um só caso em apoio, Magnan, á maneira de Foville, enumera o _raciocinio_ entre os fundamentos possiveis da transição, no Delirio Chronico, da phase persecutoria á phase ambiciosa.

Comecemos por examinar esta singular pathogenia em relação ao delirio de perseguições a que primeiro se applicou.

Segundo ella, o perseguido, como um homem são, abruptamente assediado de obscuras emoções dolorosas, buscaria comprehendel-as, determinar-lhes as causas, fazendo conjecturas e construindo hypotheses, entre as quaes está a que, por successivas e mais ou menos demoradas exclusões, elle acceita como a melhor e mais explicativa: a de uma perseguição.

A apparente nitidez d'esta pathogenia seduziu os espiritos; e, comtudo, ella é radicalmente falsa.

Em primeiro logar, a observação clinica protesta contra, a normalidade do perseguido anteriormente á invasão do delirio, proclamando-o não só um predisposto, as mais das vezes hereditario, mas um verdadeiro candidato á loucura,

Antes de imaginar o seu Delirio Chronico anti-degenerativo, releve-se-me a expressão, Magnan reclamava para os delirantes systematisados uma ancestralidade vesanica de duas gerações, pelo menos; e esta idéa, já antes emittida por Morel, é a que sempre dominou as psychiatrias allemã e italiana, accordes em acceitar como hereditariamente invalido o cerebro paranoico. Por outro lado, jámais se estudou de perto a vida predelirante de um perseguido sem que n'ella se encontrassem seguras manifestações de exaggerado subjectivismo, de autophilia, de egocentricidade, tornando difficil, melindroso e ás vezes chocante o commercio social d'este paranoico. E, como se tudo isto não fosse bastante para condemnar a ingenua supposição da normalidade de um espirito, que ámanhã fabricará, sem causas determinantes, um absurdo e tenacissimo delirio, surge não raro no perseguido a estygmatisação physica da degenerescencia.

Em segundo logar, é absolutamente inexacto que o inicial symptoma da doença seja no perseguido, como a theoria inculca, um phenomeno obscuro de ordem sensivel, uma vaga e confusa emoção de que se encontre excluido, como nos prodromos de outras affecções, um elemento ideativo. A experiencia diz precisamente o contrario.

Quando o perseguido começa, no periodo chamado de incubação do delirio, a isolar-se da familia e dos amigos, a evitar o convivio, a alterar os seus habitos de existencia, a irritar-se, se o censuram ou simplesmente o interrogam, fal-o já por desconfiança do meio, que reputa hostil. É certo que, a titulo de vaga, mas persistente emoção egocentrica, essa desconfiança, mitigada e ainda compativel com a vida social, o caracterisou sempre; agora, porém, ella tornou-se definido _sentimento_ pela clara apparição no espirito de uma _idéa_ de hostilidade e de perigo. A inquirição perscrutadora do doente a tudo quanto o cerca, a procura minuciosa e subtil de provas palpaveis e evidentes da mal-querença dos outros, a eclosão, emfim, das illusões sensoriaes, tudo prova, irrecusavelmente, que a morbida sensibilidade do perseguido se exerce sob o dominio de um pensamento definido, de uma _idéa_ que a orienta, que lhe imprime uma direcção, que a conduz. A illusão auditiva, phenomeno prodromico dos mais precoces e do qual a allucinação ha de surgir, suppõe já um erethismo sensorial a que preside, consciente e nitida, embora ainda susceptivel de ulteriores desdobramentos, a _idéa_ de uma hostilidade exterior. E é mesmo, é justamente porque essa idéa está presente no espirito e se lhe impõe que o perseguido paralogisticamente exhibe, como provas de uma mal-querença, interpretações aggressivas das palavras mais indifferentes, dos sons mais insignificativos, dos gestos e dos successos mais incaracteristicos; cahindo sinceramente n'uma petição de principio, o perseguido prova que no seu cerebro existe uma idéa que o tyrannisa, que o empolga, e que, tornada um centro de associações psychicas, lhe vicia o raciocinio. Que essa idéa, como todas, proceda de preexistentes emoções, eis o que não contestamos, porque tudo na ordem do pensamento directa ou indirectamente reponta do humus da sensibilidade; mas só depois que ella espontaneamente appareceu na consciencia é que o delirio se iniciou. Não é, pois, emotiva, mas ideativa a origem directa e immediata d'este.

O que-se passa na melancolia esclarece, pelo contraste, a situação paranoica. Ali, com effeito, o phenomeno inicial é d'ordem emotiva, pois que se reduz a uma depressão consciente, que estados de cenesthesia morbida provocam: a tonalidade psychica baixa, o doente sente-se diverso do que fóra, a dôr moral invade-o, e é ao fim d'algum tempo d'esta situação anormal que o delirio surge, quer como tentativa de interpretação do novo modo de ser, quer como adequada expressão ideativa de um sentimento geral de impotencia. As idéas de crime, de peccado, de doença incuravel, de miseria, de incapacidade, de possessão, n'uma palavra, todas as idéas que formam o contheudo do delirio melancolico, são ulteriores á depressão dolorosa, que é o facto morbido primitivo. Essas idéas não procedem do inconsciente, não irrompem de obscuras emoções por ignorados e mysteriosos processos, mas succedem a um consciente sentimento de dôr, que tem as suas raizes em phenomenos somaticos apreciaveis. O melancolico sente-se mudado, o que é exacto, e torna-se porisso autoobservador, primeiro, e delirante depois; o perseguido, esse, sente mudado em relação a si o mundo exterior, o que é falso, o que presuppõe uma ideação anormal e, portanto, um começo de delirio, que a observação objectiva apenas ajudará a systematisar. Emquanto o melancolico, abatido e humilhado por um sentimento real de dôr, que é a expressão consciente de perturbações cenesthesicas, se concentra e se interroga, fazendo um delirio _secundario_, o perseguido, egocentrico e autophilico, partindo de uma idéa chimerica de hostilidade, abre os sentidos e observa o mundo externo, delirando _primitivamente_.

A autoobservação e o raciocinio na génese do delirio de perseguições não passam de miragens do espirito. No perseguido a attenção é dirigida em sentido objectivo; e o raciocinio, longe de intervir na formação do delirio, é por elle radicalmente falseado sempre que se trata das relações entre o mundo exterior e o Eu. A verdade clinica é, pois, precisamente o contrario do que affirma a doutrina de Lasègue; a verdade é que o delirio surge á sua hora, como o fructo amadurece e o grão germina: espontaneamente, fatalmente.

Vejamos agora o que se dá com o delirio ambicioso que succede ao de perseguições.

Haverá n'este caso, como pretendia Foville e como á saciedade se tem repetido, uma transformação consciente e raciocinada?

O que acabamos de dizer sobre a direcção exclusivamente objectiva da attenção do perseguido, faz desde já suppôr o contrario. A attitude reflexiva, que seria necessaria para indagar as causas de uma hostilidade do meio, não está nos habitos do perseguido; por outro lado ainda, não é de modo nenhum natural que se procurem as origens de um facto acreditado, como os dogmas, com a inabalavel fé, que dispensa interpretações e as rejeita mesmo.

Mas as provas directas da falsidade clinica da doutrina de Foville abundam. Assim, a observação permitte affirmar que não só o perseguido nunca formúla a pergunta: _Porque me perseguem?_ mas que, interrogado n'este sentido, invariavelmente responde: _Não sei_. O absurdo de uma perseguição sem causas, de uma hostilidade immotivada não choca esta ordem de doentes; e é debalde que se tenta dirigir-lhes a attenção para o exame de um assumpto que parece não os interessar. Absorvidos pelas allucinações ou empenhados em conjurar os effeitos de uma aggressão implacavel, os perseguidos não sentem a necessidade de inquirir as razões d'ella; e todo o insistente convite n'este sentido serve apenas para os impacientar, quando os não leva a entrevêr no solicito observador um cumplice de imaginarios inimigos.

Mas ha mais. Se o delirio ambicioso podesse installar-se a titulo de explicação de precedentes perseguições, nada seria mais facil do que provocal-o: bastaria suggerir ao perseguido os themas habituaes da megalomania, deixando-lhe a escolha. Por outros termos: se o raciocinio bastasse, como candidamente pretendia Foville, a operar a transformação de uma personalidade,--para fazer-se de um perseguido um megalomano seria necessario apenas dizer-lhe precocemente o que, segundo o auctor francez, elle se dirá um dia, isto é, que, não podendo haver perseguições sem causa, o encarniçamento dos seus inimigos deve naturalmente explicar-se quer pela inveja dos altos meritos pessoaes do doente, quer pelo interesse de supprimir um individuo destinado, como elle o é, talvez, a reinar, a dirigir um partido, a instituir uma religião, a reformar uma sociedade, a mudar a face de uma sciencia. Ora, a verdade é que suggestões d'esta ordem não só não abalam os perseguidos que, aliás, se tornarão mais tarde megalomanos, mas determinam n'elles ora uma franca hilaridade, ora indignados protestos. Repeti muitas vezes, no começo da minha carreira, experiencias d'esta natureza, conseguindo apenas provocar dos doentes contestações como estas: que não estão doidos para desconhecerem a sua situação; que não admittem zombarias; que as historias phantasticas são boas para entreter creanças e idiotas; que não é digno escarnecer de quem soffre.

É, pois, radicalmente falso e absolutamente contrario aos dados da observação que o delirio de grandezas appareça como tentativa feita para explicar perseguições soffridas. A idéa ambiciosa, como a de hostilidade, surge no espirito de um modo espontaneo e inconsciente; do delirio de grandezas póde, pois, repetir-se o que foi dito do delirio de perseguições: que elle irrompe á sua hora, como o fructo amadurece e o grão germina.

É só depois de installado por um processo a que são extranhos o raciocinio e a vontade, que o delirio de grandezas servirá para explicar o de perseguições, como este, por sua vez, servira ao doente para interpretar os factos da sua vida anterior. É só a partir do momento em que se crê excepcionalmente grande pelo genio, pelo nascimento ou pela fortuna que o paranoico principia a explicar-se as miserias supportadas.

Note-se, porém, este facto curioso e imprevisto em face da theoria que criticamos: o delirio de grandezas, dando um solido ponto de apoio ás idéas de perseguição, que esclarece e interpreta,--bem longe de as radicar, tornando-as definitivamente preponderantes no espirito do paranoico, tende, pelo contrario, a diminuil-as e a subalternisal-as em proveito proprio.

Tal é o irrecusavel depoimento da clinica, absolutamente incompativel, como se vê, com a theoria que faz dos delirios paranoicos resultados de um esforço da intelligencia para comprehender e interpretar vagos e obscuros estados emotivos. Se essa theoria prevalecesse, a autonomia nosographica do delirio systematisado de perseguições seria inteiramente chimerica; e todo o esforço de Lasègue para o destacar da melancolia delirante resultaria inane, pois que a pathogenia, a despeito de todas as possiveis differenciações symptomaticas, identificaria definitivamente as duas doenças.

Tendo de voltar ainda a este assumpto, procuraremos então interpretar as hesitações dos perseguidos e megalomanos na exhibição dos respectivos delirios.

Por mal comprehendido, esse facto contribuiu não pouco para acreditar a phantastica doutrina da génese consciente e reflexiva dos delirios systematisados. A hesitação, parecendo implicar a duvida, iria bem com a opinião que faz d'esses delirios _conjecturas_ de um Eu que se observa, _hypotheses_ de um espirito que se perscruta, buscando dar-se conta de accidentaes perturbações emotivas.

Veremos opportunamente que a interpretação do facto é muito outra; que essas hesitações não são senão o resultado da lucta que se exerce entre idéas nascidas do inconsciente e o systema de conceitos formados pela educação e até um certo tempo impostos pelo meio social.

De modo analogo explicaremos o facto, erroneamente interpretado pelos psychiatras francezes, da inquietação dos perseguidos no periodo inicial da doença.

V--AS ALLUCINAÇÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS

Erro de Foville sobre as relações dos delirios systematisados com as allucinações; como se perpetuou na psychiatria franceza--Uma antiga idéa de Magnan, exposta por Legrain, sobre este assumpto; falsidade d'essa idéa--Primitividade da concepção sobre a allucinação nos delirios paranoicos--Uma rectificação de Magnan.

Dada a extrema frequencia dos erros sensoriaes, sobretudo das allucinações auditivas, na loucura systematisada, tem-se perguntado se as perturbações da sensibilidade especial precedem as idéas delirantes, servindo-lhes de base e fornecendo-lhes o contheudo, ou se, pelo contrario, apenas lhes succedem como uma sorte de confirmação.

Lasègue, sustentando que as allucinações auditivas, unicas, segundo elle, compativeis com o delirio de perseguições, não são nem o antecedente necessario, nem o consequente inevitavel d'esta vesania, estabeleceu claramente a independencia essencial dos erros conceptuaes e perceptivos na mais commum das fórmas delirantes da Paranoia.

Retomando, porém, annos depois a questão, Foville admittiu para ella duas ordens de soluções, desigualmente frequentes: uma, relativamente rara, em que o delirio é primitivo e as allucinações secundarias; outra, muito commum e, no delirio de perseguições, constante, em que a relação inversa se realisa.

«O delirio, dizia elle, póde ou principiar _d'emblèe_ pelos conceitos ou affectar primeiro as sensações e extender-se depois ás idéas de um modo secundario»[1]. E, analysando cada um d'estes casos, commentava: «N'este ultimo (primitividade das allucinações) as funcções puramente intellectuaes não são, desde o começo, intrinsecamente lesadas, antes continuam a executar-se segundo a logica. Como faz notar Delasiauve, a faculdade syllogistica persiste intacta: emquanto se exerce sobre dados exactos, o producto das suas operações é normal e sensato; quando, pelo contrario, se exerce sobre dados falsos, isto é, sobre sensações imaginarias ou mal interpretadas, sobre allucinações e illusões, o producto encontra-se forçosamente em contradicção com a realidade. O delirio das sensações tem por effeito engendrar o delirio dos conceitos, sem que a intelligencia seja em si mesmo lesada e sem que ella deixe de funccionar sãmente, quando não é induzida em erro. Tal é um dos modos de producção e, não hesitamos em crêl-o, o _mais vulgarmente observado_ da loucura parcial ... Mas esta ordem na successão dos phenomenos morbidos, embora a _mais frequente_, não é constante. Acontece tambem _algumas vezes_ gue a perturbação começa por concepções erroneas, que succedem a uma idéa fixa na ausencia de qualquer allucinação. N'este caso ainda, faz-se ordinariamente uma propagação analoga á que indicamos ha pouco, mas em sentido inverso. Ao fim de certo tempo, as concepções delirantes transformam-se em sensações falsas, o delirio extende-se ás percepções; o doente torna-se allucinado, porque era já delirante, em vez de tornar-se, como ha pouco, delirante, porque era allucinado»[2].

[1] Foville, _Obr. cit._, pag. 341.

[2] Foville, _Obr. cit._, pag. 341.

Ora, ao passo que o megalomano-perseguido seria as mais das vezes, segundo Foville, um delirante-allucinado, o perseguido-megalomano, pelo contrario, seria sempre um allucinado-delirante.

Por muito singular que se nos affigure, este modo de vêr de Foville sobre a primitividade das allucinações na Paranoia persecutoria teve um exito só comparavel ao da sua theoria das origens reflexivas e raciocinadas do delirio ambicioso. Repetido em milhares de tiragens pelos alienistas francezes, este novo _cliché_ pathogenico perpetuou-se como o primeiro. Magnan, por exemplo, acceitava-o ainda em 1886 e dava-lhe curso nos trabalhos dos seus discipulos. Como Foville, o medico de Sant'Anna admittia que nos delirios systematisados a allucinação póde tanto ser um symptoma derivado da persistencia de conceitos falsos, como um phenomeno primitivo sobre que assenta e de que procede a ideação pathologica. O primeiro d'estes casos dar-se-hia nos _delirios d'emblèe_; o segundo no _Delirio Chronico_. Os degenerados, unicos capazes de fabricarem um delirio sem preparação, e de serem, portanto, megalomanos-perseguidos, entrariam no grupo dos delirantes-allucinados; os normaes, unicos a quem se consigna o Delirio Chronico e, portanto, perseguidos-megalomanos, seriam allucinados-delirantes.

Eis como, interpretando o pensamento do mestre sobre as relações da allucinação com as idéas morbidas nos _delirios d'emblèe_ e no _Delirio Chronico_, se exprimia Legrain: «O mecanismo segundo o qual se produzem as allucinações, varia nos dois casos. No Delirio Chronico ellas são essencialmente primitivas; todo o delirio é construido sobre ellas, e se ellas não existissem, o delirio, que lhes é consecutivo, não existiria. Nos degenerados delirantes, quando existem, as allucinações formam-se de um outro modo. São symptomas contingentes da doença, não a sua base immutavel, pois que numerosos delirios degenerativos evolucionam sem allucinações. Quando estas complicam a scena morbida, é o proprio delirio que as _provoca_, as mais das vezes, em virtude do seguinte mecanismo: Todos os centros cerebraes se encontram em estado completo de erethismo; o cerebro anterior elabora as idéas delirantes e evoca as imagens nos centros posteriores; as imagens assim evocadas véem representar-se nos centros anteriores com uma vivacidade tal que são interpretadas como outras tantas realidades. Assim, a allucinação encontra a sua causa directa n'uma série de idéas delirantes que a fazem nascer, e produz-se como um verdadeiro reflexo. O caminho centripeto parte dos centros anteriores, em que é elaborada a idéa delirante, ganha as regiões posteriores do cortex, em que a imagem é evocada, depois volta aos centros anteriores, trazendo a imagem, que vem misturar-se ao delirio e se impõe como realidade ... Muito outra é a allucinação no Delirio Chronico: nasce primitivamente, _sur place_, nas regiões posteriores do cortex, sem ser provocada. Uma lesão local, lentamente progressiva, a produz; ella é a expressão funccional de uma lesão anatomica. Partindo d'esse ponto, ganha as regiões anteriores, que surprehende realmente. O cerebro anterior, em plena posse do seu equilibrio, da sua ponderação, interpreta-a como um facto real e deduz d'ella conclusões logicas, que são as primeiras idéas delirantes. Vê-se então evolucionar um delirio absolutamente sistematisado, lançando uma perturbação na intelligencia intacta e ponderada, que reage com todas as suas energias. No degenerado, a adhesão no delirio é plena e inteira desde o começo; no delirante chronico ella não é senão lenta e progressiva, fazendo-se a systematisação pouco a pouco, mercê de persistentes allucinações»[1].

[1] Legrain, _Du délire chez les dégénérés_, pag. 141.

Se n'esta passagem de Legrain substituirmos as expressões de _cerebro anterior_ e _posterior_ pelas suas equivalentes antigas de _intelligencia_ e _sensibilidade especial_, reapparece-nos a citação precedente de Foville. Uma velha doutrina, pois, resurge sob roupagens novas.

Será necessario affirmar n'esta altura do nosso trabalho que a primitividade das allucinações nos delirios paranoicos é ainda uma ficção, que o exame despreoccupado dos factos annulla e apaga?