A Ortografia de Nossa Língua (pela simplificação ortográfica)

Part 3

Chapter 3330 wordsPublic domain (Wikisource)

     A filologia pré-científica, tomada em falso pelos lingüistas de então, levou-os às mais estúrdias aproximações etimológicas e às mais enganosas afirmações lingüísticas.

     A grafia deixou de ser fonética, para se complicar num sistema lastreado de valores mortos, de sincretismos abusivos - com predominância do pior - de sons multiplicemente representa dos, de desvios introduzidos pela ignorância, armada de presunção, legando-nos, a nós, o sistema usual ou misto, que possuímos: disparatado, ilógico, absurdo, afilológico, aglotológico, irracional, dificílimo. Suplício chinês dos aprendizes e desespero eterno dos eruditos.

     À influência francesa atribui Gonçalves Vianna os exageros de nosso alatinamento e helenização ortográficos.

     Se a Revolução Francesa houvesse democratizado também a grafia pedante que encontrou no país - acha o autor da Ortografia Nacional - nós os teriamos imitado e a simplificação, hoje, seria um fato simples, inconteste, como na Espanha e na Itália.

     A ortografia francesa, continua ele em outra parte, foi desfigurada pelos escritores do século XVI ao XVIII, e alterada consideravelmente pelo famoso Rabelais... num tempo em que a etimologia era um entretenimento de fantasia vã, no qual se inventou escrever sçavoir, pensando que viesse do latim scire (e não de sapére).

     É aquela etimologia de que zombou muito o Voltaire, quando dizia ser ela uma ciência em que as vogais de nada valiam e as consoantes valiam pouca coisa.

     Ou ainda, quando explicava, com pouca intuição e muito sarcasmo:

     "Os primeiros reis da China tiraram o nome dos reis do Egito, porquanto, no nome da família Yú podem achar-se os caracteres que, arranjados de outra maneira, formam a palavra Menés. É, portanto, incontestável que o imperador Yú recebeu o nome de Menés, rei do Egito; e que o imperador Ki é evidentemente Atoés, mudado o k em a e o i em toés...".

    

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