A Nuvem: Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo

Part 3

Chapter 32,320 wordsPublic domain

Que sou eu! Sim! Sou eu, senhor, Que na ancia de vingança e de rancôr, Me desfiz da creança que me deu. A mãe maldita, está aqui, sou eu, Que em cegueira da minha profissão Atirei com a nossa creação Ao sabôr dos instinctos d'esta vida. A mãe, que tem por nome Margarida, E por mister o vicio infamante, Sou eu! Esta que foi a sua amante, E de cuja união sahe oriundo Esse fructo que vê a luz do mundo. A mãe, sou eu, que na brutalidade Do meu sentir e tão baixa maldade, Apunhalou por fórma audaciosa O socego do lar, e o bem da esposa! A mãe senhor, sou eu, esta mulher, Que um pedaço de carne faz viver P'ra orgia, palpitando em sangue vil! A mãe sou eu, eu, uma d'essas mil Clientes de tão indigna alla mundana, E que, vivendo sob a fórma humana, Só renegam os dons da Natureza Por bem degeneradas em baixeza! A mãe sou eu, que tal nome invocando, Se affronta um predicado venerando. Alma não a tenho; odios ha alguns; Nada d'amor e meritos nenhuns. A mãe? a mãe, sou eu, eu, este horror!...

Henrique

_(Mal comprehendendo a situação)_

Margarida! Que diz?!...

Margarida

Digo, senhor, A primeira verdade em minha vida; Digo que essa criança foi nascida Das nossas relações, e existe aqui, Em virtude do mal com que eu agi. É minha filha! e sua o é tambem, Mas nunca, nunca em mim, teve ella mãe!

Henrique

_(Attonito)_

É minha filha?! Mas então... então... O que se fez da minha sã razão?!...

Arminda

_(Approximando-se do biombo e abrindo meia porta de fórma a ficar visivel o interior aos personagens)_

De ha muito anda perdida.

_(Apontando para a criança)_

E aqui tem Os espinhos da estrada d'onde vem!

Henrique

_(Approximando-se um pouco)_

Meu Deus! O que vejo?! Ella? A pequenita? Sim! é ella! Mas, como se acredita Tudo isto?!

Margarida

Pela fórma com que obrei Em face d'esta nossa infame grei.

Henrique

_(Encolerisado e avançando para Margarida)_

Porém, com que direito me levou A proclamar um crime que tramou?

Margarida

_(Humilde e avançando um pouco)_

Não sei! Olhe? não sei!... Bem vê, bem vê, Que nós obramos sem alma nem fé. Pois eu sei lá senhor! sim, eu sei lá O que fiz? Foi apenas o que dá Esta vil creatura! Foi sómente A pratica d'um acto inconsciente!...

Arminda

_(Interrompendo)_

E que, talvez, por essa inconsciencia, Um porvir se consiga da innocencia...

_(Apontando para o berço)_

Descança ella no leito que lhe dei, Embalada p'la dôr que alimentei. E nas minhas canções, mesmo chorando, A pouco e pouco irei sempre insuflando A redempção. Depois, quando mais tarde, Ao bom Deus eu imploro que m'a guarde E d'esta virgindade faça alguem, Já que o mesmo Deus d'ella me fez mãe.

_(Approximando-se do berço)_

Vejam? Sonha decerto na ventura Que o acaso lhe trouxe, e na candura Do berço onde dormita! Berço pobre De brocados, mas rico, rico e nobre Do bem! Sonha decerto na esperança Com que se entrega á minha confiança: Sonha, quem sabe? na libertação Da cadeia que traz humilhação!...

Margarida

_(Avançando e exclamando)_

Minha filha! Meu Deus! Grande verdade! É a isto que se chama honestidade?

Arminda

_(Continuando, emquanto Henrique fita a creança succumbida)_

Vejam?! E era, era então este senhor, O grande, o grande espelho reflector Do meu crime?!

_(Vendo que Henrique emudece)_

Ande? Diga? accuse e insulte, Para que todo o mundo veja e ausculte A farça attribuida! Vamos, falle? Porque emudece?

_(Apontando para a creança)_

Tem aqui o mal, E é ante elle que deve demonstrar O cynismo, a baixeza d'este lar, E tudo o mais que omitto, occulto e callo!

Henrique

_(Timido e a custo)_

Fallar? Eu... eu... senhora?

_(Com pausa)_

Sim, eu fallo... Eu vou fallar, consente?...

Arminda

_(Altiva)_

Porque não?!

Henrique

_(Curvando-se humilde)_

Pois fallarei! _(pausa)_ Perdão!

Margarida

_(Cahindo de novo aos pés de Arminda)_

Perdão! Perdão!

Arminda

Mas, em nome de quê?... sim?... e porquê?!

Henrique

Do remorso que assiste, e se antevê!

Margarida

P'la crença, de que abjuro e reneguei P'ra sempre o caminho em que me abysmei.

Arminda

_(Levantando os olhos para o ceu)_

Senhor! Senhor! p'ra os pomos da discordia, Venha a vossa infinita miser'cordia!

CAHE O PANO

Fim do segundo acto

EPILOGO

A mesma scena do prologo. Margarida, ao subir o panno, encontra-se sentada junto d'uma pequena meza, com a cabeça apoiada nas mãos e completamente succumbida.

SCENA PRIMEIRA

Margarida _(só)_

Eu a chorar! e lagrimas ardentes Deslisando nas faces reviventes De vergonha! Deus na alma! e ao coração Amor! Ao meu espir'to a reflexão! Na consciencia a revolta e o remorso Em que já me debato e me contorso!

O que é? que póde ser? A reacção Convulsionando o corpo, e a razão Subjugando-me, por demais vencida! O que é? _(Pausa)_ É a verdade, Margarida!

Verdade?! E quem responde? Quem me falla? É Deus! Mas Deus compara, Deus eguala Esta mulher aos dons da Natureza? Sim. Porque se nasceu para a baixeza, Redime-se p'ra o bem! Ah! mas eu minto E pequei, pois agora mesmo eu sinto Que para o mal o mundo me não doou. Nem Deus para a baixeza me creou! Deus, amando, só cria para amar, E eu amei... oh! amei, mas a sonhar, Apenas a sonhar, sim, porque alguem Sepultou do meu sonho todo o bem! Eu nasci para amar, e amei; amei Quanto pude ante a bôa e pura lei Do amor, mas, mas depois, quem tanto amava, Disse-me um dia que isso não passava De um mytho, e foi-se andando na procura D'aquillo que á pobreza salva a agrura; Foi-se andando na busca de riqueza, Porque eu era pobre, e isso se despreza! E é então, é então que o meu amor Se arrebata nas garras do impudor; É então, que me afundo nas camadas Que alimentam as tristes depravadas! Sim! Eu amei! E amei tanto, amei tanto, Que por causa de amor tão puro e santo. Busquei embriagar-me n'esta orgia, Para que o grande Deus a ninguem cria!

_(Pausa)_

Eu a chorar!... e lagrimas ardentes Deslisando nas faces reviventes De vergonha! Porque? E que fiz eu? Fiz tudo e nada! Fiz crime e labeu; Tudo, tudo p'lo mal d'uma existencia, E nada, nada pela inconsciencia. E porque alguem, alguem me aniquilou, Fiz tudo, e nada. Fiz... fiz o que sou!

_(Pausa)_

Eu a chorar! e lagrimas ardentes, Velando os olhos bem reminiscentes Do que vi!...

E que vi eu?... A mulher, A mulher como ella é e deve ser. Vi-a altiva e com toda a magestade Destruindo o insulto á sombra da verdade! Vi-a repudiando com nobreza Os feitos da maldade e da torpeza! Vi-a... vi-a tomando nos seus braços O fructo que proveio de devassos! Vi-a, evocando graças divinaes N'uma orchestra de sons tão maternaes P'rá criança que a minha embriaguez Ousou depositar, lançar-lhe aos pés! E como tudo ainda fosse pouco, Em paga d'um agir mau, vil e louco, Eu vi-a, meu Deus! eu vi-a, meu Deus! Pedir que me enviasses lá dos céus O perdão!

Mas que fiz eu?!... Tudo... e nada... Fiz... o que faz mulher desnaturada!

_(Tomba a cabeça sobre as mãos em posição dolorosa)_

SCENA SEGUNDA

MARGARIDA E FERNANDO

Fernando

_(Entrando pelo fundo)_

Ora até que emfim, linda Margarida!? Por onde tem andado tão perdida?

Margarida

_(Interrompendo n'um estremecimento subito de surpresa e quasi de indignação)_

Ah!...

Fernando

_(Avançando e continuando)_

Por onde se tem tornado preza E errante a sua graça e gentileza?!

Margarida

_(Dissimulando a tristeza)_

Em parte alguma, creia...

Fernando

Não parece... E olhe que o promettido não se esquece. Mas que tem? Que tem? Vejo que chorou?!

Margarida

Chorar? Eu?! Eu?!

_(Á parte, limpando os olhos)_

Oh! sim! não se enganou! _(alto)_ Chorar? Eu?! Não!

Fernando

Mas, seus olhos vermelhos, São de tal flagrantissimos espelhos!

Margarida

_(Dissimulando)_

Nada isso diz, embora lhe pareça; Effeitos só de dôres de cabeça Que ha dias me apoquentam...

Fernando

E que, espero, Melhorem ante o meu voto sincero, E não impeçam minha estada aqui, Já que de novo me honra, e me sorri O convite, tornando-se occupado O logar que me disse ter vagado.

Margarida

_(N'um rapido estremecimento)_

O que?! Fui eu que o disse?! Eu é que o disse?!

Fernando

_(Com estranheza)_

Duvída? Mas que grande exquisitice Representa essa duvida!...

Margarida

Porque?!...

Fernando

_(Tirando do bolso um cartão)_

Em face do bilhete onde se lê O seu pedido, e ainda mesmo, quando Claramente dizendo e bem frizando

_(Approximando-se de uma porta latteral)_

Certas palavras, junto d'esta porta; A não ser que, que seja letra morta O que me affirmou!

Margarida

_(Com repulsão)_

Não! Não me recorda?!

Fernando

Veremos, n'esse caso, se, se aborda A phrase muito nitida ao ouvido, Para que ella jámais tenha esquecido.

Foi aqui, veja, foi n'este logar Que, apontando-me altiva e sem pezar,

_(Olhando para o interior d'um quarto)_

Certa vaga que ali dentro existia, Perguntou o que lá se achava e via.

Respondi... o que ainda vejo: Um leito.

_(Malicioso)_

E por signal que estava bem desfeito, Em contraste com toda a compostura Que ora se nota. Então, é n'esta altura Que assim exclama: «Está ao seu dispôr».

Margarida

Lembra-me com effeito! _(Á parte)_

Mas que horror!

_(Alto e approximando-se de Fernando)_

É verdade! E a verdade diz, Fernando! Mas foi um dito mau, dito execrando! Dito que não devia proclamar

_(Com desespero)_

E que fez mal, só mal, em m'o lembrar.

Fernando

_(Surprehendido)_

Porém, nada percebo, e muito menos Com taes palavras, cujo modo e acenos São expostos em termo áspero e rude.

Margarida

_(Apontando o leito)_

Aquella vaga, occupa-a hoje a _Virtude_.

Fernando

_(Estupefacto)_

Como assim?! Isso é dito com ironia?!...

Margarida

Fallo com consciencia e ufania De a possuir!

Fernando

Verdade?! Isso é verdade?!...

Margarida

Digo-lh'o com a mor sinceridade. O leito que em orgias se desfez, Hoje... sómente cobre a honradez!

Fernando

_(Approximando-se da meza, sentando-se e com ironia)_

Bravo!... Sim senhor! Muito bem! Comtudo, Espero que me explique por miudo O que em vida de gran desfaçatez Se entende por virtude ou honradez.

Margarida

_(Approximando-se tambem da meza e sentando-se)_

Será um sacrifício, mas, emfim, Cumprirei seu desejo.

Fernando

_(Rindo)_

E quanto a mim, Agradeço a irrisoria explicação, Que ouvirei com a maxima attenção.

Vamos. Comece. O que é honra e virtude?...

Margarida

_(Com amargura)_

Sabel-o no passado, eu nunca pude, Mas no presente, d'ella tenho a fé! Virtude e honra, meu caro, eu lhe digo... É...

_(Com certo desprezo)_

É... o que o senhor nunca comprehendeu!...

Fernando

_(Cada vez mais surprehendido)_

Que nunca comprehendi? Que disse?! Eu?! Eu?!

Margarida

Sim, meu caro senhor! Que nunca, nunca Comprehendeu; pois quem lança p'ra espelunca Do vicio a mulher que disse amar, A virtude não sabe interpretar.

Fernando

Allude então...

Margarida

_(Atalhando)_

Á minha triste historia Muito bem reflectida na memoria!

Fernando

Mas isso... já lá vae ha tanto, ha tanto...

Margarida

Ah! Lembra-se? Pois bem! E embora o pranto Volte a offuscar-me as faces de vergonha, Rememoro o que em epocha risonha D'uma vida serviu para o transporte Da reles existencia e fraca sorte.

Creança, inda bem nova, inexp'riente, Senti n'alma o que sente toda a gente. Despertando p'ra quadra d'um amor: E a pouco extasiada n'esse alvôr, Deixei que me prendessem sympathias Que vibravam n'um canto de harmonia: Tudo então me sorria e tudo amava! A graciosa manhã que despontava No melodico trio de avesinhas, O sol que vivifica as floresinhas, O declinar da tarde, as noites bellas, Da lua o brilho, a graça das estrellas, O conchego, a familia, o trabalho, A paz, tranquilidade e o agasalho, A invocação, a biblia e a reza; Eu amava, emfim, toda a natureza, Pelo proprio amor da juventude, A vibrar como cordas de alaúde N'um peito que se alava para o bem! Mas de subito, meu Deus! esse alguem Que me elevara aos paramos do amor; Quem me ajudara a crel-o no primôr Da verdade, e guiava o norte meu, Que devia subir até ao ceu... Corta, derruba, as azas d'este alar, E obriga-me a cahir, faz-me tombar No grande turbilhão da tempestade, Na hecatombe e na mór fatalidade! E tudo, tudo então quanto eu amava, Breve se convertia e se trocava Pela renegação, pela baixeza, Deixando já d'amar a Natureza, Para me filiar em quê? Em quê? Nas hostes dos que nunca teem fé!

E tombei! E cahi! _(chorando)._ Sim, sim, tombei! Á custa de quê? Deus meu! Nem eu sei?!

_(A Fernando)_

Sei! Sei, senhor! Á custa do abandono Que me precipitou n'aquelle somno, Cuja lethargia obra o desvario N'um corpo molestado e doentio, Em proveito de todo o esquecimento Do que de bem havia em sentimento!

Pois se eu amava tanto, e d'esse amor Em si depositei e puz, senhor, A esperança ditosa de meus dias, Sem que se me opposessem phantasias; Se tudo lhe entreguei: alma, honra e vida, Para que tornar tão desvanecida A fraqueza da minha confiança?...

Fernando

_(Pretendendo desculpar-se)_

Porque eu... porque eu tambem era creança...

_(Levanta-se)_

Margarida

Não! Não! Diga que foi a sêde e fome De usufruir, e após, pensar que o nome Humilhava, e jámais lhe serviria P'ra linda sugestão que me incutia; Diga: foi o que muita gente faz, Captivando, prendendo em fórma audaz O debil ser, a fragil creatura, Que ora subjugada ante a noite escura Do vosso infame e vil, e vil narcotico, Obedece depois ao espasmodico Furôr de saciar as intenções Com que se roubam fracos corações. Não é isto?

Fernando

_(Perturbado)_

Mas...

Margarida

_(Levantando-se)_

Mas... senhor Fernando Queira explicar-me agora quando, quando Foi por si concebida a qualidade Virtuosa, por entre a sociedade?!

Fernando

_(Succumbido)_

Actualmente á face da razão... Que decerto ditou a reacção Do mal, d'esse mal que m'inclue nos réus Do mundo!

_(Pausa e estendendo a mão a Margarida)_

Margarida... adeus!...

Margarida

_(Apertando a mão de Fernando)_

Adeus...

_(Fernando sae)_

SCENA FINAL

Margarida

_(Só, depois d'um momento de silencio e de olhar toda a sala)_

E nada, nada mais d'esse passado Que abomino!

_(Levantando os olhos para o ceu)_

Deus! Meu Deus! Obrigado!

CAHE O PANNO

Fim da peça