A Nuvem: Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo
Part 2
Mas, coitada! eis ahi todo o seu mal!... A pobresita já dias após Não escutava nem ouvia a voz Da admiração! E ha pouco despresada, Sem carinhos, de todo abandonada, Curva-se, tomba, murcha, cahe e acaba! Nem sequer o perfume que exhalava Vem recordar a sua contextura! Morreu e foi-se, foi-se a formosura!...
_(Com desalento)_
Assim é a mulher que s'enaltece: Tambem se apaga, cahe e desfallece...
_(Ouvem-se n'esta altura uns vagidos de criança)_
Henrique
Por Deus, senhora! attenda... queira ouvir A voz de quem pretende redimir Os erros de uma vida attribulada...
_(Redobram os vagidos da criança)_
Arminda
_(Procurando affastar-se)_
Não posso! Veja que outra vida brada Pela minha presença, e bem m'incute Um dever! Veja! attenda? escute, escute Os vagidos d'aquelle innocentinho Pedindo o meu conforto e meu carinho!
Henrique
_(Attonito e escutando)_
Os vagidos!? Os choros de criança?!...
_(Confuso)_
Mas, minha senhora!
Arminda
_(Interrompendo)_
É uma herança, Que chama os meus cuidados!
Henrique
_(Inquieto)_
Mas perdão! Apenas um minuto d'attenção!
_(Em confusão d'ideias)_
Aquelle choro!... tão infantil!... Traduz-me a existencia de um ardil!... Espere: Espere?
_(Avançando)_
Arminda
Diga, mas depressa, Pois que aquelle lamento jámais cessa Sem ternuras de mãe!
Henrique
_(Atalhando)_
Senhora!
Arminda
_(Cruzando os braços)_
Que ha?!...
Henrique
_(Aparentando soffrimento)_
O martyrio em minha alma! Mas... ná... ná... Não pode ser! Não pode! Diga?! Diga?! A que data, a que data, sim, se liga O nascimento d'esse seu vivente?
Arminda
_(Impassivel)_
Tem seis mezes approximadammte!...
Henrique
_(Muito surprehendido)_
An!? Seis mezes?! Senhora! o que me diz?!
Arminda
A verdade! Foi Deus que assim o quiz!...
Henrique
_(Dolorosamente invocando a memoria)_
Deus?! Foi Deus!? Contudo... essa referencia Não condiz com a minha grande ausencia Desta casa! Senhora! Por quem e? Veja o que em meu semblante já se lê, Sabendo-se que ha mais, ha mais d'um anno Me ausentei... E esse filho... é...
Arminda
_(Interrompendo)_
É profano!...
Henrique
_(Avançando de punhos cerrados e exclamando)_
Ah!...
Arminda
_(Imperiosa)_
Suspenda! suspenda, desgraçado! Que não tremo ante o facto consumado! Suspenda, porque não me atemorisa A ira de quem adopta por divisa A infamia! Pare, pare, não avance, Que não vacilarei em frente ao lance Despotico de tão vil caminheiro Do mal! Sim! pare, pare, cavalheiro, Suspenda, porque não tremo perante Affirmar... que esse filho...
Henrique
_(Interrompendo)_
É?...
Arminda
_(Altiva)_
D'um amante!...
Henrique
_(Interrogando)_
E a mãe!...
Arminda
É a mulher que deshonrou O nome d'um marido, que aviltou A dignidade dum sêr conjugal, E se lançou para esse lodaçal Da miseria humana! É a mulher Que na loucura d'orgico praser Se lançou ao enxurro da corrente, Vestal indecorosa e deprimente!...
Henrique
_(Interrompendo, e convencido de ser victima de cilada)_
É a mulher, que, sem honra e vergonha, Buscou a aviltantissima peçonha Da desforra cruel, não é verdade? A mulher que, perdendo a dignidade, Em troco de torpissima vingança, A mostra, com a prova da creança Existente no lar, que de novo ora Procuro. Que se não vexa, nem cora, Com a pratica d'um crime aviltante; A mulher que na sêde devorante De debitar affrontas, só reclama A moeda emprestada, e a si chama O direito d'um plano indecoroso, Pagando-se com acto vergonhoso; Atirando-me ao rosto grave insulto, E corrompendo todo, todo o culto Que deve ter-se pela honestidade! A mulher que despresa a probidade, E que na hora da minha reflexão, Aponta esse signal de corupção, Como atroz vilipendio e atroz injuria! É a mulher ardendo em odio e furia Vingativa, sem alma, sem nobresa, Sem outro qualquer dom de que se presa A sociedade, pois não é assim? É a mulher que jura contra mim A guerra, de, a façanha, outra façanha, E que em descaramento me arreganha Os dentes da villesa e da traição! A mulher que transforma o coração Em veneno odioso e repelente, Para em dado momento, e ardilmente, O injectar em minha alma, proclamando Um feito immoralissimo e execrando! A mulher que s'isenta do civismo E logo se mascara do cynismo Que ultraja, sem que ao menos se recorde Que a raiva que inocula, quando morde, Encerra sempre o virus e o microbio Para sua deshonra e seu oprobio! É a mulher, emfim, que, sem virtude, A taes proezas tão vilmente allude! A mulher, que tal nome não merece, Quando só se desprende e só se esquece Do fim para que fôra concebida! É a mulher, em suma, confundida Na escoria da miseria, que profana, Que atraiçôa, e que tudo, tudo engana!...
Arminda
_(Interrompendo)_
Ora nem mais, diz bem! É essa mesma: É essa tal, o monstro, essa abantesma Que descreve, acredite? É essa, é essa Misera que se expõe e que confessa...
Henrique
_(Interrompendo)_
O proceder infame d'uma esposa!
Arminda
_(Interrompendo indignada)_
É lá! Suspenda a phrase rancorosa, E não se atreva, não se atreva a tanto! Falla-se da mulher, saiba; porquanto, A esposa, está aqui, embora diga Que deixou de o ser, para quem se abriga No mal.
Henrique
_(Furioso)_
E a senhora? Onde se abrigou?
Arminda
_(Correndo para junto do berço onde se encontra a criança, cahindo de bruços sobre ella, chorando, emquanto Henrique lhe vae seguindo todos os movimentos.)_
N'esta vida que Deus me destinou!
Henrique
_(Crusando os braços)_
Mentira! e hypocrisia! Diga-me antes Que se abriga ao producto d'uns amantes! Que se abraça á tristissima irrisão Da mais adulterina concepção! Diga antes, que se acolhe na sentença Que me fôra ditada; e que em presença D'esse escarneo, se prova a hediondez D'um crime, que a vingança traz e fêz! Diga-me, antes, senhora, que aconchega O fructo que a immoral lhe deu e lega Como espelho constante de traição, Como sobrio reflexo da illusão Em que cahi!...
Arminda
_(Levantando-se e enchendo-se de coragem)_
Pois seja! Assim o diga!... Esta creança...
Henrique
_(Interrompendo)_
O insulto!...
Arminda
_(Interrompendo)_
É o castigo!
Henrique
_(Recuando e disposto a sahir)_
Passe Vossa Excellencia muito bem Minha Senhora!!
_(Apontando para a porta)_
Aquella porta, tem O condão de se abrir ante a passagem D'este tão illudido personagem; E se aqui vim, buscando honestidade, Convicto saio e vou, da falsidade Com que ella se proclama e annuncia! Tudo, emfim, é a mesma hypocrisia, Variando sómente em sociedade; Porquanto; se lá fora a indignidade Se expõe, aqui se occulta no cynismo Que rodeia o ambiente! Pasmo e abysmo, Senhora, do que vejo! Abysmo e pasmo Ante o revoltantissimo sarcasmo Que preside á mudança d'este lar No mais indecoroso lupanar!
Arminda
_(Revoltadissima)_
E eu então, pasmo e abysmo, meu senhor, Do biltre que, sem honra e pondonor, Se arroja a censurar, altivamente, A esposa que despreza infamemente!
_(Altiva, apontando-lhe a porta)_
Saia! Que jámais tem auctoridade Para insultar, quem só na indignidade Vagueia e lá procura o seu viver!
Henrique
_(Altivo)_
Mas eu sou homem!
Arminda
_(Avançando um pouco para o fundo, emquanto Henrique vae recuando para sahir)_
E eu... eu sou mulher!
_(Indica-lhe a porta)_
Fim do primeiro acto
ACTO II
A mesma salla do acto anterior e com a mesma disposição. Dentro do biombo que continua a encobrir a vista dos personagens de scena, encontra-se ainda dormindo a criança. Ao subir o panno, entram pelo fundo Henrique e Margarida.
SCENA PRIMEIRA
HENRIQUE E MARGARIDA
Henrique
Ora aqui tem os novos aposentos Que servirão de galla aos meus intentos. Repare? Veja o luxo d'esta salla, Que a nada, mesmo a nada mais se eguala. Hein! Hein! Que lhe parece?!
Margarida
_(Admirada)_
Realmente, É soberbo! ideal! Mas, francamente, Acho bello de mais: bello de mais P'ra quem se entrega a gosos tão vestaes!...
Henrique
Engano, Margarida, puro engano; Tudo isto é impostura e só profano! Apenas a mudança de scenario, Com quanto lhe pareça um relicario O que está vendo, creia. Tão sómente D'aspecto a mutação, mas apparente E falso, no que indica, pois de facto, Quanto vê, é traidor e bem ingrato; Senão vejâmos: Ha n'este conjuncto O mais completo, o mais perfeito assumpto, Para que se analyse e fundamente Toda, toda a ironia d'este ambiente; E descrever, eu vou, essa ironia, Sem lhe oppôr a mais leve phantasia. Queira ouvir:
Margarida
Ouvirei...
Henrique
Repare então: O que se nota n'esta perfeição, Unicamente serve p'ra esconder A cynica existencia da mulher!
Margarida
_(Interrompendo)_
Minha rival? Talvez!?
Henrique
Nem mais, diz bem! Sua rival, que arrojo mostra e tem Para se apresentar envaidecida No luxo de que a salla é guarnecida. Conhece-a?...
Margarida
Talvez não... eu nunca a vi...
Henrique
Pois para isso a conduzo eu hoje aqui: Mas antes, extasie-se no espavento D'estas decorações, cujo elemento Só pretende encobrir o que lá fóra Se chama a todo o instante e a toda a hora Miseria, corrupção e tudo o mais Que tanto affronta e insulta bons mortaes! Admire-se perante as bambinellas Que, pendentes das portas e janellas, Servem para vedar todo este centro A bachanaes, passadas aqui dentro! Reveja-se em vestaes tapeçarias Soffucando o ruido das orgias; Nos estofos que abafam enthusiasmos, Os gritos de volupia, os espasmos D'uma lubricidade illimitada...
Margarida
_(Interrompendo)_
Mas diga? Não será exagerada A affirmativa?
Henrique
Como assim? Duvida?
Margarida
_(Admirada)_
É que, em verdade, nunca em minha vida Soube como se possa conjugar Toda a revolução do lupanar Com esta ordem e acceio que estou vendo; E com effeito, Henrique, não entendo, Não percebo a harmonia que se avista, Sómente discordante e antagonista Ao meio onde se espalha a corrupção.
Henrique
É o que lhe parece...
Margarida
Qual? Não; não Posso acreditar, não, no que me diz, Pois que a nossa existencia jámais quiz Acceitar os cuidados d'este apuro.
Henrique
_(Interrompendo)_
E comtudo, affirmo, é um lar prejuro...
Margarida
_(Em duvida)_
Será, mas... mas para isso não se admitte A apparencia do arranjo, que transmitte Não sei que, de completa opposição Á anarchia da nossa profissão; E eu sinto que d'instante para instante O esp'rito se consulta, inquietante, Na atmosphera que aqui dentro respiro... Diga? Diga? Onde estou eu?!...
Henrique
N'um retiro Cuja devassidão bem se proclama, Repito, muito embora tenha a fama D'honesto, muito embora elle se incense D'um perfume que nunca lhe pertence. Duvida ainda?
Margarida
Sim! eu... eu duvido! Porque não póde ter aqui vivido A mulher que appelida de devassa; E affirmarei, senhor, que a nossa raça Foge a toda e qualquer preoccupação, Que não seja gosar devassidão!
_(Olhando para tudo)_
Tudo isto que a meus olhos se depara, É coisa que se torna muito rara A nossos olhos! Coisa vaga, inutil, Sem valôr, pueril, impropria, futil, Para quem como nós, p'ra quem como eu, Se ceva nos instinctos que me deu A sorte, e se refaz insaciada Na sêde d'uma vida depravada!
Henrique
_(Approximando-se de uma chaise-longue, e fazendo signal a Margarida para se sentar)_
Está bem Margarida, venha cá; Sentemo-nos, que mui não tardará Que momento opportuno e bom ensejo Apresente mil provas de sobejo, Destrahindo, negando e desmentindo Tão errada impressão que está sentindo.
Margarida
_(Sentando-se)_
Impressão tal, senhor, que, na verdade, Se apossa de mim com necessidade De profundar o fim deste recanto, Receosa de crêr que seja o manto Da deshonra que o cobre. Pois! Pois quê! Aonde e em que parte é que ella se vê Vegetando assim? Diga-me: em que parte Ella pode adorar a belleza e arte Do conjuncto tão bem disposto aqui? Não, Henrique! A deshonra folga e ri No turbilhão d'immenso desalinho, Não lhe sobrando tempo p'ra o carinho E trato da vivenda que se habita; A deshonra sómente tem escripta Na mansarda a legivel taboleta Que annuncia onde pára, onde vegeta. E as nossas mãos, que apenas tem o dom De sentir, do dinheiro, o timbre e o som, Não sabem como tudo isto se faz Dentro da ordem e d'esta santa paz. As nossas mãos têm o unico mister De procurar os gosos e o prazer Do ouro, que só se emprega na razão Do luxo, necessario á attracção Da vista indagadora das orgias, E indispensavel para a concorrencia Da prostituidora residencia!... As nossas mãos sómente se utilisam Nos postiços que tanto symbolisam O antro por onde sempre rezidi, E já n'elle então, uma vez ali, Quando na ausencia, quando no despojo Das seducções, só tudo logo é nojo No labyrintho d'horas viciosas, Na balburdia de noites amorosas! Uma vez ali, tudo vem dizer Do estado social d'uma mulher!
E quer, senhor, fazer-me convencer, Que possa n'esta casa só viver Alguem que a minha classe represente?
Henrique
Quero sim; quero, e muito facilmente...
Margarida
Porém, como? No luxo do aposento Não, porque n'elle ha todo o sentimento Que eu ignoro. Na graça e harmonia Muito menos, por quanto a apostasia De virtudes se não traduz assim, E nem ella se adquire com tal fim!
Henrique
Porque o sabe?
Margarida
No exemplo d'esta vida, Que uma outra aniquilou e fez perdida! Nas provas da existencia que atravesso, Demonstrando que tudo isto é avesso Á desorganisada habitação De quem só s'expõe á prostituição!
_(Levantando-se e puxando Henrique pelo braço)_
Ouça: se, como diz e me affiança, Estamos sob um tecto d'aliança Deshonesta; se, como bem proclama A devassidão n'este lar se inflama Por impudica e má camaradagem...
_(Apontando para um Christo que está na parede e para a imagem da Virgem, n'um quadro)_
Que faz, senhor, além, aquella imagem? E inda est'outra aqui? tanto a destoar Do cortejo que envolve o lupanar?
Henrique
São os taes attributos da mentira, Ante os quaes se revê e mui se admira!
Margarida
Mentira?! Mas onde, onde apparece ella? E como e de que fórma se revella, Se, por muito que faça, inda a não vi...
SCENA SEGUNDA
OS MESMOS E ARMINDA
Arminda
_(Entrando pela porta lateral á D. e exclamando dolorosamente surprehendida)_
Ah!...
Henrique
_(Reparando em Arminda e dirigindo-se a Margarida)_
Quer ver a mentira? Olhe... Eil-a ahi!
Arminda
_(Altivamente)_
Mas que significa este atrevimento?!
Henrique
Coisa de mero e simples argumento, Não se assuste!
_(Pegando n'uma das mãos de Margarida)_
Apresento a minha amante...
Margarida
_(Timida)_
Senhor! a que se atreve!?...
Arminda
_(Cruzando os braços)_
Que farçante!
Henrique
Serei; no entanto, como as bôas farças Reclamam a presença de comparsas, Queira representar o seu papel, Indicando com essa alma de fel A peçonha do mal que tanto encobre Nas apparencias d'uma casa nobre!... Vamos? Queira sahir d'esse mutismo Que estampa hypocrisia e diz cynismo! Queira tirar a mascara traidora E mostrar ante mim e esta senhora Como a deshonra n'este lar se fez E abunda por aqui aos pontapés!...
Arminda
_(Com repugnancia)_
E porque não, indigno cavalheiro! Porque não hei-de, em modo sobranceiro, Indicar-lhe o que pede no momento? Porque não hei-de dar conhecimento Ao que exige em palavras que só são Proferidas p'la bocca d'um villão! Porque não hei-de com toda a altivez, Mostrar como anda o mal a pontapés?!
_(Apontando para Margarida)_
Mire-se no instrumento de façanhas E d'outras mil proezas que são ganhas Na desgraça. O mal, paira por alli, E tambem d'egual fórma o veja em si, Como estigma do mais reles exemplo Da profanação d'um culto e d'um templo!
Margarida
_(Interrompendo e dirigindo-se impaciente a Henrique)_
Por Deus, senhor! Indique-me onde estou?!
Henrique
Na casa de quem só rivalisou Com a miseria a outros imputada E que, insultando mesmo, toda irada, A presença das nossas entidades, O faz, creia, nas mesmas igualdades Do direito com que eu deva insultar, Da causa, que m'instiga p'ra accusar; E, se insultos se pagam com insultos, Veremos então quem profana os cultos Do bom caminho; quem mancha e arruina O que a moralidade nos ensina! Veremos então quem mais enodeia, E quem com crime e farça mais hombreia!
Arminda
_(Indignadissima)_
É o homem que, sem brio e pundonor, Assim falla! É o biltre, cujo horror Repugna a toda, a toda a consciencia, E talvez até á d'essa existencia Que ora aqui trouxe para mais vexame Meu! É o homem preverso, mau, infame, Ultrajando o que só é digno e honesto!
Henrique
_(Interrompendo)_
Mas que ao mais pequenino e simples gesto Irá destruir essa honestidade Apregoada com tanta falsidade!
Margarida
_(Antepondo-se)_
E é já tempo, senhor, para o fazer, Visto que me pretende convencer Do que vem affirmando.
Arminda
Ouça, senhora: Creio bem que, ante força vingadora, Me encontro n'esta salla; e é bem certo Que, seja p'lo que for, eu já desperto Mais ou menos da minha inconsciencia, Para crêr que pratico irreverencia Encontrando-me n'estes aposentos. E eu então, que não tenho sentimentos Senão os que a desdita me deixou, Sinto que dentro em mim ora soou Alguma coisa sã, e não sei quê D'extranho, a confirmar a crença e fé Que ha pouco me assistia, suspeitando De que, por aqui, não anda pairando O mal...
Henrique
_(Atalhando)_
Mas... como assim?! Se tal suspeita, Vae muito brevemente ser desfeita Ante o espelho fiel, e reflectir...
Arminda
_(Interrompendo)_
Do grande soffrimento e minha dôr! Mas como Deus em tudo dá coragem, Eu propria mostrarei toda a miragem Do espelho que pretende descobrir.
_(Com altivez)_
Mas veja bem, que só vae reflectir A verdade, e ella, saiba, que aniquilla Os infames, tornando mui tranquilla A consciencia accusada! E a verdade, Chamando os villões á realidade, Vae prostra-los na immensa confusão De crimes, sem desculpa, nem perdão! A verdade, esse grande dom do mundo, No peito dos malvados crava a fundo O punhal do castigo merecido! E ai de si, miseravel! se vencido Ficar na falsa lucta que travou! Ai de si, se, p'ra mim, Deus evocou A redempção, á face do mysterio Que lhe auctorisa tão cynico imperio D'insidiar, lançando-me labeus Que apenas tanto o attingem e são seus!
_(Com arrogancia)_
Pois bem! Perante mim, e n'este instante, Se defrontam marido e sua amante!
Margarida
_(Surprehendida)_
Senhora!? Que dizeis?! É seu marido Este homem que comigo tem vivido E que, não sei porquê, aqui me trouxe?!...
Arminda
É! Mas melhor seria que o não fosse! Vamos : Perante mim e n'este instante, Se defrontam marido e sua amante. Procurando em vilissima baixeza O mal que tão sómente a elles lhe peza! E se era meu dever escorraçar Quem se arroja e atreve a enxovalhar Com descáro, a virtude d'esta casa, Só muito antes a minha alma se empraza A repudiar bem altivamente Os instinctos de tão ignobil gente, Ordenando que fiquem, por minutos, Na expiação de feitos e seus fructos.
Henrique
_(Interrompendo)_
Mas essa altivez, é demais, senhora, Para quem se transforma em peccadora! Essa altivez repugna por excesso, Na mulher que adoptou egual processo D'ilegitimidade em relações?!...
Arminda
_(Com desprezo)_
Basta! Basta d'infames allusões!
Margarida
_(Antepondo-se)_
Sim! Sim! Basta senhor! Não diga mais, Porque as suas palavras são fataes, Fataes p'ra o nosso crime, e redemptoras Para quem se dirigem, salvadoras P'ra quem lançadas vão! Basta, senhor,
_(Apontando para Arminda)_
Em nome da verdade occulta em dôr!
Arminda
_(Surprehendida)_
Mas... o que falla ahi, n'essa existencia!
Margarida
_(Com pezar)_
Qualquer coisa da minha consciencia!
_(Ouvem-se uns gemidos de criança)._
Henrique
_(Perturbado e levando as mãos á cabeça)_
E agora falla a vós d'alta vingança Nos gemidos que solta essa criança!...
Margarida
_(Subitamente e apontando para o biombo)_
Senhora! Quem... quem é que chora além?!...
Arminda
É um pedaço d'alma que vil mãe Despresou!
Margarida
_(Cahindo de joelhos)_
Ah! Meu Deus! perdão! perdão!... Porque falla agora este coração!...
Henrique
_(Admirado perante a posição de Margarida)_
Surprehende-me esse humilde movimento?!...
Arminda
Falla o remorso em forte sentimento!
Margarida
_(Levantando-se e dirigindo-se a Henrique)_
Bem dizia eu, senhor! bem dizia eu, Duvidando de que isto fosse reu Do cynismo que tanto apregoava!...
Henrique
_(Surprezo)_
Como assim?! Se inda ha pouco ahi chorava O producto do crime e da traição?!
Margarida
Era a voz da verdade e da razão, Illuminando as trevas da mentira!
Arminda
_(Interrompendo)_
É a prova do mal que tanto aspira. Para me confundir n'essa torpeza Que inventou, e que sempre se despreza Com orgulho e altivez, porque, orgulhosa, Bem se torna a mulher crente, e ciosa Dos seus deveres, mesmo, mesmo quando Isolada p'lo pessimo desmando Do marido, mesmo inda que atirada Para o jus da vingança provocada. Orgulhosa se torna esta mulher Que, no direito d'um mau proceder, Em desforço do seu procedimento, Só antes se acoberta ao sentimento Que a sã moralidade nos indica, E ao bem que tudo, tudo dignifica!
E é então o senhor, que, sem nobreza D'aquilo onde se lê, estuda e reza A melhor oração da nossa vida, Vem hoje, perante esta alma esquecida, Interrogar na mais dura exigencia Quaes as razões porque tenra existencia Se acalenta no leito de innocentes, Com meus affagos ternos e dolentes!
E é então o senhor, é o senhor, Que, aggravando inda mais a minha dôr, Vem hoje aqui no intuito de saber Porque se encontra ao lado da mulher Desposada, a criança que acalenta? E sabe porque? Sabe porque dentro D'este lar se aconchega esse vivente? Porque, sem duvida, é seu descendente!
Henrique
_(Surprehendido de subito)_
Meu filho?!... Que irrisoria affirmativa Para suas desculpas e evasiva! Meu filho, an? Com que então, meu filho? E esta?! Só se a este lar se dá, faculta e presta O mysierio da tal santa doutrina! Talvez! Talvez que a _Graça_, a _obra Divina_, Por aqui estendesse o puro manto, E que depois, p'lo dom do Esp'rito Santo, Eu tambem seja pae?! Talvez, talvez O mysterio julgasse pôr-me aos pés O filho que me indica, não é assim?...
_(Irado)_
Ora vamos senhora! Ponha fim Á comedia tão mal representada, E diga como essa alma envenenada Concebeu a pequena creatura
Arminda
_(Apontando para Henrique e Margarida)_
No desvario do pae e na loucura Da mãe!...
Margarida
_(Levantando-se e avançando para Henrique)_