A Nuvem: Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo
Part 1
Produced by Pedro Saborano
LUIZ COUCEIRO
A NUVEM
Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo
AVEIRO
Typ. "Minerva Central"
1910
LUIZ COUCEIRO
A NUVEM
Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo
AVEIRO
Typ. "Minerva Central"
1910
PERSONAGENS
Henrique Fernando Arminda Margarida Maria, creada Uma creança de 6 mezes
PROLOGO
Casa de Margarida, em completo desalinho. Uma meza ao centro, á qual Henrique se encontra sentado, lendo alto a carta que acaba de escrever.
SCENA PRIMEIRA
HENRIQUE, DEPOIS MARGARIDA E MARIA
Henrique _(só)_
«Corre um anno de vida desgarrada Que sempre tem levado o teu amante, E outra vida, decerto, attribulada, Suavisar, se procura, n'este instante. Vou partir, Margarida, e sê feliz; Porque emfim, cêdo apenas a um esforço De sentimento são; e ás almas vis Cabe-lhe sempre o premio do remorso! Adeus! E vae fazendo o que poderes Para esquecer este homem transviado Do trilho, da conducta, e dos deveres! Adeus! A nada mais sou obrigado!»
_(Fechando a carta, pousando-a na meza, e em momento resoluto)_
Sim! sim! jámais podéra ser possivel Combater contra a minha reflexão! E depois, que diabo! não é crivel Mudar-se o santuario da união Pelo louco viver do mundanismo; Não, não é crivel ter a vida assim, E salvar-me, procuro, d'este abysmo, Quando, demais, alguem soffre por mim!
_(Pausa e reflectindo depois)_
De facto, Margarida tem encantos, Tem sim, mas quaes? Aquelles tão sómente Que a tornam fascinada só de quantos A pretendam gosar satyramente! Goso estupido, goso só brutal, Que nos converte em féras, ou ainda N'um ente desprezivel e anormal!
_(Pausa, exclamando depois com sentimento)_
E abandonar-te, eu, minha bôa Arminda, Levado na corrente d'esse imperio!
_(Tirando um retrato do bolso e admirando-o)_
Oh! rosto tão suave de mulher! Perfil tão nobre, tão grande, tão sério, Como não será muito o teu soffrer! Semblante de bondade, a contrastar Com falsos attractivos de mundanas! Aqui, traços de paz bem salutar,
_(Em meditação)_
N'aquellas... linhas torpes e profanas! Rosto meigo que outr'ora me prendeu, A elle regresso, a elle vão meus passos, E crê que vou guiado pelo ceu, Buscando, d'amizade, os santos laços.
_(Beijando o retrato e levantando-se de subito)_
Ah! É verdade! Tenho d'ella um filho! Nem me lembrava d'esse poderio!... Foi a fatalidade do meu trilho, E complemento do meu desvario... Comtudo, não importa, porque em suma,
_(Conformando-se)_
É producto de falsas relações Que se dissolvem, qual tenue espuma... Existe uma creança; mas razões Me forçam a esquece-la já tambem.
_(Tirando do bolso uma carteira)_
Concedendo dinheiro em abundancia Para que Margarida, como mãe, Provenha ao alimento dessa infancia.
_(Pousando a carteira na meza e espreitando em silencio a uma porta lateral)_
Coitadita da pobre creancinha!... A dormir!... Tem nos labios um sorriso...
_(Atirando-lhe um beijo)_
Recebe um beijo, o ultimo, filhinha!...
_(Retirando-se a custo)_
Custa-me... mas então? Se me é preciso! E depois, meu bom Deus, crê, eu vos juro, Que farei tudo quanto fôr humano Para vellar por ella no futuro!
_(Pausa, depois da qual, com coragem)_
Vamos!
_(Parando e com desalento)_
É bem profundo o desengano!
_(Pegando no chapeu)_
De resto, casa, orgia... tudo ahi fica... E volto, emfim, ao lar santo e bemdicto, Onde, só de virtude, a vida é rica, E onde chego humilhado e bem contricto!
_(Sae rapidamente)_.
SCENA SEGUNDA
Margarida _(só)_
_(Entrando por uma porta lateral e esfregando os olhos)_
Safa! Que dormir tão pesado o meu! Nem que fosse uma noite d'hymeneu, A prolongar um somno de fadiga! E então, que curiosa lucta e briga Com os sonhos, os mais extravagantes... A vêr-me rodeada só d'amantes, Que disputavam a honra e primazia Da posse luxuriante d'uma _Lia_! Safa! Que pezadello interminavel...
_(Pausa, depois da qual, repara na carta)_
Olá! Temos missiva? D'um amavel D. Juan, talvez?
_(Vendo a letra)_
Mas não, porque esta letra Pertence ao cavalheiro que penetra No aposento. É do meu nobre senhor! Não ha duvida! Ou antes, e melhor: É d'um obediente e humilde escravo!
_(Lendo a carta e cynicamente admirada)_
An?! O quê?! Que diz elle?! Bravo! Bravo! Muito bem! Apoiado! É admiravel!
_(Largando gargalhada sarcastica)_
Eis uma acção esplendida, louvavel!
_(Sentando-se)_
Coitado! Que desgraça! Pobresito, Que diz voltar em tudo bem contricto Aos braços da mulher! _(rindo)_ sim, sim, coitado Do triste e pobre errante, transviado Do bem!... Mas que pateta! Mas que tolo! Vae-te menino, vae-te, que o consôlo Não me falta, acredita; pódes crêr! E lança-te nos braços da mulher, Pois que duvida? Ora essa? Porque não?
_(Com sarcasmo)_
Mas que parvo, irrisorio e toleirão, Não veem!? Que ridiculo ignorante, Que nem ao menos sabe ser amante! E deixa carta, sem ter a coragem De dizer que se acolhe na frondagem Da virtude!
_(Reconsiderando)_
Virtude! Mas que é isso?! Um nome que se torna ôco e omisso Entre nós. A virtude é ter dinheiro Que bem nos sustente o orgico viveiro, Porque amantes, se atiram para o lixo, Vindo outros que sustentem o capricho!
_(Indo para sentar-se e reparando na carteira)_
Ah! espera! deixou uma carteira! E tem notas! Lembrança bem certeira, Porque... emfim... é só isto o essencial P'ra presidir á nossa bachanal...
_(Depois de fechar a carteira e como que tomando uma rapida resolução, senta-se a escrever uma carta, tocando a campainha)_.
SCENA TERCEIRA
MARGARIDA E UMA CREADA
Maria
_(Entrando de fundo)_
Que deseja?
Margarida
Recado algo importante Que desempenharás já, n'este instante.
_(Levantando-se)_
Levarás esta carta ao outro andar, Mas não te deves nada demorar Porque inda outro negocio bem urgente Teremos que cumprir, presentemente.
_(Entregando a carta á creada, que sáe)_
Vae...
SCENA QUARTA
Margarida _(só)_
Ora pois... sou livre por minutos Dos élos deshonestos e corruptos! Mas não tão livre, não tão livre ainda, Que Henrique não levasse á D. Arminda O fructo do transvio de seu marido. Coitado! Mas que triste arrependido!
_(Rindo)_
E talvez concebesse que o seu filho, De futuro, me sirva d'impecilho. Ná, ná! Quem se desliga a compromissos, Não o faz com intuitos só postiços. Pois que!? Foge da vida deshonesta, E deixa aqui o pomo de tal festa?! Ná! que o leve; que o leve para o lar, Onde a contricção vae representar. E depois, almas vis, más e preversas, Pódem ás vezes ser nobres e adversas Ao crime.
_(Entrando rapidamente na alcova e voltando á scena com uma creança de seis mezes)_
Vaes gosar creação casta, Que te infiltra dignissima _Madrasta_: Vaes sahir d'este reles ambiente, Onde se perde muita e muita gente!
_(N'um momento de subita reflexão e levando a mão á testa)_
An?! Que digo? Que disse eu inda agora?! Não seria um lampejo, ou uma aurora De verdade, que acaso illuminou A minha alma, e p'la mente me passou...
_(Com resolução)_
Sim, minha filha, quero que vás. Vae; Vae acolher-te á sombra de teu pae; Vae abrigar-te n'essas consciencias Que salvam e redimem existencias!
SCENA QUINTA
MARGARIDA E MARIA
Maria _(entrando)_
Satisfeito foi já o seu recado...
Margarida
Pois outro tem de ser executado E deligentemente. Espera um pouco, Emquanto escrevo á _Dona_ d'esse louco Que hoje me abandonou. E na pequena Segura já.
_(Entregando-lh'a e sentando-se a escrever)_
Alguns traços de pena, E prompto. Nada mais ha a fazer Na consciencia de tão reles mulher!
_(Dictando o que escreve)_
«Senhora! Deposito essa creança, Filha de seu marido, e esperança Tenho que irá ser muito mais feliz, Do que no antro que apenas só se diz Do vicio, da vergonha!»
_(Entregando a carta á creada)_
Ora aqui tens...
_(Á parte)_
E inda dizem que são más estas mães!
_(Á creada)_
Desejo que sem perda de momento Ás minhas ordens tragas cumprimento. Procuras indagar qual a morada Do fugitivo Henrique, e lá, na escada, A pequenita deves collocar, Bem como a carta junta ahi deixar. Depois, tens que affastar-te de repente, Percebes?
Maria
Muito bem, e fico sciente.
_(Estupefacta)_
Porém, senhora! nem sequer um beijo Na creancinha?!
Margarida _(imperiosa)_
Basta-me o desejo Da sua vida. Vae! Assim t'o ordeno, Muito embora com alma de veneno!
Maria
_(Indo a sahir e parando ao fundo)_
Mas... mas de que é feito esse coração?!
Margarida _(indicando-se)_
É coisa que não ha na habitação! Vae...
Maria _(repentina)_
Irei. _(sáe)_.
SCENA SEXTA
MARGARIDA E FERNANDO
Fernando _(entrando)_
Margarida! A que dever A honra e o distinctissimo prazer Da sua carta?
Margarida
_(Approximando-se de Fernando)_
Irá sabel-o já, Meu caro e bom Fernando! Venha cá?
_(Levando-o junto á porta que deita para o quarto)_
Julgo que conquistou ardente feito!
_(Apontando para o quarto)_
Ora diga? O que vê d'aqui?
Fernando _(olhando)_
Um leito!
Margarida
Em que ha pouco vagou certo logar...
Fernando _(interrogando)_
... E então?!
Margarida
Querendo... Venha-o occupar.
Cae o panno
FIM DO PROLOGO
ACTO I
Casa de Arminda ricamente mobilada. Portas lateraes e ao fundo. Á direita alta um biombo cuja frente dá para os espectadores e encobre de fundo o que dentro se passa. Uma creança repousa n'um pequeno berço. Ao centro da salla uma meza sobre que pousa um cesto de costura e onde se encontram algumas peças de enxoval para creança. Arminda, junto á meza, vae contando uma a uma e com sentimento aquellas pequeninas peças de roupa.
SCENA PRIMEIRA
Arminda _(só)_
... E vinte!... O indispensavel enxoval P'ra essa creança, que é filha do mal! Apenas o preciso p'ra o conchego Do ente, que, desvario tolo e cego, Arrumou para o mundo, e que o destino Trouxe ao lar do infortunio! Meu Divino Deus! A vossa vontade seja feita! E a mulher, que a desdita sempre espreita, Curva-se ante o poder d'essa grandeza, Que a ella me ligou e me traz preza!
_(Com dôr)_
Um pequeno enxoval, mas sufficiente Para poder cuidar d'esse innocente Que a vil libertinagem engeitou! Que a infamia, por onde só errou A vida impura, incasta e illegitima, Trouxe aos portaes da sua triste victima!
_(Affastando-se da meza)_
E que havia a fazer?... Repudiar O fructo da loucura?... Regeitar A offerenda, que, quem sabe? foi Deus A salva-la do mar, dos escarceus Da ignominia?! Quem sabe? foi alguem A doa-la aos carinhos d'outra mãe! Que havia de fazer? Tornar-me ré Da deshonra, e com simples pontapé Exclamar:--Vae, vae para a sociedade Em que se mancha e perde a honestidade! Vae tambem corromper-te em sacrificio D'essa libertinagem, e do vicio! Não! Não! Ninguem me dá esse direito, Que apenas crearia mais um leito Na impudica mansarda da baixeza! Não! ninguem me auctorisa essa fraqueza. Ninguem, mesmo ninguem, tal me concede, Nem jámais a minha alma diz e pede Que lance p'ra mizeria e para o crime Uma outra alma que d'elle se redime!...
_(Entrando no biombo, e junto ao berço, com resolução)_
Fica, pobre creança! Assim o quero Fica, porque eu respeito e mui venero O que o destino dá.
_(Com pausa e sentimento)_
Elle predisse, Em leis, que essa cruel libertinice D'um marido não tinha o grave jús De arrumar-te, impiedosa, para o púz Virulento d'infame corrupção!
_(Curvando-se sobre o berço)_
Fica sim! Tens aqui um coração Repleto de carinho e sentimento! Fica no lar, que, como deserta ilha, Escolhos cerca! Fica, és minha filha!... E tudo, pelo meu Deus, eu perdôo. Fica creança, fica... Eu te abençôo!
_(Sentando-se junto do berço)_
E aqui 'stou sendo mãe, mãe adoptiva, Do gérmen d'essa orgia productiva!
_(Pausa)_
Não quiz Deus dar-me um filho que pedia, E que n'este deserto tanto urgia, Para que n'um momento, n'um instante. Tenha d'acalentar o que é da amante! Não quiz Deus conceder-me tal mercê!...
_(Pausa)_
Marido... foge ao lar por onde a fé Do amor pode ser a unica sincera... E lá vae, lá vae elle como a féra Viciada, em procura do covil, Onde recebe o goso d'essas mil Desgraçadas sem alma, sem consciencia! Lá vae elle, deixando esta innocencia Do altar que a pura Egreja solidou, Em troca do que nunca, nunca amou; Porque amar, nunca e nunca sabe, quem Se ausenta de tão santo amor de mãe! Lá vae, lá anda n'essa podridão Que rouba o sentimento e a razão! Que destroe, injuría e enxovalha, Que infecta, que corrompe, prende e emalha A noção do respeito p'lo dever! Lá anda n'esse impudico prazer, Cujas garras tão vis, cynicamente Arrebatam do puro e casto ambiente Todo esse bem, que n'elle se creara; Cujas garras, de força bruta, avára. Arrebatam do lar santificado O descanço e o bem que lhes é dado! Lá anda, lá vegeta no monturo Mais ignobil, mais baixo, mais impuro, Que a desgraça creou, sustenta e nutre; Filando com intuitos só de abutre, E attributos de farça e d'ironia, As prezas de tão grande vilania! Vilania,--que em seu lubrico espasmo, Chasqueia da virtude, com sarcasmo, Ri da fé, desvirtua a honestidade, Deprava o sentimento e a dignidade. Insulta, zomba e rasga sem respeito O véu do precioso preconceito! Suja, quebra, dissolve e inutilisa, Macúla, estraga e já esterilisa A pureza e o brilho do que é são! Abala, derrue, prosta em confusão, Det'riora, desfaz, calca e elimina A graça do bom lar, graça Divina!...
_(Pausa, deixando tombar a cabeça sobre as mãos e exclamando dolorosamente)_
E foi... foi assim que essa vilania Me roubou o socego e a alegria! Foi assim, assim, que ella aqui entrou, E que de mim se riu e só zombou!
_(Encosta-se sentidamente ao berço)_
SCENA SEGUNDA
ARMINDA E HENRIQUE
Henrique
_(Abrindo cautelosamente a porta de fundo, entrando a medo e penetrando a pouco e pouco no aposento, falla a meia voz)._
Ninguem!... Sómente a paz religiosa Da verdade!... Só graça harmoniosa Da virtude!... Sómente o ar suavissimo Do bem!... O perfumado e o dulcissimo Aroma a castidade.. que trahi!...
_(Respirando desafogadamente)_
Ah! Como se respira bem aqui!... Deixai-me que, aspirando a longos tragos O balsamo do amor e dos affagos, Eu bem me purifique no sacrario Que envolve o precioso relicario Do natural, do justo, do acceitavel!
_(Suspirando de novo)_
Ah! Sim! mas que atmosphera respiravel A realidade!
_(Começa o dialogo natural entre os dois, que se não vêem e se não ouvem um ao outro)_
Arminda
_(Parecendo despertar dum sonho)_
E tudo, só tudo isto, Se me afigura um sonho!...
Henrique
_(Olhando para o ambiente)_
Além, um Christo, Em expressão suavissima, a espargir Bondade, a abençoar, a redimir!
Arminda
_(Olhando para a creança)_
Coitada! Que destino o teu seria!?
Henrique
_(Continuando a reparar em tudo)_
Ali, a Virgem Mãe! Virgem Maria, Recebendo o amor em seus ternos braços.
Arminda
_(Descobrindo o rosto da creança)_
E em verdade, verdade, muitos traços D'esse teu pae, na fronte, tens escriptos...
_(com ternura)_
Aos d'elle, se assemelham teus olhitos!
Henrique
_(Voltando-se para a meza)_
Aqui, vejo uma cesta com roupinha...
Arminda
_(Continuando a examinar a creança)_
E também se parece esta boquinha Bem rosada...
Henrique
_(Analysando a roupa)_
Enxoval d'uma creança, Posto em disposição cuidada e mansa.
Arminda
O narisito não. Destôa um pouco Do perfil d'esse mau e d'esse louco...
Henrique
_(Pegando em algumas peças de roupa)_
Chambrinhos e babeíros; camisinhas...
Arminda
_(Descobrindo a creança)_
São perfeitos os braços e as perninhas...
Henrique
_(Continuando a analysar a roupita)_
E outra tanta roupinha de petiz,
_(Admirado)_
Decerto, para algum ente feliz, A quem Arminda serve de madrinha.
Arminda
_(Cobrindo a creança)_
Pobresita! Afinal és isentinha Do peccado...
Henrique
_(Deixando a roupa e affastando-se um pouco da meza)_
Ella é meiga e caridosa... É tão 'smoler, é tão affectuosa Para os pobres...
Arminda
_(Levantando-se, dá um beijo na creança, vae lentamente sahindo do biombo para entrar na salla e exclama)_
Meu Deus! Meu bom Senhor! P'la Infinita vontade e grande amor,
_(Sahindo do biombo)_
Ahi fica, ahi fica essa creança, Que n'este triste abrigo a sorte lança...
Henrique
_(Avançando, surprehendido, para Arminda)_
Senhora!...
Arminda
_(Recuando atonita)_
Ah!... Mas... Que vem fazer aqui?
Henrique
_(Suffocado)_
Buscar essa amizade que perdi...
Arminda
_(Surprehendida e admirada)_
An?! Buscar amizade?! Onde está ella?!
Henrique
_(Avançando um pouco)_
No saudoso ambiente d'esta cella!
Arminda
_(Cada vez mais surprehendida)_
O quê?! Aqui?! Decerto se enganou, E sem duvida, creio, a porta errou. Diga? Diga? Que veio aqui fazer?!...
Henrique
Abrigar-me ás caricias da mulher...
Arminda
_(Profundamente admirada)_
Hein! Que diz?! Da mulher?! Bem affirmo eu Que o senhor se enganou, e qual judeu Errante, anda passando em falsa estrada, Illudindo-se ao certo na morada!
Henrique
_(Avançando mais)_
Arminda!...
Arminda
Ah! sim, sim! É esse o meu nome; Porém, tal coincidencia não assome O direito de crer-me quem procura; E revella sómente muita uzura, Imaginar, que cá, por este mundo, Esse nome de mim seja oriundo!... Sim! Armindas ha muitas, acredite, E tantas, tantas, que bem me permitte Repetir quanto falham seus caminhos!...
Henrique
_(Com sentimento)_
Que têm sido d'abrolhos e d'espinhos. Senhora!...
Arminda
_(Impaciente)_
Vamos! Vamos! Que deseja?
Henrique
_(Contricto)_
Confessar uma culpa que me peja. E se ha muito, se ha muito ando perdido, Bem penitente aqui tem seu marido!...
Arminda
_(Com repugnancia)_
Que diz o senhor?! Meu marido?!...
Henrique
_(Corajoso)_
Sim, E n'essa qualidade eu aqui vim...
Arminda
_(Com serenidade)_
E como tal pretende apresentar-se?!...
Henrique
Se dá licença?...
Arminda
_(Apparentando tranquilidade e indicando-lhe uma cadeira)_
Então! Queira sentar-se.
_(Ambos se sentam em vís-á-vis junto á meza. Depois de pausa)_
Com effeito... e em verdade, ideia tenho De que alguem, com astucia e muito engenho, Um dia conseguiu vêr-me no altar Dos esponsaes. E ali, p'ra consagrar Tal acto ou sacramento d'evangelhos, Ante um homem dobrei os meus joelhos! Então... padre d'aspecto venerando, As orações do rito foi rezando, Emquanto duas almas se fundiam Á lei de Deus, e dois peitos se uniam Ao regimen da mais pratica escola! Deram-se as mãos; depois, a branca estóla As cobriu, invocando o juramento Que firmaria o Santo Sacramento!
_(Descançando)_
E jurámos, jurámos n'esse exemplo, Que nos manda crear o bello templo Do amor! Mas, amor, não é ter por tecto Sómente a guarda e abrigo d'um affecto! É mais, que de sublime, tem o vulto! É n'elle edificar paz, honra e culto!
E assim, bem se jurou mais egualmente Que, obreiros de castissimo ambiente, Erigissem alli, em devoção, O respeito, dever, religião!
_(Pausa, depois proseguindo)_
Realmente, senhor, lembra-me que um dia, Quando sã madrugada alvorescia Toda em perfumes, canticos e flôres, Alguem, que de mim tinha por amores, O symbolo d'aliança me entregava, E em meu peito dizia que se achava! Lembra-me!... Se me lembra, meu senhor, Tão lindo despertar, tão lindo alvôr Da pura realidade dos meus sonhos, Feitos de beijos castos e risonhos, De melodias suaves e plangentes!
_(Com mais vida, erguendo-se)_
Se me lembra a manhã em que dois entes, Deleitados na força da paixão, Se uniam em solemne sagração D'um tributo!...
_(Pausa, depois com magua)_
Recorda-me... Entoava O orgão religiosos sons! Resava Por assim dizer preces ao Bom Deus Pelo bem de sagrados hymineus. E que sons! E que sons tão inspirados Na graciosidade d'uns noivados! Que harmonia e conjunctos fervorosos, Embalando a união de dois esposos! Que accordes, que hymnos tão sentimentaes, Incensando d'amor uns esponsaes!... Sim!... Recordo em verdade o sorridente Dia, e conservo ainda bem presente Toda a felicidade que senti!...
_(Pausa e apontando a porta de fundo)_
Olhe... repare... foi... foi por ali Que eu entrei com soberba magestade, Envolta no meu véu de virgindade! Foi por ali que entrei; e junto a mim Vinha um noivo exclamando: «Emfim! Emfim!»
Henrique
_(Levantando-se e interrompendo-a)_
E esse noivo, senhora, era...
Arminda
_(Atalhando)_
Era alguem, Que na ambição de posse que se tem, N'essa grande ambição a que se aspira, Julgou depois que tudo era mentira, Falsidade, illusão, tolice e asneira! Era alguem, que fitando em pasmaceira A vitrine d'objecto precioso, Pensou e reflectiu que ao usar-lhe o goso, Exagerára as suas qualidades, E se precipitara nas vontades!
Henrique
_(Pretendendo interrompel-a)_
Mas, senhora...
Arminda
_(Atalhando-o)_
Não queira ter o arrojo De desmentir-me, pois qual, qual estojo, A guardar um brilhante lapidado, Assim foi e era o meu véu de noivado; Assim foi o meu véu, que descoberto, Lhe mostrou, afinal, o que de incerto Era o seu pensamento em ideal...
Henrique
_(Interrompendo)_
Mas hoje, o positivo e o real...
Arminda
_(Impondo silencio)_
Nada d'interrupções! Estou fallando, E desejo ir a pouco demonstrando O meu sentir. Dizia eu ha bocado Que, tal como brilhante lapidado, Era a mulher sahida da innocencia Para o mundo da prova e exp'riencia. E... e senão, vejamos! Em geral, Tem a mulher encanto natural, E attracções de que muito foi dotada; Mas quando pretendida, quando amada, Eil-a que se transforma em maravilha, E qual estrella, attrahe, encanta e brilha!... Anjo do ceu, que assim tanto seduz, Astro de fé, de vida, d'alma e luz; A guia, o norte, a briza perfumada. A lyra d'amor, Virgem, Deusa e fada, Tudo, emfim, de tal modo concebida, De tal maneira olhada e percebida, Que um Velasques, Murillo ou Raphael Jámais produziriam do pincel Inspiração egual! Mas, como as flôres Que em jardim vão brotando de mil côres, A ellas bem se assemelham as mulheres.
Cravos, jasmins, tulipas e outros seres Que da especie Deus pôz em geração, Um ha que nos merece distincção, E para elle vae vista attenciosa.
D'entre as flôres, destaca-se uma, a rosa, Pela côr e finura de formato; Aroma que daria suave extracto, E viço tal, que lagrimas d'orvalho Pousando-lhe com arte e lindo talho, De perolas, imita, collar fino, A guarnecer um collo alabastrino!
Elegancia suprema, ar donairoso, A rosa attrahe olhar ganancioso: E com motivo, pelo mundo inteiro Lhe chamam a rainha do canteiro!
Admira-se, contempla-se a belleza Que a nossos olhos deu a natureza! Pasma-se em fascinante adoração Absorvendo o producto, a creação Genial! E depois, não resistindo Ao desejo de ter o fructo lindo, Corta-se o encanto, o iman attractivo, Para figurar qual decorativo N'uma jarra de _Sevres_, ou crystal!