A nossa Gente

Part 2

Chapter 23,540 wordsPublic domain

Por todas as disposições se reconhecia que este excepcional domingo e estes doze annos de Margarida viriam a marcar data na historia da familia. Os convidados, amigos e parentes de João da Costa, que já muitos tinham chegado para assistir ao arraial, mostravam-se interessados por verem tanta gente assim atarefada e remexida: eram todos os creados da casa, os armadores da capella com Zé Maximo á frente, que tambem mandava nas illuminações, o fogueteiro com os seus ajudantes a abrirem covas para o fogo preso, os dos zabumbas, os das caixas e o gaiteiro... todos a alarmarem a freguezia e redondezas. Uma balburdia, uma abundancia, uma grandeza sem par!... O amor, louco e incondiccional, d'aquelles paes por sua filha, explicava o turbulento apparato; mas, de todas as pessoas ali reunidas, uma parecia menos gostosa do que se passava e era a festejada creança. Agitava-se é certo, andava no meio d'aquellas coisas, com outras meninas e rapazes da sua egualha; porém reconheciam-n'a possuida d'uma das suas crises de tristeza e inconvivencia, como quando fugia para a matta, a esconder-se na espessura dos arvoredos, para evitar o contacto de gente, que lhe melindrasse a sensibilidade. A mãe, que a perscrutava, momento a momento, percebera, pelo arrepanhado das linhas faciaes, pelo seu olhar frenetico, que Margarida soffria uma sezão de impaciencia; no seio decerto lhe crescia um desejo inconstante, e logo que poude tel-a entre os braços perguntou-lhe:

—Que tens tu, minha filha, que andas tão esquisita?! Falta-te alguma coisa?

—Não sei... Falta!...

—O que?...

—Não sei... Falta...—repetiu desprendendo-se, para se ir misturar aos que admiravam o fogo disposto no quinteiro. As creanças faziam os seus commentarios, comparando estas com outras figuras que tinham visto arder em romarias, e dirigiam as suas observações a Margarida em tom bajulador, que ella acceitava com sobranceria de dona. João da Costa, homem prevenido, vendo-as assim zaranzar, e temendo qualquer semsaboria, disse ao filho do Zé Osti:

—Olha lá. Não seria melhor recolher tudo na adega?! Póde estragar-se qualquer coisa, entendes?...

—Mais que isso, póde haver trapalhada. Um lume prompto, a ponta d'um cigarro dentro d'aquelle cesto (indicou-o com o dedo), levava tudo pelos ares, emquanto o diabo esfrega um olho...

Abriu-se a ampla porta, que tinha fechadura valente. Ali ninguem entraria sem consentimento e o morgado accrescentou para o fogueteiro:

—Tu que és responsavel ficas com a chave. Ninguem mais tem que cheirar n'estas coisas.

O filho de José Osti, com o seu pessoal, é que collocou dentro dos dois lagares o fogo, arrumando-o pela sua importancia. A um lado o que era figurame, bem separadas as peças, para se não destruirem os enfeites que seriam o encanto da vista; ao outro o fogo do ar, as taes abantesmas com bombas do tamanho de cabeças de toiro. O cesto mysterioso e suspeito, já assignalado como coisa de circumstancia e perigo, foi collocado a um canto com a seguinte recommendação do Osti, dita em tom de grande preço:

—São os trincafios, a namite, as lagrimas, a polvora fina e outras coisas... Isso póde incendiar-se e será uma de mil demonios!...

As creanças, na presença de quem a recommendação fôra feita, ficaram maravilhadas, medrosas e attentas. Que coisas terriveis e bellas não estariam debaixo d'aquella toalha de branco linho, cobertura do modesto cesto!... Os grandes olhos de Margarida haviam-se illuminado de fulgor cupido e excepcional, logo ao primeiro aviso no quinteiro; agora fixaram-se com uma absorpção intensa no logar onde haviam pousado o objecto defezo. Com um impulso que lhe guiava a vontade, a sua pequena mão dirigiu-se á toalha branca, para a levantar, mas o fogueteiro susteve-a, dizendo:

—Ó menina! Ahi não se bole! Não ouviu?!...

João da Costa incutiu-lhe maior curiosidade e pavor:

—Ó filha! Nem te approximes sequer!...

—O que aconteceria se eu bolisse?—perguntou com os olhos meigos e risonhos fitos no Osti.

—Podia-se incendiar tudo, n'um instante, como um relampago—explicou.

—Então havia de ser bonito...

—Isso como um ceu aberto!—encareceu o artista.

Todos sahiram. O grande portão, por onde podia entrar um carro com uma dorna, fechou-se com estrondo magestatico. João da Costa depois de, por sua propria mão ter dado volta á chave, entregou-a ao fogueteiro:

—Toma-a, que és o responsavel.

O rosto de Margarida soffreu nova transfiguração: não era de alegria, nem de tristeza o sentimento que exprimia, mas de reserva e idéa fixa que lhe obcecasse o cerebro. Fugiu para o seu quarto, abandonando os companheiros de brinquedos e ali se quedou com a vista absorta na cal branca da parede... Sorria deliciosamente a uma visão angelica, ou carregava o sobr'olho n'uma expressão voluntariosa. Sentada na borda da cama, o queixo levantado na pequenina mão, seguia miragem ou chimera, que lhe encantava a mente, levando-lh'a a voar pelos infinitos espaços. Como se houvesse tomado qualquer resolução, desceu de onde estava, bateu imperiosamente com o pé no chão e pronunciou:

—Pois hei de ir lá vêr o que é!...

Sabia perfeitamente como poderia entrar na adega, mesmo que a porta estivesse fechada. Quantas vezes, no jogo das escondidas com outras creanças, ali se sumira sem que ninguem a podesse encontrar! Ensinara-lhe o caminho uma cadella, que lá dentro tivera a sua ninhada, e que a occultas a ia amammentar, entrando por um postigo da face poente, que conservavam sempre aberto para arejo dos toneis. Trepando pela parede, como muitas vezes praticara, entraria no antro do mysterio, e sosinha (como era seu desejo) podia admirar o que fôra prohibido a toda a gente. Deviam ser maravilhas nunca vistas, deslumbramentos nunca apreciados!... Que intenso prazer lhe não dava, infringir ordens terminantes de seu pae e do fogueteiro! Um doce e longo effluvio lhe percorria todos os nervos; antegostava com delicia incomparavel o instante de poder tocar de leve os encantos que lhe fizeram conceber! Descobriria o segredo d'esses deslumbramentos, que recamavam o negro manto das noites d'arraial, com estrellas de côres! Saberia o que eram em germen as lagrimas, antes de escorrerem em escadeas de luz e de maravilharem a imaginação! E era-lhe devido este goso pela posição especial que occupava em tal festa. Não era ella a senhora, a festeira, a pessoa que deveria mandar sem estorvos em tudo? Estremecia de contentamento, ao delinear na mente o furtivo accesso pelo postigo grande, por onde entrava a cadella, quando ia amammentar os filhos.

Realmente, ao lusco-fusco d'esse dia, no periodo em que as sombras principiavam a cahir solemnemente das montanhas com todo o seu poder de mysterio, Margarida sahiu de casa com a alma aguilhoada para aclarar o enigma. Munira-se d'um coto de vela de cêra que tirou do oratorio, d'uma caixa de lumes-promptos, e foi sem ser presentida. Logo que se encontrou dentro da adega, diluido o seu corpo na treva, accendeu a luz para retomar a propria individualidade. Á vista do pequeno cesto coberto de toalha lavada e branca (qual pacifico e substancial merendeiro) o entendimento entorpeceu-se-lhe com a força da curiosidade. Seria possivel estarem ali escondidos os maravilhosos lumes, que, abertos no escuro da noite, offuscavam o scintilar das estrellas?! Fontes de luz, variadas no brilho e nas côres; descenso de adornos do firmamento, que duram instantes; maravilhas de pequenos meteoros, que, ondulando no espaço como espiritos angelicos, buscam repouso glorioso; rebentos da treva como flores luminosas de cristal; adereços de pedras preciosas jorrando do interior do céu... era o que ella presumia sob a modesta toalha branca... Quantas vezes os olhos do seu corpo não haviam cegado com os deslumbramentos d'essas lampadas sagradas suspensas sobre a Terra! As radiantes lagrimas, quando brancas, parecem chuva de claridades ou pranto celeste brotando como rozeiral de diamantes e morrendo, depois, suavemente como beijos; quando de côres semelham rosarios de rubis, de topazios, de esmeraldas, que transformam a treva em interior illuminado de palacio encantado, habitação de fadas. Tudo isto, sabia-o Margarida porque lh'o tinham revelado na prohibição feita, e estava ali inerte sob a toalha branca. Não devia ver e averiguar o que fosse? Correria risco quem o tentasse... mas para aquelle espirito irrequieto e temerario, o perigo era um incitamento. Com a pequenina mão direita, tremula de commocção que não de susto, levantou a ponta da toalha alumiando-se com a vela acesa... O que viram os seus olhos cubiçosos e egoistas?!... Nada, ou pouco mais: embrulhos em papeis; alguns pequenos frascos com liquidos e tigelas com agua de onde se mergulhavam coisas; meadas de torcidas de algodão impregnadas de polvora, com envolucro de papel, a que chamam trincafios. Seria d'isto que sahiam esses lampadarios aereos, que deslumbravam os olhos de tanta gente?! Mal se podia acreditar, pois toda a apparencia era de objectos vulgares, inertes e sem flammancia. Cheia de confiança em si e minada do desejo de averiguação, principiou com os seus delicados dedos a remexer todas aquellas miudesas, emprestando-lhes alguma vida, para d'ahi sahir a acalmação da febre que lhe exacerbava a mente. Talvez que, ao seu contacto, das substancias mortas nascessem vivas faiscas, inicio de prodigios! Talvez!... Quem poderia dizer o contrario? Aquelle algodão embebido em polvora e envolto em papel, muitas vezes ella o vira encendiar-se, se lhe applicavam a morraca... Se agora lhe achegasse a luz, talvez ardesse um boccadinho e fosse este um começo de fascinações... Nos olhos vivos e sequiosos apparecia o signal de que tal desejo lhe crescia no cerebro, como lavareda dominadora. Com mão timida ainda, mas guiada por força que não podia contrariar, foi ajuntando a chamma da vela com o ponto negro do trincafio... Apparece o primeiro brilho e logo Margarida retira promptamente a pequenina mão, para que não continue a arder... Mas esse ponto luminoso foi logo maior e grande, propagou-se por todo o cesto, como um vaga-lume rabioso... Alarga-se n'uma luz azul e viva de relampago, seguem-se estoiros e logo pavoroso e infernal ruido, que tendo começado dentro do cesto, se propagou com a velocidade a todo o espaço da ampla adega. Que scena phantastica, maravilhosa, deslumbrante e cahotica, esta de um horrido estrepito no meio de lavaredas, que vomitavam raios, esfusiando de todos os lados!... Quem podera ver a graciosa figura de Margarida, n'esta confusão terrivel, consideral-a-hia apparição angelica, cheia de gloria e poder divino, dominando a confusão dos mundos, com a serenidade risonha d'um seraphim. Estava de pé na separação dos lagares, os braços levantados em prece sublime, olhos brilhantes e cheios de enthusiasmo, como os dos martyres que a Deus glorificavam sobre fogueiras! Que se passaria no seu craneo n'este instante unico!... Talvez sentisse a alma arrebatada em fogo! talvez se julgasse levada aos infinitos paramos em ondas de luz! talvez que esse estranho grito que da sua debil garganta sahiu, fosse a primeira nota d'um canto de gloria!...

IV

O pavor produsido pelo estrondo de bombas e morteiros a rebentarem dentro da adega grandemente illuminada, foi cruel e estupefaciente! Reconheceu-se o que tinha succedido; mas o que se não comprehendera logo, era como o caso se poderia ter passado, visto a chave andar no bolso do fogueteiro. Só espiritos malignos seriam capazes de ali ter penetrado; pois só elles podiam conceber a execução de tamanha catastrophe! Como as aguas das montanhas, quando collidem para um valle, correu toda a gente para o perigo. N'um momento foi aberto o largo portão, que semelhava a bocca de enorme forno, com o seu ventre em chammas! O creado mais resoluto atirou-se ao meio do incendio, subiu celere ao lagar e, de pé na borda, disse em voz tremenda:

—Jesus!... A menina a arder!...

O seu arrojo, que fôra temeridade, tornou-se loucura: sem attender a risco, abre caminho por entre linguas de lume e estrondo de bombas, e tomando o debil corpo da creança, como quem abraça um feixe de lavaredas, sae com ella para o exterior, por entre gente apavorada. Logo acudiram com mantas e cobertores, conseguindo apagar as chammas dos vestidos de Margarida e do homem que a salvara. Porém a desgraçada creança, sem accordo, parecia morta! Levaram-n'a para casa no meio das afflicções de todos, especialmente dos desditosos paes e logo a despiram com rapidez para se apreciar a extensão do mal. O debil e formoso corpo estava intacto, menos nas partes desprotegidas pelo vestuario. A face então!? Essa pequenina meniatura de face, que dois beijos poderiam cobrir, agora vermelha, empolada e disforme perdera a brancura nativa e a graciosidade de linhas, que a faziam comparar ao rosto das santas! Todos os delicados relevos de feições tinham desapparecido nivellados em massa confusa e pastosa, sem expressão humana. No que se transformava belleza tão delicada, d'uma correcção tão perfeita e harmonica!... Crestados os cabellos longos e finos, e os bem desenhados supracilios, e as formosas pestanas, que sombreavam as pupillas; avolumado pelas empolas o delgado e airoso pescoço... desapparecera toda a graça da viva cabeça de Margarida. Isso que fôra encantador, prendendo a vista da pessoa menos attenta, era massa informe e sem espiritualidade. Onde estava o riso gracioso de seus labios tantas vezes cheios de brisas de carinho, quantas de nuvens caliginosas de desejos?! Onde a expressão turbulenta e dominante das narinas, exprimindo apetites rebeldes, mas innocentes?! E as orelhas pequeninas, da transparencia da porcellana com veios escuros nas curvas complicadas, onde estavam?! E o breve mento, tão breve e gracioso como o da Venus de Millo?!... Tudo se desfizera e se confundira!... Essa interessante physionomia que era jubilo, que era rebeldia de sangue em fervura, que era signal de alvedrios intensos gerados no limpo coração e logo subidos aos labios e aos olhos... Os olhos!... É verdade, os olhos de pupillas inquietas, os olhos de iris escura, mas indefinida com laivos de ceu e de mar profundos, que tinham lampejos á noite, mysterio ao entardecer, alegria na alvorada, carinho á luz brilhantissima do dia... que era feito d'elles?! Jaziam sepultados sob a grossura das palpebras inflamadas. Teriam vista ao menos?... Ninguem o sabia. A mãe de Margarida, sem accordo, como morta sobre a cama; o pae, homem forte e vigoroso, diluia-se em pranto junto da filha adorada. Os dois medicos que tinham corrido ao toque d'essa grande desventura, davam consolações vagas, esperanças infundadas. O lindo rosto de Margarida poderia voltar ao que fôra, a ser outra vez pequenino e engraçado...—diziam. Ainda n'elle se havia de gosar a vista da mesma espiritual belleza, que enchera de ventura o coração dos paes infelizes. Tinham-se visto curas completas mais extraordinarias do que esta, verdadeiros milagres no entender do povo. Os casos feios é que melhor assignalam as victorias da sciencia. Não era já circumstancia favoravel, que a vida tivesse sido poupada em perigo tão violento? O gentil corpo da creança estava quasi intacto na pureza das suas linhas, na elegancia do seu porte, na brancura da sua pelle, quando o natural teria sido ficar reduzido a um negro carvão. Só o rosto fora principalmente prejudicado... Certo é que no rosto reside toda a formosura. O de Margarida era tudo que havia de mais immaterial: a bocca pequenina e vermelha, tinha a graça; os olhos meigos e turbulentos, a inquietação infantil; na sombra das pestanas e no desenho dos supracilios, estava o inigma do pensamento; na pelle rosea, a mocidade; no arrojo do nariz a constante revolta; na curva serena do mento a tenacidade... Se isto viesse a faltar, ou se se transmudasse a rara combinação, que valeria o conjuncto, ainda que fôra dez vezes mais perfeito do que o da estatua grega?!... Porem como a esperança é o riso da natureza humana, e o natural e o proprio dos que soffrem dores fundas, já os angustiados paes principiavam a escutar com bastante conformidade as palavras de quem os consolava. Os medicos, primeiro que tudo, pediram liberdade juncto da pequena enferma, para largamente applicarem os meios que a profissão lhes aconselhava. Certificaram desde o começo que Margarida não morreria, e tocados de piedade por aquelle incomparavel infortunio, ousaram affirmar que haviam de restituir á creança, a saude e a belleza. A longa falta de conhecimento em que após o accidente se conservara algum tempo Margarida, attribuiam-n'o a estado epileptico, despertado pelo assombro de scena tão extraordinaria, como teria sido a de se ver repentinamente cercada de chammas e de estoiros infernaes. Devia ter sido horrendo para uma creança de doze annos, que dentro de si só devia ter fontes de sonhos aureos e aspirações celestes.

SEGUNDA PARTE

I

Passaram-se dias e passaram-se mezes. O soffrer longo e tormentoso seguia lento. A physionomia de Margarida era toda uma postula. Porém de informe nos primeiros tempos, foi adquirindo longes de vida e expressão com os inicios cicatriciaes. Margarida queixava-se pouco; parecia que os nervos se lhe tivessem insensibilisado, ou que na catastrophe houvesse adquirido coragem heroica para supportar a dôr. Até os medicos se admiravam de tanta paciencia nos curativos, pois lhe applicavam topicos que a deviam mortificar. Notava-se-lhe fundamental mudança no caracter: antes sempre inquieta e irascivel, agora conformada e paciente.

O padecer raro e profundo, poderá transformar a sensibilidade e o pensamento? amollecel-os se eram duros, endurecel-os se eram ternos? Em Margarida parecia realmente ter-se operado essa metamorphose grave: na vida feliz e descuidosa de infancia mostrara-se sempre e sempre insatisfeita, nunca se lhe encontrando fim ao querer e ao desejo; chegada a desventura e martyrio excepcionaes, dormitava-lhe o espirito em calma angelica, como se gosasse de paz e doçura celestiaes. Alguns queixumes ainda se lhe ouviram de começo (murmureos de ave doente), em que recorria aos nomes de seus paes e da ama que a creara, como lenitivos e sacrarios de amor santo; porém, depois, entrou n'um periodo de resignação e calma e os seus doze annos mostravam o juizo e a conformidade das velhas experiencias. Em vez de confessar atroz soffrimento, dizia palavras de consolação e esperança aos que muito lhe queriam e eram ellas de tanto conceito e elevadas que nem pareciam da sua juventude. Entrara, pois, n'aquelle corpo alma nova com o infortunio: a tonalidade da voz mudara para submissa e melancolica, as idéas appareciam como florinhas correndo leves em veio d'agua limpida. Já não era a Margarida que sem motivo gritava, que sem razão chorava lagrimas, que martyrisava com goso os animaes e as pessoas, que se deliciava inventando collisões para atormentar os com quem vivia. Accommodado o seu magro corpo no leito de doentinha, todos lhe apeteciam o convivio pelo exemplo que dava de um existir sereno e venturoso no meio de penas. Quando a enorme chaga, que lhe abrangia todo o rosto, principiou a mostrar tendencias para cura, um phenomeno singular se verificou—o ressurgimento da expressão humana, que ia apparecendo lentamente como uma aurora. E o facto excepcional e maravilhoso dava-se, quando tudo ainda era informe e cahotico n'aquelle rosto: nem a pelle rosea e setinosa o purpureava, nem a bocca de gazella sorria, nem a graciosa linha do nariz o equilibrava, nem a perfeita oval o fechava, nem os formosos olhos... (não falemos agora dos antigos olhos de Margarida). O que se ia vendo era a cicatrisação, que no seu progresso confuso já mostrava larga costura com manchas lisas, enrugamentos complexos, tecidos arrepanhados formando sombras. Assim estava a testa, a face, o nariz, o mento, as mimosas orelhas, o airoso pescoço... Porém de tudo isso que era sem fórma e sem graça, resaltava tal suavidade de expressão, qualquer coisa de ethereo e sublime, de suprahumano e bondoso, que só pelo transluzir d'uma alma candida e pura n'um rosto, se póde comprehender. E ainda lhe faltava a belleza dos seus olhos, vivos feixes de luz sempre em ardencia, e não tinha a pupilla nervosa e sempre movediça na iris, tão variamente colorida; porque esses olhos, absolutos senhores n'aquelle semblante expressivo, eram agora apenas dois globos leitosos, rolando senilmente dentro das orbitas, por traz das palpebras densas. Os medicos, para não desilludirem os atormentados paes e a ama Antonia, que lhe queria tanto como se fôra mãe completa, ainda agora os consolavam com mentirosas esperanças. As bellidas, simples pannos brancos lançados deante da vista, poderiam desapparecer com o tempo—diziam. Quando elles não podessem ultimar a cura, outros medicos havia especialistas de taes molestias, que operavam maravilhas, que pareciam milagres. D. Claudina escutava-os, porém muito mais se fiava do alto poder divino, do que de homens grosseiros e barbaros, que se limitariam a rasgar com ferros os olhos de sua filha! Por isso comprehendendo como indispensavel a intervenção superior do ceu (a unica forte e valiosa) continuou com mais fervor as promessas de romarias, de festas, de offerendas a todos os afamados medianeiros celestes, que se nomeavam perto e longe do logar onde viviam. Informações que aos ouvidos lhes chegassem de curas de pequena ou grande monta por este meio obtidas, serviam logo a D. Claudina e a Antonia de pretexto para proporem mais resas e penitencias, jejuns e novenas, oblatas ao divino e á Virgem sua mãe, que cumpririam verificado o beneficio. Isto não obstava á assidua frequencia da capella da casa, onde se demoravam em oração fervorosa ao orago, Santa Margarida, e a todos os santos da celestial côrte. E tamanha e tanta era a fé, que em cada manhã lhes renascia no peito a doce esperança e logo que sentiam a doentinha acordada do seu longo repouso, vinha a interessada mãe perguntar-lhe:

—Sentes-te melhor, filha?

—Sinto, minha mãe.

—E já me vês?

—Vejo.

—Com a tua vista?

—Com a minha alma e... e tambem um pouquinho com a minha vista—rematava sorrindo.