A Neta do Arcediago

Chapter 9

Chapter 93,916 wordsPublic domain

Os credores de Luiz da Cunha receberam, maravilhados da surpreza, os seus creditos, em uma casa commercial indicada pelas gazetas.

Cumprida a pena, o prêso recebeu com o alvará de soltura a baixa, e folha corrida do crime de ferimento na pessoa do visconde.

Fez a sua residencia em uma hospedaria, em quanto se fretava o navio em que devia transportar-se ao Brazil. Viveu alguns dias n'uma violenta coacção á sua vontade, que era mostrar-se n'uma sege a galope, n'um camarote, nos cafés, nos passeios, e nas praças. O desconhecido padre, porém, déra-lhe como preceito a reclusão no seu quarto, e Luiz obedecia, maniatado pela dependencia do capital promettido.

O seu mais forte desejo era seguir o padre para averiguar a morada da pessoa que o protegia. Acreditemos, ainda assim, que não era a ancia de beijar as mãos ao bemfeitor, que lhe estimulava uma nobre curiosidade. Era o simples desejo d'entrar no segredo da aventura romanesca. Se não obedecia ao desejo, resistindo ao silencio do agente da mysteriosa pessoa, é por que receava perder a beneficencia com a sua imprudente e até inutil indagação.

Chegado o dia do embarque, Madureira conduziu Luiz da Cunha a bordo, e ahi lhe disse que o capitão do navio lhe entregaria no Rio de Janeiro seis contos de reis, e algumas cartas de recommendação para negociantes portuguezes, que deviam dirigil-o na carreira mais prospera do commercio.

A essas horas, Assucena, ajoelhada no seu oratorio, pedia ao espirito de Bernabé Trigoso que não desamparasse o desgraçado, e lhe alcançasse de Deus para ella a bemaventurança, quando as suas virtudes a remissem das culpas na balança da divina justiça. A viscondessa de Bacellar entrou n'esse momento, a contar á filha o pasmoso procedimento de Luiz da Cunha, pagando as suas dividas, sem que ninguem descobrisse d'onde poderiam vir-lhe vinte e tantos mil cruzados. Rosa Guilhermina ouvira de seu marido a espantada narração do successo, e não podéra ser superior ao pasmo de José Bento. Sem algumas suspeitas, admirou a impassibilidade de Assucena, quando o caso não era de se ouvir sem pasmo.

--Seria essa mulher com quem elle tem vivido?!--perguntava a viscondessa.

--Qual mulher, minha mãe?

--Essa dissoluta, que o teve á sua mesa?...

--Não foi, minha mãe... Fui eu.

--Tu!

--Fui eu, minha mãe!

A viscondessa, perplexa alguns segundos, abraçou, a chorar, sua filha, exclamando:

--É uma lição de virtude que dás a tua mãe.

--Um segredo eterno, sim?--disse Assucena a tremer.

--Sim... sim... um segredo eterno... Esta virtude recebe-se mal... Ficaste pobre, minha filha?

--Eu nunca posso ser pobre.. O espirito do meu bemfeitor não me desampara...

--E não... Teu padrasto disse que te recebia em casa logo que Luiz da Cunha sahisse de Portugal.

--Não aceito, minha mãe... Não é por odio que lhe tenha... é que preciso viver sósinha para gosar os poucos bens do espirito que tenho... Quem me tirar da solidão, mata-me...

--Mas viverás sósinha com tua mãe, no meu quarto...

--Não posso entrar n'essa casa... Quando me recordo d'ella, cerra-se-me o coração... Não queira que eu soffra mais, minha boa mãe. Se seu marido lhe não prohibe, venha vêr-me muitas vezes; mas considere-me sem familia, sem apêgo a nenhuma cousa do mundo, triste e só, por prazer e por necessidade...........................................................

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XII.

FASCINAÇÃO DO ABYSMO.

Raro será o peito de homem onde não bata apressado o coração, que deixa, na patria, uma infancia com recordações suaves, ou uma adolescencia alternada por prazeres e amarguras.

Deve ser-lhe tristissimo o ultimo adeus dos olhos ao ceo do seu berço! Bem digno de compaixão será aquelle que lhe vira as costas, com as faces enxutas! Esse irá mais duro da alma que o homicida, fugindo do lugar do delicto! Esse amaldiçoou-se a si, primeiro que a patria o amaldiçoasse; e, espedaçando os vinculos, que o ligavam aos deveres de homem, não sabe o que é familia, não sabe o que é sociedade, sente, com tedio de si proprio, que não tem patria nenhuma!

Tal era o filho de Ricarda.

Em quanto o marinheiro, com o barrete na mão, e os olhos turvos de lagrimas, dizia um mudo adeus ás montanhas de Portugal, e orava, com a santa poesia da fé, a supplica de feliz viagem ao Senhor, que faz bramir a tempestade, Luiz da Cunha observava com risonha curiosidade as varias physionomias dos seus companheiros. De tantas nem uma só deparou sem signaes de mágoa. Parece que todos levavam da terra uma recordação saudosa! O proprio capitão, de braços cruzados, á pôpa da galera, absorvido nos longinquos cimos das montanhas cinzentas, não se differençava, no ar melancolico, do tenro moço, arrancado pela ambição aos braços da mãe, que o deixou ir sem resistencia, dando-se como certa a prosperidade em que tornaria a vêl-o.

Quem mais dava nos olhos, pelo chorar ancioso, era uma senhora vestida em rigoroso luto, com véo preto descido, e com dous meninos, um de dous annos, outro de peito ainda, sentados no collo d'uma preta, criada sua.

--Aquella dama chora por ella e por mim!--disse, com zombeteiro sorriso, Luiz da Cunha ao capitão.

--E o senhor não leva saudades de ninguem?

--Não, senhor. Não levo, nem deixo. Não tenho patria, nem familia. Não sei se fóra dos lagos da Allemanha tambem ha ondinas. Se n'este mar me namorasse de uma, casava com ella, e viveriamos na mesma concha.

--Bem se vê que não deixa em Portugal ninguem que lhe seja caro. A quatro milhas da patria, nunca tive passageiro nenhum, que risse de tão boa vontade!

--Pois alguma vez havia de encontrar o impio contra a religião do amor-patrio. Não sei o que é isso, e dou-me os parabens de o não saber. Aquella mulher por que chora? são saudades?

--Saudades, sim, do marido, que deixa na sepultura.

--É o unico lugar seguro onde podia deixal-o. Se fôr ciumosa, póde ir e tornar, na certeza de que o não surprenderá n'uma infidelidade...

--Não zombe de cousas tão sérias, senhor Cunha. Cá no mar respeita-se a religião...

--E em terra, estes piedosos marinheiros convertem-na em libações de canada!... Vejo que é um bom catholico, senhor capitão!

--E o senhor não é catholico?

--Eu não sei o que sou, melhor do que o senhor. Sou este homem que vê. Tanto sou em terra como no mar. Não me canso a pensar em cousas superiores ao meu bom-senso, e vivo á discrição da fatalidade como este navio á mercê das ondas... Então aquella senhora viuva é brazileira?

--Sim, senhor. Enviuvou ha dous mezes, e vai ao Brazil tomar conta da administração da sua casa. É uma rica fazendeira de café e canna.

--Não leva com ella algum parente?

--Não, senhor. Leva duas criadas, e aquelles dous meninos. Coitada! como não irá aquelle coração! Não ha ainda oito mezes que ella aqui passou tão contente com o marido, que era doudo por ella! Mal diriam elles! A vida é um engano! Quando penso nos trabalhos, que se procuram, para amparar dous dias de vida, dá-me vontade de viver em descanso com meus filhos, comendo um bocado de pão estreme, e ensinando-os a despresarem a enganadora ambição de riquezas, que por fim... alli tem o exemplo!... Quanto daria aquella senhora por ter seu marido vivo! Dava de boamente os trezentos contos que tem...

--Trezentos contos! parece-me muito conto!

--Admira-se? pois tomára eu o que ella tem d'ahi para cima...

As reflexões melancolicas do capitão, ácerca da rapidez da vida, não impressionaram Luiz da Cunha: mas o fecho da lamuria philosophica, os _trezentos contos_, foi um valente encontrão á sua insensibilidade. Se n'aquelle momento fosse possivel abrir-lhe o craneo, e analysar-lhe o cerebro, ver-se-ia um arfar vertiginoso nas bossas predominantes d'aquella maquina! O capitão, sem o pensar, jogára um ariete á alma petrificada do passageiro, e abrira larga brecha por onde iam sahir planos de infame calculo.

A viuva retirára, quasi nos braços das criadas, á sala de ré. Luiz da Cunha desceu tambem, dominado por um pensamento que não supportava delongas. Tão radiosa lhe fulgira a esperança de angariar uma fortuna colossal, e tão susceptivel de realisar-se lhe parecêra um casamento com a fazendeira de café, que, desde esse momento, o experimentado aventureiro julgou-se protegido pelo diabo côxo de Le-Sage, e prometteu não perder occasião de captar a benevolencia da viuva.

Como ella tivesse recolhido ao seu beliche, para esconder dos indifferentes as incessantes lagrimas, Luiz meditou de vagar o seu plano, estudando o papel adaptado ao caracter da viuva, e afivelando-se uma mascara, visto que todas se ajustavam á perversa flexibilidade da sua physionomia moral.

Convindo na conveniencia de representar mui sériamente, arrependeu-se das imprudentes facecias com que respondêra ás graves perguntas do capitão. Entendeu, porém, que a maneira de desvanecer o prejudicial conceito, que merecêra ao maritimo, era explicar a sua sarcastica jovialidade como um pretexto para illudir-se d'um profundo dissabor, uma d'essas pungentes ironias com que o desgraçado imagina vingar-se do verdugo destino, que o persegue.

Entrou em scena, e desempenhou magistralmente. O capitão, sincero e rustico, mais conhecedor dos escolhos do mar que dos outros, que se topam nas tempestades da vida, condoeu-se da pathetica narração inventada pelo passageiro, alludindo á perda de um coração, que lhe fôra caro, á ingratidão d'uma aleivosa mulher, que injuriára com a perfidia a sua generosa alma. Por causa d'ella--dizia o comico--abandonava o caro berço natal, o ceo dos seus amores de moço, cheio de illusões, mortas, calcadas, perdidas para sempre! E tão grande fôra essa dôr, tal desespero involvêra de negro a sua alma--proseguia elle, enrugando a fronte, e correndo por ella a mão com a mais velhaca naturalidade--que protestara affrontar com o escarneo todos os sentimentos nobres, pois que os seus tambem o tinham sido por uma traiçoeira mulher, colligada com miseraveis inimigos.

E, dito isto, no mais rigoroso ademan do palco, retirou-se, deixando o capitão contristado, e condoido da sorte do pobre moço, que tão cêdo perdêra o gosto da vida.

Os passageiros da galera _Boa-Sorte_, informados pelo capitão, olhavam para Luiz da Cunha com certo ar de respeito e de triste curiosidade. O silencio funebre de tal homem, sombrio sempre, movêra o natural interesse dos sinceros companheiros, e não passára desapercebido a D. Marianna, supposto que as suas penas fossem de sobra, para se dar cuidado com as estranhas.

Luiz da Cunha felicitou-se do grande passo que déra. O que não parece nada, era já muito para elle. Esse interesse, essa especie de curiosa compaixão, o attencioso silencio com que duas palavras suas eram escutadas, eram, com effeito, acquisições, que lhe valiam, na opinião d'aquelle publico, uma consideração, que ninguem contrariava.

Havia um só motivo, que descerrasse um ligeiro sorriso nos labios de Luiz: era o menino mais velho de D. Marianna, a criancinha de dous annos, que, attrahida pelos agrados do passageiro, lhe dava a preferencia nos carinhos. A mãe lisongeava-se d'este acolhimento, e chorava, porque mais vivas a assaltavam as recordações de seu marido, ao qual tão caros eram os afagos do menino.

Luiz, amestrado pelo contínuo estudo, não tratava de mitigar com o balsamo banal dos seus companheiros a ferida da saudosa viuva. Pelo contrario: dizia-lhe que chorasse, se perdêra um ente querido, um extremoso marido, metade da sua alma, o melhor da sua existencia, um homem digno d'ella. Como consolação, apenas lhe dizia que o encarasse a elle, e veria alli enxutos os olhos, que derramaram lagrimas de sangue, e por fim mirraram-se, como o coração exsangue, árido e resequido, debaixo da sua lousa. Dizia-lhe que para ella não era impossivel a ventura, porque, cêdo ou tarde, encontraria em um segundo marido o reflexo das virtudes do primeiro; seria, outra vez, ditosa, porque ha anjos privilegiados que o Altissimo não abandona, mesmo quando os deixa sósinhos na terra, onde encontrarão um amparo, que lhes adoce as saudades d'um outro partido, sob a lousa da sepultura.

Este estylo de cabeça não era mesquinho em figuras. Os periodos eram artisticamente arredondados, acizelados, torneados como os hombros d'uma estatua. Os discursos, sempre decorados da vespera, não tinham falha que os fizesse tinnir mal aos ouvidos de Marianna. Em tudo, e até nos improvisos, havia uma razão de ordem connexa, um rigor lógico de honradez, um espantoso triumpho da corrupção eloquente sobre o gaguejar da ingenuidade sempre boçal e descozida nos seus discursos.

Luiz da Cunha não se escondia para estes ligeiros dialogos com Marianna. Em occasião de almoço ou jantar, e não sempre, é que elle se interessava na conversa dos que por delicadeza procuravam consolar a viuva, sempre inconsolavel.

O pequeno Antoninho afizera-se tanto a Luiz, que chorava, se o não levavam de manhã ao beliche do seu amigo. Marianna agradecia ao carinhoso soffredor de seu filho tantos favores, e ficava contente se Luiz lhe dizia que era devedor áquelle menino dos raros momentos de prazer, que Deus ainda lhe concedia por intermedio d'um innocente.

Vejam que estudo!

E assim passaram vinte dias de viagem. As amarguras de Marianna tinham transigido um pouco com a natureza, que parece não ter sido feita para os soffrimentos duradouros, e desmente sempre os propositos d'um lucto perpetuo, variando as sensações com magica destreza.

Menos lagrimosa, ou mais resignada, que é o que sempre se diz, a viuva não fugia da mesa, apenas terminava a refeição. Demorava-se na palestra, silenciosa sim como Luiz, mas respondia com um aceno affirmativo ás attenções, que os brazileiros de torna-viagem lhe davam, nas suas conversas dissaboridas. Luiz fazia-se estranho a ellas, fingindo-se abstracto em scismadoras tristezas de que o compadecido capitão, ou D. Marianna o acordavam com esta ou outra semelhante pergunta:

--Que tem, senhor Luiz da Cunha? Em que pensa!

--No _nada_, minha senhora.

--Sempre assim! Quando virá um dia de o vêrmos alegre?

--O dia final.

--Que ideia tão triste! Então não espera, com vinte e oito annos, tão novo, encontrar n'esta vida a felicidade?

--Não, minha senhora.

--Não póde ella apparecer-lhe como um acaso?

--A morte.... e essa é certissima.... espero-a com a segurança de quem a vê continuamente diante dos olhos.

--Não falle na morte.... Eu tenho esperanças de o vêr feliz.... Ha de encontrar no Brazil uma menina, muito linda e innocente, que lhe encha o coração d'um novo amor...

--Não tenho espaço para elle. Onde está o demonio não póde entrar um anjo.

--Mas Deus póde mais que Satanaz--replicou Marianna.

--Isso é verdade!--confirmaram tres brazileiros.

--Pois Deus realise a sua generosa vontade, minha senhora.

Luiz da Cunha, com esta resposta, lançou a sonda ao coração da viuva. O que ella lá encontrou, não o sei eu; mas que Marianna fez um gesto de resentimento, isso foi um facto, que não escapava á fina observação de Luiz da Cunha, nem á do leitor ou leitora, que são pessoas das muito raras, que eu conheço, com vista dupla para lêr um coração na ruga repentina da testa, ou no ligeiro morder do labio.

Seria indiscreta a versão feita por Luiz do repentino baixar d'olhos da viuva? Não era, não. O desejo que ella affectava de o vêr feliz pelo encontro d'uma linda e innocente menina, não era realmente o seu desejo, se a menina linda e innocente não era ella.

Como essa pobre mulher, durante um mez de viagem, chorou todas as lagrimas, que tinha perpetuado á memoria de seu marido, isso explica-se pela inactividade das glandulas lacrimaes, quando a acção vital se concentra no coração. A sua desesperada angustia, nos primeiros mezes de viuva, não podia durar muito. Dôr, que se expande em soluços, que rejeita consolações impotentes, e não espera nada dos recursos ordinarios, mata depressa, ou depressa se desvanece. Ora, a dôr d'uma viuva de vinte e cinco annos está, mais que nenhuma outra, sujeita áquelle aphorismo, que não li em Hippocrates, mas nem por isso devem deixar de o aceitar como regra de physiologia experimental.

E, depois, quando o aphorismo não frizasse com o facto, dou-vos uma razão mais forte, mais experimentada, e menos especulativa que as theorias incertas ácerca do coração.

Fôra necessario que Marianna tivesse sempre a seu lado um anjo a segredar-lhe os precedentes de Luiz da Cunha, para que ella se não deixasse illaquear na rêde habilmente lançada á sua fraqueza. O aspecto grave, austero, e melancolico do cavalheiro, que não faltava á menor cortezia d'uma refinada polidez; a veneração com que todos os companheiros de viagem respeitavam a sua tristeza sombria; a bondade que o seu sorriso respirava quando Antoninho, fugindo do collo da mãe, voava com um beijo aos braços d'elle; a sensatez das suas reflexões a respeito do justo pranto da viuva, que perdeu um bom marido, tão raro entre os pervertidos filhos do seculo; os seus momentaneos extasis, quando a palavra amor lhe roçava fugitivamente os labios; e, finalmente, a certeza, dada pelo capitão, do illustre nascimento de Luiz, visto que na sua carteira levava uma ordem de seis contos de reis, que lhe fôra entregue por um padre, especie de mordomo ou cousa que o valha do mysterioso passageiro: todas estas contingencias reunidas, e outras muitas que nem a propria viuva saberia explical-as, davam a Luiz da Cunha um ar de grandeza, de distincção, de sympathia, que, em poucos dias, causára em Marianna vergonha da sua propria fraqueza, e até pesar de ter encontrado tal homem.

De mais a mais, os olhos de Luiz, tão expressivos e ardentes nas suas queixas contra o destino, baixavam-se submissos, se encontravam os olhos d'ella, em que a curiosidade não era menos significativa que a ternura. E porque se baixavam esses olhos? Mal vai ao coração da mulher quando esta curiosa pergunta a incommoda! De dia para dia redobra-lhe o desejo de entender esses olhos equivocos, essa modestia encantadora. Se elles se esquivam em confessar-se, ou se a palavra timida os não denuncia, o que era desejo, na mulher já ferida, torna-se em ancia de resolver o problema. Chega a assustar-se d'essa apparente submissão, d'essa mudez desamoravel. Quem sabe se aquelle olhar, fugindo aos olhos d'ella, quer dizer que o coração foge tambem? E então entra na empreza o mais forte inimigo da mulher: o amor-proprio, esse conselheiro intimo, que a salva raras vezes da queda, e, demonio de soberba, impelle-a quasi sempre á perdição, vendando-lhe os olhos do juizo, e dando-lhe aos do amor a vista dupla, o vêr penetrante, que, em linguagem do tempo, se chama a razão livre, a sanctificação do instincto. Era o amor-proprio o que fizera na face de Marianna um signal de resentimento. Ainda que Luiz da Cunha representasse o papel de atraiçoado amante, extenuado para novas paixões, a viuva, como todas as mulheres nas circumstancias d'ella, formosa e rica, tivera uma vez e outra a vangloriosa ideia de resuscitar aquelle homem, que se julgava morto. Que nos perdôem as feiticeiras florinhas com que o Senhor matisou as agruras da existencia; mas uma fragilidade muito sensivel, e que muitas vezes as prejudica na sua isempção, é o orgulho de acorrentar a fera, que faz estragos desenfreada, ou insuflar uma existencia nova no homem, que adquiriu nota de cansado. Arriscada empreza todos os dias commettida com mau successo! A inexoravel serpente do éden está sempre assobiando aos ouvidos da eterna Eva. A vaidade, creação contemporanea da primeira mulher, continua a offerecer-lhe em taça de ouro o sumo do pomo, doce na superficie, e fel no fundo. A que intenta prostrar a seus pés o conquistador soberbo, para que a fascinação do seu engodo seja inveja ás que não poderam tanto, é sempre victima, se o homem, que facilmente se dá aos ferros, não tem ainda passado a linha da vida, além da qual está o completo cansaço do corpo e da alma, tristes socios de um tardio desengano. A que intenta restaurar no coração do homem as potencias, atrophiadas pela perfidia, não sabe que será ella a offerenda expiatoria do crime de outra mulher; não sabe que o trahido recupera as forças, convertendo-as em vingança, porque tudo que n'essa alma existia nobre e santo, bem póde ser que não sobrevivesse á morte d'um primeiro amor galardoado com o desprêso.

Leitora, não se enfade v. ex.ª com o longo periodo que vem de lêr, se é que o leu. Não seja ingrata á lhanesa com que se lhe mostra o homem tal qual é, e com que se trazem do insondavel da sua alma á luz da analyse cousas que v. ex.ª não vê em si, e muito raras vezes descobre n'elle.

Se D. Marianna tivesse encontrado na abundante leitura de romances uma outra Marianna em face d'um outro Luiz da Cunha, parece-me que saberia resistir aos primeiros assaltos do amor, victoria que alcançou a habil hypocrisia, adestrada em doze annos de infamias. Não quero, porém, com isto dizer que D. Marianna succumbisse, como imbecil, ao prestigio do excentrico companheiro de viagem.

O que ella tinha de peor era não ser imbecil. Foi cousa que seu defuncto marido não apoiava a tendencia d'ella para o maravilhoso. A indole, acalorada pelos romances, seu passatempo querido, manifestára-se de um modo assustador para um marido, não convencido da sua superioridade a todos os outros homens, perante sua mulher. O fallecido fazendeiro de café era um homem excellente; mas, a respeito de intelligencia, não fallemos n'isso. O verniz que tinha, pouco ou muito, era obra de Marianna, que sinceramente o presava, desde que elle entrára como feitor em casa de seu pae. Diga-se de passagem que este bom homem, aos trinta annos arrebatado por uma febre typhoide, era nosso patricio, nascêra nos Arcos de Val-de-Vez, d'ahi sahira aos doze annos, e ahi voltára rico para morrer nos braços de seus parentes, que tirou da miseria. Tantas virtudes, mantidas pelo trabalho, são sobeja honra á memoria do marido de D. Marianna. Não precisamos, mentindo, encarecer-lh'a com dotes que elle não tinha, e, por isso mesmo, não approvava em sua mulher.

Mostrára-lhe, talvez, uma intuição clara que as tendencias romanescas de sua mulher a precipitariam. Viu bem.

Não sei se Marianna tinha sonhado o typo de Luiz da Cunha, como se diz em verso; se o tinha sonhado, encontrou-o na realidade, o que é alguma cousa peor. Os traços do astucioso caracter moral não discordavam do physico. Para a sua physionomia triste e sympathica arranjára-se Luiz da Cunha uma alma tão ao natural, que deixára a perder de vista as imperfeições da natureza. A arte, em quanto a mim, póde mais que a sua rival.

Sem arte não encaminhava Luiz da Cunha as cousas a ponto de Marianna ir sentar-se, alta noite, a seu lado, na tolda, contando silenciosa as estrellas do ceo, entre as quaes dizia o impostor que procurava a fada do seu destino.

--Se a vir--dizia Marianna--peça-lhe que lhe diga o meu.

--O seu destino posso eu dizer-lh'o, senhora D. Marianna.

--Qual?... diga, diga.

--Ha de ser venturosa, venturosa sempre.

--E sou eu venturosa? Sósinha no mundo...

--Quem tem o coração povoado d'anjos nunca está sósinha... Qual será o homem que a não adore? Póde v. ex.ª rejeitar o culto, póde julgar-se só em quanto não encontrar uma alma afinada pela sua; mas, em quanto se é adorada, não se póde julgar sósinha...

--E que valho eu para ser adorada?

--Vale as mais santas esperanças d'um homem com o coração viçoso, ainda rico de todas as illusões, puro ainda de toda a mancha; vale um preço inestimavel; vale uma existencia. Tivesse eu esse coração, com esperanças, com vigor, com pureza.... não me tivessem vasado n'elle torrentes de fel que m'o queimam...

--Sem esperança?

--Nenhuma esperança... tenho-lh'o dito como uma confidencia que se faz a uma irmã...

--E eu não posso crêl-o... Deus não quer que a sua vida acabe tão cêdo... Ha de haver alguem, que lhe faça esquecer essa mulher, indigna de si...

--Onde encontrarei eu outra?

--Onde a encontrará? Talvez no Rio de Janeiro, onde ha tantas... e tão seductoras...