A Neta do Arcediago

Chapter 8

Chapter 83,931 wordsPublic domain

Este viver monotono, e impresistente para a sua inconstancia natural, fatigou-o. Liberata conheceu o cansaço do amante, e não se affligiu, porque tambem ella se sentia marasmada n'uma continuada repetição das mesmas sensações, cada vez mais arrefecidas.

E, depois, o filho de Ricarda habituára-se a julgar commum de dous os cabedaes de Liberata. Tomava das gavetas dinheiro, que não trazia de fóra, e, se algumas vezes trazia triplicada a quantia que levára, não lhe dava canceira a restituição dos fundos.

Luiz da Cunha jogava n'um terceiro andar na rua do Ouro, onde se congregavam em fraternal espoliação alguns negociantes, alguns bachareis vadios, poucos litteratos, e bastantes empregados publicos. Sempre infeliz, o parasita de Liberata recolhia muitas vezes colerico da perda, e encontrava a sua amante na cama, com a chave corrida por dentro.

Luiz da Cunha, n'essas occasiões, que foram muitas, sentia assaltos da consciencia, discutia com elles, e ficava sempre vencido, reputando-se infame. As maximas, que forjára na cama, durante o periodo da cura, não lhe serviam auxilio nenhum n'esses combates com o senso-intimo. A devassa philosophia não lhe desviára, com lubricos esgares, os olhos despertos da alma do ponto negro, que a consciencia lhe mostrava, lá em baixo, no fundo da voragem.

Um dia, depois de oito mezes de hospedagem, Luiz da Cunha teve com Liberata esta importante prática:

--Meu caro Luiz, chegou a occasião de darmos um saudoso abraço por algum tempo. Ha oito mezes que temos gasto como se tivessemos descoberto a pedra philosophal. Feitos os meus calculos, não podemos assim viver mais quatro mezes, sem que eu venda a cama. Cavallos e sege já lá vão; as minhas pulseiras, e o meu collar estão empenhados. Tu tens jogado mais d'um conto de reis, e sei que deves seis ou sete a um tal Aboim, que vai ser meu amante. Mudemos de rumo, que o barco vai a pique. Já te disse que não sympathiso nada com a honrada miseria, e a miseria a que nos vamos reduzindo é d'aquellas que tem o inferno da desesperação, embora digam as novellas que uma tranquillidade de consciencia, mantida pelo trabalho honesto, é a suprema ventura. Será; mas eu deixo essa ventura á mulher do meu sapateiro; e penso que tu tambem...

--Isso quer dizer que...

--Adivinhaste, Luizinho. Não precisas acabar a phrase: tens uma penetrante intelligencia. Não achas que tenho razão?

--Tens...

--Agora o que deves fazer é as pazes com teu pae, e vê se elle te faz seu herdeiro, ou se o visconde dá á enteada um bom dote. Logo que eu tenha restaurado a minha fortuna, tanto te recebo pobre como rico; ponto é que eu possa prescindir do Aboim, como prescindi do conselheiro.

--Vejo que és sempre a mesma mulher!

--Não te comprehendo bem.

--És a Liberata que eu encontrei na rua do Ouro.

--Justamente a mesma.

--Uma certa Liberata, que appareceu no theatro com um novo amante, na mesma noite do dia em que a deixei.

--Tal e qual.

--A mesma dissoluta.

--Essa censura é mais infame que tu. Que queres de mim, Luiz? Uma garantia para a tua subsistencia?

--Não quero nada.

--Pois então, vai, que vaes pago, e bem pago dos excessos com que me compraste. As nossas contas estão saldadas.

--Mas eu tenho sacrificado a ti a minha reputação.

--Fóra com a hypocrisia! Isto faz nojo! Tu não me sacrificaste nada; quem perdeu fui eu, e perdi tudo, porque de mais a mais o homem, que me queria indemnisar casando comigo, agradece-me agora com insultos. Se eu não fosse dissoluta, o que seria de ti?

--És muito infame lançando-me em rosto taes favores...

--Tu não córas, meu bom amiguinho. A differença entre nós é toda a meu favor, e, se não ha outra, a unica, que conheço, está entre o vestido e as calças. Eu sirvo-te com o meu dinheiro ha oito mezes. Desejei uma occasião de mostrar-me grata: encontrei-a, e fui quanto pude, e em quanto pude. Tu, nem agora, sabes dizer-me do fundo da escada: «obrigado, rapariga!»

--Hei de embolsar-te das tuas despezas...

--Como quizeres.

--Hei de atirar-te á cara com essas migalhas.

--De certo m'a quebravas, porque o volume não será pequeno. Ainda assim, vê se me acertas bem, porque bem sabes que tenho ainda o punhal com que feri por tua causa um homem, que teve a pouca vergonha de me fazer rica, e de me prometter para a velhice a felicidade, que tu me destruiste...

A disputa acalorou-se, e a lealdade do tachigrapho não póde, sem deshonestidade, progredir. Fiquemos, pois, aqui, sabendo que Luiz da Cunha sahiu impellido por um forte empurrão, e levou com a porta na cara, quando se voltava para retribuir liberalmente a amabilidade.

O alvitre de Liberata em quanto ao destino do seu expulso amante, era o mais judicioso. Luiz procurou a casa paterna, onde não entrára durante oito mezes. Encontrou seu pae, passeando n'uma sala com dous criados de vigia. Estava completamente doudo: não conheceu o filho, supposto se deixasse beijar na mão, com um sorriso de amargo desprêso.

Os herdeiros presumptivos de João da Cunha, inimigos figadaes do filho bastardo, tinham judicialmente assumido a administração do vinculo. Os bens livres foram dados em penhora ao visconde de Bacellar. O doudo estava sujeito á restricta deliberação d'uma tutela, que lhe concedêra apenas o indispensavel para manter uma vida inutil.

Luiz não podia contar com cousa nenhuma d'aquella casa, a não querer limitar-se aos restos da mesa do pae, e a uma cama, d'onde seria expulso, logo que o doudo morresse.

O annel de ferro, que o apertava, não tinha um élo mal soldado por onde elle se evadisse á desgraça. Não tinha um amigo a quem pedisse um conselho; nem um indifferente que quizesse dar-lh'o. Procuravam-no os credores unicamente; e d'esses, alguns eram tão insoffridos, que se retiravam appellidando-o ladrão, ou fugindo á bôca de um bacamarte com que o devedor insoluvel os ameaçava.

Luiz da Cunha, em casa de seu pae, chegou ao extremo de não ter umas botas, e de pedil-as emprestadas ao seu criado para ceder a um impulso, que o fazia correr sem destino.

Chegaram-lhe as horas da profunda reconcentração. N'essas, a imagem de Assucena era uma braza de fogo sobre a chaga. O algoz não podia comportar a reminiscencia da victima. Recordal-a não era compadecer-se. Era imputar-lhe a causa das desgraças, que o assoberbavam: cerração absoluta de todas as suas esperanças.

Viveu assim dous mezes.

João da Cunha, quando menos se esperava, morreu da ultima congestão cerebral. Dizem que fôra terrivel a ultima hora lucida d'esse homem. O enigma dos dous cadaveres não lh'o perceberam os circumstantes. Ricarda todos suspeitavam que fosse a mãe de Luiz; mas esse outro cadaver, que lhe pedia contas de sua mulher, ninguem conjecturou quem podésse ser.

Seu sobrinho, filho de uma sua irmã, successor no vinculo, mandou immediatamente fechar as portas. Luiz da Cunha teve oito dias de homenagem para resolver o seu destino, e chorar a morte de seu pae, que foi de todos o menor abalo, que podia soffrer aquella alma entorpecida para todas as impressões. A consciencia da desgraça vestira-lhe a sensibilidade nobre d'uma crusta impenetravel. Alli não entrava nada n'aquelle coração ossificado. Se alguma emoção estava reservada para animar a pedra, era o dinheiro, o dinheiro com deshonra, por todos os meios infames, com tanto que podésse tornar ao mundo e convertêl-o em fel, em escarneo, em vingança.

Mas esse dinheiro quem lh'o daria? Nem ao menos a chimera d'uma esperança absurda o lisongeava!

Luiz da Cunha apresentou-se n'um quartel de cavallaria, disse que queria assentar praça. O commandante conhecia-o, e condoêra-se da miseria com que se lhe apresentava um moço, que elle vira disputar em luxo e devassidão com os mais distinctos da sua fileira.

Prometteu-lhe proteccional-o, e elevou-o logo a cabo, com promessas de furriel, na primeira promoção.

Luiz da Cunha era melindrosamente tratado na recruta; mas, orgulhoso ou incivil, respondia com insultos á menor correcção do preceptor. Um dia travaram-se com palavras estimulantes, e por fim com as espadas. O mestre de esgrima foi ferido sériamente por traiçoeira cutilada, e Luiz da Cunha fugiu a cavallo, inutilisando assim a perseguição do momento.

Sem destino na fuga, achou-se em Villa Franca, a cinco leguas de Lisboa. Ahi vendeu o cavallo a um estalajadeiro pela terça parte do valor. Seguiu, Tejo acima, até Santarem. Refez-se de alimento para seguir jornada, e alugava cavalgadura para Coimbra, quando lhe deram voz de prêso, á qual tentou fazer uma resistencia, que lhe custou algumas cronhadas d'arma.

No dia seguinte á tarde entrava no Limoeiro, para ser julgado em conselho de guerra. D'esta vez não o soccorreram as solicitudes de Liberata. Luiz da Cunha pensava no suicidio, e emprasava para elle o momento posterior á deliberação do conselho de guerra. Dizia-se que o mais encarniçado agente contra o desertor era o visconde de Bacellar, que promettêra uma commenda da Conceição ao auditor, se conseguisse que o conselho militar condemnasse o réo a degredo perpetuo.

O padre Madureira, com o seu sestro observador, não podia ignorar o essencial d'este successo. Condoído dos revezes d'aquelle infeliz, contou a Assucena, com sua permissão, os doze mezes da vida de Luiz da Cunha, desde as punhaladas até á entrada na cadêa. Cedendo á sua boa alma, deixava transpirar a compaixão das palavras, e attribuia a expiação á serie de desventuras, que o reduziram a assassino, e mais tarde o levariam á forca.

A compadecida censura do padre tinha um ecco no coração de Assucena. Os infortunios de Luiz da Cunha não podiam ser-lhe estranhos. Se, n'um momento de dolorosa exaltação, ella dissera que queria vingar-se, dez mezes tinham decorrido depois, e antes d'esse momento estavam alguns mezes de apaixonado delirio, de cega idolatria ao homem, que tão cruel lhe fôra. A religião, sucessora de todas as affeições de Assucena, operára em sua alma a maravilha do perdão para todas as injurias, d'onde quer que ellas viessem. Pensando na maldade de Luiz, e não podendo explical-a, attribuiu-a ao destino, interpretando assim do peor modo o livre arbitrio do homem remido pelos sacrificios de Jesus, e salvo pelas suas obras meritorias de recompensa, ou condemnado pelas infracções da lei divina. Esta anomalia intellectual é a enfermidade de muitas pessoas dedicadas, sem critica, ás cousas da fé, e descahidas, quando mais intentam levantar-se, nas grosseiras crenças do fatalismo, do destino, do «estava escripto» de Mafoma, e do _quó Deus impulerit_ de Cesar.

Assucena viera a convencer-se do _que tem de ser_ a respeito de Luiz da Cunha. Entendeu que uma vontade, superior á d'elle, o obrigava a ser mau para os outros, que serviam de instrumento providencial á sua desgraça. A Providencia era assim insultada pela innocente menina, e não admira que ella incorresse na heresia, que passa em Roma com os fóros de san doutrina.

D'esta conjectura ao perdão era logica a passagem.--Perdoar-lhe para amal-o--dizia ella na sua consciencia--isso nunca, em quanto a mão de Deus me não desamparar, mas perdoar-lhe para que a justiça divina se aplaque; oxalá que a sua felicidade dependesse do meu perdão, que tão recommendado me foi pelos dous anjos que fallam do ceo...

Assucena acreditava no seu consorcio espiritual com as almas do conego, e de sua irmã. Está n'essa crença a explicação da fervente supplica que ella, em extasis, fizera, depois que o padre Madureira narrára compungido as desventuras de Luiz. Não sei se as almas lhe responderam; mas, de todo o meu coração, creio que sim. Não se explicam certos actos que divinisam a creatura, se a não considerarmos tocada d'um magnetismo que mana de fonte sobrenatural. Não posso conceber o heroismo do perdão de Assucena, sem concebêl-a sujeita á vontade d'um impulso divino, d'um condão de predestinada, d'uma qualquer força, que não seja esta, que imprime o movimento nas acções triviaes de cada homem, incapaz de produzir o que outro homem não produz.

Assucena devia recear-se de abrir sua alma ao padre Madureira. Devia; mas a coragem é o que espanta! Pede-lhe que soccorra Luiz da Cunha, visto que não tem pae, nem amigos. Offerece-lhe, para que o prêso seja solto, o dinheiro que quizer, com tanto que Luiz não saiba nem por sombras que é ella a que o salva. Isto, que pede, pede-o, chorando; e padre Madureira, tocado pelo enthusiasmo da caridade, não tem uma só palavra contra. Aceita o melindroso encargo, e promette esgotar todos os recursos, supposto se tema de não vencer os inimigos poderosos de Luiz.

XI.

SÃO MUITOS OS LAZAROS; MAS UM SÓ O CHRISTO.

O visconde de Bacellar, com quanto não fosse parte contra Luiz da Cunha, seu aggressor, aguilhoava indirectamente o ministerio publico. Difficultava-se, portanto, a soltura por fiança, que a lei não concedia na reincidencia do delicto, aggravado agora, por deserção e roubo, e entregue por isso á summaria jurisprudencia militar.

Padre Madureira, aconselhado, descoroçoou diante dos obstaculos; mas Assucena, como se tivesse um experimentado uso da omnipotencia do dinheiro, instou o padre, authorisando-o de novo para todas as despezas.

O mestre de recruta, seguro de que não morria da cutilada, transigiu por dinheiro com o seu discipulo rebelde, e declinou a accusação. O conselho militar, movido á piedade por não sei que figuras rhetoricas do agente de Assucena, despresou a virulenta accusação do auditor, acalorado por suggestões do visconde. O juiz criminal, um pouco indeciso, como o burro de Buridan, entre o codigo e a peita não mesquinha, negociada pelo escrivão do processo, absolveu o réo, dando assim um testemunho da sua moralissima independencia de viscondes.

O cabo de cavallaria foi militarmente condemnado a dous mezes de prisão, e baixa de posto a soldado raso. O seu plano de suicidio não vingou, á vista da limitada pena. Soubera que um braço poderoso o protegia, aluindo os obstaculos com alavanca de ouro. Conjecturou d'onde tal protecção poderia vir, e julgou-se ainda debaixo da tutelar influencia de Liberata, que não podia deixar de ser o seu anjo valedor, em todas as crises.

Desvaneceu-se-lhe esta grata certeza, quando o carcereiro o chamou á sua sala, deixando-o só com um homem desconhecido, trajando batina, e sapato de fivela.

--O senhor Luiz da Cunha--disse Madureira--deve ter conhecido que alguem o protege. Ignora quem é, e eu, supposto que tenha sido o solicitador da sua soltura, não venho aqui dizer-lhe quem lhe evitou um degredo.

--Pois eu não hei de saber a quem devo tantos favores?!

--A pessoa, que lh'os faz, prescinde da sua gratidão, e deseja não ser conhecida. Receba os beneficios, e não queira vêr a mão invisivel que o protege, porque a não póde vêr. Quem quer que é, não limitou ainda a sua caridade com o senhor Luiz da Cunha. Ha tenções de lhe dar os meios para que o senhor deixe Portugal, e vá no Brazil, ou na Africa, tirar algum interesse do capital que se lhe dér aqui. Faz-lhe conta aceitar este beneficio?

--Aceito, cheio de reconhecimento. É o maior favor que me póde fazer esse Deus, que me ampara, seja quem fôr. Mas sou soldado, e preciso que me dêem baixa.

--Ha de têl-a. O senhor tem dividas?

--Tenho dividas; mas essas não me inquietam, porque os meus credores são ladrões civilizados. É dinheiro de jogo, que eu não pagaria ainda que podésse.

--Mas alguem quer que o filho do fallecido João da Cunha se retire honrado de Portugal, apparentemente ao menos.

--Isso meu caro senhor, é obra difficultosa. Eu não sei bem o que devo; mas, por um calculo approximado, não pago essas ladroeiras que me fizeram com oito contos de reis; e, se eu tivesse hoje quem me désse quatro, em cinco ou seis annos prometto que os faria chegar a cem.

--É admiravel que o senhor Cunha com essa finura commercial se arruinasse até ao extremo de ser soldado para não morrer de fome...

--Meu amigo, na adversidade é que se fazem os grandes calculos, e que se traçam os grandes planos.

--Pelo que vejo, os calculos e os planos de fazer que quatro contos produzam cem em cinco ou seis annos, só se meditam quando o coração está de todo em putrefacção, e as algibeiras vazias...

--Parece-me que tem razão, senhor padre... Como se chama, meu caro senhor?

--Não me convém que o senhor me conheça, nem o meu nome lhe é uma cousa de importancia. Queira continuar. Disse que eu tinha razão...

--Sim, tem razão; mas não me lembra a que respeito eu disse que o senhor tinha razão...

--Tambem não importa. Sabe o que eu admiro, senhor Cunha? É a sua presença d'espirito!

--Nunca me faltou. Sou um verdadeiro philosopho, e peço-lhe acredite que nunca estudei philosophia. Ha tempos, quando me fizeram a grosseria de me trazer aqui, sem o meu consentimento, resolvi suicidar-me, em certo dia e a certa hora...

--Que foi o que o conteve?

--Foi essa pessoa que me protege, alliviando-me da condemnação, que me promettiam os meus juizes, sendo um d'elles um homem, que foi criado de meu pae, e é hoje do supremo conselho militar... Isto não vem nada ao caso... O facto é que me não suicidei, como o senhor vê, e desde então entrei nos grandes calculos, bem longe de sonhar que alguem me queria fazer rico, dando-me um capital, que eu levarei no Brazil a uma cifra fabulosa.

--Está, portanto, resolvido a sahir?

--Se fosse já, era uma fortuna.

--Ha de primeiro cumprir a sua sentença; ha de aqui receber os recibos dos seus credores, e para isso queira dizer-me quem elles são.

--Não me recordo... Deixemo-nos de credores, meu amigo...

--Um annuncio nos jornaes convidando-os a apresentarem os seus creditos, será sufficiente...

--Mas não lhe disse eu já que devo mais de oito contos, que são vinte mil e tantos cruzados?!

--Serão pagos.

--Mas quem é que se interessa tanto por mim?! O senhor ha de ter a bondade de me dizer a quem devo beijar as mãos. Isto parece-me um lance de novella! Já me lembrou se andaria aqui segredo do meu nascimento!

--Do seu nascimento?! pois o seu nascimento é um segredo para alguem?

--É metade d'um segredo, pelo menos para mim. Não sei quem foi minha mãe, porque meu pae, que tinha razões para saber melhor que ninguem quem ella foi, nunca m'o disse. Imaginei que essa senhora viveria ainda, e teria mais dinheiro que eu... Não posso atinar com outra pessoa... Não tenho amigos, não sei d'onde me possa vir esta restituição, não me consta que seja o herdeiro presumptivo d'algum capitalista... emfim, aqui anda mysterio que o senhor padre póde pôr-me em linguagem portugueza, e eu prometto guardar inviolavel segredo, se fôr necessario esconder a beneficencia como se esconde um crime.

--Já lhe disse que não denunciava o seu bemfeitor.

--_Seu_, ou _sua_?

--Não tem resposta o reparo. O senhor Cunha deve ter a polidez d'um cavalheiro não me interrogando mais sobre tal assumpto.

--Pois bem: eu respeito o mysterio: nem mais uma palavra a tal respeito.

--Ora, diga-me, senhor, não tem pena de si? A sua quéda não lhe tem custado horas d'uma tormentosa reflexão?

--Declaro-lhe que abomino o estylo pathetico, fujo de entrar no sorvedouro da minha consciencia; ainda assim, para lhe mostrar que não sou insensivel á sua pergunta, respondo: tenho soffrido; tenho-me espantado da logica maldita dos meus infortunios, tenho combinado a minha ultima desgraça com o meu primeiro crime, tenho desejado morrer; mas, ao cabo de tudo, reconheço que as minhas desventuras são fataes, não as posso encadear, não sei prevenil-as, sou victima da minha organisação, obedeço ao fim para que fui creado, tenho tanto arbitrio no mal como o senhor no bem, represento o crime ao mesmo tempo que outro representa a virtude. Ora aqui tem o que me faz reflectir, estudar, e abrir a golpes o segredo do meu coração. Não consigo nada com isto, e evito o mais que posso os assaltos do pensamento. Que valem torturas de que se não sáe com o coração purificado? Antes de assentar praça, tive muitos d'esses exames de consciencia, e fugia d'elles, e de mim, aterrado. Cheguei a desconfiar que me estava reformando na desgraça; mas o que se não reformavam eram as minhas botas, por que cheguei a pedir a esmola d'umas botas a um criado de meu pae. Ora, não ha reforma possivel n'um philosopho descalço. Eu queria ser pessoa de bem; mas entendo que os bons instinctos renascem no coração do perverso, quando o terrivel assedio das desventuras levantam o cêrco. Um rapaz, affeito ao luxo das commodidades, e pervertido n'ellas, não se divorcia voluntariamente do vicio, na indigencia. Se meu pae não está doudo n'essa occasião, e me recebe com carinho, e me perdoa sem me repellir da sua amizade, e me não nega o necessario para a decencia, parece-me que a minha vida passava por uma subita transfiguração. Aconteceu o contrario: vi-me abandonado; entendi que não havia Providencia para mim, e desobriguei-me de respeital-a.

--E lucrou, desobrigando-se?

--Não: bem vê que sou desgraçado, e talvez nunca recue n'este caminho em que vou.

--Mas deve recuar...

--Crê que é possivel? Diga lá como se é honrado.

--Sendo para os outros o que desejamos que elles sejam para nós.

--Os outros tem sido para mim algozes.

--Todos?

--Todos, sim.

--Então o senhor não tem feito victimas?

--D'essas victimas que por ahi fazem todos os dias os _honrados_ pelo suffragio publico. Desarranjei o futuro de algumas mulheres; mas penso que todas vivem mais ou menos felizes. O desgraçado sou eu.

--E sabe que todas vivem felizes? A filha da viscondessa de Bacellar será feliz?

--Não sei; mas creio que sim. Dizem que vive n'uma quinta do infame padrasto, e naturalmente achará, como todas as outras, um marido, que não lhe encontre desfalque nenhum no coração. Essa mulher é um exemplo, que eu lhe cito, meu caro senhor, da fatalidade, que me persegue. Se ella fugisse com outro homem, o padrasto dotava-a, e ella casaria, fazendo a completa ventura do marido. Como fugiu comigo, o padrasto insultou-me, cobriu-me epithetos affrontosos, obrigou-me a partir-lhe a cabeça...

--E a abandonar a pobre menina, que não era responsavel pelas antipathias do padrasto...

--São cousas ligadas... o abandono explica-se por não poder explicar-se... Digo-lhe sinceramente que não sei o que havia de fazer a essa mulher. Entendi que abandonal-a era restituil-a á mãe; e conserval-a minha amante era obrigal-a a cahir comigo no abysmo da miseria, fazendo-a testemunha dos esforços criminosos que eu faria para não cahir... Não me enganei... Assucena é hoje mais feliz sem mim... Estimo até que ella ignore a minha situação. O senhor conheceu-a?

--Não a conheci.

--Conhece a viscondessa?

--Sim, senhor.

--Como está essa pobre mulher? Será ella a minha protectora?!

--Não, senhor.

--De certo, não, por que o marido não a deixa entrar nos fundos do casal. É um grande patife! Tenho pena de não ser poeta! Queria escrever em verso chulo a biographia do filho de uma tal Anna Canastreira do Porto! O responsavel da desgraça de Assucena é elle, que a não quiz remir da deshonra com o valor de duas duzias de pretos dos centenares d'elles, que ainda hoje são empilhados por sua conta no porão dos seus navios. Depois, dizem que sou eu o perverso, o escandaloso, o malvado! Fique n'isto, meu amigo; os homens fizeram isto que sou. Dêem-me uma independencia, e verão que hei de esforçar-me para ser bom. Os homens hão de vir destruir-ma, e eu serei forçado a lutar com elles. Como tenho contra mim o destino, hei de ficar mal na luta desigual, e como vencido, em vez d'um ai, receberei um escarro na cara.

--Experimente o procedimento da honra, não em Portugal, porque os seus precedentes são pessimos para uma rehabilitação. Empregue o capital, que lhe derem, n'um ramo de commercio licito; aspire á independencia sem fausto; habitue-se a uma tranquilla mediocridade; agouro que voltará um dia a Portugal cheio de benevolencia para o seu proximo, e enojado das tristes recordações do que foi.

--Póde ser................................................................

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