Chapter 7
Depois, no patamar da escada entregou-lhe com dignidade a bolsa, solemnisando o acto com estas palavras:
--Aceitei o dinheiro na presença de sua filha para que ella se persuada que é sua mãe que a sustenta, e não se considere em obrigação a estranhos. É a quarta vez, senhora viscondessa, que lhe digo que em minha casa ha abundancia, e independencia, e honra. Espero da sua bondade que me não forçará á repetição, porque me desgosta. Outro assumpto: que vaticina?
--Penso que minha filha se condoeu de mim, e esquecerá o infame... É preciso não a abandonar... Virei, todas as vezes que podér, observar o bom resultado das suas diligencias, senhor conego. Se lhe parecer que é util afastal-a de Lisboa...
--Não convém... A cura ha de operar-se aqui, se Deus me conceder vida, que será breve, porque a velhice e os padecimentos trazem sempre a gente em redor da sepultura...
IX.
HERANÇA DE VIRTUDE E OURO.
Não era possivel tirar um sorriso dos labios de Assucena. Muito era já evitar as occasiões das lagrimas, no primeiro mez da sua convalescença.
A recahida era possivel á menor tentação de Luiz da Cunha. E, por isso, os cuidados do conego eram solicitos em prevenir um bilhete, ou qualquer meio de que o perverso se servisse, em algum momento de caprichoso desejo. Bem sabia Bernabé Trigoso que Luiz da Cunha existia, quasi invisivel, em Lisboa. As informações eram-lhe dadas por um beneficiado da Sé, seu discipulo em virtudes e em sciencia, unica pessoa, que frequentava sua casa. Para corresponder ás recommendações do conego, o padre Madureira entrara no segredo do viver de Luiz da Cunha. Não o vira nunca no theatro, nem nos cafés, nem no Passeio Publico; mas soubera casualmente d'um boleeiro que uma sege de praça o ia buscar todas as noites, depois das onze e meia, a Campolide. O padre Madureira, que, em pesquizas, teria sido um habil agente do santo-officio, indagou da casa em Campolide, e pôde apenas vêr-lhe o portão. Era justamente aquella onde, vinte e cinco annos antes, tinha sido assassinada Ricarda, e enterrado seu marido.
O prescrutador alapou-se n'um casebre fronteiro, e viu que, ás onze horas e meia, uma sege parava defronte do portão. O padre estava a pé: era necessario seguil-a, e, para isso, desceu da sua dignidade sacerdotal ás astucias de gaiato, e sentou-se na taboa. O impeto da corrida não dava tempo á desconfiança do sota. A sege parou na rua do Collegio. O padre apeou primeiro que Luiz da Cunha, e sumiu-se na travessa do Pombal. Depois, seguiu-o de longe, e viu-o entrar em uma casa da rua de S. Bento, reparando na subtileza com que a porta fôra aberta e fechada. O padre não era de meias informações. Queria, por força, distinguir á luz azulada da lua o numero. N'esta difficultosa empreza, demorára-se, sem attender a um vulto, que desembocara da travessa de Santa Thereza, e caminhava para elle, deixando, alguns passos atraz, dous outros vultos parecidos, pelo capote e chapéo derrubado, com os importantes sicarios de qualquer drama em cinco actos.
O primeiro dos tres chegou, hombro com hombro, a par do irreflectido Madureira.
--Que quer aqui o senhor?
--Não queria nada--respondeu, retirando-se o observador.
--Não quer nada, e está com os olhos espetados n'aquella janella! Ólé--disse o encapotado para os da rectaguarda--Conhecem este homem?
Approximaram-se os dous, e responderam negativamente.
--Que está vossê aqui fazendo?--tornou carrancudo, com voz de tyranno, sem descobrir a cara, o interruptor de uma analyse innocente.
--Responda!--recalcitrou um dos dous--quando não metto-lhe quatro pollegadas de ferro na barriga.
O padre não era connivente na proposta, e evitou o melhor que pôde aceital-a, explicando d'este modo a sua paragem n'aquelle sitio:
--Eu vi aqui entrar um sujeito, e desejava muito saber que casa é esta.
--E conhece o sujeito?--perguntou o que tinha certa authoridade, e certa polidez no metal de voz.
--Conheço, sim, senhor, mas só de vista.
--E com que fim quer saber a quem pertence esta casa?
--Para satisfazer a minha curiosidade.
--Pois, se está satisfeita, retire-se.
Madureira estava satisfeitissimo até com o inesperado desenlace.
Ainda assim, mudou de proposito, quando ouviu tres pancadas na mesma porta onde entrára Luiz da Cunha. Cobriu-se com a esquina da travessa Nova, e esperou. Ao segundo toque, foi aberta a porta. Um vulto entrára: dous foram postar-se na travessa de Santa Thereza. Vinte minutos depois, vira sahir um vulto, menos volumoso do que entrara. Viu correrem sobre elle os outros dous, ouviu gritos de soccorro, e divisou um corpo cambaleando até cahir. Duas patrulhas correram ao local do grito. Madureira confiou nas garantias da guarda civica, e aventurou-se a tirar a ultima conclusão dos seus principios. Foi, e viu, nos braços dos soldados, Luiz da Cunha com as mãos tintas de sangue, que lhe transsudava do collête branco, e da gravata. Eram duas punhaladas, pelo menos: uma no peito, e outra no pescoço.
--O senhor viu como isto foi?--perguntou um soldado ao padre.
--Não senhor, eu vinha na travessa Nova, quando ouvi gritar.
--Conhece este homem?
--Nada, não conheço.
--Quem é o senhor?--perguntaram a Luiz da Cunha, que sahira do torpor em que o deixára o abalo.
--Moro no Campo Grande, no palacete de João da Cunha.
--Olha que firma!--murmurou um soldado para o seu companheiro de patrulha--Bem me parecia a mim que o conhecia... Este foi o que jogou o murro com o visconde de Bacellar, nos Paulistas! D'esta vez parece que topou com a fôrma do seu pé...
Luiz da Cunha foi conduzido por dous gallegos do chafariz, apenados por cabos de policia, em uma cadeira, sobre duas trancas de carreto, a casa de seu pae.
Madureira, apenas luziu a fresta do seu quarto, na rua das Gavias, correu á rua do Principe, onde expôz na melhor ordem as aventuras da noite; só não soube dizer que o vulto, que o accommettêra, e desempalára o furão da casa de Liberata, fôra o conselheiro Costa e Almeida, que não era tão _excellente creatura_ como a sua amante o imaginava.
Deixemos o padre Madureira com Bernabé Trigoso, e vamos espreitar mais dentro o que elle não viu, nem saberá contar ao espantado conego, e á espavorida Perpetua.
O conselheiro fôra avisado por cartas da infidelidade de Liberata. Á primeira não deu credito. Á segunda deu algum, porque lhe marcava a hora da entrada. Viu com os seus proprios olhos, porque a sua duvida era tal, e tamanha como o pleonasmo da phrase. Depois que o viu entrar, quiz bater á porta; mas faltou-lhe o animo na conjectura de ter de encontrar-se com o rival. Na segunda noite, sem inspirar desconfianças a Liberata, entrou armado, fortalecido pelo ciume. Procurou-o em todos os cantos, com finura e resolução, e não o viu. No dia seguinte, recebe a terceira anonyma: dizem-lhe que o concorrente sahia quando elle entrava. Preparou-se. Chamou dous criados, e deu-lhe instrucções, que elles desempenharam d'um modo que não deixou nada a desejar, porque o julgaram morto, e as instrucções eram assim pontualmente executadas.
Liberata ouvira os gritos de soccorro, quando o conselheiro parecia querer distrahil-a vibrando o teclado do piano. O criado, por um aceno, significou-lhe a catastrophe. A enfurecida amante de Luiz veio á janella, e perguntou a um grupo de soldados e cabos de policia o que acontecêra. Responderam-lhe que fôra alli apunhalado um rapaz de boa familia do Campo Grande. Liberata voltou para dentro, entrou no seu quarto, correu desfigurada com um punhal á sala, onde passeava o conselheiro, e desceu-lhe sobre o peito uma punhalada, que elle amparou no braço.
--Já fóra de minha casa--bradou ella--quando não grito aqui-d'el-rei contra um ladrão, contra um assassino!
--Cale-se, que eu retiro-me.
--Já sû assassino! ámanhã hei de publicar o seu nome nos jornaes, como matador de Luiz da Cunha, se elle morrer. Fóra de minha casa, patife!
O official maior cozeu-se com o corrimão, mais receoso da lingua que do punhal.
Liberata mandou montar a sege. Era um galopar vertiginoso para o Campo Grande! Encontrou defronte do palacio do conde das Galveas a cadeira, que conduzia Luiz. Apeou. Chamou-o, beijou-o com frenesi; fêl-o entrar na sua sege; mandou adiante o criado de taboa chamar um medico; deu ordem para que a sege volvesse vagarosamente, e entrou em sua casa com o filho de Ricarda desfallecido nos braços, pela perda de sangue, que ella em vão quizera estancar com os lenços, e até com as meias de sêda branca, servindo-se das ligas, e fitas dos sapatos como compressas.
O medico declarou que as feridas não eram irremediavelmente mortaes. Luiz da Cunha foi curado com extremo desvelo. Um mez depois dava um passeio de sege, ao escurecer, a par da sua estremecida amiga.
As indagações da policia aclararam todo este mysterio. O conselheiro não foi poupado á irrisão publica, e a dedicação de Liberata era celebrada como um heroismo incompativel com tal mulher. Alguns litteratos promettiam um drama em tres actos sobre bases tão dramaticas. Outros escreviam poesias em versos grandes intercalados de pequeno, sem que se promettia a rehabilitação de todas as Liberatas. E com isto, os pobres rapazes, se fizeram algum mal, foi a elles, porque, desde esse dia, até no Bairro Alto procuraram victimas a salvar do abysmo, e sahiram de lá espancados por algum marujo, que entendia melhor de fado e vinho, que de regeneração e amor, e ellas tambem, pelos modos.
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Bernabé Trigoso reduzira Assucena a um entorpecimento moral, semelhante á indifferença. Eram passados quatro mezes, depois da sua quéda. A infeliz erguia-se sem sensibilidade: parece que perdêra, com a esperança, a memoria do passado. Ainda assim, Bernabé não se atinha ás apparencias. Era necessario sondal-a.
Fallou-lhe em Luiz da Cunha como incidente n'uma conversação sobre o seu passado no collegio. Assucena pedira-lhe que não fallasse em tal homem. Replicára o conego, perguntando-lhe se lhe seria então indifferente a vida ou a morte de Luiz.
--Antes quero que viva.
--Porque o ama ainda?
--Porque me queria vingar...
--Vingar-se!...
--Sim... vingar-me pelo remorso... É impossivel que elle não venha a sentil-o...
--Isso é do coração?
--Do coração, sim, meu querido amigo. Eu tenho hoje odio a esse homem, porque me vejo amada de todas as pessoas, e aborrecida por elle, depois de me perder... Minha mãe que devera despresar-me, ama-me... V. s.ª, e sua irmã adoram-me como se eu fosse d'esta casa... Só elle!... é elle o que me esquece... o que me deixou, desamparada!...
--Desamparada?... E Deos não a acolheu?
--E sabe elle se eu a estas horas peço uma esmola!
--Não... nem lhe importa saber... Quer que eu lhe diga a ultima aventura d'esse homem?
--Não... não me importa... Onde está elle?
--Em Lisboa.
--Em Lisboa?! Não me disseram que fôra para o Brazil?!
--Quando foi conveniente dizer-lh'o. Hoje póde saber que Luiz da Cunha vive em Lisboa, debaixo das mesmas telhas com a unica mulher digna d'elle...
--Cale-se, por piedade, meu amigo...--interrompeu ella.
--Pois que? Não me disse que lhe era indifferente...
--Basta-me o odio que tenho no coração... Não posso com mais...
--Odio é muitas vezes demasiada importancia ao que é sómente despresivel. Eu quero que Assucena se lembre de Luiz da Cunha para perdoar-lhe no seu coração, conversando com Deos, se os infortunios d'esse homem forem taes, que possam attribuir-se a expiação do crime em que Assucena foi a primeira victima.
--Perdoar-lhe... eu!
--Não gosto d'essa exaltação de cólera, filha. Em quanto ella existir, não está cauterisada a ferida. Eu vou experimental-a.
Bernabé Trigoso contou as scenas observadas por Madureira, e as outras colhidas de informações que eram já do dominio publico. Assucena escutou-as com attenção. A arte valeu-lhe muito. Manteve silenciosa impassibilidade, quando o conego esperava alguma commoção. Mas, apenas livre das vigilancias de Perpetua, fechou-se no seu quarto, e chorou. O seu soffrimento devia ser um tumultuoso acervo de muitas dôres: odio, amor, ciume, saudade, desesperação, consciencia da sua quéda nos braços de tal homem, a preferencia em que era sacrificada a uma mulher perdida!
O incidente passou com alguns dias de profundo abatimento. As visitas de Rosa Guilhermina, as diversões domesticas, que o conego lhe dava despertando-lhe o gosto pela musica, pela pintura, prendas em que se distinguira no collegio; e, de mais, a enraisada affeição com que pagava pequena parte da amizade que lhe dava esta familia, considerada a sua, pareciam tornal-a indifferente ás reminiscencias, se ellas existiam, das suas passadas desventuras.
Assim correram dez mezes, que eu deixo passar sem analyse, porque em poucas linhas se diz que a viscondessa de Bacellar recuperára, se não um resto de contentamento, que perdera com a desgraça da filha, ao menos um ar de saude, que os medicos lhe não promettiam. O visconde, preoccupado com a alta e baixa de fundos, esqueceu a affronta recebida nos Paulistas, e nunca perguntou o destino de Assucena. Luiz da Cunha de quem no proximo capitulo fallarei mais de vagar, vivia com Liberata. João da Cunha estava, se não rematadamente doudo, ao menos tres partes do dia, fechado no seu quarto, dizia em voz cavernosa cousas inintelligiveis.
Ao cabo de dez mezes Bernabé Trigoso adoeceu, e prophetisou a sua morte, antes que os medicos lh'a mostrassem n'uma das pontas do fatal dilemma.
O seu primeiro acto foi um testamento verbal, dito a sua irmã, fechando-se com ella em longa prática. Os fins da sua vida foram suaves, tranquillos, e auxiliados de todos os soccorros espirituaes. A viscondessa de Bacellar ajoelhou muitas vezes aos pés do seu leito. Assucena, sempre ao lado do enfermo, não podia chorar na presença d'elle, porque o venerando velho dava visiveis signaes de que lhe era custosa a morte, se via lagrimas inuteis nas faces da que elle chamava a sua corôa de triumpho sobre os vicios da terra. A filha de Rosa Guilhermina só acreditou na perda do seu bemfeitor, quando o moribundo apertou entre as suas, quasi frias, as mãos de Perpetua e as d'ella, dizendo-lhes: «é agora!...» cerrando os olhos sobre tudo que lhe era caro, fechando os labios com a palavra «Deos» e aceitando, já no limiar da eternidade, convertidas em flôres, as lagrimas, que enxugára aos seus irmãos de exilio.
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O conego Bernabé Trigoso passava por pobre, attendendo á sua velha chimarra, ás suas sempre velhas botas de cano alto, e ao seu arruçado tricorne. O seu espolio, só conhecido de sua irmã, era dinheiro, herança de seu pae, de seus avós, thesouro até preciosissimo para a numismatica, pela variedade de moedas de prata e ouro desde D. Affonso III.
D. Perpetua não tocou n'essa caixa quadrada, com dimensões bastantes para conter uma riqueza que lhe não servia de nada a ella. Mostrou-a, sem abril-a, dias depois da morte de seu irmão, a Assucena. «O seu patrimonio está aqui, minha filha. Eu fui a depositaria, mas a menina é a dona. Meu bom irmão não teve animo para lhe dar os seus ultimos conselhos. Já morreu, já lá está na presença de Deus; mas elle vê e ouve o que fazemos e dizemos. Parece-me que bem cedo vou ter com elle. Tenho sonhado todas as noites, que meu irmão me chama para si... É tempo de cumprir as ordens do nosso amigo. Depois da minha morte, Assucena será tambem minha herdeira. Eu tenho uma quinta no Lumiar, onde fui nascida e creada, e onde desejo morrer. Partirei para lá o mais cedo que possa ser, Assucena vai comigo, porque sua mãe me deu consentimento. Se Deus chamar a contas a minha alma, digo-lhe, em nome de meu irmão, que viva n'essa quinta, que fuja d'esta terra d'onde vai fugindo a religião e o temor dos juizos divinos. Tome como director da sua vida o padre Madureira, que aprendeu a ser virtuoso com meu irmão. Com o tempo, a menina ha de entrar na casa de sua mãe, e então estará livre de todas as perfidias do mundo; mas, em quanto o não fizer, viva recolhida com a sua boa alma no seio do Senhor; esqueça-se dos seus desgostos, dando-se ao prazer de dar esmolas sem ostentação, que foi sempre a constante virtude do santo, que Deus nos levou para a côrte celestial. Ha quasi um anno que vive n'esta casa: já agora ha de fechar os olhos ás duas pessoas, que mais lhe quizeram, e que a deixam no mundo a pedir ao Senhor pelas suas almas. Nunca se ha de esquecer dos seus amigos, porque meu irmão está no ceo pedindo por nós, e brevemente pediremos ambos pelo nosso anjo.»
A singela prática acabou por lagrimas, que a interromperam.
Os sonhos de D. Perpetua são o inexplicavel effeito de uma causa superior ao entendimento.
Como o seu desejo era morrer onde nascêra, a irmã do conego mudou para o Lumiar, com Assucena, e o padre Madureira, constante companhia das duas senhoras, depois da morte do seu mestre e amigo.
D. Perpetua Trigoso, durante dous mezes, foi exemplar em obras de caridade, como se devesse ser essa a ultima lição de Assucena.
Setenta e tantos annos, com todos os achaques de velhice, explicam a rapida consumpção que, n'esses dous mezes, convenceu Perpetua de que em verdade seu irmão a chamava. Sacramentou-se uma tarde, com symptomas ainda de vitalidade para alguns dias. Entregou-se o seu testamento ao padre Madureira. E fechou o cyclo das suas virtudes, convidando a sua attribulada amiga a presenciar a morte d'uma mulher sem a consciencia d'uma injustiça. Só ella conheceu o seu fim, como se o anjo da bemaventurança lh'o segredasse. Morreu, abençoando Assucena, e passando-lhe ás mãos a cruz que não podia já suster no braço hirto pela aridez cadaverica.
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Assucena era herdeira de quarenta mil cruzados. Nunca se julgou tão desvalida. Não sabia a significação encyclopedica da palavra «dinheiro.»
X.
COMO OS ANJOS SE VINGAM.
Um anno corrêra tambem para Luiz da Cunha. As duas existencias, comparadas entre si, afiguram-se-nos o mytho de duas almas: uma tirando para Deus um vôo; a outra afundando precipitadamente na região das trevas, na infinita desesperação.
O rival do official maior de secretaria estabeleceu a sua residencia em casa de Liberata, noite e dia. O carinho com que ella o tratára na convalescença dos ferimentos, obrigára-o a sentimentos de gratidão, e a taes protestos de retribuir-lh'a em premios de inestimavel preço, que Liberata, tão incapaz de avalial-os como quem lh'os promettia, ria com cynica desenvoltura da sua rehabilitação, projectada por Luiz da Cunha.
O neto dos Faros, durante a sua enfermidade de vinte e tantos dias, entrára na região philosophica dos deveres sociaes, e confeccionára certas maximas de alta importancia para a sua futura felicidade.
A sociedade, que nos abomina, não tem direitos ao nosso respeito. Primeira maxima.
O escandalo, quanto mais estrondoso, mais grato áquelle que o dá, porque assim insulta uma hypocrisia astuciosa com que Tartufo e D. Basilio douram a pilula aos seus parvos admiradores. Segunda maxima.
Todo o homem tem direito a ser um infame, na opinião publica, quando é feliz na sua particularissima, e unica respeitavel. Terceira.
A felicidade está em nós, não se reflecte dos juizos estranhos. Quarta, muito parecida com outra da sã philosophia. Os extremos tocam-se.
A mulher mais digna de nós é aquella que melhor serve as nossas propensões, quer viva na crypta subterranea das vestaes, quer se ostente de seios nús no estrado do alcouce. Quinta.
O homem que pede á opinião publica consentimento para amar uma, ou a outra, é um tolo. Sexta.
_Et cetra._
E, de todas, concluiu que devia casar-se com Liberata, visto que era esta a mulher, que mais servia as suas propensões, e mais credito adquirira sobre o seu reconhecimento.
Este homem, que tocou da torpeza o extremo em que a compaixão se allia ao nojo, offereceu-se a Liberata, como marido. Esperava vêl-a saltar-lhe ao pescoço, fundindo-se em prantos de felicidade, e recebeu em resposta a gargalhada mais estridorosa, mais comica, e mais fulminante! Liberata tambem tinha as suas maximas, bebidas na fonte impura do seu amante; mas entre as do seu amante não se encontravam algumas, que eram a base fundamental de todas as outras no catecismo d'ella. Eram estas:
Toda a philosophia sem dinheiro é uma tolice.
Não ha nada que se pareça tanto com o mendigo como o philosopho pobre.
Bolsa vasia, intelligencia manca.
Sem dinheiro não se affrontam os desprêsos da sociedade.
Se não és rico, não sejas corrupto, porque o teu sapateiro não só te despresa, mas dá-te com o tira-pé.
Mulher, cahida em leito de ouro, levanta-se toucada de brilhantes.
A deshonra, que se estorce n'uma esteira, é que nunca se rehabilita.
Rehabilitar-se é ser precisa, desejada, invejada, e pesada a ouro.
Estes proverbios explicam a gargalhada de Liberata á muito séria proposta de Luiz da Cunha.
--Estás doudo!--accrescentou ella, batendo as palmas--Tragam-me uma camiza de força para o meu pobre Luiz, que endoudeceu, e quer casar comigo!... Tu fallas sério?!
--Fallo sério... fallo-te com o coração.
--Pobre coração! Pois ainda tens d'isso? Não nos fica bem fazermos de creanças... Eu não sou Assucena, meu trampolineiro...--dizia ella, anediando-lhe as guias do bigode--Que será feito d'essa illustre menina?
--Não sei... dizem que está no Minho em uma quinta do padrasto... Mas diz-me cá, Liberata... Achas disparate o nosso casamento?!
--É uma bestialidade... Vou provar-te que nunca se disse mais tremenda asneira. Se casassemos, qual era o nosso futuro? Naturalmente seria, pouco mais ou menos, o que era ha dous mezes. Eu teria um amante rico para sustentar o meu marido pobre.
--Mas hoje não acontece assim.
--Se não acontece hoje, acontecerá ámanhã. Desde que o conselheiro foi despedido, gasto das minhas economias; mas as economias vão gualdidas. A sege e os cavallos estão á espera de comprador; os brilhantes irão depois da sege; depois dos brilhantes, meu caro Luiz, é necessario adquirir outros. Ora agora, imagina tu que és meu marido, e vê lá se te convém ficar atraz da porta, muito caladinho, para não assustar o amante.
--Mas eu pensei que renunciarias ao luxo que tens hoje, e te sacrificarias ao amor e á posse d'um só homem.
--Creancice! A primeira victima eras tu, e a segunda eu, e a terceira os credores. Pois tu pensas que eu valho alguma cousa se despir este vestido de sêda, com rendas de Escocia, e vestir um vestidinho de chita de uma costureira?! Parece que não tens gastado cincoenta mil cruzados a teu pae! Não te lembras que, ha dous annos, me deste um luxo extravagante para me phantasiares, como tu dizias, uma d'essas romanas que pareciam cahidas do ceo n'uma nuvem de perfumes?! E agora estavas resolvido a pôr um estanque, e mandar-me vender charutos ao balcão!
--É porque te amo, Liberata, e não sei como hei de indemnisar-te.
--Não me deves nada: estás recebendo o juro d'uma divida. Sem ti, meu Luiz, não era eu nada. Foste tu que me fizeste conhecida dando-me em espectaculo de que eu lucrei muito, quando dizem que o escandalo faz perder. O americano apaixonou-se por mim no theatro, vendo-me comtigo. O capitão de fragata foi um irritante que fez dar saltos o americano. O americano fez dar saltos o conselheiro. Hoje és tu um irritante de muitos; mas, em quanto podér sustentar fidelidade, sou tua captiva. Quando não podér, digo-te adeus por algum tempo.
--E despedes-me?
--Que remedio! mas por ora não. Vamos vivendo sem cuidados, em quanto se não offerece uma conveniencia, que valha a pena da nossa separação por algumas horas... Deixar-te eu, isso é que nunca. É cá um capricho de mulher perdida, que se parece muito com os caprichos das mulheres aproveitadas...
Eis-aqui a posição social de Luiz da Cunha, dous mezes depois que fôra ferido. Comia e vestia das economias de Liberata. Indemnisava-a com uma permanente convivencia, e, muito instado, ao anoitecer, dava sósinho um curto passeio.