A Neta do Arcediago

Chapter 6

Chapter 63,947 wordsPublic domain

A sala de Liberata tinha tudo isto em prodiga profusão. Um americano, antecessor do conselheiro, e successor do capitão de marinha ingleza, tinha sido o intelligente coordenador d'aquella miscellanea em que despendera contos de reis, pequena paga para os carinhos de sua amante. Diziam que Liberata seria esposa d'esse americano, se o consul despoticamente o não mandasse prêso a bordo d'uma embarcação que o levou a seu pae, desfalcado em boa parte da sua fortuna.

O conselheiro, que substituira o americano, sustentava o luxo de Liberata com uma farta mesada, de que ella tirava para todos os seus caprichos, podendo montar sege, sua mais querida ambição.

Luiz da Cunha contemplava estupidamente aquella magnificencia, que não era nada comparando-a á sumptuosidade d'alcova, onde foi recebido, como era dever que o fosse, o unico homem que a fizera conter-se nos honestos limites d'uma fiel amante.

--Achas que estou muito rica?--disse Liberata, puxando-lhe com meiguice uma orelha.

--As apparencias são d'isso...

--Suppunhas que nenhum outro homem saberia dar-me valor?

--Eu bem sabia que te não faltariam adoradores, Liberata. Para que eu me separasse de ti, foi preciso que eu entrasse n'uma época de demencia, que me dura ha quatro mezes.

--Que tens tu feito ha quatro mezes?

--Tenho envelhecido quarenta annos. Quiz-me oppôr á natureza, fazendo-me pessoa de bem, e perdi o tempo. Acabo de conhecer que era mais feliz quando a minha sociedade eras tu, e os meus cavallos, palavra de honra!

--Com que então _eu e os teus cavallos_! O diacho da mistura não é nada amavel! Mas conta-me cá... disse-me o conselheiro...

--Qual conselheiro?

--O actual... não sabes quem ficou por teu fiador?

--Pois o conselheiro é o teu amante?

--Excellente creatura... Pois foi elle que me disse que uma enteada do visconde de Bacellar fugira das commendadeiras para casar comtigo. Já casaste?

--Não, nem caso.

--Nem casas? então, tenho mais uma companheira...

Luiz sentiu um ligeiro toque de pundonor, ouvindo tamanho ultraje a Assucena, que n'este momento se lhe afigurou de joelhos, pedindo a Deus a morte. Esta visão desvaneceu-se como o raio instantaneo de sol em ceo revolto de nuvens escuras.

--Diz-me cá, Luizinho--continuou Liberata, lançando-lhe o braço direito sobre o hombro, e brincando-lhe com os anneis do longo cabello--queres ser outra vez meu?

--É impossivel.

--Porque? Tens lá a tua fidalga das commendadeiras... Já me não lembrava...

--Não é por isso.

--Pois então?

--Não tenho dinheiro... Aquelle manancial das joias de minha mãe esgotou-se; meu pae está doudo, e não me conhece...

--E é por isso que querias casar com a filha do visconde?

--Adivinhaste; mas o visconde não lhe dá nada, e eu nada tenho que lhe dar como amante, e muito menos como mulher.

--Queres tu uma cousa? Não digas a ninguem que és meu amante, e não se te dê que o conselheiro o seja. Queres?

--Não; porque terias de me sustentar. A mim o que me convém é sahir já já de Portugal.

--Porque?

--Quero vêr se a pequena se recolhe a casa do padrasto, e preciso na Africa ou no Brazil mudar de nome, e arranjar uma fortuna.

--És tolo! Qual Africa nem qual Brazil! A pequena, em tu lhe dizendo que nada feito, toma o rumo de casa, e a mãe ha de recebêl-a, se a não quizer vêr onde vai parar muita gente que tambem foi honrada. Tu mettes-te em casa de teu pae, de dia, e, passada a meia noite, vens para a tua Liberata. Em quanto eu tiver um annel, tens tu um casaco, em se acabando, fizemos trinta annos á justa. Has de crêr que sou tua amiga apesar das tuas ingratidões? Deu-me para aqui! Sympathisei comtigo, e se fosse rainha fazia-te rei. Ora aqui está. Nada de tristezas. Vamos cear, que já ouvi a campainha tres vezes. Inda cá tenho os criados que me déste, e não são capazes de dar um pio. Quando souberam que tu cá vinhas hoje, até dançaram a gôta... Tu ficas sendo de hoje em diante o dono d'esta casa, e o conselheiro é o nosso mordomo, sim?

Luiz da Cunha enlaçou o braço pelo de Liberata, que lhe cingia a cintura, e entrou na sala de jantar, onde scintillavam os crystaes variegados, pequena parte d'uma soberba copa. A cêa era servida por um criado, de gravata e collête branco. Luiz respondeu com um abraço familiar á cortezia affectuosa do seu antigo escudeiro de quarto.

O _et cetera_ é a palavra latina que eu conheço mais util nos usos sociaes. Com um _et cetera_, ou dous, fica historiada esta noite; mas ainda um terceiro de certo não diria que Luiz da Cunha no dia seguinte, quando se approximava a matinal visita do conselheiro, depois de almoço, recolheu-se ao quarto do criado, onde escreveu a seguinte carta:

«_Assucena._

«_Não te verei mais. Os obstaculos ao nosso casamento são invenciveis. Uma desordem, que tive com teu padrasto, obriga-me a sahir de Portugal. Escreve a tua mãe, e diz-lhe onde moras para que ella te procure, e te receba em sua casa. Se eu um dia tiver colhido algum bom resultado dos meus projectos, tornarei a Portugal, e serás então minha esposa, assim como eu o serei teu, toda a vida, pelo coração. Demoro-me escondido em Lisboa alguns dias; mas, por evitar mais amarguras, antes quero não tornar a vêr-te. Lembra-te que eu sou muito infeliz para te resignares na tua infelicidade._

«LUIZ DA CUNHA.»

O portador voltou, dizendo que a carta fôra recebida por um velho, que tinha geitos de padre.

--Quem será este padre?!--dizia Luiz da Cunha a Liberata.

VIII.

PROVIDENCIA OU ACASO?

Assucena contára com pueril ingenuidade a sua vida ao conego Bernabé Trigoso, e a sua irmã. Não lhe occultou o seu nascimento, nem as menores circumstancias da sua fuga. Disse quem era o seu amante, e reparou que o conego, ao ouvir tal nome, exclamára de modo que não queria ser ouvido:

--Santo Deus!

A senhora D. Perpetua, virtuosa sem momos de beata, pedia á sua predilecta Senhora das Dôres que permittisse a reparação da falta de Assucena. O conego, crente no remedio do ceo, mas intelligente bastante para se não abandonar inerte ás operações invisiveis da Providencia, prometteu á sua hospeda empregar todos os meios possiveis para destruir os obstaculos ao seu casamento.

--Mas--accrescentou elle--eu não creio que o senhor Luiz da Cunha recompense o amor que a menina lhe tem.

--Porque? Pelo amor de Deus diga-me porque...

--Porque não acho muito proprio de um amante o silencio de quarenta e oito horas, sem lhe dar por escripto, ao menos, certeza de que vive.

--Se elle está prêso!

--Mas os prêsos não estão privados de escrever.

--Estará doente...

--Estará... não aventemos explicações, menina. O tempo nos dirá tudo. Logo que seja dia, eu vou informar-me do que é feito do senhor Luiz da Cunha. Agora vá descançar um bocadinho no quarto de minha irmã. São quatro horas. Tenha esperanças em Deus, que é pae, e em mim que hei de ser para a menina o que seria para uma filha.

Quando foram horas de se abrirem os tribunaes, Bernabé Trigoso colheu informações de Luiz da Cunha. Soube que elle na vespera fôra solto, afiançado pelo conselheiro Costa e Almeida. Nenhumas outras informações, além das que lhe deu o carcereiro de uma visita, á cadêa, de certa senhora ricamente vestida, que viera em sege sua.

Recolhendo a casa, sua irmã disse-lhe que Assucena adormecêra momentos antes, e era peccado acordal-a d'aquelle dormir, que parecia sereno como o de um anjo.

--Creio que a infeliz--disse elle--deve perder a esperança em tal homem. Eu por mim, julguei-a perdida desde que ouvi pronunciar tal nome.

--Pois quem é elle?

--É um flagello da humanidade... É um homem que tem dado brado com os seus escandalos. Não te recordas das historias que nos contava o padre Joaquim?

--O capellão de João da Cunha?

--Que é pae de Luiz da Cunha... Aqui tens o abutre em cujas garras cahiu a pobre pomba. Desgraçada menina! É preciso preparal-a para o desengano...

--Quem sabe o que Deus fará?

--Eu não sei o que Deus fará; mas sei o que os homens são capazes de fazer. Não abandonemos esta victima do erro. Desculpemol-a, que tem o seu perdão na innocencia com que nos contou a sua vida. Se esse homem a procurar, achal-a-ha em nossa casa. Se nunca mais a procurar, a nossa casa será o abrigo de Assucena.

A criada da neta do arcediago desceu ao segundo andar, dizendo que um portador trazia uma carta para a senhora D. Assucena. O conego mandou descer o portador, perguntou de quem vinha a carta; o criado respondeu que era do senhor Luiz da Cunha, e não tinha resposta. Redarguiu Bernabé, inquirindo a residencia do senhor Luiz da Cunha: o moço respondeu que não tinha ordem de a dizer.

As suspeitas do conego fortaleceram-se. Esta carta era uma despedida na sua opinião. Reflectiu se devia entregar-lh'a, ou lêl-a. Perpetua animou-o a abril-a, visto que a intenção era evitar algum desgosto mortal á infeliz menina. O conego leu a carta; e ficou satisfeito da sua temeridade.

--Não se lhe mostra esta infame carta--disse elle.

--Era capaz de morrer a desgraçadinha!--accrescentou a irmã.--Mas que lhe dirás, se ella te pedir noticias d'esse mau homem?!

--Digo-lhe... eu sei cá o que hei de dizer-lhe!... Digo-lhe que se resigne... e pedirei a Deus que lhe dê coragem para o desengano... Veremos... Talvez a possa salvar, servindo-me das palavras d'elle, que a matariam, se ella as lêsse todas...

Assucena tossira. D. Perpetua foi pé ante pé escutar. Ouviu-a soluçar. Abriu a porta, e uma fresta da janella. Encontrou-a de joelhos aos pés do leito. Abraçou-se a ella com os olhos humidos das lagrimas, que lhe arrancára seu irmão com as suas, lendo a carta.

--Sabe-se alguma cousa?--exclamou Assucena.

--Vamos lá dentro fallar com meu irmão, minha filha. Elle já veio, e alguma cousa lhe dirá.

--Pois, sim, vamos...--disse, correndo impetuosamente meio vestida.

Entrando na salêta em que o conego almoçava, D. Perpetua fêl-a sentar ao pé da cadeira de seu irmão, em quanto lhe apertava com os ganchos o cabello em desalinho. Bernabé, risonho e com ares de quem vai dar uma boa nova, deu-lhe a sua chavena de chá, escolheu-lhe a torrada mais appetitosa, e os biscoutos mais torrados. Assucena queria rejeitar; mas o conego teimou com brando afago, e conseguiu que ella sorrisse á pertinacia d'um papagaio que, por força, queria participar das sôpas de seu amo na mesma chicara.

Findo o almoço, o conego, por um gesto, fez sahir sua irmã. Assucena não despregava os olhos dos labios d'elle, e achava insoffrivel a demora das informações que lhe promettêra.

--Está anciosa pela resposta, minha menina?

--Estou... Fallou-lhe? Viu-o?

--Não o vi, nem lhe fallei.

--Meu Deus!... então?

--Vi uma carta d'elle, escripta a um seu amigo, que me procurou já hoje...

--Para que?

Bernabé Trigoso não pensára maduramente nas respostas, e luctava com as difficuldades do improviso.

--Para que?... Não se apresse, minha filha. Quero primeiro convencêl-a de que tem Deus a seu favor. Assucena não é tão infeliz como se imaginava.

--Pois diga, senhor, diga tudo o que sabe... Elle vem?

--Ha de vir, mas por em quanto não. Ora diga-me qual queria, vêl-o perseguido por seu padrasto, ou salvo da perseguição longe de si?

--Antes longe de mim; mas eu irei viver com elle no fim do mundo.

--Isso é que é impossivel...

Assucena estava côr da cêra. As lagrimas estancaram-se-lhe; e as palpebras penderam-lhe amortecidas. Já não ouvia as palavras do conego, depois do _impossivel_. Quizera em vão suster a cabeça no braço tremulo. Cada vez mais coada, até os labios se fizeram brancos. Um ai, desentranhado do coração, foi seguido d'um vágado; o padre recebeu-a nos braços, e chamou sua irmã, para ajudal-o a leval-a á cama.

--Este acontecimento não se evitava--disse o conego.

--Ella sabe tudo?

--O mais necessario. Agora resta imaginar a convalescença que é onde está o maior perigo. Se eu podésse fallar á mãe d'esta menina...

--Querias entregar-lh'a?

--Não; hoje o meu maior prazer era restituir a felicidade a esta senhora. Queria salval-a com a presença da mãe.

--Poderá ser peor...

--Não é. O remedio d'este mal são as torrentes de lagrimas, e essas só ella as póde verter com fructo no seio de sua mãe... Perpetua, não te separes d'ella; falla-lhe em sua mãe, e dize-lhe que sahi para bem seu.

Bernabé Trigoso, quando entrou no páteo do visconde de Bacellar, perguntaram-lhe se era o padre que vinha confessar a senhora viscondessa. Respondeu que não era o confessor da senhora viscondessa, mas era um conego da patriarchal que precisava fallar com s. exc.ª

Conduziram-no ao quarto d'ella. Rosa Guilhermina estava de cama, com dous medicos á cabeceira, que retiraram, quando o conego entrou. Um dos medicos, quando se retirava, abraçára o conego, e disse á viscondessa: «Eis-aqui o ultimo homem dos tempos de virtude. Estimo bem vêl-o á cabeceira do seu leito, senhora viscondessa!» E ficaram sós.

--Não tenho o gosto de conhecêl-o...--murmurou ella com a voz enfraquecida.

--Não importava conhecer-me antes d'este momento. De certo, eu não poderia evitar os desgostos por que v. exc.ª está passando...

--Terminarão brevemente... Estou quasi morta.

--Não morrerá. Deus não nos dá a vida como um instrumento, partido no primeiro estorvo, que nos embaraça uma suave carreira. Viemos para trabalhos, senhora viscondessa; e o mais soffredor é o mais benemerito aos olhos do Altissimo. Venho fallar-lhe de sua filha.

--Sim?... Oh! foi Deus que o mandou!.. Onde está minha filha?

--Na companhia de uma senhora que é minha irmã, e na minha companhia, que sou um padre.

--Pois esse homem...

--Quer-me fallar de Luiz da Cunha?

--Sim...

--Esse homem abandonou-a.

--Já!... sem a salvar da deshonra!

--O que nós queremos é salval-a da morte.

--É mais feliz se morrer! Levai-a meu Deus, levai-a para vós!

--Deus não se aconselha, senhora viscondessa. Ella vive, porque Deus o quer. Confiou-m'a, e eu quero encaminhal-a de modo que Deus a chame, quando a gloria do ceo lhe seja dada como um premio de virtudes na terra, amaldiçoada para os anjos.

--Mas... é impossivel recebêl-a em minha casa...

--Eu não quero que a receba em sua casa, minha senhora. Sua filha é como se fosse minha. Debaixo das minhas telhas mora a honra e a abundancia. Assucena não precisa senão chorar, para renascer para a felicidade, que eu prometto dar-lhe. Chorar... chora ella sempre; mas é preciso que o seu coração se abra ás suas lagrimas, para lhe perdoar...

--Eu perdôo-lhe...

--Bem... mas o seu perdão ha de ser-lhe dado a ella, abraçando-a, convencendo-a de que é possivel a sua rehabilitação. E, depois, seja um segredo para todo o mundo a existencia de sua filha em casa do conego Bernabé Trigoso.

--Se eu viver, dar-lhe-hei tudo o que podér para a sua subsistencia.

--Não precisa de nada sua filha. Se v. exc.ª consente que ella seja da minha familia, deixe-me inteiro o cargo de pae. O seu mais precioso sustento é o do espirito. Esse é que eu pedirei a Deus que m'o não escassêe, e talvez o consiga.

--Quer que eu procure minha filha?

--Supplico-lh'o.

--Se eu tivesse forças...

--Experimente, senhora viscondessa; parece-me que posso prophetisar-lhe que terá forças. Trata-se de salvar uma filha. V. exc.ª sentir-se-ha melhorar quando se convencer de que o anjo cahido se levanta, com a dôr da sua ignominia adormecida. Não lhe falle em Luiz da Cunha, bem nem mal. Ha de abominal-o, sem que lhe lancemos em rosto a perfidia d'esse miseravel, que, no fim de tudo, não é menos lastimavel, porque o seu fim deve ser triste. Deixemos-lhe a elle o cargo de se fazer detestavel. Uma mulher apaixonada só recebe bem as censuras da sua consciencia. Illuda sua filha com uma piedosa mentira. Diga-lhe que ninguem falla da sua desgraça, que as poucas pessoas que a sabem se empenham em desmentil-a, fazendo crêr que Assucena vive na companhia d'uns parentes no Porto. É preciso mesmo que v. exc.ª faça acreditar que a enviou para alguma quinta longe de Lisboa.

«Posso dizer que ella está no Minho, onde meu marido comprou uma quinta em meu nome para eu poder legar a quem quizesse por minha morte, e talvez eu conseguisse que meu marido me concedesse dar-lh'a já; mas elle, depois da desordem com Luiz da Cunha, enfureceu-se contra ella, contra mim, contra todos...

--Já lhe disse, minha senhora, que sua filha não precisa de quintas, se lhe não prohibe ser mais minha filha que sua.

A conversação prolongava-se, quando foi annunciado o confessor da viscondessa. A enferma, pela subita animação que o conego lhe emprestára, e pela desordem de ideias que lhe confundiam o exame de uma confissão geral, mandou dizer ao padre que resolvêra adial-a. Entretanto, Bernabé Trigoso retirava-se, porque a viscondessa lhe pedíra que occultasse de seu marido, se elle entrasse no quarto, a causa da sua vinda áquella casa.

As syncopes de Assucena repetiram-se na ausencia do conego. D. Perpetua, receosa dos resultados, chamára medico para consultal-o se devia chamar confessor. O medico nem receitou nem votou pela precipitação dos sacramentos. Colligiu das timidas informações da virtuosa senhora que a enfermidade de Assucena era uma forte affecção moral.

O conego, tambem assustado, não abandonava o leito de sua filha adoptiva. As consequencias eram mais graves do que elle suppozera. Assucena já não chorava, nem perguntava nada com referencia a Luiz da Cunha. Tinha os olhos em extasis, e a boca meio-aberta respirava acceleradamente. Sahiam-lhe do coração gemidos convulsivos, como o arfar tremido da creança, quando cessa de chorar, mas, ainda animada pelos beijos da mãe, parece queixar-se. Estes periodos duravam uma hora. Se lhe perguntavam o que sentia, respondia com melancolico sorriso: «nada.» Se lhe davam consolações, que não podiam deixar de ser fundadas em frouxas palavras de esperança, a filha de Augusto Leite acenava com a cabeça, como se dissesse: «não me salvam com a piedosa mentira.»

Bernabé fallava-lhe a linguagem que aconselhava á viscondessa, dizendo-lhe que muita gente se persuadia que Assucena, por causa do namoro de Luiz da Cunha, fôra tirada das commendadeiras, e conduzida a uma quinta no Minho por ordem de sua mãe.

Este balsamo não prestava refrigerio algum á ferida. Bernabé Trigoso, sabendo muito, não sabia tudo do coração. Estes remedios aproveitam quando a mulher despresada esquece o amante para se lembrar da sua reputação. Assucena não tinha ainda pensado no que o mundo diria d'ella. Luiz da Cunha era a sua ideia unica, e a face torpe d'esse homem não se voltára ainda para que a infeliz lh'a visse pelos olhos da reflexão. O systema, pois, de Bernabé não era vantajoso como elle o suppunha. O soffrimento silencioso augmentava: o pulso impetuoso recahia n'um marasmo insensivel, para depois referver em borbotões de sangue. O medico aconselhava uma qualquer impostura, se não havia consolações verdadeiras que a salvassem. Era possivel a morte, dizia elle;--era possivel uma loucura; era tudo possivel, menos cural-a d'aquella desesperada situação com remedios da botica. Se é uma paixão por causa d'algum amor infeliz,--accrescentava o doutor--mintam-lhe de modo que possamos allivial-a d'esta crise, e reduzil-a a estado menos anormal para que se colha algum resultado das palavras.

Aproveitou o conselho. O conego fingiu a recepção de uma carta d'um seu amigo em que se lhe promettia o breve enlace de Luiz da Cunha com Assucena. A innocencia tem credulidades sem critica nem senso. A pobre menina, sem discernir quem poderia escrever tal carta a um homem estranho a Luiz da Cunha, acreditou-a. Deu-se uma notavel alteração nos symptomas. O medico nunca alcançára um triumpho tão barato, nem tão util. Conhecer a alma é, em muitos casos pathologicos, a mais prestante medicina.

No dia immediato, soube o conego que a viscondessa visitava de tarde sua filha. Preparou-se, felicitando-a por ter merecido a Deus tão excellente mãe. Dissipou-lhe os receios, a vergonha, e até o medo que se lhe incutiu, temendo que sua mãe viesse dissuadil-a do seu casamento.

--Sua mãe--dizia o conego--naturalmente não lhe falla em Luiz da Cunha. A menina não deve tambem fallar-lhe n'elle.

--Porque? não ha de elle ser meu marido?

--E que tem isso? O coração de sua mãe é bondoso; mas não se segue que a bondade desvaneça o melindre natural. Calar tal nome é uma prova de respeito com que deve retribuir a generosa amizade de sua mãe. É provavel que ella pouco lhe diga. A sua primeira expansão será de lagrimas. Receba-as que são, talvez, as que salvam a infeliz senhora da morte.

Não se enganára o conego. Rosa Guilhermina fraqueou quando recebia nos braços Assucena. Desmaiada, podéra reputar-se morta, se o coração não batesse violento no seio da consternada filha.

Bernabé, amparando-a tambem, perguntava a Assucena quanto daria por salvar sua mãe.

--Dou a minha vida!--exclamou ella.

--E, se sua mãe lhe pedisse o coração, e não a vida?

--Tudo, tudo, senhor!

--E, se ella lhe pedisse que renunciasse o amor de Luiz da Cunha?

--Para salval-a?

--Sim, para salval-a.

--Morreria, mas renunciava...

--Melhor lhe fôra então morrer!...--disse em voz soturna Bernabé, afastando a viscondessa esvaida dos braços da filha, e fixando n'esta um olhar de severa reprehensão. A neta do arcediago deixou cahir os braços, e pregou os olhos no chão. Ora o rubor, ora a pallidez revesavam-lhe no rosto afflicto. Dôr e vergonha, amor e arrependimento, esperança e desespêro, eram por ventura as variadas sensações que lhe occorreram, atropellando-se para lhe fazerem mais difficil a consciencia da sua situação. A infeliz não podia combinar as palavras esperançosas do conego com o repellão e olhar severo que acabava de soffrer.

--Venha comigo, menina...--disse D. Perpetua receiando algum accidente dos que lhe davam depois do dia anterior.

--Eu não vou sem que minha mãe me falle.

--Deixe-a tornar a si; depois, ficará sósinha com ella.

Assucena obedeceu. Minutos depois, Bernabé sahiu da sala em que ficava a viscondessa, esperando a filha, deitada n'um canapé.

O conego disse quasi ao ouvido de Assucena, que entrava na sala:

--Perante Deus é responsavel pela vida de sua mãe. Ella não lh'o dirá; mas digo-lh'o eu. No dia em que a menina se julgar feliz, amando um infame, matou sua mãe.

Assucena entrou na sala atordoada por estas palavras.

Bernabé Trigoso esfregava as mãos em ar de jubilo.

--Porque estás assim contente?--perguntou D. Perpetua, alegrando-se tambem de anticipação.

--Contentissimo! Salvei-as ambas! Aqui a grande difficuldade era salvar a filha! Bemdito seja Deus, que nunca me abandonou n'estas difficuldades!

--Pois então? como é que salvaste a menina?

--Puz em luta dous sentimentos fortes. A mãe que morre por sua filha, e o amado que despresa a sua amante. Ha de vencer o mais nobre, que é o primeiro, e tem em seu auxilio um coração ainda puro. Verás, Perpetua; A viscondessa não lhe falla em Luiz da Cunha. Este silencio só de per si é uma pungente accusação á filha. A viscondessa dá indicios d'uma morte proxima. Assucena começa desde já a sentir o remorso de a ter matado. A ancia de salval-a ha de vencer a ancia da saudade. Por fim é a mãe que triumpha, e não triumpharia se viesse lançar-lhe em rosto a deshonra. É Deus que me manda. Creio que salvaria Assucena sem o conselho do medico. Escusavamos, talvez, uma mentira...

--É verdade, Bernabé!--atalhou pungida a senhora D. Perpetua.

--Mas, emfim, Deus sabe as intenções com que a gente mente para tornar menos hediondo o crime do seu semelhante... Não ouves soluçar na sala?

--Ouço... são ambas...

--Bem, bem!

--Escuta, Bernabé...

--Que ouves?

--Palavras... _perdão_... _não me mates_... _amaldiçoada_... É a mãe que falla...

--Bem, bem!

Pouco depois, abriu-se a porta da sala. Bernabé Trigoso, com sua irmã, entraram. Mãe e filha enxugavam as lagrimas. A viscondessa abraçou-se a D. Perpetua, pedindo-lhe que fosse mãe de sua filha, forçando-lhe a mão para aceitar uma bolsa. O conego reparava na luta silenciosa em que sua irmã parecia afflicta e envergonhada. Cheio de affabilidade, tomou da mão de Rosa Guilhermina a bolsa, dizendo:

--Muito obrigado a v. ex.ª