A Neta do Arcediago

Chapter 5

Chapter 53,997 wordsPublic domain

--Choraria! pois não! Se fosse pae, mandava o tal bregeiro de presente ao diabo. Havia-lhe de arrancar o coração pela bôca. Se fosse pae--accrescentou o assassino do mestre de latim, morto a garfo--não descançava em quanto os não arrebentasse a ambos. Como não sou, não tenho nem quero ter direito algum sobre tal mulher. Lá se avenha.

--Lá se avenha!--exclamou Rosa, estendendo-lhe os braços supplicantes--Lá se avenha... não é assim, José! Assucena é minha filha, é filha de tua mulher... sou mãe que tenho de sentir a deshonra d'essa desgraçada!... Por compaixão, meu amigo, por compaixão não a abandonemos!

--Que queres tu agora? que eu vá buscal-a para casa na minha carruagem?

--Não... Pelo amor de Deus não zombes com a desgraça...

--Pois que queres?

--Que te unas a mim para fazermos com que Luiz da Cunha case immediatamente com ella.

--E que tenho eu com isso? Eu sou algum padre que os case? Isso é lá com o prior.

--Jesus! tu não és tão cruel como estás fingindo, meu querido José... Finges que me não entendes... Paciencia! Queres-me morta.... pois sim.... eu te farei a vontade.

--Ora percebam este disparate! Que tenho eu com o casamento de tua filha?

--Não tens nada; mas se fallares com João da Cunha...

--Fallarei. Não queres mais nada?

--E te compadecêres de minha filha para que ella tenha um bocado de pão...

--Agora entendi... O tal patife só casará com Assucena dotada...

--Não sei, José; não sei se casará com ella sem dote; póde ser que sim; mas são ambos pobres, bem sabes que João da Cunha deve tudo que poderia deixar a seu filho... Não a desamparemos.

--Digo o que disse, Rosa. Não dou nem um pataco para que ella case com o filho da preta, com o amante das mulheres perdidas, com o infamador das senhoras honestas, e com o perdulario, que dissiparia n'um anno toda a minha fortuna, se podésse metter-se em minha casa. É mais facil eu recebêl-a em casa...

--Deshonrada, infamada, perdida...

--Sim; é mais facil recebêl-a assim, que aceital-a casada com esse desastrado galopim, hypocrita, e infame que deshonra a filha da unica senhora que o não repelliu de sua casa. Eu tenho sentimentos... Bem sabes que os tenho desde que estudei latim na travessa do Laranjal... Sei, ha muito, o que é ter nobreza d'alma. Assucena não é minha filha; mas que me appareça esse vil seductor, e verá quantos dentes lhe ficam na bôca.

O dialogo prolongou-se n'uma luta de afflicção da parte da infeliz mãe, e um immutavel proposito da parte do padrasto.

João da Cunha, contra o seu costume, entrava ao meio dia em casa do visconde.

Vinha em miseravel estado. As veias da face enturgeciam do sangue que lhe subiu á cabeça em borbotões. O mal aggravou-se na presença de Rosa, que lhe viera ao encontro, banhada em lagrimas, soluçando palavras inarticuladas. O visconde, impassivel, encarava João da Cunha com sobrecenho.

--Tem um excellente filho, senhor Cunha!--disse José Bento, balançando a cabeça com pungente ironia, e solfando no pavimento com o pé direito.

--Tenho um desgraçado filho, senhor visconde!--murmurou João da Cunha, cahindo extenuado sobre uma cadeira, e amparando a fronte calcinada na mão ardente como ella.

--Eis-ahi continuou o inexoravel credor--o que é um fraco pae, que deixou crescer seu filho á lei da natureza Agora regale-se, senhor Cunha!

--Não me despedace, visconde! Respeite a minha dôr!--murmurou o atormentado pae, erguendo as mãos na indescriptivel ancia da sua vergonha.

--E quem é que respeita a dôr d'essa mãe, que está ahi chorando ao pé de si?

--Sou eu, visconde, sou eu. Somos ambos paes; comprehendemo-nos chorando....

--Agora!... Remedeiam alguma cousa?

--Venho aqui para combinarmos a maneira de remediar esta desventura.

--De que maneira?--exclamou a viscondessa.

--Esse desgraçado escreve-me uma carta... Eil-a aqui: visconde... Leia, que eu não posso.

--Nem eu!--disse bruscamente o visconde--que me importa a mim a carta de seu filho? Não tenho nada com elle: entendam-me d'uma vez para sempre.

--Eu leio...--disse Rosa tomando a carta com soffreguidão.

Lendo-a, fechou-a, e disse a João da Cunha:

--É impossivel.

--Impossivel!

--Meu marido não dota Assucena, e, portanto... minha filha... está perdida!

--Perdida? não!--atalhou João da Cunha--Em minha casa ha umas sôpas; e, em quanto eu viver, meu filho aprenderá o officio de sapateiro para não morrer de fome, depois da minha morte. Eu vinha aqui pedir uma esmola para o futuro de Assucena; não venho pedir o preço da reparação da sua honra. É preciso que me entenda, senhor visconde. Meu filho é neto dos Cunhas e Faros. Não mercadeja com a deshonra das suas amantes; não calculava com as suas migalhas quando arrancou a filha d'esta senhora aos braços da virtude...

João da Cunha, alteando cada vez mais a voz, e embaralhando as ideias em desalinhada precipitação, denunciava o ataque periodico de sangue, que se lhe injectava nos olhos, transpirando na testa em frias bagas de suor. Nem o visconde o entendia já, nem elle mesmo seguia com consciencia o curso arrebatado dos pensamentos, quando de improviso levou as mãos á cabeça, exclamando:

--Senhora viscondessa, se não sou sangrado já, morro, ou endoudeço!

O visconde condoêra-se. Deu ordens prestes, e o facultativo veio rapido. Depois de copiosa sangria, eram pouco sensiveis as melhoras. João da Cunha estava febril, e fallava em delirio. Sacudindo os braços vertiginosamente, pedia que lhe afastassem dos olhos o espectro de Ricarda.

Decorridas horas, progredia mais intensa a febre, mais frenetico o delirio. As afflicções agglomeravam-se no coração de Rosa, em quanto seu marido curava serenamente dos seus negocios, sem enganar-se no quebrado de uma operação arithmetica, em seu prejuizo.

A crise de vida ou morte passára; mas os medicos disseram que João da Cunha não recuperaria o seu completo juizo por muito tempo, ou talvez por nunca mais. Era o decimo ataque que soffria.

Entretanto, um criado de Luiz da Cunha esperava no Campo Grande, local do palacete dos Cunhas, a resposta. Cinco horas depois, vira descer da carruagem, nos braços de dous medicos o pae de seu amo. Approximára-se, para ser reconhecido, os medicos disseram-lhe que se afastasse, e os lacaios afiançaram-lhe a demencia do fidalgo.

Tal foi a resposta que Luiz da Cunha recebeu.

N'essa mesma noite, o filho de Ricarda entrou no quarto de seu pae. Apertou-lhe a mão, chamou-o tres vezes inutilmente, e, á quarta, ouviu as seguintes palavras, que pareciam ser ditas ao facultativo presente:

--Diga a meu filho que seja honrado casando immediatamente com essa menina. Que venha para esta casa, com sua mulher, que será minha filha. Que aproveite os poucos annos da minha vida para se formar em mathematica, e assentar praça depois, que foi essa a mais esplendida carreira de seus avós, valentes generaes, quasi todos mortos no campo da honra, sem uma nodoa ignominiosa. Em quanto elle vai estudar, sua mulher poderá mover á piedade o padrasto, e levantar do chão alguma esmola que elle lhe atire como um osso a um cão importuno. Se lh'a não dér, nem por isso será menos filha de João da Cunha; porque mais vale ser filha de João da Cunha, que enteada do filho d'um retrozeiro do Porto. Que venham ambos vêr-me.

--Eu estou aqui, meu pae.

--E que não se perca em Coimbra como eu me perdi...--continuou elle, surdo ás interrupções incessantes de Luiz--Foi lá que me atirei a este fôsso, d'onde não ha sahida, nem pela porta da contrição. Não se segue do meu crime a expiação em meu filho. Se causei a morte de Ricarda, não fui eu que a matei; foi seu marido. Se se reconciliaram na presença de Deus, é bem que eu pague o sangue com o sangue: mas meu filho, esse não...

Luiz da Cunha não decifrava das vagas exclamações de seu pae a resposta do visconde. Retirou-se para Lisboa, e entrou em uma casa da rua do Principe. Subiu a um terceiro andar, e recebeu nos braços a inquieta Assucena, que chorava e tremia.

--Porque choras?

--Estava sósinha, e muito triste, Luiz...

--A tua criada não te fez companhia?

--Ninguem m'a póde fazer... Ou tu, ou ninguem... Agora, não choro, nem tremo... Que resposta deu minha mãe?

--Não sei: meu pae está effectivamente doudo. Não comprehendi nada do que elle disse; mas, a acreditar o delirio em que o encontrei, o visconde não lhe respondeu do modo que suppúnhamos.

--E então?

--E então, minha filha, és o que eras para mim. Bem sabes que te não amo por calculo, nem te adoro menos se os meus planos falharem.

--Eu bem o sabia, Luiz! O dinheiro não faz a tua felicidade nem a minha...--disse ella abraçando-o com o acanhamento do pudor.

--De certo não, Assucena. O caminho que temos a seguir é sempre o mesmo. Rica ou pobre serás minha esposa.

O amor não se finge. A tibieza das phrases triviaes de Luiz da Cunha diz-nos que o arrependimento veio, mais cêdo do que devia esperar-se, manifestar um enthusiasmo sobre posse. Não se acredita, sem ter experimentado, a subita mudança que transforma o homem, quando a posse absoluta da mulher, que se lhe dá, é logo misturada de desgostos imprevistos. Um rapto, de que se espera um dote, é um pêso aborrecido quando a esperança, fugindo, apenas deixa nos braços do raptor uma mulher sem illusão, nem prestigio. E, peor ainda, quando o amor é debil, o coração extenuado não aceita os sacrificios grandes, que, raras vezes, acrisolam o amor de fantasia, como era aquelle de Luiz da Cunha.

Querem vêl-o tal qual era nas primeiras vinte e quatro horas de convivencia com a filha de Rosa Guilhermina?

Chegou a conceber o pensamento de fazêl-a entrar no convento em quanto o escandalo não era publico! Por vergonha, lhe não fez a ella a proposta reparadora da sua virtude! A virtude, portanto, na opinião d'este homem era um attributo bem facil n'uma mulher!

Passaram-se alguns dias, sem Assucena desconfiar da frieza do seu amante. A nudez, e os gestos de impaciencia que elle, ao quarto dia, não podia esconder, traduziu-os ella como inquietação pela perigosa enfermidade de João da Cunha.

Luiz sahia de noite, a visitar seu pae. Não o encontrava nunca nos intervallos lucidos, e sabia que os accessos eram cada vez mais duradouros.

Resolveu, sem consultar Assucena, escrever á viscondessa. A carta foi ter ás mãos do visconde. O visconde devolveu-lh'a aberta, com estas linhas:

«_Em minha casa não ha quem responda ás infames cartas do senhor Luiz da Cunha. Se quer dinheiro, trabalhe. Sahiu-lhe errado o seu calculo. Creia que me não enganou a mim, que tenho experiencia para conhecer os patifes. O que lhe vale ao senhor é essa mulher não ser minha filha... De hoje em diante, os seus portadores a esta casa serão corridos a chicote._»

Estas linhas provocaram toda a irascibilidade de Luiz da Cunha. A ameaça era feita em termos muito insultantes, e o brio não tinha ainda expirado no filho de João da Cunha. A carta recebêra-a elle em casa de seu pae. N'essa noite não veio á rua do Principe, e mandou um bilhete desculpando-se com a gravidade da doença de seu pae. Assucena viu a sua desgraça a um raio de razão n'esse bilhete. Eram apenas decorridos vinte dias, depois da sua fuga! Chorou uma noite inteira, e escreveu a sua mãe uma longa carta, que rasgou.

Luiz da Cunha apeou no pateo dos Paulistas, esperando o visconde de Bacellar que era certo ás onze horas de passagem para o Banco, ou para a praça commercial.

Vendo-o, parou diante da sua carruagem. O boleeiro sustou os cavallos, e o visconde, sem auxilio de criado, saltou da portinhola com resolução.

O filho de João da Cunha não entreteve o palavriado preliminar n'estes conflictos. A sua arma era um chicote, e a do filho da Anna Canastreira eram os braços musculosos. Travou-se a luta. Cada murro bem puxado do visconde, Luiz recambiava-lh'o na face em chicotada, que se repetia sobre o vergão da primeira. Os criados do visconde soccorreriam o amo, se não encontrassem de frente os criados de Luiz da Cunha. Eram dous os grupos de gladiadores; e o povo, sem ser romano, parecia, pela sua inercia, gosar o espectaculo curioso entre os dous athletas.

O capitalista fôra ferido na face pelo martello do chicote. Os cabos de policia, e a guarda do correio, supposto que tarde, empregaram a força. O capitalista teve logo ahi um fiador, que o salvou de entrar entre bayonetas. Luiz da Cunha do corpo da guarda foi á administração, e d'ahi ao Limoeiro, d'onde sahiu afiançado quarenta e oito horas depois. Tudo isto foi ridiculo a não poder ser mais! Cada qual explicava o caso com uma anecdota. A fuga de Assucena era acontecimento que não passára d'uma roda muito restricta; e, portanto, era livre a invenção aos interpretes do pugilato.

Passára-se uma noite e um dia de solidão para Assucena. Como seriam entretidas aquellas quarenta e oito horas! Que presentimentos, que receios, que saudades, que reprehensões da consciencia atormentariam a pobre menina! Fechada no seu quarto, rejeitára o alimento que a indifferente criada lhe offerecia. A sua dôr tinha frenesis, que a extenuavam. Todo o seu esforço em resignar-se era baldado, quando a esperança lhe mentia nos passos que subiam a escada e paravam no primeiro ou no segundo andar.

Depois de quarenta e oito horas, sem noticia de Luiz, o desespêro fortaleceu-a resolvendo-a a procural-o em casa de seu pae.

Á noite, sahiu com a criada, perguntando de rua em rua o caminho do Campo Grande. Á porta de João da Cunha estava um criado. Pediu-lhe que chamasse o senhor Luiz da Cunha; responderam-lhe que não estava lá, e que o mais certo lugar onde o encontraria era no Limoeiro.

--Prêso!--exclamou Assucena.

--Sim, minha menina, prêso pela vigesima vez por causa das suas patacoadas. Não chore, creaturinha, que o senhor Luiz ha de sahir brevemente.

--E porque o prenderam?--perguntou a criada.

--Porque deu umas chicotadas no visconde de Bacellar, assim como quem não quer a cousa.

Assucena sentiu-se arrefecer do gêlo que começa na alma, e vem em calefrios á sensibilidade exterior. Encostou-se á criada, pedindo-lhe que não perguntasse mais nada. Atravessou, sem murmurar um gemido, sem um queixume, parando exhausta de forças a cada instante, a grande distancia que a separava da rua do Principe. Entrando no seu quarto, cahira de face sobre o leito, não para repousar, mas para reprimir os gritos que podiam ouvir-se no segundo andar.

E ouviram-se.

Era meia noite. A criada adormecêra, indifferente aos gemidos da ama, que lhe não aceitava as imbecís consolações. Assucena, só e ás escuras, porque a vela se extinguira, abrira a janella do seu quarto; mas a noite de Janeiro era tenebrosa e frigidissima. A filha da viscondessa de Bacellar tiritava de frio, de susto, e até de terror de si mesma. Sentava-se sobre a cama, lançando sobre os hombros o cobertor. Fitava o ouvido a cada tropel remoto de passos. Desenganada, ajoelhava com as mãos erguidas pedindo a Deus que lhe désse vida até que a luz do dia lhe deixasse procurar Luiz. Assucena passava por um d'esses soffrimentos em que se julga possivel a morte instantanea.

Depois, as trévas da noite romperam-se em relampagos successivos, e o quarto illuminava-se de clarões azulados. A aterrada menina correu a fechar a janella, quando uma chuva fria lhe açoitou as faces. A dôr immensa só tinha expansão nos gemidos. Lançou-se sobre o leito sem reflectir que a escutavam, invocando Maria Santissima, pedindo compaixão a sua mãe, chamando Luiz com alarido de demente, e soluçando de modo que, a distancia, simulava uma mulher que se contorce entre os braços que a matam pela asphixia.

No andar de baixo morava uma devota senhora, que accendia duzias de velas, e rezava duzias d'orações a Santa Barbara. O quarto d'ella estava ao pé do de seu irmão, o conego Bernabé Trigoso, que dormia no quarto, cujo tecto era o pavimento do de Assucena.

Foi elle o primeiro que ouviu os gemidos, os passos, o abrir e fechar da janella, o ranger do leito, e ultimamente os gritos.

Chamou sua irmã, e disse-lhe que escutasse. D. Perpetua Trigoso applicou o ouvido, e affirmou que não era illusão do conego os estranhos gritos da mysteriosa menina que alli morava.

--Vamos nós lá, Bernabé?--disse ella quando seu irmão lhe pedia o capote, e a mandava sahir do quarto para elle se vestir.

Subiram ao terceiro andar cada um com sua vela mystica, das que a senhora D. Perpetua accendêra á santa das trovoadas, e bateram á porta.

Assucena, sem pensar nem discernir, como desintorpecida d'um lethargo, foi apalpando na escuridade, imaginando que era aquelle o bater de Luiz da Cunha. Abriu com precipitação, e recuou espavorida ao aspecto um pouco funebre de Perpetua que lançára um chale de cachemira escura sobre a cabeça, franjada na testa por cabellos brancos. A figura magra, macillenta e cadaverica do velho, não era menos assustadora, vista ao clarão da vela que lhe betava de sombras as rugas profundas do rosto.

--Não se assuste, visinha--disse o conego, entrando--nós somos os moradores do andar de baixo, e, como ouvissemos gemidos cá em cima, viemos em soccorro, se é que podemos servir de algum bem á pessoa que nos cortou o coração com os seus gemidos.

--Era talvez mêdo dos trovões...--accrescentou D. Perpetua, dando tambem um passo para dentro da porta.

--A menina estava ás escuras?--tornou o conego.

--Sim, senhor.

--E não tem criada?--disse a irmã.

--A criada está a dormir.

--Quer a menina vir comnosco para a nossa casa até ser dia?--disse o conego.

--Vou... se me concedem esse favor--respondeu sem titubear Assucena.

--Pois então, menina--atalhou Perpetua--cubra o meu chaile, ou vá buscar o seu, que está muito frio na escada.

--Eu não posso ter mais frio...--disse a filha da viscondessa.

--Nem mais febre--tornou o conego, apalpando-lhe as mãos com singular carinho--Ora venha, venha comnosco. Anda lá com ella adiante, Perpetua, que eu fecho a porta.

Perpetua assentou Assucena no seu esteirão; embrulhou-a em cobertores; e deu-lhe uma chavena de café com um golo de genebra, por conselho de seu irmão. Depois sentou-se a par com ella, que não cessava de tiritar, Bernabé veio, melhor forrado contra o frio, sentar-se ao pé d'ellas. As lagrimas de Assucena eram inesgotaveis. Perpetua queria consolar, mas não conhecia a dôr. O conego, fixando alguns minutos em silencio o semblante da pobre menina, fez a sua irmã um gesto significativo, tomou com paternal ternura as mãos abrazadas de Assucena, e perguntou-lhe:

--Minha filha, porque soffre? Abra o seu coração. Se lhe não podérmos ser uteis, poderemos ao menos conseguir que o seu soffrimento diminua respirando pelas palavras. Quem sabe se Deus nos approximou? Diga o que tem: falla com um padre, que é seu pae espiritual.

VII.

PERDIDO SEM REDEMPÇÃO

Quando Luiz da Cunha era conduzido por dous soldados á administração do bairro, encontrou Liberata n'uma sege, e respondeu com um gesto de cabeça á rasgada cortezia que ella lhe fizera.

A sege de Liberata retrocedêra, e vinha a passo lento seguindo Luiz da Cunha. Quando os soldados pararam á porta da auctoridade, e Luiz, sem reparar na sege, desapparecêra no interior do páteo, Liberata acenou a um dos soldados, que se chegou á portinhola. Perguntou por que fôra prêso aquelle sujeito, e o soldado informou-a com a minuciosidade que podia. Pagou com um cruzado novo o pequeno serviço do informador, e pediu-lhe que subisse á sala da administração, e dissesse ao ouvido do prêso que uma pessoa, que elle encontrára, em uma sege, lhe mandava offerecer não só dinheiro, mas até a influencia dos seus amigos, se com isso era possivel a sua immediata soltura.

O soldado não conseguira fallar ao prêso; mas soubera de um official de diligencias, seu conhecido, que o tal sujeito só podia ser solto com fiança, e não estava presente ninguem que o afiançasse.

Liberata deu ordens promptas ao boleeiro, e a sege, a grande galope, correu algumas ruas, e parou á porta de um conselheiro, official-maior d'uma secretaria de estado. S. ex.ª não recolhêra ainda da secretaria. A protectora de Luiz da Cunha mandou tocar para o Terreiro do Paço, e fez parar a sua sege a par da do conselheiro. Chamou um correio de ministro, que passeava debaixo das arcadas, e mandou-o entregar ao official-maior o seu _porte-monnaie_. O conselheiro veio rapidamente á portinhola. Trocou algumas palavras com Liberata, entrou na sua sege, e partiu para a administração do bairro.

Perguntou por Luiz da Cunha; disseram-lhe que fôra remettido ao juiz criminal. Foi ao juiz criminal, quando o prêso acabava de sahir para o Limoeiro. Declarou o amante de Liberata que vinha afiançal-o. O juiz aceitou respeitosamente a fiança, e prometteu mandal-o soltar o mais depressa que se lavrasse o auto. Sahia, porém, o conselheiro, quando uma carta de uma notabilidade do Supremo Tribunal recommendava ao juiz que não aceitasse fiança, paliando quanto podésse a soltura inconvenientissima de Luiz da Cunha, que ameaçava a existencia do visconde de Bacellar.

Liberata, com a certeza da soltura, dada pelo amante, foi á cadeia, procurou Luiz da Cunha que passeava ainda na sala do carcereiro, e contou-lhe rasgadamente os passos que déra. O preso agradeceu-lh'os com aviltante submissão, não sentindo a vergonha de ser unicamente protegido por tal mulher. Sem o recriminar, a amante do conselheiro perguntou-lhe, sorrindo, se melhorára de fortuna, despedindo-a do seu serviço. Luiz da Cunha teve a sinceridade de confessar que tinha saudades do tempo em que vivêra com ella. Liberata disse que tambem as tinha, e deu como prova não ter sido fiel a nenhum dos seus amantes, depois d'elle, porque não encontrára rapaz tão perfeito, nem tão despreoccupado das asneiras sociaes, como Luiz da Cunha.

Recordaram scenas da sua vida de dous annos, dando tempo a que viesse a ordem de soltura. Passaram duas horas, e, como ella não chegasse, Liberata impacientou-se, e sahiu, dizendo que, se entretanto a ordem viesse, e elle quizesse fazer-lhe uma visita, depois da meia noite, a procurasse na rua de S. Bento, n.º 46.

Luiz prometteu-lhe a suspirada visita, e apertou-lhe com estremecida meiguice a mão. Em quanto lhe dava a mão direita, Liberata lançava com a esquerda no chapéo de Luiz o _porte-monnaie_. Sahiu.

Foi d'uma corrida a casa do conselheiro; obrigou-o a sahir, a vencer todos os obstaculos que redobraram desde que o proprio visconde peitára o juiz, e, taes elles eram, que só, no dia immediato á tarde, Luiz da Cunha foi solto, e o conselheiro veio allegar a Liberata trabalhosos serviços, que ella pagou com um beijo.

Imaginam que Luiz da Cunha, apenas livre, nem tempo tem de procurar uma sege, e corre á rua do Principe, onde o espera a atormentada Assucena?

Não foi assim. Sahiu placidamente da cadeia. Desceu á primeira estação de seges no Terreiro do Paço. Montou a que lhe pareceu mais bem servida de parelha. Foi jantar ao Matta, no caes do Sodré. Subiu pela rua do Alecrim. Tomou café no Marrare. Passou na rua de S. Bento para vêr a casa n.º 46; cortejou Liberata que, por dentro das janellas, lhe fitava um pequeno oculo de theatro. Foi ao Campo Grande saber como seu pae estava. Entristeceu-se um momento quando lhe disseram que passára peor, depois que um imprudente lhe dissera que seu filho batêra no visconde de Bacellar. Não apeou para lhe não irritar os padecimentos. Veio para o theatro de S. Carlos, e reparou que o encaravam de lado, voltando-lhe as costas, se elle os encarava de frente. Achou-se sósinho no salão, e sósinho no banco em que se sentára. Depois da meia noite, despediu o boleeiro defronte do palacio das côrtes, e seguiu a rua de S. Bento até á casa n.º 46.

Dos moveis que Luiz da Cunha deixára á sua amante, nem uma cadeira existia. A primeira sala, forrada de ricos tapetes, opulenta de luxo e mau gosto não invejava o apparato da garrida decoração das salas d'um brazileiro de torna-viagem, que vos deslumbra com o seu baazar de porcellanas, de relogios, de cães e patos de vidro, de conchas variegadas, de ricas encadernações em marroquim de livros nunca abertos, de globos de luzente cobre, de coxins amarellos e vermelhos.