Chapter 4
--Que tristes cousas vou dizer-te... Teu padrasto não te daria uma moeda de cobre como dote, e eu não posso tambem dar-t'a porque sou pobre como tu. Luiz da Cunha não tem patrimonio, não póde succeder na herança de seu pae, é pobre como ambas nós, logo que seu pae lhe morra. Vês o que é o mundo? Um casamento entre duas pessoas, habituadas a não proverem com o trabalho ás suas precisões, é uma desgraça. Tu serias muito infeliz, quando teu marido te dissesse «não temos pão.» Minha filha, eu já soube o que é não ter pão. Já desfiz um meu vestido para que tu não andasses nua. Já andei sem lenço na cabeça para que tu não tivesses fome. Já me ajoelhei comtigo nos braços, pedindo a Deus que nos levasse ambas, antes que tivessemos de morrer de fome entre quatro paredes. A amiga que nos valeu a ambas, é hoje uma desgraçada, não de fortuna, porque eu privo-me de muito para que ella tenha tudo. É desgraçada... pobre Maria Elisa... porque se deixou arrastar pelos cabellos onde a leva o mau anjo das suas paixões... Coitadinha! no que deu aquella mulher!...
--Não chore assim, minha mãe...
--Deixa-me chorar... eu preciso de chorar alguma vez na tua presença... São mais dolorosas as lagrimas, sem testemunhas. Preciso d'uma confidente, e, se o não és tu, quem o será? Nos salões é preciso rir sempre. Com meu marido, é necessario ser o que elle é... Comtigo posso ser o que sou... Minha filha, tua mãe vai pedir-te um favor...
--Favor!... que quer, minha querida mãe?
--Esquece Luiz da Cunha.
--Esquecêl-o...
--Se não pódes esquecêl-o... resigna-te, não alimentes esperanças, não lh'as dês a elle...
--Isso sim... isso posso fazêl-o... Quer minha mãe que eu me recolha já hoje ao convento?
--Nem tanto, meu anjo, nem tanto!... Irás quando tens de ir...
--Mas eu não devo vêl-o mais...
--Porque não? Assim o amas?!
--Pensei que poderia vêl-o todos os dias. Não queria senão ser sua irmã. Diz a mãe que não posso... não o serei; mas não tenho coragem... não sei como hei de dizer-lhe que o não sou, porque elle ha de perguntar-me a razão porque não sou sua irmã, sua amiga, e eu não sei o que hei de responder-lhe.
--Mas... prometteste-lhe tu essa estima de irmã?... Córas!... responde, Assucena.
--Prometti...
--Quando?!
--Uma noite que a mãe sahiu, elle veio adiante do pae...
--Porque me não disseste esse encontro, se elle te pareceu innocente?
Assucena baixou, corrida, os olhos, e limpou duas lagrimas, que lhe tremiam nas pestanas. Ergueu-se impetuosamente, e escondeu a face no seio de sua mãe, que chorava com ella.
--Foram tardias todas as minhas reflexões, minha filha?--disse a mãe com a voz cortada, procurando vêr a face de Assucena.
--Não foram... Eu serei o que minha mãe quizer que eu seja; mas não sei porque devo maltratar um homem, que lhe merece tantas provas de estima.
--Eu não te digo que o maltrates...
--Se elle me procurar, não lhe fallo.
--E porque não?
--Porque... seria peor... seria enganal-o, porque não posso esquecêl-o.
--Desde quando o amas, minha filha?
--Tinha eu dez annos, e elle dezesete...
--Oh filha!--interrompeu a mãe, sorrindo--isso não era amor!
--Não sei o que era... era amizade... nunca o esqueci... E quando o vi, depois de oito annos, vi tudo que me era mais caro na vida, depois de minha mãe...
--E disseste-lh'o?
--Nunca... mas, se elle m'o perguntasse, dizia-lh'o. A razão não me crimina d'este affecto de irmã...
--Quem sabe, filha!... Talvez, mais tarde... outra razão, a da experiencia, venha desmentir a que te falla hoje...
--Penso que não... Hei de seguir sempre os conselhos de minha mãe. Farei tudo o que posso. Se é possivel esquecêl-o, empregarei todos os esforços para isso. Diga-me a mãe quaes elles são.
--Terrivel pergunta!--disse a filha do arcediago, no fundo da sua consciencia.
--Não me responde, minha mãe?
--Não o evites de todo... Recebe-o, se elle te visitar... Entretanto, póde ser que Deus permitta um milagre.
--Esquecêl-o?
--Esquecêl-o, ou poder ser sua mulher. Não é esta a intenção de Luiz da Cunha?
--Não sei. Não temos tido a liberdade de fallar n'essas cousas. Se elle me tivesse fallado n'isso, eu dizia-lhe que seria sua esposa, sem me lembrar que é necessario um dote.
--E sem o consentimento de tua mãe?
--Minha mãe quer a minha felicidade...
--Confia-te a mim, Assucena... eu continúo a ser a tua amiga. Hei de fallar hoje com teu padrasto... Agora mesmo que elle ahi vem... Retira-te.
O visconde de Bacellar entrava, com a penna na orelha, e uma carta aberta nas mãos.
--Rosa--disse elle, franzindo a testa, e tirando os oculos--lê essa carta. É chegada agora do Porto. Basta que leias as ultimas linhas. Senão, eu t'as leio:
_«Em quanto a Maria Elisa, meu caro visconde, sinto dizer-lhe que está uma perdida. Ultimamente adquiriu um amante que lhe consome a generosa mesada que a senhora viscondessa lhe dá. Acho prodigalidade despender cincoenta mil reis cada mez, para sustentar dous viciosos. Ella tafula, como se tivesse doze contos de reis de renda. Os cinco mil cruzados, que sua senhora lhe mandou ha um anno, dissipou-os em menos de tres mezes. Não sei, ainda assim, como ella póde fazer tanto com cincoenta mil reis mensaes. Disseram-me hoje que ella recebia outros cincoenta; não posso colligir d'onde venham. Os meus respeitos &c. &c.»_
Rosa Guilhermina estava pallida e fria. As ultimas linhas d'esta carta eram a denuncia do emprego que ella dava ás suas economias. O filho da senhora Anna Canastreira, lida a carta, passeou na sala, dobrando-a, soprando, limpando os oculos, e batendo com a caixa do rapé na palma da mão esquerda.
--Que dizes tu a isto, Rosa?
--Que hei de eu dizer, José! que Maria Elisa deve muito a Deus, se a levar d'este mundo.
--Mas, em quanto Deus a não leva, é preciso pôr cobro a isto. Sabes a maneira como?
--Diz, meu amigo.
--Levantar-lhe a cesta. Os beneficios que lhe deves estão pagos com usura. Em quanto esteve comnosco foi tratada como rainha. Deu-lhe o diabo da asneira na cabeça, e fez tropellias que me obrigaram a sahir do Porto. Sahiu da companhia do S*** C***, déste-lhe uma casa mobilada de tudo, e uma mesada que sustentava uma familia. Vendeu casa e moveis, e andou de amante em amante, até que lhe déste cinco mil cruzados para ella cemprar uma quinta em Santo Thyrso. Qual quinta nem qual carapuça! Gastou os cinco mil cruzados, gasta os cincoenta mil reis, e outros cincoenta, que naturalmente são remettidos por ti. Não te ralho Rosa: o mal feito não tem remedio; mas reprovo d'hoje em diante o desfalque da nossa casa, para trazer no galarim uma mulher sem vergonha, uma libertina de quarenta annos. Se lhe queres continuar a mesada, manda-a entrar n'um convento, onde a não conheçam, e sustenta-a lá. Assim ha de dizer-se que o meu dinheiro serve d'alimentar mulheres perdidas, e vadias. Não estou por isso.
--Eu pensarei no que se ha de fazer: entretanto peço-te que lhe não suspendas a mesada. Faz isto que te supplíca tua mulher.
--Farei; mas tu não te lembras de fazer economias para essa rapariga que não tem nada de seu?
--Qual rapariga? minha filha?
--Pois quem?
--É a respeito d'ella que eu desejava muito alguns momentos de attenção. Tenho pensado no futuro d'esta menina.
--Pois já não queres mettêl-a no convento?
--Quero; mas o convento, sem profissão, não é futuro. Diz-me, meu amigo: tu dás um dote a minha filha?
--É a quarta vez que me fazes essa pergunta, e eu respondo o que já respondi. A filha da viscondessa de Bacellar, das duas uma: ha de casar com grande dote, ou não casar. O grande dote não o dou; com pequeno dote não serve senão a algum amanuense de tabellião. Pediu-t'a alguem em casamento?
--Não; mas se tu quizesses, poderiamos casal-a, talvez, com...
--Com quem?
--Com Luiz da Cunha.
--Estás tôla! Deus te livre d'essa asneira! Pois tu acreditas que elle valha hoje mais do que valia ha tres mezes?!
--Acredito: não tem nada do antigo homem.
--Não terá; mas pelo sim, pelo não, sempre te vou dizendo que para tal casamento não sáe um pataco da minha gaveta. Tomára eu o que por lá anda por casa do João da Cunha! Cara me tem custado a amizade do tal fidalgo! Já não tem bens livres que cheguem para o pagamento de dez mil e tantos cruzados que me deve, afóra a fiança que eu lhe prestei para um titulo de divida que o extravagante do filho assignou de um conto de reis. Tem juizo, Rosa. Não te deixes enganar com apparencias. Alli onde o vês com ares de convertido, tudo aquillo é hypocrisia. Agora vou entendendo a razão de tal mudança. Queria um dote, e uma mulher. O dote gastava-o com a tal dissoluta que levava ao theatro, ou com outra que tal; e a mulher, qualquer dia vinha, com dous ponta-pés, pedir-te que lhe désses um bocado de pão. Ás vezes pareces tão esperta... e cáes em cada alhada, que nem uma cosinheira! Querem vêr que a rapariga está namorada com o senhor Luizinho?!
--Basta, José... Não fallemos mais n'este assumpto. Fiz-te uma pergunta muito simples, e respondeste mais do que era necessario. Ficamos entendidos. Posso contar com a subsistencia de Assucena no convento?
--Paguei hoje seiscentos mil reis de entrada, e estabeleci-lhe seis moedas por mez, e uma creada de cozinha, e outra do quarto. Se é necessario mais alguma cousa, é pedir por bôca, em quanto está aberto o cofre.
--Não é preciso mais nada, meu amigo.
--Poucos padrastos fazem outro tanto...
--Tens razão, José.
--E quando lhe appareça um digno marido, não terei duvida em lhe dar um dote; mas não para Luizes da Cunha, e outros que taes. Ficas zangada?
--Porque? Fico-te de todo o coração agradecida. Tudo que fizeres em bem de minha filha é uma esmola de caridade.
O visconde desceu ao escriptorio a descontar letras do governo, e Rosa Guilhermina fechou-se no seu quarto com a filha.
Antes de annunciar-lhe o que se passára, tinha dito com as lagrimas o mais que poderia dizer-se.
Assucena, beijando-a meigamente, dizia:
--Adivinho tudo, minha querida mãe. Não se afflija, que eu para ser feliz, não preciso do dinheiro de meu padrasto.
--Precisas... precisas...--respondia a mãe, abraçando-a com frenetica ternura.
V.
UM ANJO CAHIDO.
Luiz da Cunha era estranho ás apressadas solicitudes da viscondessa de Bacellar com o futuro de sua filha. Como a não pedíra, nem mesmo significára a alguem intenções de casar-se, da sua parte nenhum esforço punha para vencer as difficuldades do casamento, quando se déssem. Votado inteiramente a velar a convalescença de seu pae, as saudades de Assucena desvaneciam-se-lhe pouco e pouco; mas não tanto que elle não esperasse com impaciencia, todos os dias, noticias indirectas de sua «irmã.»
Luiz da Cunha quizera illudir-se. O amor, que a encantadora Assucena lhe resuscitára nas ruinas do coração, era um sentimento de fantasia, um impotente esforço da vontade. Depois de onze annos de vida aparcellada de revezes na alma, de ignominias que entram como habito nas propensões do homem, que se crê irresponsavel de seus escandalos, acredite-se de boamente a conversão religiosa como consequencia do remorso como temor de Deus; mas negue-se a reforma do espirito em cousas do amor, em nobreza de affectos, em dedicações fervorosas. É impossivel essa reforma. Não renasce o amor no peito cansado; não mais desabrocha no tremedal a flôr dos perfumes ideaes, que, só no ar puro de um coração juvenil, embellece a vida, e promette a felicidade.
O amante de Liberata não podia ser o interprete do coração de Assucena. Um sahia da innocencia, outro do crime. Luiz, depois das paixões impetuosas, entrava cansado no amor tranquillo para o qual é necessaria muita alma. Assucena, com todo o vigor da juventude, abandonava-se, mais céga do que se imaginava, á paixão impetuosa.
Se a tivessem educado nas salas, a neta do arcediago, aos dezoito annos, não se apaixonaria por um homem inconveniente, socialmente fallando. Aprenderia, desde os quatorze, a estremar o apparente do real, o homem que se namora por entreter, e o que se namora para casar. Rodeada de lisonjas, qual d'ellas mais impostora, perderia depressa a memoria dos differentes thuribularios, e, ao sentir no coração impressos os traços de uma imagem, outra imagem viria desfazêl-os depois. O amor repartido é o amor sem consequencias perigosas. A razão conserva sempre o seu dominio. A luta com tres é-lhe menos difficil que a de um só; e a donzellinha de faces de leite e rosas, se tiver mãe experimentada, leva a cabo emprezas arriscadas com a sisudez que os quarenta annos não tem. Antes de amar a realidade, o coração da virgem, na vida êrma, no perfume innocente dos collegios d'outro tempo, nutria-se, fortalecia-se, e extravasava d'um amor sem calculo, d'uma aspiração sem condições.
Tal fôra Assucena.
As práticas judiciosas de sua mãe poderiam impressiona-la de passagem; mas o amor, que vencêra o pejo, que se formára em si, e de tal força que nem os desdens do amante o aniquilariam, esse amor reagiu contra os mesquinhos estorvos de um dote, contra a dependencia ignobil das algibeiras d'um padrasto.
Luiz da Cunha, restaurada a saude melindrosa de seu pae, continuou regularmente as suas visitas á viscondessa. O trato grosseiro do visconde era cada vez mais acrimonioso. A affabilidade de Rosa desmerecêra um pouco; e as maneiras de Assucena pareciam-lhe, em compensação, mais ternas, mais meigas e insinuantes do que o tinham sido antes da sua declaração.
E, certo, eram.
Assucena despediu-se de João da Cunha na vespera da sua entrada nas commendadeiras. De Luiz despediu-se tambem; mas toda a arte foi vã para esconder as lagrimas do adeus. Os olhos aguados, e as palavras balbuciantes denunciaram-na, não a Luiz que a adivinhava; mas a João da Cunha que a não imaginava tão fragil á tentação do filho.
A fantasia de Luiz deixou-se outra vez levar do enganoso amor. Era o desejo que o fazia credulo. Era a pergunta, que elle muitas vezes se fizera depois da emenda: «poderei eu ser ainda feliz, amando?» era essa pergunta que o fazia procurar a resposta no amor de Assucena.
E sabem, leitores, quanto duram estas illusões em homem que deu da sua alma tudo quanto podia ás puras ou ás impuras paixões? É devaneio d'um dia: accesso febril que arrefece no dia seguinte: é o mentiroso rejuvenescer de algumas horas.
«Se eu podésse lutar com as difficuldades d'uma affeição despresada!... Se houvesse ahi uma mulher que me ameigasse para me captivar, e, depois de captivo, me lançasse de si com a ponta do pé, para que ao menos, eu sentisse aqui no seio de pedra a tarda palpitação do amor proprio!»
Ha homens que dizem isto, que o dizem e o desejam, que o desejam e não o encontram.
Para esses de que serve o amor sem rebuço, a dedicação espontanea e descuidosa da mulher que vem procural-os, sem ser chamada? Pobre d'ella, se a ultima scintilla de piedade generosa se apagou no coração do seu verdugo amado. E elle que lucraria?... O tedio de si proprio.
O amor angelico de Assucena fôra outra vez recebido por Luiz da Cunha, esquecido já das primeiras emoções.
A filha de Rosa entrára no convento, onde encontrára faceis amigas que se interessavam em remediar-lhe com conselhos a profunda tristeza. Os conselhos lisongeavam-na. Jubiladas no amor, as commendadeiras, illustres em nascimento, e até illustradas no espirito, olhavam as cousas d'este mundo, pouco mais ou menos, como ellas são. Menina de dezoito annos, melancolica, soffre de amor: entenderam as mais penetrantes. Conhecido o diagnostico da enfermidade, era infallivel a pharmacia, muito acreditada nas benedictinas. A quem penava do coração applicava-se-lhe amor a grandes dóses. Ora a barateza da droga nunca deixou morrer ninguem á mingua de antidoto.
O que se dizia a Assucena era que amasse, que recebesse no lucutorio quem quer que fosse, que se não deixasse possuir d'uma heroica abnegação, porque o mundo não valia o sacrificio. A sua mais presada amiga, secular tambem, que passava tres mezes no convento, e nove na sociedade, tomou ao seu cargo a voluntaria missão de convidar o filho de seu primo João da Cunha a tomar chá na sua grade, em dia dos seus annos.
Assucena foi surprendida por Luiz da Cunha, que nunca vira tal prima, nem entrára em tal convento. Aceitára o convite porque desejava mostrar que lhe era grato o pretexto de que Assucena se servira para chamal-o ao convento.
A prima de Luiz da Cunha era uma senhora desempoada. Na sua desprevenida intelligencia, dous e dous eram quatro, e, segundo ella, toda a mulher devia ter um amante, e particularmente aquella que reza vesperas n'um côro em quanto as outras elegem entre dezenas de vestidos o que ha de realçal-a mais no baile, ou no theatro. Eil-a, pois, em opposição com os estatutos de todos os patriarchas, que apadroaram conventos.
Desde esse dia as visitas de Luiz da Cunha a sua prima eram quasi diarias. Na grade de sua prima, as mais das vezes, quem Luiz encontrava era Assucena.
A viscondessa sabia d'estas visitas, e não as prohibiu a sua filha, despresando assim as insidiosas prevenções da intriga, que d'este modo procurava vingar-se de odios domesticos a D. Leonor Machado, a prima prestadia de Luiz da Cunha. Os reiterados avisos a Rosa Guilhermina sahiam do convento. Assucena ignorava-os, porque sua mãe, concebendo os melindres d'um amor contrariado, não fallava de proposito em Luiz da Cunha, nem consentia que sua filha de proposito lhe fallasse n'elle.
O visconde tambem teve as suas duas cartas anonymas, a respeito dos _escandalosos_ amores da sua enteada, protegidos pela _escandalosa_ secular Leonor Machado.
José Bento levou ao conhecimento de sua mulher as informações, que recebera, e Rosa, por assentir a seu marido, de quem dependia o futuro de Assucena, impôz-se a dolorosa obrigação de prohibir a sua filha intelligencias com Luiz da Cunha.
Assucena recebeu silenciosa a correcção; mas, em silencio, se promettia não lhe dar o pêso que sua mãe lhe dava. Era tarde para ella, e tarde para o filho de Ricarda, que acabava de convencer-se que o amor, e por ventura o patrimonio de Assucena, alcançado por astucia, faria as delicias da sua vida.
Luiz continuou sem obstaculo as suas constantes attenções á prima. O visconde, informado de novo, mostrou ao seu devedor João da Cunha as cartas que recebêra. João da Cunha, admoestando o filho, encontrou-o um pouco parecido com o que fôra em tempo, respondendo-lhe que a reforma de costumes não consistia na renuncia completa dos mais innocentes prazeres do espirito. Como não fallou em materia, o caso não era tão pavoroso como o afiguravam os timidos informadores do padrasto.
Luiz da Cunha, ressentido das grosserias do filho do retrozeiro da rua das Flôres, espaçou as suas visitas a casa d'elle. Romperam-se, portanto, as hostilidades. O visconde ameaçava a enteada de retirar-lhe as mesadas. Luiz da Cunha offerecia-se como irmão a Assucena, quando seu estupido padrasto a desamparasse.
E tudo isto exacerbava a paixão de Assucena, que, agradavelmente humilde, não sabia resistir ao amante, para obedecer ao tyranno da sua alma.
A prelada do convento recebeu do visconde poderes, que nunca, até então, exercêra sobre o coração das professas, e muito menos das seculares.
Animada pela indomita Leonor Machado, a neta do arcediago desobedecia, correndo pressurosa á grade, quando Luiz da Cunha apeava no páteo. Alli, a pobre menina alliviava da sua dôr oppressiva, chorando, e bebia a longos sôrvos o balsamo, que o filho de Ricarda, de antemão, trazia preparado em estudadas palavras de esperança.
Mas qual esperança era essa? Que planos eram os d'elle?
Muito communs, e muito infames.
Luiz da Cunha, invocando o seu _eu_ d'outros tempos, encontrou-o. Pediu-lhe conselhos, e recebeu-os. Aventou uma trama que não é nada extraordinaria, porque não cansam por ahi cavalheiros muito probos, e exemplares a todos os respeitos que a praticaram com prosperos resultados.
O filho de João da Cunha sabia que, morto seu pae, os successores do vinculo viriam desalojal-o do ultimo palmo de terra. O futuro dava-lhe cuidado. Os poucos bens de livre nomeação estavam hypothecados a dividas enormes, contrahidas por sua causa, depois que as preciosas joias de Ricarda foram desbaratadas em desperdicios do pae e do filho. João da Cunha, segundo o pensar dos medicos, não resistiria a um dos ataques cerebraes que repetidas vezes o ameaçavam com a morte, annunciando-se por uma sombria tristeza, e desordem de ideias, á maneira d'aquella em que o vimos censurar o amor do filho a Assucena. Luiz teve o bom senso de se julgar desvalido apenas seu pae fechasse os olhos. Precisava enriquecer-se e grangear com tempo uma fortuna, empregar para isso esforços e habilidade, embora aconselhados pela desmoralisação.
Entendeu, portanto, que Assucena receberia um bom dote do visconde, quando esse dote lhe fosse imposto como resgate da deshonrada filha de sua mulher. Para isso era necessario tiral-a do convento, diffamal-a, forçar a viscondessa a influir no dinheiro de seu marido.
O calculo parecia-lhe infallivel a elle. Assucena prestava-se maquinalmente á vontade do amante, por isso que sua mãe acabava de lhe fazer sentir que o visconde resolvêra fazêl-a entrar n'um convento do Minho, em Bairão. Era necessario apressar o desfecho. Leonor Machado abundava nas ideias do seu primo, e prometteu coadjuvar Assucena na fuga, pela sua casa, que era paredes meias com o muro da cêrca, sobre que se abria por um postigo. Luiz da Cunha comprou o hortelão, que devia abrir-lhe a porta travessa do pomar. Animou a timida menina a descer uma escada que lhe foi içada ao postigo. Recebeu-a nos braços murmurando o vigesimo juramento de nunca desmerecer a confiança que lhe merecia, e entrou com ella na mesma sege em que muitas vezes entrára com Liberata. Desde esse momento, qual das duas teria um melhor futuro?
Deus! como presenciaes, sereno e tranquillo em vossa magestade tremenda, a precipitação d'um anjo em cada dia!?
Homem, que crês na effectiva vigilancia da Providencia, responde-me:
Se Assucena vai innocente a resvalar n'um abysmo, quem lhe dará a consciencia do erro? A perdição? Seja. Mas esse remorso tardio que lhe presta? A contrição? Seja. E, se ella morrer, blasphemando? O inferno?...
Valha-nos Deus!...........................................................
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VI.
ANJO CAHIDO, MAS AINDA ANJO.
A fuga de Assucena não admittia conjecturas. As commendadeiras explicaram-na com admiravel promptidão, menos Leonor Machado que, no auge do seu pasmo, não atinava com a causa de semelhante resolução, nem podia comprehender por onde ella fugira! Ingenua creatura!
A noticia foi depressa á viscondessa de Bacellar. A pobre mãe desmaiou sem lêr as ultimas linhas da carta, que a consternada abbadessa lhe escrevêra. O visconde, encontrando-a desfallecida, lêra tambem a carta, e passados os segundos da surpreza, déra-lhe para rir com estupida imbecillidade.
Tal fôra o estridor da gargalhada, que Rosa Guilhermina volveu a si para contemplar, com os olhos lagrimosos e absortos, o estranho espectáculo de José Bento, que batia com o pé direito no chão e com a mão direita na esquerda, exclamando, entre frouxos de riso:
--Não t'o dizia eu? Ahi está o convertido Luiz da Cunha!... Ahi está a innocentinha Assucena! Sou um criado do senhor convertido, e da senhora innocentinha! Agora pega-lhe com um trapo quente. E dizem que és esperta! Os espertos cáem em cada langará, que não sei o que te diga, Rosa! Ora beija as mãos ao teu Luizinho que t'a pregou na menina do olho! Isto havia de acontecer tarde ou cêdo! Eu sempre tive quizilia com tua filha, e com o mulato; por alguma cousa era.
--Está bom, José; tens razão; não me mortifiques mais porque me matas. Tem piedade de mim que sou mãe. Não és pae; se o fosses, em vez de gargalhadas, chorarias...