Chapter 3
--Diz bem... não o parece; mas creia que não tive ainda oito dias de felicidade na minha vida. O mundo julga-me mal. Todas estas vertigens, que apparentemente me dão o caracter d'um homem embriagado de felicidade, são misturadas d'uma especie de nausea de mim proprio, d'um vacuo de verdadeiros prazeres, e tal que, nestes ultimos mezes, tenho desejado seguir um outro caminho por onde a verdadeira ventura me foge. E quero perseguil-a. Realmente lhe digo que estou cansado d'este viver. A sociedade despreza-me, e eu dou razão á sociedade. De certo lh'a não dava, se eu me quizesse absolver dos meus desvarios. Aqui entre nós: quem me perdeu foi meu pae. Se me tivesse negado os meios com que se nutrem os vicios, eu não seria vicioso, ou, se o fosse, o trabalho, como preço do vicio, ter-me-ia fatigado, ha muito. Olhe: se eu tivesse nascido n'outro seculo, se é que todos os seculos não tem os mesmos vicios, seria outro homem. V. ex.ª bem sabe que na sociedade não se fazem santos. Eu vim por aqui dentro com os braços abertos para receber todas as immoralidades, e vieram-me todas ao encontro, sem eu chamar nenhuma.
--Naturalmente--atalhou a viscondessa, sorrindo--foi a filha do merceeiro que o chamou...
--Isso não foi immoralidade, minha senhora; ou, se o foi, queixem-se do peccado original, de que tanto me fallou aquelle pobre padre Joaquim, que, em quanto a mim, foi o unico homem virtuoso que não recebeu a herança da culpa de Adão, e morreu intacto como algumas virgens das que se conhecem pelos necrologios. A filha do confeiteiro não soube o que fez, e eu tambem não. A natureza exerceu sobre nós o seu immortal despotismo, e foi preciso que os homens viessem desmanchar á pancada o que ella fizera com beijos.
--Foi a natureza que lhe ensinou a botar a escada de corda ao segundo andar?
--Nada, não, minha senhora. Foi meu pae.
--Como seu pae!?
--Palavra de cavalheiro, o caso foi assim: debaixo da cama de meu pae vi umas cordas, que terminavam por dous ganchos. Fiz o meu raciocinio, por que já n'esse tempo estudava em logica as causas e os effeitos. A escada era o effeito d'alguma causa. Sem saber nada de mechanica, calculei a importancia social da escada, e mandei fazer uma semelhante ao meu criado do quarto. Ora aqui tem com angelica sinceridade a historia da escada de corda. Agora, pergunto eu: desarranjei eu a felicidade da filha do merceeiro? Não a tem v. ex.ª visto no theatro, ao lado d'uma especie de gallego com collarinhos em fórma de panno de falua? Esta especie de gallego é marido d'ella, tem cem contos de reis em inscripções, e não sei que no Banco Commercial, e tem a commenda da ordem de Christo. D'esse peccado da infancia, absolvo-me eu; dos outros é responsavel a sociedade.
--Não diga a sociedade. V. ex.ª tem zombado de todos os deveres. Tem reduzido seu pae a um estado de tristeza que faz dó. Tem-se divorciado de todas as pessoas de bem. Affronta a opinião publica apresentando-se nos lugares mais frequentados com uma mulher, sem pudor, uma libertina que nem ao menos o salva de se degradar com ella em publico. Se me acha ainda uma constante censora dos seus desatinos, é porque sei a historia triste do seu nascimento, sympathisei com os infortunios de sua mãe, e tomei sobre mim o inutil zêlo da honra de seu filho. Não tenho conseguido nada: nada espero conseguir. Deus sabe quantas lagrimas me tem custado este desvelo quasi maternal. Por vontade do visconde, já v. ex.ª não entra n'esta casa. Reprehende-me todos os dias a familiaridade com que o recebo, e é preciso que eu o traga illudido com a esperança de que um dia será possivel a sua reforma de costumes. Senhor Luiz da Cunha, pense no futuro. Condôa-se de seu pae, que já não tem animo de ouvir pronunciar o nome d'um filho que perdeu como seu amor. Veja que póde ainda remediar o mal que fez... Aparte-se d'essa mulher. Viva com seu pae. Convença pelo seu procedimento as pessoas, que já não acreditam na possibilidade da sua emenda. Eu tambem me persuado de que v. ex.ª deve estar cansado. Creio que deve ter momentos de envergonhar-se; outros de remorso, e outros de esperança. Não cerre os ouvidos ao que a esperança lhe promette. Se o instincto do bem lhe aconselha a virtude, obedeça-lhe, e verá como a vida lhe póde ainda ser agradavel. Olhe que a virtude tem consolações incomparaveis com os prazeres momentaneos do vicio. Tenho quarenta annos. Sei o que é o mundo. Combino todos os desgostos para os saber afastar de mim, e recebo-os, quando elles são mais fortes, como desvios do errado caminho em que entrei aos quinze annos. V. ex.ª não sabe que mulher lhe falla, nem imagina o prazer que me daria se me viessem dizer que a virtude não fôra repellida d'esse coração que todo o mundo considera fechado para a luz da honra.
--Fez-me impressão, senhora viscondessa! Tem-me assim fallado tantas vezes, e nunca me feriu tanto. Eu não sei bem se o que me aconselha é possivel... Creia que vou empregar os esforços. Se o não conseguir, é porque não posso, é porque ha em mim um desgraçado condão de força sobrenatural.
A conversação, n'este sentido, foi demorada.
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No dia seguinte, Liberata recebia de Luiz da Cunha um bilhete que a eximia dos compromissos de fidelidade, auctorisando-a a dispôr de tudo que lhe fôra dado. O bilhete foi recebido de manhã, e á tarde o lugar de Luiz da Cunha estava preenchido pelo primeiro oppositor á vacatura. Na proxima noite de theatro, Liberata, no camarote, ria, olhava, requebrava-se do mesmo modo, com a notavel differença de que o seu companheiro era um capitão de marinha ingleza, que accumulava ás delicias de uma conquista de tal ordem os gosos d'uma solemne embriaguez de vinho.
João da Cunha acreditou na regeneração do filho, quando o viu entrar contrito em casa, tão diverso do que fôra, accusando-se por uma tristeza silenciosa, e captivando a benevolencia dos familiares com palavras brandas. Por conselho da viscondessa de Bacellar, orgulhosa do seu triumpho, João da Cunha não lhe disse uma palavra de reprehensão. O passado não veio nunca irritar o pae, nem envergonhar o filho.
Os incredulos riram da subita mudança do «mulato.» Os crentes no poder maravilhoso da conversão explicavam o phenomeno por um toque sobrenatural. Não faltou quem dissesse que a reforma do peccador fôra obra d'um egresso varatojano que operára admiraveis conversões nas casas onde almoçava e jantava. Não sabiam dizer ao certo se tambem convertêra alguem nas casas onde dormia. Eu tambem não, supposto que acho muito possivel o caso affirmativo.
O que sei de sciencia certa é que Luiz da Cunha não conhecia o dito egresso melhor que eu e o leitor. Penso que o varatojano perderia o seu latim, se tentasse engrossar com a moral franciscana os alicerces fundados pela viscondessa de Bacellar. A emenda do filho de Ricarda não tinha nada com a moral christã, pelo menos o atheo não sabia que a moral de Jesus é o codigo por que se rege a honra sobre a terra, e se conquista no ceo a eterna bem-aventurança, que não é exclusivo dos pobres de espirito.
João da Cunha passava algumas noites com seu filho em casa do visconde de Bacellar. Rosa Guilhermina revia-se na sua obra, e agradecia a Deus têl-a feito instrumento da sua vontade, para, com braços debeis, arrancar do abysmo um filho, restituindo-o ao amor de seu pae.
Assucena não se maravilhava do presente de Luiz da Cunha por que não lhe conhecêra o passado. Sabia, por meias revelações de sua mãe, que aquelle homem desmerecêra no conceito do mundo, por causa do seu mau procedimento. Os crimes, as infamias, as impudencias nem sua mãe lh'as explicava, nem ella saberia comprehendêl-as. O que ella via era um mancebo melancolico, quasi sempre calado, fixando-a com frequencia, fugindo d'ella se os olhos se encontravam, trocando palavras de absoluta necessidade, e conversando com viveza, e muitas vezes, com sua mãe, como se ella só lhe merecesse attenções. Andaria aqui um incentivo de vago ciume? A manifestação inexprimivel d'um germen de sympathia? O resentimento do desdem que Luiz da Cunha aparentava por ella?
Se vos digo que sim, não digo cousa nenhuma do outro mundo, e obedeço á verdade.
IV.
CONTAGIO.
Nem eu nem vós sabemos como nasce o amor. Em physiologia, que é a sciencia do homem physico, não se sabe. A psycologia tambem não diz nada a este respeito. Os romances, que são os mais amplos expositores da materia, não avançam cousa nenhuma ao que está dito desde Labão e Rachel até á neta do arcediago e o filho de Ricarda.
Dizer que o amor é a sensualidade, além de grosseira definição, é falsidade desmentida pela experiencia. Ha um amor que não rasteja nunca no raso estrado das propensões organicas.
Dizer que o amor é uma operação puramente espiritual é um devaneio de visionarios, que trazem sempre as mulheres pelas estrellas, ao mesmo tempo que ellas, gravitando materialmente para o centro do globo, comem e bebem á maneira dos mortaes, e até das divindades do cantor de Achyles.
Eu conheço homens, sem faisca de espirito, que se abrazam tocados pelo amor como o phosphoro em presença do ar. Eis-aqui um phenomeno eminentemente importante. Elle, só, sustenta em these que o amor não tem nada com o corpo nem com o espirito. Eu creio que é um fluido. É pena, porém, que eu não saiba o que é fluido para me dar aqui uns ares pedantescos, ensinando ao leitor, mais ignorante que eu, cousas que, de certo, o não privavam de continuar a comer, e a dormir.
A prova de que o amor não está na cabeça, nem no coração, é que Luiz da Cunha e Faro tinha uma cabeça incapaz de calcular as consequencias d'uma acção boa ou má, e um coração desbaratado, verminoso, apodrecido para nutrir em si uma flôr das que nascem aromatisando a imagem que o amor lá insculpiu com maviosos traços.
Assucena, pelo habito da convivencia, perdêra a estranheza, e familiarisára-se com o moço tão bem aceite e tão desvelado por sua mãe. O sobresenho de seu padrasto com o filho de João da Cunha tornára-lhe a ella mais sympathico o mancebo. Recordando as asperezas do marido de sua mãe, com ella sua enteada, sempre carinhosa e humilde, achava ahi a razão da grosseira indifferença com que Luiz era recebido.
Um dia, acharam-se sósinhos, porque a viscondessa não prevenira o filho de João da Cunha da sua sahida á noite, nem prohibira, por inadvertencia talvez, a sua filha a recepção de visitas.
Os embaraços de Luiz, a sós com ella, eram improprios d'um rapaz de sala, imperturbavel fallador em todas as conjuncturas de que o homem se salva fallando muito, e prompto improvisador de palavras que não deixam nunca descahir a conversação nas trivialidades aborrecidas.
Luiz da Cunha imaginou que amava Assucena; e, só com ella, deduziu do seu acanhamento que a amava muito. Assucena já não córava na presença de Luiz da Cunha; e, só com elle, percebeu, no ardor da face, que se estava denunciando.
Era necessario dizer alguma cousa, esgotadas as primeiras palavras d'um cumprimento, cuja elasticidade se não descobriu ainda.
--Está v. ex.ª em vesperas de recolher-se ás Commendadeiras...--disse Luiz, cuidando que tinha acertado com a vereda por onde, mais facilmente, chegaria a um vasto assumpto.
--É verdade...--respondeu ella com mimo e tristeza--D'amanhã a quinze dias...
--Tão cêdo!... E está desejosa de se vêr lá, não é assim?
--Desejosa, não. Eu antes queria estar com minha mãe...
--E ella não lhe faz a vontade?
--Por vontade d'ella nunca eu sahiria de casa; mas meu padrasto, não sei porque, acha que eu sou aqui de mais, e mostra-me sempre um modo aborrecido, que me incommoda, e de certo ha de incommodar minha boa mãe.
--O senhor visconde tem essa singularidade. Por calculo ou por genio, parece que toda a gente o incommoda, que todos lhe são pezados e suspeitos. Eu tenho sido bem mimoseado com os seus arremêssos, como v. ex.ª terá observado. Se encontro francas as portas d'esta casa, favor é que devo á senhora viscondessa, minha amiga desde a infancia, mais que minha mãe, porque uma mãe deixa muitas vezes perder um filho, e esta nobre senhora, este anjo que tem sobre mim uma influencia celeste, salvou-me.
--Tenho reparado que ella é muito sua amiga. Se v. ex.ª fosse meu irmão, de certo minha mãe lhe não daria mais estima...
--E porque me não faria Deus seu irmão?--atalhou Luiz com ar infantil, e meiguice de sorriso. Assucena baixou os olhos, em silencio, tambem desabrochando um ligeiro sorriso, no nacar dos labios, que pouco sobresahia á côr purpurina do pejo.
--Esta pergunta--proseguiu elle, com affectuosa tristeza--fez-lhe uma impressão muito diversa do que eu pensava! V. ex.ª córa, e a pergunta não é das que ferem a susceptibilidade do coração. Magoou-a o meu innocente desejo de ser seu irmão?
--Não me magoou...
--Pois então diga-me o que sentiu para eu poder convencer-me de que ainda lhe não disse uma só palavra indiscreta...
--Não me magoou, senhor Luiz da Cunha... já lh'o disse... O que eu senti... não foi pezar, nem alegria... Fez-me impressão essa pergunta, por que...
--Diga, não se arrependa... o seu coração ia fallar...
--Porque muitas vezes tenho perguntado a mim mesma se não seria muito bom que...
--Eu fosse seu irmão?
--É verdade...
--E córa por isso? Um desejo tão puro e tão santo diz-se, e não se esconde...
--Dizer-se... nem a toda a gente. Eu disse-o a minha mãe, e ella perguntou-me cousas estranhas para mim... Se não fosse ella, isto que lhe disse com difficuldade, não teria duvida em dizêl-o ás minhas mestras do collegio, por que não sei onde está o mal d'este desejo.
--Não tem nenhum... Diga-me, senhora D. Assucena, sua mãe prohibiu-a de manifestar o bom conceito que v. ex.ª faz de mim?
--Não, senhor... Só me disse que me não habituasse a pensar no senhor Luiz da Cunha, por que o coração em se habituando a fantasias, custa-lhe muito depois a desfazer-se d'ellas quando vem a realidade. E acho que minha mãe tem razão. V. ex.ª não póde ser meu irmão.
--Mas amigo, mais que irmão, não poderei tambem?
--Amigo... sim...--Assucena córou de novo, e balbuciou estas duas palavras. Luiz da Cunha viu-a tremer d'aquella quasi imperceptivel oscillação nervosa, que denuncia o antagonismo da natureza com a arte, a força expansiva do espirito com os estorvos compressores da educação.
--Pois então... sejamos--continuou elle--sejamos o mais que podêmos ser... muito amigos, amigos por toda a vida, sim?... Por que me não responde? Receia que eu algum dia, se se esquecer de mim, a responsabilise pela promessa? Tambem não serei capaz de mortifical-a, e, se o fosse, não poderia chamar-me seu amigo. Quando aconteça que a minha amizade lhe seja pezada...
--Pezada?!
--Sim; quando se dêem motivos fortes para que me esqueça...
--Que motivos?!
--Se lhe derem um marido...
Assucena levou instinctivamente o lenço aos labios, como para esconder o rubor que lhe assomava.
N'este momento, entrou João da Cunha, e surprendeu ainda o escarlate, que destacava na tez trigueira de Assucena. Experimentado, comprehendeu o caso, que não tinha nada de mysterioso senão o facto de se acharem sósinhos seu filho e a filha da viscondessa. João da Cunha sentiu o abalo prophetico d'alguma desgraça. A anciedade não lhe concedia delongas. Como Assucena pediu licença para retirar-se, João da Cunha perguntou ao filho, ainda absorto n'um silencio muito significativo para o pae:
--Como venho encontrar-te sósinho com Assucena?
--Entrei n'esta sala, e encontrei-a a receber-me. Se soubesse que vinha encontral-a sósinha, creia v. ex.ª que eu não subiria.
--Tu comprehendes, Luiz, quanto seria melindroso para a nossa honra um namoro com a filha da pessoa que tão cara nos é, e tanto por ti se tem sacrificado?
--Comprehendo, meu pae. E d'onde é que v. ex.ª deduz que eu namore Assucena?
--Surprendi-a d'um modo que revelava emoções que não são as d'uma singela conversação.
--Acabava eu de pedir-lhe que fosse minha amiga e amiga como póde sêl-o uma irmã.
--Luiz, esses rogos não se fazem a uma mulher de dezoito annos. Irmãos só os faz a natureza. A arte, que approxima o homem da mulher com laços fraternaes, é uma ficção. Os teus amores tem sido todos faceis, d'aquelles que a seducção não precisa mascarar com um titulo impostor; e por isso não sabes ainda prêver as consequencias d'esse improvisado parentesco. Eu tive muitas irmãs, como esta que tu adoptas, e todas ellas quebraram o vinculo da fraternidade, quebrando primeiro pela honra.
--Meu pae cuida que falla a seu filho dous mezes antes. Eu devo á Providencia um novo coração.
--Quero, devo acredital-o: Deus me livre de pensar o contrario. Mas é preciso que meu filho saiba muitas cousas que não aprendeu na vertigem da dissolução em que viveu onze annos. Quando o coração é nobre, tambem ha paixões que principiam nobremente, e acabam pela ignominia como as outras que começam pela infamia. O amor violento, o amor que deshonra, o amor que faz victimas, não é o infame privilegio dos homens pervertidos. Os de nobre coração tambem deshonram, tambem pervertem, e fazem victimas. O avarento póde viver uma longa existencia sem um remorso, sem roubar o pão do seu semelhante, logo que elle alimente a sua sede de ouro com o seu proprio suor. O general, coberto de condecorações, póde ter sido um barbaro nas batalhas, matando inermes, e incendiando choupanas que encerram velhos e creanças. É um algôz condecorado, ao qual Deus não pergunta o que fez de seu irmão; é uma consciencia tranquilla de remorsos, como a lamina da sua espada está limpa de sangue. O avarento do ouro, e da gloria caminham ambos por estrada desempedida: um legalisa a posse do ouro com a astucia e com o trabalho; o outro, com o poder que lhe foi conferido, e com a bravura sanguinaria. Na sociedade ha um homem que vive tambem de ambições, que aspira tambem ás glorias; mas glorias e ambições do coração, as que elle julga mais innocentes, as que a sociedade lhe não crimina no seu principio, as que por fim se lhe convertem em cilicios de remorso, em apertos de coração, e em tedio de si proprio, no declinar das forças physicas para a sepultura das chimeras. Este homem fui eu, e és tu. O coração perde-nos, Luiz. O homem que se dá exclusivamente ao amor, cuida que vai sobre alcatifas de flôres, e resvala n'um abysmo. Principia, com o proposito de ser honrado, um commercio de sensações brandas; e acaba enfastiado d'ellas, ancioso d'outras que não depara. Depois, como indemnisação do que perdeu, encontra o desprêso dos outros; como companhia das suas horas solitarias, tem a imagem d'uma pobre mulher que se levanta do charco, onde elle a lançou, agarrando-se-lhe aos cabellos; e, como refrigerio das sêdes que o calcinaram na mocidade, encontra na velhice... um filho, que lhe encrava uma corôa de espinhos sobre o stigma do crime com que a sociedade o manda á presença de Deus...
--Meu pae!--atalhou Luiz pasmado da desordenada eloquencia.--Eu não sei o que fiz para merecer-lhe admoestações tão sevéras!
--Isto não são admoestações, Luiz... Não sei o que disse... Lembra-me que o meu fim era uma cousa muito importante... Não dediques uma affeição perigosa á filha da viscondessa. Pára aqui. Ama uma mulher, que possas fazer tua esposa, ou não ames nenhuma, por que eu sei que o teu amor tem o contagio da morte...
Assucena entrou na sala, desculpando-se da demora, com uma invenção mal fingida. Se quizesse ser verdadeira, diria que estivera no seu quarto, saboreando, sósinha, uma felicidade que principiava por lagrimas.
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As confusas recriminações de João da Cunha não cahiram em coração inerte. Luiz nunca respeitára tanto seu pae. Supposto lhe não comprehendesse as comparações do ambicioso e do general com os affectos do coração, achára uma dôr sublime n'essa desordem, um gemido de remorso n'essa condemnação a si proprio, n'essa tocante ideia d'uma corôa de espinhos, cravada pelo filho, na fronte de seu pae, onde a sociedade gravára o lema da deshonra.
Em casa da viscondessa, Luiz da Cunha faltou algumas noites, depois da ultima em que o vimos, sem grande esforço, erguer o véo do coração de Assucena.
A causa da falta extraordinaria, e sensivel para a viscondessa, era o incommodo de João da Cunha, que periodicamente soffria accessos de sangue á cabeça, ameaços de congestão cerebral, que o debilitam pelas repetidas sangrias, seu allivio unico. Luiz passava os dias e as noites, ao pé de seu pae, pela primeira vez. Em tempos de libertinagem, as doenças do pae eram indifferentes ao filho, e até a formalidade d'um cumprimento lhe era pezada.
--Que differença!--dizia D. Rosa a sua filha--Quem diria que Luiz da Cunha passaria as noites ao pé de seu pae! Onde estava um nobre coração! Á vista d'isto, ninguem deve perder a esperança de salvar um homem abandonado de todos! A sociedade é a que atira o desgraçado á miseria...
--Á miseria!--atalhou Assucena.
--Sim, minha filha. O desprêso com que são repellidos os infelizes, que não podem ser bons sem os conselhos d'um bom amigo, é muitas vezes a causa de se perderem de todo. O mau homem cuida que se vinga redobrando em malvadez. Deixam-no sósinho, e elle precisa de viver em sociedade. Procura a unica que o recebe, a dos abandonados como elle. Ahi encontra irmãos mais perdidos que elle, e acha sempre um amigo. Dizia teu pae, minha filha, que o ultimo amigo do criminoso era o carrasco... Não entendes esta linguagem, Assucena... Oxalá que nunca recordes palavras de tua mãe, ditas como um desafogo a quem lh'as não entende... Foi talvez com ellas que eu salvei Luiz da Cunha... Servem só para desgraçados... e tu, filha, és feliz, és innocente, és um anjo.
--Elle é ainda desgraçado?
--Póde ser feliz...
--Eu queria que elle o fosse; mas é tão triste... Elle era assim d'antes?
--Não. Escarnecia de tudo, convertia tudo em galhofa respondia ás minhas admoestações com agradecimentos ironicos, e contava-me os seus desatinos como quem conta acções meritorias. O primeiro dia em que lhe ouvi queixar-se da sua má estrella, foi no dia em que te viu...
--Em que me viu!?...--atalhou Assucena, sem poder conter as palavras, que vinham do coração sobresaltado.
--Porque me fazes esse reparo tão admirada?!
--Admirada... não!... É que...
--Não te escondas aos olhos de tua mãe, que é inutil, minha filha. Leio em todos os corações, e nunca se me escondeu um só pensamento do teu... Amas Luiz da Cunha?
--Minha mãe!...--exclamou ella, tomando-lhe carinhosamente a mão, e fazendo um aceno negativo.
--Não te assustes, Assucena. Eu não crimino essa affeição, que é muito natural. Se o tivesses conhecido, ha dous mezes, de certo o não amarias. Hoje... era quasi impossivel que o não amasses... Luiz tem alguma cousa fatal, que o fez querido a muitas mulheres, que se envergonhavam de lhe apertar a mão em publico. Hoje poucas seriam as que lhe recusassem affectos. Mas olha, Assucena... tua mãe vai fallar-te como todas as mais deviam fallar a uma filha que sáe d'um collegio aos dezoito annos. Se tivesses vivido cá fóra, não era necessario dizer-te que só ha uma posição que te convém com Luiz da Cunha. Se não fôres sua esposa, que poderás tu ser para elle?
--Sua irmã.
--Não ha irmãs pelo coração, minha filha. Quererias ser sua esposa?... Responde, Assucena... Faz de conta que fallas com a tua unica amiga. Agora não sou tua mãe, visto que é de uma mãe que sua filha de ordinario se esconde. Querias ser sua esposa?
--Queria...