A Neta do Arcediago

Chapter 2

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Luiz era tanto mais caro a seu pae, quanto a sua intelligencia, com pequeno esforço, aproveitava nas irregulares lições dos mestres soffredores. Aos quinze annos, o filho de Ricarda era homem, e, como homem, as puerilidades, as folias que o entretinham até aos quatorze, trocaram-se em ar reflexivo, em consciencia de si proprio, e até em certo respeito ao pae, supposto que este lhe não invectivasse as licenças, que os de fóra lhe censuravam.

--Eis-aqui o que é o espirito!--dizia João da Cunha ao seu capellão, que muitas vezes agourára mal da livre educação dada a Luiz--Assim que chegou á idade da razão, ahi está meu filho obedecendo espontaneamente ao instincto dos deveres. Não o vê tão pensador n'uma idade em que a imaginação trabalha sempre?

--Não duvido que pense--respondeu o padre, solemnisando a resposta com um sorvo de rapé--mas, se v. ex.ª me dá licença, parece-me que seu filho pensa em alguma loucura.

--Essa é boa! O padre que razão tem para tanta severidade com meu filho?

--Que razão tenho? Ora ouça v. ex.ª Seu filho namora a filha do merceeiro que mora ao lado.

--Deixe-se d'isso, padre; o meu filho apenas tem dezeseis annos, e ella ainda é mais nova.

--Isso não é razão, e desculpe-me v. ex.ª a liberdade de replicar. Deus sabe as intenções com que me intrometto em cousas, que não são de todo estranhas ao meu ministerio. Eu quando fallo é com documentos na mão.

--Alguma cartinha de namoro... Isso são rapaziadas sem consequencia.

--Não é cartinha de namoro.

--Algum cordão de cabello, ou alguns suspensorios com a firma do rapaz... Isso faz rir.

--Não é cordão nem suspensorios.

--Então acabe lá com isso, padre! Que é?

--É uma escada de corda que sobe ao segundo andar d'aquella casa.

--E sabe se elle faz uso d'essa escada?!

--Ha quinze noites seguidas que sobe ás duas horas da noite e desce ás quatro.

--O rapaz é capaz de quebrar uma perna!

--E eu receio que o pae da rapariga seja capaz de lh'as quebrar ambas.

--N'esse caso, encarrego-o de o reprehender; mas não lhe diga que eu o sei.

--Parece-me que lhe não fará grande abalo ainda que v. ex.ª o saiba. Seu filho não o teme, nem lhe reconhece direitos sobre a liberdade de subir e descer escadas de corda.

--Está enganado.

--Oxalá que sim. Eu de mim reprehendi-o já, e elle respondeu-me se eu fazia o favor de lhe ir segurar a escada para que ella não balançasse quando elle descia, com grave risco das suas pernas, que ficavam enleadas nas cordas transversaes. Aqui está o que é uma zombaria que não parece d'um menino de dezeseis annos! V. ex.ª ri-se? Ora, queira Deus que não chore ainda...

--Pois que quer que eu faça, padre?

--Que o castigue com severidade, ou o faça entrar no collegio dos Nobres para ser castigado longe dos seus olhos. V. ex.ª perde seu filho. Está cavando um manancial de desgostos, que não remediará... Elle ahi vem... Se quer, retiro-me, para v. ex.ª lhe fallar.

--Pois sim, retire-se.

Luiz entrou apertando a mão ao pae, que lh'a estendeu com a familiar etiqueta d'amigo.

--Vem cá, Luiz. Tu és um homem, e é preciso fallarmos como homens. Sei que sobes por uma escada de corda ao segundo andar d'aquella casa...

--Então, de certo sabe tambem que desço...--atalhou com sorriso ironico o filho de Ricarda.

--Responda-me com seriedade. Sabe que eu posso fazêl-o retirar d'esta casa, logo que o menino proceda de modo que mereça ser castigado?

--V. ex.ª póde tudo; mas eu queria saber o que fiz que mereça castigo.

--Assim é que deve responder-me. Sei que se introduz em casa do merceeiro.

--É verdade, meu pae. Não nego senão o que não faço. Foi o padre Joaquim que lh'o disse?

--Não sei quem foi... É isto verdade?

--É verdade; mas o padre Joaquim merece dous bofetões.

--O padre Joaquim é seu amigo. Se o menino observar os conselhos d'elle, ha de ter um proceder exemplar; e, se os não attender, obriga-me a castigal-o asperamente, bem contra minha vontade. Não quero que se diga que um filho de João da Cunha escala as janellas dos visinhos. O peor que póde acontecer-lhe, meu filho, é ser surprendido n'essa casa, e olhe que de certo o não respeitam para o deixarem descer tranquillamente como subiu.

Pouco depois, Luiz da Cunha sahiu do quarto de seu pae, e passando pelo capellão deu-lhe um abraço, que o fez impertigar-se com a grave compressão das costellas. Luiz ria-se, e padre Joaquim desencadeava-se o mais prestes que podia dos braços tenazes do seu discipulo de latim.

As correcções paternas aproveitaram muito, por isso que, na noite d'esse dia, á hora costumada, Luiz da Cunha agatinhou rapidamente a escada, e içou-se para a varanda. Pouco depois que entrára, o logista, avisado por quem quer que foi, subiu ao segundo andar. Luiz da Cunha fugiu precipitadamente, e quando descia, na altura do primeiro andar, o robusto confeiteiro levantou os ganchos da escada, e deixou-a pender para o centro da terra, em plena condescendencia com as leis da gravitação.

O filho de João da Cunha recuperou os sentidos quando uma patrulha da policia o entregava ao pai, que, a essas horas, recolhia, e não é bem liquido se tambem elle debaixo do capote trazia uma escada de corda.

Luiz da Cunha desmanchou algumas articulações, cuja collocação o fez dar ao diabo a filha do confeiteiro. O pae ameaçou com um chicote o seu pundonoroso visinho; mas, pelos modos, o minhoto não era homem de transigir pelo mêdo d'uma arrogancia dos actos dos Sousas e Faros. A rapariguinha nunca mais appareceu na janella, e, no fim da semana immediata, casou com o caixeiro, rapaz dos suburbios de Guimarães, muito fino, que é hoje capitalista, e não foi ainda codilhado por governo nenhum. Já vêem que a filha do confeiteiro não perdeu nada, visto que o marido não a encontrou lesada physica nem moralmente. Estes é que são os felizes. Não sabem nada de psycologia, nem de anatomia: não descriminam imperfeições da alma nem do corpo.

João da Cunha teve assomos de rigidez paterna. Luiz desconheceu-o, quando o viu, sombrio e carrancudo, ordenar-lhe que seguisse o padre capellão ao collegio dos Nobres. Obedeceu sem hesitar um momento. Entrou no collegio, onde os mestres prevenidos trataram de captar-lhe a estima, habitual-o á casa, para se dispensarem da outra ponta do dilemma.

Luiz recebeu alegremente os companheiros que os mestres lhe escolheram. Eram os mais estudiosos e mais ajuizados. Acharam-no docil, e persuadiram-se que lhe tinham inoculado o amor do estudo, e o esquecimento das liberdades por que fôra, aos dezeseis annos, encerrado no collegio.

João da Cunha, maravilhado da mansidão de seu filho, visitou-o, indemnisando-o com afagos das asperezas que precederam a sua entrada no collegio. Luiz não se mostrou magoado com as asperezas, nem lisongeado com os carinhos. Estava melancolico, e dizia o padre Joaquim, sempre agoureiro aziago, que o menino meditava uma nova loucura, fosse ella qual fosse.

Prophecia de padre Joaquim era infallivel. N'essa noite, Luiz cortou em tiras os lençoes e o cobertor. Saltou para a cêrca. Partiu a cabeça ao hortelão com um fundo de garrafa dos aguilhões do muro, quando o indiscreto gallego lhe agarrou uma perna para a não deixar seguir o destino da outra.

Luiz recolheu-se a casa de José Bento de Magalhães e Castro.

Este senhor José Bento é uma pessoa que nós conhecemos da FILHA DO ARCEDIAGO. É justamente aquelle que casou com Rosa Guilhermina, em 1825; que comprára n'esse anno o fôro de fidalgo, e fizera a sua nova residencia em Lisboa, por isso que os invejosos no Porto tinham a petulancia de rir-se da pedra d'armas que elle fizera lavrar no seu palacete do Reimão.

Em Lisboa fôra bem recebido, particularmente por João da Cunha e Faro, que, segundo dizem, lhe vendêra cara a consideração. D. Rosa Guilhermina era bem acolhida na roda que torce o nariz aristocratico aos que chegam sem garantias d'algum conspicuo de linhagens. A maledicencia dizia que João da Cunha não era indifferente á mulher do senhor José Bento. Tanto não ouso eu dizer, e a calumnia é mancha que não pega nos meus romances. Pêcos de imaginação, sim; mas arreados de phantasias que desdouram o meu proximo, isso nunca.

Luiz, sempre acceito com os seus gracejos a D. Rosa, fugindo do collegio, surprendeu-a com um abraço estouvado. Pediu-lhe que não dissesse nada ao pae, e o deixasse sentar praça em marinha, que era a sua vocação. D. Rosa prometteu-lhe tudo, e avisou João da Cunha, que, a essas horas, recebia a fatal nova da fuga do filho. A filha do arcediago pedia-lhe uma entrevista, antes de encontrar-se com Luiz. O fim era combinarem o meio de o levarem com brandura a entrar em casa, onde de certo a violencia o não levaria. João da Cunha annuiu, e o filho de Ricarda foi recebido com affabilidade por seu pae.

Não era já possivel domal-o com violencias nem com afagos. Luiz da Cunha tinha um roteiro fixo pelo destino, cuja absurda influencia é necessario acreditar na vida tragica de certos homens, que nos compadecem, que nos nauzeam, e que nos assombram!

João da Cunha, certo da sua inefficacia paterna, resumiu a sua auctoridade ensinando o filho a salvar as apparencias, porque os escandalos eram atroadores, e promettiam-lhe uma vergonhosa expulsão das casas honestas. O merceeiro visinho, não obstante a sua coragem, passou pelo desgosto de curar-se d'uma dura carga de pau com que o amante de sua filha, auxiliado por campinos embriagados em noite de tourada, o mimosearam dentro do seu proprio balcão. Toda a importancia de João da Cunha foi necessaria para torcer a justiça, visto que o logista era affecto em extremo á politica vigente, o que provára mais d'uma vez com o cacete na mão. Um outro pae, que ousou repellir de sua casa o fidalgo, chamando-lhe «mulato» perdeu a orelha esquerda n'esta honrosa lucta, sem por isso, ainda assim, salvar a filha da deshonra. Um irmão d'uma estanqueira, que morou ao Pote das Almas, pagou com cadêa de tres mezes, afóra as custas do processo, a audacia de quebrar a cabeça ao amante de sua irmã, que lhe viera, em noite de luminarias, recitar debaixo da janella umas coplas em que lhe pedia escandalosamente licença de cear com ella.

Esta classe de mulheres era a menos ponderosa na balança da opinião publica. Algumas d'estas aventuras faziam rir as mulheres distinctas por nascimento e por muitas outras qualidades que não lustravam muito o nascimento...

Luiz da Cunha lá foi entre ellas receber os applausos, e achou que a vereda nova, em que se lançára, levava mais depressa ao capitolio. O que elle queria era a reputação de conquistador, que principiava a declinar de seu pae, e justo era que não sahisse da familia.

O filho de Ricarda era jactancioso. Costumava, com os seus amigos, fixar o dia impreterivel de tal ou tal triumpho, e bebia com elles no _Isidro_ á saude da victima destinada.

Se acontecia acharem-se presentes os parentes da victima illustre, o impudente não calava o nome, nem respeitava as conveniencias do pudor, visto que os seus amigos o não respeitavam.

O «Ismael,» que as damas desdenhavam pela côr, se não fosse o terrivel sestro da denuncia, em fins de jantares, poderia enriquecer o seu cathalogo com muitas illustrações do sexo, que já n'esse tempo era fraco.

Mas a fatuidade indiscreta perdeu-o no conceito das menos pundonorosas. Pouco e pouco repellido, Luiz da Cunha aos vinte e cinco annos, era detestado, acolhido com desprêso em todas as casas, excepto na de José Bento de Magalhães e Castro, que, em 1837, era já visconde de Bacellar. Rosa Guilhermina foi a unica mulher que exerceu uma sombra de ascendente fraternal sobre o filho de Ricarda. Os seus rogos afastaram-no muitas vezes de abysmos, em que a sua queda seria mortal. Tinha sido ella quem o salvára de casar-se com a mulher que mais séria impressão lhe fizera, quando se viu arremessado com infamia d'entre tantas que elle pozera no pelourinho da ignominia.

Esta mulher era uma infeliz encontrada n'um primeiro andar da rua do Ouro: uma d'essas que vem, com os hombros nús e as tranças enfloradas, pedir-vos da janella com um aceno e um sorriso o preço do espectaculo a que se offerecem, por esse sorriso e aceno voluptuoso.

Luiz da Cunha sympathisára com a libertinagem da mulher que lhe ensinava cousas novas para o coração, não combalido de todo ainda pela podridão do vicio. As duas almas comprehenderam-se maravilhosamente, porque se encontraram na profundidade do mesmo charco. Luiz encantou-se d'esta mulher. Pediu-lhe o exclusivo da sua alma, e foi feliz na súpplica. Liberata, desde esse dia, foi d'elle, exclusivamente, como a filha que foge apaixonada do seio materno. Encontrou uma bem mobilisada aposentadoria, servida de criados, e da opulencia que os brilhantes de Ricarda, prodigalisados em ultimo recurso por João da Cunha, lhe permittiam. Aquelles brilhantes reservára-os elle, sem escrupulo, para patrimonio do filho da sua esquecida amante.

Envergonhado d'esta união torpe, João da Cunha admoestou o filho; e, quando esperava despertar-lhe o brio com os topicos d'uma sentimental censura aos seus rasos instinctos, Luiz respondeu-lhe que tencionava salvar Liberata da infamia, casando com ella.

O primeiro impeto de cólera paterna foi correr sobre o filho e soval-o a ponta-pés. Luiz estranhou a lisonja, e pôde muito sobre si para não receber o pae na ponta de um punhal.

Expulso de casa, recorreu á viscondessa de Bacellar, que lhe prometteu reconcilial-o com o pae, com tanto que elle despresasse essa mulher, que o arrastava com ella ao mesmo abysmo de perdição. Luiz prometteu não casar; mas despresal-a nunca. Se seu pae lhe negasse recursos, disse elle que seria ladrão para sustental-a, ou morreriam de fome, abraçados.

João da Cunha, sabendo este heroismo, reconheceu que seu filho era a vibora, que elle trouxera no coração, para o morder com o remorso expiador do seu crime, cujo saldo com a Providencia começava vinte e seis annos depois.

E aceitou a proposta. Continuou a dar-lhe recursos para uma dissipada grandeza com que a libertina se infatuava, soberba do seu dominio sobre o homem, que se não pejava de assentar-se, ao lado d'ella, na mesma sege e no mesmo camarote.

Dizia-se que Liberata era fiel ao fascinado moço. Amigos de João da Cunha tentaram vencêl-a com promessas, para darem ao desgraçado uma surpreza que o fizesse detestal-a.

Não o conseguiram. A necessidade não a forçava. O ouro servia-lhe prodigamente os mais exquisitos caprichos. O coração afizera-se-lhe áquelle caracter, e a pontualidade do amante não lhe deixava um instante vago para meditar uma traição.

O leitor de certo adivinhou já quem era a mulher que apeou, com Luiz da Cunha e Faro, da sege, á porta do theatro de S. Carlos. Agora, se a imaginação lhe não é escassa, afigure-a no camarote 15 da 2.ª ordem, e verá uma perfeita senhora, adestrada em salas, meneando garbosamente um leque, fitando com requebro airoso o oculo branco nas faces que se retrahem envergonhadas, e sorrindo com deslavada alegria ao amante, todo carinho e attenção para ouvir-lhe alguma obscenidade allusiva a qualquer das damas, que não ousam fixal-a de face. Liberata era o que devia ser.

Hoje é moda regenerar, em romances, estas mulheres. A imaginação, cansada de reduzir a virtude ao crime, trata de fecundar a virtude no alcouce.

Em quanto a mim, as Liberatas não se regeneram. A de Luiz da Cunha dançava lubricamente a cachucha, quando lhe fallavam em virtude.

III.

ASSUCENA.

Consta da FILHA DO ARCEDIAGO que a filha do memoravel Leonardo Taveira, arcediago de Barroso, houvera de legitimo consorcio com Augusto Leite, uma filha, chamada Assucena.

Quando Rosa Guilhermina contrahiu segundas nupcias com José Bento de Magalhães e Castro, tinha seis annos a creança.

O filho do retrozeiro não se affeiçoou á filha de sua mulher, com quanto a meiga menina o acarinhasse com meiguices, e lhe chamasse pae. Em pouco se conhecia a rude insensibilidade do padrasto. As menores travessuras de Assucena eram para elle o resultado do mimo demasiado que sua mãe lhe dava. A esperteza, que Rosa admirava em sua filha, dizia o senhor José Bento que era malicia; e, por entre dentes, resmungava que não seria ella quem levasse a agua ao seu moinho. Era uma das suas phrases favoritas este annexim, que o filho da senhora Anna Canastreira retivera na memoria, rebelde sempre para o imperativo do verbo _laudo_, como em tempo competente se disse.

Rosa doía-se da indifferença, ou, melhor, da antipathia de José Bento pela creança. Nunca lhe perguntou a causa d'esta ingratidão aos mimos de Assucena: é que não contava com a delicadeza de seu marido n'uma resposta. A coacção em que a tinha o caracter brusco do assassino do mestre de latim, a reserva nada familiar com que um ao outro se tratavam, collocava-os a distancia do que vulgarmente se diz--confidencias domesticas.

José Bento não tinha a rusticidade nem a doçura de indole de Antonio José da Silva, o desventurado esposo de Maria Elisa, tão desventurada como elle. (Já lá estão ambos!) Se aos dezoito annos, o aprendiz de loio annunciava uma bestialidade mythologica, a natureza, modificada pelo dinheiro, enxertára n'aquella cabeça, hermeticamente fechada, uma finura maliciosa. Á primeira vista, o senhor José Bento parecia um pensador, um homem experimentado, e até um presidente d'uma companhia de viação, ou orador gosmento de associações commerciaes, que, só muito depois, tiveram Ciceros em _patois_.

O capitalista era amigo de Rosa Guilhermina: não podemos duvidar que o era; mas o seu modo de ser amigo era excentrico. A approximação dos extremos confundira o pequeno espirito de José Bento com o grande espirito d'algum marido fatigado de caricias, anhelante de paixões incisivas, e incapaz de se amoldar ás formulas burguezas da tranquillidade domestica. O moço fidalgo, no primeiro anno de casado, foi o que seria no quadragesimo, se Rosa Guilhermina não morresse em 1849. Nunca lhe deu mostras de aborrecido, porque tambem nunca se mostrou enthusiasmado com a posse. Teve sempre a constancia imperturbavel dos felizes alarves. Nenhuma mulher valia mais que a sua, nem a sua valia mais que as outras.

Rosa Guilhermina não esperava que sua filha succedesse na herança do marido, nem, quatro annos depois de casada, tivera ainda um filho, nem depois o teve, que protegesse a sua irmã, habituando-se a consideral-a tal.

O seu pensamento foi ageital-a para tudo o que é trabalho, dotando-a com a educação, cultivando-lhe o espirito para que a formosura não fosse a unica prenda que podésse merecer-lhe um marido com patrimonio.

Em Lisboa, José Bento não se oppôz á entrada de Assucena n'um collegio. O excellente coração da menina, arrancado ao de sua mãe, comprehendeu, em tenra idade, que a sua posição no mundo dependia de si. Docil ás mestras, que lhe adoravam a angelica humildade, o trabalho, a oração, e o estudo fizeram-na um modelo entre todas as suas companheiras. A melancolia scismadora que, aos quatorze annos, a estremava dos folguedos da sua idade, era um vaticinio de muitas lagrimas que verteria sobre as flôres da mocidade, queimando n'essas o germen que nunca mais lhe desabrocharia outras.

Em 1838, Assucena tinha dezoito annos, e era ainda alumna do collegio para onde entrára aos dez. A viscondessa de Bacellar conseguira de seu marido a influencia e os meios para que ella entrasse nas commendadeiras, ordem meio monastica, meio profana, em que a vida retirada se suavisa com todas as magnificencias do luxo, e se approxima da sociedade sem conhecêl-a pelo ponto de contacto em que o coração se infecciona.

Antes de entrar nas commendadeiras, como secular, Assucena veio passar com sua mãe dous mezes.

Aos dezoito annos, estranhava o mais vulgar da sociedade. Lêra muito, e, só com sua mãe, dava ideia de não ter desaproveitado o tempo, nem enganado os mestres. Na presença de estranhos o seu acanhamento dava-lhe ares de idiota. Córava ás mais simples lisonjas á sua formosura, e folgava todas as vezes que as portas da sala se não abrissem a visitas. A presença dos hospedes privavam-na de expandir-se a sós com sua mãe que a beijava, como se faz a uma creança.

Assucena era trigueira como seu pae, e não podia chamar-se formosa, senão em verso. A formosura, que não é senão a harmonia rigorosa das fórmas, é muito rara. O que não é raro é a graça, a sympathia, o indisivel que vos encanta, sem vos dar tempo a estudar a irregularidade de um nariz, ou o defeito d'uma testa.

Engraçada e sympathica era, como nenhuma, a neta do arcediago. O sobr'olho cerrado castanho escuro, e o buço que lhe assombrava o labio superior, não fino, mas graciosamente arqueado, eram as feições mais distinctas depois dos olhos brandos e amortecidos, tão fóra do commum em rosto trigueiro. Gentil de corpo, alta como sua mãe, mais flexivel que ella, mais delicada de mão, ao longo da qual corria uma penugem que denunciava o braço delicioso, Assucena era a mulher para os sentidos e para o coração; para a voluptuosidade do amor animal, e para os arrobamentos do amor do espirito.

Luiz da Cunha e Faro não se recordava já de Assucena, quando a viu, surprendido, em casa da viscondessa.

--Quem é esta mulher?--perguntou elle ao ouvido da viscondessa.

--É minha filha.

--Sua filha! a menina que eu vi, ha bons nove annos?

--A mesma. Não o apresento, porque ella é muito acanhada, e dá de si uma triste ideia, quando a forçam a fallar.

--É galante senhora! Que olhos, e que sobrancelha! Aquellas pestanas são divinas! Tem um olhar de santa! E aquelle buço? Ha de perdoar-me, senhora viscondessa; mas a filha de v. ex.ª é capaz de me fazer doudo!

--Não zombe, senhor Luiz da Cunha. A minha Assucena não é capaz de endoudecer ninguem, e principalmente v. ex.ª, que não póde endoudecer, porque a demencia dá ideia do juizo anterior a ella...

--Bem a entendo, senhora viscondessa. Quer dizer que ninguem perde o que não tem... V. ex.ª não sabe o que eu sou capaz de sentir. Até hoje tenho usado o mau coração; o bom ainda não entrou em serviço. Vinte e seis annos não é tarde para que eu me regenere. Sonhei esta noite que era virtuoso, e que dava lições de moral no largo do Rocio a quem me queria ouvir. Depois, tornei a sonhar, e fazia milagres: puz uns dentes á baroneza de Lemos, que está alli mascando com as gengivas quatro phrases de açafetida a seu marido, e fui á beira do Tejo conversar com os peixinhos que saltaram ao Terreiro do Paço, passeando em sêcco para me darem honras de Santo Antonio.

--Comece com as suas impiedades, senhor Luiz da Cunha... Olhe que eu retiro-me d'aqui... Quando ha de perder o vicio da maledicencia? Que lhe importam os dentes da baroneza de Lemos?

--Tem v. ex.ª razão. Sou um grande malvado, mas permitta que eu corrija a sua accusação. Eu não disse que me importava com os dentes da baroneza, que é cousa que ella não tem. Eu sonhei que milagrosamente lhe dava duas ordens de dentes, e lh'os déra quasi todos mollares, porque me consta que ella gosta de tortas, em que os outros se dispensam. Se isto é perversidade, minha amiga, não sei o que é virtude. Deixemos a velha, e fallemos na juventude do nosso seculo. A senhora D. Assucena fica na sua companhia?

--Não, senhor. Vai entrar nas commendadeiras.

--Isso é incrivel! Pois v. ex.ª quer inutilisar aquella creatura, roubando-a á sociedade!! Isto é barbaro! Declaro que não consinto!

--É pena que v. ex.ª não consinta! Eis-ahi uma difficuldade que eu não tinha prevenido! O seu consentimento é uma formula indispensavel!

--Quer que eu lhe diga uma verdade? Estou recebendo uma impressão extraordinaria! Sinto por sua filha o que nunca senti! Será ella a redemptora d'esta alma que anda em penas ha onze annos? Parece-me que o amor é que me ha de salvar. Ora olhe, eu tenho imaginado que posso ainda ser feliz. V. ex.ª acredite que tenho sido muito muito desgraçado...

--Não o parece.