Chapter 14
--Se eu fosse outra, procurava-o na cadêa... Fui eu que o abandonei primeiro... quando o meu padrasto o pôz a ferros... Que me importava a mim a sociedade! Quem me vem consolar das torturas que me tem custado este abandono!?...
--Isto parece incrivel, meu Deus!--exclamava o padre, voltando a face dos olhos abrazados de Assucena.
--Não me fuja, senhor padre Madureira. O senhor não tem culpa nos meus infortunios. Ha de sempre lembrar-me que levou o dinheiro ao desgraçado, e que lhe deu um bocado de pão, quando elle disse que tinha fome... Ouça-me... Onde está Luiz?
--Não sei, senhora.
--Pois eu quero vêl-o para perdoar-lhe...
--O seu perdão não melhora os infortunios d'elle. Deus é que perdôa...
--Sim, sim, Deus...
Assucena fugira da sala impetuosamente bradando: «Deus! Deus!» Madureira seguiu-a, e encontrou-a no seu quarto de joelhos, com os labios collados no pavimento, diante do oratorio.
Levantou-a, e viu-lhe os olhos embaciados d'aquella nevoa cinzenta da gôta coral. Sentou-a ao pé de si, e disse-lhe com voz tremula de compuncção:
--Minha filha... Venha comigo para Lisboa...
--Deus me livre! Elle ha de aqui vir ter.
--Luiz da Cunha?
--Sim.
--Viu-o alguma vez n'estes sitios?--perguntou o padre suspeitoso.
--Vi... passou, ha um anno, na estrada. Estava eu no portão pela parte de dentro. Espreitei, quando ouvi o tropel d'um cavallo. Era elle.
--Fallou-lhe?
--Não; nem elle podia vêr-me... Tem as barbas até á cintura; vestia uma jaqueta de pelles, e ia tão triste, tão macilento!... Teria elle fome?
--E se elle lhe pedisse de comer?
--Dava-lhe tudo quanto tenho! Para que quero eu esta casa, esta quinta, estas cadeiras, esta camiza, se eu morro muito cêdo?! Que venha, e eu dou-lhe tudo! Não quero que o persigam, já disse! Hei de accusar diante de Deus quem o matar!
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Padre Madureira viveu na quinta de Caldellas alguns mezes. Quando se retirou, deixou Assucena aos cuidados de um egresso, vindo de Lisboa por escolha d'elle. Era irremediavel a demencia. Assucena recusava receber facultativos, e irritava-se em frenesis quando lhe pediam que se deixasse visitar por um medico. Se fugia á vigilancia do egresso, ia ao portão fitar o ouvido; ouvindo tropel de cavallo, espreitava; desenganada da sua louca esperança, sentava-se na pedra, chorando com mavioso mimo, com infantil resentimento, até que o seu guarda, inventando promessas, a conduzia a casa.
E nunca a tão bella alma d'aquella mulher resurgiu das trevas!
Aos longos dias da desgraça seguiu-se a longa noite da demencia!
XIX.
UM VEIO NOVO A EXPLORAR.
E Luiz da Cunha?
Deixára Liberata na sua ultima paragem, e fôra ao concelho de Ribeira de Pena exercer o seu officio. Os lucros de dois annos de contrabando perdêra-os na fatal tomadia. Estava, outra vez, pobre: faltava-lhe a coragem animadora de Liberata; cahiu n'um estupôr moral, em que o pensamento do suicidio muitas vezes lhe esvoaçou sobre o cabo do punhal, sem poder entrar com elle no coração. Luiz da Cunha não podia aniquilar-se.
Os jornaes gritaram contra o empregado publico, de novo contrabandista. O ministro, que já não era o mesmo que o despachára, demittiu-o. Demittido, desencadearam-se contra elle as malevolencias do concelho, onde nunca praticara erro de officio, que não dirigia, nem extorsão, que não precisava. Retirou-se para o Porto, onde chegou na memoravel noite da resistencia á contra-revolução de 9 de Outubro de 1846. Associou-se ao motim popular que prendêra o duque da Terceira. Deu morras ao ministerio reaccionario, indicando-se victima dos Cabraes.
Entrou no serviço da junta governativa, foi tenente quartel mestre d'um batalhão de artistas, alcançou o despacho de director d'uma alfandega da raia, e distingiu-se com bravura em Torres Vedras, e Val-Passos.
Quando os hespanhoes interventores entraram em Valença, o tenente quartel mestre arrostou com impotente heroismo o collosso. Metteu-se debaixo das balas, e as balas, cruzando-se-lhe em redor, respeitaram aquelle homem, que parecia ter o sêllo invulneravel do primeiro assassino, a prerogativa de Caim.
Desarmada a junta suprema, Luiz da Cunha ficou no Porto, vivendo de pequenos emprestimos que alguns amigos politicos lhe faziam, e de pequenas esmolas que algum membro da junta patrioticamente lhe dava. Assim viveu até 1850, na agua furtada de uma estalagem da rua de S. Sebastião, d'onde foi expulso porque não pagava. Casualmente, deparou um seu conhecido camarada que servira a junta, como sargento de cavallaria. Convidado por elle, foi ser seu hospede ahi para os sitios do Marco de Canavezes. Luiz da Cunha conheceu que o seu hospedeiro amigo era um homem tambem mysterioso. O ex-sargento de cavallaria, nos primeiros dias, teve a delicadeza de não catechisar o seu hospede aos principios da communidade sem as theorias socialistas. Fartava-o regaladamente á sua mesa; levava-o de patuscada a casa da sua amazia; punha á sua disposição uma rica egua de raça para passeios, e ensinava-o a matar perdizes com finissima pontaria.
Uma noite acabavam de cear, e Luiz da Cunha historiou o mais sentimentalmente que podia a morte da heroica Liberata. José do Taboado (era a graça do hospitaleiro), enthusiasta pela gloria, propôz uma ovação á memoria de Liberata, a qual, como todas, foi freneticamente recebida pela senhora Joaquina Vêsga, intima do proponente, e bem aceita ao hospede enternecido.
--Meu caro Neves!--disse, depois, José do Taboado--acabemos com isto! Queres ser dos meus?
--Se quero ser dos teus?
--Franqueza, e viva amizade! Sabes quem sou?
--Sei que és um excellente amigo...
--Dos meus amigos; mas inimigo dos ricos. Eu sou chefe d'uma quadrilha de salteadores. Tira o chapéo na minha presença!
--Cá estou descoberto...--disse Luiz, sorrindo-se, e descobrindo-se.
--Agora cobre-te. Enche esses copos, Joaquina... Á tua saude, Neves! Á saude do meu chefe de estado maior! Aceitas?
--Aceito!
--Toca!--E deram-se as mãos com vertiginoso transporte.
--Serás rico em pouco tempo...--continuou o chefe--para que diabo queres tu as excellentes forças que tens? Como é que cumpres o protesto de vingança que fizeste, quando te mataram Liberata, porque roubavas a fazenda nacional?
--Tens razão..............................................................
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Dias depois os jornaes do Porto pediam força para debellar uma poderosa quadrilha de ladrões que assaltavam as casas famosas em dinheiro. Citaram a morte d'uma senhora, rica proprietaria do Douro; a de um padre muito rico das circumvisinhanças de Villa Real; e varios assaltos em fórma a casas inutilmente defendidas. Um destacamento de infanteria dera caça aos salteadores, que resistiram com intrepidez admiravel. Contava-se o heroismo do chefe, que saltava vallados com um ferido no arção da sella. O ferido era Luiz da Cunha.
Não obstante a escaramuça, a cohorte estendia por longe o terror. Proprietarios isolados refugiavam-se nas povoações, e as povoações velavam armadas com os olhos fixos nas fogueiras que os ladrões acendiam nas quebradas das serras. Ninguem, porém, ousava desalojal-os das suas tendas. As almenaras ardiam até ser dia; as roldas e sobre-roldas velavam durante a noite, e Luiz da Cunha, abraçado á sua clavina de dous cannos, dormia tranquillo com a face sobre os apparelhos da sua egua fiel.
José do Taboado não mentira. O filho de João da Cunha e Faro tinha ouro, muito ouro, podia retirar-se com um passadio honesto, e adquirir até uma reputação honrada. O seu pensamento era passar á Africa em 1853, com o louvavel intuito de commerciar em generos licitos com a metropole. José do Taboado promettêra-lhe acompanhal-o, e, para isso, liquidava os ultimos saldos com alguns proprietarios, incursos na condemnação de Proudhon.
O filho de Ricarda tinha quarenta e um annos. Julgal-o-iam de cincoenta; mas os cabellos brancos não tinham nada com o vigor feroz da alma. O seu fito era voltar a Lisboa, rico, alardeando a passada infamia, com tanto que arrastasse com correntes de ouro após si o respeito publico. Desejava lançar aos pés de Assucena esse dinheiro que ella lhe emprestára. Desejava levantar no cemiterio publico um faustuoso monumento a Liberata, como insulto ás mulheres do «grande mundo.» Quatro annos de fortuna, e o seu sonho seria visto á luz da realidade! A sua fama teria alguma cousa de horrivel heroismo. O seu nome, partido o braço vingativo, seria levado aos vindouros como a tradicção d'um meteoro que abrira um rasto de fogo entre os homens.
José do Taboado, que não se alteava ás concepções arrojadas do camarada, admirava-o como um grande homem, gostava de ouvil-o, e dizia que a sua linguagem não parecia d'um simples escrivão do juizo ordinario. Levava-o a casa de cavalheiros de nome, que hospedavam affavelmente o salteador (não importa explicar o disparate), e os cavalheiros maravilhavam-se do estylo puritano do supposto Neves, e mais ainda da vasta noticia que elle dava de paizes estrangeiros, dizendo, ao mesmo tempo, que nunca os vira.
Encontraram-se uma noite em casa d'um fidalgo de Basto, onde concorreram outros, discutindo linhagens. Excepto os presentes, que eram todos representantes de illustres governadores das possessões portuguezas, todos os outros eram netos de almocreves, de lavradores, e até de ciganos, afóra os eivados de sangue judeu, que eram muitos.
Um dos detractores citou, como em distracção, seu tio João da Cunha e Faro. Luiz, agitado por tal nome, prendeu astutamente o incidente do parentesco á conversação, dizendo que conhecêra João da Cunha e Faro, em Lisboa, onde fôra caixeiro em 1838. Perguntou se morrêra.
--Morreu doudo--respondeu o senhor Bernardo de Malafaia e Alvim de Castro e Leite Pereira de Menezes e Sá Corrêa de Sepulveda e Cunha e Faro &c. &c. &c.--Morreu doudo. Foi o malvado bastardo que o matou.
--O bastardo?!--atalhou Luiz.
--Sim: o filho d'uma mulata que elle roubou em Coimbra...
--Sabes se já morreu esse homem?--perguntou um senhor com quinze appellidos.
--Não sei; mas é de crêr que sim. Ainda vos não contei a passagem dos ossos?
--Já; mas conta-a ao amigo Neves, que é romantica.
--Pois lá vai. Haverá sete annos que eu fui a Lisboa e hospedei-me em casa de meu primo Ignacio da Cunha, que succedeu no vinculo de meu tio João da Cunha. Era no verão, e resolvemos passar alguns dias n'uma bonita casa de campo que meu primo tem em Bemfica. Foram comnosco o primo Alvaro de Castro, o primo conde de Santa Justa, o primo D. Pedro de Malafaia, o primo D. Antonio de Alvim, o tio Monsenhor Menezes, &c. &c. &c. Estavamos sentados debaixo d'um caramanchão, e disse o primo João da Cunha, apontando para a álea das amoreiras: «Alli foi que morreu a amante de meu tio João.» Contou-nos que um velho criado, morto alguns mezes antes, lhe contára tudo, e lhe dissera o sitio onde fôra enterrado o marido e assassino d'essa tal Ricarda, porque os criados deram cabo d'elle.
Quando ouvimos isto, tivemos, todos á uma, desejos de procurar os ossos do tal marido. No outro dia, viemos cavar no sitio, e com effeito demos com os ossos, e o primo D. Antonio de Alvim, mexendo na terra, encontrou um riquissimo annel de brilhantes com uma enorme esmeralda. Procuramos mais, e achamos a folha de um punhal com as letras que diziam «Rio de Janeiro.» Não topamos mais nada. O que eu posso dizer-lhe, senhor Neves, é que o annel foi vendido por duzentas moedas, por signal que o primo Ignacio da Cunha as perdeu todas contra um valete, em casa do primo D. José de Castro e Alvim.
--É uma interessante historia!--disse Luiz da Cunha em abstracta meditação--E a tal brazileira onde foi enterrada?
--Na igreja, é o que disse o tal criado.
--E o filho d'essa brazileira era o tal bastardo que matou o pae!
--Justamente.
--E não acha que o pae foi bem morto pelo filho?
--Homem! essa é de cabo de esquadra!
--Se o tio de v. exc.ª, o senhor João da Cunha, foi causa da morte da mulher d'esse homem, não era justo que o filho de tamanho crime fosse o verdugo do pae, a viva reminiscencia d'esses dous cadaveres, o aguilhão constante de remorso que o enlouqueceu?
--O nosso amigo está muito rasoavel nos seus discursos... Essas doutrinas são de bons tempos...
--E o caso é que elle diz bem!--atalhou um fidalgo depondo as cartas do voltarete--o filho foi o instrumento com que a Providencia castigou o pae.
--Então, n'esse caso, muita gente pagou innocentemente--replicou o senhor Bernardo de Malafaia &c.--O tal bastardo foi o açoute da humanidade. Perdeu umas poucas de mulheres, matou outras, esteve prêso nas Antilhas por pirata... fez o diabo.
--E, por fim, é natural que se suicidasse...--disse Luiz da Cunha.
--É o que elle devia ter feito ha muito--concluiu o expositor da scena dos ossos.
O filho de Ricarda projectou ajuntar ás suas futuras obras um monumento a sua mãe.
CONCLUSÃO.
São 24 de Setembro de 1853.
É meia noite.
Assucena pergunta ao egresso inseparavel:
--Que barulho é esse que fazem lá dentro?!
--Já disse a v. exc.ª que os caseiros, sabendo que uma quadrilha de ladrões apparecêra ao anoitecer na freguezia de S. Vicente, recearam que esta casa seja atacada, porque dizem lá por fóra que vive aqui uma senhora muito rica.
--Eu muito rica! Já o fui... agora não tenho nada...
--Pois sim; mas os ladrões não se persuadem d'isso, e quem sabe se virão cá? Os caseiros, á cautella, chamaram gente, e tratam de se pôr em defeza no caso que elles ataquem. V. ex.ª ainda que ouça tiros não tenha medo.
--Mas de que serve matal-os?! Se quer, eu vou dizer-lhes que não tenho nada, e elles vão-se embora.
--As cousas não correm assim, minha senhora. Salteadores não acreditam na palavra das damas. O melhor é defender-se cada qual, e eu estou certo que elles, em lhe zunindo o chumbo pelos ouvidos, vão prégar a outra freguezia.
O ruido de passos e vozes augmentou na sala. O egresso chamou a criada para ao pé de Assucena, e foi juntar-se ao povo.
--Que temos, rapazes?--perguntou elle.
--Os homens ahi estão.
--Quem os viu?
--Nós. Ouvimos estropear cavallos, e depois rugiu a ramada do portão, e vimos um homem, ou o diabo por elle, que saltava do muro para dentro. Depois buliram na tranca e abriu-se a porta.... Quél-os vêr?... Olhe... senhor frei Antonio.... olhe aqui por entre estas faias.... Elles lá vem.... Ó rapazes, aqui é que se conhecem os homens! Quando eu disser «fogo» é fazer de conta que se acaba aqui o mundo... Deixa-os vir... Olha... quatro já eu lobrigo... Alli!... alli não se perde um quarto.... Deixa-os chegar mais.... É agora!... Fogo!
Despejaram-se doze espingardas ao mesmo tempo; e á detonação succedêra uma infernal algazarra dos defensores.
--Leva arriba, rapazes!--gritava o regedor aos seus--Cerca, tem mão, por esse lado...
E desceram ao páteo, animados pelo recuar dos salteadores. A sineta da capella dava áquella infernal orchestra de berros e tiros um tiple horroroso. Os ladrões recuavam, sustentando o fogo: accommettiam com denodo, um momento; mas a população que os cercava não cedia aos impetos da cohorte, militarmente, organisada em batalha á voz do chefe.
A sineta chamava chusmas de povo que affluiam disparando as armas. A quadrilha conheceu o perigo, e retirou accelerada; mas nem todos retiraram: um tinha cahido, e não se erguêra mais. Em redor d'este cadaver agglomerou-se a multidão. Approximaram-lhe da cara um archote de palha, e viram-lhe uma fenda de bala sobre a orelha direita.
Não era menos infernal o alarido do triumpho! Pegaram no cadaver e levaram-no para debaixo das janellas, depositando-o sobre um banco de pedra. O egresso veio ao quinteiro, viu-lhe a cara, e murmurou!...
--Pobre homem! morreu sem sacramentos!... Oxalá que tivesse um momento de contrição! E não está mal trajado... Deixem-no aqui ficar até amanhã, porque é necessario que o administrador o mande levantar...
Entrou no quarto de Assucena que batia os dentes como n'um tremor de catalepsia.
--Não tenha medo, minha senhora.
--Mataram alguem?
--Ficou um; mas lá vão os outros, que eram bastantes.
--Rezemos por alma d'esse que morreu...
--Pois sim, rezemos--disse o egresso, ajoelhando ao pé d'ella.
--Poderá salvar-se?--disse ella, interrompendo a oração.
--Deus é pae de misericordia.
--Quem sabe se elle roubava por ter fome?...Vá vêr se elle não estará morto... poderemos ainda cural-o.
--Aquelle está bem morto, minha senhora.
--Então rezemos: _Padre nosso, que estaes nos ceos, sanctificado seja o vosso nome_... Não posso... Reze, senhor padre Joaquim... Eu estou muito afflicta... Quero tomar ar... Anna... quero-me vestir... Traz-me o meu vestido de seda preta de manga curta; os meus canhões de velludo preto; o meu lenço de ramos amarellos; a minha saia de renda; o meu chale de cazemira vermelho...
--Está com o accesso; não traga nada--murmurou o padre ao ouvido da criada.
--Não ouves, Anna? Então! Tambem tu me desobedeces! Ora vamos!
--Vá, vá dar-lhe essas cousas--tornou o egresso, e sahira para que ella se vestisse.
Assucena collocou-se diante do espelho.
--Como são grandes estes cabellos!...--disse ella, puxando dois graciosos pinceis de cabellos, que lhe sahiam dos angulos da maxilla inferior. Procurou anciosa uma tesoura, e aparou-os.
--Agora sim--disse ella com risonha satisfação--Assim estou mais bella para o noivado.
A criada ajudou-a a vestir. Vestida, olhou-se outra vez ao espelho, enfeitando na cabeça desgrenhada o lenço dos florões amarellos, e puxando para a garganta a grade preta do afogado no vestido.
--Agora, vamos.
--Onde, minha querida senhora?!
--Vamos passear no jardim... Quero esperal-o.
--Esperal-o... a quem?
--És tola! Pois não sabes que Luiz da Cunha vem receber-me esta noite?
--Oh minha Mãe Santissima, compadecei-vos d'ella!
--Que estás a dizer? Vens, ou vou só!?
O egresso entrou, chamando por Anna.
--Que é?! Onde vai?!--perguntou elle a Assucena espavorida.
--Vou esperal-o.
--Não sahirá d'aqui... Sente-se n'esta cadeira.
--Não quero! Vou sósinha, sem medo nenhum. O meu Luiz é valente...
--É melhor acompanhal-a....--murmurou o padre.
E sahiram pela porta do jardim.
--Que linda noite!--disse ella, saltando entre os buxos.
--Está muito fria a noite, senhora D. Assucena.
--Fria! Ora essa! Calor tenho eu de mais no coração! Quantos annos tenho eu? Dezoito... Queriam que eu tornasse para as Commendadeiras! Isso sim!... Quem conheceu uma vez Luiz da Cunha, nunca mais o esquece... morre por elle... Sou sua mulher... Jurou-m'o nos braços d'elle quando eu fugia.... Porque estou eu aqui? Prenderam-me... fizeram bem! O amor violentado vence ou mata. Eu me desforrarei em risos de esposa das lagrimas que tenho chorado n'este desterro... Elle não tarda, e depois fujam os meus inimigos! Sim, fujam, que o meu esposo é muito valente!
--Recolha-se, minha senhora.
--Recolher-me?! ás Commendadeiras?
--Ao seu quarto...
--Não quero.... Deixem-me respirar.... Vamos ao portão esperal-o.
O egresso seguiu-a.
Ao passarem pelo quinteiro, onde estava o cadaver, com a fogueira do costume ao lado, Assucena perguntou:
--Que é aquillo?!
--É o corpo do ladrão que morreu--disse o padre, querendo afastal-a.
--Quero vêl-o... coitadinho!
--Não veja, senhora D. Assucena... A vista não é agradavel.
--Quero vêl-o... não tenho medo aos mortos...
E forçou a desprendêl-a o braço do padre. Levantou um tição da fogueira, approximou o clarão azulado da face do cadaver,... soltou um grito que se não descreve, nem se imagina, deixou cahir o lume, correu n'um impeto vertiginoso, com as mãos agarradas á cabeça pela quinta abaixo, na ladeira que conduzia ao rio Homem.
É ocioso dizer-vos de quem era o cadaver. O primeiro momento de repouso para Luiz da Cunha principiava alli. Foi abençoada a bala que o salvou do patibulo.
O egresso não podia alcançar Assucena na carreira... Gritou por soccorro, por ella, por Deus, por Maria Santissima. Tinha-a já perdido de vista, quando ouvia o chofre d'um corpo que baqueava na agua.
No _Braz Tizana_ de 24 de Setembro de 1853 lê-se o seguinte:
«_Um cadaver._--No rio Homem, acima da ponte de Caldellas, appareceu o cadaver de uma mulher de trinta e seis a quarenta annos; tinha vestido de sêda preta, e parece ser pessoa de consideração.»
No mesmo jornal de 28 do mesmo mez e anno lê-se o seguinte:
«_Signaes d'um cadaver._--A mulher que appareceu morta acima da ponte de Caldellas, tinha os signaes seguintes: idade trinta e seis a quarenta annos; cabello e sobre-olho castanho-escuro; bôca e nariz regular; rosto redondo; labios grossos; e no queixo de uma e de outra parte alguns cabellos que mostravam ter sido aparados; um pequeno buço; vestido de seda preta com pouco uso; manga curta; canhões de velludo preto; grade preta no afogado do mesmo vestido, e o corpo forrado de panninho entrançado, côr de flôr de alecrim e vermelho, com tres espartilhos no peito; chale de cachemira vermelho em meio uso, com franja em volta, barra, e ramos pretos; na cabeça um lenço grande azul, com ramos amarellos, de algodão, e barra da mesma côr; saia de morim branco em bom uso com uma estreita renda em volta; saiote de baieta de seda branca com cinco pannos quasi novo, e um pente a fingir tartaruga rendilhado e moderno; camisa de panninho com manga curta. Ainda se não sabe quem seja.»
Lê-se no _Portuense_ de 10 de Novembro de 1853:
«Ha dois mezes annunciaram os jornaes do Porto a apparição de um cadaver de uma senhora n'um dos rios de Braga ou Guimarães. Tornaram os jornaes a fallar n'este cadaver dando as mais minuciosas informações de vestidos, de physionomia, de idade, e até de conjecturas sobre o genero de morte que soffreria a supposta senhora. Seguiu-se a isto um profundo silencio e nem ao menos respirou a noticia de menor acto administrativo na investigação d'este acontecimento. Póde ser que se désse um drama muito mysterioso, com peripecias muito horriveis, mas o publico tem direito a perguntar se a senhora ou mulher foi assassinada ou se se suicidou?»
A resposta ao _Portuense_ é um livro.
FIM
Indice
I.--UM BERÇO BORRIFADO DE SANGUE. II.--O FRUCTO DA SEMENTE AMALDIÇOADA. III.--ASSUCENA. IV.--CONTAGIO. V.--UM ANJO CAHIDO. VI.--ANJO CAHIDO, MAS AINDA ANJO. VII.--PERDIDO SEM REDEMPÇÃO VIII.--PROVIDENCIA OU ACASO? IX.--HERANÇA DE VIRTUDE E OURO. X.--COMO OS ANJOS SE VINGAM. XI.--SÃO MUITOS OS LAZAROS; MAS UM SÓ O CHRISTO. XII.--FASCINAÇÃO DO ABYSMO. XIII.--EXPLOSÃO DA INFAMIA REPRESADA. XIV.--CAVAR PARA OS OUTROS A SEPULTURA, E PARA SI O INFERNO. XV.--LOGICA DO INFORTUNIO. XVI.--TENHO FOME! ESTOU HA TRES DIAS SEM PÃO! XVII.--AS PRIMEIRAS E ULTIMAS LAGRIMAS DE LUIZ DA CUNHA. XVIII.--A LUZ DO AMOR NAS TREVAS DA DEMENCIA. XIX.--UM VEIO NOVO A EXPLORAR. CONCLUSÃO.
End of Project Gutenberg's A Neta do Arcediago, by Camilo Castelo Branco